sábado, julho 04, 2015

Dominique

Opinião

O PT cinza sobre cinza

Roberto Romano
Luiz Inácio da Silva retoma o vocábulo “utopia”, termo importante da cultura política. Ele a prescreve aos petistas como antídoto contra o poder abusivo e a caça venal de dinheiro ou cargos.

A palavra não foi aceita pelos que negam as teses de Saint-Simon, Proudhon e outros. Em vez dos sonhos, chegou a “ciência” do materialismo histórico e dialético, na cartilha de Stalin. Mas hereges do marxismo saíram da prisão intelectual e volitiva edificada pelo Kremlin. É o caso de Ernst Bloch no livro O Princípio Esperança (1938-1959).

Ao publicá-lo Bloch desafia o partido, é condenado como “reacionário” e sai da Alemanha comunista quando surge o Muro de Berlim. Na revisão do texto, em 1959, todos conhecem os crimes revelados por Nikita Khruchev. O combate ao realismo se transforma, em Bloch, na reflexão sobre a decadência do partido e a busca de nova esperança utópica. Mas, segundo G. Lukács, ao percebermos um desastre, nada podemos fazer, pois a consciência é posterior aos eventos. Lukács assume a versão conformista do enunciado hegeliano sobre a coruja, cujo voo ocorre no crepúsculo.

Com base na Doutrina das Cores elaborada por Goethe, Hegel enuncia o entardecer humano de modo poético, mas impiedoso: “Quando a filosofia pinta seu cinza sobre cinza, uma forma da vida envelheceu e ela não se deixa rejuvenescer com cinza sobre cinza, mas apenas conhecer. O pássaro de Minerva só levanta voo ao cair da noite”.
Além da Doutrina das Cores, Hegel recorda os versos do Fausto: “Cinza, amigo, é toda teoria/ Verde o arbusto áureo da vida”.

Mas por que recordar a filosofia e o lamento poético, ao ler a chã mensagem do ex-presidente ao seu partido? Não seria exagero gastar vela de libra com um organismo não só gasto, mas em dissolução? Vejamos o saber ético e filosófico, desprezado pelos maquiavéis nacionais de todas as cepas.

A lição de Hegel aplica-se ao PT: de nada servem mezinhas caseiras para dar vida nova a instituições peremptas. O próprio Estado brasileiro há muito tempo está no leito, à espera do traspasse. Corpo firmado no útero absolutista, o poder político nacional engorda a expensas da cidadania que sobrevive nos municípios. O inchaço das suas veias causou intervenções drásticas e tirânicas no século 20, a ditadura Vargas (que proclama Novo o antigo doente) e a de 1964 (a “Redentora”). Depois, as sangrias dos “planos econômicos” que nada mudam nas condições do corpo estatal.

Ao contrário: eles pioram as mazelas ao carrear mais banha para Brasília, coração do poder, o que gera novas hemorragias corruptas. 

Usar a utopia, como o faz Luiz Inácio da Silva, é pintar cinza sobre cinza. Pior: na versão hegeliana o espírito envelhecido chega à sapiência. Nos discursos de vários líderes petistas há uma dupla regressão: aumenta a decrepitude partidária, mas cresce o infantilismo lógico. Políticos quase senis usam técnicas da creche para justificar o injustificável. Quando há marotagem, nunca são eles os responsáveis, mas os irmãos ou colegas, os demais partidos. E quando não têm saída, gritam: “Aprendemos a molecagem com eles”.

Utópica, no Brasil, seria a esperança de mudar o sistema político. Em vez do império presidencial, a partilha dos poderes para levar a sério a autonomia dos entes subordinados, como define a Constituição de 1988. Em troca de impostos nas derramas, e seu envio direto para a Fazenda e o Planejamento, haveria a distribuição das verbas pelos Estados e municípios, sem o toma lá dá cá. Em vez da concentração intolerável que rege as políticas públicas, controladas pelo governo federal, a partilha das mesmas políticas pelas regiões, sem burocracias geradoras de atos corruptos. Contra os privilégios usufruídos pelos gestores dos três Poderes, o fim de cargos, veículos, motoristas, gasolina, moradias e demais benesses principescas. E, sobretudo, a democratização da sociedade em prol dos “negativamente privilegiados” (Max Weber), fechando-se a torneira para os que usam bens oficiais como sua propriedade e “doam” milhões para campanhas eleitorais.

Aí estão alguns itens da política utópica que renovaria o Partido dos Trabalhadores, dando-lhe alento para encarar a senectude. Mas em 12 anos de poder nenhum ponto da agenda foi tocado com vigor pela agremiação e por suas lideranças, a começar com a mais elevada. Ao contrário. Em nome da “governabilidade” foram mantidas no Planalto e nos Estados pessoas e políticas senescentes que serviram a ditaduras, como é o caso de Paulo Maluf e José Sarney – “homem incomum”, segundo Luiz Inácio da Silva.

O símbolo da prudência no Renascimento é uma figura de três rostos, o idoso, o adulto, a criança. As três faces da cronologia devem ser dominadas para garantir eficácia à ação. Tal é a doutrina grega do Kairós, ativado pelos conhecedores do pretérito e do presente, para antecipar o futuro. É o mesmo princípio romano do carpe diem, dádiva efêmera da beleza, do poder, dos bens materiais que, por definição, somem na voragem das horas. É preciso saber capturá-los, não os deixando escapar pelos dedos. Semelhante filosofia alimenta Maquiavel. Sem ela os supostos realistas perdem na luta com a Fortuna. A virtù é aptidão de liderar com rigor lógico e coragem, coisas ignoradas pelos que subiram na vida ludibriando militantes, no esbulho da utopia democrática.

Hobbes e Diderot comentam a fábula do rei Éson. Suas filhas desejavam restituir o vigor ao soberano e deceparam seu corpo. Depois, puseram os fragmentos num caldeirão, a conselho de Medeia. Não houve rejuvenescimento, só morte.

Caros senhores: se desejam mudar o que está aí, é preciso tudo recomeçar. Uma “nova” frente de esquerda sob a liderança de Luiz Inácio da Silva é tingir o cinza com o cinza, sofrer o controle do PMDB e as alianças realistas, as mesmas que levaram o PT ao beco sórdido em que ele se encontra.

*Roberto Romano é professor da Unicamp e autor de ‘Razão de Estado e Outros Estados da Razão’ (Perspectiva)

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U.V.

Manchetes do dia

Sábado 4 / 07 / 2015

O Globo
"Grécia, dividida, decide seu futuro"

Referendo pode definir permanência do país no euro

Manifestantes tomam ruas de Atenas, às vésperas da consulta. Pesquisa mostra empate entre ‘sim ’ e ‘não’ às exigências da UE. Bancos podem ficar sem dinheiro

Às vésperas do referendo de amanhã, quando a Grécia decidirá se aceita ou não as medidas de austeridade pedidas pela União Europeia para liberar um socorro ao país, milhares de manifestantes tom aram as ruas de Atenas . Os protestos pelo “sim” e pelo “não” reuniram praticamente o mesmo número de pessoas, cerca de 20 mil cada, e mostraram o racha no país. Pesquisa constatou empate técnico nas intenções de voto. Se o “não” ganhar e a Grécia não conseguir renovar o acordo com a UE, o país pode ser forçado a sair do euro. Desde segunda, os gregos só podem sacar € 60 por dia. Mesmo assim, não se sabe se os bancos terão dinheiro suficiente no fim de semana.

Folha de S.Paulo
"Dilma dá a Temer mais poder para negociar cargos"

Objetivo da presidente é conter insatisfação do partido do vice, o PMDB, que ameaça romper com o governo

A presidente Dilma Rousseff (PT) deu ao vice Michel Temer (PMDB), seu articulador político, carta branca para cobrar de ministros o cumprimento de acordos de liberação de verbas de emendas parlamentares e nomeações para cargos. O objetivo da presidente é conter as ameaças do partido aliado de romper com o governo e retomar a eficácia da articulação política. Temer, que é presidente do PMDB, relatou a Dilma que um dos principais motivos das derrotas do governo no Congresso é que os acordos não estão sendo cumpridos no tempo demandado pelos parlamentares. Nos bastidores, o discurso é que o vice vai esperar até agosto para decidir o seu futuro no comando da articulação caso as demandas não sejam atendidas. Temer fará reunião na segunda (6) com a equipe econômica para fechar a liberação de R$ 5 bilhões para as emendas. No discurso, dirá que é mais barato liberar os recursos e evitar derrotas em votações estratégicas. Em São Paulo, o ex-presidente Lula afirmou que o governo tem de conversar com a população. Para ele, Dilma precisa “encostar a cabeça no ombro do povo”.

O Estado de S.Paulo
"Juiz diz não prender para forçar delação"

Sérgio Moro rebate afirmações de que estaria prejulgando acusados e politizando ações judiciais

Em meio a uma etapa crucial da investigação da Lava Jato, que culminou com a prisão do presidente do Grupo Odebrecht, o juiz Sérgio Moro fez a mais enfática defesa da operação. No despacho em que decretou a prisão preventiva do ex-diretor de Internacional da Petrobras, Jorge Zelada, Moro rebateu a tese de que estaria prendendo réus para forçar delações: " Jamais este Juízo pretendeu com a medida obter confissões involuntárias". Segundo Moro, suas decisões são tomadas com base em provas.

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sexta-feira, julho 03, 2015

DC-3 Cockpit


Coluna do Celsinho

Refletir, avançar

Celso de Almeida Jr.

Férias escolares.

Em nosso caso, 30 dias sem alunos e professores.

Direção, secretaria e manutenção mantêm o ritmo.

Passará rápido.

Época de pintar a escola, promover pequenas reformas, preparar o retorno para a garotada.

Planejar, também, mais procedimentos de recuperação para os alunos que não tiveram bom desempenho no primeiro semestre.

É fantástico o mundo da educação.

Um eterno desejo de oferecer o que há de melhor para os estudantes.

Criar um ambiente solidário.

Envolver as famílias.

Garantir bons exemplos.

Neste sentido, o período de férias serve como um momento especial para reflexão.

O que caminhou bem?

O que precisa ser melhorado?

Como avançar?

Vivemos novos tempos.

As mudanças ocorrem em altíssima velocidade.

Os jovens já estão no século 21.

E nós, pais e professores, em que época estamos?

Nossa linguagem, nossos métodos, são eficientes?

Estamos nos preparando, continuamente, permanentemente, para os novos desafios?

Refiro-me a todos nós, escola e famílias.

Estimulamos o pensamento?

Estudamos novos procedimentos, praticados no Brasil e no exterior?

Pois é...

Escola é isso!

Ambiente de reflexão e avanços.

Espaço para práticas inovadoras e responsáveis.

Atitudes que proporcionem a melhor infância, a melhor adolescência.

Consolidar o alicerce para homens e mulheres livres, pensantes, atuantes, felizes.

Acreditando nisso, desejo as melhores férias aos estudantes e aos profissionais da educação.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Morane-Saulnier MS760 Paris


Pitacos do Zé

Bem distante daqui

José Ronaldo Santos
Justin Marozzi, em seu livro Bagdá – Cidade de Paz, Cidade de Sangue, assim descreve uma análise dessa importante cidade iraquiana ao longo de sua história. Vale o esforço em ler e tirar lições para a nossa realidade tão próxima e atual, sobretudo nas áreas cultural e ambiental que não estão nem aí para as riquezas que se esvaem descaradamente em benefício de poucas pessoas. 

Alguns historiadores sugerem que a natureza tumultuosa da sociedade de Bagdá, incluindo a incansável sucessão de revoltas e rebeliões que aflige a cidade há séculos, pode ser parcialmente explicada pela colisão fundamental de culturas entre a população urbana e tribos nômades predatórias que a cercavam. [...]

O urbanismo foi dominado pela influência forçada das tribos nômades que mudaram radicalmente o tecido social da cidade, injetando seus princípios rudimentares e sua moral na sociedade bagdali. As tribos mantiveram seus costumes grosseiros, nunca os modificaram. Elas cercavam a cidade há tempos, olhando com olhos gananciosos, desejando uma oportunidade de saquear e queimar a modernidade da gloriosa Cidade da Paz. Com o tempo, o cidadão comum de Bagdá desenvolveu uma cultura dupla: uma parte que representava o sofisticado citadino e outra que emulava os hábitos nômades e tribais, com vingança, saques, destruição de propriedade pública e outras práticas indescritíveis.

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Dominique

Opinião

Quem pagará o enterro e as flores?

Gabeira
No momento em que escrevo, começo uma jornada pela Amazônia oriental. Entro numa área de pobre conexão, mas ao sair dela, creio, ainda estaremos no mesmo estado de crise.

O cerco contra o governo cada vez aperta mais. O esperado depoimento de Ricardo Pessoa, o homem da UTC, envolve diretamente tesoureiros e campanhas de Lula e Dilma. Em Minas, o governador Fernando Pimentel está sendo investigado pela Polícia Federal (PF) com autorização do Superior Tribunal de Justiça.

Dentro da cadeia, o cerco se fecha também contra os empreiteiros. A força-tarefa de procuradores apurou apenas 25% dos casos de corrupção. A presença de grandes empresários na cadeia traz à cena alguns dos melhores escritórios de advocacia do País. Nesses casos – infelizmente, apenas nesses – o respeito aos direitos humanos é minuciosamente monitorado.

Só com os dados divulgados nem sempre é possível fazer uma análise precisa. O bilhete de Marcelo Odebrecht, por exemplo, foi tema de discussão. No bilhete, apreendido pela PF, ele manda destruir um e-mail. A defesa de Odebrecht diz que ele usou o termo destruir num sentido figurado. Queria dizer desconstruir, combater os argumentos associados a um negócio de sondas, com sobrepreço.

Só tenho meus recursos próprios para avaliar um caso desses. Pelo que conheço de cadeia, os presos, de fato, usam linguagem cifrada para evitar que a polícia descubra o conteúdo de seus bilhetes: Arnaldo, não se esqueça do remédio das crianças menores; Maria, pegue o meu guarda-chuva e empreste ao Adriano. Na cadeia, a linguagem figurada não é usada apenas para que a polícia não perceba o conteúdo, mas também para que a polícia não possa provar que você falou algo diferente do que está ali, no papel.

Prisioneiros usam metáforas para escapar do crivo policial. Marcelo Odebrecht usou para se incriminar. Inexperiência? De modo geral, um empresário como ele tentaria ser objetivo. Ele sabe que um simples bilhete de cadeia tem de ser preciso. Poderia ter escrito desconstruir, combater, no lugar de destruir.

Vamo-nos ater aos verbos construir e desconstruir. A desconstrução de um argumento, de modo geral, é um processo longo e diversificado. Neste caso, não haveria tanta urgência: era tema para tratar nas conversas regulares com os advogados. O verbo destruir implica uma certa pressa e cabe precisamente num bilhete, num comunicado que não possa esperar visitas legais e regulares de seus defensores. Os advogados de Odebrecht afirmam que não mandaria destruir o e-mail sobre compra de sondas porque já era conhecido da polícia. Argumento forte: de que adianta destruir algo que a polícia já conhece e utiliza? Mas não era só um e-mail, vários foram escritos pelo mesmo diretor. Agora a Braskem já entregou todos os e-mails e a operação foi auditada por uma firma independente.

Novas batalhas estão em curso. Uma delas é sobre o sentido da palavra sobrepreço. Nós a entendemos como superfaturamento. Eles dizem que é um termo comum no mercado, com sentido diferente.

A liberdade de Marcelo Odebrecht depende de uma profunda simpatia da Justiça por seus argumentos. Para conceder habeas corpus será preciso deixar de lado o que está escrito e acreditar só no que ele queria dizer.

Um jornalista que escreve que o governo afundou na corrupção, diante dos juízes não pode alegar que o governo apenas tropeçou ou resvalou na corrupção. Afundou mesmo.

Teremos um longo período de governo sitiado. As peripécias jurídico-policiais serão emocionantes, mas inibem um pouco a discussão sobre alternativas. Tanto a PF quanto o Ministério Público (MP) já devem ter ideia do extenso trabalho que têm pela frente. A usina de Belo Monte, por exemplo, não tinha entrado na história da corrupção. Agora já entrou. Os estádios construídos pelas empreiteiras para a Copa do Mundo também passam por dificuldades e a história de sua construção ainda não é de todo conhecida.

Os empreiteiros estão ressentidos com o governo porque não impediu a ação da PF e do MP. Mas como, se o governo está cercado e se comporta como num avião em queda: primeiro ajusta a máscara de oxigênio em si próprio, depois vai pensar em cuidar do outro.

Lula não poderá dizer que ignora o que se passou na Petrobrás ou não conhece nem trabalhou com a Odebrecht. Dilma, por sua vez, já se complicou com as pedaladas no Orçamento e dificilmente conseguirá explicar-se. Além disso, com as declarações de Pessoa, terá de explicar, juntamente com seu ministro Edinho Silva, onde foram parar os R$ 7,5 milhões da UTC injetados no caixa 2 de sua campanha. Tudo isso já era esperado. Ricardo Pessoa fez várias referências na cadeia, indicando o rumo de sua delação premiada. Com tantos escândalos, quase esquecemos dessa variável. No fim de semana, ela apareceu com toda a força.

As complicações de Fernando Pimentel também eram pressentidas, desde 2014, quando o empresário Bené foi preso com dinheiro no avião. A sensação que tivemos no momento eleitoral foi de abafa. Mas também aí o fio foi sendo puxado. O caso implica a mulher de Pimentel. Jornalista, ela recebeu de outro jornalista, Mario Rosa, mais de R$ 2 milhões por seu trabalho. Deve ser extremamente talentosa. Um jornalista mediano rala dez anos para chegar a essa soma, e muitos não chegam lá.

Estamos assistindo a cenas finais dessa luta da Justiça contra o partido político que domina o País ao lado de seu parceiro, o PMDB. Não me parece tão produtivo falar mal de um governo e um partido cercados pela polícia.

Dilma faz saudações à mandioca, como se o ridículo fosse o mais leve fardo que pudesse carregar. Lula esbraveja contra o PT, como se fosse um observador de outro planeta. Vai chegar o momento de discutir o País e alternativas diante da crise. Está demorando. O minuto de silêncio pelo funeral do PT se estende além da conta. Já sabemos quem pagará o enterro e as flores. Arruinado, o Brasil precisa recomeçar.

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U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 3 / 07 / 2015

O Globo
"Cinco delatores já disseram que doação oficial era propina"

Cruzamento dos depoimentos confirma pontos-chave da investigação

Oito dos investigados afirmam que o ex-tesoureiro do PT João Vaccari pedia dinheiro em troca de contratos na Petrobras. Delação premiada foi criticada por Dilma e por advogados de suspeitos de irregularidades

Cruzamento feito pelo GLOBO no conteúdo dos 18 acordos de delação premiada feitos até agora pela Lava Jato revela que, se analisados conjuntamente, os depoimentos confirmam pontos estratégicos da investigação. Ao menos cinco delatores afirmam, por exemplo, que o pagamento de propina era feito por meio de doações eleitorais registradas, uma das principais descobertas dos procuradores, informa RENATO ONOFRE. Oito depoimentos relatam que o ex-tesoureiro do PT João Vaccari pedia dinheiro em troca de contratos da Petrobras. O levantamento também aponta contradições entre os delatores. O instrumento, atacado pelas defesas, foi criticado esta semana pela presidente Dilma.

Folha de S.Paulo
"Doleiro lança nova suspeita sobre o comitê de Dilma"

Youssef diz ter sido procurado por emissário da campanha para obter R$ 20 mi no exterior; ex-tesoureiro contesta versão

Alberto Youssef disse à Justiça Eleitoral que foi procurado por emissário da campanha à reeleição de Dilma Rousseff no início de 2014 para trazer ao Brasil cerca de R$ 20 milhões do exterior , relatam Andréia Sadi e Gabriel Mascarenhas. O doleiro, delator na operação que apura corrupção na Petrobras, afirmou que o negócio não foi finalizado. O depoimento com a informação ocorreu no dia 9 do mês passado, em Curitiba, onde Youssef, pivô na Lava Jato por operar contas dos envolvidos, está preso. O doleiro disse que uma pessoa chamada Felipe o procurou para “trazer dinheiro de fora” para ajudar na reeleição de Dilma. “Aí aconteceu a questão da prisão, e eu nunca mais o vi.’’ Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma e hoje ministro da Comunicação Social, afirmou que o depoimento mostra que Youssef “nunca manteve contato” com o comitê de candidatura. “Só eu tinha autorização para estabelecer contatos e efetuar arrecadação.”

O Estado de S.Paulo
"Lava Jato causou perda de R$ 19 bi, aponta PF"

Corrupção pode ter chegado a 20% do valor dos contratos com a Petrobras; delatores falaram em 3%

A Polícia Federal reuniu elementos para apontar que o prejuízo gerado para a Petrobras pelo esquema de cartel, fraudes em licitações, desvios e corrupção investigados pela Operação Lava Jato pode chegar a 20% do valor dos contratos. Delatores confessaram 3%. Segundo a PF, o rombo no caixa da estatal já chega a R$ 19 bilhões. O delegado Igor Romário de Paula afirmou que essa coleta de elementos "pode levar um prejuízo à Petrobras em seus contratos da ordem de 15% a 20%.

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quinta-feira, julho 02, 2015

Dominique

Opinião

A catástrofe já estava aí

Estadão
Mais um recorde negativo foi batido pela presidente Dilma Rousseff, quando seu governo foi classificado como ruim ou péssimo por 68% dos entrevistados na pesquisa Ibope, divulgada ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Foi a pior avaliação registrada na série iniciada há 29 anos. O levantamento foi realizado entre 18 e 21 de junho. A má opinião sobre o governo pode parecer natural e muito compreensível, num cenário de inflação próxima de 9%, desemprego de 8%, juros muito altos, inadimplência e perspectiva de piora em quase todos os setores de atividade.

Mas há pelo menos um ponto muito discutível – de fato, um equívoco – nos pontos de vista coletados pelos pesquisadores. Segundo 82% dos entrevistados, o segundo mandato da presidente está sendo pior que o primeiro. Em março, na sondagem anterior, 76% dos consultados haviam dado essa resposta. Mas o segundo mandato mal começou e nenhum dos grandes problemas da economia, hoje evidentes para todos, foi gerado nos últimos seis meses.

Recessão, desemprego, inflação disparada, juros muito acima dos padrões internacionais e contas públicas arrebentadas – tudo isso é consequência dos erros e desmandos cometidos no primeiro governo da presidente Dilma Rousseff. Alguns desses problemas foram de fato gestados nos quatro anos finais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando as condições fiscais começaram a deteriorar-se, a promiscuidade entre o Tesouro e os bancos federais se tornou rotineira e a distribuição de benefícios a setores e a grupos selecionados foi impingida como política industrial.

Também no governo Lula começou a devastação da Petrobrás, forçada a realizar investimentos errados e custosos, loteada politicamente, sujeita a um controle absurdo de preços e exposta à corrupção. Forçada a reduzir suas ambições e a encolher, a Petrobrás anunciou nesta semana seu plano de negócios para 2015-2019, com redução de 37% nos investimentos programados. A degradação da maior empresa brasileira é obra dos presidentes Lula e Dilma, o que já era evidente, para quem se dispunha a enxergar, antes da eleição presidencial de outubro. Não é obra do atual mandato.

A devastação das contas públicas acelerou-se nos últimos quatro anos, com a persistente piora dos balanços fiscais, a maquiagem cada vez mais audaciosa dos números e a multiplicação das pedaladas. Há mais de um ano a contabilidade criativa adotada pelo ex-secretário do Tesouro Arno Augustin, com a aprovação do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e da presidente Dilma Rousseff, já era conhecida e comentada no mercado financeiro internacional. Não viu quem não quis ou quem nunca se preocupou em informar-se da condição real da economia de seu país.

A pesquisa Ibope mostra muita insatisfação com a política de juros, como se essa política tivesse nascido por decisão arbitrária ou capricho de alguns burocratas do Banco Central. Mas os juros básicos chegaram a 13,75% – e ainda poderão subir – por causa de uma inflação desatada e muito acima dos padrões internacionais.

Essa inflação resultou da gastança, do manejo irresponsável das contas públicas e de um evidente populismo nas políticas de crédito e de reajuste do salário mínimo. Muitos brasileiros podem ter acreditado na capacidade do governo de manter a distribuição de benefícios e de favores por tempo indeterminado, mesmo sem cuidar do aumento da capacidade produtiva. Empresários também se beneficiaram da distribuição de favores e de um protecionismo anacrônico, sem cuidar de investir e de se preparar para competir, produzir mais e criar mais oportunidades de trabalho.

Mas quem se dispunha a investir também deixou de fazê-lo por falta de confiança na política econômica. A fabricação e a importação de máquinas caíram nos últimos anos, em mais uma comprovação do desastre armado pelos erros e desmandos do governo.

Nenhum dos males econômicos vividos hoje no País é obra do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Todos são desdobramentos de irresponsabilidades cometidas durante anos e muitas vezes aplaudidas por quem hoje se queixa.

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 2 / 07 / 2015

O Globo
"Manobra de Cunha pode parar no Supremo"

Depois de rejeitar , Câmara volta a discutir redução da idade penal

Presidente da Casa obtém apoio para votar, mas enfrenta forte reação de deputados contrários à proposta e que ameaçam recorrer ao STF

Menos de 24 horas após a Câmara rejeitar a proposta de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos de idade em casos de crimes hediondos e delitos graves, uma manobra do presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), levou deputados a discutirem no plenário nova versão do projeto, desta vez mais branda, excluindo menores condenados por tráfico e roubo qualificado. A iniciativa de Cunha provocou troca de acusações entre o peemedebista e deputados contrários à proposta, que ameaçam levar o caso ao STF. Em sessão tensa, com pesados ataques a Cunha, eles alegaram que outra proposta sobre o mesmo tema deveria cumprir novamente todas as etapas de tramitação. Na madrugada anterior, a redução em casos de crimes hediondos fora rejeitada apesar de ter obtido 303 votos favoráveis, cinco a menos do que o necessário.

Folha de S.Paulo
"Petrobras admite nova alta da gasolina em 2015"

Aldemir Bendine afirma que estatal tem independência na política de preços

O presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, 51, admite novo reajuste no preço da gasolina ainda em 201 5. “Não dá para garantir que não haverá”, afirma em entrevista a Natuza Nery. O executivo, porém, não vê necessidade de aumento neste momento. Em relação à interferência do Palácio do Planalto contra reajustes nos combustíveis, Bendine diz que a empresa tem independência na sua política de preços e assim será. “Não nos sujeitamos nem a um [mercado] nem a outro [governo].” Criticado pela antecessora Graça Foster por não entender do setor de óleo e gás, o executivo rebate: “E você acha que o problema da Petrobras é de petróleo?”. Ele nega que a geração de caixa da companhia esteja ruim. “Está equilibrada.” No cargo desde fevereiro, o presidente da estatal descarta a venda de ativos do pré-sal e condena mudanças no regime de partilha, em discussão no Senado. Ele defende solução intermediária que preserve o interesse do Estado.

O Estado de S.Paulo
"Dilma classifica de 'insustentável' reajuste do Judiciário"

Nelson Barbosa (Planejamento) diz que aumento aprovado pelo Senado será vetado

A presidente Dilma Rousseff chamou ontem de "lamentável" e "insustentável" o projeto que concede reajuste de até 78% a servidores do Judiciário, aprovado na noite de terça-feira pelo Senado, e disse que a medida compromete o ajuste fiscal. O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, informou que o governo vetará a proposta. "Nós achamos lamentável, porque é insustentável em um país como o nosso, em qualquer circunstância, dar níveis de aumento tão elevados", disse a presidente, em viagem aos EUA.

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quarta-feira, julho 01, 2015

Dominique

Opinião

Dilma e o Febeapá

Estadão
Dilma Rousseff não é bem articulada, intelectual e verbalmente, como evidenciam os despautérios com que contribui para o Festival de Besteiras que Assola o País, o famoso Febeapá, criação de Stanislaw Ponte Preta. Recentemente ela homenageou a mandioca como “uma grande conquista” brasileira e descobriu que não existe apenas o homo sapiens, mas também as mulheres sapiens. Agora resolveu prestigiar a omertà, a lei do silêncio imposta no mundo do crime pela Cosa Nostra, proclamando ao mundo, durante sua viagem aos Estados Unidos: “Não respeito delator”. E ainda meteu Tiradentes na história, fazendo uma enorme confusão entre a Inconfidência Mineira e a ditadura militar de 1964.

A presidente da República deve estar sofrendo enorme estresse por conta da crise política, econômica e social em que sua própria incompetência mergulhou o País. Não há outra explicação para que tivesse espontaneamente contaminado a “agenda positiva” criada com todo o cuidado para sua visita a Barack Obama, apenas para extravasar a irritação que obviamente lhe causou a divulgação do depoimento do empreiteiro Ricardo Pessoa, que contou à Polícia Federal (PF) ter sido coagido a fazer uma doação de US$ 7,5 milhões para a campanha eleitoral dela em 2014.

O desabafo de Dilma Rousseff em Nova York foi patético: “Eu não respeito delator. Até porque eu estive presa na ditadura e sei como é que é. Tentaram me transformar numa delatora. A ditadura fazia isso com as pessoas presas”. O que é que a tortura que a ditadura “fazia com as pessoas” tem a ver com a delação premiada, um recurso universalmente aceito nas investigações judiciais para ajudar a apurar responsabilidades delituosas? O delator é, por definição, um criminoso confesso, e é por isso que deve ser condenado, e não por se prestar a entregar seus cúmplices à Justiça em troca do abrandamento da condenação que inevitavelmente lhe será imposta.

A presidente da República não teve também o menor constrangimento de apelar para o argumento de que “se ele fez eu também posso” – uma especialidade dos petistas – ao se defender das acusações de Pessoa alegando que seu adversário no pleito do ano passado, Aécio Neves, também recebeu doações de empresas. Em resposta, o senador tucano contra-atacou: “A presidente chega ao acinte de comparar uma delação feita dentro das regras de um sistema democrático, para denunciar criminosos que assaltaram os cofres públicos, com a pressão que ela sofreu durante a ditadura para delatar seus companheiros de luta pela democracia. Não será com a velha tentativa de comparar o incomparável que a senhora presidente vai minimizar sua responsabilidade em relação a tudo o que tem vindo à tona na Operação Lava Jato”.

Enquanto isso, cada vez mais determinado a demonstrar quem é que manda de verdade no partido do governo e salvar a própria pele, o ex-presidente Lula foi a Brasília para enquadrar senadores e deputados do PT na estratégia de “enfrentamento” da oposição e para dar a “volta por cima” na situação “preocupante” em que as repercussões da Lava Jato têm deixado o partido. Lula não falou com os jornalistas, mas um dos participantes da reunião, o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), insistiu numa tese que o ex-presidente passou a defender, relativa ao “vazamento seletivo” das delações premiadas, principalmente a que foi feita por Ricardo Pessoa. Para Lula, esses vazamentos têm o intuito deliberado de prejudicar o PT. E um dos responsáveis por isso, na opinião de Lula, é o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que “perdeu o controle” sobre a Polícia Federal. Por isso, o ex-presidente tem pressionado o PT a tomar satisfações de Cardozo.

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U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 1 / 07 / 2015

O Globo
"Lobista diz que dinheiro dado a Dirceu era propina"

Revelação foi feita por Milton Pascowitch ao negociar delação premiada

Operador pagou R$ 1,45 milhão ao petista, que nega a acusação

Nas negociações do acordo de delação premiada com procuradores da Lava-Jato, o lobista Milton Pascowitch disse que o dinheiro repassado por sua empresa ao ex-ministro José Dirceu (PT) era pagamento de propina, e não por consultoria, revela JAILTON DE CARVALHO. Ao fechar o acordo, Pascowitch, apontado como operador da empreiteira Engevix na Petrobras, comprometeu-se a detalhar os pagamentos em depoimento. A empresa do lobista repassou R$ 1,45 milhão a Dirceu, além de pagar parte da sede da consultoria do petista. A defesa do ex-ministro nega ter recebido propina e diz que não teria como oferecer vantagem à Engevix. 

Folha de S.Paulo
"Novo delator diz ter pago propina para José Dirceu"

Segundo Pascowitch, ex-ministro era espécie de ‘padrinho’ da Engevix na Petrobras

O lobista Milton Pascowitch, o mais novo delator da Lava Jato, admitiu que intermediou o pagamento de propina para o ex-ministro José Dirceu e para o PT para garantir contratos da empreiteira Engevix com a Petrobras, informam Flávio Ferreira e Graciliano Rocha. Segundo o depoimento de Pascowitch a procuradores no âmbito do acordo de delação premiada, Dirceu teria se tornado uma espécie de “padrinho” dos interesses da empreiteira na estatal e passou a receber pagamentos e favores, como a reforma de um de seus imóveis. Os pagamentos da Engevix ao ex-ministro eram feitos por meio de contratos com a empresa dele JD Consultoria. Entre 2008 e 2011, a empreiteira repassou à firma do petista R$ 1,1 milhão. Pascowitch disse que Dirceu recebeu mesmo depois que interrompeu a atividade. Segundo o delator, os valores dos sobrepreços nos contratos com a Petrobras eram transferidos para o ex-diretor Renato Duque, que os repassava ao PT. A defesa de Dirceu afirma que não houve ilegalidade. Procurado, o partido não se pronunciou.

O Estado de S.Paulo
"Dilma defende ministros citados em delação"

Ao se referir a Edinho Silva e Aloizio Mercadante, presidente afirma que 'não demite pela imprensa'

Em viagem a Washington, a presidente Dilma Rousseff defendeu seus ministros citados na delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC. Questionada se demitirá ou não Edinho Silva (Comunicação Social) e Aloizio Mercadante (Casa Civil), ela rechaçou as acusações. "Eu não demiti ministro ou aceitei ministro nomeado pela imprensa", disse, acrescentando que vai "aguardar toda a divulgação dos fatos para avaliar a situação" dos auxiliares. Dilma afirmou que o governo "não teve acesso aos autos" e que os ministros "não sabem do que são acusados". Por isso, "não têm como se defender". E, em tom de desabafo, afirmou: "Isso é um tanto quanto Idade Média. Não é isso que se pratica hoje no Brasil".

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terça-feira, junho 30, 2015

Dominique

Crônica

Alguém tem que tomar uma atitude

Antonio Prata
É inacreditável que no ano da graça de 2015, depois de havermos tocado a face da lua e o fundo dos mares, a Nona de Beethoven e o Marin pra correr, ainda não tenhamos encontrado uma maneira melhor de fechar roupas de bebê do que esses 134 botõezinhos metálicos que as serpenteiam da gola ao dedão do pé, ora pela frente, ora por trás –ora pela frente E por trás– com traçados mais mirabolantes que os caminhos do Waze na hora do rush.

Quatro e dezessete da madrugada, o bebê urra, você aperta, em vão, o trigésimo sétimo botãozinho do pijama. O botãozinho não fecha. Você inclina o corpo para que a lanterna no seu sovaco ilumine melhor a cena –com o cuidado de não jogar o facho nos olhos do seu filho, já por demais assoberbados diante da sua trevosa incompetência– e, sob a luz tíbia das alcalinas insones, você descobre que os dois botões são iguais. São dois botões com furinho. Onde está, então, o botão com pininho?

Lembre-se, são 4h17. O bebê urra. Você não está de férias. Você tem um emprego no qual costumava ser competente. Você tem prazos que costumava cumprir. Você tem uma mulher com a qual costumava fazer sexo. Você tem sonhos que costumava perseguir. Você não queria estar com uma lanterna no sovaco, procurando, no escuro, um pininho metálico. Mas você está, porque milhões de anos de seleção natural te programaram para agir assim, porque seus genes falam mais alto –e mais alto ainda falou sua mulher, meia hora atrás: "Eu também trabalho amanhã! Eu já fui às onze e à uma e meia! Nem vem!".

Você acha, enfim, o botão com pininho. Está atachado do outro lado da roupa, um botão acima, ou seja, todos os 36 botões anteriores foram fechados errado, ou seja, você terá que voltar 36 casas neste complexo jogo de tabuleiro chamado neném.

Eu me pergunto, enquanto vou abrindo os botões e fechando a cara: o que houve com o velcro? Por que o velcro não trilhou o futuro brilhante que, lá por 83, imaginamos para ele? Lembro de, aos seis anos, festejá-lo como um salto evolutivo irrevogável. Por que alguém se submeteria, depois dele, ao suplício medieval de amarrar cadarços? O velcro substituiria não só os cordões dos nossos tênis, mas os fechos das roupas, as alças das bolsas, os cintos de segurança. O velcro, porém, não dominou o mundo. Foi como aquela mochila voadora na abertura dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 84, uma falsa esperança, de modo que aqui estamos, agora, penando pra fechar essa roupa, andando com as próprias pernas.

Veja: eu tenho um celular que faz filmes. Uma máquina que faz pão. Uma escova de dentes que parece uma nave do Star Trek. Em vários momentos do meu dia, me sinto em 2074. Basta meus filhos fazerem cocô, porém, e volto a 1352.

Eu apoiaria um deputado que levantasse a bandeira: "Por uma revolução no vestuário neonatal! Por um choque de lógica no pijama de pezinho!". Não, um deputado, não, tem que ser um esforço internacional, tipo um Plano Marshall, pois com o Congresso atual é capaz de a roupinha acabar sendo aprovada com 1.786 botões (superfaturados), onze cadarços, seis zíperes, uma cruz na gola, e, se bobear, umas algeminhas para os bebês que chorarem depois das oito.

É duro, meu filho, mas a verdade é essa: estamos abandonados à própria sorte. Nós e os nossos botões. 

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U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 30 / 06 / 2015

O Globo
"Dilma ataca delator, mas investigação é ampliada"

Presidente cita traidor da Inconfidência Mineira para desqualificar acusações

Enquanto isso, STF recebe da Procuradoria-Geral da República 30 petições sigilosas, que devem resultar em novos inquéritos contra políticos

Em visita aos EUA, a presidente Dilma reagiu à delação premiada do dono da UTC, Ricardo Pessoa, que disse ter feito doações à campanha da petista em 2014 por temer problemas para seus negócios na Petrobras. “Não respeito delator”, afirmou a presidente. Ela citou Joaquim Silvério dos Reis, traidor da Inconfidência Mineira, e também sua prisão na ditadura: “Tentaram me transformar em delatora. Resisti bravamente.” Ao mesmo tempo, a Procuradoria-Geral da República enviou ao Supremo Tribunal Federal 30 petições com trechos das acusações de Pessoa a políticos, que devem resultar em novos inquéritos. Em Washington, Dilma e o presidente Obama visitaram o monumento ao líder Martin Luther King e jantaram na Casa Branca. 

Folha de S.Paulo
"Dilma diz que não respeita delator e nega acusações"

Presidente afirma que, na ditadura, ‘resistiu bravamente’ a se tornar denunciante

A presidente Dilma Rousseff afirmou nesta segunda (29) que “não respeita delator”, ao se referir ao depoimento do dono da empreiteira UTC, Ricardo Pessoa. Dilma falou pela primeira vez sobre essas denúncias, que integram a operação lava J ato, em Nova York (EU A). A presidente disse que aprendeu na escola a rejeitar Joaquim Silvério dos Reis, o delator da Inconfidência Mineira. “Tentaram me transformar numa delatora. A ditadura fazia isso com as pessoas presas e garanto para vocês que resisti bravamente”, disse. Dilma também negou que tenha recebido dinheiro ilícito em sua campanha à reeleição, no ano passado. No acordo de delação premiada, Pessoa disse que doou R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma por temer prejuízos em seus negócios com a Petrobras. “Não aceito e jamais aceitarei que insinuem sobre mim ou sobre minha campanha qualquer irregularidade”, disse. Segundo ela, seu rival em 2014, Aécio Neves (PSDB), também recebeu recursos da empresa, “com uma diferença muito pequena de valores”.

O Estado de S.Paulo
"Dilma diz que 'não respeita delator' e nega doação ilegal"

Presidente compara dono da UTC a traidor da Inconfidência Mineira e cita doação a Aécio; tucano reage

Com referências à Inconfidência Mineira e a seu passado de presa política, a presidente Dilma Rousseff atacou o dono da UTC, Ricardo Pessoa, e disse que a contribuição da empreiteira à sua campanha de reeleição foi realizada de maneira legal. "Eu não respeito delator. Até porque eu estive presa na ditadura e sei o que é. Tentaram me transformar em delatora", afirmou a presidente em Nova York. Foi a primeira vez que ela fez declarações públicas sobre o assunto.

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segunda-feira, junho 29, 2015

Dominique

Opinião

Reflexões sobre o volume morto

Gabeira
RIO- Lula teve alguns momentos de sinceridade na última semana. Disse que tanto ele como Dilma estavam no volume morto e que o PT só pensa em cargos. Ele se referiu ao volume morto num contexto de análise de pesquisas, que indicavam a rejeição ao governo e ao PT. Nesse sentido, volume morto significa estar na última reserva eleitoral. No entanto, o termo deve ser visto de forma mais ampla.

Estar por baixo nas pesquisas nem sempre significa um desastre. Em alguns momentos da História, o próprio PT, e disso me lembro bem, não alcançava 10% dos eleitores, mas tinha esperança, e os índices não abalavam sua autoestima. O volume morto em que se meteu agora é diferente. Ele indica escassez da água de beber e incapacidade energética, depois de 12 anos de governo. Foi um tempo em que, sob muitos aspectos, andamos para trás.

Há perdas na economia, na credibilidade do sistema político, todo um projeto fracassado acabou jogando o país também num volume morto. Há chuvas esparsas como a Operação Lava-Jato, mas elas caem muito longe dos reservatórios do PT. Tão longe que ajudam a ressecar ainda mais o terreno lodoso que ainda abastece as torneiras petistas.

Lula pode estar apenas querendo se distanciar de Dilma e do PT. Ele a inventou como estadista e agora bate em retirada. E quanto ao PT, quem vai rebater suas críticas e arriscar o emprego e a carreira? Pois é esse o combustível de seus quadros.

Há cerca de uma década escrevi um artigo intitulado “Flores para os mortos”, no qual afirmava que uma experiência com pretensão de marcar a História terminava, melancolicamente, numa delegacia de polícia. Foi muito divulgado, e na internet usaram até fundo musical para compartilhá-lo. O título é inspirado numa cena do filme de Luis Buñuel, a florista gritando na noite: “Flores, flores para os mortos”.

Devo ter recebido muitas críticas dos petistas. Passados dez anos e algumas portas de delegacia, hoje é o próprio líder que admite a incapacidade política de Dilma e a voracidade dos seus seguidores.

Olho para esse tempo com melancolia. Ao chegar ao Brasil, os tempos do exílio não pesavam tanto. O futuro era tão interessante, o processo de redemocratização tão promissor que compensavam o passado recente. Agora, não. O futuro é mais sombrio porque a tentativa de mudança foi uma fraude, a própria palavra mudança tornou-se suspeita: poucos creem que o sistema político possa realizar os anseios sociais.

Lula fala em esperança para sair do volume morto. Mas que esperança pode arrancá-los do volume morto quando o próprio líder, apesar de sua sinceridade ocasional, não consegue vislumbrar uma saída? Lula repete aquela frase atribuída ao técnico Yustrich: “Eu ganho, nós empatamos, vocês perdem”.

Lendo no avião uma entrevista do escritor argelino Kamel Daoud, muito criticado pelos muçulmanos mais radicais do seu país. O título da entrevista é: “Nem me exilar, nem me curvar”.

Uma de suas respostas me tocou fundo. O repórter perguntou: “Como você, depois de viver anos ligado aos Irmãos Muculmanos, conseguiu escapar desse mundo?”. “Leitura, muita leitura”, respondeu Kamel Daoud.

O resto da viagem fiquei pensando como teria sido bom para a esquerda brasileira leitura, muita leitura, para poder escapar da sua própria miopia ideológica.

Na verdade, ela mastigou conceitos antigos, cultivou políticas retrógradas, como essa de apoiar o chavismo, e se perdeu nos escaninhos dos cargos e empregos. Ela me lembra os jovens do filme “O muro”. Um dos seus ídolos acaba como porteiro de hotel, e é melancólica a cena em que os admiradores o descobrem, paramentado, carregando malas.

Leitura, muita leitura, não importa em que plataforma, talvez impedisse a esquerda de ver seu predestinado líder proletário trabalhando como lobista de empreiteiras. Talvez nem se chamaria mais de esquerda.

Um dos mais ricos petistas critica os outros por só pensarem na matéria. A realidade surpreendeu todas as previsões da volta ao exílio, tornou-se uma espécie de pesadelo.

Tomara que chova nos reservatórios adequados e as forças que caíram no volume morto continuem por lá, fixadas na única esperança que lhes resta: sobreviver.

O país precisa sair do volume morto, reencontrar um nível de crescimento, credibilidade no seu sistema político. Hoje o país é governado por um fantasma de bicicleta e um partido de míseros oportunistas, segundo seu próprio líder, chamado de Brahma pelas empreiteiras.

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U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira 29 / 06 / 2015

O Globo
"Escândalos derrubam papéis de empreiteiras"

Após prisão de executivos, títulos emitidos no mercado externo registram desvalorização

Papéis de Odebrecht e Andrade Gutierrez eram negociados a 80,6% e 77% do seu valor de face, respectivamente, patamares abaixo do registrado no último dia 19

Odebrecht e Andrade Gutierrez viram seus títulos da dívida emitidos no exterior perderem valor desde a prisão de seus presidentes, no dia 19 deste mês. Os papéis da Odebrecht eram negociados a 80,6% de seu valor de face, que é de US$ 100, na última sexta-feira. No dia 19, o patamar era de 85%. Em dezembro de 2014, os investidores pagavam prêmio pelo papel, negociado a 101,4% do valor de face. O tombo da Andrade Gutierrez foi maior : de 85% para 77% do valor de face , também de US$ 100. As empreiteiras ainda correm o risco de ser em rebaixadas pelas agências de classificação. 

Folha de S.Paulo
"Próxima de calote, Grécia fecha bancos e limita saque"

Medidas buscam evitar fuga de capitais; prazo para pagar FMI vence na terça

Diante do risco de calote e da falta de acordo com credores, a Grécia decidiu fechar os bancos nesta segunda-feira (29) e restringir transações financeiras. Caixas eletrônicos devem operar a partir de terça com limite de saque diário. O premiê Alexis Tsipras, que anunciou as medidas pela TV, aposta numa última conversa com líderes europeus para salvar o país de um colapso e da saída da zona do euro. A Grécia precisa quitar dívida de € 1,6 bilhão com o FMI na terça. Para tanto, quer desbloquear o acesso a € 7,2 bilhões, última parcela do socorro de € 240 bilhões recebido de FMI e Banco Central Europeu desde 2010. Sem acordo, o país teme quebrar, e por isso tenta controlar a insolvência de seus bancos. Tsipras pediu paciência à população e disse que salários e aposentadorias estão garantidos. O americano Barack Obama acionou a alemã Angela Merkel em busca de uma solução que evite a saída dos gregos da zona do euro.

O Estado de S.Paulo
"Grécia fecha bancos hoje e Europa teme colapso"

País adota medida após União Europeia se recusar a esticar prazo de negociações; EUA temem crise

A Grécia fecha seus bancos hoje e impõe limite de saque de €60 para tentar evitar o colapso de sua economia. As medidas adotadas depois de a União Europeia se recusar a ampliar socorro financeiro ao país colocaram as capitais europeias em estado de alerta diante do risco de queda do euro. O país precisa pagar parte de sua dívida até amanhã. A crise fez com que o presidente dos EUA, Barack Obama, telefonasse para a chanceler alemã, Angela Merkel, para pedir que a UE não abandone Atenas.

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domingo, junho 28, 2015

Dominique

Crônica

Sobe e desce

Pode-se imaginar que muitos ascensoristas tenham tentado combater o tédio, variando a sua própria fala. Dizendo ‘ascende’, em vez de ‘sobe’, por exemplo

Veríssimo
Ascensorista é uma das profissões que desapareceram no mundo moderno. Era certamente a mais tediosa das profissões, e não apenas porque o ascensorista estava condenado a passar o dia ouvindo histórias pela metade, anedotas sem desenlace, brigas sem resolução, só nacos e vislumbres da vida dos passageiros.

Pode-se imaginar que muitos ascensoristas tenham tentado combater o tédio, variando a sua própria fala.

Dizendo “ascende”, em vez de “sobe”, por exemplo.

Ou “Eleva-se”.

Ou “Para cima”.

— Para o alto.

— Escalando.

Quando perguntassem “Sobe ou desce?”, responderia “A primeira alternativa”. Ou diria “Descende”, “Ruma para baixo”. “Cai controladamente”.

E se justificaria, dizendo:

— Gosto de improvisar.

Mas, como toda arte tende para o excesso, o ascensorista entediado chegaria fatalmente ao preciosismo. Quando perguntassem “Sobe?”, responderia “É o que veremos...” Ou então, “Como a Virgem Maria”.

Ou recorreria a trocadilhos:

— Desce?

— Dei.

Nem todo mundo o compreenderia, mas alguns o instigariam.

Quando comentassem que devia ser uma chatice trabalhar em elevador, ele não responderia “tem seus altos e baixos”, como esperavam. Responderia, “cripticamente”, que era melhor do que trabalhar em escada.

Ou que não se importava, embora seu sonho fosse, um dia, comandar alguma coisa que também andasse para os lados...

E quando ele perdesse o emprego porque substituíssem o elevador antigo por um moderno, daqueles com música ambiental, diria:

— Era só me pedirem. Eu também canto!

Mas, enquanto não o despedissem, continuaria inovando.

— Sobe?

— A ideia é essa.

— Desce?

— Se ainda não revogaram a lei da gravidade, sim.

— Sobe?

— Faremos o possível.

— Desce?

— Pode acreditar.

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U.V.

Manchetes do dia

Domingo 28 / 06 / 2015

O Globo
"Partidos perdem metade dos filiados jovens"

Envelhecimento das legendas é registrado desde 2009 pelo Tribunal Superior Eleitoral

Os jovens se distanciam cada vez mais dos partidos políticos, e o envelhecimento atinge tanto legendas governistas como de oposição. É o que revelam os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre filiações desde 2009. Nesse período, os cinco maiores partidos do país (PMDB, PT, PP, PSDB e PDT) viram o número de filiados entre 16 e 24 anos passar de 300 mil para 132 mil, uma queda de 56%. O PT sofreu a maior variação negativa, com uma redução de 60%, mas ainda é o que tem o maior número de jovens em suas fileiras. No PSDB, a queda foi de 51%. Para analistas, os jovens vêm buscando outras formas de representação. 

Folha de S.Paulo
"Crise provocada por delator faz ministro cancelar viagem"

Dilma atrasou embarque aos EUA para fazer reunião de emergência; citado na delação, Mercadante não viajou

A delação do dono da construtora UTC, Ricardo Pessoa, provocou tensão no Palácio do Planalto às vésperas da viagem de Dilma Rousseff aos Estados Unidos. A presidente atrasou seu embarque neste sábado para se reunir com ministros no Palácio da Alvorada e armar uma estratégia para rebater as acusações.

O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, citado na delação e que também viajaria, cancelou sua ida.

No encontro com os assessores, Dilma se disse “indignada” com o que chamou de “vazamento seletivo” para atingir sua campanha e "isentar” outras, “inclusive a de Aécio Neves", segundo relato de um ministro.

Em seu depoimento à Lava Jato, Pessoa, apontado como líder do clube de empreiteiras do cartel na Petrobras, disse que as doações milionárias a partidos e candidatos visavam “fazer a engrenagem andar”.

O Estado de S.Paulo
"Dilma reúne ministros e atrasa viagem para os EUA"

Presidente convoca encontro de emergência; Mercadante (Casa Civil), citado em delação, não embarca

Preocupada com o agravamento da crise política, a presidente Dilma Rousseff convocou ontem os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Edinho Silva (Secretaria de Comunicação Social) ao Palácio da Alvorada. Os dois foram citados na delação como beneficiários de supostos repasses irregulares nas campanhas de 2010 e 2014 em trechos divulgados para a imprensa da delação premiada do empresário Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia. Edinho se disse “indignado” com as acusações e denunciou “vazamentos seletivos” para alimentar a disputa política. O tom da resposta foi definido por Dilma na reunião emergencial com ministros do primeiro escalão. Segundo o Estado apurou, Mercadante foi orientado a cancelar a viagem que faria com a delegação que visita os EUA, se concentrar na gestão da Casa Civil e mostrar que o governo não está paralisado pelas denúncias.

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