sábado, agosto 22, 2015

Dominique

Opinião

Bolivarianos em apuros

Estadão
A crise enfrentada pelo presidente Rafael Correa, do Equador, é apenas a mais recente entre as tantas que os regimes bolivarianos vêm encarando nos últimos tempos, desde que a fantasia da redistribuição voluntarista de renda se desfez diante da dura realidade econômica. Bafejadas pelo ciclo de ouro das commodities, essas autocracias se jactaram de ter conseguido resgatar milhões de pessoas da miséria e apresentaram-se como modelo a ser seguido. Agora que a maré de sorte baixou, os caudilhos viram-se nus – nem mesmo um líder que era bem avaliado e que manteve a economia razoavelmente sob controle, como Correa, consegue se mostrar imune à impopularidade.

Um ano atrás ninguém poderia imaginar que Correa passaria pelos apuros que ora enfrenta. Desde 2007, quando chegou ao governo, o presidente equatoriano vem construindo uma estrutura de comando que abrange todos os Poderes e se sustenta em uma série de leis que lhe garantiram o controle, direto ou indireto, dos movimentos sociais e de outros grupos organizados da sociedade civil. Tudo isso com a garantia de que a imprensa independente estaria constrangida por um sistema implacável de censura e de asfixia econômica.

Essa mal disfarçada ditadura foi “legitimada” por um período de bonança proporcionada pela alta dos preços do petróleo. Os programas sociais decolaram, assim como a popularidade de Correa. Em vez de aproveitar o bom momento para fazer poupança e garantir recursos para investimentos quando a conjuntura não fosse tão favorável, o autocrata gastou em grandes obras e aumento da máquina estatal, além de ampliar a dívida nacional, em especial com a China.

A virada nos preços do petróleo atingiu em cheio a economia equatoriana, que já vinha apresentando sinais de anemia. A insatisfação social cresceu e hoje envolve quase todos os setores à esquerda e à direita. Mesmo os índios, supostos beneficiários das políticas sociais de Correa, se voltaram contra o presidente e marcham pelas principais cidades do país para exigir a saída do presidente.

Ainda que em menor escala, o presidente da Bolívia, Evo Morales, também enfrenta movimentos que questionam seu governo. Os mineiros da região de Potosí fizeram greve e manifestações no mês passado, denunciando que Morales abandonou a região – que sofre com a queda dos preços dos minérios. Apesar de toda a propaganda governista a respeito de justiça social, os moradores da rica Potosí continuam muito pobres e, portanto, com muitos motivos para criticar o autocrata bolivariano.

O fato é que, embora a economia boliviana tenha sido conduzida com prudência e mostrado sinais de crescimento nos últimos tempos, Morales não conseguiu ainda cumprir muitas das promessas que fez em cima dos palanques – e já começou a aumentar os gastos públicos, ameaçando o equilíbrio das contas. Com isso, as manobras autoritárias de Morales para mudar a lei e poder concorrer a um novo mandato são rechaçadas hoje por quase 60% dos bolivianos, segundo pesquisa recente.

Tanto Correa quanto Morales colhem os frutos da ilusão que criaram a respeito de um modelo econômico baseado apenas no poder do Estado – que, segundo sua propaganda, poderia criar uma nova era de prosperidade na América Latina. Diante da insatisfação de seus governados, a ambos só resta recorrer ao surrado discurso bolivariano de que são vítimas das “oligarquias golpistas” a serviço do “imperialismo americano”.

O receio de equatorianos e de bolivianos é que, com o propósito de se segurarem no poder, Correa e Morales recorram de vez ao modelo chavista venezuelano – repressão desenfreada à oposição, estatização total e destruição do sistema produtivo. A Venezuela, com sua inflação de mais de 200%, sua escassez de produtos básicos e sua total falta de liberdades, surge como o pesadelo latino-americano. Como disse ao El País o líder de uma das manifestações no Equador: “Protestamos contra esta quase ditadura que temos aqui, que quer se perpetuar no poder e nos converter em uma Venezuela. E isso nós não vamos permitir”.

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U.V.

Manchetes do dia

Sábado 22 / 08 / 2015

O Globo
"Insatisfeito com ações de Dilma, Temer se afasta"

Desgaste aumentou depois de apelo do vice para ‘alguém’ unir o país

Decisão de deixar a articulação política foi precipitada pelo comportamento da presidente, que assumiu atribuições da função

O vice-presidente Michel Temer decidiu deixar a articulação política do governo. O desgaste da relação com a presidente Dilma está por trás da decisão. Há quatro meses acumulando as funções de vice e de articulador, Temer incomodou a presidente e ministros do PT ao declarar, há duas semanas, que “alguém” precisava unir o país. Desde então, Dilma passou a mediar conflitos com aliados e a conversar com empresários. Temer vem se sentindo desautorizado com a mudança de conduta da petista. “Ele foi muito maltratado”, sintetizou o ex-ministro Moreira Franco (PMDB).

Folha de S.Paulo
"Gilmar Mendes pede ação contra campanha de Dilma"

Para ministro do TSE e do STF, há indícios de que PT foi beneficiado na eleição pelo petrolão; partido nega

O ministro Gilmar Mendes, vice-presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), pediu à Procuradoria Geral da República que apure eventuais crimes que possam motivar uma ação penal contra a campanha da presidente Dilma e o PT. Mendes, que também é ministro do Supremo Tribunal Federal, argumentou que há “vários indicativos” de que a campanha à reeleição da presidente, no ano passado, e seu partido foram financiados por propina desviada da Petrobras. Entre os elementos da Operação Lava Jato usados pelo ministro em seu despacho está trecho da delação do empreiteiro Ricardo Pessoa, em que ele diz ter doado R$ 7,5 milhões do esquema de corrupção na estatal para a campanha de Dilma. Irregularidades no processo eleitoral podem resultar na cassação da chapa, ou seja, tanto Dilma como o vice-presidente, Michel Temer (PMDB), seriam afastados de seus cargos. Se isso ocorrer, uma nova eleição presidencial pode ser convocada. Em nota, o ministro Edinho Silva (Comunicação Social), coordenador financeiro da campanha, afirmou que o TSE aprovou, por unanimidade, todas as contas apresentadas.

O Estado de S.Paulo
"Temer decide deixar articulação política do governo"

Insatisfeito com a falta de cumprimento de acordos e com a 'articulação paralela' promovida pelo Planalto, vice avalia melhor momento para sair

O vice-presidente Michel Temer vai deixar a articulação política do governo. Aborrecido co a falta de cumprimento de acordos e com a "articulação paralela" promovida no Planalto, Temer, que também preside o PMDB, avalia apenas o melhor momento para que o desembarque não seja visto como mais um fator de instabilidade, no rastro da crise provocada após a denúncia contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). "Eu já cumpri o meu papel em relação ao ajuste fiscal e agora vou me dedicar à macropolítica", disse a líderes aliados no Congresso. Temer ficou contrariado com "olhares enviesados" de petistas, após dizer que o País precisava de alguém com capacidade de "reunificar a todos". Ele conversou ontem com Cunha, que o aconselhou a "sair fora" da articulação porque a Casa ficará ingovernável. Temer não definiu a data de saída da articulação, mas confidenciou a amigos que o trabalho tem "prazo de validade", após quatro meses nessa tarefa.

sexta-feira, agosto 21, 2015

Caravelle


Coluna do Celsinho

Previsível

Celso de Almeida Jr.

Hoje, confiro na imprensa que o Brasil cortou 157.905 vagas de trabalho com carteira assinada no mês passado.

É o pior resultado para julho desde 1992.

Pois é...

Todo empreendedor quer gerar e manter empregos.

Eu, parte deste grupo de teimosos, sei o quanto é complicado estar submetido a uma legislação pouco flexível e que dificulta - muito - acordos diretos entre empresa e funcionários.

Especialmente os médios e pequenos empresários deveriam ser reconhecidos como guerreiros, submetidos a toda ordem de pressão e obstáculos para tocar os seus negócios.

Com esta realidade gritante, não seria muito mais fácil uma flexibilização total das leis trabalhistas, deixando, por exemplo, que cada funcionário direcionasse sua contribuição previdenciário para instituição privada, de sua escolha?

Atrelar à folha de pagamentos uma série de contribuições que aumentam o custo da contratação gerou para os governos, ao longo de décadas, perigosa acomodação, garantindo aparentemente recursos que permitiriam grandes conquistas sociais.

O resultado:

Previdêcia pública comprometida.

Remuneração do FGTS com taxas abaixo das praticadas pelo mercado.

Incontáveis conflitos trabalhistas.

Há coragem para mudar este quadro, já que os políticos temem mexer neste vespeiro?

Ao que parece, a mudança virá pela forma mais dolorosa: o agravamento da crise financeira.

Não precisava ser assim.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Dominique

Opinião

O fantástico mundo do PT

Estadão
O Partido dos Trabalhadores (PT) tem aprimorado sistematicamente a sua capacidade de construir uma realidade própria. Diante de fatos inequívocos – por exemplo, as graves denúncias de corrupção e as mais que evidentes provas de um governo inepto, que leva o País à garra –, o PT refugia-se num universo onírico, criado com o único e exclusivo intuito de se isentar de responsabilidade pela crise que assola o País e criar constrangimento a todo aquele que não dê anuência a seu projeto de poder.

Nesse mundo paralelo, as palavras ganham significado peculiar, escolhido a dedo de acordo com as circunstâncias. Intolerante não é aquele que não admite a opinião alheia. Intolerante passa a ser todo aquele que ousa manifestar opinião contrária aos interesses petistas. Se o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso expressa sua opinião de que a renúncia da presidente Dilma, ou ao menos o reconhecimento dos erros cometidos, seria um gesto de grandeza de sua parte, ele é imediatamente tachado de intolerante e instado a se calar, porque ex-presidente deve se recolher à sua insignificância. Exceto, é claro, o mais ilustre de todos, Lula da Silva, cujos conselhos são ouro puro.

Esse é o método petista – acuar quem não concorda com o jeito de governar do PT. Na ótica petista, a manifestação da opinião política – como a que se viu no último domingo, por todo o País – já não faz parte da liberdade de expressão e da liberdade política. É golpismo, revanchismo de quem não aceita o resultado das eleições.

Da mesma forma, quem considera que há razões legais e constitucionais para o impeachment da presidente Dilma é simplesmente golpista. Levada ao extremo a interpretação que esses petistas dão à lei e aos fatos, o fundamento do Estado não é a Constituição Federal. O Estado é o partido – e a legalidade deixa de ser uma régua que mede a todos, para ser uma linha fluida e incerta, que protege não a coletividade, mas os interesses bem particulares do partido e de seus sobas.

No universo particular petista, o mal não é a corrupção. O que causaria prejuízo ao País são as investigações que trazem à tona a corrupção. Essas investigações travam a economia. As investigações policiais, portanto, precisariam ser contidas, pois trazem o risco de afetar empresas, que geram emprego e crescimento econômico. Pelo menos algumas empresas e empresários – não por acaso aqueles que contribuem generosamente para o projeto petista – precisam ser blindados. Trata-se de dever patriótico de todo aquele que quer o progresso do Brasil.

Na defesa de seus interesses, o PT, partido do progresso e da transformação, não teme assumir contornos conservadores. Quer a todo o custo que tudo fique como está. Principalmente, que não se esclareça muita coisa, que não se investigue a fundo, que não se puna de acordo com a lei. A delação premiada – simplesmente por ter sido o instrumento para expor ao País tantos atos de corrupção praticados ao longo dos anos de PT no governo federal – passou a ser execrada publicamente, como se fosse a mais alta imoralidade. Com essa atitude, transforma-se em valor moral da mais elevada extração a omertà, o silêncio cúmplice, que perpetua as máfias.

A construção da onírica realidade petista não é inocente. Com ares de preocupação social, manipula a linguagem com a única preocupação de proteger amigos e agentes – a tigrada que vinha tirando o que podia do Tesouro para sustentar as aventuras eleitorais do partido e, de quebra, enriquecer um pouquinho.

A “criatividade” petista – que nada mais é do que uma fuga do mundo real, com suas constrangedoras responsabilidades – manifesta desespero político. Abandona qualquer pretensão de coerência em troca de uma tábua de salvação.

A legitimidade democrática passa necessariamente por respeitar a realidade e as palavras. Tolerância, liberdade, legitimidade, honestidade são palavras muito sérias, que exigem respeito, já que definem grandes bens que precisam ser protegidos. Abusar delas é imoral. E antidemocrático.

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U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 21 / 08 / 2015

O Globo
"Denúncia diz que Cunha usou até igreja para receber propina"

Ministério Público pede que presidente da Câmara devolva US$ 80 milhões por desvios

Eduardo Cunha é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, fruto de corrupção na Petrobras; recursos teriam passado por offshores na Suíça e no Uruguai, segundo o operador Júlio Camargo, delator do esquema. A ex-deputada Solange Almeida também foi denunciada

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), segundo o Ministério Público Federal, beneficiou-se de um esquema por onde circularam US$ 40 milhões em propinas. O dinheiro passou por contas na Suíça e no Uruguai. Os procuradores sustentam que até uma igreja da Assembleia de Deus foi usada para repassar o valor do suborno ao deputado, o primeiro presidente da Câmara denunciado no exercício do cargo. As principais provas se baseiam na delação premiada do operador Júlio Camargo, que narra detalhes dos desvios: o pagamento facilitaria a assinatura de contrato de aluguel de navios-sonda pela Petrobras. A denúncia também atesta que Cunha usou dois requerimentos de informação, apresentados pela ex-deputada Solange Almeida, como revelou O GLOBO, para pressionar Camargo a pagar parte da propina. O MP pede que o deputado devolva US$ 80 milhões aos cofres públicos. O presidente da Câmara acusou o governo e o Ministério Público de fazerem um “acordão”.

Folha de S.Paulo
"Denúncia cobra US$ 80 mi de Eduardo Cunha e aliada"

Procuradoria acusa presidente da Câmara de envolvimento com petrolão; ele nega

Em denúncia ao Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria exige que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e a ex-deputada federal Solange Almeida paguem ao erário US$ 80 milhões, entre reparação e devolução de recursos desviados. Eles são acusados pelo procurador-geral, Rodrigo Janot, de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a denúncia, Cunha recebeu ao menos US$ 5 milhões em propina de Julio Camargo, então executivo da Toyo Setal e delator da Lava Jato. Investigadores confirmaram trechos de sua delação premiada e afirmam que parte do valor foi pago à Igreja Evangélica Assembleia de Deus do Rio, da qual Cunha é próximo. Empresas de Camargo repassaram R$ 250 mil a contas da instituição. Cunha declarou que é inocente e está “absolutamente sereno” com as denúncias a seu respeito. Ele acusou o governo de estar por trás das apurações e disse que foi “escolhido para ser investigado”. A ex-deputada não quis comentar a acusação.

O Estado de S.Paulo
"Janot denuncia Cunha ao STF e pede devolução de US$ 80 mi"

Procurador-geral acusa presidente da Câmara de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Valor da denúncia inclui ressarcimento de propina e de danos à Petrobras e administração. Peemedebista diz ser alvo de complô do Planalto, PT e chefe da Procuradoria

O procurador geral da República, Rodrigo Janot, encaminhou ontem ao Supremo Tribunal Federal denúncia contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e a ex-deputada federal Solange de Almeida (PMDB-RJ) por envolvimento no esquema de corrupção da Petrobras investigado pela Operação Lava Jato. Janot pediu ao STF a condenação de Cunha pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Também solicitou a devolução de US$ 80 milhões (equivalente a R$ 277 milhões) - US$ 40 milhões por recebimento de propina em contratos de navios-sonda e US$ 40 milhões por danos à Petrobras e à administração pública. Embora advogadas de Cunha previssem um pedido de afastamento da presidência da Câmara, Janot não fez nenhuma menção ao tema. A parlamentares que lhe foram prestar "solidariedade" e depois em nota, o peemedebista disse que é alvo de "complô" de Janot, Planalto e PT e "foi escolhido" para ser denunciado.

quinta-feira, agosto 20, 2015

Dominique

Opinião

Delinquência institucional

Estadão
“Este processo de habeas corpus parece revelar um dado absolutamente impressionante e profundamente preocupante, o de que a corrupção impregnou-se no tecido e na intimidade de alguns partidos e instituições estatais, transformando-se em conduta administrativa, degradando a própria dignidade da política, fazendo-a descer ao plano subalterno da delinquência institucional.” Esse diagnóstico sombrio do alastramento da corrupção na política e na administração pública foi feito pelo decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Celso Mello, durante o julgamento de habeas corpus impetrado em favor do lobista Fernando Baiano, preso na Operação Lava Jato. O pedido foi negado.

A manifestação de Celso Mello ocorre no momento em que a investigação do propinoduto da Petrobrás pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal se aproxima de um momento crítico. Nos próximos dias, começarão a ser apresentados aos tribunais superiores os pedidos de indiciamento de políticos e de autoridades que desfrutam de foro privilegiado.

Para o decano do STF, “a comprovar-se tal prática vergonhosa” de corrupção na Petrobrás, “estaríamos em face de uma nódoa indelével, afetando o caráter e o perfil da política nacional”. E manifestou a esperança de que esse processo “não se desenvolva no sentido de demonstrar que conspícuas figuras governamentais estejam envolvidas em prática delituosas”.

A manifestação do decano foi apoiada pelo ministro Gilmar Mendes, para quem a corrupção se tornou instrumento de viabilização de um projeto partidário. Por sua vez, a ministra Cármen Lucia considerou “impressionante” a ocorrência de práticas criminosas com a extensão das que estão sendo apuradas, num país que dispõe de um amplo repertório legislativo e de uma rede de órgãos dedicados ao combate à corrupção.

Esses depoimentos dos ministros da Suprema Corte atingem em cheio os governos petistas, pois reafirmam as suspeitas de que a prática da corrupção na administração pública direta e indireta tornou-se usual e corriqueira nos últimos anos, como já havia comprovado o julgamento do mensalão.

A melhor comprovação de que a corrupção atingiu níveis alarmantes é o fato de que na campanha eleitoral do ano passado Dilma Rousseff havia declarado “guerra sem tréguas” à corrupção e se comprometido, como reafirmou em seu discurso de posse, com um “pacote anticorrupção” composto de cinco medidas: transformar em crime a prática de caixa 2, punir com rigor os agentes públicos que enriquecem sem justificativa, assegurar meios para o confisco dos bens adquiridos de forma ilícita, acelerar o julgamento de processos envolvendo o desvio de recursos públicos e dar maior agilidade às investigações e processos movidos contra aqueles que têm foro privilegiado.

Ou seja, Dilma Rousseff sabia o que se passava na administração que de alguma forma chefiava há 12 anos, como ministra ou presidente. E, até que a Polícia Federal e o Ministério Público iniciassem a devassa, ficou a dever às pessoas de bem deste país qualquer providência administrativa para interromper a transfusão de recursos públicos para delinquentes públicos e privados. Mas retórica não faltou. No discurso de posse, Dilma se gabou da “luta que vimos empreendendo contra a corrupção e, principalmente, contra a impunidade”. E acrescentou: “Estou propondo um grande pacto nacional contra a corrupção, que envolve todas as esferas de governo e todos os núcleos de poder, tanto no ambiente público como no ambiente privado”. Para que não fosse acusada de fazer promessas vãs, Dilma garantiu que o tal pacote anticorrupção seria encaminhado ao Congresso Nacional ainda no primeiro semestre.

O primeiro semestre terminou há quase dois meses e, até agora, a maior contribuição que a presidente da República deu às investigações da corrupção na Petrobrás foi a categórica e estranha afirmação, feita durante viagem aos Estados Unidos, de que não respeita delatores. Ela havia sido questionada sobre acusação, feita em delação premiada, de que sua campanha reeleitoral recebera uma contribuição de R$ 7,5 milhões provenientes de propina. Melhor seria que ela dissesse que não respeita criminosos. Delatores ela respeita, sim. Pois foi ela que consagrou o instituto da delação premiada, em particular o “acordo de leniência”, por meio da Lei 12.529/2011.

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 20 / 08 / 2015

O Globo
"Denúncia ao STF amplia o isolamento de Cunha"

Segundo deputados presentes na reunião, se comentou o fato de o Planalto estar comemorando a denúncia contra Cunha e seu enfraquecimento, esperando que , daqui para frente, frágil, ele decida recuar, negociar e recolher as armas, seguindo a estratégia de Renan.

— O cara tá com água pelo nariz vai negociar o quê? E o que o governo tem para entregar? Não contem com isso. Se vier uma denúncia só baseada em denúncias de delatores, ele vai crescer pra cima — disse um dos aliados de Cunha.

Folha de S.Paulo
"Janot não pedirá afastamento de Cunha da Presidência da Câmara"

Na denúncia que enviará ao STF (Supremo Tribunal Federal) nas próximas horas, a Procuradoria-geral da República não pedirá o afastamento de Eduardo Cunha da Presidência da Câmara.

A Folha apurou que os investigadores não descartam requisitar que o peemedebista deixe a cadeira futuramente, mas não o farão no texto da denúncia, que será assinada por Rodrigo Janot, procurador-geral da República.

O pedido de afastamento vinha sendo especulado porque Janot já afirmou que Eduardo Cunha usou o cargo em benefício próprio.

Em parecer enviado ao Supremo, na semana passada, o PGR sustentou que Cunha confundiu o público com o privado ao acionar a AGU (Advocacia-geral da União) para tentar anular provas recolhidas dentro da Câmara.

O Estado de S.Paulo
"Janot não pedirá o afastamento de Cunha da Presidência da Câmara"

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, não irá pedir o afastamento do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) da cadeira de presidente da Câmara na denúncia que deve ser oferecida ainda nesta quinta-feira, 20, ao Supremo Tribunal Federal (STF), de acordo com fontes com acesso às investigações de políticos na Lava Jato.

quarta-feira, agosto 19, 2015

Pitacos do Zé


Que bom!

José Ronaldo Santos
Já tinha um bom tempo que eu não passava pela Praça Nóbrega. Por isso minha surpresa e minha alegria em ver novamente o museu, que funciona na Cadeia Velha, estar acolhendo o público. Afinal, era muito estranho na entrada da cidade e em outros pontos ter  placas turísticas anunciando um museu, mas ele estar fechado há anos.

É inconcebível uma cidade, um lugar sem o seu museu. Na minha infância, esse museu se localizava no Ateneu Ubatubense, debaixo das dependências onde se reunia a Câmara Municipal. Ali aprendi a nossa pré-história, os primeiros colonizadores, alguns de nossas importantes figuras etc. Sempre gostei de visitar esse espaço de memória da nossa terra. Sempre fiz questão de apresentá-lo a outras pessoas, sobretudo aos mais jovens.

Esses espaços nomeados de museus são importantes demais! Tenho muito orgulho de nossos traços, de nossas bases culturais que se encontram no Museu Histórico Municipal Washington de Oliveira e no Museu Caiçara. Na verdade, para edificação de mentalidades preservacionistas, de amor à natureza e a este Ubatuba, eles deveriam se multiplicar em nossos bairros e em nossas praias.

É isso! Faça a sua visita e aprecie nossos museus.

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Dominique

Opinião

De Guimarães.Rosa@edu para Dilma@gov

Elio Gaspari

Presidenta,

No seu primeiro discurso de posse, vosmicê me chamou de "poeta da minha terra" e lembrou umas linhas que escrevi ("O correr de vida embrulha tudo. [...] O que ela quer da gente é coragem"). Não mencionou meu nome. No Itamaraty, cansei de escrever para os outros sem que me lembrassem. Era meu ofício. De qualquer forma, obrigado pelo "poeta". Chamo-me João, há quem diga Guimarães, ou mesmo Rosa.

Estive ontem com o Raul de Vincenzi, diplomata como eu, mas homem bonito. Lustrava o governo do Juscelino porque o acompanhava como chefe do cerimonial. Ele foi embaixador no Chile do general Pinochet. Nessa função, em janeiro de 1980 defendia o interesse do nosso país para que empreiteiras nacionais construíssem a hidrelétrica de Colbun-Machicura. Os amigos do Planalto queriam que a obra fosse entregue sem licitação, pelo sistema de porteira fechada, que os americanos chamam de turn-key. Os ministros civis de Pinochet não gostavam da ideia, e o chanceler disse ao Raul que a norma chilena era a da licitação, mas sabia que o presidente João Batista Figueiredo tinha "interesse especial" pela escolha de uma empresa brasileira. Não lembrava o nome, mas saiu da sala e voltou com a informação: "Engesa/Odebrecht". (A Engesa, a senhora sabe, fabricava armas e já faliu.) No mesmo dia, o Raul encontrou-se com o general-chefe do gabinete pessoal de Pinochet, mencionou o assunto e ele lhe disse: "Vocês não estão dando nome aos bois". Raul pôs tudo isso no papel. O chanceler Ramiro Guerreiro, que também está aqui mas não fala, só mexe a cabeça, acrescentou outra informação durante um despacho com Figueiredo: "O coronel Sérgio Arredondo, ex-adido militar do Chile em Brasília, teria aludido que a preferencia de Vossa Excelência recairia sobre o consórcio Engesa/Odebrecht, dada a tradição mantida no Chile e o estrito relacionamento da primeira empresa com autoridades militares chilenas".

Deu redemoinho no Planalto. As coisas eram como eram, mas não deveriam ser ditas. Figueiredo contou que o coronel Arredondo tratou do assunto com ele, mas tinha dito apenas que a Odebrecht era uma empresa de confiança. Um embaixador que contou o que lhe disseram e um chanceler que mostrou o que sabia desarmaram os poderes do mundo. Os chilenos licitaram a hidrelétrica e a manobra da porteira fechada falhou. Digo-lhe que esse Arredondo, antes de montar cavalos com Figueiredo, estivera na "Caravana da Morte", uma tropa de jagunços que saiu pelo Chile matando gente.

Fazem falta gente como o Raul e o Guerreiro? Sinais a senhora teve, mas mandaram que calassem a boca. Sei mas não digo.

A senhora sabe que eu escrevi: "O diabo na rua, no meio do redemoinho". Não faça mau juízo do redemoinho da rua que a senhora viu no domingo. No meio dele não estava o Tinhoso. O Capeta, Coxo, Capiroto, Coisa Ruim, finge que está, mas não está. No meio do redemoinho da rua estavam o juiz Sérgio Moro e o Ministério Público. Entre nesse espetáculo. Proclame por uma vez que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Viver é negócio muito perigoso, mas as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas. Tenha coragem, é tudo o que a vida lhe pede.

Respeitosamente,

João Guimarães Rosa 

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U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 19 / 08 / 2015

O Globo
"Governo ‘perde menos’, e Câmara muda FGTS"

Apesar de acordo, escalonamento da correção desagrada ao Planalto

Deputados aprovam texto-base de projeto que leva o Fundo a alcançar a rentabilidade da poupança a partir de 2019; equipe econômica queria que alíquotas anuais de reajuste fossem aplicadas em onze anos

Em votação simbólica, a Câmara dos Deputados aprovou ontem a mudança da correção do FGTS. Segundo o projeto, a partir de 2019, o Fundo alcançará a rentabilidade da poupança. O texto aprovado, negociado com o governo, é melhor para a equipe econômica do que o original, que previa a correção pela poupança já em 2016. Apesar da pequena vitória, segundo fontes do Ministério do Planejamento, o governo tentará reverter a proposta no Senado ou poderá recorrer ao veto para modificá-la. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deve votar hoje o projeto que reonera a folha de pagamento de setores da economia. 

Folha de S.Paulo
"Dilma volta a usar Caixa e BB para socorrer empresas"

Governo libera R$ 5 bi a montadoras a fim de evitar demissões

O governo Dilma Rousseff vai voltar a usar os bancos públicos para financiar com juros baixos os setores da economia em dificuldades, como as montadoras. A medida, que foi abandonada e criticada pela atual equipe econômica, ocorre quando a gestão precisa garantir o apoio do empresariado para enfrentar também a crise política. O pacote de socorro foi divulgado após o apoio público das maiores entidades industriais do país, FIESP e Firjan, à governabilidade e o acordo entre Planalto e senadores do PMDB. Uma ala do governo defende que, sem a volta do crescimento, o Brasil não elevará sua receita e continuará tendo dificuldades para reequilibrar as contas. Crítico de medidas que tachou de “patrimonialistas”, o ministro Joaquim Levy (Fazenda) foi visto como derrotado no debate. (...) A presidente da Caixa, Miriam Belchior, disse que o objetivo é ajudar empresas a “respirar”. “[Foi] consenso no governo”.

O Estado de S.Paulo
"Banco Público dará crédito a empresa que não demitir"

Setor automotivo foi o primeiro a ser contemplado; recursos virão dos próprios bancos, do FGTS e do FAT

Como medida para evitar o agravamento da crise, o governo orientou os bancos públicos a liberar crédito mais barato para empresas das cadeias produtivas de diversos setores da economia. O objetivo do pacote é dar "respiro" ao caixa por meio de financiamentos a taxas mais baixas. Em contrapartida, as companhias devem se comprometer a manter os empregos. O setor automotivo foi o primeiro segmento a ser contemplado, conforme antecipou a colunista Sonia Racy. Ontem, a Caixa Econômica Federal anunciou que vai liberar cerca de R$ 5 bilhões até o fim do ano para os fornecedores das montadoras em linhas de capital de giro e de investimento com juros mais baixos e prazos estendidos para pagamentos. Os recursos virão do próprio banco, do FGTS e do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). O Banco do Brasil deve fazer hoje anúncio semelhante. O mesmo desenho de financiamento está em negociação com outros setores, entre eles construção, alimentos, papel e celulose, química, fármacos, eletroeletrônicos, energia elétrica, telecomunicações, petróleo e gás, máquinas e equipamentos.

terça-feira, agosto 18, 2015

Dominique

Opinião

Beco sem saída

Ferreira Gullar
A primeira semana deste mês veio confirmar o ditado segundo o qual agosto é o mês do desgosto. Que o digam os petistas, a começar por José Dirceu, por Dilma e por Lula, que efetivamente não estão vivendo o melhor agosto de sua vida.

Sem exagero, tendo a acreditar que, em meio a tantos percalços, esta nova prisão de José Dirceu –e, sobretudo, as denúncias que a motivaram– foi um baque do qual, até agora, o petismo, em seus diferentes níveis, ainda não conseguiu se recuperar. E, creio eu, dificilmente o conseguirá.

É que José Dirceu, depois de Lula, é a figura mais importante do Partido dos Trabalhadores, como comprova a sua história política. Pois bem, as acusações vêm confirmar não apenas sua atuação decisiva no esquema de propinas vultuosas em favor do PT como em seu próprio benefício.

E não se trata de qualquer dinheiro, mas de milhões de reais. Com essa grana, comprou apartamento para a filha, adquiriu e mandou reformar imóveis de luxo.

Para a perplexidade da nação, ficou-se sabendo que, mesmo depois de preso em consequência do mensalão, continuou, de dentro da prisão, a administrar o recebimento e aplicação das propinas milionárias. Isso indica que ele não estava levando a sério a ação da justiça e que achava que logo, logo, estaria livre e impune.

Calculou mal, claro, mas não é isso que impressiona, e sim que aquele líder revolucionário, que enfrentou a ditadura militar e se dedicou à luta pelo socialismo, aliado de Fidel, tornou-se um corrupto, ladrão do dinheiro público.

Não surpreende a ninguém que ele se diga inocente. Mas Lula, Dilma e a direção do PT sabem muito bem que as acusações são procedentes e, tanto o sabem, que não vieram a público defendê-lo, como o fizeram no caso do mensalão. Muito pelo contrário, a direção do PT fugiu da imprensa e se reuniu secretamente para discutir o abacaxi e ver que decisão tomar.

Foi uma longa discussão. Se no mensalão ainda se sentiam à vontade para apresentá-lo como vítima de calúnias, precisamente pelo que significava como líder do PT, desta vez não se atreveram a tanto; pior ainda, sequer mencionaram-lhe o nome na nota que, por força das circunstâncias, tiveram de redigir e entregar à imprensa.

Não diria que, por essa omissão, tenha a nota causado surpresa, já que todos sabíamos o quanto seria difícil para a direção do partido pronunciar-se sobre essa nova prisão de José Dirceu, em face das graves acusações, que sabia verdadeiras. A nota do PT, de fato, cumpre uma única função: dar a entender que o partido nada tem a ver com as falcatruas de seu ex-presidente e um de seus líderes mais importantes.

Ela não causou espanto, mas pegou mal. Como pegou mal o silêncio de Lula sobre a prisão e as acusações sofridas por seu companheiro de vida política e partidária, seu braço direito quando exercia a função de presidente da República, na condição de ministro da Casa Civil.

Que pode significar esse silêncio da parte de Lula, senão o propósito de evitar que a desgraça do companheiro o contamine?

Dilma tampouco tocou no assunto. É como se nada houvesse acontecido, embora ela seja presidente, chefe de um governo do mesmo partido a que pertence José Dirceu. Como ela se diz inimiga da corrupção, poderia até, quem sabe, pedir que o expulsem do PT. Mas a coerência não é o seu forte.

De qualquer modo, ignorar o que acontece com José Dirceu, se é lamentável, era previsível, uma vez que, a cada dia, o cerco aperta em consequência de novas delações –e o desprestígio do governo atinge índices assustadores.

Isso com apenas sete meses da nova gestão. E sem perspectiva de melhorar, uma vez que a situação econômica se agrava e o governo perde o apoio de seus próprios aliados, que começam a abandonar o barco, mesmo porque novos acusados aderem à delação premiada, como é o caso de Renato Duque, homem de ligação do PT com o esquema de propinas de Petrobras.

Acredita-se que ele trará à Lava Jato informações só comparáveis às trazidas por Paulo Roberto Costa, e envolvendo diretamente os governos petistas e seu partido. Se se soma isso à ampla rejeição popular ao governo Dilma, pode-se admitir que a história do PT, como partido governante, parece chegar ao fim.

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U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 18 / 08 / 2015

O Globo
"FH surpreende, sugere renúncia e revolta o PT"

‘O sentimento é que o governo é ilegítimo’, diz ex-presidente na internet

Petistas no Congresso atacaram declarações do tucano, que vinha adotando discurso conciliador; ministro pediu fim da intolerância nas manifestações de rua e otimismo aos brasileiros descontentes

No dia seguinte aos protestos contra o governo Dilma, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso surpreendeu ao abandonar o tom conciliador e sugerir, numa rede social, que a presidente renuncie ou admita seus erros como “gesto de grandeza”. FH disse que as manifestações revelam “o sentimento popular de que o governo, embora legal, é ilegítimo”. A afirmação revoltou petistas. “Será que ele está girando bem?”, questionou o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PTCE). O Planalto não comentou as declarações. Sobre as manifestações, o ministro Edinho Silva (Comunicação Social) pediu o fim da intolerância e otimismo. O PT, por sua vez, convocou a militância a participar de atos pró-governo nesta quinta-feira. 

Folha de S.Paulo
"Renúncia de Dilma seria um ‘gesto de grandeza’, diz FHC"

Para ex-presidente, manifestações demonstram que governo é ilegítimo; Planalto quer quebrar ‘clima de pessimismo’ no país

Um dia depois de manifestantes pedirem o impeachment de Dilma Rousseff, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) publicou texto em que afirma que a renúncia da petista poderia ser um gesto de “grandeza”. A declaração na internet foi avaliada como uma tentativa de unificar o discurso do partido e aproximá-lo do sentimento antigoverno. Após criticar acordo entre Planalto e senadores que atenuou a crise por ora, o ex-presidente se reuniu com o senador Aécio Neves e o governador Geraldo Alckmin. Ele pregou aos dois cotados à eleição de 2018 que defendam estratégias em comum contra Dilma. Em seguida, um aliado do mineiro sinalizou um recuo na defesa de novas eleições. O governo decidiu adotar tom cauteloso sobre os protestos ocorridos em ao menos 169 cidades. Para o ministro Edinho Silva (Comunicação Social), é preciso quebrar o “clima de pessimismo”. Manifestantes já planejam atos contra a petista no 7 de Setembro.

O Estado de S.Paulo
"Após protesto, PSDB eleva pressão por saída de Dilma"

FHC pede renúncia, Aloysio diz que partido votará por impeachment e Aécio fala em 'convergência'

Um dia depois de integrantes da cúpula tucana terem participado das manifestações contra a presidente Dilma Rousseff, líderes do PSDB aumentaram ontem a pressão. Numa rede social, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a renúncia de Dilma seria um gesto de "grandeza". No Senado, Aloysio Nunes Ferreira disse que o partido apoiará o impeachment se ele for pedido na Câmara. Para Aécio Neves, o PSDB agora está em "convergência" com a vontade expressa nas ruas. "Se a própria presidente não for capaz do gesto de grandeza -renúncia ou a voz franca de que errou e sabe apontar os caminhos da recuperação nacional -, assistiremos à desarticulação crescente do governo e do Congresso, a golpes de Lava Jato", escreveu FHC, que, para se proteger de acusações de "golpismo" por parte de petistas, disse que o governo Dilma, "embora legal, é ilegítimo" por ter perdido o apoio popular. O Planalto não se manifestou sobre as declarações.

segunda-feira, agosto 17, 2015

Dominique

Opinião

O grito dominical

Mesmo reconhecendo o desastre do projeto do PT, há os que ainda, sentimentalmente de esquerda, temem as mudanças

Fernando Gabeira
Hoje é domingo, dia de manifestação. Dia singular, pois podemos sair às ruas e dizer em alta voz o que queremos para o país. Digo singular porque o grito nas ruas nos libera do esforço, construindo mediações nas relações cotidianas. Outro dia, ia entrevistar um prefeito do PT no interior a propósito de algo muito positivo que acontece em sua cidade. No entanto, eu me vi planejando uma pergunta indispensável, com o máximo de diplomacia: “O que o senhor acha dessas coisas que acontecem com o PT?”

Entre amigos, às vezes, a discussão sobre política vai para a sobremesa. Mesmo reconhecendo o desastre do projeto do PT, há os que ainda, sentimentalmente de esquerda, temem as mudanças. Nesses casos, é possível uma abstração ainda maior, quando tocamos no tema:

— Está grave a crise.

— Gravíssima.

É um diálogo parecido com os ouvidos no interior:

— Compadre, vem chuva.

— Vem não, esse vento engana.

— Olha que vem, compadre.

A partir de um grito coletivo, como o de hoje, sem ferir a sensibilidade do outro, será mais fácil demonstrar que não é possível, nesse momento, deixar de considerar uma solução para a crise.

Sou pela saída de Dilma. Não tenho meta: impeachment ou renúncia. Mas quando chegar a essa meta, desejaria dobrá-la e levar também Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Essa frase de não ter meta e dobrá-la ao atingi-la me lembra o zen-budismo. Uma de formas de transmissão de seus ensinamentos é o koan, de um modo geral uma frase desconcertante: ouvir o batido da palma de uma só mão.

Dilma é uma mestre zen que tomou um porre de saquê. Uma boa razão para segui-la. Outro dia, em Mumbuca, no Jalapão, os fiéis saíram do culto na igreja local e comeram uma imensa bacia de mandioca. Logo depois, passei por uma casa em que a mulher raspava a mandioca e os filhos a molhavam e amassavam. Saudei os produtores de mandioca. Se saudasse apenas a própria, podiam não entender. Cumpri meu dever cívico.

Respeitosamente, portanto, analiso os caminhos da queda. O impeachment é algo feito nas instituições. É preciso alguém investigar as contas, tribunal julgar, advogados pra cá, advogados pra lá, enfim, algo que corre muito longe do alcance de um indivíduo. Só podemos vigiar e cobrar. Já a renúncia depende mais da sociedade, de suas formas de demonstrar que não quer ser governada por ela. Dilma tem 8% de aprovação. Existem duas maneiras de ver seu futuro. Ela pode se convencer do movimento declinante e, num gesto de grandeza, renunciar. Ou ela pode chegar a 1% de aprovação e também, num gesto de grandeza, renunciar, dizendo: “Nunca um presidente será tão impopular como eu”.

Ela terá de escolher entre entrar para a História ou para o “Guinness”. Isso não significa subestimar o caminho institucional do impeachment. Apenas fazer o que está ao alcance da sociedade. Dependem dela o ritmo e a intensidade da pressão sobre Dilma.

Dá uma certa ansiedade ver o Brasil sem rumo. Dilma mostra que ganhou o apoio da UNE e do MST. Agora vai. Fechada no gueto, promove atos cirurgicamente preparados para evitar protestos. Apenas uma forma de dizer que está viva. Os jornais falam que Renan Calheiros foi chamado a salvar Dilma. Mas quem salvará o salvador? Renan está implicado na Lava-Jato e ainda corre aquele processo em que empreiteiras pagavam a mesada de sua bela amante.

Essa dança de encontros em Brasília é, na verdade, um ritual vazio, destinado a jogar areia nos olhos da plateia. Todos sabem que a polícia está chegando e que a crise econômica não se debela com algumas medidas anotadas no guardanapo do bar. A mais recente aparição de Dilma foi em Roraima. Ela estava inaugurando casas. O discurso sobre a casa é mais patético que os outros porque faz sentido, é possível detectar alguma lógica nele.

Dilma evoluiu e já está em condições de escrever sua primeira composição infantil. Segundo ela, na casa mora a família, as pessoas comem, têm laços afetivos, amam suas crianças. Ela viajou tanto para fazer esse discurso espontâneo mas também para justificar o recado ensaiado sobre sua capacidade de resistir a pressões. Vestiu de novo a máscara da militante com vontade de ferro, uma reminiscência stalinista na esquerda armada latino-americana. Ela confunde o momento da ditadura com a aspiração popular de acabar com a roubalheira e retomar o curso de nossa vida republicana. Confunde panelaço com pau de arara, rejeição política com tortura.

Congelados num momento histórico de resistência, prosseguem na vida como se cada dia fosse uma oportunidade de mostrar heroísmo, coragem e coração valente. Um coração valente não dispensa uma cabeça pensante, sobretudo no momento de crise. Dilma já consegue escrever um parágrafo sobre a casa. Não consegue entender uma vírgula do processo histórico.

Compete a cada um de nós mostrar que esse sistema criminoso de governo chegou ao fim. O momento é de abrir a janela para o sol e o ar puro. Respirar de novo.

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U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira 17 / 08 / 2015

O Globo
"Dia de manifestações: Atos reúnem 879 mil, mas governo vê quadro estável"

Manifestantes foram às ruas em todos os estados e no Distrito Federal

Protestos pediram a saída de Dilma, apoiaram a Operação Lava-Jato e atacaram o PT e o ex-presidente Lula. Maior concentração foi em São Paulo, onde 350 mil estiveram na Avenida Paulista, segundo a PM

Novos protestos contra o governo Dilma e o PT reuniram ontem 879 mil pessoas em mais de 200 cidades, em todos os estados e no Distrito Federal, segundo cálculos oficiais. As manifestações foram maiores que as de 12 de abril e menores que as de 15 de março (quando 2,4 milhões foram às ruas), fato que causou alívio no Palácio do Planalto. Na avaliação do governo, embora significativos, os protestos não põem em risco a estabilidade política. Mais uma vez, São Paulo, onde 350 mil pessoas foram à Avenida Paulista, teve a maior participação. As queixas foram concentradas em Dilma, no PT e no ex-presidente Lula. Houve apoio maciço às investigações da Lava-Jato e ao juiz Sérgio Moro. No Rio, a PM não estimou o público na orla de Copacabana. O senador Aécio Neves (PSDB) participou do protesto em Belo Horizonte. 

Folha de S.Paulo
"Protestos mantêm pressão sobre Dilma; São Paulo reúne 135 mil"

Atos, que ocorreram em todos os Estados, pediam impeachment da presidente, prisão de Lula e elogiavam o juiz Moro.

Multidões contrárias à presidente Dilma Rousseff voltaram às ruas para protestar neste domingo (16).

Em São Paulo, 135 mil pessoas se reuniram na avenida Paulista, segundo o Datafolha. A concentração superou a de 12 de abril (100 mil), mas ficou aquém da de 15 de março (210 mil).

Houve atos em todos os Estados. De acordo com estimativas da Polícia Militar, eles atraíram 610 mil pessoas nas capitais, mais do que os 540 mil de abril.

Convocadas por grupos que se articulam nas redes sociais e não têm vínculos diretos com partidos, as manifestações tiveram como alvos principais Dilma, o ex-presidente Lula e o PT.

Já o juiz Sergio Moro. que determinou prisões na esteira da Operação Lava lato, foi tratado como ídolo.

Os atos mantêm a pressão sobre o Planalto num momento em que o governo tenta recuperar a iniciativa política e barrar pedidos de impeachment de Dilma.

Segundo o Datafolha. 85% dos manifestantes que foram à avenida Paulista querem que a presidente renuncie ao cargo e 82% defendem o impeachment.

Lideres da oposição participaram sem serem hostilizados como em atos anteriores. Em Belo Horizonte, o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), discursou num carro de som.

Para o governo, os protestos são expressão da “normalidade democrática”, disse o ministro Edinho Silva.

O Estado de S.Paulo
"Com líderes da oposição nas ruas, protestos focam impeachment"

Manifestações ocorrem em todos os Estados; Governo acende ‘sinal amarelo’ e vê imagem de Dilma colada ao desgaste do PT ; Aécio participa pela primeira vez; Manifestantes elogiam juiz Sérgio Moro; PM calcula que havia mais gente do que em abril.

Cerca de 800 mil pessoas saíram às ruas de todos os Estados brasileiros e do Distrito Federal para pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff, criticar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e atacar o Partido dos Trabalhadores por envolvimento no esquema de corrupção da Petrobrás. Segundo cálculos da Polícia Militar, houve mais gente protestando ontem do que em abril e menos do que em março. Os principais líderes da oposição aderiram à mobilização. O senador Aécio Neves participou pela primeira vez, em Belo Horizonte. José Serra esteve na Avenida Paulista. A Operação Lava Jato e o juiz Sérgio Moro receberam forte apoio. Os protestos acenderam o “sinal amarelo” no Palácio do Planalto. A avaliação é de que, desta vez, a imagem de Dilma ficou colada ao desgaste do PT e o PSDB conseguiu “partidarizar” os movimentos.

domingo, agosto 16, 2015

Dominique

Opinião

A legitimidade de Dilma

Estadão
Diálogo, para a presidente Dilma Rousseff e seus apoiadores, só vale quando é conversa entre amigos. Para o lulopetismo, as vozes discordantes, que questionam as ações do governo, nada mais são do que expressão de “golpismo” – contra o qual vale lutar inclusive empregando a violência.

Nos últimos dias, Dilma transformou o Palácio do Planalto, onde ela é inquilina passageira, em um bunker. É nessa fortaleza, protegida por líderes de movimentos sociais e organizações sindicais conhecidos por sua falta de vocação democrática, que a presidente pretende se apresentar ao País como vítima de uma conspiração para tirá-la do poder e demonstrar que está disposta a defender seu mandato “com unhas e dentes”, como declarou noutro dia.

Dilma tem sugerido sistematicamente, em todos os seus discursos mais recentes, que seus opositores não respeitam a escolha dos brasileiros nas urnas e agem para restabelecer a ditadura. “Este país é uma democracia. E uma democracia respeita, sobretudo, a eleição direta pelo voto popular”, disse a presidente. E ela acrescentou: “O voto é a fonte da minha legitimidade, e ninguém vai tirar essa legitimidade que o voto me deu”.

Trata-se de um entendimento indigente do que vem a ser o regime democrático em vigor no Brasil. Se Dilma foi eleita pelo voto popular, os parlamentares que lhe fazem oposição também o foram e, portanto, seus mandatos são tão legítimos quanto o dela. Também é legítimo o poder que emana da enorme parcela do povo que se cansou da irresponsabilidade de Dilma, Lula e companhia. Ademais, os que pretendem abreviar o mandato de Dilma em razão dos desmandos cometidos em seu governo ou em sua campanha eleitoral baseiam sua reivindicação em processos previstos expressamente pela Constituição. Por fim, mas não menos importante, as manifestações de rua que pedem a saída de Dilma da Presidência são igualmente legítimas, pois, na democracia que a presidente tanto proclama prezar, o direito ao protesto contra o poder constituído, desde que realizado de maneira pacífica, é cláusula inquestionável.

A legitimidade que Dilma invoca tão ardentemente para si é apenas um princípio. Para que se torne de fato legítimo, o chefe de governo deve comprovar que ganhou o mandato de forma limpa e deve exercer esse mandato de maneira responsável e em respeito irrestrito às leis. Esse conceito foi explicado recentemente pelo ministro João Otávio Noronha, relator de ações movidas no Tribunal Superior Eleitoral que acusam Dilma de abuso de poder econômico e político nas eleições de 2014. “A presidente diz: ‘Eu tenho a legitimidade do voto’. Não, ela tem a presunção da legitimidade do voto, que pode ser destituída por uma ação de investigação eleitoral ou impugnação”. Para Noronha, a legitimidade da presidente “não cai só nas pesquisas”; pode cair também “no mundo jurídico”.

Dilma, porém, tem um entendimento bem menos sofisticado do que é legitimidade democrática. Ela quer fazer acreditar que, por ter sido eleita pelo voto direto, está acima das instituições, e quem disso discordar deve ser tratado simplesmente como inimigo da democracia – personalizada na figura da presidente petista. Esse discurso autoritário foi prontamente adotado pelos movimentos sociais e sindicais com os quais Dilma escolheu “dialogar”, fechada em seu bunker no Planalto.

Lá, na linguagem belicosa muito apropriada a esse clima que Dilma e os lulopetistas criaram, não faltou quem ameaçasse, com todas as letras, partir para ações armadas contra os opositores da presidente. Diante de Dilma, em alto e bom som, o presidente da Central Única dos Trabalhadores, Vagner Freitas, avisou: “Recado para os golpistas: nós somos trabalhadores, trabalhamos pela democracia. O que se vende é a intolerância, o preconceito de classe contra nós. Somos defensores da unidade nacional. Isso implica ir para a rua entrincheirados, de armas na mão, e lutar se tentarem tirar a presidente”.

Se a presidente da República realmente tem apreço pela democracia, está disposta ao diálogo e quer ver reconhecida a legitimidade de seu mandato, deve tratar de acalmar os ânimos de sua tropa, baixar o tom e aceitar o fato de que o Estado não é ela.

Original aqui

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U.V.

Manchetes do dia

Domingo 16 / 08 / 2015

O Globo
"Classe C adia sonhos para manter padrão de vida’"

Mais afetadas pela crise, famílias deixam casa própria e faculdade para depois

Inflação e recessão podem levar a um retrocesso nos avanços sociais, afirmam especialistas

A recessão, a alta da inflação e o aperto do crédito estão levando a nova classe média a adiar sonhos para manter o padrão de vida, informam GLAUCE CAVALCANTI, MARCELLO CORRÊA e DOUGLAS MOTA. Na lista de cortes para ajustar o orçamento, o ingresso dos filhos na universidade, a compra da casa própria e até os planos de abrir um negócio ficam para depois. Para Marcelo Neri, ex-ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos e especialista no tema, “há sinais de que a classe média diminuiu”. Em entrevista a FLÁVIA OLIVEIRA, Neri pondera que dificilmente todas as conquistas da última década serão perdidas. 

Folha de S.Paulo
"Dilma encara atos em situação menos frágil"

Aproximação com o Senado e trunfos em tribunais trazem alívio à petista

A presidente Dilma Rousseff (PT), cujo governo tem reprovação recorde, enfrenta neste domingo (16) uma terceira onda de protestos no país. O clima político, no entanto, ficou mais favorável para a petista nos últimos dias. O Planalto avalia que o risco de impeachment está, por ora, mais longe.

Dilma ganhou fôlego em razão do novo prazo recebido para explicar ao TCU (Tribunal de Contas da União) possíveis irregularidades nas contas de 2014 e da suspensão da ação contra seu mandato no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Ela ainda se aproximou do Senado ao abraçar um pacote anticrise.

Os partidos de oposição, porém, prometem engrossar os protestos, marcados em mais de 250 cidades.

Os manifestantes optaram por fortalecer os atos no Nordeste, reduto do FT. Para os organizadores, se a adesão aumentar na região, o desgaste do governo ficará mais evidente.

Como estratégia de defesa, alem de viagens para o Nordeste e de encontros com movimentos sociais realizados na última semana, o PT aposta suas fichas na manifestação pró-Dilma convocada para quinta (20).

O Estado de S.Paulo
"Manifestações põem à prova fôlego político de Dilma"

Tamanho e alcance de protestos são vistos como determinantes por Planalto e adversários para futuro do governo

Com a crise política dando sinais de trégua, o governo avalia que as manifestações contra a presidente Dilma Rousseff, marcadas para hoje, serão menores que as de março e abril, mas nem por isso menos preocupantes. Embora as ameaças de impeachment tenham esfriado na semana passada, após ações do Planalto, Senado e até Judiciário, o temor é de que haja confronto nas ruas, causando clima de instabilidade. Movimentos que lideram protestos apostam, porém, numa subida de tom contra Dilma e PT e calculam que 251 cidades terão atos. O tamanho e o alcance das manifestações são vistos como determinantes por Planalto e adversários. Se forem um sucesso, podem fortalecer parlamentares pró-impeachment. Se forem fracos, o governo poderá tentar trocar a página da crise pela da “agenda positiva”, apesar da Operação Lava Jato. Levantamento revela que, embora redes sociais indiquem mobilização menor, a insatisfação com o governo é crescente e a popularidade de Dilma está muito baixa. 
 
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