terça-feira, agosto 23, 2016

Opinião

O único motivo para praticar esporte é conhecer intimamente a Vila Olímpica

João Pereira Coutinho
"Um atleta jamais será tão rápido como um guepardo ou tão forte quanto um touro." Assim escreveu o filósofo Nassim Nicholas Taleb. E assim pensava eu nas aulas de ginástica da minha mocidade.

"Mexa esse corpo, Coutinho!", gritava o professor, como se fosse um sargento. E eu, desobedecendo as ordens, ripostava. "Para quê?"

O homem ficava aturdido com a resposta e, incapaz de oferecer uma razão profunda, repetia: "Mexa esse corpo, Coutinho, já disse!".

Binho Barreto/Editoria de Arte/Folhapress
Ilustração João Pereira Coutinho de 23.ago.2016
Eu mexia, "ma non troppo". Quando o assunto era corrida, chegava rigorosamente em último lugar, sem uma única gota de suor a correr pelo rosto. Havia sempre um colega que vencia a prova. Feliz, orgulhoso, transpirando como as cataratas do Iguaçu.

"Por que motivo você está tão contente?", perguntava eu ao campeão. Ele dizia o óbvio: "Venci". Eu insistia no óbvio: "Venceu o quê?". A reação dele era igual à do sargento.

Foi assim que me tornei um caso perdido para o esporte. Se Charles Darwin, antes de casar com Emma Wedgwood, fez uma lista com os prós e contras do matrimônio, eu imitava o mestre sobre as vantagens e desvantagens do esporte.

Vantagens: nenhumas.

Desvantagens: cansaço; esforço inútil; ambição vulgar; perda de tempo; sujidade. O único esporte que tolerava era futebol. Gostava de ser goleiro. Grande parte do tempo, podia pensar as minhas coisas, contemplar o mundo em volta, até dormitar.

Quando os outros atacavam, eu defendia alguns remates, sim, mas apenas acidentalmente: a bola batia no meu corpo, eu a agarrava e depois caia no chão, inerte. Alegava dores e, com sorte, acontecia o milagre: substituição.

Aliás, se pensarmos bem, não era apenas o esporte que me enchia de bocejos. No cinema era exatamente a mesma coisa. Heróis de infância? Esqueça o Super-Homem, o Homem-Aranha e outras aberrações similares.

Minha praia era Sherlock Holmes ou James Bond. O primeiro, pela ginástica do intelecto; e o segundo, pela ginástica do afeto –sei o nome de todas as "Bond girls" desde 1962. Os poderes de Bond eram alimentados a dry martínis, não com malhação. Sem falar do vestuário. Capas voadoras? Máscaras? Colantes? Que é isso, gente?

James Bond saltava dos céus ou emergia das águas com um terno perfeitamente engomado. Bond era um "gentleman", pelo menos até Daniel Craig ter entrado em cena. Mas divago.

Porque o assunto é sério: Jogos Olímpicos. Parabéns, Brasil! Parabéns, Rio! Com o meu historial de atrofia, o leitor talvez acredite que sou avesso às Olimpíadas.

Acredita mal. No meu pessoalíssimo balanço, estes jogos foram um sucesso por sete motivos: Alex Morgan (norte-americana, futebol, zero medalhas); Patrícia Mamona (portuguesa; salto triplo; zero medalhas); Michelle Jenneke (australiana; 100 m com barreiras; zero medalhas); Ana Ivanovic (sérvia; tênis; zero medalhas); Zsuzsanna Jakabos (húngara; natação; zero medalhas); e as equipes femininas de vôlei de praia da Suíça e dos Estados Unidos.

Digo mais: o único motivo que me levaria a praticar esporte seriam os Jogos Olímpicos. Não por causa das medalhas, do dinheiro ou da "fama". A razão principal dá pelo nome de Vila Olímpica. Meu Deus, que será aquilo? Por que motivo os jornalistas não dedicam mais tempo ao assunto? Onde está David Attenborough quando mais precisamos dele?

Imagino que a Vila Olímpica seja parecida com os acampamentos da minha puberdade. Com uma diferença: todas as meninas oscilam entre o belo e o escultural.

A esse respeito, lembro uma história que li no Facebook lusitano "É Desporto". Aconteceu em 1996, nos Jogos de Atlanta. A equipe de handebol francesa era campeã do mundo. Mas, nos Estados Unidos, não ganhou medalhas.

O técnico justificou: os rapazes preferiram confraternizar na Vila Olímpica com as donzelas de nado sincronizado. "Ao menos", concluiu, "teremos uma boa equipe de polo aquático daqui a 20 anos". Profético: a França chegou ao Rio com uma equipe de polo aquático. Já não acontecia desde 1992.

Prometo fazer um esforço. Primeiro, encontrar uma modalidade que se ajuste à minha natureza –tiro esportivo, digamos. E, depois, corrigir o maior defeito do jornalismo de hoje. Como? Enviando notícias desse esquecido Olimpo onde também se batem recordes. 

Original aqui

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