sábado, abril 23, 2016

Física


Opinião

E agora, Michel?

Alexandre Schwartsman
E agora, Michel? A festa acabou, a luz apagou, a presidente se foi e o Brasil caiu no teu colo... E agora, Michel?

Depois de anos de maus-tratos, cabe agora ao vice-presidente achar uma saída para a armadilha em que o país foi colocado por uma administração particularmente inepta, num país em que inépcia não chega a ser uma raridade (as paredes da sala de reuniões do Conselho Monetário Nacional, decoradas com retratos dos ministros da Fazenda, são um triste testemunho disso).

A agenda é extensa. Para começar, enquanto o setor público registra hoje um deficit primário próximo a 2% do PIB (cerca de R$ 130 bilhões a preços de fevereiro de 2016), um cálculo conservador sugere que, para impedir que a dívida pública continue a crescer, seria necessário gerar um superavit primário também da ordem de 2% do PIB (e isso em condições bem mais favoráveis do que as que prevalecem hoje). Falamos, assim, de um ajuste fiscal necessário em torno de R$ 250 bilhões a R$ 300 bilhões.

Obviamente ninguém espera que qualquer governo seja capaz de promover um ajuste dessa magnitude num período curto. Mesmo governos que fizeram correções consideráveis nas contas públicas não chegaram sequer perto desse valor.

Entre o final de 1998 e o começo de 2001, por exemplo, registrou-se (a preços de fevereiro) uma melhora pouco superior a R$ 110 bilhões (do quais o governo federal contribuiu com menos da metade).

Já entre o final de 2002 e o final de 2004, houve melhora de R$ 27 bilhões (dos quais R$ 25 bilhões do governo federal). Em ambos os casos, note-se, o aumento da receita desempenhou o papel central.

Em contraste, hoje o orçamento federal se encontra ainda mais engessado, com mais de 90% das despesas já devidamente contratadas antes do começo do ano fiscal, enquanto o espaço para aumento das receitas é muito menor do que no passado.

Não há saída convencional para o problema que não passe, portanto, por reformas profundas, da questão previdenciária (idade mínima, regimes especiais, etc.) às vinculações orçamentárias, todas da alçada do Congresso Nacional.

À parte essa tarefa, por si gigantesca, há ainda muito que reformar no país. Uma lista (incompleta) incluiria:

a) mudanças trabalhistas, permitindo que acordos voluntários entre as partes se sobrepusessem à lei; b) reforço à competição, tanto doméstica quanto internacional, para estimular o crescimento da produtividade; c) reforma tributária, no mínimo reduzindo os impostos sobre valor adicionado a apenas dois (um IVA federal, outro estadual), com simplificação de alíquotas e cobrança no destino; d) alteração no regime de concessões, estimulando a concorrência, entre outras tantas.

A conclusão não poderia ser mais óbvia: em que pese a reação eufórica, e até certo ponto justificada, do mercado à deposição da "presidenta incompetenta", parece haver um claro exagero quanto ao que se espera do novo governo. Tirar o bode da sala ajuda, mas está longe de resolver o problema.

Finalizo com um apelo pleno de rancor: por favor, mantenham Alexandre Pombini, perdão, Tombini no BC. Ele não precisa sequer votar no Copom, mesmo porque não ajudaria, mas teria imensa satisfação pessoal de vê-lo assinar mais uma carta explicando novo descumprimento da meta para a inflação.

Valeu! 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 23 / 04 / 2016

O Globo
"PSDB ameaça ficar fora de coalizão e complica Temer"

Partido quer criar regra para punir tucanos que integrarem governo

Vice-presidente, que está interinamente no cargo desde quinta-feira, recebeu sucessivas negativas a convites para compor seu eventual Ministério, especialmente na área econômica

Com dificuldades para encontrar nomes para um eventual Ministério, o vice-presidente Michel Temer enfrenta mais um obstáculo: o PSDB, em reunião na próxima terça, deve estabelecer punição para quem assumir qualquer cargo, caso o vice se torne presidente de fato. O grupo de Temer corre contra o tempo, para dar sinais positivos ao mercado financeiro. Até agora, nomes como Arminio Fraga e Marcos Lisboa, para a Fazenda, e Ayres Britto e Nelson Jobim, para a Justiça — cotados como preferidos de Temer —, sinalizaram que não participarão. Interino no Planalto, o vice ontem se queixou da presidente Dilma Rousseff em entrevista ao “The New York Times”: “Ela não se considerava minha amiga.”     

Folha de S.Paulo
"Dilma não menciona palavra golpe ao discursar na ONU"

Presidente diz nos EUA que brasileiros saberão impedir retrocesso do país

A presidente Dilma Rousseff, que tem chamado de golpe o processo de impeachment contra ela, não citou essa palavra na Assembleia da ONU, em Nova York. Ela afirmou, em seu discurso na cerimônia de assinatura do Acordo de Paris, sobre o clima, que o Brasil passa por momento “grave” e que os brasileiros saberão impedir “um retrocesso”. Aventada por assessores, a possibilidade de acusar um golpe perante a comunidade internacional gerou reação. O ministro Celso de Mello, do STF, declarou ser “gravíssimo equívoco” falar em golpe. Depois do evento na ONU, contudo, ela disse a jornalistas brasileiros ser “vítima” e que “dizer que não é golpe é tampar o sol com a peneira”. Caso seja deposta, Dilma sugere acionar a cláusula democrática do Mercosul, que serve para suspender país membro do bloco.      

O Estado de S.Paulo
"Dilma pede sanções de Mercosul e Unasul ao País"

Presidente adota tom moderado na ONU, mas à tarde volta a falar em golpe e invoca cláusula democrática

Apesar do discurso mais moderado na Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, a presidente Dilma Rousseff elevou o tom na tarde de ontem e pediu sanções do Mercosul e da Unasul ao País, caso seu afastamento se concretize. Pela manhã, na ONU, a referência à crise política foi vaga. Sem mencionar a palavra “golpe”, Dilma disse acreditar que a sociedade brasileira saberá “impedir quaisquer retrocessos”. Até o vice-presidente Michel Temer considerou seu discurso “adequado”. Mais tarde, porém, a jornalistas estrangeiros e brasileiros, a presidente voltou a falar em golpe e invocou a cláusula democrática do Mercosul e da Unasul. Em nova cartada para usar os organismos internacionais em sua defesa, também decidiu designar o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, para participarem hoje no Equador da reunião da Unasul.    
           

sexta-feira, abril 22, 2016

Monospar


Coluna do Celsinho

Reflexo

Celso de Almeida Jr.

Li e ouvi relatos de indignação com as manifestações de nossos deputados federais, quando da autorização para a abertura do processo de impeachment.

Os votos - sim ou não - vieram acompanhados das declarações mais esquisitas.

Até Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, disse sobre a votação: "É de chorar de vergonha! Simplesmente patético."

Mas, afinal, qual a surpresa?

Os mais velhinhos lembram da mesma novela quando do afastamento de Collor.

As mesmas citações apaixonadas.

Os mesmos arroubos juvenis.

Insisto, portanto: qual a surpresa?

Será que nunca reparamos em nossos representantes?

Aliás, que ninguém nos ouça, alguém se identificou com algum dos deputados?

Ou, pelo menos, lembrou da postura de um parente ou colega próximo?

Sendo mais explícito:

Se estivéssemos lá, faríamos muito diferente?

Tirando os famosos Paulo Maluf e o palhaço Tiririca, bastante discretos em seus votos, a grande maioria não resisitiu aos segundos de fama.

Pois é...

Uma das grandes lições deste espetáculo foi permitir à nação um duro olhar no espelho.

E isso não faz mal.

Serve, ao menos, para uma atenção maior na hora de votar.

Prova, também, que só através da educação conseguiremos uma representação de mais qualidade.

É preciso registrar, porém, que isso não tira a legitimidade da decisão dos deputados.

Não significa, também, que as manifestações infelizes desqualifiquem totalmente aqueles que as emitiram.

O povo, bem ou mal, tem nos deputados e senadores a sua legítima voz.

Esta, como se vê, ainda é rouca.

Mas dá pra ouvir!

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Dominique

Opinião

Estamos falando da mesma coisa?

Gabeira
Brasília – Acordei na segunda-feira com um travo na garganta. A Câmara dos Deputados votou o impeachment. Era o desejo da maioria. Mas a maneira como o fez, com aquela sequência de votos dedicados à família, a filhos, netos e papagaio, com Bolsonaro saudando um torturador… fui dormir como se estivéssemos entrando na idade das trevas.

Entretanto, quando me lembro das grandes demonstrações, sobretudo nas áreas metropolitanas do Brasil, constato que os deputados inventaram um enredo próprio para o impeachment. Não há sintonia com a realidade das ruas. Isso é demonstrado pela própria reação nas redes sociais.

O Brasil parece ter descoberto um Congresso que só conhecia fragmentariamente. Isso dói, mas em médio e longo prazos será bom.

Na segunda passada, na minha intervenção radiofônica, previ essa cantilena. Foi assim no impeachment de Collor. De lá para cá, o Congresso, relativamente, decaiu em oratória e cresceu em efeitos especiais. Houve até uma bomba de papel picado no plenário.

Durante anos as coisas se degradaram por escândalos no aumentativo: mensalão, petrolão. No impeachment, os 511 deputados passaram por um raio X do cérebro, diante de cerca de 100 milhões de expectadores.

Visto de fora, abstraindo a causa das ruas, foi um espetáculo grotesco.

Isso implica consequências. Agora todos têm ideia ampla da Câmara real. Durante os debates, viram vários dedos apontados para Eduardo Cunha. Numa escala de golpista, corrupto e gângster. E Cunha ouviu tudo, gélido, apenas esfregando as mãos.

Tem de ser o próximo a cair. Sua queda une os dois lados do impeachment, sem muros. Nem que se tenha de pedir socorro ao Supremo, tentar comunicar aos ministros a sensação de urgência da queda de Cunha.

O descompasso entre a sociedade, que pede uma elevação no nível político, e a Câmara pode levar a um novo comportamento eleitoral.

O impeachment é uma tentativa de iniciar o longo caminho para tirar o Brasil da crise. Algumas pessoas choraram pelo resultado, outras, como eu, choraram apenas pelo texto.

Compartilho parcialmente a sua dor. Mas os generais da esquerda as levaram para uma batalha com a derrota anunciada. Mascararam de perseguição política um processo policial fundamentado, com provas robustas e até gente do PT na cadeia. Ao classificarem como golpe o impeachment, tentaram articular o discurso salvador que pudesse dar-lhes algum abrigo dos ventos frios que sopram de Curitiba.

Sobraram motivos para ressaca do day after. O essencial, se tomarmos a crise como referência, é que o processo siga seu curso da forma que prevê o rito, que é razoavelmente rápida.

Muito brevemente o centro do processo será Michel Temer. As coisas que vazam de seu refúgio não são animadoras. Por exemplo, consultar um ex-ministro da Comunicação de Dilma que propunha uma articulação do governo com a guerrilha na internet. O próprio ex-ministro deveria ser mais leal a Dilma.

Aliás, o rosário de traições na Câmara foi deprimente. Um deputado do Ceará disse: desculpe, presidente, mas voto pelo impeachment. É um espetáculo da natureza humana que me fez lembrar as traições a Fernando Collor. Gente que jantou com ele na noite anterior ao impeachment.

Costumo deixar essas considerações gerais para domingo. O foco é o processo de impeachment como esperança de dar um passo para enfrentar a crise. Deixo apenas esta lembrança para exame posterior: com 90 deputados investigados, a Casa Legislativa que existe legalmente cassou Dilma. Mas agora que todos os conhecem, não seria o momento de questionar o foro privilegiado?

Ao longo de 16 anos de Congresso, sempre defendi privilégio para o direito de voz e voto, como na Inglaterra. Fora daí, Justiça comum.

É um fragmento de uma reforma política que pode vir de baixo, como a Lei da Ficha Limpa. E a mensagem é clara nestes tempos de Lava Jato: a lei vale para todos.

Se os processos de impeachment, no Brasil, acontecem de 20 em 20 anos, creio que este foi o último a que assisti. Privilégios da idade.

É preciso pensar agora na transição. A de Itamar era mais leve. Ele não tinha partido forte, não era candidato. Temer tem uma energia pesada em torno dele. A começar por Cunha.

Em tese, precisa tocar o barco e contribuir para que alguns corpos caiam no mar. Se não contribuir, vão cair de qualquer maneira, só que de forma mais embaraçosa. O que está em jogo é o destino de muita gente, um projeto para sair da crise.

Já que decidiu ficar calado por um tempo, Temer deveria pensar. O cavalo que chega encilhado à sua frente é um cavalo bravio. Para montá-lo é preciso coragem.

A vitória do impeachment na Câmara dos Deputados foi resultado do movimento de milhões de pessoas indignadas com a corrupção, castigadas pela crise econômica.

Se considerar apenas o resultado da Câmara, não tocará nos dois temas ao mesmo tempo. Mas se considerar o esforço social que levou a esse resultado, não pode ignorar o problema da corrupção, como se ela estivesse indo embora com os derrotados de agora.

Com mais faro para o desastre, o PMDB pode organizar melhor que o PT a sua retirada. Compreender, por exemplo, que não está chegando ao poder, mas se preparando para sair dele com estragos menores nos seus cascos bombardeados pelos canhões da Lava Jato.

É uma transição na tempestade até 2018. Nenhuma força política sabe se chegará lá ou como chegará. Diante da vigilância social, o jogo ficou mais complicado.

Mas esse é o nível do nosso universo político. Do salão verde para o azul, espera-se uma ligeira melhora no Senado. Ainda assim, é longo e espinhoso o caminho de uma renovação política no Brasil.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 22 / 04 / 2016

O Globo
"Temer faz ofensiva contra discurso de Dilma"

Temer faz ofensiva contra discurso de Dilma

Poucas horas antes de assumir interinamente a Presidência, o vice Michel Temer lançou mão de ofensiva internacional para se contrapor ao discurso da presidente Dilma Rousseff, que vem associando o processo de impeachment a um golpe. Em entrevista ao “The Wall Street Journal”, Temer disse que a associação é ruim para o Brasil. Dilma chegou ontem a Nova York, onde deverá repetir o discurso.     

Folha de S.Paulo
"Temer lança ofensiva fora do país contra tese de golpe"

Entrevistas são publicadas no dia em que Dilma viaja para atacar impeachment na ONU

No dia em que a presidente Dilma Rousseff viajou aos EUA para defender na ONU que o impeachment é golpe, o vice Michel Temer lançou contraofensiva na imprensa internacional para negar ruptura da ordem institucional. Ele disse aos jornais “Financial Times” e “The Wall Street Journal” que o Supremo avalizou a tramitação e que não tem influência sobre 367 deputados e 70% do país, que pedem o afastamento. O vice, que substitui Dilma caso o Senado abra o processo, assume a Presidência até a volta dela, no sábado (23). Temer viajou para Brasília após ser alvo de protesto em frente à sua casa em São Paulo, onde tem feito reuniões para preparar seu governo. A Câmara enviou dois deputados à ONU para também rebater a presidente.      

O Estado de S.Paulo
"Discurso de golpe prejudica imagem do País, diz Temer"

Em contraofensiva na imprensa internacional, vice diz que processo de impeachment segue Constituição; aliados temem ação de Dilma na Unasul

Em reação à viagem da presidente Dilma Rousseff a Nova York, onde discursa hoje nas Nações Unidas e pode qualificar o impeachment como “golpe”, o vice Michel Temer afirmou ontem que essa estratégia prejudica a imagem do País no exterior. Temer assumiu interinamente a Presidência e deu entrevistas à imprensa internacional. Ao Financial Times, afirmou que “não há golpe de maneira alguma ocorrendo”. Ao Wall Street Journal, ressaltou que o processo “está em conformidade com a Constituição”. Em Buenos Aires, o embaixador Frederico Meyer, porta-voz do Itamaraty, disse que não há razão para um eventual afastamento de Dilma resultar em sanções do Mercosul. Aliados do vice também temem que no sábado, durante encontro da Unasul, o governo tente aprovar cláusula contra o País.    
           

quinta-feira, abril 21, 2016

Física


Opinião

A vergonha e o terror

Contardo Calligaris
Em 1992, na votação do impeachment de Collor, suspendi o consultório e me instalei na frente da televisão. Na minha lembrança, os pronunciamentos dos deputados de 1992 não foram muito melhores dos de domingo passado, mas dava para tolerar tudo porque o espírito era diferente: havia no ar um gosto de liberdade conquistada.

Hoje, penso assim: caso uma votação desse tipo volte a acontecer, peço encarecidamente que o regulamento da Câmera exija o voto sem pronunciamento: o deputado leu o relatório da Comissão Especial de impeachment, formou sua opinião e anuncia: "voto sim" ou "voto não". Pronto.

Desta vez, só se salvou da depressão quem passou a tarde nas concentrações: exultaram ou choraram, mas pela boa razão que ganharam ou perderam. Para os que encararam o espetáculo da votação na televisão, sobrou uma depressão que ainda dura, tanto nos que perderam quanto nos que eram a favor do sim. É uma sensação de desamparo absoluto: duvidando de quem nos governa, recorremos a quem nos representa. E, diante da tela de TV, surgiu a pergunta: são estes, então, que nos representam?

O UOL fez a conta: dos 367 sim, apenas 16 falaram dos crimes que o voto deles queria castigar. O resto invocou sua família, seu quintal eleitoral, a netinha que fazia aniversário, os filhos dormindo, o velho pai, deus, deus de novo (outro ou o mesmo, tanto faz), posicionou-se contra a proposta de que crianças troquem de sexo, pelos moradores de rua ou por você mamãe.

Em sua grandíssima maioria, os representantes invocavam seus afetos familiares e sua escolha religiosa na hora de cumprir seu dever republicano. Essa confusão do privado com o público é a própria praga que alimenta a corrupção: a vida pública é parasitada por afetos privados que nem precisam ser escusos porque, "afinal", a família é o que mais importa aos "homens de bem". Não é?

Tudo isso era triste. E chegou a vez do deputado Jair Bolsonaro, que disse: "Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff''.

Ustra foi chefe do DOI-CODI de 1970 a 1974. Agitando o espantalho de um sociopata torturador, Bolsonaro quis apavorar Dilma Rousseff, a torturada que resistiu à tortura.

Bolsonaro se confundiu. O grito do torturado já vale mais do que a palavra e o ato de qualquer torturador. E o silêncio do torturado é a vitória final sobre o torturador. Ustra não ó o pavor de Dilma. Dilma é o pavor de Ustra.

Bolsonaro deve ter pensado que um bom número de deputados achariam graça. A única reação será a de Jean Wyllys? Noemi Jaffe tuitou: Bolsonaro homenagear Ustra é como um neonazista homenagear Mengele, que torturou minha mãe.

No domingo, consternado pela explosão de afetos privados dos deputados, eu era indeciso entre a decepção com os anos de PT e a perplexidade diante do que seria, como disse o ministro Barroso, a "alternativa".

Não mudou nada. Mas sei reconhecer o fascismo quando ele tenta falar alto. E essa é uma feiura contra a qual, desde pequeno, aprendi que é preciso resistir.

Em 1947, Albert Kesselring, comandante das forças nazistas de ocupação na Itália, foi condenado à morte por crimes de guerra. A sentença foi transformada em prisão perpétua. Em 1952, Kesselring, doente, saiu da prisão. Foi celebrado como herói pelos neonazistas e declarou que ele tinha sido tão bom com os italianos que eles deveriam lhe erigir um monumento.

Piero Calamandrei, resistente, jurista, escritor, um dos fundadores do Partido de Ação (não comunista), escreveu um poema, que dedico agora a Bolsonaro:

"Você o terá, camarada Kesselring, / o monumento que você pede de nós, italianos. / Mas com qual material será construído, / isso a gente decidirá. / Não será com as pedras chamuscadas / das aldeias que foram supliciadas por teus exterminadores. / Não será com a terra dos cemitérios / onde nossos jovens companheiros / descansam serenos. / Não será com a neve inviolada das montanhas / que durante dois invernos te desafiaram. / Não será com a primavera destes vales / que te viram fugir. / Mas será com o silêncio dos torturados, / mais duro que qualquer pedregulho; / será com a rocha deste pacto / jurado entre homens livres / que voluntários se reuniram, / por dignidade e não por ódio, / decididos a redimir a vergonha e o terror do mundo." 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 21 / 04 / 2016

O Globo
"Ministros do STF: Dilma ofende instituições ao falar em golpe"

Decano Celso de Mello condena ‘gravíssimo equívoco’ da presidente

Dias Toffoli afirma que processo de impeachment aprovado na Câmara e que agora está no Senado garantiu ampla defesa à presidente; petista, porém, deve repetir a estratégia amanhã na ONU

Ministros do Supremo Tribunal Federal rechaçaram ontem a alegação da presidente Dilma de que o impeachment aprovado na Câmara é um golpe. Argumentando que as regras foram definidas pela Corte e respeitadas pelos deputados, o decano do STF, Celso de Mello, afirmou que a acusação de Dilma é um “gravíssimo equívoco”. Para o ministro Dias Toffoli, o processo assegurou amplo direito de defesa, e alegar golpe agora é uma “ofensa às instituições brasileiras”. Também a ex-senadora Marina Silva (Rede) condenou a estratégia de defesa de Dilma. A presidente, porém, deve repetir o discurso amanhã na ONU, em Nova York. Presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, o tucano Aloysio Nunes afirmou que, se ela usar a tribuna da ONU para se defender e voltar a falar em golpe, será um “desserviço ao país”.    

Folha de S.Paulo
"Demissões batem recorde, e desemprego chega a 10%"

Reflexo da recessão no país, taxa pela primeira vez atinge a marca de dois dígitos

A taxa de desemprego no Brasil atingiu 10,2% no trimestre que foi encerrado em fevereiro. Esse é o maior patamar do índice desde que o IBGE iniciou o levantamento, quatro anos atrás. Um ano antes, ele estava em 7,4%. A disparada do desemprego é fruto da recessão que afeta o país no segundo mandato de Dilma Rousseff. De dezembro a fevereiro, 1 milhão de vagas foram fechadas, um recorde, e há 10,4 milhões de pessoas buscando trabalho. O aumento dos cortes é comum no início de ano, com o fim do período de festas, mas o IBGE disse que o resultado surpreendeu pela sua intensidade, afetando não só temporários, mas também quem era efetivo no trabalho. O avanço do desemprego somente não foi pior porque 676 mil pessoas passaram a trabalhar por conta própria. A indústria foi o setor que mais demitiu, com 740 mil postos de trabalho perdidos no período.      

O Estado de S.Paulo
"Investigação de chapa Dilma-Temer no TSE vai incluir Lava Jato"

Ministra dá início à fase de coleta de provas, que prevê perícia em empresas e oitiva de envolvidos em corrupção; parte da Corte discute possibilidade de separar conta do vice

A ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Maria Thereza de Assis Moura, corregedora-geral da Justiça Eleitoral, autorizou o início da produção de provas para embasar ações que pedem a cassação da chapa formada pela presidente Dilma Rousseff e pelo vice Michel Temer. As fases de coleta de provas incluem perícia contábil em gráficas e fornecedores de campanha, juntada de informações colhidas pelo juiz federal Sérgio Moro e depoimentos de testemunhas já investigadas na Operação Lava Jato, como Pedro Barusco, Ricardo Pessoa e Julio Camargo. Os documentos serão utilizados nas quatro ações que correm no TSE sobre o assunto. Segundo a ministra, “o momento processual” deve garantir “o direito à produção da prova e não seu cerceamento”. A fase de perícias terá início em 15 de maio e prazo de 90 dias. Em agosto, o Tribunal deve dar início à oitiva das testemunhas. A corregedora eleitoral não analisou o pedido feito pela defesa de Temer de separar suas contas de campanha das de Dilma. Mas parte dos ministros do TSE vê a proposta com simpatia. Nos bastidores, ela é encarada como uma saída para não estender a crise política.    
           

quarta-feira, abril 20, 2016

Física

Opinião

O hipotético ministério de Temer

Elio Gaspari
O início da tramitação do impedimento de Dilma Rousseff ainda não completou uma semana e o entorno do vice-presidente Michel Temer conseguiu adicionar um problema a um país que tem duas epidemias, recessão, desemprego e governos estaduais quebrados. O problema novo é um ministério virtual posto em circulação. Serve como instrumento de propaganda, mas agrava uma confusão que poderá se arrastar até outubro.

Já são mais de 20 os nomes que rolam na praça, alguns deles saídos de conversas no Jaburu, que de palácio não tem nada –é, quando muito, um esbanjamento de dinheiro público. (A casa é uma flor da gastança da ditadura). Trata-se de uma lista malandra, destinada a criar expectativas individuais (no caso de quem espera ser ministro) ou esperanças coletivas (nos poucos casos de gente que se espera ver no ministério). Por isso, aqui só será mencionado um deles.

Armínio Fraga tem competência e biografia para ser ministro da Fazenda. Há um mês, a repórter Erica Fraga perguntou-lhe: "O senhor aceita participar de um governo de transição?" Sua resposta, numa entrevista concedida por email, foi curta: "Não."

Colocá-lo como conselheiro ou avalista de outra escolha é o pior caminho para começar uma administração num país quebrado que já passou pela experiência de Joaquim Levy, indicado por Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco.

Em qualquer governo, em qualquer época, quando um presidente termina de armar um ministério descobre que só um terço dos escolhidos estava em sua primeira lista. O segundo terço ficava entre os prováveis e os demais não eram cogitados quando as conversas começaram. Já houve presidente que, ao ser eleito, pensou nomear um cidadão sucessivamente para três ministérios. Não conseguiu colocá-lo em qualquer um deles. Ministério não é como boleto de Mega-Sena, onde o dono pode escrever o que quiser, parece-se mais com um quebra-cabeças que adquire fisionomia na medida em que se vai formando. Temer ainda não sabe sequer quantos ministros terá.

Se isso fosse pouco, formar equipe é uma coisa. Governar com ela é outra e depende do estilo e da decisão do presidente. Ser ministro de Dilma é uma coisa. Ter sido de Lula, bem outra. De Temer, a ver.

Nas listas postas em circulação há nomes que cheiram a simples especulações, outros parecem balões de ensaio e há ainda uns poucos capazes de alimentar esperanças. À primeira vista, tudo isso é coisa de jornalistas sem assunto. Falso. Mesmo quando os assuntos faltam (e não têm faltado), por trás de quase todas essas listas há sempre alguém que merece crédito pela proximidade que desfruta junto ao astro-rei.

É óbvio que se Dilma Rousseff for afastada, Temer deverá ter um ministério pronto. Outro dia o vice-presidente disse que o país precisa de governabilidade e governança. Associou a governabilidade à harmonização dos conflitos políticos e partidários. Nisso ele é um mestre. Um dos primeiros testes de uma boa governança está na capacidade de um chefe de apontar prioridades, formar uma equipe e, sobretudo, não criar confusões. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 20 / 04 / 2016

O Globo
"Oposição deve comandar impeachment no Senado"

Renan marca início dos trabalhos da comissão para segunda-feira

Votação que pode afastar Dilma da Presidência deve ocorrer até o dia 12 de maio

Em reunião tensa, os líderes de partidos no Senado decidiram que a comissão que analisará o pedido de impeachment da presidente Dilma será formada de acordo com os blocos partidários da Casa, o que praticamente garante a presidência do colegiado ao PSDB e a relatoria ao PMDB. Apesar dos protestos da oposição, que queria o início imediato dos trabalhos, o presidente Renan Calheiros marcou para a próxima segunda a instalação da comissão, que deve ter maioria a favor do afastamento. A decisão da Câmara foi lida ontem no plenário. Se acolhida pelo Senado, Dilma será afastada.    

Folha de S.Paulo
"Câmara restringe apuração de deputados contra Cunha"

Vice-presidente da Casa vê erros no processo; Conselho de Ética fala em intervençãoO vice-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), anunciou limitações às investigações do Conselho de Ética contra o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), réu no Supremo sob acusação de corrupção. Maranhão alegou falhas no processo ao proibir o uso de provas sem relação com a suspeita de que Cunha mentiu a CPI em 2015 — ele negou ter contas no exterior. Deputados temem acordão para manter o mandato de Cunha. Pressionado por aliados do peemedebista, o colegiado retirou a acusação deque ele recebera propina. Anunciou, porém, que incluiria no relatório final documentos e delações da Lava Jato que relacionam Cunha ao petrolão. José Carlos Araújo, presidente do Conselho de Ética, fala em “intervenção”. Responsável por diversas decisões que atrasaram a tramitação do caso, Maranhão diz cumprir o regimento. Cunha nega as acusações.      

O Estado de S.Paulo
"Comissão do Senado terá maioria em favor do impeachment"

Escolha de integrantes será na segunda-feira; votação está prevista para o dia 12

O governo sofreu derrota significativa no primeiro dia de definição do rito do impeachment da presidente Dilma Rousseff no Senado. Em reunião de líderes, a maioria definiu que a escolha dos integrantes da comissão de impedimento levará em conta o tamanho dos blocos partidários e não dos partidos, como queriam governistas. Com isso, parlamentares pró-impeachment terão maioria no colegiado. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), rejeitou questionamentos da oposição e de aliados do vice Michel Temer para instalar ainda ontem a comissão. Mas cedeu a cobrança do PSDB e decidiu que votará a indicação dos integrantes do colegiado na segunda- feira. Com o novo roteiro, a previsão é de que o pedido de afastamento seja votado em plenário em 12 de maio e não mais no dia 10. Na tentativa de obter apoio de senadores indecisos, o governo vai conceder empréstimos que há tempos esperam liberação para Estados e municípios. Na lista dos que devem receber recursos estão Ceará, Piauí e Paraná.    
           
 
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