sexta-feira, novembro 25, 2016

Opinião

Será que há alguém para amar? Ou será que há razões para amar alguém?

Contardo Calligaris
A heroína e protagonista de "Elle", de Paul Verhoeven, chama-se Michèle Leblanc. Isabelle Huppert é perfeita no papel de Michèle, mas não foi o charme da atriz que me conquistou; eu fiquei encantado com Michèle mesmo. E vou explicar meu encantamento.

Um homem aparentemente sem sentimentos, quem sabe até calculador ou manipulador, é sempre (ou quase sempre) aceitável. Ele pode incutir medo e desconfiança, mas sua "frieza" é compatível com os clichês da virilidade e até do charme.

Para uma mulher, claro, acontece o contrário. Deve ser por isso que as próprias pesquisas acadêmicas tendem a "verificar" que os homens são psicopatas ou sociopatas muito mais frequentemente do que as mulheres.

Verdade seja dita, há vários pesquisadores que se perguntam se a psicopatia nas mulheres não é diagnosticada menos do que deveria. E há estudos para mostrar que, quando uma mulher é psicopata, ela não é menos intensamente psicopata do que um homem.

E há mais uma verdade na qual eu acredito. Por óbvias razões, grande parte das pesquisas sobre psicopatia são feitas na população carcerária, ou seja, com psicopatas que fracassaram em seu intento e acabaram presos. Que tal imaginar que as mulheres sejam psicopatas de mais sucesso do que os homens e, portanto, soltas pelas ruas em maior número do que presas nos cárceres?

Tudo isso sem contar que as psicopatas femininas podem se esconder muito bem atrás do clichê do descontrole. Como as mulheres poderiam ser psicopatas, frias e contidas, se elas são (não é?) vítimas de seus próprios afetos? A aparente falta de controle seria quase uma garantia de que a mulher não é facilmente psicopata.

Os vilões do cinema e da literatura podem ser gélidos. As vilãs, salvo exceções, situam-se entre a Alexandra (Glenn Close), louca de amor, de "Atração Fatal", e Carrie destruindo o mundo com seu furor mental (ou "uterino", só falta dizer) em "Carrie, a Estranha".

Grandes exceções: a marquesa de Merteuil das "Ligações Perigosas", Catherine Tramell (inesquecível Sharon Stone), de "Instinto Fatal", e, justamente, Michèle Leblanc, de "Elle" (ou do romance "Oh...", de Philippe Djian, que inspira o filme).

Suspeito que o descontrole amoroso (e geralmente sentimental) das mulheres tenha sido inventado pelos homens para eles se protegerem do desejo sexual feminino, ou seja, para se convencerem de que as mulheres não têm um desejo sexual autônomo (que eles poderiam, por exemplo, ser incapazes de satisfazer).

Para os homens, as mulheres podem ser loucamente apaixonadas sem desejo sexual algum. Ou, se elas forem mesmo entregues a incontroláveis desejos sexuais, só pode ser porque, naquela ocasião, elas seriam vítimas de paixões amorosas.

Em suma, as mulheres só podem amar sem desejar ou desejar justamente o objeto de seu amor. O que importa é que elas não tenham fantasias e desejos sexuais que não sejam "justificados" pelo sentimento.

Contra esse clichê, há poucas exceções: Madame de Saint-Ange, da "Filosofia na Alcova", de Sade, e Joe (Charlotte Gainsbourg), de "Ninfomaníaca", de Lars von Trier –e Michèle, claro.

Nota: Michèle não é nem se torna cúmplice de seu estuprador –não no sentido de que ela "gostaria" de ser estuprada (como os mais babacas entre os homens podem sonhar). Mas Michèle descobre a fantasia de seu estuprador, pode brincar com ele e, digamos assim, não são os sentimentos que vão impedi-la de matá-lo.

Michèle não ama ninguém. Esse, para mim, é seu maior charme. Ela não é nenhum monstro de egoísmo: ela apenas não é um clichê.

Em vez de criticá-la por ela não amar ninguém, talvez valha a pena colocar as perguntas: será que existe alguém para amar? E será que existem razões para amar alguém?

Os sentimentos, sobretudo os que são considerados "bons", em geral são tentativas de desculpar nosso ódio ou de compensar sei lá qual dano passado, ou pior, de alimentar nosso narcisismo (eu te amo para que você me ame).

Ou seja, os sentimentos, vistos de perto, são quase sempre sinistros.

Houve épocas em que os homens se entregavam aos sentimentos tanto quanto as mulheres –e eles não pareciam menos homens por isso. Por exemplo, os sentimentos de Aquiles movem a "Ilíada" inteira: sua ira com Agamemnon, seu ciúmes por Briseide, seu luto pela morte de Pátroclo, sua vontade de vingança.

Justamente por tudo isso, Aquiles sempre me pareceu um grandão meio desmiolado e vulgar.

Prefiro Michèle. 

Original aqui

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