sábado, fevereiro 27, 2016

Dominique

Opinião

Ciao, Eco

Contardo Calligaris
Umberto Eco praticava um regime singular: quando chegava a dois terços de sua porção, de repente empurrava o prato para longe, exclamando: "Basta!". Quem almoçasse com ele podia facilmente se assustar.

Paradoxalmente, a voz interna do superego nos proíbe e nos limita –"não faça sexo com um anjo; com dois, ainda menos!"– ou nos manda exagerar –"goze!", "tome mais uma saideira!".

Eco fazia bom uso do superego, conciliando suas duas funções. Graças ao "basta!", ele podia comer de tudo, porque comia com juízo. Há, nessa minha lembrança, uma metáfora da extraordinária qualidade e variedade da produção de Eco.

Ele publicou, em 1975, o "Tratado Geral de Semiótica" –isso na tradução da Perspectiva; de fato, era "tratado de semiótica geral". Mas sua grande paixão não era a de conseguir descrever o funcionamento da linguagem e da significação, e ainda menos a de apresentar esse funcionamento de maneira sistemática.

Eco amava a linguagem e os signos porque sentia e sabia que o mundo no qual vivemos é o conjunto infinito e aberto de tudo o que foi dito, escrito ou significado (de uma maneira ou de outra) desde que os homens começaram a falar e escrever –ou seja, desde que foram homens.

Em outras palavras: a coisa mais parecida com o mundo no seu conjunto não é um mapa-múndi nem um globo: é uma biblioteca. Quando passeamos pelas ruas da cidade, andamos entre estantes. Quando amamos, odiamos ou transitamos pelo leque das paixões humanas, estamos apenas retirando algumas narrativas da estante pela qual passamos –e, claro, mergulhando entre as páginas.

Você acha que se apaixonou perdidamente hoje mesmo ou ontem? É que você tirou da estante um romance de amor e sacudiu seus sentimentos de uma das formas que já foi contada (ou, com um pouco de sorte, você misturou várias e, nesse sentido, inventou algo novo).

Você pode não ter lido "Os Sofrimentos do Jovem Werther" nem os romances melados de Barbara Cartland, mas traços dos dois chegaram até você pelas mil narrativas graças às quais você aprendeu o que é amar –quadrinhos, filmes, telenovelas, contos de fada que a sua mãe contava... Em suma, o andaime de seus amores são histórias, livros, filmes –linguagem.

Eco devia estar cansado desta brincadeira, mas é impossível não pensar que havia uma espécie de destino contido no sobrenome dele: o eco faz com que, quando você acha que vai falar ou gritar com a natureza (ou seja, com qualquer coisa que nada tem a ver com a linguagem), o que você recebe de volta é também linguagem. As pedras do Grand Canyon existem porque respondem aos turistas que gritam.

Não fica claro? Pois bem, ninguém dava a menor pelo pôr do sol, ninguém parava para olhar aquilo, até que Turner decidiu fazer dele o protagonista de tantos quadros. O pôr do sol existe porque alguém o pintou. O amor existe porque alguém o narrou.

Enfim, Eco foi se interessando menos pela teoria linguística e semiológica e muito mais pelas histórias que dão forma ao mundo e à vida da gente. E ele começou a contar histórias nas quais os verdadeiros protagonistas são outras histórias.

O livro dele que eu prefiro é "A Misteriosa Chama da Rainha Loana" (Record, 2005) porque é uma obra sobre as histórias que sustentaram a infância de Eco –e, como ele, eu tive uma infância italiana.

Sobre meu primeiro romance, "O Conto do Amor", um crítico medíocre escreveu que ele era no estilo de "O Nome da Rosa". Contrariamente ao tal crítico, eu adoraria essa ascendência, mas, de fato, para Eco, tudo acontecia, por assim dizer, dentro da biblioteca do mundo: se tem salvação, ela vem graças a outras histórias da mesma estante. Eu sou mais iludido: para meu protagonista, se havia salvação, ela não se encontrava na biblioteca do mundo, mas em alguma coragem de agir.

Numa coletânea de frases de Eco, no UOL, foi citada esta, de não sei qual entrevista: "Eu passei a acreditar que o mundo inteiro é um enigma. Um enigma inofensivo que é feito por nossa própria tentativa furiosa de interpretá-lo, como se houvesse nele uma verdade secreta" –a qual, entende-se, não existe, como não existe um autor divino do livro do mundo.

Eco pode ser lido por qualquer um. Mas não é para principiantes.

Nota: em 1995, para a Folha, entrevistei Umberto Eco em Nova York. Reli a conversa, comovido por sua inteligência e clareza. Quem quiser ler, está em folha.com/no1741488. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 27 / 02 / 2016

O Globo
"Marqueteiro do PT recebeu da Odebrecht na eleição, diz PF"

Planilha indica repasses de R$ 4 milhões no fim da campanha de Dilma

De acordo com a força-tarefa da Lava-Jato, o dinheiro teria sido usado para quitar dívidas eleitorais; para Moro, valores são vultosos e mostram proximidade de João Santana com a empreiteira

Planilha encontrada pela Lava- Jato indica que o marqueteiro João Santana recebeu, no período da campanha da presidente Dilma à reeleição, R$ 4 milhões da Odebrecht. Um total de sete repasses foi registrado entre outubro e novembro de 2014. Os pagamentos, segundo a Lava-Jato, teriam sido feitos para quitar dívidas de campanha. Ao renovar a prisão de Santana e de sua mulher e sócia, Mônica Moura, o juiz Sérgio Moro afirmou que os repasses indicam uma proximidade do marqueteiro com a Odebrecht “muito maior” do que fora admitido à PF. 

Folha de S.Paulo
"Lava Jato diz que Odebrecht pagou marqueteiro no país"

Para a Polícia Federal, João Santana recebeu R$ 4 mi durante campanha de Dilma

Uma planilha apreendida na casa de funcionária da Odebrecht indica, de acordo com a Polícia Federal, que João Santana, marqueteiro do PT, recebeu pelo menos R$ 4 milhões da empreiteira no Brasil, entre 24 de outubro e 7 de novembro de 2014. Nesse período, o publicitário trabalhava na campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff. Hoje, ele e a mulher estão presos. APF considera a planilha “base de dados de propina” e sugere que o repasse total pode superar R$24 milhões. Segundo o juiz Sergio Moro, o possível pagamento no país é “inconsistente” com as versões apresentadas pelo casal. A defesa reafirmou que ambos não foram pagos no exterior para campanhas no Brasil. A Odebrecht afirmou desconhecer a planilha. Nesta sexta (26), o ministro Gilmar Mendes, do Tribunal Superior Eleitoral, pediu apuração de sete empresas que prestaram serviços à campanha da petista. Quatro ações na Justiça Eleitoral pedem a cassação de Dilma e seu vice, Michel Temer.        

O Estado de S.Paulo
"Marqueteiro recebeu R$ 4 mi da Odebrecht no Brasil, aponta PF"

Planilha indica repasses em outubro e novembro de 2014, durante 2º turno da campanha que reelegeu Dilma; Moro estende prisão de Santana e sua mulher

Planilha apreendida pela Polícia Federal no computador da funcionária da Odebrecht Maria Lúcia Tavares aponta repasse de R$ 4 milhões no Brasil para o "programa Feira",sigla que policiais suspeitam referir-se ao marqueteiro João Santana e à mulher dele, Mônica Moura. O dinheiro foi enviado entre 24 de outubro e 7 de novembro de 2014, durante o segundo turno das eleições presidenciais, quando Santana atuou na campanha de Dilma Rousseff.

Com base na planilha,o juiz Sérgio Moro prorrogou por cinco dias a prisão temporária do casal,que acabaria hoje. O documento detalha sete pagamentos somando R$ 4 milhões e um valor negociado total de R$ 24 milhões. Tudo"claramente à margem da contabilidade oficial da Odebrecht", segundo apontamos delegados Márcio Anselmo e Renata Rodrigues no pedido de prorrogação da prisão.

Também chamou a atenção a sigla "SAO" na coluna "Cid" da planilha.Para os delegados, ela "leva a crer tratar-se da cidade de São Paulo" e seu status aparece como "totalmente atendido". 
           

sexta-feira, fevereiro 26, 2016

1931 Stinson Tri-Motor


Coluna do Celsinho

Uninter Ubatuba: 10 anos

Celso de Almeida Jr.

O Wilson Picler, visionário que é, já imaginava.

Ao criar a Uninter, este paranaense, empresário, educador e político abriu as portas do ensino superior para milhares de brasileiros.

Confira a ele, também, a multiplicação desse número, já que capitaneou a adesão de mais de 100 instituições de ensino superior à ideia do PROUNI, criado por Medida Provisória após essa força tarefa.

Pois é...

O que o Wilson não viu, porém, foi o nascimento e o crescimento de alguns frutos de sua iniciativa, em mais de 400 cidades Brasil afora.

Em Ubatuba, eu vi.

Aliás em Ubatuba, Paraty, Ilhabela e Caraguatatuba.

Por aqui, a história começou em 2006, quando o Colégio Dominique foi credenciado para ser um Polo Uninter de Ensino a Distância.

A cena da representante Denise Paranhos - naquele fevereiro de 2006 - com o uniforme da Uninter e suas malas no portão da escola, recém chegada de Curitiba, ficará na memória para sempre.

Dinâmica e dedicada, mergulhou no projeto e garantiu a primeira faculdade de tecnologia a distância de todo o litoral norte paulista.

Um feito extraordinário!!!

Lembro-me das filas para as inscrições ao primeiro vestibular.

Na sequência, testemunhei a criação dos polos nas cidades vizinhas, o que exigiu um esforço intenso da representante, determinada a levar o ensino superior a distância para todos os moradores da região, independentemente dos resultados financeiros de curto prazo.

Além disso, vieram os Congressos de Educação sob a chancela da Uninter, provando que é possível criar ações que, além de capacitar nossos profissionais da educação, podem transformar Ubatuba num polo de eventos voltados para o turismo científico.

Isso tudo eu vi...e vivi!!!

E o tempo passou...

Em 2014 o Polo Uninter Ubatuba deixou as instalações do colégio no Jardim Carolina e partiu para um espaço exclusivo, no centro da cidade.

Na prática, no período em que a Uninter funcionou em nosso espaço, atuamos como uma incubadora do empreendimento, foco sempre perseguido pelo Instituto Salerno-Chieus, organismo cultural do Colégio Dominique.

Essa interação conduziu nossa escola a efetuar melhorias que acabaram beneficiando, também, todos os alunos da educação básica.

Com a mudança do polo, começou uma fase importante para a representante regional Denise Paranhos, que encarou o desafio e continua sua luta pelo aperfeiçoamento constante do novo espaço.

Como se vê, ganhos recíprocos, aprimoramento, aprendizagem, crescimento, amadurecimento.

Conquistas sempre possíveis quando se investe em educação.

Assim, é importante registrar nesta primeira década os cumprimentos ao Wilson Picler, à Denise Paranhos e à toda equipe!

Parabéns, Uninter Ubatuba!

Visite: www.letrasdocelso.blogpsot.com

Dominique

Opinião

As peripécias do óbvio

Gabeira
O governo assaltou e arruinou a Petrobras. A tese mais elementar era esta: parte do dinheiro roubado foi desviada para as campanhas de Lula, Dilma e tutti quanti.

No Brasil, o elementar nem sempre se impõe. Almas generosas dizem: não há provas de que os milhões roubados da Petrobrás foram usados em campanha. Todo o dinheiro foi registrado no TRE: contribuições legais. As empresas que doaram são as mesmas do escândalo. O dinheiro da propina foi simplesmente lavado. As almas delicadas não acreditam que tenha havido dinheiro sujo na campanha e não fazem a mínima ideia de para onde voaram milhões de dólares. E consideram que está tudo bem com a lavagem de dinheiro, embora isso seja um crime punido por lei.

Agora a casa caiu. A prisão do marqueteiro João Santana mostra que ele recebeu dinheiro do escândalo do petróleo como pagamento pela sórdida campanha de 2014.

Fechou-se o quadro. Ele já estava desenhado no celular de Marcelo Odebrecht. Numa das anotações falava que as contas na Suíça poderiam atingir a campanha dela. Quem é ela? Se afirmar que é Dilma, as almas generosas vão dizer: há milhões de outras mulheres no Brasil.

Delcídio Amaral já havia advertido Dilma de que a prisão de Marcelo Odebrecht atingiria sua campanha, porque a empresa pagou a João Santana no exterior. Mercadante teria dito: a Odebrecht é problema do Lula. Solidariedade zero entre eles.

Agora, vão dizer que o dinheiro de Santana foi ganho em campanhas no exterior. Ele fez algumas, no universo da esquerda latino-americana. Todas pagas regiamente. Acontece que ele enviou o dinheiro do Brasil. Por que as campanhas lhe pagariam aqui? Acontece que recebeu durante a campanha de Dilma. Por que as campanhas de fora pagariam fora do tempo?

E como se não bastasse: que outras campanhas levaram dinheiro de propina de Keppel Fels, que tem um estaleiro no Brasil, opera com a Petrobrás, e seu lobista Swi Skornicki, destinatário de um bilhete da mulher de João Santana, Mônica, orientando-o a depositar os dólares no exterior?

As descobertas da Lava Jato apenas demonstram com provas uma tese cristalina: roubaram para permanecer no poder e acumular fortunas. Mas, sobretudo, para prosseguir no governo, entupindo as campanhas de dinheiro sujo.

Tecnicamente, a Lava Jato seguiu o caminho real: o dinheiro. É em torno da grana que eles giram como mariposas.

Além da cooperação suíça, as autoridades norte-americanas foram rápidas em enviar seus dados. Os suíços mantiveram sua disposição de colaborar.

Enfim, o cerco se fechou, uma parte considerável do mundo se alia ao povo brasileiro no esforço não só de punir os responsáveis, mas também de recuperar o dinheiro roubado.

E o governo, os políticos, os brasileiros, em tudo isso? O que era apenas uma tese que já balançava Dilma se tornou um fato comprovado com documentos. Aliás, mais documentos do que em outros casos da Lava Jato.

Se fosse uma partida de xadrez, diria que o governo levou um xeque-mate. Antes apenas se falava que a campanha de Dilma foi feita com dinheiro roubado. Agora todos sabem.

Mas o PT não é um jogador de xadrez comum , e não só porque atropela regras. Ele se distancia da própria realidade. Xadrez? Não estou vendo o tabuleiro. Antena no sítio de Atibaia? Lula não usa celular. Prisão do marqueteiro? O PT não tem marqueteiro, é apenas um senhor que nos ajuda.

De qualquer forma, será difícil acordar todas as manhãs, num país mergulhado em crise econômica, e pensarmos que ele está nas mãos de um grupo que roubou para vencer.

E não será apenas uma certeza política. Estarão lá, diante de nós, as contas no exterior, os dólares enviados, as transferências, conversões – enfim, toda a trajetória do fio condutor a que eles estão ligados: a grana.

De qualquer forma, o episódio é um momento de otimismo, na medida em que precipita a queda de Dilma. Como as crises estão entrelaçadas, uma solução política poderia dar algum alento à economia e se um projeto de transição sério fosse levado até 2018.

O PSDB voltou do recesso dizendo que votaria os projetos de interesse do País ao lado do governo. Isso me parece correto, pois sempre fui contra as pautas-bomba que explodem no bolso dos contribuintes. No entanto, não se deve acreditar ser esse o grande problema da oposição. Seu problema é não focar na saída da crise: o impeachment. E não trabalhar com uma ideia mais clara da transição.

Olhando para o futuro próximo, não faz sentido dizer que vota a reforma da Previdência só se o PT votar também. É um tema inescapável na transição.

Orientar-se pela posição do PT é, de uma certa forma, antecipar uma disputa em 2018. Não sabemos direito como será 2018 nem se haverá PT. O problema é achar um rumo para a transição e fazê-la acontecer com a queda de Dilma.

Os acontecimento da semana mostram que o jogo de empurrar com a barriga é apenas um esforço para levar Dilma até 2018, tudo bonitinho, faixa passada. A realidade, por meio de uma investigação competente, com apoio internacional, mostrou mais uma vez que é preciso pegar o touro à unha.

Os que esperam 2018 deveriam considerar apenas como ele será muito pior se nada for feito. Com que cara o Brasil chegará lá, dirigido por um governo corrupto, incompetente, politicamente nulo?

Quem sabe faz a hora ou espera acontecer? Ao contrário da canção, às vezes, acho melhor esperar acontecer. Mas, no caso específico, há um sentido de urgência.

Continuar com esse governo vai desintegrar o País. Uma terrível animação de Hong Kong já mostra a Baía de Guanabara poluída, atletas vomitando, a estátua do Cristo Redentor fazendo toneladas de cocô. É uma peça de humor. Mas se parece muito com o pesadelo que vivemos no Brasil.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 26 / 02 / 2016

O Globo
"Para Lava-Jato, propina da Petrobras pagou marqueteiro"

João Santana diz que não sabe origem dos US$ 7,5 milhões

Procurador acredita que US$ 4,5 milhões recebidos por casal em conta no exterior foram destinados a quitar dívida de campanhas do PT. Iniciativa teria sido do ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto

A força-tarefa da Lava-Jato suspeita que o PT usou dinheiro desviado da Petrobras para quitar dívidas que o partido tinha com o marqueteiro João Santana, responsável por campanhas do ex-presidente Lula e da presidente Dilma. “Vaccari mais de uma vez disse a operadores: ‘Paga lá que estou devendo a tal pessoa e você abate aqui.’ Suspeito que isso aconteceu”, disse o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, referindo-se ao ex-tesoureiro do PT. À PF, Santana negou que o dinheiro na Suíça tenha relação com campanhas no Brasil e afirmou não saber a origem dos recursos. Para a Lava-Jato, depósito de US$ 4,5 milhões que o lobista Zwi Skornicki fez na conta do marqueteiro era propina da Petrobras. 

Folha de S.Paulo
"Operação da PF sobre sonegação atinge a Gerdau"

Ministério Público no DF suspeita de envolvimento de multinacional em esquema de suborno; empresa nega

A Operação Zelotes, que investiga possível compra de decisões no Carf— o conselho do governo federal que julga recursos de empresas autuadas pela Receita Federal—, atingiu a Gerdau, multinacional de aços. Segundo o Ministério Público no DF, há suposto esquema que visa a obter julgamentos favoráveis a empresas, entre elas a Gerdau. O diretor-presidente da empresa, André Gerdau Johannpeter, esteve na Polícia Federal em São Paulo para prestar depoimento, no qual negou o envolvimento em atos de corrupção no Carf. O esquema funcionava, de acordo com investigadores, com a contratação de firmas responsáveis por intermediar a negociação do suborno aos conselheiros. A Gerdau pode ter recorrido à SGR Consultoria, empresa do lobista José Ricardo da Silva, ex-conselheiro do Carf, para ganhar recurso que discutia autuação de R$ 1,5 bilhão. Silva não fez comentários sobre o caso. No total, sete processos movidos pela Gerdau no Carf, que tramitaram ou ainda são analisados, estão sob a mira da Zelotes.        

O Estado de S.Paulo
"Gerdau é alvo de operação da PF por suspeita de propina"

Nova fase da Zelotes investiga pagamentos da empresa para tentar reduzir dívida de R$ 1,5 bi no Carf

A Polícia Federal fez ontem buscas em 17 endereços do Grupo Gerdau e levou para depoimento quatro de seus executivos, entre eles o diretor-presidente, André Gerdau. O grupo é suspeito de pagar propina para reduzir débitos que somariam R$ 1,5 bilhão no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), espécie de “tribunal” que julga recursos de contribuintes autuados pela Receita. Segundo investigadores da Operação Zelotes, a Gerdau teria autorizado a subcontratação de empresas de consultoria e advocacia com objetivo de “dissimular” pagamentos ilegais a representantes do Carf. Em nota,a empresa diz que “jamais concedeu qualquer autorização para que seu nome fosse usado em pretensas negociações ilegais”. À PF, André Gerdau negou irregularidades. Ele é filho de Jorge Gerdau, presidente do Conselho Consultivo do grupo siderúrgico e integrante do “Conselhão” dos governos Lula e Dilma Rousseff.
           

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Dominique

Opinião

Garotas generosas e sinceras

Luiz Felipe Pondé
O mercado de garotas de programa só cresce. Muita gente acha estranho devido aos "avanços" nos costumes sexuais. Não acredito nesses "avanços", apesar de que está na moda dizer que hoje todo mundo transa com todo mundo e que está tudo muito legal.

Acho que a atividade sexual "não remunerada" deve estar decrescendo na humanidade, se contarmos do Alto Paleolítico pra cá.

Duvido mesmo de que haja qualquer mudança na sexualidade dos mais jovens (voltarei a esse tema em seguida). Acho, sim, que há um novo mercado "psi" que fala disso o tempo todo, inclusive, gerando fantasmas, que a mídia alimenta e reproduz como "pauta".

O próprio fato de que o mercado das garotas de programa só cresce é, de alguma forma, prova de que uma insistente ancestralidade permanece no fundo desse rio de modinhas que encanta esse mundinho de ricos e entediados.

Outro dia, uma aluna, assustada, perguntava pra mim como era possível que ainda existissem garotas de programa, mesmo depois da emancipação feminina e da conclusão, que se tira normalmente (e que julgo equivocada), de que as mulheres "ficaram mais livres e, por isso mesmo, o sexo ficou mais fácil e satisfatório". E pior: o mercado só cresce!

Que horror nos olhos dela, coitada! Exemplo claro de uma juventude pouco informada que tem sido, sistematicamente, enganada por seus professores pastores de Marx, Foucault e Jesus. Ela teria lido algo numa revista sobre isso, talvez de fora do Brasil. Ao ouvi-la, lembro da reportagem que a revista inglesa "The Economist" fez alguns poucos anos atrás sobre o crescimento desse mercado, inclusive, defendendo que o PIB do Reino Unido passasse a somar o mercado de garotas de programa.

Uma das razões para o crescimento seria apenas tecnológico, devido à "uberização" do mercado das meninas. Com as redes sociais, elas se tornaram livres dos intermediários. Podemos dizer, com todo respeito, é claro: "Graças a Deus" que as meninas estão ficando livres desses atravessadores violentos.

Mas, e esta era a razão do horror da jovem em questão, uma das causas para o crescimento seria, justamente, a emancipação feminina. Como pode uma coisa dessas ser verdade?

Por que a emancipação feminina tornou a garota de programa mais desejável? Se pensarmos que uma mulher emancipada é uma maravilha, já que "ela se paga", por qual razão dos céus alguém pode imaginar uma maior procura pelo sexo profissional justamente depois que as mulheres ficaram mais "fáceis"?

Simples responder: aumentou a cobrança. A garota de programa só pede mil reais. Uma mulher pede tudo. Homens sempre tiveram medo das mulheres e, agora, com as meninas superpoderosas à solta, ficou pior. A garota de programa é a mulher mais confiável que existe. Homens odeiam cobrança feminina, e as meninas adoram cobrar os caras. Emancipadas, as mulheres se tornaram verdadeiros dragões de cobrança. Mulher emancipada estressa todo mundo. A garota de programa acalma todo mundo.

Quando uma mulher deixa de "custar" só dinheiro, ela passa a custar muito mais caro. Por isso, eu disse à minha querida aluna: é que a emancipação feminina estimula o mercado do sexo. E mais: no mercado do sexo só corre dinheiro, e dinheiro é a coisa mais honesta, sincera e reta do mundo. Por isso ele dá tanta raiva.

Mas, voltando à suposta mudança na vida sexual dos mais jovens. Se há alguma mudança de fato, é um maior "encaretamento" dos jovens. Nunca houve uma geração mais careta do que esta, de Y a Z. Confunde-se perder a virgindade com deixar de ser careta. Confunde-se beijar alguém do mesmo sexo com deixar de ser careta. Os jovens de hoje são um poço de moralismo, por isso se levam tão a sério.

As meninas do passado davam lição de safadeza pra essas meninas descoladinhas de hoje. Podiam casar virgens (será?), mas davam tudo que tinham antes, generosamente e sem medo...

Com tanta gente jovem careta querendo sexo saudável sem sangue, só uma garota de programa mesmo pra tocar o fundo de nossos corações solitários sedentos de alguma sinceridade no mundo.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 25 / 02 / 2016

O Globo
"Marqueteiro omitiu offshore que recebeu US$ 7,5 milhões"

Através da firma, Santana obteve recursos durante campanha de Dilma

Relatório da Receita mostra que ele retificou declarações dos anos de 2010 a 2014 para incluir quatro empresas no exterior, mas não fez menção à Shellbill Finance, aberta no Panamá. Mulher admitiu crime

A offshore panamenha Shellbill Finance, que, segundo a Lava-Jato, foi usada pelo marqueteiro João Santana para receber US$ 7,5 milhões da Odebrecht e do lobista Zwi Skornicki no exterior, não foi declarada à Receita Federal. Nas retificações relativas aos anos de 2010 a 2014 feitas à Receita em novembro passado pelo marqueteiro, após o escândalo, ele incluiu quatro empresas no exterior, mas deixou de fora a Shellbill Finance. A offshore controla conta em banco suíço que recebeu depósitos no total de R$ 1,5 milhão, pago por Skornicki ao marqueteiro no período da campanha da reeleição da presidente Dilma, em 2014. Em depoimento ontem ao juiz Moro, a mulher de Santana, Mônica Moura, admitiu ter contas não declaradas no exterior. 

Folha de S.Paulo
"Governo perde outro selo de bom pagador e volta a pedir CPMF"

Moody’s é a última das 3 principais agências de risco a rebaixar país; Planalto pressiona Congresso por ajustes

Uma semana depois de um novo rebaixamento da Standard & Poor’s, o Brasil perdeu o grau de investimento dado pela Moody’s. Ela é a última das três principais agências de classificação de risco a tirar o selo de bom pagador do país. A Moody’s rebaixou a nota brasileira em dois degraus. O motivo da ação é a situação ruim das contas do governo, com despesas subindo mais do que receitas, o que eleva a dívida pública. A notícia fará a equipe da presidente Dilma pressionar o Congresso a votar medidas que socorram a área fiscal. Entre elas estão a recriação da CPMF, tributo sobre movimentações financeiras, e aprovação de reformas como a da Previdência Social. “Temos pressa, temos que avançar com as reformas”, disse Dyogo Oliveira, ministro interino da Fazenda, em recado à base do governo, que resiste em votar medidas consideradas impopulares. O rebaixamento gera aumento dos custos do financiamento para governo e empresas brasileiras, que deverão pagar taxas de juros mais altas a investidores. No mercado financeiro, o movimento da Moody’s era esperado. O dólar à vista fechou em R$ 3,974, alta de 0,12%. O comercial recuou a mesma porcentagem, cotado a R$ 3,958. A Bolsa de Valores caiu 1%.       

O Estado de S.Paulo
"Planalto cede e Senado tira exclusividade da Petrobrás no pré-sal"

Estatal terá, porém, direito de preferência na participação de licitações

O Senado aprovou ontem projeto de José Serra (PSDB-SP) que desobriga a Petrobrás de ser a operadora única e ter participação mínima de 30% na exploração do pré-sal. O texto, que seguirá para a Câmara, recebeu 40 votos a favor, 26 contra e duas abstenções. Até o início da tarde, o governo atuou por sua rejeição. Diante da possibilidade de derrota, os ministros Jaques Wagner (Casa Civil) e Ricardo Berzoini (Governo) fecharam acordo com o relator Romero Jucá (PMDB-RR) para garantir que a estatal tenha pelo menos direito de preferência na participação de futuras licitações. O texto acertado prevê que o Conselho Nacional de Política Energética “oferecerá à Petrobrás a preferência para ser operador dos blocos a serem contratados sob regime de partilha de produção”. A empresa terá 30 dias para se pronunciar. Outra alteração determina que, após manifestação da estatal, o conselho proponha à Presidência da República quais blocos deverão ser operados.
           

terça-feira, fevereiro 23, 2016

Dominique

Opinião

Considerações sobre a loucura

Ferreira Gullar
Ouço frequentemente pessoas opinarem sobre tratamento psiquiátrico sem na verdade conhecerem o problema. É bacana ser contra internação. Por isso mesmo traçam um retrato equivocado de como os pacientes eram tratados no passado em manicômios infernais por médicos que só pensavam em torturá-los com choques elétricos, camisas de força e metê-los em solitárias.

Por isso mesmo exaltam o movimento antimanicomial, que se opõe à internação dos doentes mentais. Segundo eles, os pacientes são metidos em hospitais psiquiátricos porque a família quer se ver livre deles. Só pode fazer tal afirmação quem nunca teve que conviver com um doente mental e, por isso, ignora o tormento que tal situação pode implicar.

Nada mais doloroso para uma mãe ou um pai do que ter de admitir que seu filho é esquizofrênico e ser, por isso, obrigado a interná-lo. Há certamente pais que se negam a fazê-lo, mas ao custo de ser por ele agredido ou vê-lo por fim à própria vida, jogando-se da janela do apartamento.

Como aquelas pessoas não enfrentam tais situações, inventam que os hospitais psiquiátricos, ainda hoje, são locais de tortura. Ignoram que as clínicas atuais, em sua maioria, graças aos remédios neuroléticos, nada têm dos manicômios do passado.

Recentemente, num desses programas de televisão, ouvi pessoas afirmarem que o verdadeiro tratamento psiquiátrico foi inventado pela médica Nise da Silveira, que curava os doentes com atividades artísticas. Trata-se de um equívoco. A terapia ocupacional, artística ou não, jamais curou algum doente.

Trata-se, graças a Nise, de uma ocupação que lhe dá prazer e, por mantê-lo ocupado, alivia-lhe as tensões psíquicas. Quando o doente é, apesar de louco, um artista talentoso, como Emygdio de Barros ou Arthur Bispo do Rosário, realiza-se artisticamente e encontra assim um modo de ser feliz.

Graças à atividade dos internados no Centro Psiquiátrico Nacional, do Engenho de Dentro, no Estado do Rio, criou-se o Museu de Imagens do Inconsciente, que muito contribuiu para o reconhecimento do valor estético dos artistas doentes mentais. Mas é bom entender que não é a loucura que torna alguém artista; de fato, ele é artístico apesar de louco.

Tanto isso é verdade que, das dezenas de pacientes que trabalharam no ateliê do Centro Psiquiátrico, apenas quatro ou cinco criaram obras de arte. Deve-se reconhecer, também, que conforme a personalidade de cada um seu estado mental compõe a expressão estética que produz.

No tal programa de TV, alguém afirmou que, graças a Nise da Silveira, o tratamento psiquiátrico tornou-se o que é hoje. Não é verdade, isso se deve à invenção dos remédios neurolépticos que possibilitam o controle do surto psíquico.

É também graças a essa medicação que as internações se tornaram menos frequentes e, quando necessárias, duram pouco tempo -o tempo necessário ao controle do surto por medicação mais forte. Superada a crise, o paciente volta para casa e continua tomando as doses necessárias à manutenção da estabilidade mental.

Não pretendo com eses argumentos diminuir a extraordinária contribuição dada pela médica Nise da Silveira ao tratamento dos doentes mentais no Brasil. Fui amigo dela e acompanhei de perto, juntamente com Mário Pedrosa, o seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional.

Uma das qualidades dela era o seu afeto pelas pessoas e particularmente pelo doente mental. Eis um exemplo: como o Natal se aproximava, ela perguntou aos pacientes o que queriam de presente. Emygdio respondeu: um guarda-chuva.

Como dentro do hospital naturalmente não chovia, ela concluiu que ele queria ir embora para casa. E era. Ela providenciou para que levasse consigo tinta e tela, afim de que não parasse de pintar.

Ele se foi, mas, passado algum tempo, alguém toca a campainha do gabinete da médica. Ela abre a porta, era o Emygdio, de paletó, gravata e maleta na mão. "Voltei para continuar pintando, porque lá em casa não dava pé." E ficou pintando ali até completar 80 anos, quando, por lei, teve que deixar o hospital e ir para um abrigo de idosos, onde morreu anos depois.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 23 / 02 / 2016

O Globo
"Prisão de marqueteiro de Lula e Dilma alarma Planalto"

Publicitário das duas campanhas de Dilma Rousseff à Presidência e da de reeleição do ex-presidente Lula, João Santana e sua mulher, Mônica Moura, tiveram a prisão decretada ontem pela Operação Acarajé, 23ª fase da Lava-Jato. Santana é suspeito de receber US$ 7,5 milhões ilegalmente no exterior, parte enviada pela Odebrecht. No Planalto, ministros próximos à presidente classificaram a situação como “grave e muito ruim” para o governo. O PSDB vai pedir ao TSE que anexe a investigação ao processo contra a campanha de 2014 de Dilma. Para o juiz Sérgio Moro, Santana e a mulher sabiam que os recursos recebidos no exterior, atribuídos por ele a serviços prestados ao PT, tinham origem espúria. O marqueteiro, que estava a trabalho na República Dominicana, disse que as acusações são infundadas e lamentou “clima de perseguição”.

Folha de S.Paulo
"Moro decreta prisão de marqueteiro de Dilma, e cassação tem novo fôlego"

Alvos da Lava Jato, repasses feitos a João Santana no exterior não estão ligados à campanha da presidente, diz governo

Responsável por campanhas da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula, o publicitário João Santana teve sua prisão decretada em nova fase da Lava Jato. A principal acusação é de que o marqueteiro e sua mulher, Mônica Moura, receberam, no exterior, US$ 7,5 milhões (cerca de R$ 30 milhões) de empresas ligadas à empreiteira Odebrecht e ao lobista Zvi Skornicki, representante de estaleiro que tem negócios com a Petrobras. O casal, que estava na República Dominicana, deve chegar ao Brasil nesta terça. Em relatório, a Polícia Federal afirma que “há forte probabilidade” de que os pagamentos tenham “vinculação direta” com serviços que Santana prestou ao PT. Segundo o juiz Sergio Moro, responsável por processos da Lava Jato, há “fundada suspeita” de que os repasses tenham origem em acertos de propina em contratos da Petrobras. A acusação reforça o processo de cassação de Dilma na Justiça Eleitoral, que apura suposto financiamento de sua campanha de 2014 com recursos do petrolão. A oposição quer que novos elementos sejam enviados ao Tribunal Superior Eleitoral. O advogado da campanha de Dilma, Flávio Caetano, afirmou que os pagamentos ao publicitário foram registrados legalmente. Em nota, João Santana negou todas as acusações.      

O Estado de S.Paulo
"Moro manda prender marqueteiro de Dilma; ação no TSE ganha força"

O juiz federal Sérgio Moro mandou prender o marqueteiro João Santana, responsável pelas campanhas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006, da presidente Dilma Rousseff em 2010 e 2014, e do prefeito Fernando Haddad em 2012. Segundo a força-tarefa da Operação Lava Jato, ele recebeu mais de US$ 7,5 milhões em conta no exterior. A suspeita é de que o valor tenha sido desviado da Petrobrás. Santana estava na República Dominicana com sua mulher, Mônica Moura, que também teve prisão decretada. A Operação Acarajé, como foi batizada a 23ª fase da Lava Jato, fortaleceu a investida da oposição contra a presidente Dilma Rousseff no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Indícios corroboram tese do PSDB de que houve abuso de poder econômico, por meio de dinheiro desviado da Petrobrás, na campanha eleitoral que reelegeu a petista. Na semana passada, a presidente tentou barrar na Justiça uso de informações colhidas pela operação. O TSE, porém, entendeu que as provas da Lava Jato podem ser anexadas ao processo. 
           

domingo, fevereiro 21, 2016

Dominique

Opinião

O processo de morrer

Gabeira
O “New York Times” revisou no domingo cinco livros que falam de morte. O tema voltou às livrarias americanas. Na verdade, volta e desaparece, com constância. Um desses livros, “Mortais”, de Atul Gawande, acabo de ler. Ele é um jovem médico filho de um médico indiano, que acompanhou, além da morte do próprio pai, outros processos delicados e dolorosos.

A tese básica do livro é a de que a sociedade tecnológica, talvez pela sua incrível capacidade científica, descuidou do processo de morrer, de como é importante para os doentes escreverem seu próprio capítulo final. Em vez de cuidados paliativos diante da morte próxima e inevitável, os médicos, às vezes, submetem os pacientes a longos processos extremamente dolorosos, caros e, no final das contas, inúteis. Durante a doença e morte de Tancredo Neves, cheguei a fazer um programa onde interrogava, com todo o cuidado, se não era melhor desligar os aparelhos e deixá-lo morrer em paz. O problema não se limita ao instante final. A medicina paliativa, segundo os exemplos que Gawande nos dá, não só evita inúteis processos de quimioterapia e operações dolorosas. Ela, efetivamente, ajuda as pessoas a escreverem o capítulo final de suas vidas, às vezes ir à formatura de um neto, rever um certo lugar do mundo, enfim, as escolhas dependem de cada pessoa. Em países pobres, com um sistema de saúde precário, quase não existe essa intensificação tecnológica diante do leito de morte. É um problema das classes médias e países desenvolvidos. O tema me interessa muito do ponto de vista humano. Mas, às vezes, sou tentado a extrapolar os limites do indivíduo e examinar o processo de morte no curso da história.

Na política, a morte é quase uma palavra proibida. Partidos se preparam para a longevidade no poder. Sérgio Motta, um ministro tucano, dizia que o projeto do PSDB era ficar 20 anos no governo. 
Quando o PT tinha as mesmas pretensões de tempo. Mas, rapidamente, caiu na tentação da eternidade. Para um pensamento rigoroso de esquerda, não havia, realmente, alternância no poder, mas uma simples troca de siglas, representando os interesses do mesmo grupo dominante. Como produzir uma ilusão de alternância e manter o poder para sempre? No caso da burguesia, a base fundamental de sua proeza era a propriedade dos meios de produção. É muito difícil estatizar tudo na economia. Mesmo não estatizando tudo, o pouco que se avança nesse caminho é suficiente para grandes tragédias econômicas, como a da Venezuela. Mas é possível criar uma burguesia amiga em torno do estado, comprar o Congresso, escolher juizes e procuradores e, com algum dinheiro, criar imprensa favorável. Mas um país não é feito apenas de corruptos e idiotas, embora no Brasil exista uma concentração respeitável que reúne essas duas condições. A experiência econômica fracassa, a corrupção torna-se um escândalo. Em princípio, o caminho é negar. Com o tempo, adota-se o argumento de que todos fazem. O partido que prometeu ética na política decadente procura se esconder nas dobras do sistema político que condenava. Ser igual aos corruptos tradicionais é, na verdade, uma atenuante, porque ele se sabe muito pior. Seu projeto não é apenas se corromper, mas tocar um universo corrompido como um grande maestro.

Os marqueteiros soam para mim como os médicos que dominam a tecnologia: sempre têm uma solução para retardar a morte, mesmo em detrimento da qualidade de vida. O PT e o sistema partidário no conjunto vivem uma vida miserável sob aparelhos: infusões, radioterapia, náuseas e vômitos, tudo isso porque são incapazes de escrever o seu próprio capítulo final. Um indivíduo diante da morte costuma revisitar lugares, cicatrizar feridas, reparar, dentro dos limites, alguns dos erros, admitir sua finitude e desaparecer com dignidade. Nada disso está em cena. Nem com o PT nem com os restantes partidos que perderam o contato com a seiva vital: a participação ativa da sociedade.

Essa incapacidade de reconhecer que os partidos são mortais, seria apenas mais uma ilusão, entres os milhares que povoam as modernas salas de cirurgia. No entanto, na busca desesperada de uma sobrevida, o PT e aliados não se importam em arrastar o país para o abismo. Se o Brasil aceitar isto, ele não morrerá. Mas as novas gerações terão seu futuro comprometido. Entre as ruínas, veremos a aliança de corruptos e babacas sustentar a presidente que sugere que saiamos por aí para destruir a “mosquita”.

De fato, é a fêmea que transmite zika, e, hoje, se produzem mosquitos estéreis exatamente para que, no contato com elas, inviabilizar seus ovos. Já imagino os domingos em que, seguindo a orientação da grande líder, sairemos às ruas para matar a “mosquita”, certamente com uma boa cartilha superfaturada. A política do Brasil tornou-se uma farsa. Balões de oxigênio, soro, macas, sedativos tarja preta — os partidos insistem em nos governar do seu hospital no planalto. O próprio ministro da Saúde se sentiu mais à vontade no hospício parlamentar do que nas ruas onde corre a epidemia. Simplesmente se recusam a morrer. Se passam na sua frente, você grita ladrão. Mas se não passam, é como se habitassem um mundo paralelo. É uma imagem imprecisa; paralelas só se encontram no infinito. Estamos sendo ferrados diariamente.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Domingo 21 / 02 / 2016

O Globo
"Aparelhamento de fundos afeta 500 mil aposentados"

Rombo bilionário ameaça rendimentos de servidores de estatais

Gestão de sindicalistas ligados ao PT direcionou investimentos que causaram perdas de R$ 29 bi

O loteamento político da gestão dos fundos de pensão de estatais nos últimos 12 anos, a partir de um núcleo sindical dos bancários de São Paulo, está por trás do rombo bilionário que ameaça os rendimentos de beneficiários pelas próximas décadas, contam BRUNO ROSA, DANIELLE NOGUEIRA, JOSÉ CASADO E RAMONA ORDOÑEZ. Gestados na burocracia do PT, esses dirigentes direcionaram investimentos que, no caso de três fundos (Petros, Postalis e Funcef), causaram perdas de R$ 29,6 bilhões até agosto de 2015, e podem prejudicar 500 mil pessoas. A origem do aparelhamento e seu fortalecimento são temas de uma série a partir de hoje.

Folha de S.Paulo
"Juro de banco público já se iguala ao de privado"

BC mostra que diferença em linhas de crédito era irrelevante no final de 2015

Dados do Banco Central mostram que a política de taxas de juros diferenciadas nos bancos públicos do país acabou. No final de 2015, a diferença entre as taxas médias nessas instituições e nas privadas voltou a ser irrelevante nas principais linhas de crédito ao consumo. A Caixa tinha no cheque especial, no fim de 2013, taxa média quase 50% menor que a de Itaú-Unibanco e Bradesco. Dois anos depois, estava no mesmo patamar. No cartão, a taxa na Caixa era de 4,7% ao mês, quase um terço da desses bancos privados. Subiu para 13%. Controlada 100% pelo governo, a Caixa recuou mais rápido, na taxa e na cessão de crédito, ao ver a inadimplência no maior nível desde 2009. O Banco do Brasil, mais conservador nas concessões, não apresenta problemas nos balanços em relação a essa estratégia. A política de redução dos juros bancários foi iniciada pelo governo Dilma em abril de 2012, para forçar o setor privado a mudar o nível das taxas praticadas no Brasil. Caixa e BB não se manifestaram devido ao período de silêncio anterior à publicação dos balanços.      

O Estado de S.Paulo
" Lava Jato prevê já para este ano prisão de condenados"

Ao menos 17 condenados serão julgados em segunda instância e poderão cumprir pena

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de alterar a jurisprudência e permitir que a execução penal seja cumprida após decisão judicial de segunda instância deve levar à prisão condenados na Operação Lava Jato ainda este ano, segundo previsão dos investigadores. Uma primeira leva de processos julgados pelo juiz Sérgio Moro está em fase de recurso no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4). Ao menos 17 condenados em primeira instância estão neste grupo, entre eles executivos e sócios das empreiteiras OAS, Camargo Corrêa e Engevix. “Há argumentos de sobra para uma condenação definitiva, o que é muito mais gravoso do que a prisão preventiva”, disse o procurador da República Diogo Castor de Mattos. A decisão do STF foi um revés na estratégia das defesas de entrar com recursos nas instâncias de 2 º e 3º graus. Desde março de 2014 foram mais de 800. Só 4% foram aceitos. 
           
 
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