sábado, maio 28, 2016

Física


Opinião

Sapiens x Abelhas

Luiz Felipe Pondé
Quando estava na minha primeira faculdade, passamos por uma longa greve de estudantes. No início, ia às assembleias discutir a razão de achar aquela greve inútil. Entre elas, a mais evidente era: estudantes de uma universidade pública (ou não) em greve nada importam para o dia a dia da cidade, por isso podem ficar 30 anos em greve. O único dano é aos colegas que querem avançar na vida.

Mas o que mais chamava minha atenção era como alguns colegas em bloco esvaziavam a assembleia até que só eles estivessem nela e votassem pela continuidade da greve. Golpe? Isso sim é golpe.

Entretanto, outra coisa também me chamava atenção: como gritavam frases feitas como se fossem um coral furioso. Hoje sabemos o que aquilo era: o nascimento dessa nova moda e praga chamada "coletivo". Não me refiro a transporte coletivo, como quando se diz "aí vem o coletivo". Refiro-me a um conjunto de estudantes (mas pode também ser de artistas ou similares) que se autodenominam "coletivo".

A ideia é que formam um coletivo no qual todos são iguais. Pensam em coletivo, falam em coletivo, agem em coletivo, assinam em coletivo. Recentemente, um professor de uma importante universidade brasileira teve dificuldade de se comunicar com um "aluno" (vai saber o que ele ou ela era de fato) porque ele ou ela se recusava a se identificar na comunicação escrita, já que ele –ou ela– não era uma "pessoa", mas um coletivo.

Imagino que, em cem anos, essa modinha será incluída no conjunto de psicopatologias da virada do século 20 para o 21, época que será vista pela sociologia do futuro como uma era de ressentidos e mimados: a mania por coletivos será classificada como ódio patológico à individualidade, suas responsabilidades e contradições.

Freud classificaria como um estágio da pulsão de morte, seguramente. Para o criador da psicanálise, a pulsão busca sempre uma posição regressiva. No caso da pulsão de morte, ela busca o "repouso na pedra". Na matéria inorgânica.

No caso dos coletivos, ela busca o repouso na destruição do "eu". Na dissolução do "eu" na manada.

Elias Canetti, intelectual judeu búlgaro que estudou as multidões (além do próprio Freud, claro), já apontava a dissolução do "eu" na manada, na "mancha" disforme da multidão. Há um prazer mórbido em se sentir parte de um coletivo: a morte do sujeito moderno, esse atormentado.

O fenômeno dos coletivos é um traço regressivo no embate com a solidão do homem moderno. É uma tentativa, canhestra e primitiva, de "voltar ao útero materno" para ver se o ruído insuportável da realidade disforme do mundo se dissolve porque grito palavras de ordem ou faço coisas pelas quais eu mesmo não sou responsabilizado, mas o "coletivo", essa "pessoa" indiferenciada que não existe.

A indiferenciação num todo sempre foi uma forma de gozo regressivo, de algum modo. As políticas utópicas socialistas históricas carregaram essa marca nelas. Além do mesmo ódio pelo indivíduo, que tentaram matar a todo custo. No fenômeno místico, visto pelos olhos do "sentimento oceânico", como cita Freud, há também um gozo, que pode desaguar em terroristas islâmicos ou dervixes sufis maravilhosos.

O filósofo inglês do século 20 Michael Oakeshott escreveu sobre como ser indivíduo ("projeto" burguês que deu errado) é quase impossível para a maioria das pessoas, justamente pela sua solidão intrínseca e pelas suas contradições.

Oakeshott descreveu inclusive o surgimento de movimentos "anti-indivíduos", que seriam marcados por totens. Esses totens poderiam ser pessoas carismáticas ou ideias que reuniriam massas de pessoas indiferenciadas e furiosas contra os indivíduos vistos por elas como egoístas, sujos, metidos e arrogantes, por serem "contra o coletivo". Acertou em cheio.

Fosse eu escrever um argumento ou roteiro para um curta, escreveria sobre como abelhas evoluíram no seu amor à colmeia, chegando aos coletivos de hoje em dia. E na fúria que caracteriza as abelhas quando você se aproxima da colmeia e da sua rainha, essas abelhas evoluídas odiariam o sapiens, e suas contradições sem fim.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 28 / 05 / 2016

O Globo
"STF proíbe tramitação oculta de casos contra autoridades"

Para Moro, ataques à Lava-Jato são tentativa de volta à impunidade

Em grampo, presidente do Senado, Renan Calheiros, diz ter atuado para impedir a recondução do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao cargo. ‘Eu tentei, mas eu estava só’

No momento em que conversas grampeadas revelam tentativas de interferência na Lava- Jato, o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, proibiu a tramitação oculta de processos no tribunal, entre eles ações penais e inquéritos envolvendo políticos, como um que investiga o ex-presidente Lula, agora visível no sistema do STF. No tribunal, prevaleceu o entendimento de que a transparência é a regra. O juiz Sérgio Moro, da Lava-Jato, reagiu aos ataques à investigação. Para ele, os diálogos gravados que mostram integrantes da cúpula do PMDB atuando contra a Lava-Jato são “sinais de uma tentativa de retorno ao status quo da impunidade dos poderosos”. Novo grampo mostra que Renan Calheiros, presidente do Senado, tentou evitar a recondução do procurador-geral, Rodrigo Janot.   

Folha de S.Paulo
"Queda na arrecadação afeta mais os Estados"

Nove governos estaduais e o DF preveem fechar 2017 com deficit

Pressionados por arrecadação em queda, gastos crescentes e encolhimento da economia, os Estados sofrem mais diretamente que o governo federal o impacto da crise orçamentária. Para equilibrar as contas, quando falta dinheiro em caixa, as gestões estaduais dispõem apenas do aumento de tributos e do atraso em pagamentos. A União consegue vender títulos. Levantamento da Folha aponta que 23 Estados e o DF enfrentam algum tipo de fragilidade fiscal, como menos receita, contas no vermelho, endividamento ou gastos em excesso com pessoal. A pior situação é a do Rio, cuja dívida ultrapassou, em abril, o limite máximo fixado na lei, de 200% da receita anual. Quando ele é superado, o Estado fica impedido de contrair empréstimos — o que afeta os investimentos. As folhas de pagamento são o principal gargalo. Ao final de 2015, em cinco Estados as despesas com pessoal do Executivo superavam o teto legal de 49% da receita. Em outros 15 Estados e no Distrito Federal, ultrapassavam o limite de alerta, de 44,1%. Sem contar com reativação econômica rápida, nove Estados e o DF preveem fechar 2017 no vermelho. 

O Estado de S.Paulo
"Seis em cada dez cidades têm rombo nas contas"

Queda na arrecadação de impostos derruba repasses federais e prefeituras devem fechar o ano no vermelho

Pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios mostra que pelo menos seis em cada dez prefeituras do País vão fechar o ano com as contas no vermelho. No caso dos Estados, o problema foi agravado por aumento da dívida e crescimento de despesas com pessoal. Nas prefeituras, o nó está na alta dependência de verbas da União, informam Anna Carolina Papp, Luiz Guilherme Gerbelli e Renée Pereira, na série de reportagens Desafios do Brasil. Hoje, apenas 10% dos 5.570 municípios do País têm recursos próprios suficientes para bancar suas despesas. Na maioria dos casos, a principal fonte de verbas é o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), composto pela arrecadação do Imposto de Renda e do IPI. Em 2015, o FPM teve queda real de 2,3% e, neste ano, de 13,7% até abril. Pelo menos R$ 165 bilhões deixaram de entrar nos cofres municipais entre 2003 e 2014. Desse total, R$ 122,7 bilhões são fruto de desonerações de IR e IPI, que diminuíram as transferências do FPM.       
           

sexta-feira, maio 27, 2016

Embraer E190-E2


Coluna do Celsinho

Flores

Celso de Almeida Jr.

E lá foi ele...

Deixar uma coroa de flores no memorial aos 140 mil mortos de Hiroshima.

Bacana, o Obama.

Passadas sete décadas da explosão da bomba atômica que mudou o mundo, um presidente americano em exercício pisa no palco da tragédia.

E, enquanto Barack Obama encerra seu mandato firmando-se como estadista, os EUA estão às voltas com Donald Trump.

Mundo louco, né?

Praticamente definido pelo Partido Republicano, o magnata garantirá para a eleição de lá um show de estupidez.

Pois é prezado leitor, querida leitora.

Fico confuso.

Não consigo vislumbrar os caminhos do mundo.

Há muito radicalismo, extremismo, agressividade, violência.

Como tudo é questão de escolha, resta torcer para que a maioria ainda priorize a sensatez.

Não podemos brincar.

Não é permitido comprometer o futuro com aventureiros destemperados.

Nossa descendência tem todo o direito de viver num mundo melhor.

Serenidade é a palavra de ordem.

Menos bombas.

Mais flores.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

A morada do diabo

Alexandre Schwartsman
Ainda em sua primeira versão, a mesma que causou (justificado) escândalo em agosto do ano passado, o Orçamento federal previa deficit de R$ 30 bilhões, rapidamente transformado em superavit de R$ 24 bilhões, embora, é claro, apenas no papel. Tanto que a administração anterior já reconhecia que o número seria negativo e bem pior do que as primeiras estimativas, na casa de R$ 100 bilhões.

Ainda assim, quem segue a questão fiscal de perto já havia manifestado sua descrença, apostando num buraco ainda maior, e valores na casa de R$ 150 bilhões não chegavam a escandalizar ninguém, uma triste ilustração de como nos adaptamos facilmente à miséria. Nesse sentido, o anúncio de um deficit de R$ 170 bilhões, equivalente a 2,7% do PIB, foi recebido por uma sociedade anestesiada.

Não há dúvida de que o valor é horroroso e retrato do grau de deterioração das contas do governo nos últimos anos. Contudo, não chega a ser o pior desenvolvimento nessa frente: o que me deixa ainda mais horrorizado é o grau de incerteza que existe em torno dos números fiscais.

Não bastassem as repetidas revisões de metas (fenômeno constante nos últimos anos), há ainda a possibilidade de perdas de montante desconhecido associadas a eventos tão distintos como a necessidade de capitalização da Petrobras, ou a incapacidade da Eletrobras em publicar seu balanço auditado segundo regras internacionais, ou ainda o montante de créditos de má qualidade nos bancos federais e seus impactos sobre as finanças públicas.

É lamentável, mas aprendemos como um governo mal-intencionado e/ou incompetente na gestão fiscal pode causar um estrago sem precedentes. O quadro institucional, expresso em diplomas como a Lei de Responsabilidade Fiscal ou a Lei de Diretrizes Orçamentárias, foi simplesmente despedaçado no processo. Recuamos ao menos 20 anos em termos de instituições fiscais. Idealmente essas deveriam ser reconstruídas, mas não temos sequer certeza de que seremos capazes de tal tarefa.

Sob essa ótica, as medidas anunciadas nesta terça (24) são, em sua maioria, uma manifestação de intenções corretas, mas, para falar a verdade, não muito mais que isso.

Dessas, a antecipação de pagamentos por parte do BNDES para o Tesouro Nacional é a que deve produzir o maior impacto, R$ 100 bilhões. Da mesma forma, porém, que a concessão dos empréstimos não é despesa, sua amortização não é receita. Embora muito inferior ao tamanho da dívida (R$ 4 trilhões, ou 67% do PIB em março), o efeito equivale a algo como 1,7% do PIB e pode reduzir a conta de juros em algo como R$ 7 bilhões/ano.

Já a fixação de um teto para as despesas do governo federal de acordo com a inflação antecipa uma queda destas relativamente ao PIB. No entanto, sem medidas mais claras no que se refere às vinculações e à adequação da Previdência, não é claro como o teto será cumprido. O diabo mora nos detalhes e resta, portanto, saber como, na emenda constitucional sobre o tema, o governo pretende lidar com essa questão.

Segundo Alexandre Pombini, "a inflação em si jamais fugiu ao controle nesses 17 anos do regime de metas". O grau de alienação dessa afirmação revela por que a inflação atingiu mais de 6% ao ano entre 2011 e 2014, 10,7% em 2015 e 9,6% nos últimos 12 meses, comparada a uma meta de 4,5%. Já vai tarde... 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 27 / 05 / 2016

O Globo
"Cargos de confiança consomem 35% da folha"

Custo de 346 mil comissionados chega a R$ 3,5 bi por mês, diz TCU

Levantamento inclui apenas Executivo, Legislativo e Judiciário federais; em 65 dos 278 órgãos analisados pelo tribunal, número de servidores em funções de chefia passa de 50% do total

O Brasil gasta R$ 3,47 bilhões por mês com 346 mil ocupantes de cargos de confiança e comissionados, revela relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) obtido por LUIZA SOUTO. O levantamento foi feito apenas em órgãos da administração pública federal, incluindo Executivo, Legislativo e Judiciário. O gasto com os comissionados chega a 35% de toda a folha de pagamento do funcionalismo da União, que é de R$ 9,6 bilhões mensais. De 278 órgãos federais, 65 deles têm mais de 50% do quadro de pessoal ocupado por integrantes de cargos de confiança. O PT é o partido com mais filiados no governo. Mas há proporcionalmente mais comissionados nos poderes Legislativo (onde eles representam 60,9% do total de despesas com pessoal) e no Judiciário (56,9%).   

Folha de S.Paulo
"Crise deixa quase 3 milhões sem ter seguro-desemprego"

Direito é válido por até cinco meses; com menos vagas, há mais dificuldade para se recolocar antes do fim do benefício

Com o avanço do desemprego no Brasil, cresce o número de pessoas que perdem o direito ao seguro pago pelo governo federal, que é válido por até cinco meses. De janeiro a maio, 2,9 milhões ficaram sem o benefício, 8% a mais que no mesmo período de 2015. Paralelamente, conseguir recolocação está mais difícil em meio à recessão. Em abril, o mercado de trabalho formal fechou 62.844 vagas. De acordo com o IBGE, 30% dos desocupados em fevereiro nas seis principais regiões metropolitanas do país estavam fora do mercado de trabalho havia mais de seis meses, o maior índice para esse mês desde 2006. O seguro paga até R$ 1.542 mensais e é em geral usado para gastos básicos, como os com alimentos e remédios. A demora das empresas em contratar tem levado trabalhadores a fazer bicos. Receber o valor da rescisão é outro problema. Para pagar aos demitidos, empresas propõem a divisão em parcelas. Uma delas, de Diadema (SP), sugeriu o parcelamento entre 25 e 60 vezes. Segundo Samir Soubhia, juiz da 22ª Vara do Trabalho em SP, parcelar essas verbas, que devem ser quitadas em até dez dias após homologada a rescisão do contrato de trabalho, não consta das leis trabalhistas. 

O Estado de S.Paulo
"Áudios mostram Renan e Sarney contra a Lava Jato"

Objetivo seria influenciar Teori Zavascki, relator da operação no STF; ex-presidente fala em ‘ditadura da Justiça’

Conversas gravadas do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) indicam articulações dos peemedebistas para tentar influenciar o ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF. Os diálogos mostram a preocupação com o avanço da operação. Sarney chega a dizer que “a ditadura da Justiça está implantada” e é “a pior de todas”. Em um dos trechos de conversa entre Sarney e Machado, em10 de março, o ex-presidente diz que vai falar com o ex-ministro do STJ Cesar Asfor Rocha como alguém que teria proximidade com Teori. No dia seguinte, Renan, em diálogo com Sarney e Machado, sugere o advogado Eduardo Ferrão como pessoa próxima ao ministro. Numa outra gravação de Machado, Renan chama o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de “mau-caráter”.         
           

quinta-feira, maio 26, 2016

Física


Opinião

Eleitores e consumidores

Contardo Calligaris
Se você passar por Nova York até 26 de junho, não perca a exposição de Nicole Eisenman no New Museum (na Bowery com Prince).

Se eu fosse muito rico, convidaria Eisenman ao Brasil, para o tempo que for preciso, até ela estar a fim de "retratar" a realidade brasileira.

"Coping" (lidando, entende-se, com a adversidade), de 1,6 m por 2 m, é de 2008, mas parece que foi pintado em Mariana (MG): mostra como seria a vida numa praça com a lama até a cintura (http://ci13.cmoa.org/artwork/2712).

Eisenman retrata cada realidade com o tipo de realismo que ela merece. Por exemplo, um pequeno formato, com o título "Uma Família Disfuncional", se parece com a vinheta preparatória para uma campanha publicitária da família margarina. Mas, chegando perto, a gente descobre uma família diferente da que é sonhada pelos publicitários e parecida com a que conhecem os psicanalistas: a mãe está fazendo tricô, mas a saia levantada revela seu sexo, o pai fuma um cachimbo fálico, e o bebê, sentado no chão, martela seu próprio sexo com um amaciador de carne (http://migre.me/tVrdi).

Eisenman produz um protótipo da arte que o nazismo chamava de "degenerada". O stalinismo não pensaria diferente. Os totalitarismos, em geral, não gostam do abstrato, mas odeiam mais ainda aquele realismo que distorce um pouco a realidade retratada para revelar sua face hipócrita e inglória.

Central na exposição é "O Triunfo da Pobreza" (http://migre.me/tVrHa), em que Eisenman frisa a grandeza de Otto Dix e George Grosz na Alemanha entre as duas guerras. No meio do quadro, um homem de cartola (invertido, ele tem a bunda para frente) puxa por uma trela os cegos da "Parábola dos Cegos", de Pieter Bruegel, O Velho (séc. 16).

A inspiração de Bruegel, ao retratar o trenzinho de cegos de mãos dadas, tateando o caminho com sua bengala e levados por alguém tão cego quanto eles, era Mateus 15:14: "Deixem eles; são cegos condutores de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão no buraco".

Proponho que Eisenman seja convidada a pintar um mural no Congresso, em Brasília, para que as gerações futuras da Casa se lembrem do que era o Congresso Nacional na época que estamos vivendo.

Cá entre nós, ser um bom tema para a pintura de Eisenman não é exatamente um elogio.

Depois dessa proposta, haverá ainda mais leitores para me perguntar se o desgosto por toda a classe política resume meu estado de espírito do momento. É verdade que o fisiologismo comum de esquerda e direita (venda de cargos e compra de alianças) tornou verídico o samba: "Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão""¦

Será que perdi minha capacidade de discriminar entre esquerda e direita? Talvez, mas não fui eu quem começou.

Um dia, a esquerda decidiu que Brasília valia várias rezas comuns de mãos dadas. A frase "Paris vale uma missa" terminou as guerras de religião na França no fim do século 16, mas não acabou bem. Ela foi supostamente dita por Henrique 4º quando ele se converteu do protestantismo ao catolicismo para ascender ao trono da França.

Agora, quando você topa uma missa para chegar a Paris, isso não significa que seus antigos amigos serão escutados no seu futuro reinado. O édito de Nantes garantiu aos protestantes lugares onde poderiam se considerar abrigados das perseguições, mas foi só isso. Na Brasília que valeu uma missa, qual lugar sobrou realmente para o ideário progressista?

Estou entre a direita, que me explica que não dá para fazer as coisas que seriam certas porque falta dinheiro para isso, e a esquerda, que me diz que não dá para fazer as coisas que seriam certas porque, ao fazê-las, os eleitores fugiriam.

Estava acostumado com a ideia de que a direita nos tratasse não como cidadãos, mas como consumidores: está podendo trocar de carro? Então não se queixe da miséria cultural, da democracia reduzida ao dia do voto etc.

Não estava acostumado com a ideia de que a esquerda nos tratasse não como cidadãos, mas como eleitores: falar a verdade para o pessoal, por quê? Precisa falar o necessário para que a maioria continue votando na gente. Ou (chantagem) você não quer que a esquerda continue no poder? Uma coisa não perdoo à esquerda: ela criou uma situação em que só resta torcer para que mais um governo fisiológico dê certo. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 26 / 05 / 2016

O Globo
"Grampos revelam tentativa de livrar políticos da Lava-Jato"

Em conversa sobre acordo, Renan cita Dilma e Lula e critica delação

O ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, que teve delação homologada pelo STF, também gravou Sarney, que prometeu ajudá-lo a escapar de Moro e previu estrago se Odebrecht falar

Conversas gravadas em março pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado com o presidente do Senado, Renan Calheiros, e o ex-presidente José Sarney revelam que eles discutiam formas de livrar políticos, entre eles a então presidente Dilma e o ex-presidente Lula, da Lava-Jato. Renan apoia proibir delação de presos e diz que a “turma topa” um “acordo” para livrar Dilma, cuja contrapartida seria adotar o parlamentarismo. Sarney promete a Machado tentar ajudá-lo a escapar do juiz Moro e prevê: “A Odebrecht vem com uma metralhadora ponto 100.”    

Folha de S.Paulo
"Sarney fala em ajuda a investigado em gravação"

‘Sem meter advogado no meio’, disse o ex-presidente a Machado, alvo da Lava Jato

O ex-presidente José Sarney( PMDB) prometeu a Sérgio Machado, ex-dirigente da Transpetro e investigado pela Lava Jato, que poderia ajudá-lo, “mas sem meter advogado no meio”, a evitar que seu caso fosse transferido para a vara do juiz Sergio Moro, em Curitiba (PR), informa Rubens Valente. Os diálogos foram gravados por Machado, que, na terça (24), teve sua delação premiada homologada pelo ministro do STF Teori Zavascki. Pelos áudios, a estratégia envolveria conversas com Renan Calheiros (PMDB-AL) e Romero Jucá (PMDB-RR). Os dois senadores negam interferência no caso. Nos diálogos, o ex-presidente diz que uma delação premiada que a Odebrecht estaria prestes a fazer na Lava Jato “é uma metralhadora de [calibre] ponto 100”. Ele afirma também que uma colaboração da empreiteira poderia atingir Dilma Rousseff. A defesa da petista diz que não há nenhuma irregularidade. Em nota nesta quarta (25), Sarney afirmou que tem relação de amizade com Machado e que as conversas foram marcadas por “sentimento de solidariedade”. 

O Estado de S.Paulo
"Temer quer votar saída definitiva de Dilma até agosto"

Após delação atingir PMDB, aliados do presidente se articulam para apressar fim do impeachment

A revelação de que o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado teve homologada sua delação premiada pelo Supremo Tribunal Federal pode alterar o processo de impeachment de Dilma Rousseff no Senado. Governistas se articulam para encerrar o trâmite antes do início da campanha para eleições municipais, em 16 de agosto. Já a oposição a Michel Temer tenta arrastar a análise do afastamento. O Estado apurou que Machado citou mais nomes em sua delação além dos já divulgados (Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros, todos do PMDB). Temer não estaria implicado diretamente, mas pilares importantes de sua base de sustentação, sim. Essa informação aumentou a apreensão nos bastidores e o temor de recrudescimento da crise, o que causaria instabilidade para o governo e poderia atrapalhar a estratégia de recuperação da economia, que depende de aprovações no Congresso.Do lado de Dilma, a estratégia é inserir a conversa de Machado com o ex-ministro Jucá no processo de impeachment e tentar inviabilizar Temer politicamente.         
           

quarta-feira, maio 25, 2016

Física


Opinião

Hiroshima, meu terror

João Pereira Coutinho
Barack Obama visita Hiroshima na próxima sexta-feira (27), e o mundo suspende a respiração: as bombas atômicas lançadas sobre o país continuam a assombrar-nos. E, com elas, as perguntas clichê: foi mesmo necessário? Ou tratou-se de um monstruoso crime de guerra?

Longe de mim ter a pretensão de decidir um dos temas mais complexos da história contemporânea. Além disso, e como tenho uma inclinação para teorias morais deontológicas, sempre olhei para o bombardeio indiscriminado de civis —sejam eles ingleses, alemães, japoneses— com um arrepio de horror pela espinha abaixo. Nesse quesito, só agradeço aos céus nunca ter estado em posições de poder para violar questões de consciência.

Mas é importante ler História —e, sobretudo, opiniões mais utilitaristas sobre a matéria. Nos últimos dias, tenho acompanhado Max Hastings e o seu impressionante "Retribution: The Battle for Japan, 1944-45". A prosa é admirável ("comme d'habitude"), e Hastings vai apresentando fatos que fazem estremecer qualquer pequeno Kant.

Entre esses fatos estão os números: as bombas atômicas terão dizimado de imediato cem mil pessoas. Mas esses números, por mais chocantes que sejam, devem ser confrontados com práticas passadas —e estimativas futuras.

Antes das bombas atômicas, os Estados Unidos já tinham participado de campanhas aéreas contra a Alemanha e o Japão que provocaram 750 mil mortos. E, para ficarmos apenas no Japão, os bombardeios do general Curtis LeMay, antes de Hiroshima, já tinham ceifado 200 mil japoneses.

Curiosamente, o lançamento das bombas era encarado por LeMay como mais uma etapa na sangrenta luta contra as forças de Hirohito. Se Hiroshima e Nagasaki arrepiam, não é pelo número de mortos.

E se assim foi no passado, que dizer do futuro? Que dizer de um Japão que se recusava a aceitar a "rendição incondicional", mesmo que isso implicasse a devastação de um país inteiro?

Segundo Hastings, a continuação dos bombardeios "tradicionais" (a que se junta a invasão soviética da Manchúria) teria provocado 250 mil mortos por cada mês adicional de conflito.

E, sobre a hipótese de uma invasão terrestre (que Truman se recusava a autorizar), parece haver consenso historiográfico de que as mortes americanas suplantariam 1 milhão de soldados (e, no mínimo, cinco vezes mais entre japoneses).

No fundo, é o velho dilema utilitarista: vale a pena sacrificar 100 mil para evitar a morte de milhões? Os utilitaristas que respondam.

Claro que, nas polêmicas sobre Hiroshima, existem acusações recorrentes que passaram a figurar nos resumos da novela. Exemplo: as bombas, segundo a interpretação marxista, tinham como fim aterrorizar a União Soviética e conter o expansionismo de Stálin no Pacífico. Hiroshima e Nagasaki foram, digamos, meros pretextos.

O mais curioso no livro de Max Hastings é que ele não nega por completo essa acusação (que me parece óbvia). No entanto, é importante qualificar o "medo soviético" com duas observações históricas que me parecem óbvias também.

Em primeiro lugar, que esse "medo" era justificado em 1945 tendo em conta as brutalidades que Stálin já promovia no Leste da Europa. Quem relativiza o perigo soviético concede a Stálin um estatuto quase "humanitário" que seria impensável face a Hitler.

Mas existe um segundo problema com as visões marxistas sobre Hiroshima e Nagasaki: elas ignoram completamente o comportamento das elites políticas e militares nipônicas.

As melhores páginas de Max Hastings lidam precisamente com a conduta do imperador e dos seus ministros mais próximos (como Korechika Anami, o ministro da Guerra), que mesmo depois da primeira explosão ainda ponderaram continuar a lutar —uma mistura de nacionalismo, irrealismo e bravura apocalíptica que teria devastado ainda mais o Japão.

A conduta final de Anami (ao impedir o golpe contra o imperador) e a rendição de Hirohito são as duas únicas páginas de redenção para ambos. Na sexta-feira, Obama estará em Hiroshima. E, segundo a Casa Branca, o presidente não tenciona pedir desculpas.

Entendo que o gesto seria de um anacronismo escusado. Mas também confesso que não viria mal ao mundo se as desculpas fossem apresentadas ao povo japonês. Desde que devidamente repartidas entre os Estados Unidos e o próprio Japão. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 25 / 05 / 2016

O Globo
"Teto de Temer para gastos inclui saúde e educação"

Alta não poderá superar inflação
Mudar Previdência será próxima etapa
BNDES deverá antecipar R$ 100 bi


O presidente interino, Michel Temer, lançou um pacote de medidas para equilibrar as contas públicas que prevê a fixação de um teto para as despesas, incluindo saúde e educação. Os gastos não poderão mais subir acima da inflação. O governo enviará ao Congresso uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que, se aprovada, vai alterar as regras de vinculações e, com isso, dizem analistas, provocar redução proporcional nos gastos com saúde e educação. O governo também quer antecipar o pagamento de R$ 100 bilhões do BNDES ao Tesouro e venderá R$ 2 bilhões do Fundo Soberano. Líderes governistas apoiaram as propostas, mas disseram acreditar que pode haver resistências à aprovação do limite para despesas.   

Folha de S.Paulo
"Temer propõe que despesas não subam além da inflação"

Teto para gastos da União, que abrangeria área social, é pilar do plano contra derrocada fiscal

O presidente interino, Michel Temer (PMDB), anunciou um pacote de medidas nesta terça (24), em uma tentativa de conter o endividamento e controlar o deficit público, estimado em R$ 170,5 bilhões em 2016. O governo proporá ao Congresso emenda constitucional que cria um limite para a elevação dos gastos públicos, fixando como teto a inflação do ano anterior. A restrição abrangeria gastos na área social, como a Previdência. O trâmite da proposta, que requer 60% dos votos na Câmara e no Senado para ser aprovada, será o primeiro grande teste sobre o apoio ao interino no Legislativo. O plano apresentado contempla outras medidas. O governo congelou a alta de subsídios e pretende poupar R$ 2 bilhões ao ano com a restrição em programas como o apoio à agricultura familiar. Outros R$ 2 bilhões viriam do fim do Fundo Soberano, com os recursos do pré-sal. Como a Folha antecipou, outra proposta é a devolução antecipada de R$ 100 bilhões em empréstimos que o Tesouro destinou ao BNDES. A medida ainda será avaliada em seus aspectos jurídicos antes de ser efetivada. 

O Estado de S.Paulo
"Temer trava gasto; mercado elogia, mas vê risco político"

Plano prevê limite para despesas, incluindo Saúde e Educação, mas depende de aprovação no Congresso

O presidente em exercício, Michel Temer, apresentou ontem um pacote de corte de gastos e combate à crise econômica. Das sete medidas listadas, a principal prevê a fixação de limite para despesas públicas, incluindo Saúde e Educação, que só poderão subir com base na inflação do ano anterior. A proposta é uma das quatro que dependem de aprovação do Congresso e representará forte aperto nos gastos públicos no futuro. O pacote também inclui a devolução de R$ 100 bilhões do BNDES ao Tesouro e a extinção do Fundo Soberano Nacional, com o uso dos R$ 2 bilhões do seu patrimônio atual para reduzir a dívida pública. Analistas avaliam que as medidas vão na direção correta, mas questionam os riscos de implementação de algumas delas, já que são impopulares.        
           
 
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