quarta-feira, dezembro 07, 2016

Opinião

Será que os mortos e os oprimidos são condições necessárias para mudanças?

Contardo Calligaris
Meu primeiro entendimento da luta de classes era objetivo, "científico". Aos dez anos, eu achava que não tinha santo: nesse conflito, você só podia defender os interesses da classe à qual você pertencia.

Minha família era de classe média abastada; portanto, eu era "burguês" e só poderia defender os interesses da burguesia.

Essa visão do mundo (simplória, mas fácil e clara) entrou em crise quando Giovanni, um amigo, filho de operários, um pouco mais velho e mais sábio do que eu, explicou-me que a luta não era dos ricos contra os pobres, mas dos donos dos meios de produção contra os assalariados (que eles exploravam).

Giovanni me ajudou também a "analisar" minha posição de classe. Descobri que, de fato, eu pertencia aos derrotados de outra luta, que acabara havia dois séculos; eu era o resto de uma pequena aristocracia que não possuía mais terras nem bens. Para complicar, a modesta fortuna da minha família vinha da profissão liberal do meu pai. Os meios de produção que ele possuía eram seus diplomas e seu estetoscópio.

Fiquei nessa perplexidade até entender que, na luta de classes, era possível situar-se subjetivamente: você podia ser operário e (como um feitor do passado colonial) defender seu patrão, e podia ser burguês e querer a revolução contra os interesses de sua classe.

Havia, nessa última escolha, uma tonalidade cristã (defender os humildes e os indefesos), que me incomodava um pouco (já estava com 13 e com pouca simpatia por Deus). Mesmo assim, gostava da ideia de que os privilegiados podiam militar "generosamente" em prol do socialismo e do comunismo futuro; era só querer e se engajar.

Lênin, Fidel Castro e Pol Pot (o mais sanguinário de todos) eram burgueses que aderiram à causa operária ou camponesa. Agora, será que os "convertidos" seriam mais facilmente fanáticos? Nada feito: Mao e Ho Chi Minh nasceram pobres, e isso vale também para Stálin, que compete com Pol Pot. Hitler e Mussolini também nasceram pobres.

Pergunta: por que, quase sempre, os cavaleiros da esperança, de esquerda como de direita, tornam-se também missionários do horror?

Essa questão surgiu em mim depois dos 20 anos, quando minhas escolhas políticas começaram a ser decididas também pela vontade de eu mesmo viver o mais livre possível.

Nessa época, comecei a me perguntar se o atentado contra a vida concreta de milhares ou milhões (incluindo os limites impostos à liberdade) eram mesmo condições inevitáveis para produzir as mudanças desejadas. Descobri que a resposta é quase sempre um "não".

É engraçado ler nestes dias os "balanços" da ditadura castrista. Ninguém nega os milhares de pessoas perseguidas, presas, torturadas, exiladas ou impedidas de sair de Cuba (bizarro, não é? deveria ser um ou o outro), mais eis que vem a "contrapartida": o sistema de saúde melhorou, a educação melhorou, a miséria diminuiu etc.

Quer dizer que os mortos, os oprimidos e os torturados eram condições NECESSÁRIAS para as mudanças ou para a revolução?

Ou não eram necessárias, e os ditos ditadores "bem-intencionados" foram todos inútil e estupidamente sanguinários?

Para modernizar o país e garantir a sobrevivência de todos, vale a pena matar de fome 4 milhões de ucranianos, como Stálin fez? Não perca tempo com essa pergunta; de fato, ela é falsa: não era e não é necessário matar 4 milhões para garantir a sobrevivência de todos.

Mas então por que mataram, prenderam, oprimiram? Só encontro uma razão básica que possa ser comum à lista dos assassinos "salvadores de pátrias" do século 20: o preço exorbitante em vidas e liberdades que eles cobraram de seus povos devia funcionar, para todos eles, como uma demonstração da grandeza de seu empreendimento. Ou seja, aos olhos deles, a confirmação de que sua tarefa era extraordinária estava no próprio fato de eles matarem 4 milhões de pessoas, ou 2, ou 6 –ou 5.000, tanto faz.

No discurso de Posen a um grupo de oficiais da SS, Heinrich Himmler evocou o horror do genocídio para enaltecer o valor do trabalho genocida dos próprios presentes. Assim: os horrores que cometemos provam que o que queremos fazer é relevante. Esse é o esquema geral.

Depois disso, podemos nos perguntar qual é a paixão maluca de cada ditador sanguinário do século 20.

Resta isto: não conheço situações em que o horror seja de fato "justificado" pelo bem da maioria e/ou pelas necessidades "racionais" da "revolução".

Original aqui

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