sábado, outubro 22, 2016

Opinião

Pensar Trump na Casa Branca é como entregar uma filha a um marginal

João Pereira Coutinho
Só as pessoas frívolas não julgam os outros pelas aparências. A frase é de Oscar Wilde e, como normalmente acontece, acerta na mosca. A mosca em questão é Donald Trump.

Quando escrevi nesta Folha o primeiro texto crítico sobre Trump, vários leitores não me perdoaram. Eu, um "conservador", desejava a vitória de Hillary Clinton?

Entendo o raciocínio das massas: se Trump é um "conservador" (ou, para não sujar a palavra, alguém que está à "direita"), então o dilema está resolvido. Os vícios do homem transformam-se em virtudes; e as virtudes são elevadas a um patamar insano, ao mesmo tempo que a adversária desce às profundezas da indignidade moral.

Essa atitude só revela uma mentalidade fanática e um certo grau de subdesenvolvimento intelectual. Não vale a pena lembrar que nem os Republicanos se comportam assim com Trump –e muitos deles, cedo ou tarde, se distanciaram do candidato.

Prefiro dizer que nenhuma pessoa adulta se comporta assim, sobretudo quando Trump, ao contrário do que pensam alguns "conservadores", nem sequer é um.

Mas antes de irmos à filosofia, relembremos a frase de Wilde: julgar os outros pelas aparências é o primeiro passo para um julgamento de carácter. Oscar Wilde não falava de coisas vulgares, como roupas ou penteados (embora, no caso de Trump, talvez se pudesse abrir uma exceção).

O objectivo do irlandês era outro: as maneiras antecedem a moral, como diz um personagem das suas peças. Mostra-me como te comportas e eu dir-te-ei quem és.

Desde o início que Trump representa o boçalidade mais extrema. As suas colocações sobre imigrantes, jornalistas, veteranos de guerra, deficientes, mulheres, adversários políticos - no fundo, qualquer ser bípede que não seja ele - denunciam uma espécie de "Homem de neandertal" que foi removido da pré-história e colocado em pleno século 21.

Não sou um puritano: gosto de rudeza no trato e abomino o pensamento politicamente correto com a fúria de um renegado. Mas até na rudeza e no pensamento politicamente incorreto tem que haver elegância e inteligência.

O caso tornou-se gritantemente óbvio nos três debates a que assisti por obrigação profissional. O dedo levantado; a gritaria e o insulto como argumentos políticos; a cara de náusea perante qualquer discórdia - tudo isso foi ganhando contornos paródicos e tristes.

Se Trump fosse um ator e se a sua candidatura fosse uma piada, eu até aplaudiria. O problema é que eu sou, acima de tudo, um vergonhoso pró-americano. Admiro a liberdade e a vitalidade dos Estados Unidos. Imaginar Trump na Casa Branca seria o mesmo que entregar uma filha a um marginal.

E aqui vamos à filosofia. Existem debates longos sobre o "conservadorismo americano". Todos eles confluem para a mesma pergunta: como é possível falar de "conservadores" nos Estados Unidos quando o país nasceu num contexto revolucionário?

A resposta possível é lembrar que os americanos têm algo de muito valioso para conservar: a sua Constituição. Esse, aliás, é o tema recorrente de vários autores - Rufus Choate, Peter Viereck, Russell Kirk etc. - que muitos leitores "conservadores" brasileiros leram mas não entenderam.

Nos três debates, o que menos me impressionou foi a total impreparação de Trump (alguém esperava outra coisa?). Pior, muito pior, foi ver um candidato à Presidência que, desprezando a Constituição, ameaçava a adversária com a cadeia; e que, confrontado com a possibilidade de perder, não apenas lançava dúvidas sobre a transparência do processo eleitoral como deixou uma sombra de ameaça se os resultados não lhe forem favoráveis.

Uma coisa dessas é normal na Venezuela ou no Zimbabwe. Não nos Estados Unidos. Ser "conservador" significa proteger valores ou tradições estabelecidos, por mais que isso perturbe a nossa paranoia narcísica. Entre esses valores ou tradições está o respeito pela democracia.

De resto, olhar para Trump como um "conservador" quando ele é esquivo em relação a Vladimir Putin (a maior ameaça ao Ocidente desde o fim da Guerra Fria) é um argumento anedótico. Ronald Reagan deve estar a dançar o twist na sepultura.

E Hillary? Conheço o bicho há muitos anos e não nego a natureza mendaz da senhora. Mas a política não é uma escolha maniqueísta; em certos casos, é uma opção pelo mal menor. Clinton é esse mal menor.

Os inimigos dos nossos inimigos, nossos amigos são? Prometo aceitar esse raciocínio infantil no dia em que muitos "conservadores" brasileiros colocarem Churchill e Stálin no mesmo retrato de família. 

Original aqui

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