sábado, maio 14, 2016

Física


Opinião

Síndrome de Campinas

Alexandre Schwartsman
Depois de "o cachorro comeu minha lição de casa", o Oscar de Desculpa Mais Esfarrapada vai para Márcio Holland (ex-secretário de Política Econômica), que assim justificou o excesso de gastos, origem da crise atual: "Passamos quatro anos no escuro, achando que os investimentos no país estavam caindo porque as estatísticas do IBGE apontavam para taxas inferiores a 20% do PIB".

A culpa pela crise, portanto, seria do IBGE, ou melhor, do governo, que "vê as estatísticas como se fosse uma coisa secundária e não libera os recursos necessários para o IBGE fazer bem o seu trabalho".

A hipocrisia, porém, tem perna curta. No final de 2012, Holland afirmava, em entrevista proclamando as virtudes da Nova Matriz Econômica, que estávamos "numa fase de expansão muito forte do investimento" e que "o Brasil [era] um dos poucos países do mundo que [tinham] uma expansão acumulada de investimento acima de 60% nos últimos oito anos".

É verdade que o IBGE promoveu uma revisão das contas nacionais em 2015, revelando que o crescimento em 2011 fora maior do que o inicialmente estimado, mas isso não justifica o erro, ainda mais diante de sinais inequívocos dos desequilíbrios gerados pela Nova Matriz, como a persistência da inflação, que registrou média superior a 6%, a despeito do controle de preços administrados e da nova metodologia no cálculo do IPCA.

Em particular, a inflação de serviços, impulsionada pelo aumento dos salários acima da produtividade, manteve-se entre 8% e 9% –outro sintoma da inadequação da política devidamente desconsiderado pela equipe econômica.

Já as contas externas mostravam piora visível desde meados de 2012, mesmo com preços de commodities ainda elevados, culminando no deficit recorde de 2014.

Holland quer nos convencer (ou se convencer?) de que o carro foi dirigido apenas com o olho no velocímetro, sem atenção às trepidações e ruídos, indicações dos problemas graves que hoje enfrentamos.

Questionado ainda sobre as fraudes contábeis, raiz do processo de impedimento, afirmou não ter nenhuma responsabilidade, pois "não tinha controle nenhum do caixa do governo para avaliar a qualidade daquela execução orçamentária (...). Cada programa do Tesouro Nacional (...) não era a minha área que olhava. Era a Secretaria do Tesouro que olhava isso".

Esse pretexto também não se mantém. Embora em 2012 Holland ainda se achasse qualificado para falar de política fiscal, jurando que no ano seguinte a meta fiscal seria cumprida (o que, claro, não ocorreu), não faltava quem alertasse para as trapaças cometidas pelo Ministério da Fazenda.

Basta um passeio rápido pelo excelente Blog de Mansueto Almeida para perceber que as críticas à contabilidade criativa de governo já eram consensuais entre economistas que acompanhavam as contas públicas. Se o então secretário de Política Econômica preferiu ignorar os avisos, o fez por sua conta e risco.

O elemento comum a ambas as afirmações é a dificuldade insuperável de encarar os problemas de forma adulta. A culpa é sempre de um terceiro; jamais de si próprio.

Obviamente Holland é irrelevante. Já os sintomas que apresenta são reflexos de uma síndrome que acomete nossos keynesianos de quermesse, e, por extensão, o governo: a completa incapacidade de admitir seus próprios erros.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 14 / 05 / 2016

O Globo
"Meirelles não descarta alta temporária de impostos"

Governo cortará 4 mil cargos de confiança
Padilha: sem ajuste, servidor não receberia
Reforma da Previdência terá idade mínima
Meta fiscal deverá prever déficit maior


Em sua primeira entrevista coletiva como ministro da Fazenda, Henrique Meirelles não descartou aumentar impostos. Quando perguntado sobre a volta da CPMF, disse que o objetivo do novo governo é reduzir a carga tributária, mas afirmou que, neste momento, a prioridade é o equilíbrio fiscal: “Caso seja necessário um tributo, ele será aplicado mas, certamente, temporário.” Meirelles defendeu a reforma da Previdência, com a fixação de uma idade mínima. O ministro do Planejamento, Romero Jucá, pretende aprovar a meta fiscal com ressalvas porque o déficit deste ano poderá superar R$ 96 bilhões. Ele anunciou a meta de cortar 4 mil cargos de confiança até dezembro. Se nada for feito, faltará dinheiro para pagar a servidores, disse Eliseu Padilha, da Casa Civil. “O partido que estivesse hoje no governo, independentemente da ideologia, teria de adotar essas medidas para ter, até o fim do ano, condição de pagar salários”, alertou Padilha.        

Folha de S.Paulo
"Meirelles admite recriar CPMF e quer idade mínima no INSS"

Ministro da Fazenda disse defender tributação menor, mas sua prioridade é recuperar a economia

Em sua primeira entrevista à frente do Ministério da Fazenda, Henrique Meirelles afirmou nesta sexta-feira (13) que o governo Michel Temer (PMDB) pode apoiar a proposta de recriação da CPMF como um tributo temporário. Segundo o ministro, o equilíbrio fiscal e a redução da dívida pública “insustentável” são prioritários no momento, ainda que ele queira diminuir a carga tributária. Meirelles disse que a eventual recriação do tributo pode ser necessária para, junto a outras medidas, recuperar a confiança na economia, reativar o consumo e o investimento e criar empregos. O ministro quer retomar a proposta de reforma da Previdência com fixação de idade mínima e uma regra de transição para quem já está no mercado de trabalho. No mesmo dia, o ministro do Planejamento, Romero Jucá, disse que o deficit de R$ 96 bilhões da nova meta fiscal proposta pela gestão Dilma Rousseff, ignora queda de arrecadação, renegociação de dívidas estaduais e restos a pagar. O novo valor não foi definido.

O Estado de S.Paulo
"Itamaraty repudia críticas de países vizinhos ao impeachment"

Novo ministro das Relações Exteriores, José Serra reage à Unasul e a bolivarianos; Venezuela chama embaixador

O ministro das Relações Exteriores, José Serra (PSDB), repudiou críticas de países da América Latina e do secretário- geral da União das Nações Sul- Americanas (Unasul), Ernesto Samper, ao impeachment de Dilma Rousseff. O posicionamento marca nova postura do Itamaraty e representa um distanciamento de países cujos governos mantêm boas relações com o PT. Em duas notas, a pasta de Serra cita a Unasul, que alertou para o risco de a “instabilidade” no Brasil se alastrar à região, e os governos de Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua. Em rede nacional de rádio e televisão, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, anunciou a convocação do embaixador do país no Brasil, Alberto Castellar. Pelo princípio da reciprocidade, caso se confirme a retirada do diplomata venezuelano, o Itamaraty poderá chamar de volta seu embaixador em Caracas.       
           

sexta-feira, maio 13, 2016

Lockheed Electra Cutaway


Coluna do Celsinho

Joãozinho do PT

Celso de Almeida Jr.

Há um mês, o conheci.

Foi em Juiz de Fora, Minas Gerais.

Conversa muito agradável.

Em 90 minutos descobri sua trajetória política, desde jovem, a partir de ações sociais.

Atuou nas comunidades eclesiais de base.

Procurava integrar movimentos preferencialmente voltados para o auxílio aos mais pobres.

Trabalhou em estaleiro em Angra dos Reis; em cortume em JF; deu aula em curso técnico, ensinando como soldar.

Curioso, né?

Soldar é unir.

Unir por um boa causa...

Tudo a ver com o João Batista de Almeida.

Com este espírito, foi um dos grandes responsáveis pela criação do Centro de Formação de Liderança Cristã, em Juiz de Fora.

Sem dúvida, um homem muito dedicado aos que mais necessitam.

Sobre a preocupação com moradores de rua, destacou:

"Eles são invisíveis para a maior parte da sociedade. Tropeçamos neles."

Tamanho envolvimento social, com forte influência católica, abriu caminho para a política.

Foi fundador do PT em Juiz de Fora, Secretário Geral do Partido.

Coordenou o Grupo Fé e Política.

Fez parte do Conselho de Segurança Alimentar, ligado a Dom Mauro Morelli.

Conviveu com os mais influentes políticos e pensadores do Partido dos Trabalhadores.

Nutriu especial admiração por Lula, lembrando que nasceu no mesmo ano do ex-presidente, 1945.

Lutou pela implantação de um governo que ouvisse o povo.

Idealizou um governo em que o povo participasse.

Pois é...

Desejou um Brasil igual, um Brasil para todos, um Brasil para os brasileiros.

Num determinado momento, percebeu os rumos perigosos que o partido tomou.

Assustou-se quando ouviu de alto dirigente petista:

"Na América Latina, não tomaremos o poder pelas armas, mas pela boca".

Entendeu onde queriam chegar.

Por isso, deixou o partido, sentindo-se traído em seus sonhos.

Quando conversamos, ele comandava outra legenda, apesar de continuar sendo carinhosamente conhecido como o Joãozinho do PT.

Teríamos outro encontro, mas recebi a triste notícia.

Faleceu ontem, 12 de maio, mesmo dia de seu aniversário.

Curiosamente, na mesma data em que a presidente Dilma era afastada da Presidência da República.

Contrastes...

O PT perdeu o poder.

Os legítimos sonhos do brasileiro João Batista de Almeida não foram perdidos.

Diferente dos dirigentes da estância máxima do Partido dos Trabalhadores, o Joãozinho não ficou devendo nada ao Brasil.

Deixa-nos os melhores exemplos de dignidade, de luta por um amanhã melhor, de esperança e de fé.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Física


Opinião

O kit religião

Luiz Felipe Pondé
Para quem não ouviu falar disso, existe um projeto de lei (PL 679/2013, do deputado estadual Rodrigo Moraes, PSC-SP) que prevê a entrega de um kit bíblico para crianças do ciclo primário. Não sei como será o kit, mas entendo que ele terá textos impressos, vídeos etc.

O projeto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (incrível), reprovado pela Comissão de Educação e está agora na Comissão de Finanças e Orçamento da Assembleia Legislativa de São Paulo. Se for aprovado por duas das três comissões, ele irá para o plenário.

O deputado estadual Gilmaci Santos (PRB-SP), pastor evangélico, posicionou-se contra o projeto num artigo publicado na Folha em 2 de abril (folha.com/no1756706).

O argumento do deputado Gilmaci é que o Estado é laico e a escola deve ser laica. A educação religiosa compete à família, não ao Estado. Além disso, a distribuição de um kit cristão abriria um precedente: todas as religiões presentes no Estado de São Paulo exigiriam com razão que seu próprio kit fosse também distribuído. Cada criança deveria receber o kit cristão (na verdade, vários: um católico, um protestante, um mórmon, um adventista etc.), um kit espírita, um kit da religião afro-brasileira, um kit judeu, um kit muçulmano, um kit mórmon, e kits hoasquerio, hinduista, bahá'í, budista, etc.

Menos do que isso tornaria o projeto de lei contrário à Constituição (sobretudo Título 2, Capítulo 1).

É por isso tudo que sou favorável à distribuição do kit bíblico aos alunos das escolas públicas e privadas –porque, inevitavelmente, o kit virá com outros, um por cada religião, e conhecer a pluralidade e a variedade das crenças religiosas talvez seja o melhor jeito de provocar nas crianças um ceticismo salutar.

Assisti ao filme "Os Dez Mandamentos" no shopping Bourbon, em São Paulo, numa sala quase vazia e misteriosamente "esgotada". Os trailers que precediam o filme tinham sido selecionado para o público cristão. Isso, com a exceção de "Deuses do Egito", que algum distribuidor desavisado considerou bom para o mesmo público dos "Os Dez Mandamentos".

O efeito era paradoxal. No trailer, você via deuses com uma mistura dos superpoderes dos X-men com truculentas paixões humanas (raiva, vingança, rivalidade etc.). A seguir, Iavé parecia igual: brigava com o Faraó, mandava perebas, fazia chover fogo, matava primogênitos, afogava exércitos e de vez em quando aparecia como um arbusto ardente, que não é muito melhor do que a cabeça de pássaro de Horus.

Em suma, o trailer de "Deuses do Egito" deixava o cristão com a curiosa sensação de que seu deus era mais um –sim, claro, aquele que ganhava na briga com o faraó e os outros deuses daquelas terras, mas, mesmo assim, um entre outros.

Voltemos ao Projeto do kit. Quando li o artigo de Gilmaci Santos, pensei que a pluralidade das religiões teria um efeito contrário a qualquer doutrinação. E que essa pluralidade era toda a proteção da qual nossas crianças precisavam. Só mais tarde, dei-me conta de que, vítima da religiosidade dominante, eu estava me esquecendo de algo essencial.

Segundo o censo de 2010, as pessoas que se declaram ateias ou agnósticas (ou ainda que acreditam em algo divino, mas em nenhuma suposta revelação) são mais de 8% da população brasileira. Esse grupo, cuja percentagem quase dobrou em dez anos, é o terceiro mais numeroso depois dos católicos e dos evangélicos.

Mundialmente, os que não se reconhecem em nenhuma religião são mais de 20% –também o terceiro grupo depois dos cristãos (juntando todas as denominações) e dos muçulmanos.

Se o Projeto de Lei do kit bíblico fosse aprovado, seria preciso decidir se os não religiosos teriam o direito constitucional de presentear as crianças com seu proprio kit (mostrando, por exemplo, que é possível ter uma vida moral e plena sem religião alguma). Ou seja, pergunta: os não religiosos são protegidos pela mesma disposição constitucional que garante a liberdade de religião?

O nosso Supremo ponderará, mas é bom notar desde já que a Suprema Corte dos EUA decidiu que a Constituição protege da mesma forma "o direito de escolher qualquer fé religiosa e o de não escolher nenhuma".

Nota: a questão é urgente. Além do projeto do kit bíblico, existe uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que daria às igrejas o poder de oferecer questionamentos ao Supremo Tribunal Federal. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 13 / 05 / 2016

O Globo
"Temer promete ‘governo de salvação’ e Estado menor"

No primeiro discurso, presidente interino diz que protegerá a Lava-Jato

Peemedebista deu posse à sua equipe de 23 ministros, com perfil essencialmente político, e apostou em boa relação com o Congresso Nacional para aprovar reformas como a da Previdência, mas sem mexer em direitos adquiridos

No primeiro discurso após tomar posse com o afastamento da presidente Dilma, o presidente interino, Michel Temer, afirmou ser urgente fazer um “governo de salvação” e anunciou que recorrerá à iniciativa privada para “estancar o processo de queda livre da economia”. Após dar posse aos 23 ministros de sua equipe, Temer defendeu o que chamou que “democracia da eficiência”, com menor participação do Estado na economia. “O Estado não pode tudo fazer”, disse ele, que prometeu, porém, manter programas sociais. Cercado de parlamentares, num tom muito diferente do de Dilma, o presidente interino fez afagos no Congresso e disse que protegerá a Lava-Jato contra qualquer tentativa de enfraquecê-la. Antes da cerimônia, foram confirmados os dois nomes que faltavam: Helder Barbalho (Integração Nacional) e Fernando Coelho Filho (Minas e Energia). A equipe, com perfil majoritariamente político, tem representantes de 11 partidos. Temer aposta na ampla coalizão para aprovar reformas como a tributária e da Previdência. Ele disse, no entanto, que manterá direitos adquiridos.       

Folha de S.Paulo
"Temer assume e defende reformas e gasto social"

Afastada pelo Senado por 55 votos a 22, Dilma Rousseff afirma que resistirá até julgamento
Interino exalta Lava Jato e fala em ‘governo de salvação nacional’
Paulista de 75 anos é o 41º e o mais velho a chegar ao cargo


O vice-presidente, Michel Miguel Elias Temer Lulia, 75, assumiu a Presidência da República nesta quinta-feira (12), após o afastamento da petista Dilma Vana Rousseff, 68, pelo Senado Federal, por 55 votos a 22. É a segunda vez que a Casa instaura um processo de impeachment desde a redemocratização do país, em 1985. Após sessão de mais de 20 horas, finda na manhã de quinta, Dilma foi afastada por até 180 dias. Em caso de condenação, o peemedebista será efetivado, com mandato até 31 de dezembro de 2018. Em discurso na cerimônia de posse de seus ministros, Temer afirmou que manterá programas sociais como Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e Fies. O presidente interino prometeu reformas trabalhista e previdenciária,“ democracia da eficiência” de gastos, corte de cargos políticos, reequilíbrio de contas públicas e melhoria do ambiente de negócios. Louvou a Operação Lava Jato e o combate à corrupção e pediu “um governo de salvação nacional”. Por fim, citou a atualidade do slogan de sua gestão, “Ordem e Progresso”, presente na bandeira nacional. O afastamento marca o fim da era petista no poder. Entre 2002 e 2016, o partido venceu quatro eleições presidenciais, promoveu avanço social mas também desemprego recrudescente e protagonizou escândalos de corrupção. Dilma enfrentou crise econômica, acusações de fraude orçamentária e as maiores manifestações de rua da história. Em discurso, admitiu erros, mas não “crimes”, e chamou o processo chancelado pelo Supremo Tribunal Federal de “golpe”.

O Estado de S.Paulo
"Ao assumir governo, Temer prega união e ‘democracia da eficiência’"

Em pronunciamento, presidente em exercício declara respeito institucional a Dilma e afirma que Lava Jato ‘não será enfraquecida’

O advogado Michel Elias Temer Lulia, de 75 anos, assumiu ontem a Presidência da República após Dilma Rousseff ser afastada por até 180 dias por determinação do Senado. No primeiro pronunciamento, Temer ( PMDB) disse que é urgente pacificar a Nação, unificar o Brasil, fazer um governo de salvação nacional e atingir a “democracia da eficiência”. Também prometeu “manter e aprimorar” programas sociais e garantiu que a Operação Lava Jato “não será enfraquecida”. Temer citou Dilma, declarando “absoluto respeito institucional à senhora presidente”, e pediu apoio de parlamentares para uma base “sólida” que permita aprovar projetos fundamentais. Após acenar até a partidos de oposição e movimentos sociais que o criticam, o presidente em exercício propôs diálogo. “Precisamos do apoio do povo. O povo precisa colaborar e aplaudir as mudanças que venhamos a tomar.” O afastamento de Dilma foi aprovado no Senado por 55 votos a favor e 22 contra.       
           

quinta-feira, maio 12, 2016

Física


Opinião

O momento crucial

Janio de Freitas
Foram muitos os fatores contribuintes para este episódio sórdido da antidemocracia, mas um só momento crucial criado pela própria Dilma Rousseff. Os outros momentos determinantes, dois ou três, foram elaborações típicas da mente de Eduardo Cunha. Ficou lá atrás, e nunca esclarecido por Dilma, o fato que demarcou o fim de muitas coisas, o fim do modo como era vista, o fim de suas possibilidades de ação política, até o fim do governo.

Ainda hoje não se sabe o que ocorreu entre Dilma e o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, um tanto antes ou pouco depois da reeleição. A reportagem decente não percebeu a importância do assunto, e os jornalistas da ficção estavam com abundância de temas. Mas a confrontação de duas pessoas exaltadas a se cobrarem de atos e de culpas teve consequências: a saída de Mantega, sob uma justificativa familiar, mas com o tratamento presidencial de descaso, e a substituição, como todas, sob pressões políticas.

Dilma contornou as pressões com uma nomeação de surpresa. Mas escolher Joaquim Levy, tão identificado com o neoliberalismo que até colaborara com a campanha de Aécio Neves, equivaleu a comunicar à oposição que a presidente estava em pânico com a situação econômica. Sem corrupção dentro do governo, nada poderia dar mais munição aos opositores do que problemas econômicos, não importando a sua dimensão real. Nem que dispusesse de soluções Joaquim Levy poderia adotá-las, imobilizado pela barragem política que associou Eduardo Cunha e Aécio Neves, o tático e o incentivador.

Dilma traiu-se, perdeu-se, traiu o eleitorado e perdeu a companhia dos defensores de um Brasil menos desigual, menos entregue a uma claque de riqueza e improdutividade, e um pouco mais decente. Desde então, foi uma presidente à mercê da oposição. Por sorte sua, oposição conduzida por gente medíocre. Mas nem isso lhe valeu. Sua ação política foi pior que a dos opositores.

Dilma é uma técnica que se supõe também política. Presunção comum entre técnicos, sem igual na área econômica. Suas opções políticas foram ruins como regra. As equipes palacianas de sua escolha criaram uma Presidência lerda, sem criatividade e iniciativa, politicamente míope.

Se, porém, isso explica o governo aturdido com o cerco oposicionista –o parlamentar e o de imprensa/tv/rádio–, não leva a entender a entrega definitivamente desastrosa da Fazenda a Levy –claro que não por ser o sóbrio Joaquim Levy. Ainda hoje Dilma precisa lutar contra o efeito desmoralizante desse ato. Mas nem sequer esboçou uma explicação, no entanto devida: por que a inversão, por que um ministro neoliberal, por que Levy? Absoluta falta de percepção política, sem dúvida. O provável cálculo de uma sedução do poder econômico que, afinal, se voltou contra a feiticeira. E mais, é provável que mais, silenciado e nem por isso esquecido.

Dilma Rousseff errou muito. Mas nem a soma dos seus erros pode justificar a fúria incivilizada que Aécio Neves desfechou logo depois de derrotado pelas urnas, para derrubada do governo legítimo. A par dos erros, o governo Dilma levou a avanços significativos contra problemas sociais. Aí já se notam recuos deploráveis. Por efeito do quase ano e meio de degradação econômica desde o início do segundo mandato, com a ação destrutiva da oposição e a inoperância do governo, forçada em grande parte.

Mas os que tomam o poder não trazem correções. São figurinhas fáceis. Vêm buscar o que deixaram de ter. E dar mais aos que não deixaram de ter mais mesmo nos governos de Lula e Dilma.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 12 / 05 / 2016      

Folha de S.Paulo
"Temer alterará governo para priorizar comércio exterior"

Ao assumir, vice vai comandar principal órgão de formulação de políticas do setor
O vice-presidente, Michel Temer (PMDB-SP), decidiu transferir para a Presidência o comando da Camex (Câmara de Comércio Exterior) em sua futura gestão. A medida tornará o órgão, hoje esvaziado, centro de formulação da política comercial e sinalizará uma de suas prioridades. Para Temer, o setor será uma alavanca da retomada do crescimento. O órgão atualmente é chefiado pelo ministro do Desenvolvimento. A pasta perderá também a Apex, agência de promoção de exportações, que será incorporada ao Ministério das Relações Exteriores, com o senador José Serra (PSDB-SP) à frente. Em estágio avançado, a formação do ministério sofre pressão da bancada do PMDB no Senado, que pleiteia a Integração Nacional, antes oferecida ao PSB. Temer recuou também do convite feito ao deputado Newton Cardoso Jr. (PMDB-MG) para a Defesa após reação negativa dos militares. Se mantida a atual configuração, Temer será o primeiro desde Ernesto Geisel (1974-79) a não incluir mulheres no ministério. 

O Estado de S.Paulo
"A chance de Temer"

Vice de Dilma assume a Presidência da República como desafio de superar uma crise histórica e encerrar a era do PT no poder.       
           

quarta-feira, maio 11, 2016

Física


Opinião

O Maranhão do deputado e do médico

Elio Gaspari
O deputado Waldir Maranhão deu um toque pitoresco à agonia do petismo. No mesmo dia em que passou pelo vexame de tentar congelar o trâmite do impedimento de Dilma Rousseff, a repórter Natuza Nery revelou que Thiago Maranhão, filho do doutor, é funcionário do Tribunal de Contas do Estado, com sede em São Luís. Ele é médico e mora em São Paulo, onde conclui um curso de pós-graduação e trabalha em dois hospitais.

Vale a pena acompanhar as lorotas apresentadas para justificar a boquinha maranhense, que custa à Viúva R$ 6.529,85 mensais. Edmar Cutrim, o conselheiro em cujo gabinete Thiago abrigou-se, informou que o moço comparece ao local de trabalho "duas, três, quatro vezes por semana". A assessoria do pai confirmou que ele trabalhava no tribunal, mas não esclareceu como.

Thiago mantem a boquinha desde o tempo em que era um acadêmico residente em hospitais do Rio. Seu pai é veterinário e já foi reitor da Universidade Estadual do Maranhão. A terra que os sustenta tem índices sociais deploráveis. Os maranhenses vivem cinco anos menos que a média dos brasileiros, e em 2012 o Estado liderava a marca da ruína. Tem 12,9% da população abaixo da linha de pobreza, o triplo da média nacional (3,6%). A linha de corte dessa estatística fixa em R$ 70 a renda mensal mínima necessária para a subsistência. Com a boquinha do doutor Thiago seria possível dobrar a renda de 93 maranhenses.

O deputado veterinário e seu filho médico avançaram sobre a bolsa da Viúva num país onde há três epidemias e Michel Temer fechou um acordo para entregar o Ministério da Saúde ao partido do doutor Maranhão. Em São Paulo, a capital mais rica do país, há 347 mil pessoas nas filas da rede municipal de saúde. A espera por uma cirurgia chega a 314 dias.

Horas depois da divulgação do malfeito do dr. Thiago, o Tribunal de Contas do Maranhão informou que ele foi exonerado. As grandes empreiteiras estão devolvendo dinheiro à Viúva. Talvez a oligarquia maranhense pudesse acompanhá-las.

É esse o Brasil que começou a mudar. Primeiro o moço empregou-se sem trabalhar. Descoberto o ilícito, seus protetores mentiram. Horas depois tentaram lavar o episódio, exonerando-o. Mas nem tudo são flores. Há dias descobriu-se que o fotografo pessoal de Lula recebia R$ 35 mil mensais da Confederação Brasileira de Futebol, cujo presidente não pode pisar nos EUA, onde seu antecessor está em prisão domiciliar. Nenhum presidente americano teve fotógrafo pessoal depois de deixar a Casa Branca e não há notícia de bilionário que tenha esse luxo.

ECO

Recusando-se a discutir a acrobacia do deputado Waldir Maranhão, o senador Renan Calheiros ecoou a presença de espírito do senador Auro Moura Andrade, que na manhã de 25 de agosto de 1961 presidia o Congresso. O ministro da Justiça levou a Auro a carta de renúncia do presidente Jânio Quadros. Esperavam que começasse um debate parlamentar.

O presidente achava que com a renúncia levaria o povo para a rua pedindo que voltasse. Fidel Castro fizera isso com sucesso.

Auro leu o papel, disse que não havia o que discutir, considerou aceita a renúncia e desmanchou o golpe de Jânio. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 11 / 05 / 2016

O Globo
"Senado vota o futuro do Brasil"

Decisão interromperá 13 anos de PT no poder
Dilma recorre ao STF e diz que seguirá lutando
Ex-líder do governo, Delcídio é cassado


Treze anos após a chegada do PT à Presidência, o Senado deve interromper hoje o maior ciclo de um partido no poder pós-redemocratização ao acolher o pedido de impeachment de Dilma Rousseff, o que a afastará do cargo por até 180 dias. Se confirmado, será o primeiro presidente a ter o mandato interrompido desde Fernando Collor, em 1992. Em enquete feita pelo GLOBO, 50 senadores já declararam voto favorável à saída da petista, nove a mais do que o necessário para a abertura do processo. Dilma tentou impedir a sessão de hoje ao recorrer novamente ao STF. O mandado de segurança, que será julgado pelo ministro Teori Zavascki, alega que o processo tem vício de origem por ter sido aberto por vingança pelo presidente da Câmara afastado, Eduardo Cunha. O ministro José Eduardo Cardozo (AGU) afirmou que vai “judicializar até o fim”. E Dilma anunciou que, mesmo afastada, continuará protestando contra o impeachment. Ontem, movimentos sociais e sindicatos fizeram manifestações em 17 estados e no Distrito Federal contra a saída dela, bloqueando estradas. Na véspera da votação decisiva para Dilma e o PT, o Senado cassou o mandato de Delcídio Amaral, ex-petista e ex-líder do governo, acusado de tentar obstruir as investigações da Lava-Jato. Foram 74 votos pela cassação de Delcídio e uma abstenção, sem um voto sequer favorável ao agora delator do esquema de corrupção na Petrobras e no governo. O vice-presidente Michel Temer, que deverá assumir a Presidência tão logo Dilma seja notificada da decisão do Senado, continua tentando fechar a montagem de seu governo. Com uma equipe política, distante do Ministério de “notáveis” que cogitara, o vice escolheu 14 dos 22 ministros que pretende nomear. Entre as novidades, o secretário de Segurança de São Paulo, Alexandre de Moraes, para a Justiça, Blairo Maggi na Agricultura e Bruno Araújo em Cidades.       

Folha de S.Paulo
"Senado deve afastar Dilma; governo recorre ao Supremo"

Ao menos 50 dos 81 senadores votarão pela abertura do impeachment, segundo levantamento feito pela Folha

O Senado deve abrir o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, acusada de fraude orçamentária, e afastar a petista do cargo em sessão que começa na manhã desta quarta (11). A decisão precisa do voto da maioria simples dos presentes — ao menos 50 (62%) dos 81 senadores devem votar pela abertura do processo, segundo apurou a Folha. Nesse caso, Dilma será afastada por até 180 dias e substituída pelo vice, Michel Temer (PMDB), tão logo seja notificada. Prevê-se que o julgamento final pelo Senado ocorra antes desse prazo. Dilma, que nega ter cometido crime de responsabilidade, pode tornar-se o segundo presidente deposto desde a redemocratização. Em 1992, Fernando Collor foi cassado. O Planalto tentava até a noite desta terça (10) anular o impeachment, com a apresentação de recurso ao Supremo Tribunal Federal. A montagem do ministério do governo Temer está avançada. No Congresso, seus aliados articulam a substituição do presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), que tentou paralisar o processo.

O Estado de S.Paulo
"Na reta final, Dilma apela ao STF; Temer prepara pronunciamento"

Na véspera de o Senado votar o impeachment da presidente Dilma Rousseff, o governo entrou ontem mm novo mandado de segurança no STF para tentar impedir a votação e anular o processo. O advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, afirmou que o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), agiu com “desvio de poder” ao aceitar o pedido de afastamento. O ministro Teori Zavascki, relator do recurso, prometeu anunciar decisão pela manhã. Confiante de que Dilma será derrotada, o vice Michel Temer finalizava discurso no qual tentará transmitir mensagem de esperança ao País, combalido após mais de um ano de crises política e econômica. Pelo menos 50 dos 81 senadores se declaravam até ontem favoráveis ao afastamento - é necessária maioria simples. Se o prosseguimento do impeachment for aprovado, Dilma pediu que suspendam a cerimônia de descida da rampa do Planalto. Atos a favor do governo ocorreram em diversas capitais ontem e outros estão programados para hoje.       
           
 
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