sábado, maio 21, 2016

Física


Opinião

Diálogo com a tesoura

Gabeira
Quando ouço a palavra cultura, saco minha tesoura. É razoável que se pense assim num momento de crise aguda. Não entendo, porém, o fim do Ministério da Cultura.
O governo Temer nasceu de uma emergência, teve pouco tempo para se estruturar. Sua prioridade é correta: reconstrução econômica. Sua tática, também: conquistar a maioria no Congresso para aprovar as medidas saneadoras. Paga-se um preço, mas, enfim, é a única saída real. Compreendo, portanto, que o governo Temer ainda não tenha uma política cultural. Esta é a primeira crítica: é preciso ter política para, depois, definir o instrumento.

Secretaria ou ministério, qual o melhor? Depende. Quando saiu da secretaria do MEC, o Ministério da Cultura foi rebaixado. Perdeu a Roquete Pinto e a TVE. Gilberto Gil tentou recuperar a TV quando Lula a recriou. Perdeu para uma corrente que dirigia a comunicação.

Na França os dois são unidos, Ministério da Cultura e Comunicação. Superficialmente, o fim do ministério foi saudado porque muitos viam nele apenas um espaço para cooptar artistas por meio de isenções fiscais. O BNDES também cooptou empresários com juros subsidiados. Vamos fechar o BNDES?

Uma coisa é economia, outra é cultura, pode-se argumentar. No entanto, elas não andam tão separadas. Num mundo de crescente produção imaterial, a dimensão econômica da cultura é estratégica.

Existem menções a ela no plano de governo de Collor. Seu programa elogiava grupos culturais com sensibilidade para a audiência e uma estrutura empresarial. No mesmo parágrafo, critica os que se apoiam nas asas do Estado para esconder sua mediocridade. Sem mediações adequadas, Collor falhou.

No governo Fernando Henrique, José Álvaro Moisés levava o tema adiante, com o slogan “cultura é um bom negócio”. Hoje, acredito que não apenas a tecnologia e o conhecimento científico transferem valor às coisas. A cultura também o faz.

Trabalho com isso no cotidiano, documentando experiências do que chamamos economia criativa. Recentemente, na Praia do Jacaré, na Paraíba, mostrei a história de um saxofonista que ergueu uma comunidade de negócios em torno dele. Todas as tardes, às 18 horas, ele sobe num barquinho e toca o Bolero de Ravel. Com o tempo, o lugar superlotou, surgiram lojas bares, restaurantes. Num deles, há um peixe à Maurice Ravel no cardápio. Mesmo quem não gosta de Ravel ou mesmo do peixe que leva seu nome reconhece que, de uma certa forma, é a cultura que move o lugar.

Os chamados pontos de cultura, do programa do PT, que não conheço na totalidade, já revelaram para mim um caso de êxito em Arraial do Cabo. O ponto de cultura transformou-se num ponto de encontro e venda do artesanato local.

É preciso que Temer mostre a sua visão para que seja um parâmetro para a crítica. O debate está todo concentrado no financiamento indireto de artistas, como se fosse o único tema.

O patrimônio artístico e histórico do Brasil vive momentos difíceis e ameaçadores. Digo porque trabalho também com ele, visitando de estátuas do Aleijadinho ao sítio de Burle Marx. Pode-se argumentar que nosso patrimônio não tem o mesmo valor do de países mais velhos. Mas é o nosso patrimônio, um fragmento no mosaico da diversidade humana.

Intelectuais como Mário de Andrade percorreram o Brasil colhendo expressões culturais, outros, como Rodrigo Melo Franco, lutaram para que os monumentos fossem preservados e vistos. Na confluência de Estado e cultura, o designer e pintor Aloisio Magalhães trabalhou para inventar um instrumento de gestão que atendesse a todos.

Acabar com o MinC e anexá-lo de novo à Educação, pôr tudo nas mãos de um deputado não familiarizado com o problema, é uma escolha problemática.

A TV estatal tem traço de audiência, dinheiro jogado fora. Por que não fazer dela uma incubadora de pequenas empresas culturais? Isso é só uma possibilidade. Sei que passível de condenação, sob o rótulo de mercantilismo. O mecenato é frágil. Fora do mercado, não há Estado que nos ampare. Ainda mais falido e com grandes problemas sociais.

Existem situações em que o Estado financia um grupo artístico. Mas grupos de reconhecido prestígio cultural, como é o de Pina Bausch, na Alemanha. Os americanos promoveram um tour mundial do Modern Jazz Quartet. Em plena recessão, comissionaram o escritor James Agee e o fotógrafo Walker Evans para produzir um belo livro: Vamos Elogiar o Homem Comum.

Tudo isso é calculado. No caso do Modern Jazz, como exercício do soft power, que também, dentro dos limites, podemos exercitar. No caso do livro, foi uma tentativa de levantar o moral, mostrando a força do homem comum na devastadora crise econômica.

Se o problema for só dinheiro, é preciso lembrar que se pode ter uma estrutura mais ágil e ampliar as parcerias com a iniciativa privada. E com boas ideias, em vez de apenas isenções.

É preciso vir mais devagar. Os novos dirigentes devem perceber que fecharam vários ministérios e só dois deram o que falar: os da Cultura e da Ciência. Espero que não confundam a cultura com um grupo de artistas. Ela envolve também milhares de trabalhadores na indústria e, sobretudo, o afeto de grande parte dos brasileiros.

No Brasil, muita coisa ainda gira em torno desta quase ficção: direita-esquerda. Se acham, por exemplo, que um Ministério da Cultura é algo de esquerda, lembrem-se de André Malraux no governo De Gaulle. Embora tenha lutado na Guerra Civil Espanhola, não era de esquerda. De Gaulle, muito menos.

José Serra assumiu a política externa. A cultura tem um papel econômico e simbólico em nossa relação com o mundo. Não conheço sua opinião, mas seria interessante saber como, para ele, cultura e política externa se entrelaçam, que instrumento é o adequado para o governo.

Por favor, saquem a sua tesoura, mas também algumas ideias. Não comecem cortando no pescoço.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 21 / 05 / 2016

O Globo
"Governo prevê rombo de R$ 170,5 bi este ano"

Déficit é corrigido para incluir queda de receitas e ajuda a estados

Equipe econômica desbloqueia R$ 36,7 bi para pagar atrasados do PAC e despesas de Saúde, Defesa e diplomacia. Meirelles diz que nova meta, que não inclui CPMF, é realista e não será mais alterada em 2016

O governo Michel Temer anunciou ontem a nova meta fiscal de 2016, que agora prevê um rombo inédito de R$ 170,5 bilhões nas contas federais. O número, segundo o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, é “transparente e realista” e não será revisto. O governo Dilma previra inicialmente um superávit de R$ 24 bilhões para o ano. A equipe econômica surpreendeu ao liberar gastos para Saúde, Defesa, diplomacia e Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas argumentou que são despesas essenciais ao funcionamento da máquina pública. Na segunda-feira, o presidente interino, Michel Temer, irá pessoalmente ao Congresso explicar aos parlamentares a nova meta, que o presidente do Senado, Renan Calheiros, promete votar em sessão conjunta no dia seguinte.   

Folha de S.Paulo
"Governo Temer prevê rombo de R$ 170,5 bilhões em 2016"

Nova gestão descongela R$ 21 bi de despesas e diz que, assim, garante funcionamento de órgãos federais

O governo de Michel Temer (PMDB) estima que fechará o ano com R$ 170,5 bilhões de despesas a mais que as receitas previstas, fora gastos com juros. Em março, a gestão Dilma Rousseff (PT) estimava um rombo de R$ 97 bilhões. A projeção anterior, diz o ministro Henrique Meirelles (Fazenda), previa aumento de receitas incompatível com a realidade econômica. Foram incluídos itens como a renegociação de dívidas estaduais e gastos da Defesa. O novo cálculo não considera eventual socorro à Eletrobras, corte de gastos ou alta de receita que dependa de aprovação do Congresso, como a recriação da CPMF. A proposta precisa ser autorizada já na próxima semana. O governo planeja liberar R$ 21 bilhões dos R$ 45 bilhões congelados (47%) pela gestão petista em fevereiro e março. Para Meirelles, essa medida garantiria o funcionamento dos órgãos federais ao longo do ano. A previsão é de superavit de R$ 6,6 bilhões de Estados e municípios,reduzindo o deficit do setor público para R$ 164 bilhões. A gestão Temer anunciará na segunda (23) medidas para conter o desequilíbrio fiscal. 

O Estado de S.Paulo
"Governo refaz conta e projeta rombo de R$ 170,5 bilhões"

Nova equipe econômica incluiu na meta fiscal todos os pagamentos em atraso

A meta fiscal, que terá de ser aprovada pelo Congresso na semana que vem, foi fixada com um rombo de R$ 170,5 bilhões para o governo central depois do inventário feito pela equipe econômica do presidente em exercício, Michel Temer. O valor corresponde a 2,75% do PIB. Os cálculos incluem todos os pagamentos em atraso, o que acrescentou R$ 73,9 bilhões ao rombo previsto pela administração de Dilma Rousseff, de R$ 96,6 bilhões. “É uma meta realista e estimada dentro de critérios rigorosos”, disse o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, refutando a ideia de que estaria afrouxando as rédeas do ajuste prometido antes do afastamento de Dilma. Integrantes do governo chegaram a divulgar previsões de déficit de até R$ 200 bilhões. Se a meta não for aprovada, o Orçamento deste ano terá de sofrer um corte de R$ 137,9 bilhões, além dos R$ 44,653 bilhões já contingenciados pelo governo afastado.       
           

sexta-feira, maio 20, 2016

Taylorcraft


Coluna do Celsinho

Caldo de galinha

Celso de Almeida Jr

Nesta última quarta-feira a noite, tomando um caldinho com um amigo que trabalha em instituição militar, soube da penúria de seu departamento.

Recursos contingenciados.

Ações de capacitação comprometidas.

Projetos congelados.

Na manhã seguinte, leio nos jornais resolução do Partido dos Trabalhadores que contém, entre outras avaliações conjunturais, o seguinte parágrafo:

“Fomos igualmente descuidados com a necessidade de reformar o Estado, o que implicaria impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público Federal; modificar os currículos das academias militares; promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista; fortalecer a ala mais avançada do Itamaraty e redimensionar sensivelmente a distribuição de 5 verbas publicitárias para os monopólios da informação.”

Já incomodados com os grandes desafios orçamentárias que enfrentam, comandantes das Forças Armadas ficaram ainda mais irritados com as palavrinhas provocativas acima.

Pois é...

Aos poucos, o país vai conhecendo o que de fato o projeto petista ambicionava.

Experiente, Michel Temer não mexe nesse vespeiro.

E, como indicam suas ações até aqui, mostra que cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

O tamanho da encrenca

Alexandre Schwartsman
As contas públicas se encontram em estado grave, fruto de anos de descaso, e a solução para o problema envolve uma equação política complicada. Não está claro que o novo governo consiga resolvê-la, embora suas chances sejam bem melhores do que as da administração anterior.

Para dar uma ideia do tamanho da encrenca, no ano passado o governo federal gastou quase R$ 1,2 trilhão (é "trilhão" mesmo), quase um quinto de tudo o que foi produzido no país, o PIB, em 2015. O conjunto dos Estados gastou R$ 536 bilhões, quase um décimo do PIB.

Sem contar, portanto, os mais de 5.500 municípios, a despesa não financeira do setor público "comeu" pouco menos de 30% do PIB, montante que deve se manter aproximadamente constante em 2016. Muito gasto, mas pouco investimento, que, entre Estados e União, não passou de 2% do PIB, irrisório diante das necessidades do país.

Não é só o tamanho do gasto que preocupa; também seu ritmo de crescimento tem superado persistentemente o do produto. Entre 2012 e 2015, descontada a inflação, os gastos federais cresceram 5% ao ano, enquanto no caso dos Estados a expansão foi algo mais modesta, na casa de 2% ao ano. Já o PIB...

Essa dinâmica perversa se origina principalmente do dispêndio obrigatório do governo, que subiu 6% ao ano no caso do governo federal e 3% ao ano para o conjunto dos Estados. Os motivos são vários: regras de reajustes de Previdência e funcionalismo, ausência de idade mínima para aposentadoria, vinculações orçamentárias, limites mínimos para certas despesas, para mencionar apenas alguns.

Isto se traduz num Orçamento público no Brasil extraordinariamente amarrado. No caso federal, de cada R$ 100 de gasto, o governo pode dispor livremente de pouco menos de R$ 10; o resto é mandatório.

Boa parte disso resulta de disposições constitucionais, algumas datando ainda de 1988, outras de períodos mais recentes. De uma forma ou outra, contudo, significam que, sem mudança de regras, as despesas seguirão crescendo em ritmo superior ao do PIB, impossibilitando na prática qualquer ajuste fiscal e, portanto, o controle do endividamento público.

A conclusão inescapável é que a principal tarefa da nova administração envolve convencer o Congresso a mudar a Constituição para adequar o ritmo de crescimento das despesas à expansão do PIB, escapando da armadilha em que fomos colocados pela política econômica anterior.

No entanto, o que parece óbvio para nós, tecnocratas, envolve custos significativos para qualquer político, que certamente terá imensas dificuldades para explicar a seu eleitor ter apoiado medidas que postergaram seu acesso à aposentadoria ou que reduziram o montante de recursos direcionado à saúde ou à educação.

Houve, é bom que se diga, momentos em que o país conseguiu se mobilizar para levar adiante reformas significativas, esforço que se estendeu por vários mandatos, de Collor a Lula, e que foi imprudentemente negligenciado nos últimos dez anos.

Não é claro, porém, que a atual configuração das forças políticas se alinhe no sentido de avançar sobre esses temas; pelo contrário, o Brasil permanece dividido, se não hostil, à mensagem reformista. Apesar de bons nomes na equipe econômica, simplesmente não consigo ficar otimista com o que nos espera. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 20 / 05 / 2016

O Globo
"Parente: Petrobras não terá mais indicações políticas"

Novo presidente diz que ‘gestão será totalmente profissional’

Orientação foi dada por Temer e também uma condição para aceitar o cargo, afirma. Empresários e analistas aprovam escolha. Estatal tem R$ 450 bi em dívidas e plano de vender US$ 14 bi em ativos

Pedro Parente, ministro da Casa Civil no governo Fernando Henrique Cardoso, foi anunciado ontem como novo presidente da Petrobras. Técnico com habilidade política e experiência na gestão de crises, Parente conduziu o racionamento de energia em 2001. Seu nome foi bem recebido por empresários e analistas do mercado. Logo após o anúncio, Parente disse que não haverá indicações políticas para a estatal. Segundo ele, essa foi uma orientação feita pelo presidente interino, Michel Temer, e também uma condição para que aceitasse o convite. As ligações entre diretores da estatal e políticos estiveram no centro do escândalo de corrupção revelado pela Lava- Jato. A estatal acumula prejuízos nos últimos dois anos e tem uma dívida de R$ 450 bilhões. Segundo analistas, Parente terá o desafio de reerguer a companhia e conduzir o ambicioso plano de venda de ativos da Petrobras, que pretende se desfazer de US$ 14 bilhões.   

Folha de S.Paulo
"Pedro Parente, ex-ministro de FHC, chefiará Petrobras"

Alvo da Lava Jato, estatal enfrenta queda do preço do petróleo e dívida de R$ 450 bi

Pedro Parente, ex-ministro da Casa Civil de Fernando Henrique Cardoso, aceitou convite do presidente interino, Michel Temer, e assumirá o comando da Petrobras. O engenheiro substitui Aldemir Bendine, que sucedeu Graça Foster no início de 2015. Ele chefiou a equipe que enfrentou o apagão de energia elétrica em 2001. Em 2002, passou a atuar no setor privado. Integrou conselho de administração de empresas como a TAM, presidiu a Bunge Brasil e é sócio de uma gestora de fortunas. O executivo tem a missão de reanimar uma estatal com dívida de R$ 450 bilhões e afundada no escândalo descoberto pela Lava Jato. Ele afirmou que a empresa não vai aceitar indicações políticas e que meta é profissionalizar a companhia. Seu antecessor deixa a Petrobras 14 meses após sucessivos cortes de investimentos, custos e funcionários. Mas as ações não foram suficientes para compensar esqueletos de gestões anteriores e perdas com a queda do preço do petróleo. 

O Estado de S.Paulo
"Temer suspende novas contratações do Minha Casa"

Plano de 2 milhões de imóveis é abandonado; ministro fala em nova meta ‘realista’

O governo Michel Temer abandonou a meta traçada por Dilma Rousseff de contratar 2 milhões de moradias do Minha Casa Minha Vida até o fim de 2018. Em entrevista ao Estado, o ministro das Cidades, Bruno Araújo, disse que a terceira etapa inteira do programa – e não apenas a modalidade Entidades – está suspensa e passará por “aprimoramento”. Araújo estimou em 40 dias o tempo necessário para fazer um raio X da principal vitrine de seu ministério. O ministro informou que a nova meta para o Minha Casa dependerá da análise das contas públicas a cargo da equipe econômica. “É preferível que identifiquemos os reais limites do programa e os números anunciados sejam o limite de contratação”, afirmou. Para ele, “metas realistas” não criam expectativas falsas tanto em empresários – que precisam planejar as obras – quanto em beneficiários.       
           

quinta-feira, maio 19, 2016

Física


Opinião

A doutrinação mais perigosa

Contardo Calligaris
Na adolescência, os contos de Hemingway eram meu modelo de estilo, e eu tentava imitá-lo: frases curtas, coordenadas, repetições frequentes etc. Imaginava que, dessa forma, eu escreveria sem retórica: só os fatos, sem a tentativa de convencer ninguém de nada.

Eu estava errado: o estilo dos contos de Hemingway é tão retórico quanto a escrita de um bacharel em direito do século 19. A retórica do bacharel incluía a vontade de falar diferente do povo e de se diferenciar dele. A de Hemingway, ao contrário, incluía a vontade de parecer espontâneo e "natural".

Em geral, a gente quase sempre acha que nossa escrita e nossa fala são "naturais", enquanto as dos outros são infestadas pela retórica. Na verdade, não há escrita ou fala que não sejam retóricas.

Guardemos essa constatação e vamos ao tema de hoje. Como assinala e discute o editorial da Folha de 15 de maio, na Câmara dos Deputados, em várias Assembleias Legislativas estaduais e Câmaras Municipais, "tramitam projetos contra a 'doutrinação ideológica' [das crianças] em matéria política, religiosa ou sexual".

Em Alagoas, onde a legislação já foi adotada, o professor deve evitar conteúdos que estejam "em conflito com as convicções morais, religiosas ou ideológicas dos estudantes ou de seus pais ou responsáveis".

O movimento Escola sem Partido chega a oferecer um modelo de notificação anônima para os pais denunciarem os professores que pratiquem "doutrinação" na escola.

Sou contra doutrinação, de todo tipo. Justamente por isso, parece-me bom que os professores proponham conteúdos diferentes do que os pais já pensam e já tentam impor às crianças. Sem isso, ir para a escola para o quê? Aluno bom é o que critica a casa graças ao que aprende na escola, e a escola graças ao que aprendeu em casa.

Não gostaria que meus filhos fossem doutrinados em marxismo (qual marxismo, aliás?), mas me parece impensável que eles não entendam nada e não leiam nada de um pensamento que foi a maior paixão intelectual do século 19 e do século 20. Também não gostaria que meus filhos fossem doutrinados em Bíblia (qual Bíblia, aliás?), mas me parece impensável que eles não leiam nada do livro que foi a referência central da cultura ocidental durante séculos.

A maior garantia contra conteúdos "invasivos" deveria ser a variedade das ideias que uma criança encontra na escola. No meu ginásio, o professor de filosofia era trotskista. Eu, na época, estava fundando o círculo estudantil Piero Gobetti (liberal e anti-fascista italiano). O professor de latim era monarquista: admirávamos seus poemas, mas éramos todos republicanos. Minha lembrança é que, longe de aderir à ideologia de um ou outro, foi discordando que aprendemos mais –discordando deles e dos nossos pais.

Aqui vem um problema mais sério. É fácil inventar sistemas de controle contra a transmissão de ideologias reconhecíveis. Por exemplo, era fácil se proteger do marxismo do professor de filosofia ou do monarquismo do professor de latim. Bem mais difícil era se proteger contra o professor de italiano, o qual não tinha "ideias" para "doutrinar" ninguém: ele apenas distribuía trivialidades como se, por serem triviais, elas não merecessem nossa atenção crítica. É o exemplo do começo: assim como não tem escrita que não seja retórica, não tem pensamento que não seja ideológico.

Como proteger as crianças contras as ideologias que se apresentam como jeitos "naturais" de pensar? Como evitar que elas aceitem ingenuamente os clichês que são transmitidos como "naturais"?

Receio que, retirando as ideologias explícitas (que podem ser combatidas, discutidas e recusadas), só reste para as crianças a ideologia do círculo da padaria, que é a mais perniciosa, porque parece ser o pensamento "espontâneo" de "todos".

Os próprios doutrinadores, nesse caso, sequer acham que estão doutrinando, porque concebem os clichês do seu pensamento como expressão da "natureza humana".

Você se pergunta quais são os conteúdos dessa ideologia implícita que contamina nossas crianças às escondidas? Seria bom voltar ao "Dicionário das Ideias Feitas", de Gustave Flaubert (Nova Alexandria).

PUDOR: mais belo ornamento da mulher. GOZO: palavra obscena. DEUS: o próprio Voltaire o afirmou: "Se Deus não existisse, precisaríamos inventá-lo". DEICÍDIO: indignar-se contra, embora seja um crime pouco frequente.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 19 / 05 / 2016

O Globo
"Escolha de líder mostra que Temer dependerá de Cunha"

Por maioria, cargo é entregue a um aliado do deputado afastado

Integrante do pequeno PSC, André Moura é réu em três processos no STF e cuidará da articulação entre o Planalto e a Câmara, que discutirá projetos importantes para recuperação da economia

Réu da Lava-Jato e afastado da presidência da Câmara pelo STF, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) mostrou força ao garantir um aliado no cargo de líder do governo Temer na Casa, o deputado André Moura (PSC-SE), que responde a três processos no STF e pertence a um partido nanico. Temer cedeu à pressão do chamado centrão, grupo comandado por Cunha e que reúne 291 deputados, o que deixou claro que o novo governo dependerá do presidente afastado da Câmara para aprovar medidas impopulares necessárias para recuperar a economia. A decisão causou mal-estar entre aliados de Temer, desagradando especialmente ao DEM, que queria Rodrigo Maia. “Isso terá consequências ruins para o governo”, disse o líder do partido, Pauderney Avelino.   

Folha de S.Paulo
"Serra diz que novos acordos bilaterais são prioritários"

Em primeiro discurso como chanceler, tucano critica ‘penúria’ do Itamaraty

Em seu primeiro discurso à frente do Itamaraty, o ministro José Serra afirmou que o país deixará de guiar sua diplomacia por interesses “de um governo ou de um partido”, em referência aos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Ele apresentou dez novas diretrizes. A principal é que o Brasil vai priorizar acordos bilaterais em vez do multilateralismo adotado pela gestão Lula em especial — para Serra, o modelo isolou o país. O chanceler fez menção à Argentina como parceiro preferencial na América Latina, país ao qual deve fazer sua primeira viagem como chanceler,no domingo (22). Citou ainda EUA, China, Japão e União Europeia como prioridades da pasta. No discurso, Serra buscou dirimir receios de que terá foco só no comércio exterior. Segundo ele, o Itamaraty será vigilante a violações da “democracia, liberdades e direitos humanos em qualquer país”, em recado claro a países como a Venezuela. O chanceler fez aceno ao corpo diplomático e servidores do órgão ao prometer se esforçar para tirar o Itamaraty do estado de “penúria” . José Serra pediu mais de R$ 800 milhões ao Ministério do Planejamento para sanear a pasta. 


O Estado de S.Paulo
"Itamaraty deve servir ao País, não ao partido, afirma Serra"

Tucano assume Ministério das Relações Exteriores com críticas ao PT

O senador José Serra (PSDB-SP) criticou gestões anteriores do Itamaraty sob comando do PT ao tomar posse ontem como ministro das Relações Exteriores. O tucano anunciou dez diretrizes da “nova política externa brasileira”. A número um, segundo ele, é que a diplomacia deve refletir interesses de toda a sociedade, não de um só segmento. “Deve servir ao Estado, não a um governo, e jamais a um partido.” Serra afirmou que a relação com países em desenvolvimento, priorizada na gestão anterior, não será abandonada, mas redirecionada.Também prometeu uma guinada em busca de resultados, sobretudo no comércio, anunciou incremento de negociações do Brasil com países e não com blocos e disse que a Argentina será o principal foco de sua gestão. Na Organização dos Estados Americanos (OEA), o representante dos Estados Unidos, Michael Fitzpatrick, disse que o impeachment de Dilma Rousseff respeitou a Constituição e as instituições brasileiras.       
           

quarta-feira, maio 18, 2016

Física


Opinião

O nome do jogo é Nezinho Alencar

Elio Gaspari
Existe a agenda do século 21, que pede banheiros para transgêneros, história d'África nos currículos e livre consumo de maconha. É bonita e moderna, mas embute um truque. Discutindo-se a agenda do 21 esquecem-se os restos a pagar do 19.

No 19, os patriarcas escondiam-se na escravidão para viver naquilo que Gilberto Freyre chamou de "intoxicação sexual". No 21, essa figura do oligarca, senhor de seus domínios, perdeu espaço, mas ainda vai bem obrigado.

No dia 23 de janeiro de 2016 deste século 21, o ex-senador Manoel Alencar Neto (PSB-TO), também conhecido como Nezinho Alencar, foi preso pela Polícia Federal sob a acusação de ter abusado sexualmente de duas meninas menores, uma de seis e outra de oito anos.

Nezinho é uma próspero político do Estado de Tocantins e chegou ao Senado em 2005, cavalgando uma suplência. Esteve na cadeira por alguns meses, durante os quais honrou a base governista, defendeu a prorrogação das dividas do agronegócio, falou em nome do "choro de mães de família", pediu mudanças na legislação trabalhista e lembrou ter começado sua vida política nos "movimentos estudantis pelas liberdades democráticas". Na região de Guaraí há quem peça bênção a Nezinho.

No governo Temer o PSB de Nezinho continua aninhado no Planalto e o pernambucano Fernando Coelho Filho ganhou o Ministério da Integração Nacional. Seu pai é o senador Fernando Coelho, que por sua vez é sobrinho do ex-governador Nilo Coelho, filho do coronel Quelê, o patriarca dos Coelho de Petrolina (PE).

Nezinho foi preso porque um vaqueiro escondeu um celular numa árvore e fotografou-o, com a cabeça branca de seus 67 anos, bolinando duas crianças, uma da quais mantinha no colo. Em nenhum momento ele desmentiu a veracidade da cena.

Em março o juiz Ricardo Gagliardi, da 1ª Vara Criminal de Colmeia soltou o ex-senador argumentando que "o fato de o investigado ser colocado em liberdade em nada afronta a ordem pública". Pode ser, mas por via das dúvidas, o vaqueiro e outras nove pessoas de sua família estão hoje escondidos, sob proteção da Polícia Federal.

Os advogados de Nezinho defendem-no com dois argumentos. Primeiro, foi tudo "armação" do pai das meninas. Tudo bem, um pai analfabeto e pobre deve ser sempre o primeiro suspeito, mas quem está na fotografia bolinando as crianças é o ilustre ex-suplente de senador pelo PSB. Na segunda linha de defesa, o bolinador teria agido sob influência de antidepressivos misturados a álcool. Em suma, Nezinho Alencar é a verdadeira vítima, pois até chorou quando lhe mostraram a cena. Não chorava quando mantinha a criança no colo. Tomara que nenhum consumidor de álcool com antidepressivos cruze com familiares de Nezinho ou de seu advogados.

Felizmente, a repórter Renata Mariz, do "Globo", recuperou o caso do vaqueiro e de suas filhas. Eles vivem com medo. Fazem bem, porque o doutor continua acusando-os de "armação" e até hoje não passou pela sua cabeça pedir desculpas por ter bolinado crianças, filhas de um empregado.

O pai das duas meninas dá uma aula de ciência política aos novos poderosos de Brasília e aos barbudos que acreditaram numa aliança com a oligarquia. Segundo ele, Nezinho não estaria solto se tivesse "mexido com a filha do juiz, do delegado, do promotor ou de outro fazendeiro". 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 18 / 05 / 2016

O Globo
"Reforma deve afetar trabalhadores na ativa"

Fazenda quer mudança ampla em aposentadorias para conter rombo

Meirelles diz que é preciso diferenciar ‘expectativa de direito’ de ‘direito adquirido’. Só quem já cumpriu os requisitos para se aposentar não sentirá as mudanças. Governo pretende enviar a proposta em 30 dias

A proposta de reforma da Previdência que o governo enviará ao Congresso nos próximos 30 dias vai prever mudança ampla, que afetará todos os trabalhadores na ativa, mas com regras de transição para reduzir impactos para quem está perto de se aposentar, informam GERALDA DOCA e MARTHA BECK. Apenas quem já cumpriu os requisitos para pedir aposentadoria não terá os benefícios alterados. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, destacou que é preciso diferenciar “expectativa de direito” de “direito adquirido”. O secretário de Previdência será o economista Marcelo Caetano. O governo tem de resolver o rombo fiscal, e uma reforma só para novos trabalhadores teria efeito nas contas apenas em 40 anos. Sindicatos resistem às mudanças.   

Folha de S.Paulo
"Escolha de líder na Câmara racha base aliada de Temer"

Siglas que somam 350 deputados indicam aliado de Cunha; PSDB e DEM rejeitam

Cinco dias após assumir, o presidente interino, Michel Temer (PMDB), ainda não conseguiu definir os congressistas que vão liderar a base de apoio no Congresso. Partidos aliados do peemedebista estão rachados sobre a escolha do líder na Câmara dos Deputados. Sob influência do presidente afastado da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), partidos que reúnem 350 das 513 cadeiras defendem o nome do deputado André Moura (PSC-SE) para o posto. Ele integra a tropa de choque que tenta barrar a cassação do mandato de Cunha. A indicação endossada por PMDB e siglas do “centrão”, como PP e PR, é rejeitada pela antiga oposição à presidente afastada Dilma Rousseff (PSDB, DEM e PPS). Eles apoiam Rodrigo Maia (DEM-RJ), também próximo a Cunha, tal qual os outros cotados do PP, PTB e PSD. Há divergências ainda sobre a permanência do interino Waldir Maranhão (PP-MA) no comando da Câmara. No Senado, Temer deve escolher Ana Amélia (PP-RS) ou Simone Tebet (PMDB-MS) para a liderança do governo, após críticas sobre a falta de mulheres na gestão. 

O Estado de S.Paulo
"Mercado aprova equipe econômica, mas cobra medidas"

Sem apresentar propostas, Meirelles anuncia Ilan Goldfajn no Banco Central

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, confirmou o nome de Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú, para a presidência do Banco Central, e de mais três novos secretários – Mansueto Almeida, na Secretaria de Acompanhamento Econômico, Carlos Hamilton, na de Política Econômica, e Marcelo Caetano, na de Previdência. Eles terão como missão fazer o ajuste fiscal e controlar as despesas públicas. O “time de Meirelles”, formado por executivos e pesquisadores de perfil liberal, agradou ao mercado financeiro. Mas a falta de medidas concretas para sinalizar como o País poderá sair da crise começa a causar ansiedade. Meirelles voltou a dar sinais em direção à reforma na Previdência e ao corte de despesas, mas não avançou nos detalhes. Diante da pressão por medidas, o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, pediu “paciência” e “um tempo mínimo”.       
           
 
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