sábado, janeiro 16, 2016

Dominique

Opinião

Das cinzas ao carnaval

Gabeira
A Operação Lava Jato começou o ano desatando fios de várias meadas. Um deles, as mensagens telefônicas do ex-diretor da OAS Léo Pinheiro. No vácuo político do recesso, a única variável com poder de alterar o quadro é o curso da Lava Jato e de outras operações da Polícia Federal.

As mensagens de Léo Pinheiro comprometem o ministro Jaques Wagner em alguns pontos. Um deles, sua interferência num fundo de pensão, a pedido da OAS. Negócio de R$ 200 milhões. Mais ou menos no mesmo período vazou trecho da delação de Nestor Cerveró também comprometendo Wagner. Desta vez na construção de um prédio destinado a abrigar a direção financeira da Petrobrás.

Cruzo os dados não para demonstrar culpa de Wagner. Mas para reafirmar que a Lava Jato é uma espécie de termômetro que permite vislumbrar ao menos algumas nesgas do futuro. No caso de Lula não poder disputar em 2018, Wagner era uma espécie de plano B. Há pedras no caminho.

As mensagens de Léo Pinheiro expuseram ainda mais o superexposto Eduardo Cunha. Trabalhavam intimamente, Cunha era um lobista da OAS. Eram tão próximos que combinavam doações que seriam feitas por empresa adversária, a Odebrecht. Na intimidade do diálogo com Léo Pinheiro, Cunha chamava a Odebrecht de “os alemães”, expressão usada nos morros do Rio para designar os rivais de outra área.

Eduardo Cunha já está enredado até a medula. E na troca de mensagens com o diretor da OAS ainda expôs outros políticos do PMDB e até a campanha de Temer para vice. 

Sinal de alerta para o futuro do partido. Lobão já teve seu sigilo bancário quebrado. Até que ponto é possível prever o futuro do PMDB antes do fim da Lava Jato?

O PSDB também aparece em delações premiadas. A primeira denúncia foi de Paulo Roberto Costa: teria pago R$ 10 milhões a Sérgio Guerra, então presidente do partido, para tornar inviável uma CPI da Petrobrás. Novos vazamentos da delação de Nestor Cerveró revelam que ele denunciou uma propina de US$ 100 milhões no período de Fernando Henrique Cardoso, paga por um negócio feito na Argentina, a venda da petrolífera Pérez Companc.

Tanto Sérgio Guerra como o ex-presidente da Petrobrás Francisco Gross já morreram. Mas isso não impede a investigação dos fatos, no momento muito vagos ainda. Mas se a Operação Lava Jato tiver a mesma duração de quatro anos da italiana Mãos Limpas, terá condições de iluminar ao máximo o período, para a nova fase da democracia brasileira começar a cumprir as promessas que vêm lá da luta pelas diretas.

O PT reclama de vazamentos seletivos. Tem vazado geral, para todos os lados. Parte do PP está atrás das grades. O problema do PT, além do volume, é o amplo domínio da máquina, a corrupção como forma de governo. Não bastasse Pasadena, surgiu agora Moamba-Major.

Esse é o nome de uma barragem em Moçambique, feita pela Andrade Gutierrez. Os africanos precisavam abrir uma conta no exterior, o governo brasileiro decidiu suspender essa condição para facilitar um empréstimo do BNDES de US$ 320 milhões. O banco afirma que foi uma operação normal e não viu risco no empréstimo. A resposta desse e de outros enigmas está na própria Lava Jato, pois deve começar logo a delação premiada da Andrade Gutierrez.

Como a agenda da Lava Jato domina os futuros passos políticos, o começo do ano novo é só um prolongamento do velho. Outra variável de peso que vem de 2015, a economia se degrada e o governo ainda me parece perdido. Ao mesmo tempo que lança metas inalcançáveis para melhorar suas contas, como CPMF e reforma da Previdência, orienta os bancos oficiais a facilitar o crédito.

Volta e meia se fala nas reservas nacionais, em detoná-las para criar um impulso na economia. O Brasil tem muito dinheiro, vamos gastá-lo. Mas o Brasil tem dívidas. 

Contando direitinho, ativos e dívidas, sobra menos do que parece. Além de ser pouco para o que pretendem, vai nos deixar totalmente na lona. Jaques Wagner disse que o governo não tem nenhum coelho na cartola para superar a crise econômica. A impressão é de que, se o tivesse, teria tirado. O enfoque da magia não foi rejeitado. Só acabaram os truques.

As variáveis Lava Jato e crise econômica não conseguem fechar o quadro. Mas influenciam uma terceira que, em combinação com elas, pode resultar na mudança.

Apesar de manifestações aqui e ali, a sociedade ainda não se pôs em movimento este ano. Até que ponto se vai manter distante? Não é uma passividade qualquer: cada vez recebe mais dados negativos sobre o País e seus governantes. É uma passividade informada. Ao menos tem os dados para avaliar, sabiamente, a hora de passar de um estado para outro, a hora de agir.

Dizem que o ano no Brasil só começa depois do carnaval. Mas o fluxo de dados não para. Ele transborda no carnaval em marchinhas, máscaras, fantasias e passa ele mesmo a ser um dado na própria análise da crise. Mesmo porque até o carnaval muita gente pode sambar.

A História não tira férias de verão. Já temos uma espécie big data dos escândalos, enriquecido diariamente com revelações, cruzamentos, checagens.

Sabemos que as chances de Eduardo Cunha ter feito fortuna no mercado são menores do que ganhar a Mega-Sena. As chances de os negócios de Cunha terem rendido o que declarou é de 1 em 257 setilhões; as de ganhar a Mega-Sena, 1 em 50 milhões. É o que diz um documento do inquérito. Não era preciso fazer tanta conta.

Melhor é apressar o passo. Num certo nível, o Brasil ganha credibilidade internacional com a Lava Jato: as investigações são independentes e nos põem no limiar da maturidade democrática. Em outro, as hesitações e fantasias diante da crise econômica agravam o quadro e solapam tal credibilidade.

Na Quaresma voltam os políticos. Mais uma variável da equação. Que instinto os moverá nessa volta, o de sobrevivência? Continuarão dançando na beira do abismo? Nessa hora o carnaval já terá passado. É 2016.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sábado 16 / 01 / 2016

O Globo
"Acuado, Maduro recorre a emergência econômica"

Decreto abre brecha para expropriar; oposição critica poderes excepcionais

Críticos temem que medida dê sinal verde ao governo para confiscar bens de empresas tidas como adversárias

Com a Venezuela acossada por uma inflação estimada em mais de 270% ao ano e crise de desabastecimento, o presidente Maduro decretou emergência econômica por 60 dias. Entre as medidas está a possibilidade de requisitar bens e imóveis privados, levando ao temor de que o governo use expropriações contra adversários. A oposição criticou o decreto, que será apreciado pelo Legislativo, e disse que o verdadeiro problema é o modelo chavista. Na Assembleia, Maduro reconheceu cifras “catastróficas”, mas se disse vítima de uma guerra econômica.    

Folha de S.Paulo
"Decreto de Maduro abre margem para confiscos"

Presidente venezuelano anuncia emergência econômica, que permite ao governo tomar bens privados

Em medida inédita, alegadamente para enfrentar a crise econômica na Venezuela, o presidente Nicolás Maduro decretou “estado de emergência econômica”. O plano, válido por 60 dias, abre brecha para o confisco de bens de empresas e cidadãos. O pacote foi divulgado horas antes de Maduro apresentar à Assembleia Nacional o seu informe de gestão, no qual afirmou ser vítima de uma “guerra econômica”. Segundo ele, a queda do preço do petróleo diminuiu as receitas em 62%. A medida mais polêmica é a possibilidade de tomada temporária ou definitiva pelo governo de bens e instalações de empresas públicas e privadas para garantir o abastecimento de alimentos, remédios e gêneros de primeira necessidade. As ações, que incluem ainda a dispensa de licitação para compras urgentes, já entraram em vigor. Porém podem ser derrubadas pela Assembleia Nacional e pelo Supremo. Os dois Poderes têm até oito dias para analisar o plano e se manifestar. Para o deputado oposicionista José Guerra, o decreto não resolverá a crise no país porque não muda a política econômica atual.     

O Estado de S.Paulo
"Maduro decreta emergência e abre brecha para intervenção"

Medida passará pela Assembleia; governo da Venezuela poderá reter bens para garantir abastecimento

O governo venezuelano publicou um decreto de Emergência Econômica que prevê intervenção no setor produtivo primário, como objetivo de tirar o país da grave crise. A inflação de janeiro a setembro de 2015, anunciada ontem, foi de 141,5%. Para entrar em vigor, o decreto depende do aval da Assembleia Nacional, de maioria oposicionista. Se aprovada, a medida será válida por 60 dias, com renovação por mais 60. Em discurso na Assembleia no início da noite ,o presidente Nicolás Maduro defendeu o pacote e falou em aumento no preço da gasolina para aliviar o caixa da estatal do petróleo PDVSA. O decreto ainda dispensa licitações se permite que o governo disponha de bens, mercadorias e instalações privadas para garantir o abastecimento. A economia venezuelana, dependente do petróleo, atravessa o pior momento desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999.         
           

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Pilatus PC-6/B2-H4


Coluna do Celsinho

Código da Vida

Celso de Almeida Jr.

O Arnaldo mandou.
Obediente, acatei.
Mais de 460 páginas.
Leitura deliciosa.
Saulo Ramos, o autor.
Código da Vida, o livro, publicado pela Editora Planeta, em 2007.
Desde que doou os primeiros livros ao Colégio Dominique - como sócio fundador da Biblioteca Hans Staden, em 1989 - o advogado e professor Arnaldo Chieus pauta boa parte de minhas leituras.
Culto e generoso, ao doar mais um exemplar que acabou de saborear, faz um briefing da obra e do autor, aguçando a minha curiosidade.
Tática perfeita!
Ao final de cada livro, renovo em meu pensamento a gratidão ao amigo de todas as horas, que sempre me incentiva a aprender mais.
Seguindo o bom exemplo, sinto-me estimulado a fazer o mesmo com meus leitores fiéis, conhecidos ou anônimos.
Saulo Ramos,em seu Código da Vida, traz uma história de suspense que viveu quando no exercício da advocacia, mas, simultaneamente, apresenta sua biografia, num estilo contundente e bem humorado.
Ele, que chegou a Consultor Geral da República e Ministro da Justiça, relata em seu livro fatos muito interessantes da vida pública brasileira desde o início da década de 60.
Faleceu em abril de 2013, aos 83 anos, testemunhando e participando, portanto, de uma fase conturbada de nossa história.
Observar o ponto de vista de Saulo Ramos sobre tantos episódios vividos pelo país ajuda-nos a entender melhor as dificuldades que hoje o Brasil enfrenta.
Por isso, contando com a compreensão do prezado leitor ou da querida leitora, imito o Arnaldo:
Leia já!

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Dominique

Opinião

Manifestações e vandalismo

Estadão
Depois de anos de regime militar, com sérias restrições à liberdade de expressão, a sociedade quis deixar muito claro na Constituição Federal de 1988 o direito à livre manifestação. Assim diz o inciso 16 do art. 5.º: “Todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

O texto constitucional não condiciona o direito de manifestação à prévia autorização do poder público. A sociedade é livre para se reunir sem necessidade de aval do Estado. No entanto, o mesmo constituinte definiu que o direito de manifestação deve ser exercido pacificamente e sem armas, além de exigir aviso prévio à autoridade competente.

Dessa forma, a Constituição Federal harmoniza o direito de manifestação com a ordem pública. Há plena liberdade para se manifestar, mas ela não pode ser pretexto para a violência ou a desordem. São coisas bem diferentes e saber distingui-las é tarefa de todo cidadão.

No entanto, nos últimos tempos – especialmente depois das manifestações de junho de 2013 – tem havido no País certa confusão entre o direito de se manifestar e o desrespeito à ordem pública. Os últimos protestos na cidade de São Paulo contra o aumento da tarifa do transporte público evidenciam a imperiosa necessidade de distinguir direito de manifestação e vandalismo.

Não se trata de criminalizar a liberdade de expressão, mas de reconhecer os fatos – as manifestações não têm sido pacíficas. Persistentemente há manifestantes que vão armados aos atos públicos, em literal confronto com o texto constitucional. No protesto do dia 12 de janeiro, por exemplo, a Polícia Militar já no início do protesto deteve pessoas portando correntes, tesouras, soco inglês e até mesmo artefatos explosivos. Esse “armamento” é simplesmente incompatível com o direito de se manifestar.

Os organizadores dos protestos isentam-se de responsabilidade alegando que não exercem controle sobre o material portado pelos participantes. No entanto, exercem rigoroso controle sobre materiais de natureza político-partidária. Tem-se uma esquizofrênica autoridade. Os líderes têm poder para fazer valer o caráter apartidário das manifestações – não se veem bandeiras de partidos, por exemplo –, mas dizem não ter qualquer poder para fazer valer o necessário caráter pacífico da manifestação. Para os líderes desses movimentos, a regra do grupo vale mais que a regra constitucional. Não são democratas.

Há de se reconhecer que o caráter pacífico não exige apenas não portar armas ou a preservação do patrimônio público e privado. As manifestações não podem impor às cidades o caos – e é por isso que a Constituição exige a comunicação prévia às autoridades. Esse ponto é especialmente importante nos protestos que se deslocam pelas ruas. Bloquear avenidas não está incluído no direito de manifestação. O desrespeito à ordem pública é desrespeito a todos os outros cidadãos, que têm igual direito de usufruir do espaço público. Ao bloquear avenidas confere-se um caráter autoritário – antidemocrático – às manifestações. Como também é antidemocrático invadir escolas, causando danos ao patrimônio público – como se viu nos protestos contra o plano de reorganização da rede de ensino estadual. Não basta que a escola-símbolo do movimento não tenha sido depredada. Seria necessário que todas as outras, menos visíveis e mais distantes, também tivessem tido o mesmo tratamento civilizado, o que não aconteceu.

O protesto contra decisões do poder público é legítimo e o direito de manifestação deve ser sempre garantido. Manifestações fazem parte de toda democracia madura. Mas também faz parte de uma democracia madura coibir o vandalismo e a violência. Uma coisa é a rebeldia juvenil – sintoma necessário de qualquer sociedade saudável –, outra coisa bem diferente é a prática de crimes. Cabe ao poder público e também à sociedade não confundir essas duas realidades. E quando grupos exorbitam, cabe à polícia – que nas democracias detém o monopólio da violência organizada – fazer com que os recalcitrantes voltem a cumprir a lei.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 15 / 01 / 2016

O Globo
"Dilma dá aval, e partidos receberão R$ 819 milhões"

Valor é 163% maior do que o proposto pelo próprio governo

Pressionada, presidente sancionou sem vetos o Orçamento aprovado pelo Congresso, com cortes em quase todas as áreas; partidos alegam que proibição de doações privadas inviabilizaria eleições

Atingidos em grande parte pelas investigações da Lava-Jato, os partidos políticos receberão este ano R$ 819 milhões por meio do Fundo Partidário, preservado dos cortes do ajuste fiscal que atingiram quase todas as áreas do Orçamento da União, sancionado ontem sem vetos pela presidente Dilma. O Planalto foi pressionado por aliados, com o argumento de que a proibição de doações de empresas privadas, aprovada pelo STF em meio ao escândalo investigado na Lava-Jato, inviabilizaria a eleição municipal deste ano. O valor é 163% maior do que os R$ 311,3 milhões que tinham sido propostos pelo governo ao Congresso. Além disso, os 594 parlamentares terão direito a R$ 9 bilhões em emendas individuais ao Orçamento da União.   

Folha de S.Paulo
"Alckmin corta R$ 6,9 bilhões do orçamento de SP em 2016"

Tucano decidiu congelar 3,3% da verba ao prever queda maior na arrecadação

Diante da crise econômica, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), decidiu congelar R$ 6,9 bilhões do orçamento de 2016 —o equivalente a 3,3% do total previsto (R$ 207,4 bilhões). Do valor cortado, R$ 3,9 bilhões são referentes a despesas de custeio e outros R$ 900 milhões, juros da dívida. O governo tucano não detalhou a retenção dos R$ 2,1 bilhões restantes, mas é provável que a conta inclua congelamento de investimentos em obras e novos programas. Áreas como saúde e educação devem sofrer os menores cortes, uma vez que parte das despesas nessas pastas é obrigatória por lei. A principal justificativa para o corte é a avaliação de que a crise afetará novamente o caixa do Estado. A estimativa do governo de arrecadação de ICMS (70% da receita estadual) caiu R$4,3bilhões em relação às projeções de agosto passado. As medidas de bloqueio em São Paulo, tomadas desde o ano passado, são parte de um cenário nacional de penúria que atinge todo o setor público do país. A situação é mais dramática em Estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, em que salários estão sendo atrasados e serviços essenciais, como saúde, prejudicados.     

O Estado de S.Paulo
"Janot busca apoio para evitar corte no orçamento"

Procurador recorre ao Supremo para tentar formar aliança e impedir que falta de verba afete operações

Em meio a investigações criminais e a expectativa de julgamentos importantes para este ano, representantes do Judiciário e do Ministério Público Federal tentam evitar cortes orçamentários que comprometam o andamento dos trabalhos. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, se reuniu ontem por uma hora e meia com o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ricardo Lewandowski, para discutir a situação econômica da instituição. O corte no orçamento do Ministério Público chegou a R$ 110 milhões da proposta inicial. No Judiciário a verba foi cortada em R$ 70 milhões no total. A preocupação é com futuros contingenciamentos a serem anunciados. Tanto no Judiciário quanto no Ministério Público teme-se que os cortes afetem gastos com passagens aéreas e diárias, considerados essenciais para a garantia do trabalho de profissionais deslocados de outros Estados para integrar forças-tarefa de investigações – como no caso da Operação Lava Jato.         
           

quinta-feira, janeiro 14, 2016

Pitacos do Zé


Que indecência!

José Ronaldo Santos
Recebi agora mesmo, via e-mail, a propaganda de alguns concursos e de cursos por este Brasil afora. Está parecendo que ela chegou coroando o meu dia de estudos sobre o pensamento liberal em Locke, a teoria do Estado em Hegel e a transmutação de todos os valores em Nietzsche. É isso mesmo! Professor, para ser o esteio nesta sociedade do conhecimento, também precisa estudar mesmo estando de férias. Muitos até poderão dizer: “E eu com isso?”

Considerando a moral como o conjunto de regras que determinam o comportamento dos indivíduos na sociedade, convido cada leitor a reparar que, de todos os concursos propagandeados, a profissão de professor é a aquela de menor remuneração. “Ser docente é uma indecência!”. 

Não é uma incoerência? Quem, diante dessa situação, dessa falta de consideração, vai se motivar para manter essa sociedade do conhecimento? Ah! O que seria dos demais profissionais sem o alicerce lançado pelos docentes, construído na vivência escolar? “E você com isso?”. É função da moral garantir a concordância entre os indivíduos. E eu duvido que ainda tenha gente que não aposte na educação como o melhor caminho para alcançarmos uma nova sociedade. Ser docente: que tal a valorização deste trabalho?

Eis uma breve produção após receber notícias dos amigos Beto e Júlio, ambos continuando firmes em seus engajamentos, em seus trabalhos sociais. Ouvi-los e se alegrar com a partilha depois de tantos anos, me remeteu à saudosa mamãe, que apenas conseguiu se manter até o segundo ano escolar, quando manifestei minha dúvida de permanecer como docente da rede pública: 

“Já pensaste, Zezinho, na importância social que os professores têm e no enorme trabalho que ainda está por fazer?”

Dominique

Opinião

O futuro é das mulheres

João Pereira Coutinho
Colunismo é serviço público. Um exemplo: se o digníssimo leitor viajar para Portugal, cuidado com as cantadas para conquistar as lusitanas. Sobretudo cantadas com propostas de teor sexual. As cantadas —ou, para usar a terminologia dos nativos, os "piropos"— podem dar cadeia (um ano). Se a ninfa tiver menos de 14 anos, a coisa piora (três anos).

Nada a dizer: quem sou eu para perturbar a histeria feminista, que vê no piropo reles ("Ai borracho, era eu por cima e tu por baixo!") um crime hediondo?

Apenas suspeito que chegará um dia —não muito distante— em que a Europa, as mulheres da Europa e até as feministas da Europa terão saudades dessas agressões verbais. Será preciso relembrar o que aconteceu em Colônia e outras cidades alemãs (Stuttgart, Hamburgo) na virada do ano?

Talvez seja, até porque as notícias demoraram a chegar ao conhecimento geral: um número indeterminado de mulheres (a cifra mais recente aponta para 379) foram vítimas de violência em plena via pública; 120 foram abusadas sexualmente; confirma-se uma violação até ao momento. Autores dos crimes? Centenas, ou talvez um milhar, de homens organizados. E quem foram esses homens?

Ó Deus, aqui vamos nós: vítimas e testemunhas falam de uma maioria de agressores do Oriente Médio e do norte de África, o que talvez explique o estado de choque da imprensa "progressista".

Mas não apenas da imprensa: a polícia, presente no local, assistiu a tudo da arquibancada, talvez para não perturbar a cultura do Outro e o papel de submissão e castigo que ele reserva para vadias de minissaia.

Uma semana depois da selvajaria (que, já agora, também esteve quase para acontecer na Finlândia), o chefe da polícia de Colônia foi demitido. E, no momento em que escrevo, existem 31 suspeitos confirmados (e, desses 31, 18 são refugiados dessas regiões problemáticas, que pediram asilo na Alemanha).

Perante a novidade do crime, a velha pergunta leninista impõe-se: que fazer?

A primeira opção é silenciar os crimes politicamente desconfortáveis, tentação que deve ter ocorrido aos alemães. Não seria a primeira vez. Na Inglaterra, por exemplo, descobriu-se em 2014 que 1.400 menores da cidade de Roterdã foram abusados sexualmente e traficados pelo país inteiro por uma rede criminosa maioritariamente composta por paquistaneses muçulmanos. Mesmo com o conhecimento das "autoridades"-polícias, políticos, assistentes sociais.

A segunda opção é aprender com a Noruega e a Bélgica, que pretendem ministrar a imigrantes de "culturas diferentes" (ah, adoro eufemismos!) aulas de "respeito pelas mulheres". Não sei em que consistem essas aulas, mas imagino o professor, com imaculado espírito multiculturalista, a comunicar à turma:

- Eu não estou aqui para vos julgar: se vocês consideram que uma mulher de minissaia merece ser violada, eu respeito. Mas, se me permitem, na Europa nós fazemos as coisas de outra forma porque..." (o professor é interrompido e espancado em plena sessão).

E depois existe a terceira opção, que se resume em três letras: lei. Para uma sociedade civilizada, é indiferente saber o que pensam os imigrantes de "culturas diferentes" sobre mulheres com minissaia. O que não é indiferente é a aplicação da lei, com dureza e justeza, sempre que a delinquência mostrar as garras.

Será que as feministas que combatem tão arduamente as "agressões verbais" estão prontas para uma batalha maior contra indivíduos de "culturas diferentes" que preferem agressões mais palpáveis (no duplo sentido da palavra)?

Faço a pergunta a um colega de ofício, cínico profissional, que me diz: "Tens que ler 'Submissão', do Michel Houellebecq".

Agradeço a recomendação, digo que já li e acrescento: "Entendo. Tens medo da islamização da Europa perante a covardia da nossa 'intelligentsia', certo?".

Ele olha-me com espanto, ri alto e depois conclui: "Medo? Mas medo por quê? Eu sou homem. Tu és homem. Até os nossos filhos são do sexo masculino. Achas que somos nós que devemos ter medo de alguma coisa?".

Ficamos os dois em silêncio. E continuamos em respeitoso silêncio quando uma garota de Ipanema passa na calçada.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 14 / 01 / 2016

O Globo
"PF indicia Samarco e Vale por desastre"

Empresas e sete técnicos são acusados de crime ambiental

MP abre inquérito para investigar destino de R$ 1 milhão em espécie doado às vítimas e depositado em conta da prefeitura

Mais de dois meses após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), a Polícia Federal indiciou por crimes ambientais as mineradoras Samarco e Vale, a Vogbr e sete funcionários das empresas, entre eles Ricardo Vescovi, diretor-presidente da Samarco. O desastre arrasou o distrito de Bento Rodrigues e deixou 17 mortos, dois desaparecidos e um rastro de destruição no vale do Rio Doce. As empresas contestaram o indiciamento. Em outra frente, o Ministério Público investiga o destino de doações em espécie às vítimas, informa DANDARA TINOCO.   

Folha de S.Paulo
"Ex-OAS, assessor de Wagner licitou obra ganha pela OAS"

Empreiteira venceu projeto de R$ 584 mi quando ministro era governador da BA

Nomeado pelo então governador da Bahia Jaques Wagner em 2014 para a Secretaria de Desenvolvimento Urbano, o ex-diretor da OAS Manuel Ribeiro Filho foi responsável por licitação vencida pela própria empreiteira. A obra viária Linha Vermelha, em Salvador, está orçada em R$ 584 milhões. As ligações de Wagner, atual ministro da Casa Civil, com a empreiteirasão investigadas pela Lava Jato. Mensagens de texto de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS e condenado a 16 anos por corrupção, indicam que Wagner tratou de doações para a campanha do PT na capital baiana em 2012. Segundo a investigação, um dos interlocutores das doações foi Ribeiro Filho, que na época era diretor da empreiteira, na qual trabalhou até maio de 2013. A OAS doou R$ 1,5 milhão em 2010 à campanha de Wagner e, no ano passado, R$4,2 milhões para a de seu sucessor, Rui Costa (PT). Das cinco maiores obras de infraestrutura iniciadas na gestão Wagner, três foram ou são tocadas pela OAS. Ribeiro Filho negou qualquer influência na licitação da Linha Vermelha. A OAS disse que “nunca indicou profissionais para cargos públicos”. A Casa Civil não se manifestou.    

O Estado de S.Paulo
"Ex-ministro fez lobby por OAS, indicam mensagens"

Carlos Gabas, ex-titular da Previdência, aparece em diálogos intermediando negócios da empreiteira com o DF

Mensagens obtidas pelos investigadores da Lava Jato no celular do ex-presidente da OAS Léo Pinheiro revelam que o ex-ministro da Previdência Carlos Gabas intermediou negócios da empreiteira com o governo do Distrito Federal em 2014, quando o governador era Agnelo Queiroz (PT). As conversas envolvendo Gabas, que é próximo à presidente Dilma Rousseff, ocorreram entre 2012 e 2014, quando era secretário executivo da Previdência. Em uma das mensagens para Gabas, Léo Pinheiro cita “principais pendências” que envolviam as obras do BRT Sul de Brasília. Cinco horas depois, a mensagem foi respondida por um número que a investigação atribui a Gabas. “Ok. Cuido daqui.” O ex-ministro disse que não representa a OAS e seu propósito era “ajudar o DF e o governo do DF”. Ele admitiu ser autor das mensagens, mas afirmou ter apenas encaminhado apelo a Agnelo Queiroz.         
           

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Dominique

Opinião

Um susto

Ferreira Gullar
A primeira manhã deste novo ano não foi das melhores para mim. É que minha gata, chamada Gatinha, sumiu.

Moro em Copacabana, a uma quadra e meia da praia e a uma quadra do Copacabana Palace, isto é, não muito longe do palanque e do local onde se realizam os shows do final do ano. Ali se junta uma multidão de espectadores. Não preciso dizer o que acontece à meia-noite do dia 31 de dezembro, quando se deflagra o fulgurante espetáculo da queima de fogos, comemorativo da passagem do ano.

Maravilha! Mas nem tudo é de fato maravilhoso para quem, como eu, mora onde moro.

Mal anoitece e as pessoas, às dezenas, às centenas, começam a passar sob minha janela em direção à praia. E esse número vai crescendo à medida que se aproxima da meia-noite. Já eu, aqui no meu apartamento, mal suportando o calor infernal, não tenho como ir para a casa de alguém, nem ninguém consegue vir para minha casa.

O bairro está praticamente fechado. Cláudia, minha companheira, que mora no Flamengo, não teve como vir até aqui a pé, já que a distância é grande e o calor insuportável. Lamentamos a situação por telefone e decidimos, dentro em breve, mudar de bairros.

Conversa de tempo de crise. A verdade é que minha neta Celeste e seus dois filhos, que já estavam no bairro, vieram para cá e aqui ficaram até pouco antes do foguetório, quando foram para a avenida Atlântica. Eu, que não suporto barulho, fiquei aqui mesmo, vendo o espetáculo pela televisão.

O locutor afirmava que 2 milhões de pessoas ocupavam a praia de Copacabana para assistir à queima de fogos. Exagero. A televisão, anos atrás, afirmava que eram 1 milhão de espectadores; depois, passou para 1 milhão e meio e, nos últimos anos, aumentou para 2 milhões. Mas parece que vai parar por aí porque, senão, em breve haverá mais gente assistindo ao foguetório do que a população da cidade.

É uma mentira sem importância, mas pega mal para um veículo cuja função é informar o público, e não enganá-lo. A consequência foi que, este ano, passaram a afirmar que, no Réveillon de Salvador, havia 1 milhão e meio e, em Fortaleza, 1 milhão...

A verdade é que a avenida Atlântica mede 3.800 metros de extensão, e que a grande concentração de gente é em frente ao Copacabana Palace, onde fica o palco. O resto da avenida tem muito menos gente, dispersa pelas pistas e calçadas próximas aos edifícios. Parte desse espaço é também ocupada por ambulâncias, camburões e mesas e cadeiras dos restaurantes e bares. Pelas contas que fiz, mesmo que toda a avenida estivesse ocupada só por gente, esse total não alcançaria 500 mil pessoas. Quando se sabe que dez Maracanãs lotados somam 750 mil, não há o que discutir.

Mas deixa para lá. O que importa mesmo é que o foguetório deste ano bateu todos os recordes de explosões, atordoando os moradores do bairro, particularmente os que, como eu, residem perto da praia. Na sala, onde fiquei vendo o espetáculo pela televisão, o barulho era suportável, mas quando fui até a área de serviço, nos fundos do apartamento, levei um susto, tal o impacto das explosões que parecia um bombardeio aéreo.

Foi quando entendi por que a gatinha sumira. Se quando soa a campainha da porta ela se assusta e corre para o quarto dos fundos, o que não terá pensado ao ouvir aquelas explosões terríveis?

Coitadinha, pensei comigo. E saí a sua procura. Fui até o meu quarto onde durmo e ela também. Espiei debaixo da cama, ela não estava. Espiei debaixo do guarda-roupa, também não estava lá. Quem sabe ela se escondeu atrás da mesa de cabeceira, ou embaixo da televisão ou...

Não estava em parte alguma. Comecei a ficar grilado. Pode ser que esteja no escritório, pensei, e fui até lá. Também não estava. Por via das dúvidas, procurei-a nos dois outros quartos, onde ela não vai nunca. Nem sinal.

Assustado, voltei para a sala, sentei-me na poltrona e fiquei a pensar. Fugir, não fugiu, porque as portas estavam trancadas. Será que morreu de susto?

Foi então que ela surgiu na sala, soltou um miado e pulou no meu colo, ronronando. Abracei-a, aliviado. 

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 13 / 01 / 2016

O Globo
"Petrobras encolhe e retrocede uma década"

Volume de investimentos e valor de mercado caem abaixo do nível de 2007

Estatal vai cortar R$ 130 bilhões até 2019 e produzirá menos petróleo. Ações despencam 9,2%, e analistas preveem aporte da União

A Petrobras anunciou ontem mais um corte de investimentos, de R$ 130 bilhões (cerca de US$ 32 bilhões) até 2019, devido à subida do dólar e à queda da cotação do petróleo. A estatal também informou que produzirá menos do que o previsto no plano anterior. Com os cortes, as ações da empresa despencaram 9,2% e encerraram o pregão a R$ 5,53, o menor valor desde 2004. A profunda crise, iniciada com a Operação Lava-Jato em 2014, já fez a Petrobras retroceder quase uma década: os investimentos estão no nível de 2007, auge da euforia com a descoberta do pré-sal, e a petrolífera vale 64% menos. Analistas preveem que haverá necessidade de aporte de até R$ 200 bilhões pela União na companhia.  

Folha de S.Paulo
"Petrobras decide vender a sua fatia na Braskem"

Estatal anunciou corte de US$ 32 bi no orçamento, o que fez ações despencarem

Em crise após as investigações da Lava Jato, a Petrobras deve anunciar nos próximos dias a venda de sua participação na petroquímica Braskem. A fatia de 36% vale cerca de R$ 5,8 bilhões. Fundos de investimento internacionais já demonstraram interesse no negócio, informam Renata Agostini e Natuza Nery, do Painel. A oferta é uma tentativa de recuperar as finanças da estatal, que nesta terça (12) anunciou corte de US$ 32 bilhões em seu orçamento. A maior redução, referente ao período de 2015 a 2019, será em exploração e produção: US$ 28 bilhões. A meta de extração de petróleo em 2020 caiu de 2,8 para 2,7 milhões de barris por dia. A divulgação do corte fez as ações da empresa despencarem. As preferenciais, mais negociadas e sem direito a voto, fecharam em queda de 9,2%, a R$ 5,53 cada uma. Já as ordinárias caíram 7,65%, para R$ 7. São os menores valores desde 2003. Antes da Lava Jato, os papéis eram cotados na faixa dos R$ 20. Um documento do banco Credit Suisse, que lança dúvidas sobre a viabilidade do plano de recuperação da empresa, também impulsionou a queda nas ações. A Petrobras afirma que a redução nos investimentos objetiva adequar os gastos ao novo cenário de preços do petróleo e de taxa de câmbio.    

O Estado de S.Paulo
"Cerveró cita Dilma; impeachment volta a preocupar Planalto"

A delação do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró deixou em alerta o Palácio do Planalto, que teme a influência das denúncias no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff em curso na Câmara. Cerveró declarou, em 7 de dezembro, à Procuradoria-Geral da República, ter ouvido o senador Fernando Collor (PTB-AL) dizer que as negociações para indicar cargos de chefia na BR Distribuidora haviam sido conduzidas diretamente pela presidente Dilma. Segundo Cerveró, condenado na Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro, Collor revelou que havia se reunido com Dilma e ela teria colocado à disposição a presidência e todas as diretorias da subsidiária da Petrobrás. Em outra ocasião, Collor negou “ter exercido qualquer ingerência sobre a Petrobrás ou sua subsidiária”. Segundo assessores, Dilma teria ficado irritada com o depoimento de Cerveró que, segundo ela, foi a pessoa responsável pelo “relatório falho” que levou à compra da Refinaria de Pasadena.         
           

terça-feira, janeiro 12, 2016

Dominique

Opinião

Bem ao estilo lulopetista

Estadão
Jaques Wagner, ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, é o exemplo típico do militante petista, de origem sindical, bem sucedido na vida pública e privada, identificado com o estilo e os métodos do chefão Lula, de quem é considerado, dentro do próprio PT, como uma versão “envernizada”. Hoje é um dos principais protagonistas da cena política e chega a ser apontado, dentro e fora de seu partido, como uma possível opção petista para disputar a sucessão de Dilma Rousseff em 2018, um plano B para a hipótese de Lula desistir de se candidatar.

Tal qual muitos altos dirigentes petistas, Jaques Wagner vê-se às voltas com denúncias de seu envolvimento em transações financeiras estranhas, de acordo com o que revelam mensagens entre ele e o ex-presidente da construtora OAS, Léo Pinheiro, gravadas em aparelhos celulares apreendidos do ex-presidente da empreiteira, já condenado no âmbito da Operação Lava Jato. Além disso, em delação premiada do ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró – outro condenado por corrupção – Wagner é acusado de ter recebido recursos desviados da estatal para a campanha de sua primeira eleição ao governo da Bahia, em 2006.

A trajetória política de Wagner, sempre dentro do PT, do qual foi fundador quando ainda era dirigente sindical dos trabalhadores na petroquímica em Salvador, ganhou projeção a partir da eleição de Lula à Presidência da República, quando foi nomeado ministro do Trabalho e, dois anos depois, titular da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, onde passou a ter papel de destaque na coordenação política do governo, logo após a saída de José Dirceu da chefia da Casa Civil. Este último foi substituído por Dilma Rousseff, a quem Lula atribuiu a responsabilidade pela coordenação administrativa. Wagner deixou Brasília para se candidatar ao governo da Bahia em 2006. Reelegeu-se em 2010. Em 2015, quando Dilma assumiu seu segundo mandato, voltou à capital federal como ministro da Defesa. E naquela pasta ficou até outubro último, quando Dilma finalmente cedeu à pressão de Lula e o transferiu para a Casa Civil em substituição ao notório Aloizio Mercadante.

Nas novas funções, Wagner dedicou-se desde logo ao desafio de promover a distensão das relações do PT com seu principal aliado, o PMDB, atendendo à prioridade de esvaziar a campanha do impeachment de Dilma. Sendo a habilidade política a sua principal credencial para o cargo que ocupa, Wagner, em evidente articulação com Lula, passou a fazer declarações calculadamente ousadas, na tarefa de mais longo prazo de recuperar a imagem do PT.

Foi com esse objetivo que, a pretexto de fazer uma autocrítica do partido diante dos erros que resultaram na crise política, econômica e moral em que o País está mergulhado, Wagner admitiu que o PT deixou de fazer as necessárias reformas políticas quando tinha força para isso, porque seus quadros preferiram “lambuzar-se” com as delícias do poder. Esse é o tipo da afirmação que Lula jamais faria – seria abusar da credulidade até dos mais desavisados –, mas, na boca de outro, pode sensibilizar antigos militantes e simpatizantes de boa-fé que estão hoje recolhidos a um constrangido desapontamento diante da evidência de que os governos petistas não conseguiram garantir aos brasileiros honestos as mesmas possibilidades de prosperidade que ofereceram a políticos, funcionários e empresários inescrupulosos.

Assim, o fato de mais um figurão do PT, agora o ministro Jaques Wagner, tornar-se alvo de denúncias de corrupção demonstra apenas o óbvio: a começar por Lula – que se disse traído e pediu desculpas ao País pelo mensalão e depois, do alto de sua enorme popularidade, passou a chamar de “farsa” o escândalo que levou a Suprema Corte a colocar na cadeia uma quadrilha de “guerreiros do povo brasileiro” –, a grande proeza dos petistas e aliados em 13 anos de “lambuzação” no poder foi criar a mais seleta e ousada elite de amigos do alheio que enriqueceram à custa do desvio dos recursos que faltam para a educação, a saúde, a segurança, etc.

A presidente Dilma vive repetindo que é honesta, que não admite e combate a corrupção no governo. Dá para imaginar, então, o enorme constrangimento que lhe é imposto pela obrigação de conviver com pessoas que não sabe se amanhã deixarão de ser apenas suspeitas de graves malfeitos.

Original aqui

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 12 / 01 / 2016

O Globo
"Setor aéreo já reduz a oferta de voos"

Mercado deve sofrer primeira retração em 13 anos em 2016

Procura por passagens cai há quatro meses. Com prejuízo acumulado de R$ 13 bilhões, empresas demitiram 2.400 desde 2011

A forte recessão brasileira agravou a crise do setor aéreo, que deverá ter em 2016 a primeira retração em 13 anos. As empresas reduzem a oferta de voos há três meses consecutivos e planejam encolher a malha em até 9% nos próximos trimestres, informa DANIELLE NOGUEIRA. O ajuste é necessário porque a procura por passagens recua há quatro meses. Só em novembro, a queda foi de 7,5%, a maior desde agosto de 2003. Em cinco anos, com custos pressionados pela escalada do dólar, o setor amargou prejuízo de R$ 13 bilhões e demitiu 2.400 funcionários.  

Folha de S.Paulo
"Cerveró liga Lula a contrato investigado pela Lava Jato"

Ex-diretor da Petrobras diz que ex-presidente o recompensou com cargo

O ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró disse em delação que o então presidente Lula deu-lhe um cargo público em 2008 como forma de agradecimento, informam Rubens Valente, Aguirre Talento e Márcio Falcão. O motivo, segundo ele, foi a ajuda prestada para quitar um empréstimo de R$ 12 milhões que é considerado fraudulento pela Lava Jato. Em 2004, o fazendeiro José Carlos Bumlai, amigo de Lula, obteve empréstimo do Banco Schahin e disse ter repassado R$ 6 milhões para empresário de Santo André (SP) que teria informações comprometedoras do PT. Depois, sob o comando de Cerveró, a diretoria internacional da Petrobras contratou a Schahin Engenharia para fornecimento de um navio- sonda com preço estimado em US$ 616 milhões. De acordo com investigadores, o contrato seria uma retribuição do PT ao grupo Schahin pelo empréstimo. Cerveró disse que, ao sair da função, Lula o indicou para a BR Distribuidora por ele ter “viabilizado”o negócio. Também atribuiu a Lula decisão de ter“concedido influência sobre a BR Distribuidora” ao senador Fernando Collor (PTB-AL). Lula não se manifestou.    

O Estado de S.Paulo
"Justiça venezuelana anula atos do Legislativo e agrava crise"

Para Corte, oposição descumpriu sentença que impugnou candidatura de 3 deputados; parlamentares reagem

O Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela declarou nulos os atos da nova Assembleia Nacional, de maioria oposicionista, horas depois da criação de uma comissão para investigar a nomeação de ministros para a mais alta Corte do país no governo Nicolás Maduro. O motivo da decisão foi o fato de o presidente da Assembleia, Henry Ramos Allup, ter dado posse a três deputados oposicionistas cujas candidaturas foram impugnadas. Com eles, a oposição obteve 112 das 167 cadeiras da Casa e a maioria qualificada de dois terços. O segundo-vice-presidente da Assembleia, Simón Calzadilla, disse que “não há condição de aceitar a sentença absolutamente política”. O tribunal declarou nulos “absolutamente todos os atos” do Legislativo enquanto forem mantidos os deputados. O governo deve enviar hoje ao Parlamento Decreto de Emergência com pacote de medidas econômicas.        
           
 
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