quinta-feira, dezembro 01, 2016

Opinião

Em 'Sully', Clint Eastwood mostra que a imperfeição pode ser uma salvação

João Pereira Coutinho
Em janeiro de 2009, um avião pousou de emergência no rio Hudson. Quem não se lembra da história? O nome do piloto era Sully Sullenberger e as 155 pessoas a bordo foram salvas por uma manobra impossível, perigosa, milagrosa.

Um amigo brasileiro enviou-me um e-mail em que comentava: não é impressionante que a presidência de George W. Bush tenha começado com aviões de morte e termine agora com um avião de vida?

Bem visto. Eis a diferença entre o Ocidente liberal e o fanatismo islamita: eles amam a morte; nós fazemos tudo para preservar a vida. Sully virou herói e eu, confesso, nunca mais perdi tempo com o caso. A lenda estava criada.

Agora, Clint Eastwood revisita a lenda para contar o que aconteceu depois do milagre: uma investigação, uma séria investigação às competências do capitão Sully Sullenberger. Ele salvara 155 pessoas, ninguém contestava. Mas foi mesmo necessário pousar no Hudson? Ou o gesto revelou uma imprudência criminosa, sobretudo quando havia opções terrenas mais sensatas?

Fizeram-se simulações de computador. E a máquina deu o seu veredicto: era possível ter evitado as águas do rio e pousar nos aeroportos de LaGuardia ou Teterboro. O próprio Sully começou a duvidar das suas competências. Todos falhamos. Será que ele falhou?

"Sully: O Herói do Rio Hudson", filme que estreia na próxima quinta-feira, é talvez o mais conservador dos filmes de Eastwood. Filosoficamente conservador, digo, e por causa dele reli um dos ensaios que me formaram a cabeça.

Foi escrito em 1947 por Michael Oakeshott (1901""1990) e o título é "Rationalism in Politics". Argumenta Oakeshott que, a partir do Renascimento, o "racionalismo" tornou-se a mais influente moda intelectual da Europa. Por "racionalismo", entenda-se: uma crença na razão dos homens como guia único, supremo, da conduta humana.

Para o racionalista, o conhecimento que importa não vem da tradição, da experiência, da "vida vivida". O conhecimento é sempre um conhecimento técnico, ou o conhecimento de uma técnica, que pode ser resumido ou aprendido em livros ou doutrinas.

Oakeshott argumentava, com uma inteligência serena, que o conhecimento humano não pode ser resumido a um mero "conhecimento técnico". O conhecimento humano depende sempre de um conhecimento técnico e prático, mesmo que os ensinamentos da prática não possam ser apresentados com rigor cartesiano.

Em política, por exemplo, não basta conhecer macroeconomia. É preciso estar atento a uma história, uma tradição –ao "caráter" de um povo, por mais intangível (ou "irracional", dirá o racionalista) que isso possa parecer.

Pessoalmente falando, o ensaio de Oakeshott impediu-me de levar a sério qualquer ideologia que prometa resultados perfeitos de acordo com uma receita qualquer. Isso é válido para ideologias de esquerda ou de direita que propõem as suas soluções independentemente da realidade. Não há "livros sagrados" em política porque a experiência humana é sempre mais vasta do que as fantasias dos teóricos.

Clint Eastwood revisita a mesma dicotomia de Oakeshott para contar a história –e a decisão– de Sully Sullenberger. O avião perde os seus motores na colisão com aves; o copiloto, sintomaticamente, procura a resposta no manual de instruções; mas é Sully quem, conhecendo o manual, entende que ele não basta para salvar o dia.

E, se os computadores dizem que ele está errado, ele sabe que não está –uma sabedoria que não se encontra em nenhum livro porque a experiência humana não é uma equação matemática.

As máquinas são ideais para lidar com situações ideais. Infelizmente, o mundo comum é perpetuamente devassado por contingências, ambiguidades, angústias mas também súbitas iluminações que só os seres humanos, e não as máquinas, são capazes de entender.

Quando li Michael Oakeshott pela primeira vez, encontrei um filósofo que, contra toda a arrogância da modernidade, mostrava como a nossa imperfeição pode ser, à sua maneira, uma forma de salvação. O ensaio era, paradoxalmente, uma lição de humildade e uma apologia da grandeza humana.

Clint Eastwood, aos 86 anos, traduziu para imagens a mais séria lição da minha vida. 

Original aqui

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