sábado, abril 16, 2016

Física

Opinião

Dilma vaticinou em 2014: 
‘Sem apoio é impossível assegurar governo estável’

Josias de Souza
“Sem apoio no Congresso Nacional não é possível assegurar um governo estável, um governo sem crises institucionais.” Pronunciada por Dilma Rousseff em setembro de 2014, essa frase compôs a artilharia da então candidata à reeleição contra a oponente Marina Silva.

Num debate eleitoral, Dilma insinuou que a “nova política” de que falava Marina conduziria o país ao desastre. O comentário foi reproduzido na propaganda da campanha petista (veja no vídeo). Nela, um locutor declarou: “Duas vezes na nossa história o Brasil elegeu salvadores da pátria, chefes do governo do eu sozinho. E a gente sabe como isso acabou.”

Ao fundo, aparecem notícias de jornal sobre a renúncia de Jânio Quadros e o impeachment de Fernando Collor. Quando comparou Marina a tais personagens, Dilma era apoiada por um conglomerado composto de 14 partidos. Uma superestrutura em que cabia de tudo —de Paulo Maluf ao próprio Collor. O tempo passou. E o feitiço virou-se contra a feiticeira.

Dilma experimenta agora uma modalidade de solidão, que é a companhia do PT e do PCdoB. Abandonaram-na: PMDB, PP, PR, PSD, PTB… Neste domingo, a presidente irá à sorte dos votos no plenário da Câmara com receio de não dispor das 172 presenças, ausências ou abstenções de que necessita para evitar que seus antagonistas alcancem o número mínimo de votos para abrir o processo de impeachment: 342.

Eis o que dizia a campanha de Dilma em 2014. “A base de apoio de Marina Silva tem, hoje, 33 deputados. Sabe de quantos ela precisaria para aprovar um simples projeto de lei? No mínimo 129. E uma emenda constitucional? 308. Como é que você acha que ela vai conseguir esse apoio sem fazer acordos? E será que ela quer? Será que ela tem jeito para negociar?”

Dilma era apresentada como personagem jeitosíssima: “…Reúne tudo o que um governante precisa: tem conhecimento dos problemas, sabe como construir as soluções, e tem força política para realizar os seus projetos porque numa democracia ninguém governa sem partidos, ninguém governo sozinho.”

Considerando-se tais critérios, Dilma seria hoje uma presidente inviável. Mesmo que sobrevivesse ao impeachment por um placar mixuruca, não disporia de uma base congressual para “assegurar um governo estável, um governo sem crises institucionais.'' E a Lava Jato impediria o PT de providenciar um novo mensalão ou um novo petrolão para comprar apoiadores.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 16 / 04 / 2016

O Globo
"Planalto faz ofensiva, mas oposição mantém vantagem"

Em vídeo, Dilma acusa adversários de planejar acabar com Bolsa Família

Presidente desistiu de falar em rede de rádio e TV por temer ação da Justiça; vice-presidente da Câmara e aliado de Eduardo Cunha, Waldir Maranhão muda voto, é levado ao Planalto, grava vídeo em apoio à presidente e é punido por seu partido, o PP

Uma ofensiva do Planalto, a dois dias da votação do impeachment, tentou estancar a debandada de aliados em favor da saída da presidente Dilma. Governadores do Norte e do Nordeste alinhados com o Planalto pressionaram deputados para tentar reverter votos, ameaçando, inclusive, retirar aliados deles de cargos nos estados. Levantamento feito pelo GLOBO, porém, mostra que a oposição ganhou duas adesões em relação a anteontem, alcançando 344 votos pelo impeachment, enquanto o governo ganhou quatro votos (chegando a 122). Em vídeo para ser divulgado na internet, depois de desistir falar em rede nacional de TV, Dilma ressuscitou estratégia da campanha eleitoral, conta JORGE BASTOS MORENO: afirmou que seus adversários querem acabar com programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida.    

Folha de S.Paulo
"Governo Dilma contém favoritismo do impeachment a 48 horas da votação"

No primeiro dia de sessão histórica na Câmara, Planalto afirma ter revertido votos,mas Kassab deixa ministério

O governo Dilma Rousseff (PT) deflagrou sua última ofensiva com objetivo de frear o favoritismo crescente do movimento pró-impeachment na Câmara. Petistas dizem ter revertido votos a seu favor e acordado abstenções. Para o processo avançar no domingo (17), 342 dos 513 deputados precisam chancelar o pedido. Levantamento da Folha na Casa indica 339 votos a favor do processo e 129 votos contrários. Cabe ao Senado afastá-la ou não. Na sexta (15), a presidente se reuniu com políticos nordestinos. O vice-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), mudou seu voto. Horas depois, porém, Gilberto Kassab (PSD) deixou o cargo de ministro das Cidades depois que seu partido aderiu ao impeachment. Na abertura dos três dias de debate e votação, José Eduardo Cardozo, advogado-geral da União, negou a acusação de crime de responsabilidade. Já o jurista Miguel Reale Jr., um dos autores da denúncia, criticou o uso de pedaladas fiscais.       

O Estado de S.Paulo
"Governo tenta última cartada; placar indica impeachment"

Planalto busca conter debandada de votos de deputados, mas oposição mantém número necessário para aprovar pedido de saída de Dilma

Com ajuda de seis governadores do Nordeste, a presidente Dilma Rousseff tentou ontem estancar a debandada de votos de deputados iniciada na terça-feira com a saída do PP da base aliada. Placar do Impeachment do Estado registrou movimento a favor do governo – à 0h30 de hoje, 133 se posicionavam contra a saída de Dilma. Mas a oposição mantém o número necessário para aprovar o pedido de impedimento, amanhã, no plenário da Câmara. A mais significativa reversão de voto em favor do Planalto foi a do primeiro-vice-presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), antigo aliado de Eduardo Cunha. Ao longo do dia, dezenas de deputados discursaram, em meio a gritos de “não vai ter golpe” e “vai ter impeachment”.A líderes partidários, o vice Michel Temer tem garantido que as legendas terão “espaço” em seu eventual governo, mas sem antecipar que ministérios distribuirá.      
           

sexta-feira, abril 15, 2016

Física


Coluna do Celsinho

Desaforo

Celso de Almeida Jr.

Num dia distante, ao olhar para o passado, entenderemos melhor o processo de impeachment da presidente Dilma.

Que assim seja...

Peço, porém, ao prezado leitor e à querida leitora que avaliem algumas considerações.

Vamos lá...

Quantos casamentos foram por água abaixo em períodos de dificuldades financeiras?

Alguém que me lê, paciente, já encarou uma tempestade dessas?

Contas chegando, cobradores telefonando, filhos angustiados, esposa desesperada.

Dependendo do temperamento do casal, a pressão é insustentável e o amor não resiste.

Dores e sofrimentos duradouros.

Agora, empresas.

Algum comerciante me brinda com sua atenção?

Um empresário antigo, daqueles calejados, dos tempos do Cruzeiro, do Cruzado e de outras moedas?

Saboreiam as minhas letrinhas?

Pergunto para estes bravos:

Já perderam alguma empresa no turbilhão das dívidas?

Oficiais de justiça, audiências trabalhistas, fornecedores apavorados, funcionários deprimidos, salários atrasados.

Já experimentaram dramas assim?

Minha torcida mais sincera é para que não tenham tido tais experiências.

Mas, afinal, por que elas acontecem?

Muitos são os fatores, justificáveis ou não.

Bem estudados, porém, mostram algum tipo de erro de avaliação, em pelo menos alguma etapa da administração dos recursos.

Ao errar, por boa ou má fé, descobre-se que o estrago é grande e superá-lo não é missão das mais simples.

Exige, muitas vezes, a substituição dos atores ou dos métodos.

Constituir uma nova família ou adotar - pais e filhos - um novo comportamento no uso do dinheiro.

Nas empresas, contratar um novo gerente ou implantar um método de gestão mais eficiente.

Pois é...

E quando o erro compromete a saúde financeira de um país?

E quando as falhas na previsão orçamentária, na manipulação dos recursos, no zelo com o erário promovem uma crise monumental que atinge famílias, empresas, investidores, enfim, trabalhadores e empregadores?

Nas famílias e nas empresas - "normais" - o dinheiro não é público e a conta e o risco são particulares.

Nos governos, os impostos geram o dinheiro - público - que obrigatoriamente deve ser bem administrado.

O comportamento duvidoso e o despreparo do ator principal que conduz a administração do país a um quadro desta gravidade podem representar um crime?

Neste momento penso que estes são os pontos que os representantes do povo brasileiro estão avaliando.

Optando pelo afastamento da presidente é possível que toda a nação reflita sobre os desdobramentos do uso indevido do dinheiro.

Valerá, ao menos, como um duro aprendizado.

Poderá ensinar, para muita gente, que o dinheiro não aceita desaforo.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Dominique

Opinião

Somos os otários de todos

Contardo Calligaris
No dia 8/4, o deputado Rogério Marinho (PSDB-RN) tomou a palavra na Comissão Especial do impeachment. Mostrou (mais uma vez) que esse impeachment não tem tanto a ver com as pedaladas fiscais, por mais que fossem enérgicas, quanto com o descontrole, a incompetência e a corrupção no partido de governo.

Até aí, tudo bem. Mas, criticando a política educacional do PT, o deputado produziu esta pérola:

"É a receita de Gramsci, da hegemonia cultural, e da escola de Frankfurt, da doutrina de gênero, numa tentativa de destruir a família"¦"

Mamma mia. Deputado, Gramsci não distribuía receitas. Nos cadernos que ele preencheu no fundo das prisões fascistas, ele registrava suas tentativas de entender como funciona o mundo.

A "hegemonia cultural" não é uma estratégia que Gramsci proporia ao partido comunista; ao contrário, trata-se de um conceito para tentar entender como, em cada momento da história, a classe dominante produz e impõe à população um conjunto de ideias e crenças.

Entender como funciona a hegemonia cultural talvez nos permitisse nos livrar (um pouco) dela, ou seja, descartar a visão do mundo sugerida pelos preconceitos mais triviais das "elites".

O incrível parágrafo do deputado Marinho é um bom exemplo da retórica da hegemonia cultural. A família sequer é um valor cristão, sua idealização faz parte de um projeto de gestão de nossas vidas –por exemplo, o dos vários movimentos "Tradição, Família, Propriedade". Marinho convida seus ouvintes a defender a família para que, combatendo o PT e Gramsci etc., eles aceitem a família como um pressuposto e se esqueçam de criticar esse valor.

Vamos à frase seguinte de Marinho, a "doutrina de gênero da Escola de Frankfurt". Aqui, evito os detalhes, porque sinto um pouco de vergonha alheia. Com o que se apavora o deputado? Com a ideia de que o gênero poderia ser uma construção social e não só um efeito do sexo anatômico? Ou ainda com a obviedade de que alguém pode se sentir pertencendo a um gênero que não corresponde ao seu sexo anatômico? O que propõe o deputado: exterminar essas pessoas? Segregá-las para que ele não se sinta ameaçado em suas certezas?

Mais uma coisa: não existe uma "doutrina de gênero", salvo a dos que querem nos convencer de que só há dois gêneros e eles devem corresponder ao sexo anatômico de cada um (mais um exemplo de hegemonia cultural, aliás).

A frase do deputado Marinho não vale essa resposta toda. De onde vem minha irritação? É que pertenço, há tempos, à classe dos otários, e isso começa a me irritar.

É uma classe média, remediada (enriquecer não está no topo da lista), alguns são marxistas, outros liberais, mas o essencial é que todos são frequentadores de cinemas, teatros e livrarias, geralmente laicos e agnósticos em matéria de religião, desprezam os moralistas, desconfiam das agremiações que ferem a liberdade individual e promovem ideais de justiça social e de convivência social-democrata.

Você se reconheceu?

Não tem um partido que nos represente. A Rede? Só se Marina nos escrevesse uma carta jurando que ela governaria sem o apoio da bancada evangélica. O PSDB? Rogério Marinho é do PSDB, João Campos também é, com sua moção de repúdio ao "beijo gay" nas novelas.

O PT, por não ser um partido marxista, poderia representar uma boa parte dos nossos. Seriam seus "companheiros de caminhada".

Claro, veio o mau governo. Mas já éramos os otários da caminhada.

O governo sempre preferiu comprar a amizade de Maluf, Malafaia etc. a respeitar quem tinha depositado nele suas esperanças de uma sociedade melhor.

O pressuposto, suponho, era que nós reconheceríamos a necessidade das alianças e continuaríamos apoiando o partido, sem precisar que ele respondesse aos nossos anseios.

E o resultado foi o abandono de qualquer agenda libertária e progressista. Um exemplo? Em 14 anos, o governo foi incapaz de introduzir sequer a discussão de um projeto de descriminalização do aborto. O medo de comprar brigas e de perder apoios falou sistematicamente mais alto.

Alguém dirá que isso seria arriscado demais num país católico como o Brasil. A Itália e a Espanha também eram.

Outros dirão que a agenda libertária é coisa para país nórdico. Concordo, nórdico, como o Uruguai. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 15 / 04 / 2016

O Globo
"Câmara tem 342 votos declarados pró-impeachment"

PMDB e cinco partidos pequenos decidiram orientar seus deputados a votar pelo afastamento da presidente

A Câmara já tem 342 votos declarados pela aprovação do impeachment da presidente Dilma, segundo levantamento feito pelo GLOBO ouvindo os deputados. O número representa dois terços do total de 513, proporção que, se confirmada na votação de domingo, levará o processo ao Senado, responsável por julgar a presidente. Outros 118 parlamentares disseram que votarão contra o afastamento e 53 ainda se declaram indecisos ou não responderam. Caso o resultado seja acolhido pelos senadores, em votação que deve ocorrer em maio, Dilma será afastada por 180 dias e o vice Michel Temer assumirá. Ontem, o PMDB e cinco partidos nanicos decidiram recomendar o voto pró-impeachment. Peemedebistas calculam que 90% da bancada seguirão a orientação.    

Folha de S.Paulo
"Empreiteira bancou pesquisas para Dilma em 2014 via caixa 2"

Andrade Gutierrez usou contrato que tinha com instituto Vox Populi; campanha da petista nega

A Andrade Gutierrez usou contrato com o instituto Vox Populi para pagar pesquisas usadas e não declaradas pela equipe de comunicação da campanha da reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT) em 2014, informam Graciliano Rocha, Valdo Cruz e David Friedlander. Investigada na Lava Jato, a empreiteira tinha um contrato com o instituto que acabou utilizado para bancar pesquisas qualitativas encomendadas pela equipe de produção de programas da então candidata petista. A prática configura caixa dois. Os pagamentos ultrapassaram R$ 10 milhões, e os repasses da construtora ao Vox Populi não estão incluídos na prestação de contas da campanha nem do PT. A chefia da campanha de Dilma em 2014 nega ter usado a Andrade para pesquisas e diz que todos os contratos foram declarados à Justiça Eleitoral. Empresa e instituto não comentaram.       

O Estado de S.Paulo
"Oposição já tem votos para o impeachment na Câmara"

Placar do ‘Estado’ apontava, até a 0h30 de hoje, que o grupo que defende a saída de Dilma alcançou os 342 apoios necessários

Placar do Impeachment do Estado mostra que a oposição alcançou ontem os 342 votos necessários para aprovar a admissibilidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara. O número foi atingido com a declaração de voto do deputado Altineu Côrtes (PMDB-RJ). A votação será no domingo. Caso a admissibilidade seja aprovada, o processo seguirá para o Senado, onde aliados do vice Michel Temer já pressionam o presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), para acelerar o rito que decidirá sobre um eventual afastamento de Dilma. Temer planeja mudança ministerial e “choque” na gestão econômica caso assuma a Presidência interinamente. O plano é criar nova base aliada no Congresso e propor reformas que precisem de aval dos parlamentares. Uma das ideias é reduzir de 32 para, no mínimo, 20 o número de ministérios. As mudanças não devem poupar nem sequer os seis ministros do PMDB hoje no governo. O vice já busca nomes para pastas como Fazenda e Justiça.      
           

quinta-feira, abril 14, 2016

Física


Opinião

A fala do trono de Temer

Elio Gaspari
Corrupção. Faltou não só a palavra, faltou qualquer referência ao tema. Pode ter sido esquecimento, o que não é pouca coisa, pois nesse caso Michel Temer seria o único brasileiro capaz de falar durante 14 minutos sobre a crise política, pedindo um governo de "salvação nacional", sem qualquer referência às iniciativas que feriram a oligarquia política e econômica brasileira.

Uma coisa é o destino da doutora Dilma. Bem outra são a Lava Jato e suas subsidiárias que estão encurralando oligarcas. É insultuoso supor que uma pessoa queira defenestrar a doutora e o PT para travar a Lava Jato, mas quem quer freá-la pode achar que uma troca é boa ideia. É necessário reconhecer que a cena do deputado Eduardo Cunha e do senador Romero Jucá de mãos dadas e braços erguidos comemorando o rompimento do PMDB com o Planalto mostra para onde vão os interesses de uma banda da oligarquia. Cunha é réu de um processo no Supremo Tribunal e Jucá está sendo investigado pelo Ministério Público.

Se houvesse qualquer referência ao combate à corrupção no seu discurso de posse presuntiva, Temer mostraria coragem e disposição de incomodar correligionários. Esqueceu-se, tudo bem, mas não deve pedir aos ouvintes que não percebam. Como se sabe desde que a palavra impeachment entrou no vocabulário politico, tirar Dilma é uma coisa, quem botar no lugar é outra.

Desconte-se a trapalhada que tornou público o áudio de Temer. Ele informou que recolheu-se "há mais de um mês". Seria um exemplo de recato se tivesse amparo nos fatos. O vice-presidente gosta de palavras raras e construções solenes. Só isso o leva a falar em "senadores da melhor cepa e sabedoria". Ou em "estudar isso com detença". O doutor parece competir com o governador Geraldo Alckmin na produção de platitudes. Coisas como "não quero que isto fique em palavras vazias", "temos absoluta convicção", "a classe política unida com o povo", "o Estado não pode tudo fazer". Finalmente: "temos que preparar o país do futuro". O tucano paulista acrescentaria: "com firmeza e determinação".

Os 14 minutos de Temer não embutiram uma plataforma, mostraram um palanque. Diante da ruína produzida pela doutora Dilma, antecipa "sacrifícios". Oferece intenções e diálogo. Num ponto, porém, ele se deteve:

"Sei, por exemplo, no tópico da Federação, da grande dificuldade dos Estados e municípios nos dias atuais. Há estudos referentes à eventual anistia ou perdão de uma parte das dívidas e até uma revisão dos juros que são pagos pelas unidades federadas. Vamos levar isso adiante."

Decifrando a promessa para governadores encalacrados e prefeitos falidos: "Vamos levar isso adiante". (Faltou definir "isso".)

Decifrando os números: Estados e municípios querem repactuar os contratos de R$ 402 bilhões de dívidas já renegociadas com a União. Neste ano horrível, a simples revisão dos juros pode tirar R$ 27 bilhões da União. (O Supremo Tribunal concedeu uma liminar que poderá beneficiar todos os governadores e prefeitos, mas a sentença ainda depende do pleno da Corte.)

Governo de "salvação nacional". Salvação de quem?

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 14 / 04 / 2016

O Globo
"Debandada na Câmara já eleva pressão no Senado"

PSD de Kassab também orienta bancada a votar pela saída de Dilma

Oposição pressiona Renan Calheiros para que a votação ocorra ainda em abril; se impedimento for aprovado por deputados e autorizado por senadores, presidente será afastada por 180 dias

A debandada de partidos do governo continua a isolar ainda mais a presidente Dilma, levando integrantes do Planalto a já admitir derrota na votação de domingo na Câmara. Ontem foi a vez de o PSD do ministro Gilberto Kassab (Cidades) orientar a bancada a votar pelo impeachment, o que deve ser seguido por 30 dos 38 deputados. A oposição voltou suas baterias para o Senado e pressiona o presidente Renan Calheiros a acelerar o rito: quer que a votação para autorizar a abertura do processo ocorra ainda em abril. Se autorizada, a presidente é afastada por 180 dias, e o vice Michel Temer assume. Em entrevista, Dilma propôs um pacto caso o impeachment seja barrado. “Se eu perder, estou fora do baralho”, afirmou ela.   

Folha de S.Paulo
"Com PSD, oposição afirma já ter votos para impeachment"

Partido do ministro Kassab orienta deputados a votar contra a presidente Dilma no domingo (17)

Um dia após a maioria do PP anunciar a adesão ao impeachment, o PSD, do ministro Gilberto Kassab (Cidades), orientou sua bancada na Câmara a votar pela abertura do processo contra a presidente Dilma Rousseff. Em reunião na Casa, de 28 a 30 dos 38 deputados do PSD que devem votar se manifestaram contra a petista. A votação em plenário está prevista para domingo (17). A decisão faz a oposição contar 349 votos a favor do impedimento — são necessários pelo menos 342 de 513. Com o revés no PP e no PSD, membros do governo afirmam que, se houver uma vitória, ela será apertada. O Planalto calcula 180 deputados contra o impeachment. O processo é barrado com 172 votos ou abstenções. Se o pedido passar na Câmara, chega ao Senado, que decidirá o futuro de Dilma. O vice-presidente, Michel Temer (PMDB), disse a aliados que, caso a presidente seja afastada, anunciará medidas para mostrar que não vê como passageira sua ascensão ao cargo.       

O Estado de S.Paulo
"PSD e PTB abandonam governo; Planalto admite situação crítica"

Governo já tenta evitar derrota ‘humilhante’ na Câmara; Dilma promete ‘pacto’ se vencer e diz que, se perder, estará ‘fora do baralho’

O PSD, do ministro Gilberto Kassab, e o PTB aumentaram ontem o movimento de debandada do governo e aderiram oficialmente ao bloco pró-impeachment de Dilma Rousseff. Embora os dois partidos tenham dissidentes, devem somar pelo menos 45 votos. Presidente licenciado do PSD, Kassab informou que não deixará o Ministério das Cidades. O Planalto e líderes governistas no Congresso consideram que a situação se agravou de maneira drástica e, em conversas reservadas, reconhecem o momento crítico. Tudo está sendo feito, porém, para evitar uma “derrota humilhante” na Câmara. Segundo um auxiliar de Dilma, se isso ocorrer, será difícil reverter o cenário no Senado. A jornalistas, Dilma disse estar confiante numa vitória na votação do impeachment e prometeu propor um grande pacto nacional, inclusive com a participação da oposição, no dia seguinte à definição. A presidente disse que a crise política não pode deixar “vencidos nem vencedores”. Ao ser indagada se participaria de um pacto em caso de derrota, respondeu: “Se perder, estou fora do baralho”.      
           

quarta-feira, abril 13, 2016

Física


Opinião

Quando somos crescidos

João Pereira Coutinho
"O que você quer ser quando crescer?" A pergunta, infantil, é normalmente dirigida às crianças. Mas eu gosto, repito, insisto.

Já escutei de tudo –de astronauta a presidiário (juro). Mas um filho de amigos, oito anos, criança normalíssima, deu a resposta mais notável de meu histórico inquisitivo. "Aposentado. Quero ser aposentado."

Os pais riem, nervosamente: são ambos profissionais bem-sucedidos, bem instalados, bem medicados e não gostam dessas exibições de "preguiça". Pobres pais. Eles deveriam saber que têm na frente uma criança inventiva, inteligente e provavelmente talhada para a felicidade.

Eis o problema, filosoficamente falando: nossas pobres existências burguesas caíram na suprema armadilha de fazer da profissão a principal fonte de identidade. Era quase inevitável: com o recuo das teologias tradicionais e a crescente atomização social –seres isolados, sem vida comunitária digna de nome, que cumprem diariamente o calvário casa, trabalho, casa– o que fazemos não é apenas uma forma legal (no sentido jurídico) de ganhar a vida.

O trabalho define quem somos e as conversas cotidianas não mentem. "Prazer em conhecê-lo", dizem os estranhos a quem somos apresentados. E depois acrescentam: "E você faz o quê?". Bizarro: depois do nome, a profissão. Várias vezes respondi: "Rigorosamente nada." O outro fica pasmado, desconfortável, como se eu tivesse confessado um crime.

Então eu dou uma risada e respondo: "Sou colunista" (sim, os cínicos dirão que isso é eufemismo para não fazer nada). Suspiros de alívio. Sou finalmente readmitido na tribo.

Mas se o trabalho é a principal fonte de identidade, isso tem um preço perverso: sem trabalho, não há identidade. Conheço casos, próximos, dolorosamente próximos: a aposentadoria chega e os dias são invadidos pelo vazio absoluto. Mesmo quando o trabalho cessante era uma fonte perpétua de lamentações e cansaços.

É fácil argumentar que a libertação desse trabalho oferece possibilidades mil de ociosidade, viagem, leitura –ou, então, novas ocupações, improváveis ocupações, até delirantes ocupações (só conheci um caso: um antigo professor universitário que, cansado da rotina, abriu uma pista de kart, uma velha paixão de infância).

Mas a filosofia, também aqui, explica muita coisa: o trabalho não confere apenas uma identidade; ele cria a ilusão de que essa identidade é rígida, monolítica, solidificada. Somos o que fazemos, ponto final. Não podemos ser nem fazer outra coisa qualquer.

É contra esse pensamento lúgubre que a revista "Atlantic" se insurge na sua edição mais recente. Escreve Barbara Bradley Hagerty que, nos Estados Unidos, só metade do pessoal com 40, 50 ou 60 anos se sente "realizado" com o que faz.

Essa falta de "sentido" tem um preço bem tangível: física e psicologicamente, esses náufragos correm risco de afogamento (depressões, infartos etc.). Daí vem a pergunta: e por que não mudar?

Verdade, verdade: aos 40 ou 50 ou 60 não é fácil mudar. Contas, filhos, um certo "nível de vida". Mas não é impossível –menos jantares, uma casa mais pequena, um carro mais modesto. Pequenas mudanças, grandes mudanças –o resultado é sempre positivo. Mesmo quando existe o fracasso eventual.

Como escreve Hagerty, depois de ouvir vários trabalhadores –dos temerosos aos temerários–, aquilo que mais custa não é ter tentado e falhado. É nunca ter tentado. A angústia desses últimos suplanta o fracasso dos primeiros.

Claro que Hagerty fala sobretudo para os descontentes –e não para aqueles que têm o trabalho sonhado. Mas mesmo esses –"the happy few"– irão enfrentar o fim de uma carreira. E, depois desse fim, vem o dia seguinte. Os dias seguintes. Que fazer, meu Deus, que fazer?

Pessoalmente, não tenho razões de queixa: faço o que gosto. E uma vida de escrita é uma boa escola de solidão. Além disso, quando existe o prazer da leitura, isso também é um seguro de vida que só termina com a própria vida (um conselho que deixo aos mais jovens: gostar de ler é ter companhia fiel, mesmo quando as outras companhias nos deixaram há muito).

Mas me imagino facilmente ocupando os dias com um bistrô junto à praia, jingles comerciais publicitários ou um talento nunca explorado para truques de magia.

A carreira de presidiário, essa pode ficar para uma próxima vida. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 13 / 04 / 2016

O Globo
"Maioria do PP anuncia voto pró-impeachment"

Partidos ampliam isolamento de Dilma, que ataca Temer e Cunha

Previsão no PMDB é que apenas oito dos 68 deputados da bancada votem com o Planalto no domingo; entre os 47 parlamentares do PP na Câmara, a maior parte se declara favorável ao afastamento

A cinco dias da votação do impeachment no plenário da Câmara, a debandada da base aliada foi acelerada ontem, após a derrota do governo na comissão especial. Num duro revés para a presidente Dilma, o PP anunciou que a grande maioria dos seus 47 deputados votará pelo impeachment. O presidente do PP, Ciro Nogueira, afirmou que o partido deixará o governo e entregará o Ministério da Integração. O PRB, com 22, formalizou decisão pró-impeachment. A bancada do PMDB já teria, segundo governistas, 60 dos 68 votos a favor do impedimento. Em mais uma cerimônia com aliados no Planalto, Dilma acusou o vice Michel Temer e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de traição e conspiração.   

Folha de S.Paulo
"PP e PRB apoiam impeachment; Temer é conspirador, diz Dilma"

Pepistas entregam cargos no governo federal; votação é marcada para domingo (17), às 14h

As bancadas do PP e do PRB na Câmara decidiram apoiar o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).Dos 69 nomes somados, menos de dez são contra a de posição.Para barrar o processo, o governo precisa reunir 172 votos ou abstenções. Quarta maior bancada, o PP passou a ser cortejado após a saída do PMDB. O Ministério da Saúde foi oferecido, mas a sigla optou por entregar seus cargos federais. A votação do pedido de impeachment foi marcada para domingo (17), às 14h. Em discurso, Dilma chamou o vice, Michel Temer (PMDB), de “chefe conspirador”. Para o presidente da sigla, Romero Jucá, a petista perdeu o equilíbrio.       

O Estado de S.Paulo
"PP decide apoiar impeachment e amplia isolamento do Planalto"

PRB também anunciou que votará pela saída da presidente; temor no governo é de que haja debandada de aliados até domingo

O presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira, anunciou ontem à noite o desembarque da gestão Dilma Rousseff e pediu que integrantes do partido no governo entreguem os cargos. A decisão do PP, apontado como peça fundamental pelo Planalto na luta contra o impeachment, foi mais um revés na estratégia governista e fez crescer a sensação de que ocorrerá uma debandada de aliados até domingo, quando o impedimento será votado no plenário da Câmara. Nesta reta final, o Planalto deve contar apenas com apoio formal de partidos à esquerda. O anúncio do PP foi feito após reunião de 44 dos 47 parlamentares da legenda. Deles, 31 se posicionaram a favor da saída de Dilma. Com 22 deputados e um senador, o PRB também anunciou que as bancadas na Câmara e no Senado votarão pelo impedimento. Pesaram na decisão os planos para as eleições municipais. Na votação do impeachment, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha,dará início à chamada dos deputados pelo Sul, seguidos por Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Norte.     
           
 
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