sábado, novembro 05, 2016

Opinião

Podem ficar tranquilos: ninguém chega atrasado ao próprio funeral

João Pereira Coutinho
Um homem caminha no centro da vila. A Morte aparece, apresenta-se e diz: "Temos encontro marcado para as seis da madrugada." O homem, aterrorizado, vende todos os seus bens e, cavalgando sem parar, afasta-se da vila com a velocidade de um trovão.

Muitas horas depois, e muitas milhas depois, sente-se cansado, dorido, com sede. Decide parar junto a uma fonte para recuperar energias. E a Morte, olhando o seu relógio, surge novamente em cena com um sorriso: "Curioso. Eu poderia jurar que o senhor não ia chegar em tempo."

Li essa história em crónica antiga de Victor Cunha Rego, um colunista português que também escreveu nesta Folha muitos anos atrás. E lembrei-me dela no Dia de Finados, quando fui ao cemitério visitar a família.

Havia gente, havia flores, havia velas. Mas, entre os presentes, não havia uma única criatura que pudesse ostentar o grotesco título de "jovem". Não quero exagerar, embora a minha função seja essa. Mas penso que era o mais novo naquele cenário de mármores brancos. E eu sou um cavalheiro de meia-idade, ou a caminho de. Respeito.

O caso não constitui surpresa: quem leu o historiador Philippe Ariès em "O Homem Diante da Morte" sabe que o medo do fim é coisa recente.

Na Idade Média, por exemplo, a Velha Senhora fazia parte da vida e o condenado (não seremos todos?) preparava-se para a despedida com uma serenidade ritual. O quarto enchia-se de gente –família, vizinhos. Obviamente, crianças.

E os cemitérios também "normalizavam" o assunto: na Antiguidade, os mortos eram enterrados fora da cidade. No período medievo, eles estavam no centro da vida –e da vila: espaços de encontro para os vivos como os shoppings de hoje.

Quando li Ariès, lembro-me de rir alto com a preocupação crecente das autoridades eclesiásticas para proibirem certas práticas nos cemitérios. Como dançar. Ou jogar. Ou tocar música. Ou montar certos negócios.

No século 18, o espectáculo mudou: a morte passou a ser vista como uma importante separação –para os mortos (da vida) e para os vivos (do morto). A morte era uma experiência "estética" e quase bela, para certas almas românticas; ou, então, era uma ópera dramática, com lágrimas (abundantes) e lápides (artísticas).

Os cemitérios portugueses ainda expressam essa monumentalidade com figuras de anjos que choram ou, pelo contrário, dormem serenamente sobre os braços. Suspeito que no Brasil é a mesma coisa. Confesso que essa estatuária sempre me pareceu –como dizê-lo?– obscenamente "kitsch".

No século 20, nova mudança. Ou, como defende Ariès, o início da ocultação. Morrer é quase uma vergonha –para o próprio e para a família. Morre-se no hospital, não em casa; os funerais são rápidos para não perturbar demasiado; as crianças são "protegidas" dessa "infâmia"; e o ideal é não haver lápide, mas cinzas. Espalhadas no mar, na montanha, no vaso sanitário. Quanto mais depressa a evidência da morte desaparecer da paisagem, melhor. Como explicar essa fobia?

Se a memória não me falha, Ariès não oferece nenhuma explicação espiritual profunda. Sim, o desenvolvimento econêmico teve uma palavra. Sim, a "tirania da felicidade" também –vidas felizes não admitem momentos infelizes.

Mas parece-me evidente que o declínio da religião gerou um certo temor inconsciente nos homens contemporâneos. Se a festa não continua do outro lado do pano, é preciso aproveitar enquanto o pano não desce.

Não admira que as nossas sociedades tenham elevado a Saúde e a Juventude (com maiúsculas) a patamares verdadeiramente histéricos. A Saúde e a Juventude sempre são uma ilusão de imortalidade. Nietzsche sabia do que falava: depois da "morte de Deus", a adoração orgásmica do corpo. É tudo que nos resta.

Longe de mim "moralizar" sobre o assunto. Mas pergunto, honestamente, se a negação da morte é a forma mais saudável de celebrar a vida. E, já agora, se a devoção pelo corpo, pela saúde e pela felicidade perpétua são a forma mais saudável de a viver.

Duvidoso. Indiferente. Como na história, podemos cavalgar toda a noite para longe da vila. Mas, à hora marcada, ninguém vai chegar atrasado. 

Original aqui

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