sábado, junho 11, 2016

Física


Opinião

Almoçando no Marxim

João Pereira Coutinho
Centro de Budapeste. O táxi para, eu entro no Marxim e exclamo: "Bom dia, camaradas!".

Ninguém responde e alguns dos presentes sussurram preocupações clínicas sobre a minha sanidade. Caminho pelo espaço –uma espécie de cave transformada em santuário de nostalgias comunistas. Fotos de Lênin nas paredes. E de Stálin. E de líderes húngaros que desconheço.

As mesas, toscas e metálicas, estão separadas por arame farpado. Sento-me ao fundo e um rapaz que nasceu depois do debacle aproxima-se com o cardápio. "Aconselha alguma coisa?" "Experimente as pizzas", diz ele. Agradeço e vou farejando as opções.

Existe a pizza Gulag (para quem gosta de abacaxi). Peço uma Outubro Vermelho porque sempre respeitei as tradições (e, além disso, tenho uma queda por sardinhas).

Aguardo. Turistas entram e riem. Um casal inglês, deslumbrado com uma pintura de Lênin em cuecas, pergunta-me se posso imortalizar o momento. Acedo, dou indicações cênicas ("um pouco mais para a direita") e disparo. Os três ficaram lindos –ele, ela e o velho Vladimir.

De volta à mesa, não resisto à pergunta inevitável: seria possível um restaurante do gênero em Berlim sobre o Terceiro Reich?

As paredes cobertas por fotos de Hitler ou Goebbels. Pizzas celebratórias –a pizza Auschwitz, a Mein Kampf, quem sabe uma pizza Anne Frank. Haveria turistas? Haveria fotos? Não creio.

Passaram 25 anos do colapso do comunismo. Os crimes da ideologia são conhecidos e reconhecidos por qualquer pessoa sem atraso mental.

Mas, 25 anos passados, o nazismo é o mal supremo –e o comunismo é uma atração turística. Explicações?

Conheço as clássicas e, no essencial, concordo com Stéphane Courtois no prefácio (excelente) para "O Livro Negro do Comunismo". O nazismo matou 25 milhões de pessoas, interna ou externamente. O comunismo multiplicou essa cifra por quatro (no mínimo). Aliás, para ficarmos nas estatísticas, as fomes promovidas por Stálin entre 1932 e 1933 mataram 6 milhões de ucranianos –o mesmo que o Holocausto.

Tudo isso parece dissipar-se no ar do tempo. O fato de os soviéticos terem saído vencedores da Segunda Guerra, ostentando a medalha do "antifascismo", é com certeza parte da sua "superioridade" (apesar do pacto de não agressão entre Molotov e Ribbentrop em 1939).

Mas a minha concordância com Stéphane Courtois está sobretudo no desprezo, voluntário ou não, com que o comunismo foi tratado pela cultura erudita ou popular.

Somos capazes de citar dez ou 20 filmes sobre o Holocausto; temos dificuldades em fazer o mesmo sobre a barbárie do Gulag. Nas nossas bibliotecas, temos Primo Levi ou o diário da citada Anne Frank. Mas quem, hoje, conhece os romances de Vassili Grossman? Onde está um Spielberg ou um Polanski para os filmar?

Sem falar de outras latitudes, como os milhões assassinados na Ásia, na África, na Europa Oriental –e que não nos parecem comover tanto como os ocidentais, nossos vizinhos, que marcharam para as câmaras de gás. Proximidade é compaixão. Distância é indiferença.

Noite em Budapeste. Janto com um colega universitário húngaro e conto-lhe as aventuras "marxistas" do dia. Ele concorda com as minhas meditações teóricas, mas depois acrescenta algumas considerações domésticas.

Em 1956, quando os húngaros se revoltaram contra Moscou, amigos e familiares foram presos. Os pais fugiram a tempo para Paris. Regressaram só em 1986. "Ainda durante o regime?", pergunto, surpreso.

Ele entende o pasmo e explica que, nos últimos anos do governo de János Kádár, o comunismo era uma anedota que ninguém levava mais a sério. "Nem sequer os comunistas."

Por isso a transição para a democracia foi tão suave como o movimento das águas do Danúbio que corre à nossa frente. E por isso os comunistas de ontem passaram tranquilamente para o capitalismo de hoje.

Repito: proximidade é compaixão; distância é indiferença; e, se calhar, o comediante Steve Allen tinha razão quando dizia que a essência do humor é tragédia mais tempo. Se a revolta húngara tivesse vingado em 1956, o Marxim seria impensável. Em 2016, o que começou em horror terminou em farsa.

Um restaurante do gênero em Berlim? Quem sabe? Se o regime nazista, destroçado em 1945 por uma Europa em chamas, tivesse expirado naturalmente em 1989, talvez uma pizza Anne Frank fosse perfeitamente comestível por turistas alienados. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 11 / 06 / 2016

O Globo
"Temer desiste de desvincular benefícios do salário mínimo"

Exigência de 65 anos para se aposentar valerá também para servidor

Programa assistencial Loas seria concedido apenas para quem tem mais de 70 anos de idade; proposta inclui ainda a redução à metade do valor de pensões, mais 10% por dependente

O governo do presidente interino, Michel Temer, vai deixar de fora da proposta de reforma da Previdência Social temas difíceis de serem aprovados no Congresso, como a desvinculação dos benefícios do salário mínimo. Mas pretende fixar idade mínima para a aposentadoria em 65 anos, inclusive para servidores públicos, que hoje podem se aposentar aos 55 (mulheres) e 60 (homens). Haverá regras de transição. E as pensões devem ser reduzidas à metade, mais 10% por dependente, informam GERALDA DOCA e MARTHA BECK. Outra medida prevista é elevar a idade mínima do Loas de 65 para 70 anos.

Folha de S.Paulo
"Janot denuncia Cunha pela 3ª vez e nega ser justiceiro"

Procurador rebate críticas após vazamento de pedidos de prisão de líderes do PMDB

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ofereceu ao Supremo Tribunal Federal a terceira denúncia na Lava Jato contra o presidente da Câmara afastado, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O peemedebista recebeu propinas para liberar verbas federais, dizem delatores. O ministro Teori Zavascki, do STF, liberou para julgamento a segunda ação contra o deputado, acusado de ter contas na Suíça abastecidas pelo petrolão. Cunha nega ter recebido recursos ilegais. A corte deve decidir no dia 23 se aceita a denúncia. Ele já é réu em outro processo. Cunha e outros três líderes do PMDB (Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney) tiveram prisão pedida por Janot, sob acusação de atuarem para obstruir investigações. Os quatro negaram ter cometido crimes. Presidente do Senado, Renan falou em excessos na condução do caso. Já ministros do STF criticaram o vazamento dos pedidos antes de uma decisão. Em discurso, Janot negou que os tenha vazado para pressionar a corte. Disse não ser justiceiro nem ter “transgressores preferidos”. 
 
O Estado de S.Paulo
"Janot pede ao Supremo que envie caso de Lula a Moro"

Denúncia envolve Delcídio e suposta tentativa de comprar silêncio de Cerveró

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu ao ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, que uma denúncia contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja remetida ao juiz Sérgio Moro, na primeira instância. Ocaso se refere a suposta tentativa de comprar o silêncio do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró e também inclui o ex-senador Delcídio Amaral (sem partido-MS), seu assessor, Diogo Ferreira, o advogado Edson Ribeiro, o pecuarista José Carlos Bumlai, o filho dele, Maurício Bumlai, e o banqueiro André Esteves. Na denúncia, Delcídio era a única pessoa com foro privilegiado que acabava por manter os demais no STF. Como foi cassado, perdeu a prerrogativa.Há outras investigações envolvendo Lula no STF, como a do sítio em Atibaia e a do tríplex no Guarujá. Em nota, Lula disse que informou ao Ministério Público que as afirmações de Delcídio sobre o caso são falsas e já respondeu ao Supremo..        
           

sexta-feira, junho 10, 2016

Irkut-MC-21


Coluna do Celsinho

Quatro centos

Celso de Almeida Jr.

Pois é...

Hoje, completo quatrocentos textos consecutivos no Ubatuba Víbora, às sextas-feiras.

Quase oito anos.

Poxa vida!

Quanta coisa aconteceu nesse tempo!

As que mais me tocaram, publiquei aqui, sem maiores pretensões.

Apenas registros de meu ponto de vista para o leitor refletir ou criticar.

É boa a sensação de ser ouvido.

Melhor ainda é descobrir alguém que dedicou algum tempinho para pensar sobre o que escrevi.

A estes agradeço - sempre que posso - a especial atenção.

Convido, também, para embarcar rumo ao futuro.

Curioso, né?

Terei sorte e saúde para alcançar o quinto cento?

O que enfrentarei nessa nova caminhada?

Impossivel responder.

Posso, porém, prometer:

Para o prezado leitor e a querida leitora continuarei, entusiasmado, juntando letrinhas.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

Teto de pedra

Alexandre Schwartsman
Retomando o tema do teto para as despesas federais, principal sugestão de política econômica do atual governo, não é difícil entender a motivação para a proposta. Como notado por muitos, mas esplendidamente detalhado por Marcos Lisboa e Samuel Pessôa em contribuição recente, os gastos têm crescido 6% ao ano acima da inflação nos últimos 25 anos, o dobro do crescimento do PIB no período.

Qualquer pessoa com um mínimo de formação em aritmética (o que exclui, óbvio, todos keynesianos de quermesse) consegue compreender que isto é insustentável. Enquanto a carga tributária cresceu, seja pelo aumento de impostos, seja pela maior formalização da economia, foi possível fingir que o problema não existia ("despesa corrente é vida", proclamava a ministra da Casa Civil em 2005), apesar dos alertas em contrário. A partir de 2011, porém, a realidade se impôs.

O teto para as despesas (à parte os problemas apontados em minha coluna anterior ) implicaria reversão desta trajetória. Desde que a economia cresça, as despesas se reduziriam face ao PIB, enquanto as receitas se expandiriam mais ou menos em linha com este, levando à recuperação das contas públicas ao longo do tempo.

Uma conta simples mostra que, mesmo com crescimento de 2% ao ano, ritmo nada impressionante, ao fim de 4-5 anos as despesas encolheriam algo como 2% do PIB. Caso a economia se expanda 3% ao ano, a queda se tornaria um tanto mais expressiva, da ordem de 2,5% do PIB no mesmo horizonte. Seria, face ao desastre recente, um desenvolvimento para ser saudado de pé, com hino nacional, hasteamento de bandeira e, se possível, fogos de artifício.

Isto dito (e sou, claro, favorável à medida), me questiono se seria também o caso de inscrever o teto de despesas na Constituição. Sei bem que, do ponto de vista jurídico, não há alternativa: se fosse criado, por exemplo, por lei ordinária (ou mesmo complementar), esse mecanismo não teria força para se contrapor à expansão persistente do gasto, decorrente do texto constitucional.

No entanto, seguimos no sentido de tornar nossas regras cada vez mais rígidas. Em vez de dar mais graus de liberdade à política econômica, trocaríamos uma camisa de força, que eu acredito problemática, por outra, que julgo acertada, mas, de todo modo, camisas de força em ambos os casos.

Há, é bom dizer, situações em que camisas de força são a melhor alternativa (e não me refiro apenas ao tratamento reservado aos expoentes do keynesianismo de quermesse). Talvez nas atuais circunstâncias seja mesmo o mais apropriado a fazer, mas será que continuaria adequado, digamos, dez anos à frente?

Grande parte de nossos problemas fiscais decorre precisamente de talhar em pedra regras com base numa visão míope de questões pertinentes num certo momento, mas que deixariam de sê-lo depois. Prioridades em 1988, quando mais de um terço da população tinha menos do que 14 anos, e apenas 2%, mais do que 70, são diferentes de agora, quando os menores de 14 representam menos de um quarto da população e a proporção de idosos dobrou para 4%.

Hoje a solução pragmática é o teto constitucional, mas algo me diz que, se adotado, teremos que voltar ao tema num futuro não tão distante. A remoção de todas as vinculações da Constituição deveria ser a nova prioridade. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 10 / 06 / 2016

O Globo
"Álibi de Cunha é derrubado, e mulher do deputado vira ré"

O juiz Sérgio Moro aceitou denúncia e tornou ré a jornalista Claudia Cruz, mulher do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha. Ela gastou cerca de US$ 1 milhão de uma conta na Suíça abastecida com propina recebida pelo marido por desvios na Petrobras. “Dinheiro público foi convertido em sapatos de luxo e roupas de grife”, disse o procurador Deltan Dallagnol, que desmontou o argumento de Cunha no Conselho de Ética ao mostrar que ele tentou camuflar o dinheiro através de um trust criado pelo próprio deputado. “Criminosos antiquados usavam laranjas. Os mais modernos, trusts”, disse. Cunha pediu ao STF para apresentar defesa antes de o pedido de prisão dele ser julgado.       

Folha de S.Paulo
"Planalto aceita fixar prazo de validade para teto de gastos"
 
O Estado de S.Paulo
"Mulher de Cunha vira ré; propina pagou luxo, diz MPF"
        
         

quinta-feira, junho 09, 2016

Física


Opinião

'Transtornos' de gênero e nome social

Contardo Calligaris
A expressão "transtornos" de gênero não é boa, por duas razões. Ela reúne experiências excessivamente diferentes. E essas experiências são sofridas não por serem transtornos, mas pelos transtornos que elas causam nos que defendem a suposta "normalidade".

Talvez os verdadeiros transtornos de gênero sejam as reações de quem se sente ameaçado pela descoberta de que podemos ter sexo feminino e sentir intimamente que somos homens, e ter sexo masculino e sentir intimamente que somos mulheres.

É uma experiência sempre sofrida pelas inúmeras formas da rejeição social (estupro e abuso sexual, recusa ou perda de emprego, escárnio etc.).

Os travestis e transgêneros homem-para-mulher são os mais perseguidos e também têm o mais alto índice de estupros e abusos sexuais.

Claro, muitas pessoas que vivem uma indefinição de gênero passam despercebidas. Um indivíduo de sexo masculino pode apenas usar calcinhas por baixo da calça social; indivíduos de sexo feminino saem em grupo para uma noite entre "caminhoneiros". Alguns/algumas esperam estar em casa para se vestir no gênero que é o deles. Outros, enfim, tentam viver seu gênero em tempo integral, por diferente que seja de seu sexo.

Esses últimos recorrem a um nome social que corresponde ao gênero segundo o qual eles vivem. No seu prédio, nas repartições, na hora de assinar um cheque ou de marcar uma visita médica, eles evitam assim o constrangimento de anunciar um nome que contrastaria com o gênero que eles aparentam.

O nome social não é uma mudança de RG, mas é alguma coisa que protege contra o escárnio e a agressão.

De repente, um grupo de deputados evangélicos quer abolir o uso do nome social. Para eles, o cidadão ou a cidadã que vive num gênero diferente do seu sexo anatômico sempre terá que anunciar seu nome original. Acrescento: de modo que sempre seja zombado.

É um mistério: como é que alguém tem uma iniciativa dessa? De onde nasce a paixão de impor regras aos outros e de disciplinar a vida deles?

No Ocidente moderno (desde o fim do século 18), só é proibido, em tese, o que limitaria a liberdade do outro. À condição de não ferir ninguém, cada um e cada grupo podem se dar as regras que quiserem. Ninguém obriga os praticantes de suingue à monogamia, e ninguém obriga evangélicos a praticar suingue.

Como é possível, então, que surjam paixões de disciplinar os outros? E por que isso acontece sempre em matérias que tocam ao sexo, aos prazeres a ao gozo?

O que pensa a "padaria" sobre os travestis? Faça o teste: eles são "sem vergonha" –o que é bizarro, pois parece significar que os "normais" só não seriam travestis por vergonha, não por falta de vontade.

Ok, você acha que a "padaria" não é um argumento? Aceito. Vamos a santo Agostinho, Livro 1, Cap. 7 das "Confissões": "Observei de meus próprios olhos um bebê tomado pela inveja: ele nem falava ainda e não podia, sem desvanecer-se, pousar seu olhar sobre o espetáculo amargo de seu irmão de leite", que estava sugando o seio materno.

A inveja que Agostinho observa não é ciúmes da mãe e de seus cuidados, é uma inveja "primária" (como dirão os psicanalistas), ou seja, uma espécie de impossibilidade de tolerar a ideia de que o outro possa gozar mais do que eu.

Na verdade, o outro da cena agostiniana faz apenas o necessário para se alimentar. Quem supõe que ele esteja gozando é minha inveja.

A inveja primária (os psicanalistas dirão que ela é de antes do Édipo) é um dos sentimentos que mais sobrevivem e dão forma às relações entre adultos. Um exemplo? É difícil entender o que acontece entre uma geração e seus descendentes sem recorrer à cena de Agostinho: o que os pais querem é (entre outras coisas) que os filhos não gozem mais do que eles.

Enfim, uma das grandes estratégias defensivas da inveja é a desvalorização: o irmãozinho lá, sorvendo leite, é uma alma perdida, um desviante, um criminoso... Arranquem esse menino de lá, pelo amor de Deus.

Chegamos à conclusão: disciplinar significa reprimir no outro o que suponho que seja seu gozo. A origem da paixão de disciplinar está na inveja primária: ele não terá mais do que eu, não gozará mais do que eu.

Só para lembrar: para Agostinho, a inveja primária era a demonstração de que os bebês (já invejosos) nascem tão ruins quanto os adultos. E, como os adultos, precisam ser salvos. Haja Graça divina.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 9 / 06 / 2016

O Globo
"Delator: repasse na Suíça foi para campanha de Dilma"

Zwi diz que depositou US$ 4,5 milhões para marqueteiro a pedido de Vaccari

Dinheiro foi repassado a uma conta de João Santana de 2013 até o fim da campanha eleitoral de 2014

Novo delator da Lava-Jato, o engenheiro polonês Zwi Skornicki afirmou que os US$ 4,5 milhões que transferiu para conta do marqueteiro do PT, João Santana, na Suíça tinha o objetivo de financiar a campanha de reeleição de Dilma Rousseff em 2014, informa THIAGO HERDY. O dinheiro de caixa dois, segundo o delator, que representa um estaleiro contratado pela Petrobras, foi pedido pelo ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, preso desde 2015. Os repasses foram feitos entre setembro de 2013 e novembro de 2014. Mônica Moura, mulher de Santana, já confessara ter recebido R$ 10 milhões não declarados. Dilma disse que as acusações são mentirosas.      

Folha de S.Paulo
"Cúpula do PMDB agiu para impedir delação, diz Janot"

Para procurador, houve ainda combinação de versões; Sarney, Jucá e Renan negam

O pedido de prisão de três integrantes da cúpula do PMDB feito pela Procuradoria- Geral da República afirma, segundo a Folha apurou, que eles combinavam versões de defesa e estratégias para evitar serem atingidos pela Operação Lava Jato. A investigação sugere que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) e o senador Romero Jucá (PMDB-RR) atuaram para impedir a delação do ex-presidente da Transpetro e aliado Sérgio Machado. Para o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, há ainda indícios de que o grupo tentaria influenciar o Judiciário e produziria documentos para maquiar desvios na gestão de Machado. O delator, que gravou diálogos com os peemedebistas, disse ter repassado para eles R$ 70 milhões do petrolão. Ainda não há prazo para decisão do Supremo Tribunal Federal sobre os pedidos. Renan afirmou que nunca agiu para evitar a aplicação da lei. Sarney se disse perplexo e indignado com o pedido de prisão. A defesa de Jucá nega que ele tenha recebido recursos ilegais.
 
O Estado de S.Paulo
"Senado articula acordão para barrar prisão de Jucá e Renan"

Mesmo em caso de determinação do Supremo, tendência é de que parlamentares se posicionem contra

Líderes da base aliada e da oposição no Senado articulam um grande acordo para barrar no plenário da Casa a prisão de seu presidente, Renan Calheiros( PMDB-AL), e do senador Romero Jucá (PMDB-RR). Os pedidos de prisão foram feitos pelo procurador-geral Rodrigo Janot e serão avaliados pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Caso haja aval da Corte, os dois só podem ser presos após aprovação do Senado. O mesmo ocorreu com Delcídio Amaral (ex-PT-MS). Em novembro, o plenário decidiu mantê-lo preso. Com Renan e Jucá, a tendência é de desfecho diferente. Lideranças dizem que as conversas gravadas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado que vieram a público não são suficientes para prisão. Também há receio em relação à delação de Marcelo Odebrecht, que pode levar a novos pedidos de detenção. Na Câmara, integrantes do Conselho de Ética criticaram ação do Planalto sobre o PRB para pressionar Tia Eron a votar contra cassação de Eduardo Cunha.        
           

quarta-feira, junho 08, 2016

Física


Opinião

Antes autoritário que corrupto

Ferreira Gullar
Tenho dito aqui que o tipo de populismo característico do governo do PT –como o de alguns outros países latino-americanos– nasceu como uma alternativa ao regime comunista que acabou antes que chegassem ao poder pela revolução. Não chegariam, é claro, mas em face das novas circunstâncias, tiveram que mudar de tática.

Esse populismo, que se valeu dos recursos públicos para ganhar a adesão das camadas mais pobres da população, adotou naturalmente uma política econômica que, para mostrar-se anticapitalista, levou o país à bancarrota. Por outro lado, apropriou-se das empresas estatais e saqueou-as em aliança com empresários capitalistas, que diziam combater.

O resultado de tudo isso foi o que se viu: o processo político-econômico do petismo e os escândalos que culminaram com o impeachment de Dilma Rousseff. A cara abatida de Lula, no dia em que ela foi afastada do governo, não deixou dúvida quanto à realidade dos fatos: o populismo petista chega ao fim.

Pois bem, mas não é que, exatamente nessa ocasião, a direção do Partido dos Trabalhadores trouxe a público uma "Resolução sobre a Conjuntura" que pôs todo mundo perplexo? É que, nesse documento, os dirigentes petistas deixam claro que, de fato, seu projeto era instaurar no país um regime antidemocrático.

Vejamos o que diz o inusitado documento: "Fomos igualmente descuidados com a necessidade de reformar o Estado, o que implicaria impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, modificar os currículos das academias militares, promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista; fortalecer a ala mais avançada do Itamaraty e redimensionar sensivelmente a distribuição de verbas publicitárias para os monopólios da informação".

Noutras palavras, o que está dito nessa resolução é que o projeto de poder do partido era substituir o Estado democrático por outro, controlado pelo PT, à semelhança das ditaduras de esquerda. Como isso seria feito?

Conforme está claro no documento, os petistas deveriam manter sob seu controle a polícia e a promotoria federais, mudar a formação ideológica das academias militares, assumir o comando das forças armadas, submeter as decisões do Itamaraty e comprar a opinião dos jornais e estações de televisão. Enfim, instaurar no país um regime totalitário.

Devo admitir que semelhante declaração me deixa surpreso. É que, embora saibamos que o propósito desse populismo sempre tenha sido usar a máquina estatal e os programas assistencialistas para perpetuar-se no poder, sempre procuraram mostrar-se como representantes da vontade popular, ou seja, como intérpretes da autêntica democracia.

Agora mesmo, neste episódio do impeachment da Dilma Rousseff, procuram caracterizá-lo como um golpe, ou seja, uma ação contra a democracia, de que seriam eles os verdadeiros defensores. Como se explica, então, que, contrariando suas próprias palavras de ordem e sua atitude em face do impeachment, tragam a público um documento em que deixam explícito o seu projeto de instaurar no país um regime autoritário? E veja bem, propósito esse que sempre foi veementemente negado por eles, toda vez que alguém os acusava se tal intenção.

E não era de se esperar outra coisa, uma vez que o PT se caracteriza com o partido da mentira. Por isso mesmo, ainda é mais surpreendente a sinceridade dessa resolução, na qual lamenta não ter conseguido instaurar no país o seu projeto autoritário. Diante disso, é inevitável perguntar: por que então essa inusitada sinceridade?

Vou arriscar um palpite. Como disse antes –e todo mundo sabe–, não só o impeachment de Dilma Rousseff mas também a participação do PT nas falcatruas denunciadas pelo mensalão e pela Lava Jato desmontaram a imagem do partido "que não rouba nem deixa roubar".

Este seria, portanto, o momento de fazer uma autocrítica. E é isso que essa resolução pretende ser, mas não é, pois, em vez de arrepender-se das falcatruas que praticou, culpa-se de não ter posto em prática um projeto revolucionário que não passava de conversa fiada. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 8 / 06 / 2016

O Globo
"Partidos se unem contra prisões"

Para Renan, pedido de Janot é abusivo; Sarney se diz ‘perplexo e revoltado’

Além do PMDB, integrantes de PT e PSDB criticam pedido do procurador-geral

O pedido de prisão do presidente do Senado, Renan Calheiros, do ex-presidente José Sarney e do senador Romero Jucá, todos do PMDB e acusados de tentarem atrapalhar a Lava-Jato, provocou forte reação deles e dos partidos. A decisão está nas mãos do ministro do STF Teori Zavascki, que analisará o pedido do procurador-geral, Rodrigo Janot, revelado ontem pelo GLOBO. Janot também requereu a prisão do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, como mostrou a TV Globo. Renan chamou o pedido de “desproporcional e abusivo”. Sarney se disse “perplexo, indignado e revoltado”. A notícia deixou alarmado o Senado, onde tramita pedido de impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff. Partidos de campos opostos, como PT e PSDB, defenderam os peemedebistas.      

Folha de S.Paulo
"Pedidos de prisão de Renan, Cunha, Jucá e Sarney geram crise com STF"

Vazamento do caso é crime, diz ministro Gilmar Mendes; políticos do PMDB negam acusação de tentar obstruir Lava Jato

Em ato inédito, a Procuradoria- Geral da República enviou ao Supremo Tribunal Federal pedidos de prisão de um ex-presidente da República, José Sarney, e de um presidente do Senado, Renan Calheiros. Ambos são do PMDB. O procurador-geral, Rodrigo Janot, também pediu a prisão de outros dois peemedebistas, o senador Romero Jucá e o deputado afastado Eduardo Cunha. Os quatro são acusados de tentar obstruir a Operação Lava Jato. A divulgação dos pedidos sigilosos pelo jornal “O Globo” causou crise com o STF. Para o ministro Gilmar Mendes, o vazamento é brincadeira e abuso de autoridade. Outro membro do tribunal falou em pressão sobre a corte. Os processos esperam, sem prazo, decisão do ministro relator, Teori Zavascki. No caso de Renan e Cunha, as medidas precisam ser discutidas pelo plenário do STF e, caso recebam aval, também do Senado e da Câmara. Já Sarney e Jucá estão no âmbito da segunda turma da corte, que trata da Lava Jato. Gravações feitas pelo delator Sérgio Machado, que sugerem articulação contra a investigação, baseiam os pedidos, exceto o de Cunha. Renan negou ter tentado obstruir a Justiça. A defesa de Jucá disse que a medida não se justifica. Sarney, alvo de pedido de prisão domiciliar e uso de tornozeleira, se disse “indignado”. Para Cunha, o pedido é “abusivo”.
 
O Estado de S.Paulo
"Planalto teme que pedido de prisão de Renan atrapalhe impeachment"

Os pedidos de prisão de líderes do PMDB feitos pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, por tentativa de obstrução da Justiça, causaram apreensão no Palácio do Planalto. A avaliação é que o episódio pode ter impacto na definição do processo de impeachment de Dilma Rousseff e na agenda legislativa de Michel Temer. Estão na lista de Janot o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o senador e ex-ministro Romero Jucá (PMDB-RR), o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ),e o ex-presidente da República José Sarney (PMDB-AP). A solicitação também abalou o Congresso, onde parlamentares governistas e de oposição foram da cautela a duras críticas ao procurador. A decisão agora caberá ao relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, que deve levar o caso a plenário. Ministros da Corte criticaram vazamento.        
           
 
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