sábado, junho 04, 2016

Física


Opinião

Acerto e erro

Ferreira Gullar
A posse de José Serra como ministro das Relações Exteriores, semana passada, assinalou uma mudança significativa entre os governos petistas e o governo interino de Michel Temer.

Em seu discurso de posse, Serra anunciou que uma nova política exterior começava a ser implantada no Brasil, afirmando que essa diplomacia "voltará a refletir de modo transparente e intransigente os legítimos valores da sociedade brasileira e os interesses de sua economia, a serviço do Brasil como um todo, e não mais das conveniências e preferências ideológicas de um partido político e de seus aliados no exterior".

Com essas palavras, o novo chanceler brasileiro pôs à mostra um dos mais graves erros cometidos por Lula, que, levado por uma visão ideológica equivocada, reduziu as possibilidades comerciais do país, o que, somado a outros equívocos cometidos por Dilma, conduziu-nos à grave
crise econômica que vivemos hoje.

A origem desses equívocos está no populismo que certa esquerda latino-americana adotou como alternativa à revolução armada, inspirada em Cuba, que foi dizimada pela repressão. O socialismo bolivariano de Hugo Chávez serviu de modelo a outras aventuras semelhantes, surgidas na Argentina, na Bolívia, no Equador e no Brasil.

O Mercosul é a expressão desse populismo no plano do comércio internacional. Tratou-se de criar um organismo de comércio, limitado a países latino-americanos, com o objetivo de libertá-los da dominação norte-americana.

Resultado: os países, como o Chile e a Colômbia, por exemplo, que mantiveram o livre intercâmbio comercial com os norte-americanos e os europeus, ampliaram suas exportações, enquanto o Brasil e os demais, presos ao Mercosul, tiveram suas exportações reduzidas.

Se levado em conta que o comércio exterior é um dos fatores determinantes do equilíbrio econômico de países como o Brasil, explica-se a situação crítica a que chegaram nossa economia e a dos demais integrantes do Mercosul.

Por essa razão, José Serra disse que um dos objetivos de sua gestão é reatar as relações bilaterais com nossos antigos e tradicionais parceiros comerciais. Isso, porém, envolve alguns problemas, porque as normas que regem o Mercosul dificultam semelhante opção.

Mas ela terá que ser feita, pois se impõe como condição imprescindível para que o Brasil supere a situação a que o governo Dilma conduziu a economia brasileira. Por outro lado, como os demais integrantes desse acordo encontram-se em situação semelhante, deverão eles também, cedo ou tarde, seguir esse mesmo caminho.

Quando Serra afirmou, em seu discurso, que iniciava uma nova política externa, estava de fato declarando o fim de um projeto ideológico, implantado por Lula, cuja pretensão —se não me equivoco— era impor, no plano internacional, uma divisão entre ricos e pobres, semelhante a que estabeleceu o populismo em parte da América Latina, nesta última década.

Se meu diagnóstico estiver correto, Lula, como presidente do maior país latino-americano, considerava-se líder dessa aliança populista, como demonstram algumas de suas decisões na relação com esses países.

Um exemplo disso é a sua reação em face da expropriação de refinarias brasileiras por Evo Morales. Melhor dizendo, não houve reação, porque tudo havia sido combinado antes: como a Bolívia era pobre, podia apropriar-se de nossas refinarias. Outros exemplos foram o financiamento do metrô de Caracas e de uma central elétrica em Angola. Lula agia como se o Brasil fosse propriedade sua.

Mas, se a nomeação de José Serra para o ministério das Relações Exteriores foi um acerto, a de Romero Jucá como ministro do Planejamento foi um grave erro, como ficou demonstrado pela publicação, neste jornal, de sua conversa com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro.

Nela, fica evidente o seu propósito de impedir o prosseguimento da Operação Lava Jato. Jucá tentou inutilmente mudar o sentido do que dissera na gravação. Temer teve que tirá-lo do ministério. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 4 / 06 / 2016

O Globo
"Propina a Renan, Sarney e Jucá foi de R$ 70 milhões"


Afirmação de Sérgio Machado está registrada em delação premiada

Ex-presidente da Transpetro disse à Lava-Jato ter dado R$ 30 milhões ao presidente do Senado em troca de sua manutenção no cargo; de acordo com ele, dinheiro desviado pagou campanhas e despesas pessoais

O ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado afirmou em delação premiada que pagou mais de R$ 70 milhões desviados da subsidiária da Petrobras ao presidente do Senado, Renan Calheiros, ao senador Romero Jucá e ao ex-presidente Sarney, todos do PMDB, informa JAILTON DE CARVALHO. Só a Renan foram destinados R$ 30 milhões, segundo o delator. A propina, em troca da manutenção do ex-aliado no cargo, teria sido usada para financiar campanhas e gastos pessoais. Machado, que se comprometeu a devolver R$ 100 milhões, disse que o esquema funcionou de 2003 ao ano passado. Renan negou ter recebido dinheiro e disse que não indicou Machado. Jucá nega a acusação, e Sarney não foi encontrado.     

Folha de S.Paulo
"Novos cargos não afetarão as contas, diz governo"

Postos extintos compensam 14 mil criados e não elevam despesa, afirma Planejamento

O governo do presidente interino Michel Temer afirmou que a criação de cerca de 14 mil cargos na administração federal não vai gerar aumento de despesas, porque ela compensa a extinção de outros cargos. Os novos postos foram autorizados no pacote de reajustes salariais para o funcionalismo, que ainda precisará passar pela aprovação do Senado. Em nota, o Planejamento diz que não houve “criação de novos cargos na administração federal que gerasse aumento de despesas”. De acordo com o ministério, todos os cargos remanejados serão mantidos vagos, já que a lei orçamentária proíbe a realização de concursos neste ano e essa medida deve ser mantida até 2017. No entanto, os cargos extintos estão vagos, são em grande parte de carreiras antigas e já não representam despesas para o governo. Na prática, a eliminação de postos desocupados pode não compensar os novos, porque não havia objetivo de preenchê-los. A criação também deve ampliar pressão por concursos. 

O Estado de S.Paulo
"Machado diz que Renan, Jucá e Sarney receberam R$ 70 mi"

Em delação premiada, ex-presidente da Transpetro afirmou que só presidente do Senado levou R$ 30 milhões

O ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado afirmou à Operação Lava Jato ter arrecadado e pago mais de R$ 70 milhões desviados da Petrobrás aos senadores Renan Calheiros (PMDBAL), Romero Jucá (PMDB-RR) e José Sarney (PMDB-AP). As informações foram publicadas ontem no site do jornal O Globo e confirmadas pelo Estado. Renan, um dos responsáveis pela indicação de Machado para a Transpetro, recebeu R$ 30 milhões, segundo depoimento de Machado na delação premiada. Ele disse ainda que repassou cerca de R$ 20 milhões a Sarney e outros R$ 20 milhões a Jucá, que ficou uma semana como ministro do Planejamento do governo do presidente em exercício Michel Temer. A delação foi homologada no dia 24 de maio pelo ministro do STF Teori Zavascki e, com isso, pode ser utilizada para novas investigações. Os citados negam ter recebido dinheiro.        
           

sexta-feira, junho 03, 2016

De Havilland Canada - Buffalo DHC-5


Coluna do Celsinho

Longe demais

Celso de Almeida Jr.

No Japão, acharam o Yamato Tanooka.

Ele tem 7 anos e ficou perdido numa floresta durante 6 dias.

Foi localizado numa cabana militar desocupada que encontrou após caminhar por vários quilômetros.

O inusitado é que foi abandonado por seus pais, que queriam repreender o menino.

No sábado passado, pararam o carro e mandaram Yamato descer.

Era um castigo, pois o garoto tinha atirado pedras em outras pessoas.

Detalhe: o local é habitado por ursos.

Minutos depois, quando voltaram, não encontraram a criança.

Uma enorme operação foi montada para a busca, mas o garoto foi encontrado por acaso, por um soldado que não fazia parte da equipe.

Palavras do pai, após o desfecho dessa história:

"- Criamos nosso filho com amor o tempo todo. Eu realmente não pensei que isso fosse acontecer. Fomos longe demais."

Comentando o caso com um amigo muito religioso, ele ponderou:

"Estamos sujeitos às mais loucas tentações. Falta à humanidade praticar o Vigiai e Orai."

Obediente, concordei.

Oremos...

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Física


Opinião

O impacto do asteroide

Gabeira
As gravações vazadas ou divulgadas no Brasil são vistas, prioritariamente, sob a ótica da Operação Lava Jato. Até que ponto revelam uma trama para anular o trabalho policial, em que momento cruzam a linha do crime de obstrução da Justiça?

Como isso já foi discutido e, inclusive, levou à queda de dois ministros em apenas 20 dias, creio que é possível propor novas leituras das gravações, sobretudo a partir da experiência de muitos anos em Brasília.

Na vida cotidiana, a frase “sabe com que está falando?” já foi dissecada pelo antropólogo Roberto DaMatta e revela um aspecto autoritário da sociedade brasileira. Em Brasília, quando um problema depende de um juiz ou de um burocrata, os políticos fazem instintivamente outro tipo de pergunta: Quem fala com ele?

Essa pergunta é recorrente. Amigos, colegas de trabalho, familiares, todos são lembrados como uma possibilidade de influenciar.

Os políticos partem da correta presunção de que ninguém é um ser metafísico, completamente isolado da sociedade. E trabalham para convencê-lo pelos caminhos sentimentais do afeto e da gratidão.

Em alguns casos, a pergunta é mais ríspida e direta. Em vez do “quem fala com ele?”, surge o “quem o indicou para o cargo?”.

De todas as maneiras, é um processo permanente que envolve centenas de demandas, inclusive algumas pouco republicanas ou, francamente, fora da lei, como é o caso da obstrução de Justiça.

Num certo nível e com suas gradações, creio que é um processo comum a outros países. Essa incessante busca de um mensageiro adequado para seus pleitos é um dos atributos da política.

Juízes e autoridades sabem da existência desse processo. São treinados para conviver com ele e, dentro de suas possibilidades, resistir cordialmente.

A tarefa de neutralizar a Operação Lava Jato é talvez a mais complexa que alguns políticos brasileiros enfrentaram no caminho. Em certos momentos, houve uma ponta de desespero, como nas gravações de Lula nas quais ele pede que uma pessoa internada na UTI tire os tubos e fale ao telefone com a juíza Rosa Weber.

Possivelmente, não aconteceria nada de novo se o paciente em estado grave trocasse algumas palavras com a magistrada. Mas a simples expectativa mostra como é profunda a dependência da pergunta: Quem fala com quem?

No caso da Lava Jato, dois fatores complicaram o abundante fluxo das conversas que constituem o mecanismo cotidiano de Brasília.

O primeiro deles são as gravações feitas pelos investigadores. Elas foram realizadas para mostrar que os acusados tentavam escapar da Justiça e teciam suas tramas para evitar que caíssem nas mãos do juiz Sérgio Moro. Neste caso, entram as gravações que envolvem Lula e o governo Dilma.

Outro favor novo: as delações premiadas. Elas tornaram perigosas mesmo as ligações telefônicas entre amigos, as conversas que, teoricamente, estão fora do alcance da polícia. Neste conjunto estão as gravações realizadas por Sérgio Machado. As pessoas vão sendo capturadas na medida em que entram e falam no ambiente, como é o caso do ex-ministro da Transparência Fabiano Silveira.

Em ambos os casos, as gravações representam jatos de areia no mecanismo de poder de Brasília, antes tão fluido e vivenciado como natural.

A reação de Lula e de José Sarney, dois homens que experimentaram o poder e ainda o detêm hoje, em escala menor, é de insegurança. Como se o mundo virasse de pernas para o ar e o eixo do poder perene subitamente fosse alterado: uma revolução.

Lula revelou esse desgosto ao cunhar a expressão “República de Curitiba”. Sarney, nas gravações de Sérgio Machado, define o processo como uma “ditadura do Judiciário”.
Cada um reagiu à sua maneira. O PT, pelo confronto, que é a linguagem mais comum ao partido. Era preciso paralisar os adversários, denunciar a mídia golpista e toda essa história.

Ao que me parece, o PMDB compreendeu que o eixo do poder se deslocou e tratou de arrastá-lo de novo para sua posição original.

E recolocou, em outro nível, a pergunta tradicional: Quem fala com quem? Era preciso cativar os juízes do Supremo, seduzir os grandes órgãos da imprensa, só assim o poder se reinstalaria em Brasília e o País voltaria à normalidade. Tentativa também fracassada.

Um elemento interessante nessa luta permanente para recuperar o eixo do poder é a maneira como Lula, Sarney e o próprio Machado encaram o silêncio de alguns e o apoio popular à Lava Jato. Em vários momentos, usam a palavra covardia, lamentam que o avanço das forças de Curitiba não seja combatido por uma resistência nacional. Era como se os invasores fossem tomando o País e, ao invés de pedras e bomba, ganhassem aplausos e flores.

O velho Sarney sabe que nem tudo terminou e prevê um assalto final com a “metralhadora ponto 100”: a delação de Marcelo Odebrecht e dos executivos de sua empresa.

Quase nada ficará de pé. Neste momento, denunciar e punir talvez não tenham mais a urgência dos tempos que se encerram. Definidas as responsabilidades individuais, será possível explorar o campo do sistema político em que tudo aconteceu, e a fantástica reação humana diante de um mundo que desmorona.

Faltam ainda dezenas de gravações, depoimentos, acareações. Se o tempo permitir, voltarei a elas com uma curiosidade diferente. Não mais saber quem vai ou não ser preso.

O universo político brasileiro sofreu o impacto semelhante ao dos asteroides que destruíram os dinossauros. Mas como é diferente quando se trata da história humana. Os dinossauros não tiveram escolha, não buscaram o contato desesperado entre si, não delataram nem gravaram escondidos as conversas mais reservadas. Políticos são humanos. Muito humanos.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 3 / 06 / 2016

O Globo
"Esquema da Petrobras pagou despesas pessoais de Dilma"


Mensagens em poder da PGR indicam pagamento até de cabeleireiro

Em delação, Cerveró disse que a petista acompanhou todos os detalhes da compra de Pasadena e que supõe que ela sabia da propina; delator também falou em negócio com empresa ligada a filho de FH

E-mails em poder da Procuradoria- Geral da República indicam que o dinheiro da corrupção na Petrobras pagava despesas pessoais da presidente afastada, Dilma Rousseff, informa MERVAL PEREIRA. Até viagens do cabeleireiro Celso Kamura a Brasília teriam sido pagas com dinheiro do esquema. As mensagens foram trocadas por pessoas envolvidas na compra da refinaria de Pasadena, em 2006, referendada pelo Conselho de Administração, presidido à época por Dilma, que era ministra de Lula. Nas mensagens, há a informação de que “a ministra” estava ciente dos arranjos dos advogados antes da compra. Em delação, o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró afirmou que Dilma tinha conhecimento de todos os detalhes sobre Pasadena e que supõe que ela sabia das propinas. Cerveró afirmou ainda que, no governo FH, a estatal fechou contrato com empresa que, segundo ele, era ligada a filho do ex-presidente, que nega.    

Folha de S.Paulo
"Governo quer apressar a votação do impeachment"

Chefe da Casa Civil diz-se preocupado com hipótese de recuo de senadores

Com receio de que alguns dos 55 senadores que votaram pelo afastamento de Dilma Rousseff da Presidência possam recuar na votação final, o governo do interino, Michel Temer (PMDB), espera que o processo de impeachment seja encerrado logo. O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou haver “muita preocupação” em razão de acenos de mudança de posição no Senado, em meio a turbulências no início da gestão Temer. A comissão que analisa o impeachment reduziu nesta quinta (2), com o aval do interino, o prazo de tramitação. A votação pode ocorrer em julho, e não mais em agosto. Antonio Anastasia (PSDB-MG), relator do processo, rejeitou o pleito da defesa de Dilma de incluir os áudios gravados por Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, com lideranças do PMDB. José Eduardo Cardozo, advogado da petista, disse que as decisões violam “o direito de defesa da presidente”. Levantamento da Folha aponta que 43 senadores pretendem votar pela saída definitiva de Dilma, acusada de fraudar o Orçamento. Outros 20 optam pela sua volta. Há 18 que ainda não declaram preferência. É preciso apoio de 54 dos 81 senadores para depor a petista.

O Estado de S.Paulo
"Dilma vai ao STF contra antecipação do impeachment"

Comissão do Senado quer votação final no mês que vem; Lewandowski decidirá

A defesa de Dilma Rousseff vai recorrer ao presidente do STF, Ricardo Lewandowski, contra proposta que acelera o processo de impeachment no Senado. A ação questiona decisão do presidente da comissão processante, Raimundo Lira (PMDB-PB), de aceitar sugestão da senadora Simone Tebet (PMDB-MS) de reduzir em 20 dias cronograma do relator Antonio Anastasia (PSDB-MG). Com a mudança, a votação no plenário ocorreria em 12 e 13 de julho, e não no início de agosto. Já o julgamento final seria no fim de julho. O ex-advogado-geral da União José Eduardo Cardozo viu “grave violação do direito de defesa”. O desfecho do processo preocupa o governo. O ministro Eliseu Padilha reconheceu “dificuldades” e defendeu conclusão “o quanto antes”. À noite, o presidente em exercício Michel Temer disse que a “situação de transitoriedade” do governo “não é útil” para o País. Ontem, a comissão também negou inclusão no processo dos áudios que derrubaram Romero Jucá (PMDB-RR) do governo.        
           

quinta-feira, junho 02, 2016

Física


Opinião

Estupros

Contardo Calligaris
Sexta-feira passada, três amigas jantavam num restaurante de Santa Monica, na Califórnia. Uma delas observou um casal, sentado a uma mesa próxima: o homem esvaziou um líquido no drinque de sua parceira –às escondidas, de modo que a parceira não se desse conta disso.

As amigas decidiram agir. Primeiro, conseguiram encontrar a vítima potencial no banheiro (antes que ela bebesse a poção). Logo elas alertaram os funcionários do restaurante e pediram para revisar, junto com eles, a gravação da câmera de segurança; verificaram, assim, que o homem tinha de fato acrescentado algo ao drinque da mulher. A polícia foi chamada e prendeu o homem na hora. A vítima que se salvou ficou estupefata, pois o candidato a estuprador com a ajuda de um "boa noite, Cinderela" era seu melhor amigo.

Agora, imaginemos que três amigos vejam o homem misturar o líquido suspeito no drinque da mulher que o acompanha. Há chances (quantas?) que eles achem engraçado e fiquem rindo enquanto o casal sai do restaurante com ela cambaleando. Se eles confrontarem o cara, há chances também (quantas?) que ele os conquiste falando, por exemplo, que a "mina", de qualquer forma, merece"¦ e, se eles quiserem um pedaço, é só ir para o estacionamento.

Agora, certamente alguns homens agiriam como as três amigas do exemplo. Mas quantos? Um bom psicólogo social (Philip Zimbardo seria ideal) poderia produzir um protocolo de experiência para conhecermos as porcentagens. Note-se que, infelizmente, as experiências em psicologia social revelam quase sempre que a realidade é pior do que a gente imaginava.

Acredito que existe, sim, uma cultura do estupro. E gostaria de me perguntar como ela nasce e como autoriza os estupradores, mas antes disso quero tentar entender quais são as fantasias possíveis de quem estupra. Não é tarefa simples.

Voltemos ao "melhor amigo" da vítima que foi salva: qual pode ser a fantasia sexual de alguém que droga uma amiga para poder abusar dela?

Existe uma resposta propriamente idiota, que é preciso descartar de antemão. Segundo essa resposta, o homem, naturalmente fogoso, sentiria uma excitação incontrolável. Por esse caminho, aliás, a mulher se tornaria responsável pelo estupro que sofre: ela quer ser desejável, e o cara não se controla, não é? É bom saber que essa dinâmica é inexistente na espécie humana.

Então, perguntemos: de onde vem o desejo do estuprador? Há várias respostas possíveis.

Um caso, não muito frequente, é que o estuprador se excite com uma fantasia necrofílica. O "boa noite, Cinderela" (ou equivalente) proporciona-lhe um cadáver com o qual brincar. Essa paixão pelo corpo inerte (morto) é provavelmente um sonho de controle sobre o corpo materno, mas o que importa é que, com essa fantasia, é possível ser carniceiro, comer cadáveres deixados por outros (como num estupro coletivo), mas é difícil violentar.

Outro caso, menos raro, é o do estuprador despeitado: ela quer ser desejada, mas diz que não é por mim. Vou lhe mostrar que ela me deseja, mesmo que seja contra sua própria vontade".

O mais frequente é que a excitação sexual se origine na própria violência. O estupro não é um jeito de gozar de uma mulher desejada, é um jeito de gozar"¦ do estupro. Nos estupros em guerras, saques, invasões: a própria violência é a única fantasia.

Nesse caso, aliás, a violência é quase sempre de grupo. Para quem participa de um estupro coletivo, além da violência, o que importa é o grupo, muito antes da mulher estuprada, que é quase um pretexto.

O grupo é uma fantasia em si –a fantasia de descansar da responsabilidade individual, sendo apenas o instrumento de uma vontade coletiva. Vamos fazer trote em calouro? Vamos espreitar a outra torcida e enchê-la de porradas?

O que excitou os 30 do Rio de Janeiro não foi a jovem desacordada, foi a cumplicidade com o grupo. O legislador reconhece que, a partir de três pessoas, o próprio fato de fazer grupo constitui um crime mais grave.

Mais uma pergunta: na cena do estupro do Rio de Janeiro, onde está o gozo? A resposta freudiana não é para principiantes: a crueldade e o sadismo são formas invertidas de masoquismo. Ou seja, na hora de violentar, os caras se excitam imaginando ser a menina que eles estão abusando. Eles se sentem muito machos bem na hora em que sonham ser estuprados. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 2 / 06 / 2016

O Globo
"PIB retrocede cinco anos"

Economia cai 0,3%, mas pior momento já passou
Taxa de investimento é a menor em 21 anos
Brasil fica na lanterna global, atrás até da Grécia


O PIB brasileiro caiu 0,3% no início deste ano, na comparação com o fim do ano passado. Frente ao início de 2015, o tombo foi ainda maior, de 5,4%, marcando o oitavo trimestre seguido de recessão. Com isso, a economia brasileira retrocedeu ao patamar de cinco anos atrás. O resultado deixou o Brasil na lanterna do crescimento global. A taxa de investimento, de 16,9% do PIB, foi a menor em 21 anos. Mas, diante da magnitude da crise, analistas dizem acreditar que o pior já passou e que, agora, a trajetória da economia começa a mudar. As projeções para o PIB deste ano foram revistas, e a retração deve ser inferior ao tombo de 3,8% de 2015. A retomada da atividade econômica, porém, dependerá de reformas e ajustes.    

Folha de S.Paulo
"Recessão se aprofunda, mas surgem sinais de estabilização"

PIB soma 7,1% de queda desde o 2º trimestre de 2014, derrocada mais longa e intensa em 22 anos

Após fechar 2015 com a maior recessão em um quarto de século, a economia brasileira encolheu menos que o previsto no primeiro trimestre deste ano — o último sob comando de Dilma Rousseff, afastada em 12 de maio. O Produto Interno Bruto, medida dos bens e serviços produzidos, caiu 0,3% nos três primeiros meses de 2016 em relação ao quarto trimestre de 2015. O consumo das famílias, que recuou 1,7%, teve maior peso no resultado. Completaram-se cinco trimestres consecutivos de queda no PIB. Pelos critérios da Fundação Getúlio Vargas, o ciclo de contração já dura dois anos. Acumula-se no período um decréscimo de 7,1%, a derrocada mais longa e intensa desde que o Real derrubou a hiperinflação, em 1994. A queda no trimestre foi menor que a prevista no mercado (-0,8%) e já surgem sinais de estabilização do quadro. Índice que sintetiza dados sobre expectativas registrou em abril a terceira melhora mensal seguida.

O Estado de S.Paulo
"PIB cai 0,3% e economia do País volta ao nível de 2011"

Redução no consumo das famílias ajudou a puxar queda, que, no entanto, foi menor que a prevista

A economia manteve o quadro de recessão no primeiro trimestre do ano, com queda de 0,3% do PIB, e recuou ao patamar do início do governo Dilma Rousseff, em 2011. Apesar de ser a quinta queda consecutiva (no trimestre comparado ao período anterior), o resultado do PIB foi melhor do que o esperado pelo mercado, que previa retração de 0,8%. Para analistas, a queda menos acentuada indica que o fundo do poço está próximo. A aposta é de estabilização no segundo semestre e avanço em 2017. Para o Ministério da Fazenda, números apontam “a mais intensa recessão da história”, mas com processo de recuperação nos próximos meses. Na comparação com o primeiro trimestre de 2015, a economia encolheu 5,4%. Houve redução em investimentos e consumo das famílias. Segundo a agência Austin Rating, o Brasil teve o pior resultado entre 31 países.       
           
 
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