sábado, abril 30, 2016

Física


Opinião

A tirania do videoclipe

João Pereira Coutinho
Há uma certa decadência da crítica cinematográfica. Um exemplo: no dia em que passavam 400 anos sobre a morte de William Shakespeare, fui ao cinema para assistir à última adaptação de "Macbeth", a minha tragédia favorita. Sei que o filme já estreou no Brasil (em 2015). Só agora chegou a Portugal.

Havia sinais –bons e maus. Bons: Michael Fassbender como Macbeth (mas não Marion Cotillard; desculpa, chérie, mas Lady Macbeth não é para qualquer uma). Maus sinais: o diretor Justin Kurzel. Estaria errado em minhas vibrações contraditórias?

As críticas diziam que sim (mas não as brasileiras: salve, Thales de Menezes! ). O "New York Times" babava de admiração. A "New Yorker", simpática, era mais comedida; e Anthony Lane, talvez o último moicano, deixou a melhor frase crítica que li sobre o filme ("Michael Fassbender tem menos medo da morte que da declamação", cito de cor).

Mas eram os críticos ingleses que arrepiavam: do progressista "The Guardian" ao conservador "The Daily Telegraph", eis o melhor "Macbeth" de todos os tempos. Sério?

A resposta é não. E volto ao início: há uma certa decadência da crítica cinematográfica porque a nova geração não bebeu o leite da ternura literária. Educada em imagens –dos videogames aos videoclipes– qualquer foguetório visual a deixa de joelhos.

Justin Kurzel agiu em conformidade: ofereceu sangue em quantidades generosas e deixou que o texto fosse uma espécie de "voz off" em "on", com os atores a murmurarem o bardo. Se Kurzel e seus fãs tivessem realmente lido "Macbeth", saberiam que a verdadeira violência da peça não é visual –é literária e filosófica.

"Macbeth" é o mais brilhante tratado sobre a natureza da tirania que conheço. E, se é verdade que a peça tem cinco atos, não é exagero dizer que existem cinco etapas na existência lúgubre de qualquer tirano.

Primeira etapa: a ambição. Enganam-se os que pensam que o tirano é um "monstro moral" vindo de outro planeta. Nunca foi. Macbeth não é: um dos mais bravos guerreiros do rei Duncan, é a tentação do poder que desperta naquele homem –"humano, demasiado humano"– ideias regicidas que ele ainda procura, em vão, reprimir.

Mesmo Lady Macbeth, apesar da sua pérfida determinação exterior, é dilacerada interiormente pelo temor dos seus atos. Ela tem de evocar os mais negros espíritos para que os remorsos não a visitem depois do crime consumado.

Segunda etapa: a dissimulação. Nenhum tirano revela seus reais intentos. Isso é óbvio. Menos óbvia é a visão de Shakespeare sobre a alma do tirano: para realizar os crimes, ele tem igualmente de falsificar a sua consciência. É preciso agir rápido para que a razão não arrefeça a vontade (o célebre "words to the heat of deeds too cold breath gives", ou, em português, "palavras só fazem soprar um hálito gelado sobre o calor das ações").

Terceira etapa: a violência como método. O crime é cometido. Mas, se o sangue só gera sangue, Shakespeare partilha com os filósofos clássicos a intranquilidade perpétua do tirano. Depois do rei, como deixar sobreviver os seus fiéis barões? Como deixar sobreviver Banquo ou Macduff? Aliás, como poupar qualquer sombra que possa fazer sombra a um poder que o tirano reconhece como imoral e ilegítimo?

Iniciam-se as "purgas" –um déjà-vu da história moderna, dos jacobinos franceses aos totalitarismos do século 20.

Quarta etapa: a solidão do tirano. Também aqui Shakespeare segue os pensadores clássicos. De que serve o poder quando somos rodeados por lacaios "constrangidos", de "coração ausente"? O medo é incompatível com o respeito e o afeto. Honra, amor, amigos –tudo isso está interdito.

Quinta etapa: a fatuidade da existência. É o momento em que o tirano, contemplando as cinzas dos seus atos (o cadáver da mulher que amou; o ódio do reino pelo seu trono; os inimigos que se aproximam para o destruir), entende que "a vida não passa de uma sombra que caminha". Tudo foi "som e fúria". Tudo foi feito e desfeito em nome de nada.

O filme de Justin Kurzel, ao oferecer um texto monocórdico, mergulha cada uma das etapas numa sopa visual "kitsch", a que nem sequer falta uma trilha sonora redundante e alguns "ralentis" insuportáveis.

Se o leitor se interessa por Shakespeare, melhor visionar o "Macbeth" de Orson Welles (e, já agora, a edição brasileira da Cosac Naify com tradução de Manuel Bandeira).

Nem a tirania de Macbeth merece a tirania de um diretor de videoclipes. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 30 / 04 / 2016

O Globo
"Temer monta equipe com foco no ajuste fiscal"

Dilma, por sua vez, prepara ‘pacote de bondades’ que eleva gasto público

Ex-presidente do BC, Meirelles é dado como certo para a Fazenda no caso de o vice assumir o governo e escolhe economistas como Afonso Beviláqua e Mansueto Almeida, que têm perfil de contenção de gastos públicos

Num cenário de rombos sucessivos nas contas públicas, o vice-presidente Michel Temer monta a equipe econômica de seu eventual governo com perfil de defesa do rigor fiscal. Entre os cotados por Temer e pelo ex-presidente do BC Henrique Meirelles, dado como certo na Fazenda, estão Mansueto Almeida, para a Secretaria do Tesouro, e Afonso Beviláqua, para o BC. Enquanto isso, a presidente Dilma prepara um “pacote de bondades” a ser lançado amanhã, no 1º de maio, que inclui aumento de gastos e liberação de R$ 180 milhões extras para publicidade.       

Folha de S.Paulo
"Sob pressão, Temer reduz meta de cortar ministérios"

Sob pressão de aliados, o vice-presidente, Michel Temer (PMDB), admitiu a interlocutores que, caso substitua Dilma Rousseff (PT) na Presidência, não conseguirá cortar ministérios como planejava.

Às vésperas da votação do impeachment na Câmara, há duas semanas, estimava reduzir os ministros de 32 para 22, no máximo. A conta já está em 26 e ainda não fecha.

A dificuldade crescente decorre de acordos para garantir o avanço do processo.
Antes na base de apoio de Dilma, PP, PR, PSD e PRB votaram majoritariamente pelo afastamento da petista.

O vice precisa ainda abrir espaços para PSDB, DEM e PPS, que acertaram com o PMDB apoio a Temer no Congresso. O senador José Serra (SP) deve assumir o Ministério das Relações Exteriores.

As secretarias de Portos e Aviação Civil, que antes seriam fundidas em nova pasta de infraestrutura, são negociadas com o PRB e o PR.

Temer recuou também nos planos de unir Educação à Cultura e Esporte ao Turismo.

Já a equipe econômica está quase definida. Em encontro, o vice disse a Henrique Meirelles, cotado para a Fazenda, que ele será o “fiador” e a figura central da economia em sua futura gestão.

Em seguida, Meirelles disse a jornalistas que “restaurar a confiança na solvência futura do Estado brasileiro” será o principal desafio do novo governo.       

O Estado de S.Paulo
"Temer tenta cancelar recesso para antecipar impeachment"

Aliados do vice manobram para suspender férias parlamentares do meio do ano e acelerar julgamento de Dilma

Mesmo antes da votação pelo Senado do afastamento da presidente Dilma Rousseff, interlocutores do vice Michel Temer já articulam com parlamentares a suspensão do recesso parlamentar do meio do ano. O objetivo é acelerar o julgamento final da petista e tentar votar medidas econômicas que deverão ser encaminhadas por Temer ao Congresso até o início da campanha municipal, em 16 de agosto. A iniciativa poderia encurtar em pelo menos 15 dias o prazo para o julgamento de Dilma, previsto para setembro. Em caso de afastamento da presidente, que pode ocorrer em 11 de maio, o vice assume o comando interino do País por até 180 dias, período em que ela será julgada. Para peemedebistas, o recesso parlamentar ajuda Dilma a ganhar prazo, porque a Comissão Especial do Impeachment teria de suspender os trabalhos. A ideia do grupo de Temer é acelerar esse processo para antecipar a confirmação do vice na função de presidente.      
           

sexta-feira, abril 29, 2016

Dh89a DeHavilland Dragon Rapide


Coluna do Celsinho

Meu voto

Celso de Almeida Jr.

Em cinco meses, eleições municipais.

Que beleza!

Escolher vereador e prefeito.

É hora de pesquisar!

Eis o momento para avaliar, melhor, candidatos e candidatas.

São muitos!

Eu conheço vários.

Tudo boa gente.

Excelente!

Ponho minha mão no fogo...

Com luva de amianto, claro!

Não se trata de desconfiar da boa fé dos aspirantes.

Nada disso!

Admiro esse período do calendário eleitoral.

A pré campanha e a campanha sempre revelam novos talentos.

Discursos animados.

Soluções criativas.

Propostas interessantes.

Se serão praticadas, é outra história.

Não temos bola de cristal.

Mas é bom ouvir ideias.

Conhecer pessoas que queiram nos representar.

Vou avaliar direitinho para escolher bem.

Neste sentido, se você também é candidato, parabéns!

Vivemos uma fase de grande desconfiança na classe política e, encarar o desafio, não é para qualquer um.

Vá em frente!

Só não declaro o voto, tudo bem?

Até o último minuto, estarei observando.

Ficarei torcendo para que você me convença, acredite.

Tente!

E boa sorte!

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Dominique

Opinião

De fato e ficção

Alexandre Schwartsman
Mais do que uma guerra de slogans, há em curso um conflito de "narrativas", para usar o termo da moda. A mais comum é o conto do "golpe", que, como notado, entre outros, por Demétrio Magnoli, não é uma tentativa de convencer a opinião pública, mas, na verdade, uma forma de manter a militância aguerrida para as eleições presidenciais de 2018.

Entre as demais, chamou-me a atenção a mais recente justificativa para o fracasso estrondoso do governo Dilma: seria resultado da "agenda do caos" promovida pela oposição, que teria recusado as propostas de reforma econômica, preferindo apostar no "quanto pior, melhor". Em que pese a atuação abaixo da crítica do PSDB no que tange à eliminação do fator previdenciário, trata-se de mais uma história que não para em pé.

A começar porque as raízes do fracasso vêm de muito antes e têm pouco a ver com a atuação do Congresso. A recessão propriamente dita, é bom lembrar, começou ainda em meados de 2014, seguindo-se a um período de crescimento muito abaixo do observado em anos anteriores.

Há, entre economistas que mantêm o saudável hábito de não se esquecer de olhar os dados, um virtual consenso acerca das causas dessa forte desaceleração que culminou na atual crise: por um lado, uma expansão fiscal sem precedentes, da qual fez parte um aumento extraordinário do crédito por meio de bancos oficiais; por outro, um grau de intervenção na economia que só tem paralelo ao registrado durante os governos militares nos anos 1970.

A primeira nos levou a um processo de aumento acelerado da dívida pública, solapando a confiança quanto à sua sustentabilidade. Não por acaso, o risco-país saltou de 1% ao ano para quase 5% anuais, antes de a perspectiva de mudança de governo levar a um recuo para 3,5% ao ano.

Já a intervenção excessiva provocou forte queda do ritmo de expansão da produtividade, de 1,6% anual para -0,5% ao ano, segundo estimativas de Samuel Pessôa.

Ambas resultaram de ações do Executivo, sob comando de Guido Mantega, mas, na prática, como se sabe, da própria presidente. Não se ouviu falar do Congresso; ainda menos das oposições.

Mais revelador ainda, não se pode deixar de lado o comportamento do PT, que, chamado a apoiar o programa de reformas elaborado pelo então ministro da Fazenda Joaquim Levy, fugiu da responsabilidade de forma acintosa. Pesquisa de 0,45 segundo no Google mostra a reação contrária do PT à proposta de reforma da Previdência, por exemplo, e exercícios similares revelam a mesma resposta no que diz respeito a temas como mudanças na política de salário mínimo ou vinculações orçamentárias.

De forma simples: quem se opôs às reformas foram principalmente o PT e seus líderes, que, a propósito, derrubaram Levy.

Não é por outro motivo que o mercado "comemora" (de maneira otimista demais, mas fica para outro dia) cada passo mais próximo do impedimento da presidente como um passo a mais no sentido de a- dotar as medidas que permitam ao país recuperar sua saúde financeira e restaurar o crescimento da produtividade.

Neil Gaiman escreveu memoravelmente que uma história não precisa ter acontecido para ser verdadeira. O que vale, porém, no reino da ficção lá deve permanecer; no mundo real essa ficção nada mais é do que outra mentira, a coroar as várias sob as quais vivemos nos últimos anos.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 29 / 04 / 2016

O Globo
"Temer convida Serra para Itamaraty e rejeita reeleição"

Acordo para atrair apoio do PSDB inclui ficar fora da disputa de 2018

Depois de ser cotado para os ministérios da Saúde e da Educação no caso de o vice Michel Temer assumir o governo se o Senado aprovar o impeachment da presidente Dilma, o senador José Serra (PSDB) foi convidado para o Itamaraty, segundo Jorge Bastos Moreno. Para atrair apoios, especialmente do PSDB, Temer descartou disputar a reeleição em 2018. O Prêmio Nobel de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, apoiado por petistas, falou em golpe no Senado e provocou protestos da oposição.       

Folha de S.Paulo
"Em aceno ao PSDB, Temer nega candidatura em 2018"

Vice estuda, caso assuma Presidência, oferecer Itamaraty ao tucano José Serra

Em aceno ao PSDB, o vice-presidente, Michel Temer (PMDB), afirmou em entrevista que não será candidato à sucessão presidencial em 2018, caso substitua Dilma Rousseff (PT) no cargo. Ele também disse ao “SBT Brasil” que apoiará eventual proposta de fim da reeleição. Segundo o peemedebista, a mudança facilitaria uma ação governamental para aprovar reformas como a previdenciária e a trabalhista. O vice tenta atrair o apoio das diferentes alas do PSDB. O grupo do governador Geraldo Alckmin hesita em aceitar tucanos em cargos. Temer estuda oferecer o Ministério de Relações Exteriores para o senador José Serra (SP) e a Secretaria de Direitos Humanos para a deputada Mara Gabrilli (SP). O grupo do vice estima que contará, nos primeiros 60 dias, com o apoio de 400 deputados e 56 senadores. Alvo de críticas de aliados da presidente Dilma, o peemedebista tem negado que irá reduzir programas sociais, entre eles o Bolsa Família. Ainda durante a entrevista, ele disse não se impressionar com protestos de grupos ligados ao governo contra sua eventual gestão.       

O Estado de S.Paulo
"Temer define quarteto para economia com Serra no Itamaraty"

Henrique Meirelles, Romero Jucá e Moreira Franco completam núcleo duro

O vice Michel Temer deve fazer de José Serra (PSDB-SP) um interlocutor com o empresariado e alojá-lo num Ministério das Relações Exteriores fortalecido pelo comando do comércio exterior. Serra integrará um núcleo duro da economia, do qual também deverão fazer parte Henrique Meirelles, na Fazenda, Romero Jucá, no Planejamento, e Moreira Franco, numa supersecretaria ligada à Presidência que coordenará concessões, Parcerias Público- Privadas (PPP) e privatizações. A missão do quarteto é reerguer a economia. Serra terá de fortalecer as exportações, por meio de acordos com os principais mercados do mundo – a avaliação é de que o PT errou ao priorizar países emergentes. Já Moreira Franco, que não terá status de ministro, deve trazer ao Brasil recursos que estão circulando no mundo em busca de negócios. Na próxima semana, Temer pretende formalizar o convite para Meirelles na Fazenda. Ele escolherá o presidente do Banco Central. Já Jucá (PMDB-RR) ficará num Planejamento fortalecido pelo comando do BNDES. Caberá a ele aprovar medidas duras de ajuste nas contas.      
           

quinta-feira, abril 28, 2016

Física


Opinião

Ideologia dominante

Contardo Calligaris
Em tese, o PSDB é um partido de ideias, relativamente coeso, laico, progressista e social-democrata. Mas a coisa deve ser mais complicada.

Enfim, isso eu aprendi numa pequena polêmica com o deputado Rogério Marinho (PSDB-RN). A polêmica, além de me instruir sobre a diversidade do partido ao qual ele pertence, serve-me de ocasião para expor algumas ideias básicas sobre o que significa, para mim, criticar a ideologia dominante.

Primeiro, para a gente se entender: chamo de ideologia dominante o conjunto de ideias, valores e crenças que, num dado momento histórico, prevalecem e, com isso, administram a vida concreta de uma comunidade. Isso, claro, de uma maneira que não é maciça e sempre é uma zona de conflitos (salutares).

Numa visão marxista um pouco ingênua e datada, a ideologia dominante seria o instrumento de poder de uma classe. Hoje, parece prudente pensar que as ideologias sequer precisam servir interesses econômicos, elas são poderes autônomos.

Os intelectuais que defendem a ideologia dominante não precisam pensar muito. Basta-lhes propagar os valores que já são administrados pela maioria dos aparelhos ideológicos (a mídia, a escola, a igreja, a padaria, os partidos"¦).

Entre esses valores, na ideologia ainda dominante hoje, destacam-se a família como comunidade supremamente importante, a religião, um pouco de consumismo (ninguém é de ferro) e, enfim, a repressão de orientações, fantasias e desejos sexuais que se afastem da norma estatística aparente: transem só a dois, só com seu casal, e mesmo assim nem muito, porque São Paulo não gosta (São Paulo, entende-se, o apóstolo, não a cidade –porque a cidade gosta).

O deputado Marinho acha que eu sou um intelectual orgânico do outro lado, do lado do proletariado, ou seja, do diabo. Se ele tivesse me dito isso uns 50 anos atrás, eu me sentiria orgulhoso e ficaria tão alegre que poderia lhe dar um beijo (não se preocupe, deputado, só na bochecha).

De fato, esta foi uma questão dificílima para os militantes de esquerda dos anos 1960:

1) As produções artísticas da suposta "cultura proletária" não eram melhores do que os gostos artísticos de Hitler ou Mussolini: um realismo simplório;

2) A grande cultura do século 19 e 20, a dita "cultura burguesa", era para nós um patrimônio irrenunciável;

3) Qual cultura queríamos, então, para nosso futuro? Dizíamos que a própria cultura burguesa seria transformada numa sociedade livre (sem classes, imaginávamos). É claro que não fazia sentido, mas era bonito.

Hoje, encontrei um jeito de entender qual é a cultura que eu gostaria que fosse hegemônica e pela qual estou disposto a lutar. Não me pergunto se Thomas Mann é burguês, e Zola, proletário (isso sempre me pareceu ridículo)

O que faz a diferença entre a cultura que defendo e a que não quero é o tipo de hegemonia. Explico. Uma cultura sempre acaba gerindo vidas concretas. Mas, atenção:

Existe um tipo de cultura hegemônica pelo qual todos devem se comportar segundo o figurino. Esse tipo de cultura, em geral, apresenta suas ideias e valores como se não pertencessem à história, mas fossem verdades eternas, conformes a uma pretensa "natureza". Esse tipo de cultura é perigosa porque, em regra, seus exponentes perseguem nos outros os desejos que eles mal conseguem reprimir neles mesmos. A repressão é severa e impiedosa porque seu alvo verdadeiro é o próprio inquisidor, que gostaria de se reprimir a qualquer custo.

A cultura pela qual eu luto tenta propor a menor gestão das vidas possível. Ela é inspirada por um grande valor (o maior talvez) da cultura burguesa (desde os libertinos do século 17 até hoje): a ideia de que, na vida privada, cada um pode encontrar os prazeres de sua vida livremente –óbvio, com o consentimento dos que o acompanham.

Em suma, a diferença entra a cultura da qual gosta o deputado Marinho e a que eu prefiro é a seguinte. Para o deputado Marinho, não se conformar aos valores de sua cultura significa praticar, suponho, "a adoração do ídolo" e a destruição moral do povo brasileiro.

Enquanto, na hegemonia da cultura que defendo, ninguém forçaria o deputado Marinho a correr com os lobos e as lobas, transar com travestis ou casar com transexual –de fato, ninguém sequer o criticaria por ele ser monógamo, abstinente ou bem casado e religioso.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 28 / 04 / 2016

O Globo
"Temer planeja propor idade mínima para aposentadoria"

Homens e mulheres só poderiam requerer o benefício aos 65 anos

A proposta de reforma da Previdência do vice Michel Temer para o caso de assumir o governo prevê a fixação de idade mínima de 65 anos para aposentadoria de homens e mulheres, com período de transição para a nova regra de cinco a dez anos, revela Geralda Doca . A política atual de reajuste do mínimo passaria a ser definitiva para os trabalhadores em atividade, mas aposentadorias seriam reajustadas apenas pela inflação. A cargo de Roberto Brant, ministro da área no governo FH, a reforma deve ser enviada ao Congresso em maio, caso a presidente Dilma seja afastada. Temer também deve propor flexibilização da CLT.       

Folha de S.Paulo
"Temer propõe bônus de desempenho para professores do país"

Em plano de eventual governo, vice-presidente sugere também uma reestruturação curricular do ensino médio

O vice-presidente, Michel Temer (PMDB), quer implementar, caso substitua Dilma Rousseff na Presidência, uma série de mudanças no sistema educacional do país. Uma das propostas é o pagamento de bônus a professores baseados no desempenho dos alunos, informam Daniela Lima e Valdo Cruz. O sistema de bonificação é adotado em São Paulo e Piauí, entre outros Estados. Especialistas, porém, divergem sobre a eficácia dessa medida. Batizado de “Travessia Social”, o plano sugere ainda a reestruturação curricular no nível médio, a fim de permitir ao aluno se dedicar ao ensino profissionalizante. Nesta quarta (27), o advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira foi descartado como eventual ministro da Justiça após criticar, em entrevista à Folha, o uso da delação premiada pela Lava Jato. Três ex-ministros do STF são cotados para a pasta: Cezar Peluso, Carlos Velloso e Carlos Ayres Britto.       

O Estado de S.Paulo
"Programas sociais de Temer vão focar os ‘5% mais pobres’"

Documento propõe redução do total de atendidos no Bolsa Família e avaliação dos cursos do Pronatec

O vice Michel Temer pretende reformularas principais vitrines do governo do PT para focar nos 5% mais pobres do País, que correspondem a 10 milhões de pessoas. Isso abrirá espaço no Orçamento para reajustar o Bolsa Família e relançar o Minha Casa Minha Vida e o Pronatec. As propostas estão no A Travessia Social, documento da Fundação Ulysses Guimarães, ligada ao PMDB, cujas diretrizes devem ser divulgadas na segunda-feira. Atualmente, o Bolsa Família contempla cerca de 14 milhões de famílias. Para o PMDB, a camada situada dos 5% aos 40% mais pobres está “perfeitamente conectada à economia” e deve ter benefícios com eventual retomada econômica. Sobre o Pronatec, o Travessia defende que se avalie se os cursos oferecidos efetivamente melhoraram emprego e renda e foque no atendimento de necessidades dos mercados locais.      
           

quarta-feira, abril 27, 2016

Física


Opinião

Eduardo Paes e sua realidade própria

Elio Gaspari
A "ciclovia mais bonita do mundo" foi inaugurada em janeiro por um prefeito seguro de si, capaz de dizer que "todo governante tem inveja de mim". Parte da estrutura desabou na semana passada, duas pessoas morreram e, quando Eduardo Paes reuniu a imprensa para tratar do desastre, disse o seguinte:

—É óbvio que se essa ciclovia tivesse sido feita de forma perfeita nós não teríamos essa tragédia nem esse absurdo. Obviamente você tem problemas aí.

É óbvio que, se Kennedy não tivesse ido a Dallas, não teria morrido.

A manipulação do óbvio ululante é uma arma de dois gumes. No caso da tragédia da ciclovia, há outras obviedades, todas chocantes.

É óbvio que se funcionários da prefeitura de Paes tivessem colocado cones de trânsito nos acessos à ciclovia, interditando-a, ninguém teria morrido. Defeitos estruturais são coisa para especialistas, mas ressaca é um fenômeno visível a olho nu. Guarda-vidas interditam trechos de praias. A ponte Rio-Niterói fecha quando os ventos colocam em risco o trânsito.

Quem se revelou incapaz de perceber o óbvio não foi a audiência de Paes, mas sua prefeitura. Diante do óbvio, seu herdeiro presuntivo, o secretário Pedro Paulo Teixeira, espancou a lógica e disse o seguinte:

—A ressaca não é um fenômeno novo, mas a incidência, naquele ponto, não há dúvida de que foi um evento novo. Ganha uma viagem a Saturno quem souber o que ele quis dizer. Talvez ache que nos eventos velhos a ressaca não atingia aquele ponto.

Deixem-se de lado detalhes da empreitada da ciclovia entregue à família de um outro secretário de Paes, com seus custos e aditivos. Pedro Paulo tornou-se nacionalmente conhecido por ter batido na mulher. É óbvio que era um assunto privado, apesar de ela ter dado queixa à polícia, uma instituição pública.

Não foi o primeiro astro da equipe de Paes a encrencar-se. O secretário da Ordem Pública, Rodrigo Bethlem, disse à ex-mulher que coletava R$ 100 mil mensais em propina. Ela gravou. O ex-"xerife do Rio" saiu de cena, e tempos depois Paes disse: "Se cruzar com ele, dou uma bordoada".

Ainda não cruzou, mas em 2013, acolitado por guarda-costas, meteu-se numa briga de restaurante com um mal-educado que o insultara. Talvez seja por isso que as pessoas que lidavam com seu nome numa planilha da empreiteira Odebrecht apelidaram-no "nervosinho".

Há um Eduardo Paes moderno e outro, arcaico. Juntos, formam um personagem com toques perigosamente trumpescos. O moderno resolveu multar os cariocas que jogam lixo no chão. O arcaico foi a um evento em Sepetiba, comeu uma fruta e atirou longe a sobra. Flagrado num vídeo, disse que jogou o lixo para um assessor, que estaria metros adiante. Acreditasse quem quisesse.

Recentemente, teve um piti num hospital público quando foi buscar atendimento para um filho. Teria dito o seguinte a uma médica: "A senhora está demitida. Não quero mais ouvir sua voz, aqui não estou falando como cidadão, mas como seu patrão. Não quero mais que você trabalhe para mim". Ele realmente acha que é patrão dos servidores e não empregado dos eleitores.

É óbvio que, em tese, Paes sabe se comportar. O problema é que às vezes, sob pressão, acha que pode se comportar como quiser. Ele diria que isso "é coisa de pobre". 

Original aqui

 
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