quinta-feira, maio 26, 2016

Opinião

Eleitores e consumidores

Contardo Calligaris
Se você passar por Nova York até 26 de junho, não perca a exposição de Nicole Eisenman no New Museum (na Bowery com Prince).

Se eu fosse muito rico, convidaria Eisenman ao Brasil, para o tempo que for preciso, até ela estar a fim de "retratar" a realidade brasileira.

"Coping" (lidando, entende-se, com a adversidade), de 1,6 m por 2 m, é de 2008, mas parece que foi pintado em Mariana (MG): mostra como seria a vida numa praça com a lama até a cintura (http://ci13.cmoa.org/artwork/2712).

Eisenman retrata cada realidade com o tipo de realismo que ela merece. Por exemplo, um pequeno formato, com o título "Uma Família Disfuncional", se parece com a vinheta preparatória para uma campanha publicitária da família margarina. Mas, chegando perto, a gente descobre uma família diferente da que é sonhada pelos publicitários e parecida com a que conhecem os psicanalistas: a mãe está fazendo tricô, mas a saia levantada revela seu sexo, o pai fuma um cachimbo fálico, e o bebê, sentado no chão, martela seu próprio sexo com um amaciador de carne (http://migre.me/tVrdi).

Eisenman produz um protótipo da arte que o nazismo chamava de "degenerada". O stalinismo não pensaria diferente. Os totalitarismos, em geral, não gostam do abstrato, mas odeiam mais ainda aquele realismo que distorce um pouco a realidade retratada para revelar sua face hipócrita e inglória.

Central na exposição é "O Triunfo da Pobreza" (http://migre.me/tVrHa), em que Eisenman frisa a grandeza de Otto Dix e George Grosz na Alemanha entre as duas guerras. No meio do quadro, um homem de cartola (invertido, ele tem a bunda para frente) puxa por uma trela os cegos da "Parábola dos Cegos", de Pieter Bruegel, O Velho (séc. 16).

A inspiração de Bruegel, ao retratar o trenzinho de cegos de mãos dadas, tateando o caminho com sua bengala e levados por alguém tão cego quanto eles, era Mateus 15:14: "Deixem eles; são cegos condutores de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão no buraco".

Proponho que Eisenman seja convidada a pintar um mural no Congresso, em Brasília, para que as gerações futuras da Casa se lembrem do que era o Congresso Nacional na época que estamos vivendo.

Cá entre nós, ser um bom tema para a pintura de Eisenman não é exatamente um elogio.

Depois dessa proposta, haverá ainda mais leitores para me perguntar se o desgosto por toda a classe política resume meu estado de espírito do momento. É verdade que o fisiologismo comum de esquerda e direita (venda de cargos e compra de alianças) tornou verídico o samba: "Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão""¦

Será que perdi minha capacidade de discriminar entre esquerda e direita? Talvez, mas não fui eu quem começou.

Um dia, a esquerda decidiu que Brasília valia várias rezas comuns de mãos dadas. A frase "Paris vale uma missa" terminou as guerras de religião na França no fim do século 16, mas não acabou bem. Ela foi supostamente dita por Henrique 4º quando ele se converteu do protestantismo ao catolicismo para ascender ao trono da França.

Agora, quando você topa uma missa para chegar a Paris, isso não significa que seus antigos amigos serão escutados no seu futuro reinado. O édito de Nantes garantiu aos protestantes lugares onde poderiam se considerar abrigados das perseguições, mas foi só isso. Na Brasília que valeu uma missa, qual lugar sobrou realmente para o ideário progressista?

Estou entre a direita, que me explica que não dá para fazer as coisas que seriam certas porque falta dinheiro para isso, e a esquerda, que me diz que não dá para fazer as coisas que seriam certas porque, ao fazê-las, os eleitores fugiriam.

Estava acostumado com a ideia de que a direita nos tratasse não como cidadãos, mas como consumidores: está podendo trocar de carro? Então não se queixe da miséria cultural, da democracia reduzida ao dia do voto etc.

Não estava acostumado com a ideia de que a esquerda nos tratasse não como cidadãos, mas como eleitores: falar a verdade para o pessoal, por quê? Precisa falar o necessário para que a maioria continue votando na gente. Ou (chantagem) você não quer que a esquerda continue no poder? Uma coisa não perdoo à esquerda: ela criou uma situação em que só resta torcer para que mais um governo fisiológico dê certo. 

Original aqui

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