sábado, março 19, 2016

Dominique

Opinião

Coletores-caçadores

Contardo Calligaris
Nas manifestações de domingo passado, a insatisfação da rua não tratou nenhum político com simpatia. Uma exceção foi em Brasília, onde o deputado Jair Bolsonaro foi bem recebido pelos manifestantes.

Isso não significa que os manifestantes contra a corrupção, Dilma, o governo, o PT, Eduardo Cunha e afins sejam nostálgicos da ditadura militar ou misóginos, homofóbicos, contrários ao aborto etc.

Hoje, o apelo a alguém que encarna a pior repressão não me estranha. A corrupção é mais endêmica do que a dengue e o zika; portanto, é normal que haja um bom números de corruptos, corruptores, sonegadores, encostados etc. entre os que desejam que a corrupção e o encosto não sejam mais nosso sistema de governo.

Agora, quem precisa lutar contra suas próprias piores tendências invoca remédios que possam inibir sua própria liberdade. Ou seja, quem invoca a ditadura militar contra a corrupção é como um viciado que pede para ser internado para lutar contra seu vício.

Falando de Bolsonaro, uma amiga me diz que ele é "primitivo". Discordo. E aproveito para cumprir minha promessa da semana passada e falar sobre os coletores-caçadores, que povoaram a terra de 5 milhões a 200 mil anos atrás (e ainda não sumiriam inteiramente). Eles são, por sua duração, nossos antepassados mais importantes.

Parêntese: como notou o leitor João Guizzo, eu os chamo de caçadores-colheidores –é por antipatia pela coleta, que me faz sempre pensar no dízimo.

Então, como imaginamos que fossem os coletores-caçadores?

Aqui, um pouco de desconfiança. Em geral, tendemos a interpretar o passado (sobretudo a Pré-História) de maneira a justificar nossas ideias sobre o que seria "natural". Por exemplo, você quer manter as mulheres no "quarto de Jack"? Tudo bem, vamos dizer que, na Pré-História, elas ficavam sempre nas cavernas"¦

Justamente, os anos 1960, a época em que a propaganda do pós-guerra tentava confinar o desejo das mulheres entre a cozinha e a cama nupcial, foram também o momento em que se vulgarizou o mito dos coletores-caçadores.

Esse mito contava que, durante milhões de anos, a gente tinha vivido em famílias nucleares –os homens saindo à procura de proteína (carne de caça), e as mulheres (em estado de dependência de seus machos) catando salada e frutas perto da porta da caverna, onde cozinhavam e cuidavam das crianças.

Os nazistas sonhavam com o Reich de mil anos. Como escreveu Rebecca Solnit num ensaio antológico na "Harper's" de junho de 2015 (disponível em migre.me/tedMt), os conservadores dos anos 1960 fizeram melhor: eles inventaram o subúrbio norte-americano de 5 milhões de anos. As mulheres estão em casa, fiéis a seus homens (por amor ou por dependência), e os homens caçam pelos vastos espaços e voltam cobertos de glória e de carne sem a qual todos morreriam de fome –não é?

Se assim fosse, Bolsonaro seria primitivo. Mas parece mesmo que não é assim, e assim nunca foi.

Já nos anos 1960, uma antropóloga, Elizabeth Marshall Thomas, foi viver numa comunidade de coletores-caçadores, no Kalahari. Ela descobriu coisas que poderiam ter sido óbvias desde sempre, se o machismo do pós-guerra não precisasse de um protótipo na Pré-História.

Por exemplo, ela descobriu que, nas sociedades de coletores-caçadores, as mulheres e as crianças eram tão relevantes quanto os homens –se não mais, porque a dita caça lenta (lesmas, lagartos etc.) ao redor da caverna era mais importante para a alimentação de todos do que a captura de um animal de grande porte pelos homens.

Talvez por isso, aliás, homens e mulheres tivessem o mesmo peso político na vida da tribo. A sociedade era igualitária (acumular bens era uma idiotice para quem se deslocava com frequência). A família nuclear, se existia, era pouco relevante: os filhos eram criados coletivamente, e os caçadores não caçavam como provedores para sua família, mas sempre para a comunidade.

Enfim, a tribo, por sorte, não dependia deles. Imagine um bando de homens correndo na planície à procura de uma presa. Eles têm sorte e, juntos, matam uma espécie de búfalo. Como levá-lo de volta? Como preservar a carne? Eles convocam a comunidade, que vem toda para uma tremenda festa, a qual não vai alimentar ninguém, e cujo efeito mais provável vai ser uma tremenda diarreia. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 19 / 03 / 2016

O Globo
"Aliados de Dilma e Lula fazem manifestação em todos os estados"

PT reúne 275 mil, 7% do público das manifestações pelo impeachment

Cinco dias após o maior protesto da História, que reuniu pelo menos 3,6 milhões nas ruas do país pedindo o impeachment da presidente Dilma, ontem CUT, sindicatos, movimentos sociais e o PT conseguiram mobilizar manifestantes pró-Dilma e Lula em todos os estados. Segundo estimativas oficiais, 275 mil pessoas participaram dos atos de ontem, ou 7% do público de domingo. Na Avenida Paulista, os manifestantes ocuparam 11 quarteirões, 12 a menos que nas manifestações anti-Dilma. Os protestos em favor do governo tiveram shows e foram realizados num dia de semana, após o expediente. O anterior, no domingo. Ameaçado de prisão e sob pressão por grampos da Lava-Jato, Lula foi à Paulista e reencarnou a versão "paz e amor". As críticas dos manifestantes se concentraram no juiz Sérgio Moro.

Folha de S.Paulo
"Ato pró-governo reúne 95 mil em SP; Lula adota discurso conciliador"

Foi a maior manifestação anti-impeachment, segundo Datafolha; no domingo (13), 500 mil protestaram na cidade contra Dilma

O maior ato pró-governo Dilma Rousseff (PT) reuniu 95 mil na avenida Paulista, segundo o Datafolha —em dezembro, 55 mil foram ao local em apoio à presidente. No domingo (13), 500 mil manifestantes pediram o impeachment da petista. Nesta sexta (18),movimentos ligados ao governo realizaram atos em todo o país, em apoio ao ex-presidente Lula e com críticas ao juiz Sergio Moro, da Lava Jato. Na avenida Paulista, Lula adotou tom conciliador. Afirmou ter voltado a ser ‘Lulinha Paz e Amor’, pediu a opositores que “não nos tratem como inimigos” e disse que não vai ter golpe. Ele declarou ter aceitado a chefia da Casa Civil para ajudar Dilma, em resposta à acusação de que buscava obter o foro privilegiado. Nova divulgação de gravação telefônica, autorizada por Sergio Moro, mostra que o presidente do PT, Rui Falcão, pressionou o ministro Jaques Wagner para colocar Lula no governo federal. Em evento na Bahia, Dilma disse que, em outros países, aqueles que grampeiam presidente sem autorização da Suprema Corte são presos. O PRB entregou o Ministério do Esporte, primeira baixa no alto escalão desde a abertura do processo de impeachment.

O Estado de S.Paulo
"STF suspende posse de Lula e mantém investigação com Moro"

Ministro Gilmar Mendes fala em ‘risco de fraude à Constituição’ e acata pedido de mandado de segurança do PSDB e do PPS

O ministro Gilmar Mendes, do STF, suspendeu ontem a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o ministro-chefe da Casa Civil e decidiu que a investigação do petista deve ficar com o juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato. Mendes se manifestou a favor do pedido do mandado de segurança de dois partidos da oposição, PSDB e PPS, que alegavam que Lula havia tomado posse para ganhar foro privilegiado e ser julgado pelo Supremo. Em sua decisão, Mendes fala em risco de “fraude à Constituição”. O governo deve recorrer da decisão e levar o caso para a análise do plenário da Corte. Ontem à tarde, Lula chegou a ser considerado ministro por cerca de duas horas, mas uma terceira liminar de um juiz de primeira instância de Assis (SP) havia suspendido a posse. A Polícia Federal analisa conversa gravada entre o presidente do PT, Rui Falcão, e o ex-ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, em que discutem a nomeação de Lula para protegê-lo.  
           

sexta-feira, março 18, 2016

Ford Trimotor


Coluna do Celsinho

Bom futuro

Celso de Almeida Jr.

Nesta semana conversei com dois jovens empreendores.

Na primeira reunião, uma dedicada profissional ilustrou-me novas estratégias de comunicação nas redes sociais.

Colheu, atenta, informações sobre a empresa onde trabalho, material necessário para formular procedimentos inovadores.

Aproveitou a oportunidade e compartilhou comigo um de seus projetos de alcance social, sensibilizando-me para a causa.

No outro encontro, um entusiasta pelo desenvolvimento sustentável de Ubatuba convenceu-me a ser parceiro de seu projeto.

Seus argumentos pela preservação responsável, pela valorização dos agentes econômicos locais  e pela divulgação inteligente da "marca" Ubatuba causaram a melhor impressão.

Muito bom, né?

Jovens competentes e dedicados empreendendo, dando luz à novas ideias, acreditando no presente e no futuro da cidade.

Por um instante, lembrei-me de minha juventude.

Meus sonhos, meus projetos, minha vontade de contribuir para um mundo melhor.

Num balanço relâmpago, concluí que tive acertos e erros, mas o saldo foi positivo.

Pois é...

Não tenho mais, infelizmente, aquele entusiasmo juvenil.

Chegando ao meio século de existência, reconheço que aquela chama inspiradora diminuiu de intensidade.

O que anima, porém, é constatar em muitos jovens de hoje a perpetuação de sonhos carregados das melhores intenções.

Apoiá-los, portanto, é tarefa gratificante e necessária.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Dominique

Opinião

No beco sem saída

Ferreira Gullar
No final da semana passada, ocorreram fatos políticos que, por sua relevância, mudaram qualitativamente a situação, já crítica, do governo Dilma Rousseff, do presidente Lula e de seu partido: a divulgação da delação premiada do ex-líder do governo no Senado Delcídio Amaral e a condução coercitiva do ex-presidente Lula para depor na Operação Lava Jato. Não por acaso, em função desses fatos, a presidente Dilma convocou o ministério para, solenemente, tentar responder às acusações feita pelo seu ex-representante no Senado e a reação de Lula após o depoimento que foi obrigado a prestar.

As possíveis consequências da delação feita por Delcídio assustaram o Planalto, principalmente por suas implicações, dadas as revelações que contém, que darão vida nova ao processo de impeachment da presidente da República. Lula tampouco escapa das denúncias feitas pelo seu, até bem pouco tempo, fiel companheiro de partido.

A delação de Delcídio, embora surpreendente, resulta de uma tendência inevitável dos envolvidos na Operação Lava Jato, que preferem abrir o jogo do que pagar a culpa em anos de cadeia. Mais delações virão, como já está sendo anunciado. Imagino o que essa ameaça deve provocar no alto comando petista e, particularmente, em Lula, que sabe muito bem o que fez e o que mandou fazer ao longo desses treze anos.

A condução coercitiva de Lula para depor surpreendeu a todos e, creio eu, particularmente a ele, Lula, e a sua turma. De fato, nenhum deles esperava por isso: Lula conduzido pela polícia para depor! E não só isso, mas também a ação de busca e apreensão no sítio de Atibaia, no tríplex de Guaraujá e no Instituto Lula.

Esses fatos implicam uma mudança qualitativa na situação do ex-presidente na Operação Lava Jato. Ele, mais que ninguém, preocupa-se com as consequências disso, como demonstra a sua atitude após deixar o aeroporto de Congonhas, onde depôs: pregou no peito a estrela do PT e voltou a ser o agitador de outrora.

Tem gente que acha que, com essa atitude, Lula e o PT renasceram, que a militância petista voltará às ruas e a candidatura de Lula em 2018 ganhou viabilidade. Segundo essa visão, eles deram a volta por cima.

Já minha opinião é outra. A reação de Lula é mais de desespero do que de confiança. No meu modo de ver, ao ser levado coercitivamente para depor, ele se deu conta de que não é intocável e que pode acontecer com ele o mesmo que aconteceu com Marcelo Odebrecht, dono de uma das maiores empreiteiras do país, e outros poderosos empresários, flagrados pela Lava Jato, ou seja, entrar em cana.

Não por acaso, o procurador Carlos Fernando Lima, da equipe que conduz a Operação Lava Jato, afirmou, naquele mesmo dia, que "ninguém está acima da lei".

Isso, porém, não é tudo. O que explica a atitude de Lula, após o depoimento daquela sexta-feira, foi ter tomado ciência de que o segredo das compras do tríplex e do sítio de Atibaia foi desvendado pela equipe investigativa da Lava Jato. Conforme declarou o juiz Sergio Moro, há fortes indícios de que tanto o tríplex da Guarujá quanto o sítio de Atibaia, pertençam ao senhor Luiz Inácio Lula da Silva.

Noutras palavras, tudo o que o ex-presidente disse para alegar que tais propriedades não lhe pertencem, será desmentido pelas investigações já quase concluídas.

O país inteiro tem visto e ouvido Lula afirmar que aqueles bens não lhe pertencem e que tais acusações seriam nada mais nada menos que parte de um plano cujo objetivo é desmoralizá-lo e excluí-lo, a ele a seu partido, da vida política do país.

Chegou a afirmar que não existe, no Brasil, nenhum cidadão tão honesto quanto ele. Mas, se revelada a verdade, como ficará ele diante da opinião pública e de seus próprios seguidores? Corre o risco de passar por corrupto e mentiroso.

Não tenho dúvida de que o lulopetismo agoniza e a condenação de Lula seria o golpe de misericórdia. Por isso, deixou de bancar o estadista para voltar a ser, como antigamente, o inimigo dos ricos e o defensor dos pobres, atitude, aliás, insustentável, tanto que, dias depois, estava em Brasília, ameaçado de perder o apoio do PMDB. E não é que o MP de São Paulo o acusa agora de lavagem de dinheiro e falsidade ideológica? A coisa está preta. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 18 / 03 / 2016

O Globo
"Judiciário repudia ofensas e suspende manobra de Lula"

‘Condutas criminosas à sombra do poder jamais serão toleradas’, avisa decano do STF

Ex-presidente chegou a ser empossado em solenidade na qual Dilma reagiu à divulgação de grampos pelo juiz Sérgio Moro e disse que ‘golpes começam’ assim. Em carta no fim do dia, Lula afirmou que respeita o Judiciário e pediu justiça

A posse do ex-presidente Lula na Casa Civil, vista pela Lava- Jato como manobra para obter foro privilegiado e escapar do juiz Sérgio Moro, foi suspensa logo após a solenidade no Planalto. Dois juízes deram liminares, uma já cassada, por entender que a nomeação é uma intervenção indevida nas investigações sobre Lula. Mais de 30 ações, no STF e na primeira instância, contestam a posse por a considerarem uma manobra da presidente Dilma e de Lula. No STF, os processos ficarão com o ministro Gilmar Mendes, crítico do PT. Dilma reagiu à divulgação dos grampos e repudiou a tese de blindagem. O Supremo mostrou indignação com ataques de Lula, para quem a Corte “está acovardada”. O decano Celso de Mello disse que “condutas criminosas à sombra do poder jamais serão toleradas”. No STJ, o ministro João Otávio de Noronha também reagiu. Juízes e procuradores apoiaram Moro. Lula divulgou carta dizendo que respeita o Judiciário. 

Folha de S.Paulo
"Reações em série ampliam isolamento de Dilma e Lula"

Na posse de Lula, suspensa na Justiça, presidente diz que uso de métodos escusos pode levar a golpe

Reações de ministros do Supremo Tribunal Federal, entidades de classe, empresários, partidos da base governista, manifestantes e investigadores da Lava Jato ampliaram o isolamento da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, indicado para a Casa Civil. As manifestações ocorrem um dia após revelação de gravações telefônicas com críticas do ex-presidente ao Congresso e ao Supremo. Os grampos, autorizados e divulgados pelo juiz Sergio Moro, indicam que a nomeação para o ministério objetivou embaraçar a aplicação da lei penal contra Lula. O ministro há mais tempo no STF, Celso de Mello, qualificou a fala de Lula de “reação torpe, típica de mentes autocráticas e arrogantes”. O procurador-geral, Rodrigo Janot, disse que ser ministro “não blinda ninguém”. Em decisões distintas, juízes do Distrito Federal e do Rio suspenderam a posse de Lula em caráter provisório. O governo derrubou a ordem judicial da capital federal. Federações industriais de cinco Estados pediram a saída de Dilma. Houve protestos em 12 capitais. Na avenida Paulista, manifestantes montaram barracas em vigília pela queda da presidente. Deputados criaram comissão para discutir o impeachment, com tendência de alta do grupo anti-Dilma. O PMDB e o PP anteciparam debate para deixar a base. Na posse de Lula, a presidente Dilma afirmou que o uso de “métodos escusos” e “práticas criticáveis” pode resultar em golpe.

O Estado de S.Paulo
"O dia em que o ex-presidente sofreu para virar ministro"

A nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a chefia da Casa Civil corre o risco de não se confirmar. Ontem, momentos depois da cerimônia de transmissão de cargo, o juiz Itagiba Catta Preta, do Distrito Federal, suspendeu a posse. A decisão foi derrubada, mas, até o início da noite de ontem, outra liminar, concedida pela juíza Regina Coeli Formisano, do Rio, ainda proibia a posse. No Supremo Tribunal Federal, as ações questionando a nomeação serão julgadas pelo ministro Gilmar Mendes, crítico do governo.  
           

quinta-feira, março 17, 2016

Dominique

Opinião

Dilma decidiu inflar Lula

Elio Gaspari
Dizer que o 13 de março foi a maior manifestação política da história do país é pouco. Ao contrário dos grandes comícios das Diretas, as manifestações de domingo não tiveram participação relevante de governos estaduais, muito menos transporte gratuito. Isso para não mencionar o vexame dos tucanos que tentaram surfar a cena, foram para a avenida Paulista e ouviram o ronco da rua.

Em 1984, o palanque do comício da Sé tinha 120 metros quadrados e foi montado pela Paulistur. No do Rio, os palanques foram dois, um só para VIPs, mais um pódio e passarela para os artistas que se acomodavam num prédio próximo. Sinal dos tempos: em 1984, receando vaias da militância petista, o governador de São Paulo, Franco Montoro, chegou ao proscênio ao lado de Lula. (A cena foi coordenada pelo advogado Marcio Thomaz Bastos.) Passou o tempo e Lula, onipresente nas ruas com seus bonecos infláveis, foi convidado pela doutora Dilma para voltar a Brasília como regente do ocaso do governo e do PT.

O que houve no dia 13 foi povo na rua repudiando o governo e uma oligarquia ferida pela Lava Jato. A prova disso esteve na beatificação do juiz Sergio Moro. O paralelo com as Diretas resume-se a uma questão numérica, mas difere nos desdobramentos.

Nos dois casos, a iniciativa caduca se não conseguir dois terços dos votos dos deputados. Caducou em 1984, pois, apesar de ter conseguido 298 votos, faltaram-lhe 22. Hoje, 171 votos dos 513 deputados seriam suficientes para arquivar o pedido.

Admita-se que num improvável gesto de ousadia dos oligarcas, o impeachment seja mandado ao arquivo. Em 1984, o arquivamento da emenda fechou a porta. Hoje há outra. É a possibilidade da cassação da chapa Dilma-Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral. Os dois processos têm origens diversas. O impedimento está ancorado nas pedaladas fiscais. O TSE julgará a conexão das contas da campanha da doutora com as propinas confessadas por empresários e políticos. A votação do impeachment ocorrerá antes do julgamento. Entre um e outro poderá ressurgir o grito de Diretas-Já, pois nesse caso seriam convocadas eleições para até 90 dias depois da sentença.

O ministro Jaques Wagner tem toda a razão quando diz que a Operação Lava Jato está criminalizando a política. Ele e o PT não perceberam que o juiz Moro está botando na cadeia criminosos que se meteram em transações políticas para atacar a bolsa da Viúva. Quem criminalizou a política foram os criminosos, seguindo um velho hábito da oligarquia. O PT se meteu nesse jogo porque quis.

Jaques Wagner atribui o tamanho do 13 de março à crise econômica. Novamente, tem razão, mas expõe a ruína do governo. Essa crise foi inteiramente fabricada pela doutora Dilma e pelo comissariado. Pode-se dizer que ela não sabia que o PT tinha uma cloaca de pixulecos. (Isso seria o mesmo que dizer que o presidente Médici não sabia das torturas do DOI, onde esteve a Estela-Dilma em 1970.) No caso da crise econômica, a responsabilidade é dela, e só dela.

Os críticos da Lava Jato repetem com frequência que a Operação Mãos Limpas italiana levou ao poder o teatral Silvio Berlusconi. Se as coisas continuarem dando errado, o PT poderá pensar que Lula é o seu Berlusconi.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 17 / 03 / 2016

O Globo
"Diálogo ameaça Dilma"

Dilma: Alô.
Lula: Alô.
Dilma: Lula, deixa eu te falar uma coisa.
Lula: Fala, querida. Ahn.
Dilma: Seguinte, eu tô mandando o Messias junto
com o papel... pra gente ter ele. E só usa em caso
de necessidade, que é o Termo de Posse, tá?!
Lula: Uhum. Tá bom, tá bom.
Dilma: Só isso, você espera aí que ele tá indo aí.
Lula: Tá bom, eu tô aqui, fico aguardando.
Dilma: Tchau.
Lula: Tchau, querida.


Investigado na Lava-Jato e sob ameaça de prisão, o ex-presidente Lula voltou ontem ao governo, nomeado ministro da Casa Civil pela presidente Dilma para ganhar foro privilegiado no STF e escapar de decisões do juiz de primeira instância Sérgio Moro. Antes de a nomeação ser oficializada, porém, Moro liberou o sigilo de gravações, inclusive de conversas entre o ex-presidente e Dilma, com indícios de acerto entre os dois para obstruir a Justiça e prejudicar as investigações, segundo avaliação da força-tarefa da Lava-jato. Em conversa gravada ontem com autorização judicial, Dilma avisa a Lula que estava enviando a ele o Termo de Posse para que use “em caso de necessidade”, o agravou a crise. Divulgadas as gravações, o governo fez publicar edição extra do Diário Oficial oficializando a nomeação.

Em nota, o governo repudiou a divulgação dos grampos, “que afronta direitos e garantias da Presidência”, e anunciou que tomará medidas judiciais. Em outra gravação, Lula também reclama do que chama de “República de Curitiba” e de “uma Suprema Corte totalmente acovardada, um Parlamento acovardado”. Numa outra conversa, o petista pede ao ministro Nelson Barbosa (Fazenda) que pare investigação da Receita sobre o Instituto Lula. No Congresso, parlamentares de oposição pediram, aos gritos, a renúncia da presidente. Manifestantes foram para a frente do Palácio do Planalto defender a saída de Lula e o impeachment de Dilma, além de apoiar Moro, que justificou a quebra do sigilo dizendo que a “democracia exige que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes buscam agir protegidos pelas sombras”. Em entrevista antes da divulgação dos grampos, Dilma negara ter nomeado Lula para que ele tenha foro privilegiado. A comissão do impeachment deve ser instalada hoje na Câmara. 

Folha de S.Paulo
"Presidente atuou para evitar a prisão de Lula, indica gravação"

Dilma diz que grampo ‘afronta direitos da presidência’
Para juiz Sergio Moro, interesse público justifica divulgação
Manifestantes e oposição pedem renúncia

A presidente Dilma Rousseff (PT), em conversa telefônica interceptada nesta quarta (16) pela Lava jato, afirmou ao ex-presidente Lula que enviaria a ele um “termo de posse” de ministro para ser usado “em caso de necessidade”. Para investigadores, a presidente agiu para evitar que Lula fosse preso antes de ser nomeado chefe da casa civil, cargo com foro privilegiado. O sigilo da gravação do diálogo entre Lula e Dilma, ocorrido às 13h32, foi retirado pelo juiz Sergio Moro às 16h20. A nomeação do petista foi oficializada em uma edição extra do “Diário Oficial” da União às 19h, minutos depois da divulgação dos áudios pela imprensa.

Em outros diálogos, Lula afirmou à presidente que as cúpulas dos poderes judiciário e Legislativo estão “acovardadas”. Ao ministro Jaques Wagner pediu que o governo interferisse em ação de seu interesse no Supremo Tribunal Federal. A retirada do sigilo dividiu juristas por envolver Dilma, que tem foro privilegiado. Parte afirma que o caso deveria ter sido enviado ao STF, outros dizem que a medida foi legal. Para o Planalto, a divulgação viola a lei. Moro alega “interesse público”. (...) Com decisão do STF sobre o rito do processo contra Dilma, o pedido volta a tramitar na Câmara.               

O Estado de S.Paulo
"Multidão vai às ruas contra manobra para blindar Lula"

Gravação da PF indica que Dilma tentou evitar prisão de Lula
Manifestantes protestam contra nomeação de ex-presidente para a Casa Civil e fazem panelaços em várias partes do País
Governo diz que vai recorrer à Justiça

A nomeação do ex-presidente Lula para a Casa Civil desencadeou uma série de protestos pelo País. Os atos foram motivados também pela divulgação de áudios da Operação Lava Jato, feitos pela Polícia Federal, com diálogos do petista com a presidente Dilma Rousseff e o ex-ministro Jaques Wagner. Em uma das conversas, Dilma diz a Lula: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?”. Para a oposição, a frase indica que a nomeação de Lula teve como objetivo garantir a ele foro privilegiado e configuraria tentativa de obstrução das investigações. Na Câmara, deputados pediram a renúncia de Dilma.

As conversas monitoradas sugerem também uma tentativa de influenciar o MP e o Judiciário. Em diálogo com Wagner, Lula afirma que a “Suprema Corte está acovardada”. Segundo a Lava Jato, o ex-presidente se referia à atuação do STF perante a operação. Os advogados de Lula classificaram como “arbitrariedade” a divulgação dos grampos. O governo anunciou que vai “tomar as medidas judiciais cabíveis”. No final da tarde e à noite, milhares de pessoas protestaram em Brasília e em São Paulo. Também houve panelaços em várias cidades do País. O Diário Oficial da União publicou, em edição extraordinária, a nomeação de Lula como chefe da Casa Civil.  
           

quarta-feira, março 16, 2016

Dominique

Opinião

Impeachment, urgente!

Demétrio Magnoli
O círculo íntimo de Lula abrange apenas dois escudeiros. Paulo Okamotto cuida do caixa; Gilberto Carvalho, da política. Falando à Folha (7/3), o segundo disparou uma ameaça dirigida a Dilma Rousseff e outra ao país inteiro. Com Dilma, funcionou: enquadrada, a presidente reposicionou-se na vanguarda do combate à Lava Jato. Agora, a escolha tornou-se incontornável: é o impeachment ou o triunfo da velha ordem.

Carvalho chamou Dilma a mudar sua agenda econômica, sob pena de acentuar seu "conflito com o partido", e formulou uma sentença de morte condicional: "a sobrevivência dela estaria muito ameaçada se saísse do PT". Quanto ao país, tudo dependeria do "comportamento da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário". Há uma linha vermelha: "Se ficar claro que a Lava Jato busca combater a corrupção, não o Lula", ok. Caso contrário, "temo muito um processo que nos leve ao que acontece na Venezuela". Ok?

Nas democracias, o Estado detém o monopólio da força legítima. Nos sistemas autoritários, o regime tem o monopólio da força, que é ilegítima. O regime chavista em declínio conserva o controle sobre o Judiciário, as forças armadas e a polícia, usando-o para calar a imprensa, encarcerar opositores e anular as prerrogativas da maioria parlamentar eleita. Nana, nenê, que a Cuca vem pegar: pronunciando a palavra "Venezuela", Carvalho apela ao discurso mitológico, traçando um paralelo impertinente, mas eficaz.

O Brasil é uma democracia. Mesmo longevo, o governo do PT não se converteu num regime. Temos um Judiciário independente. A polícia e as forças armadas são leais a suas funções constitucionais, não a um partido. A Cuca de Carvalho só pode existir na esfera da imaginação ""mas é nela que investe o porta-voz de Lula. Seu recado dirige-se à parcela da elite política que, temendo a Lava Jato, está disposta a abraçar-se ao lulopetismo sob o pretexto da manutenção da "paz social".

Antes da entrevista de Carvalho, Dilma iniciara a primeira manobra ostensiva contra a Lava Jato: a troca do ministro da Justiça. José Eduardo Cardozo tombou sob a acusação lulista de não "controlar a Polícia Federal", papel que seu substituto deveria desempenhar. Na hora do depoimento de Lula, a presidente avançou o sinal, disparando ácidas críticas à condução coercitiva, decisão judicial questionável por qualquer um exceto a figura que exerce o Poder Executivo. Depois, ela ouviu a mensagem de Carvalho e pintou-se para uma guerra contra o sistema de justiça.

A visita presidencial a Lula, em São Bernardo, um ato oficial de desagravo a um investigado pela justiça, foi seguida pelo jantar em palácio no qual Dilma ofereceu um ministério a seu antecessor. O cargo serviria para alçar Lula acima da jurisdição de Sergio Moro e, ainda, para transformá-lo, oficialmente, em coordenador político de um governo devotado ao combate contra o Judiciário. Na sequência, o investigado reuniu-se com Renan Calheiros, ensaiando unificar a resistência à Lava Jato num bloco político suprapartidário. Segundo um cândido mas eufemístico Calheiros, Lula "falou da necessidade de costurarmos a união nacional".

A oposição errou ao apresentar um pedido de impeachment fundamentado precariamente sobre as "pedaladas fiscais" –e mais ainda ao articular o afastamento de Dilma com Michel Temer, líder de um PMDB consorciado no "petrolão", e Eduardo Cunha, o homem das contas na Suíça. O cenário, hoje, é outro. Nas múltiplas evidências recentes do financiamento das campanhas de Dilma, em 2010 e 2014, por dinheiro oriundo da corrupção encontram-se motivos suficientes para o impeachment. Contudo, a urgência da remoção de Dilma decorre da operação criminosa em curso: a transformação do Planalto na sede de um poder ilegal, consagrado à obstrução da justiça. Impeachment já, pois o Brasil não é a Venezuela. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 16 / 03 / 2016

O Globo
"Janot vai pedir investigação de Lula, Temer, Mercadante e Aécio"

Delcídio diz que foi ‘escalado’ por Dilma e ex-presidente para barrar Lava-Jato

Colaboração de ex-líder do governo inclui gravação de conversa de Mercadante com assessor que indicaria uma tentativa de impedir acordo com a Justiça, com oferta de ajuda política e financeira. Presidente diz que iniciativa foi ‘ação pessoal’

Ainda às voltas com os ecos das manifestações de domingo, o governo se viu ontem diante de outra crise de grandes proporções: a homologação da delação do senador Delcídio Amaral, que deixou ontem o PT. Em 21 sessões de depoimentos, ele fez denúncias contra governo e oposição. O MP Federal já decidiu pedir ao STF autorização para investigar o ministro Aloizio Mercadante (Educação), o ex-presidente Lula, o vice-presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves (PSDB-MG). O ex-líder do governo acusou Mercadante de tentar obstruir as investigações da Lava-Jato ao procurar convencê-lo de não colaborar com a Justiça. Em conversa gravada por um assessor do senador, o ministro teria oferecido ajuda financeira e política para evitar a delação. A presidente Dilma chamou de “ação pessoal” a atitude de Mercadante. A Lauro Jardim, Delcídio disse ontem que foi “escalado” por Dilma e por Lula para barrar a Lava-Jato.

Folha de S.Paulo
"Dilma usou Mercadante para tentar sabotar a Lava Jato, acusa Delcídio"

Procuradoria avalia se investigará a presidente e o ministro; ambos negam as acusações do ex-líder do governo no Senado

Em delação homologada no Supremo, o senador Delcídio do Amaral, ex-líder do governo, acusa a presidente Dilma de tentar sabotar a Lava Jato por meio de Aloizio Mercadante (Educação). O delator, que pediu desfiliação do PT, entregou gravações de diálogos entre um assessor seu e Mercadante, que oferece ajuda financeira e política para a soltura de Delcídio, então na cadeia. Segundo a delação, Dilma atuou em cortes superiores para tentar soltar réus da Lava Jato, inclusive nomeando ministro do Superior Tribunal de Justiça incumbido de evitar a punição de empreiteiros. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, avalia se pedirá para investigar a presidente Dilma Rousseff por tentativa de obstruir a Justiça. Aloizio Mercadante deve ser alvo de inquérito. Dilma repudiou com “indignação a tentativa de envolvimento do seu nome na iniciativa pessoal” de Mercadante. Ele eximiu a presidente no caso e negou que tenha tentado impedir a delação. A negociação para o ex-presidente Lula tornar-se ministro elevou o dólar e derrubou a Bolsa. Investidores preveem que, caso haja nomeação, será alterada a política econômica.              

O Estado de S.Paulo
"STF aceita delação de Delcídio e Dilma pode ser investigada"

Ex-líder do governo no Senado diz que negociou indicação de ministro para o STJ para ajudar empreiteiro
Senador cita ex-presidente Lula, vice Michel Temer e líder do PSDB, Aécio Neves
Aloizio Mercadante aparece em gravação negociando com assessor de Delcídio

A homologação e a divulgação pelo STF da delação do senador Delcídio Amaral (PT-MS) arrastaram ainda mais o governo e Dilma Rousseff para o centro da crise e da Lava Jato. A Procuradoria- Geral da República (PGR) avalia abertura de investigação para apurar as citações à presidente no depoimento do ex- líder do governo no Senado. O ponto que mais chama a atenção dos procuradores é a afirmação de Delcídio de que negociou com Dilma a nomeação de Marcelo Navarro para o STJ com a missão de tirar da prisão o empreiteiro Marcelo Odebrecht. Ela nega. Delcídio também cita supostas irregularidades envolvendo o ex- presidente Lula, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), o vice Michel Temer (PMDB) e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, aparece em gravação negociando com assessor de Delcídio e fala em “encontrar uma saída” para evitar que o senador fizesse delação. Mercadante diz que agiu de forma “pessoal”.  
           

terça-feira, março 15, 2016

Dominique

Opinião

Só a pobreza é imoral

João Pereira Coutinho
Desigualdade: não há tema mais quente em política. Que o diga Octávio Luiz Motta Ferraz, que em artigo para a "Ilustríssima" me interpela sobre o assunto. Tudo porque, semanas atrás, escrevi nesta coluna sobre "On Inequality" (sobre a desigualdade), o pequeno livro de Harry Frankfurt. Que recomendo.

Dizia eu, partindo de Frankfurt, que talvez o problema das nossas sociedades não esteja na desigualdade em si (ao fim e ao cabo, eu sou mais pobre que Cristiano Ronaldo e ninguém pretende corrigir essa desigualdade) mas, antes, na existência da pobreza.

Consequentemente, as políticas de distribuição de renda devem ponderar antes o que é "suficiente" para uma vida digna —e não alimentar grandes projetos utópicos que, ao procurarem a igualdade perfeita, apenas geram o tipo de igualdade que a limitação dos recursos impõe: a igualdade de todos na miséria.

Verdade, verdade: algumas das minhas conclusões partiam do texto de Frankfurt, embora não sejam subscritas pelo próprio. Mas se um texto filosófico não nos permite pensar com ele e para além dele, a filosofia política terá sempre uma utilidade bastante limitada.

E se isso é válido para Frankfurt, também será para o artigo de Motta Ferraz, com o qual estou basicamente de acordo. Só não estou "totalmente" de acordo por motivos que me parecem mais terminológicos que substanciais. (Ou estarei enganado?)

Questiona Motta Ferraz: não há razões de princípio para nos preocuparmos com a desigualdade econômica? E, mais ainda: não haverá circunstâncias que justifiquem certas medidas igualitárias?

Direi que sim a ambas as perguntas, embora relacionando o conceito de "desigualdade econômica" com a realidade objetiva da pobreza (ou, se preferirmos, da "insuficiência").

E, nesse quesito, aceito a posição de Motta Ferraz que é, creio, a posição liberal "moderna". Será que a liberdade de um homem pode ser apenas aferida pela ausência de coerção intencional de terceiros, como diziam os liberais clássicos?

O liberalismo "moderno" (ou "social") não se contentou com uma definição tão estreita de liberdade. E afirmou que só podem existir agentes livres e autônomos quando existem condições —materiais, educacionais etc.— para que os indivíduos exerçam essa liberdade e essa autonomia. Para citar um pensamento célebre de T. H. Green, é indiferente saber se existe censura quando os indivíduos não sabem ler.

Creio que Motta Ferraz afirma sensivelmente o mesmo quando defende a igualdade econômica como condição para o exercício de outras igualdades. Uma vez mais, concordarei com essa acepção se entendermos por "igualdade econômica" a realização possível de uma "teoria da suficiência" capaz de mitigar a pobreza.

Por outro lado, não me repugna a conclusão lógica dos liberais "modernos": o meu bem-estar dependerá do bem-estar dos meus semelhantes e da comunidade a que eu pertenço. Não apenas por motivos "morais"; mas até por motivos políticos bem prosaicos: quando os ricos não tratam dos pobres, existe sempre a possibilidade de os pobres tratarem dos ricos.

A história, aqui, é a melhor conselheira: não são as "desigualdades econômicas" que alimentam as revoluções. São, antes, as "desigualdades econômicas" intoleráveis —uma importante diferença.

Infelizmente, as intenções meritórias dos liberais "modernos" não resistiram ao próprio "progresso" do liberalismo "progressista" (peço desculpa pelo pleonasmo). Ou, como diria um filósofo célebre, o problema do liberalismo "moderno" foi não saber quando parar, transformando uma "doutrina da suficiência" em "engenharia social" igualitária.

Essa atitude, onipresente nas nossas sociedades, não é apenas um perigo para a liberdade individual; é também um obstáculo para a criação de riqueza, sem a qual não existe "doutrina da suficiência" para ninguém.
Pessoalmente, o ensaio de Frankfurt conquistou-me ao relembrar que o problema da desigualdade começa pelo básico: pela existência imoral da pobreza. O óbvio ululante?

Não creio. E, se dúvidas houvesse, bastaria lembrar os "profissionais do ressentimento", para quem toda a propriedade é um roubo —um roubo que legitima todos os roubos posteriores. 

Original aqui

 
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