sábado, maio 23, 2015

Dominique

Opinião

Se Pasadena ofende

A falta de transparência ofende o país

Sandro Vaia
Quando a presidente Dilma defenestrou Graça Foster da presidência da Petrobras e nomeou para o lugar Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil, parecia que a maior empresa brasileira, combalida pela roubalheira e a má gestão, estava sendo preparada para disputar o campeonato mundial de transparência.

Uma semana depois da divulgação do balanço trimestral, que alentou o mercado por causa de um lucro de 5,3 bilhões de dólares, maior do que o esperado pelo mercado, uma notícia da Folha de São Paulo botou água no chope: segundo o jornal, o resultado foi inflado em 1,3 bilhões de dólares por conta de um artifício contábil que registrou como ganho um evento ocorrido 37 dias depois do fechamento do trimestre.

Convenhamos: não é esse tipo de transparência o mais adequado   para começar a tentar recuperar a credibilidade que a empresa perdeu no mercado.

Numa entrevista à agência de notícias Bloomberg, a presidente Dilma procurou injetar a sua dose protocolar de otimismo, dizendo que era tarefa de seu governo a recuperação da Petrobras e que acreditava que empresa voltaria rapidamente a receber os investimentos de que precisa e a distribuir dividendos a seus acionistas.

A fábula do discurso redentor de “recuperação da Petrobras” feito especialmente para revigorar a crença e a fé do público interno, que colocou a situação da empresa na coluna “débito" em sua avaliação geral do governo, teve cores menos róseas num relatório enviado à SEC, a agência reguladora do mercado financeiro dos EUA.

O triunfalismo do “agora vai” vendido para o público brasileiro foi bem mais atenuado no conteúdo do relatório para a SEC, revelado pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Nele, a empresa admite que terá dificuldades para explorar o pré-sal em função do modelo regulatório que obriga a empresa a participar com um mínimo de 30% em qualquer área que venha a ser explorada dentro do sistema de partilha.

A Petrobras reconheceu também no relatório à SEC que " a limitação financeira pode prejudicar a capacidade de pagamento aos credores, já que o fluxo de caixa das operações é hoje insuficiente para financiar o aumento de gastos de capital planejado e as obrigações da dívida”.

A empresa disse temer também que qualquer novo rebaixamento de classificação de crédito pode ter consequências negativas sobre a capacidade de obter financiamentos.

O novo presidente da Petrobras, num depoimento ao Senado, fez um tímido ensaio sobre a possibilidade de rever a questão da obrigação que a empresa tem de  participar da exploração de todos os campos e da obrigação do conteúdo nacional, mas a presidente Dilma logo disparou mais um de seus cala-bocas e desautorizou a especulação do subalterno.

Ela quer que tudo fique como está.

É fácil perceber que a promessa de transparência na gestão da Petrobras é uma daquelas que se localiza mais no discurso do que na realidade. Inflar dogmas ufanistas interessa mais ao governo do que efetivamente encarar e deixar clara a real situação da empresa e do que ela será capaz efetivamente de fazer com os recursos de que dispõe e a gigantesca dívida que tem de administrar.

Como se não bastasse essa deliberada falta de clareza recorrente nos negócios da empresa, começam a vazar pela imprensa registros de reuniões do conselho de administração onde se desenvolveram batalhas verbais em que a ex-presidente Graça Foster, demitida por Dilma, faz apreciações muito pouco elogiosas ao presidente da empresa durante o governo Lula, Sérgio Gabrielli. Num áudio de uma reunião vazado pela imprensa, quando se discutia a contabilização das perdas por corrupção, Graça Foster se indignou ao ouvir que sua gestão era comparada à anterior: “Não nos confunda com Pasadena, não nos ofenda”.

Se Pasadena ofende Graça, a falta de transparência ofende o país.

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U.V.

Manchetes do dia

Sábado 23 / 05 / 2015

O Globo
"Corte de R$ 70 bi atinge PAC, saúde e educação"

Governo agora prevê que economia sofrerá retração de 1,2% no ano

Valor contingenciado é o maior desde 2000, quando a Lei de Responsabilidade Fiscal entrou em vigor; o orçamento de 2015 do Minha Casa Minha Vida, uma das vitrines do governo Dilma, foi cortado em 34,6%

Com a previsão de que a economia brasileira vai sofrer retração de 1,2% este ano, o governo anunciou ontem corte de R$ 69,9 bilhões nas despesas de custeio e investimentos do Orçamento de 2015, o maior desde que a Lei de Responsabilidade Fiscal entrou em vigor, em 2000. A área social e duas das principais vitrines do governo Dilma serão fortemente atingidas. O PAC perderá R$ 25,7 bilhões, 39% do orçado, e o programa Minha Casa Minha Vida, R$ 6,9 bilhões ou 34,6%. Na Educação, prioridade anunciada com o lema Pátria Educadora, o corte chegou a R$ 9,4 bilhões. Saúde, habitação e saneamento, entre outras áreas, também terão menos recursos.

Folha de S.Paulo
"Governo anuncia cortes, mas deve aumentar gastos"

Apesar do bloqueio de R$ 69, 9 bilhões no Orçamento, desembolsos programados estão acima dos de 2014

Apesar do corte recorde no Orçamento, de R$ 69, 9 bilhões, o governo Dilma (PT) ainda prevê gastar mais neste ano que em 2014, ano eleitoral. Estão programados desembolsos de R$ 1,1 trilhão, cerca de R$ 100 bilhões acima dos do ano passado. Se consideradas as proporções da economia do país, as despesas sobem de 18, 7% do PIB (Produto Interno Bruto), para 18, 9%. Esse aumento também reflete a retração esperada para o PIB, de 1,2%, mas os dados mostram a dificuldade da equipe econômica em reduzir a despesa pública. O bloqueio orçamentário foi concentrado em despesas sociais e investimentos e afetou programas prioritários de Dilma, como o P AC (Programa de Aceleração do Crescimento), o Minha Casa, Minha Vida e o Pronatec. Os ministérios das Cidades, da Saúde, da Educação e dos Transportes responderam por 63% do corte. O P AC perdeu R$ 25, 7 bilhões, o que representa 39% da verba prevista no Orçamento. O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), afirmou que o ajuste é “fictício”. O tucano Aécio Neves disse ter caído “a máscara do PT”, pois os que mais sofrem são os pobres.

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sexta-feira, maio 22, 2015

MG TD-TF 1950


Coluna do Celsinho

Soma

Celso de Almeida Jr.

Em Admirável Mundo Novo, o autor Aldous Huxley narra uma passagem onde, para controlar uma multidão furiosa, policiais abrem caminho para homens com pulverizadores de vapores de Soma.

Soma, na história de Huxley, é uma droga livremente utilizada por moradores do futuro para acabar com qualquer sentimento de insegurança, irritação, medo.

Escrito em 1932, o livro fala de um futuro onde todos são felizes, vivem em segurança, nunca adoecem, não tem medo da morte, nunca desejam o que não podem ter.

São condicionadas para não deixar de se portar como devem.

Não há família, pai, mãe, esposa.

Gerados em incubadoras, separados por castas, tem a vida orientada para o trabalho.

As relações sexuais são encaradas como forma de lazer.

O lema "Cada um Pertence a Todos" rege as suas vidas.

E, se algo vai mal, recorrem ao Soma.

Assustador?

Estamos perto ou longe deste mundo novo?

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Dominique

Opinião

Para onde vai esse trem?

Gabeira
Num texto endereçado a cineastas, Chris Marker citou uma frase de De Gaulle: às vezes os militares, exagerando a impotência relativa da inteligência, descuidam de se servir dela. Marker defendia filmes inteligentes contra o populismo de alguns pares. Creio que De Gaulle criticava a superestimação da força armada. Algo que ficou célebre na pergunta atribuída a Stalin: quantas divisões tem o papa?

A oposição brasileiro tem se descuidado de usar a inteligência não por valorizar a força armada, mas as possibilidades eleitorais. Quantos votos nos dará esse projeto? Foi assim com a derrubada do fator previdenciário. Nada mais agradável do que votar pelos aposentados e ao mesmo tempo ganhar um bom número de votos.

Norberto Bobbio dava muita importância à questão da aposentadoria e a considerava um elemento divisor entre os conceitos de esquerda e direita. Não vejo assim no Brasil. A ideia de um sistema que garanta aposentadoria digna é universal no espectro político.

As coisas se complicam quando se discute a sustentabilidade do sistema. Tensioná-lo com mais gastos num momento de crise aguda acaba despertando propostas como a de Joaquim Levy: aumentos de impostos. Um projeto político no capitalismo não implica apenas respeito às normas democráticas. Implica também a admissão das próprias leis do capitalismo. Se nos levamos apenas pelo coração, faremos muitas bondades até que chegue o momento de pagar a conta. Os deputados jogaram essa conta para o governo, que, por sua vez, a transfere, via impostos, para a sociedade.

Quando Levy fala em ajustar a economia e, simultaneamente, em aumentar impostos a partir das bondades parlamentares, suas tesouras são apenas um passatempo como agulhas de crochê. As tesouras de Levy refletem o mesmo conflito de ideais socialistas com as leis do capitalismo. E a oposição tem de se manifestar claramente sobre isso: é um modelo de crescimento que faliu. Derrotá-lo não significa usar os mesmos métodos populistas, certamente com grandes dividendos eleitorais. Derrotá-lo é propor um novo caminho.

O caso das pensões e dos salários de pescadores, embora tenha distorções, no meu entender, merecia rejeição, ao menos para negociar.

Como começar um ajuste fiscal sem conhecer os cortes do governo? Este é o tema mais importante no ajuste. É nele que uma visão de oposição tende a se fixar: a racionalização da máquina, a redução de inúmeros e inúteis cargos de confiança.

Minhas críticas são feitas de fora, o trabalho na estrada não permite conhecer todos os dados. Mas a oposição precisa mostrar uma certa coerência com o próprio programa. O problema de votar, em alguns momentos, com o governo também é eleitoral: medo de desapontar o eleitorado que rejeita Dilma e o PT.

Mas é preciso dividir as esferas de atuação: um programa claro sobre o ajuste econômico e um trabalho sério sobre a corrupção, reconstruir e punir. A responsabilidade pela devastação da Petrobrás, a gestão temerária, o escândalo do desvio de bilhões é um fato histórico ainda em movimento, pois a Justiça não se manifestou sobre ele.

Nesse contexto, um fervoroso eleitor de Dilma é indicado para ministro do Supremo. Os principais nomes da oposição faltaram à sabatina. Era preciso fazer perguntas, descortinar a visão política de Luiz Edson Fachin e apresentar uma interpretação de seu discurso.

Não posso dizer que a culpa seja de Fernando Henrique Cardoso. Cada um avalia as prioridades, organiza a agenda, é uma escolha política: a homenagem a Fernando Henrique em Nova York ou a sabatina de candidato ao Supremo no Brasil. O resultado é que não foi dada toda a atenção à hipótese de o governo aparelhar o Supremo e bloquear as conquistas da Operação Lava Jato.

Estou, talvez, reduzindo a escolha de um juiz a um fato conjuntural. Mas o escândalo da Petrobrás é mais que isso, é o espaço em que se vai jogar o que mais interessa às pessoas que foram às ruas: avançar na luta contra a corrupção.

Vivemos um momento em que nem governo nem oposição se movem de forma articulada, com ideias claras e compartilhadas sobre sua trajetória. Vivi outros momentos assim, mas muito rápidos. Usávamos uma expressão para descrevê-los: a vaca não reconhece seus bezerros.

Num texto para homenagear Robert Frost, John F. Kennedy escreveu: a poesia é o meio de salvar o poder de si próprio. Sem menosprezar a poesia, tenho uma expectativa mais pedestre: só as pessoas, com suas dificuldades cotidianas, sonhos e frustrações e pequenas conquistas, podem salvar o poder de sua degradação. Nenhuma força política parece preocupada em responder a essa expectativa com um projeto coerente, verificável nos movimentos cotidianos.

O Congresso parece desgovernado. Vota, simultaneamente, medidas de contenção e de mais gastos. Os repórteres estão sempre fazendo contas para verificar se estamos economizando ou gastando mais.

Era esperado um choque de posições no debate do ajuste; os setores atingidos procuram se defender: não há nenhuma previsibilidade de mudanças no tamanho da máquina nem o tipo de País que vai surgir desse debate. Vendo as universidades federais fluminenses em ruína antes mesmo da aplicação dos cortes, é razoável duvidar da retomada do crescimento com um simples ajuste fiscal. Tudo o que não funciona nos serviços públicos vai ganhar com os cortes uma poderosa desculpa para mascarar a incompetência: não há dinheiro.

Assim, a Nova República vai morrer e nascerá a Novíssima República, como aqueles antigos trens italianos, o rápido, o rapidíssimo, que nunca chegavam na hora. Será difícil achar a luz no fim do túnel se não decidirmos, pelo menos, em que direção procurá-la. O Brasil não precisa apenas de um ajuste fiscal, mas de rever todo o modelo que nos jogou no buraco.

Original aqui

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U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 22 / 05 / 2015

O Globo
"Dilma eleva imposto de bancos e mantém abono"

Presidente recua na mudança do pagamento do benefício, prevista em MP

Alíquota para instituições financeiras vai a 20%; corte no Orçamento , de cerca de R$ 70 bilhões, será anunciado hoje

Depois de pressão do Congresso, a presidente Dilma Rousseff decidiu vetar a medida provisória que endurecia as regras para o pagamento do abono salarial aos trabalhadores, proposta do próprio governo. Parte do ajuste fiscal, a medida significaria uma economia de R$ 9 bilhões. Por outro lado, na véspera de anunciar o corte no Orçamento, que deverá ser de cerca de R$ 70 bilhões, a presidente decidiu aumentar o imposto sobre os bancos, de 15% para 20%. Dilma avisou ainda que os cortes nas despesas do governo “não serão pequenos”.

Folha de S.Paulo
"Com receita em queda, Dilma fará o maior corte desde Lula"

Orçamento perderá R$ 69 bi; governo prevê PIB ainda menor, inflação acima da meta e eleva imposto para banco

Diante da queda da receita e do risco do pacote de ajuste naufragar no Congresso, o governo Dilma anuncia hoje (22) corte no Orçamento de cerca de R$ 69 bilhões, o maior da era petista. O plano é convencer o mercado de que irá cumprir a meta fiscal. O corte atingirá R$ 49 bilhões de despesas propostas pelo governo e R$ 20 bilhões de emendas parlamentares, recursos destinados por deputado e senador para bases eleitorais. O bloqueio afetará inclusive saúde, educação e desenvolvimento social. A queda da arrecadação de tributos mostra a dificuldade para o cumprimento da meta fiscal deste ano, de R$ 66, 3 bilhões para todo o setor público. Descontada a inflação, as receitas caíram 4, 6% em abril — a maior queda para o mês desde 2010. Ao definir o tamanho do bloqueio do Orçamento, o governo estimou que o país terá retração de 1,2% do PIB neste ano, pior que a previsão anterior , de 0, 9%. A inflação oficial está projetada em 8, 3%, bem acima do centro da meta, de 4, 5%. Para garantir mais dinheiro em caixa, o governo editou na noite de ontem medida provisória aumentando a alíquota da CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) de bancos, de 1 5% para 20%, o que deve gerar R$ 4 bilhões por ano.

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quinta-feira, maio 21, 2015

Dominique

Opinião

O Brasil nos planos da China

Estadão
A maior economia da América Latina, o Brasil, tem um papel importante nos planos de consolidação da China, segunda maior economia do mundo, como principal parceira comercial e grande fonte de financiamento dos países sul-americanos. Nos acordos celebrados entre o governo brasileiro e o chinês, durante a visita do primeiro-ministro Li Keqiang, o Brasil aparece principalmente como receptor de investimentos, de empréstimos e de tecnologia. É uma posição compatível com a ocupada no comércio bilateral. Nas trocas entre os dois países, o lado brasileiro aparece quase exclusivamente como fornecedor de commodities – matérias-primas e bens intermediários – e como comprador de manufaturados.

Dos US$ 40,62 bilhões exportados pelo Brasil em 2014, 84%, ou US$ 34,29 bilhões, corresponderam a produtos básicos. Os semimanufaturados, igualmente classificáveis como commodities, proporcionaram R$ 4,67 bilhões, ou 11,49%. A receita dos manufaturados ficou em US$ 1,62 bilhão, menos de um décimo da receita obtida com essa categoria nas exportações para os Estados Unidos.

A autorização do governo chinês para a venda de jatos da Embraer à Tianjin Airlines, anunciada por Li, de nenhum modo altera o padrão do comércio entre os dois países. Mais de uma vez os governantes petistas classificaram como “estratégica” a relação entre Brasil e China. Mas o real sentido estratégico dessa relação tem correspondido, até agora, à natureza semicolonial das trocas bilaterais.

A posição do Brasil é a mesma dos outros países da América do Sul no comércio com a China. Os graus de industrialização desses países podem variar, mas todos são basicamente fornecedores das matérias-primas necessárias ao desenvolvimento chinês. O roteiro de Li na região inclui também o Chile, o Peru e a Colômbia.

No caso da América do Sul, os planos são mais complexos – e provavelmente mais custosos – do que aqueles implantados na África. Envolvem a participação em projetos de exploração de recursos minerais, como petróleo, em obras de infraestrutura e na implantação de indústrias. Na Argentina, primeira etapa da atual investida na região, os chineses conquistaram neste ano, em troca de investimentos e financiamentos, vantagens comerciais e até a possibilidade de empregar trabalhadores de seu país.

A visita do primeiro-ministro resultou em 35 acordos, em promessas de negócios no valor de US$ 53 bilhões e na possibilidade, indicada por ele mesmo, de constituição de um fundo bilateral de US$ 20 bilhões para atividades produtivas. A construção de uma ferrovia entre o Brasil e o Peru, para ligar o Atlântico ao Pacífico, destacou-se na lista dos possíveis investimentos em infraestrutura como o mais ambicioso. Mas para esse, como para outros empreendimentos, ainda será preciso cuidar do projeto e de uma porção de detalhes práticos. As conversas trataram da participação chinesa, como investidores ou financiadores, em projetos de portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, habitação e energia.

A autorização para a compra de jatos da Embraer, a liberação das importações de carne bovina e de aves, acertos entre a Vale e grupos chineses e mais créditos para a Petrobrás são alguns resultados concretos da visita do primeiro-ministro Li Keqiang. A Petrobrás já havia conseguido um empréstimo de US$ 3,5 bilhões de um banco estatal chinês. O total poderá chegar a US$ 5 bilhões.

Como de costume, a diplomacia preparou uma enorme papelada para oficializar os acordos econômicos, financeiros e culturais, as declarações de intenção e as proclamações políticas dos governos envolvidos. Autoridades brasileiras e chinesas comprometeram-se mais uma vez a cooperar nos foros internacionais e a defender o multilateralismo. Além disso, segundo o 11.º item do Plano de Ação Conjunta 2015-2021, as duas partes continuarão a promover os contatos entre o Partido Comunista da China e os partidos brasileiros “com vistas a intercambiar experiências em governança nacional”. Nada mais promissor que essa cooperação.

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 21 / 05 / 2015

O Globo
"Congresso adia ajuste e aprova aumento de gastos"

Com medo de derrota e rebelião no PT, governo desiste de votar arrocho

Ao mesmo tempo, avança no Senado reajuste de até 78% para o Judiciário, e Câmara dá aval para novo prédio próprio

Com medo de derrota, o governo adiou a votação da principal medida provisória do ajuste fiscal, que muda as regras do abono salarial e do seguro-desemprego. Senadores da base, sendo dois do PT (Paulo Paim e Lindbergh Farias), assinaram manifesto contra as alterações. O governo já fora derrotado numa comissão do Senado, que aprovou aumento de até 78% para os servidores do Judiciário, com impacto de R$ 25,7 bilhões em quatro anos. A Câmara, por sua vez, deu aval para gastos com a ampliação de suas instalações, que prevê até um shopping center.

Folha de S.Paulo
"Caixa corta R$ 25 bi do crédito para casa própria"

Montante representa 20% do que foi liberado pelo banco estatal em 2014

Maior financiadora da habitação no país, a Caixa Econômica Federal prevê cortar R$ 25 bilhões dos novos empréstimos imobiliários. O valor representa 20% dos R$ 128,8 bilhões desembolsados em 2014. Para este ano, a estimativa é de R$ 103,8 bilhões, já somando os financiamentos com os recursos da poupança e os do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). Será o segundo ano seguido de recuo nos desembolsos do banco para a habitação e o mais agudo desde o início do ciclo de expansão nos financiamentos imobiliários, em 2002. Em 2013, tinham sido R$ 134, 9 bilhões. A Caixa pretendia repetir o montante de 2014, mas a forte saída de recursos da poupança a fez reconsiderar. O banco responde por cerca de um terço das perdas neste ano em depósitos da caderneta, a principal fonte de recursos para a habitação. De janeiro a abril, a poupança teve saques de R$ 29,2 bilhões, e o setor estima que o valor chegue a R$ 50 bilhões até o final do ano. Para tentar mudar a situação, bancos e construtoras pedem ao Banco Central que libere ao menos parte do depósito compulsório da poupança, que soma hoje perto de R$ 120 bilhões. O BC é contra.

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quarta-feira, maio 20, 2015

Dominique

Opinião

Testemunho ocular da história

Ferreira Gullar
Para que viver muito valha a pena, alguma serventia deve ter, como, por exemplo, dar testemunho de fatos ou de pessoas que ficaram desconhecidos ou esquecidos.

Vou citar um exemplo: estava eu vendo o noticiário na televisão quando apareceu uma manifestação de protesto em Caracas, na Venezuela. O pessoal protestava contra mais um abuso do presidente Nicolás Maduro, mostrando cartazes. Num deles se lia: "El pueblo unido jamás será vencido".

Sorri contente, não apenas porque protestavam contra Maduro como também porque usavam um slogan que nasceu no Brasil –mais precisamente na Cinelândia, onde o povo se concentrara para a famosa passeata dos cem mil.

Eu, militante da luta contra a ditadura, estava ali com meus companheiros do Grupo Opinião, que tiveram papel decisivo na organização daquela manifestação.

Já então nos opúnhamos à posição dos radicais que, também presentes no comício, gritavam: "Só o povo armado derruba a ditadura".

Foi então que algumas vozes se levantaram dizendo: "O povo unido jamais será vencido". Esse slogan foi tomando conta da multidão e abafou a palavra de ordem dos radicais.

A história mostrou que nós, os moderados, que apostávamos na união do povo, tínhamos razão. A luta armada foi dizimada facilmente pela repressão militar, enquanto a união popular pela democracia derrotou o regime autoritário.

E, também por isso, vi que o nosso slogan vitorioso é agora adotado pelo povo venezuelano.

Mas não só por ele. Um pouco antes, vi a mesma frase num cartaz de protesto em Paris: "Le peuple uni jamais sera vaincu".

Claro que é mais fácil acreditar que o povo armado mudará a situação social. Mera ilusão. Certamente é mais difícil uni-lo e mobilizá-lo contra os poderosos, mas, no final, ainda que demore, é isso o que vencerá a batalha.

E por falar na luta contra a ditadura militar e no Grupo Opinião, que em novembro de 1964, oito meses depois do golpe, ajudei a criar, vou lhes contar outra história, de que fiz parte. Diz respeito à expressão "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come", que é hoje muita usada ou integralmente ou abreviada.

Sabem vocês, por acaso, de onde surgiu essa expressão? Duvido muito, mas, graças à idade que tenho, posso lhes contar.

A história é a seguinte: o Grupo Opinião –que antes do golpe era o Centro Popular de Cultura da UNE, mais conhecido como CPC– nasceu com o show "Opinião", a primeira manifestação de protesto contra o regime militar.

Como já tínhamos aprendido, enquanto militantes do CPC, que o radicalismo não conduz a nada, apresentamos um show contra o golpe, mas engraçado, alegre e bonito.

Basta dizer que os três intérpretes do musical eram Zé Kéti, João do Vale e a graciosa Nara Leão. Durante meses, o teatro lotava por antecipação e, por isso mesmo, os milicos não nos perturbaram.

A classe teatral se animou e outros espetáculos foram feitos na mesma linha, até que o nosso saudoso Abujamra decidiu montar "O Berço do Herói", de Dias Gomes.

Irreverente como sempre, exagerou na crítica aos militares e o espetáculo foi proibido. Foi a primeira censura, que desencadeou a ação dos milicos contra o teatro, proibindo peças ou fazendo tantos cortes que tornavam inviável o espetáculo.

Enquanto isso, o show "Opinião" chegava ao fim de sua carreira e devíamos montar outro espetáculo. Foi então que Vianinha, nosso companheiro, fez a seguinte proposta: "Vamos escrever uma peça que a censura não tenha coragem de proibir. Uma obra-prima de dramaturgia". O grupo todo participou da criação da história e o texto foi escrito por ele e por mim.

A peça era tão requintada que foi escrita em versos decassílabos. Concluída, a apresentamos à censura e os censores a aplaudiram de pé. Mas, antes disso, pronto o texto, faltava o nome da peça.

Paulo Pontes, também membro do grupo, nascido na Paraíba, lembrou que, na sua terra, havia um ditado que se ajustava ao conteúdo do espetáculo: "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come".

A sugestão foi aceita por unanimidade. O espetáculo tornou-se um sucesso de crítica e de público, ganhou todos os prêmios daquele ano de 1966. E o ditado paraibano, que lhe serviu de título, tornou-se nacional. 

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U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 20 / 05 / 2015

O Globo
"Dilma vence e indica seu último ministro para o STF"

Fachin foi aprovado pelo plenário do Senado por 52 votos a 27

Senadores, porém, impuseram derrota ao governo com rejeição do nome de Guilherme Patriota para a OEA

Em queda de braço com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), a presidente Dilma conseguiu ontem uma vitória: o plenário aprovou, por 52 votos a 27, a indicação do jurista Luiz Edson Fachin para a vaga do ex ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal. Com a promulgação da chamada PEC da Bengala, deve ser o último ministro indicado por ela. Na mesma sessão, o governo foi derrotado ao ter rejeitada a indicação de Guilherme Patriota, irmão do ex-ministro Antonio Patriota, para representar o Brasil na OEA.

Folha de S.Paulo
"Em vitória de Dilma, Fachin é aprovado para o Supremo"

No plenário do Senado, jurista indicado pela presidente petista teve 52 votos a favor e 27 contra

O Senado aprovou em plenário Luiz Edson Fachin, 57, para ocupar uma cadeira de ministro do Supremo Tribunal Federal. Em votação secreta, ele recebeu 52 votos a favor e 27 contra. Não houve abstenções. O resultado significa uma vitória para a presidente Dilma, que havia indicado o jurista gaúcho, que fez carreira no Paraná, para a vaga que estava aberta desde o ano passado, quando Joaquim Barbosa se aposentou. Houve pressão de parte do PMDB, partido da base aliada, para que Fachin fosse rejeitado. Um dos opositores era o presidente do Senado, Renan Calheiros, em choque com o Planalto por ser investigado no petrolão. O governo teve sucesso na articulação, apesar de Fachin ter recebido a maior votação contrária da atual corte — a oposição tem 18 senadores. Ele já havia sido aprovado (20 a 7) em sabatina na Casa na semana passada. O jurista sofria resistência por ter apoiado Dilma na eleição de 2010 e defender causas progressistas, como a reforma agrária. A pós a votação, a presidente telefonou para Fachin, que chorou ao saber do resultado.

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terça-feira, maio 19, 2015

Dominique

Opinião

O jogo político do ajuste

Estadão
O governo terá de cortar gastos e aumentar tributos para arrumar suas contas, devastadas nos últimos quatro anos por uma conjunção de políticas erradas e muita irresponsabilidade. Não haverá solução indolor, porque o estrago foi muito grande e é preciso iniciar o conserto com a máxima rapidez. Contemporizar apenas agravará o problema e tornará o reparo mais difícil e custoso. Mas ainda é possível uma escolha política. Quanto menor a redução da despesa, maior terá de ser a elevação de impostos e contribuições. A composição do programa, com maior ou menor peso de cada um desses componentes, dependerá em boa parte dos congressistas. Pressões do PT para a presidente Dilma Rousseff amaciar o ajuste fiscal também poderão comprometer o plano de austeridade. Ministros divergem quanto à intensidade do aperto e isso ficou claro, mais uma vez, na reunião comandada pela presidente Dilma Rousseff nesse domingo.

Explicar o dilema aos parlamentares tem sido, e ainda será por algum tempo, uma das tarefas mais importantes do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O resultado das conversas, até agora, tem sido bem menos que satisfatório. As medidas sujeitas à apreciação do Congresso devem proporcionar uma economia inferior aos R$ 18 bilhões inicialmente pretendidos pelo Executivo. As alterações no pacote de ajuste enviado pelo Executivo já reduziram aquele ganho para cerca de R$ 14 bilhões. As medidas ainda tramitam e o resultado final poderá ser pior.

Nos próximos dias o governo deverá anunciar o primeiro contingenciamento de verbas orçamentárias deste ano – superior a R$ 70 bilhões, pela proposta do ministro Joaquim Levy. Os ministros da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e Nelson Barbosa, do Planejamento, defendem cortes mais suaves.

Levy insiste na promessa de fechar as contas de 2015 com um superávit primário de R$ 66,3 bilhões. Essa é a meta fixada para os três níveis de governo e parte das estatais. Esse dinheiro será destinado ao pagamento de juros da dívida pública. Mas o grande objetivo imediato é preservar a classificação de risco da dívida soberana. Se o ajuste for considerado insuficiente pelas agências de avaliação, o País poderá perder o grau de investimento. Isso tornará mais difícil e mais caro o acesso ao financiamento internacional. O rebaixamento contaminará as estatais.

Por enquanto, poucas pessoas, no governo federal, parecem realmente preocupadas com o risco de redução da nota de crédito. Talvez nem todas entendam as consequências desse rebaixamento. A presidente da República parece haver percebido o risco, mas muitos de seus companheiros petistas ainda se mostram mais preocupados com a popularidade do governo e do partido. Mas popularidade é neste momento o menor dos problemas. O mais grave é o da baixa credibilidade. Sem confiança de financiadores, investidores e empresários de várias categorias, o País ficará sem o crédito e sem os investimentos necessários à retomada do crescimento.

As perspectivas do ano já são muito ruins. Segundo as projeções do mercado financeiro, o Produto Interno Bruto (PIB) encolherá 1,2% neste ano e crescerá somente 1% no próximo. A produção industrial diminuirá 2,8% em 2015 e aumentará apenas 1,5% em 2016. Se os fatos confirmarem esses cálculos, a arrecadação tributária será fortemente afetada e o ajuste das contas públicas se tornará especialmente difícil. Se o esforço de ajuste decepcionar as agências de classificação e os investidores, o quadro poderá piorar em 2016 e nos anos seguintes.

A inflação muito alta e o mau estado das contas externas completam um cenário de desastre, consequência dos erros e desmandos cometidos sob o comando – ou no mínimo com a tolerância – da presidente Dilma Rousseff. Se ela fraquejar e atender às pressões por uma política mais suave e mais fiel ao padrão populista de seu partido, a população será mais uma vez enganada, os problemas se agravarão, o País ficará mais atrasado na corrida internacional e a recuperação será mais lenta e mais dolorosa.
Se os congressistas entenderem esses fatos, terão uma boa oportunidade de ajudar seu país.

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U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 19 / 05 / 2015

O Globo
"Acordos salariais já perdem para inflação"

Triplica parcela das negociações que obtêm reajuste inferior ao INPC

Alta dos preços e piora no emprego atrasam convenções coletivas e reduzem ganhos salariais

No primeiro trimestre deste ano, 11% dos acordos salariais fechados em 2.121 convenções coletivas só garantiram aumento salarial inferior ao INPC, índice de inflação que é a referência nessas negociações. O resultado é bem pior que o obtido no ano passado, quando a parcela dos reajustes inferiores à inflação era um terço disso, ou 3,5% do total. O levantamento da Fipe, com base em dados do Ministério do Trabalho, mostra ainda que o número de acordos fechados este ano diminuiu, o que indica que os trabalhadores estão enfrentando negociações mais duras, informam CLARICE SPITZ e MARCELLO CORRÊA.

Folha de S.Paulo
"Aprovação do ajuste indicará valor de corte do Orçamento"

Redução pode superar R$ 70 bi se Câmara mantiver desoneração da folha salarial

A presidente Dilma acertou com a equipe econômica que o corte do Orçamento deve ser de, no mínimo, R$ 70 bilhões. O valor final, porém, dependerá da votação das medidas do ajuste fiscal, principalmente da que reduz os benefícios da desoneração da folha de pagamento para os empresários. Após reunião com o vice Michel Temer, o ministro Joaquim Levy (Fazenda) foi na mesma direção. Ele disse que a “a ordem de grandeza” será de R$ 70 bilhões a R$ 80 bilhões e que o número final dependerá das votações. O objetivo do governo com o corte é garantir o cumprimento da meta de superavit de R$ 66 bilhões do setor público para este ano. A votação do projeto que reduz os benefícios da desoneração está prevista para esta quarta (20) na Câmara dos Deputados. A aprovação poderia render R$ 5, 3 bilhões ao Tesouro neste ano. O texto enviado pelo governo eleva de 1% para 2,5% a contribuição previdenciária cobrada sobre o faturamento de setores da indústria e de 2% para 4,5% para a área de serviços.

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segunda-feira, maio 18, 2015

Dominique

Opinião

A indústria acuada

Estadão
Enfraquecida por enorme acúmulo de erros políticos, a indústria nacional continua perdendo espaço tanto no mercado externo quanto no interno. A participação dos bens importados no mercado nacional chegou a 22,3% nos quatro trimestres até o período janeiro-março deste ano. Um ano antes estava em 21,7%, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Numa economia mais saudável e administrada com maior pragmatismo, o aumento da presença de bens importados seria consequência de maior abertura e maior integração no comércio global. Não é o caso brasileiro. O País continua muito fechado, seu comércio exterior diminuiu no último ano e a fatia dos produtos comprados no exterior cresceu porque a produção nacional é ineficiente, os custos são muito altos e é baixo o poder de competição da maior parte das empresas.

O coeficiente de exportação, de 19,1% das vendas industriais no período anual encerrado no primeiro trimestre, é igual ao registrado um ano antes. Desde 2012 tem oscilado em níveis próximos de 19%. Nos últimos quatro anos, a produção industrial permaneceu basicamente estagnada, com algumas oscilações pouco significativas, foi incapaz de acompanhar a ampliação do consumo e perdeu participação fora e dentro do País.

Entre janeiro e abril, as exportações de industrializados, de US$ 30,42 bilhões, foram 9% menores que as dos primeiros quatro meses de 2014. Esse conjunto inclui manufaturados e semimanufaturados. No caso dos manufaturados, a receita, de US$ 21,87 bilhões, foi 11,3% inferior à do quadrimestre correspondente do ano passado.

Também se reduziram as compras externas, embora a participação porcentual dos importados no mercado nacional tenha crescido. As compras de bens de capital foram 18,4% menores que as de janeiro-abril de 2014. As de matérias-primas e bens intermediários foram 19,8% inferiores às de um ano antes. No mesmo tipo de comparação, as importações de bens de consumo recuaram 17,9% e as de combustíveis e lubrificantes diminuíram 48,3%.

Somados todos os itens do intercâmbio, a corrente de comércio do Brasil com o exterior ficou em US$ 120,93 bilhões, 16,1% abaixo do valor computado nos primeiros quatro meses do ano passado. Parte dessa redução é explicável pela queda dos preços de produtos básicos, mas os fatores mais importantes são outros – a paradeira da economia nacional e a incapacidade competitiva da maior parte da indústria brasileira.

Essa incapacidade resulta da conjunção de vários erros de política econômica. Durante os oito anos de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o investimento permaneceu muito baixo no Brasil, geralmente abaixo de 20% do Produto Interno Bruto (PIB). O governo deu muita atenção às políticas de inclusão no mercado de consumo e pouco se ocupou com a expansão da capacidade produtiva. Enquanto a economia internacional prosperou e as contas públicas brasileiras permaneceram mais ou menos em ordem, as deficiências da política foram menos notadas. A partir de 2008 o quadro mudou.

O governo reagiu à crise aumentando o gasto público e aumentando a oferta de crédito oficial – a chamada política contracíclica. Em 2010, o Brasil havia vencido os impactos mais fortes da crise, mas a estratégia foi mantida e até ampliada. A gastança e as transferências do Tesouro para os bancos oficiais aumentaram, benefícios fiscais e financeiros foram concedidos a grupos e setores selecionados e a produção industrial continuou estagnada. Ao erro de diagnóstico somou-se o equívoco na escolha dos instrumentos. Foram desperdiçadas centenas de bilhões. Um dos erros foi a opção pelo protecionismo, combinado com a preferência pelo comércio com países emergentes e em desenvolvimento.

Fora dos principais fluxos de comércio, dos acordos bilaterais e inter-regionais e das cadeias globais de valor, o Brasil só pode jogar, e com sucesso cada vez menor, nas divisões inferiores. Os dados da CNI mostram parte dos efeitos de uma sucessão de erros. Para vencer os erros é preciso entendê-los e reconhecê-los. Nenhum desses passos foi dado pela presidente Dilma Rousseff.

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U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira 18 / 05 / 2015

O Globo
"Com mais verba, ensino superior não reduz evasão"

Número de alunos cresceu, mas taxa de conclusão ficou abaixo da meta

Programa do governo que previa R$ 2 bilhões para expansão do setor tinha como contrapartida melhorar a proporção de formados

Apesar do investimento de R$ 2 bilhões orçados no ReUni, programa do governo lançado em 2007 para expansão da educação superior, as universidades federais não conseguiram conter a evasão de alunos, informa Antônio Gois. Levantamento feito pelo GLOBO mostra que a taxa de conclusão caiu de 73% em 2008 para 66% em 2013, bem abaixo da meta de 90% exigida em contrapartida pelo MEC. No mesmo período, o número de alunos matriculados em cursos de graduação presencial cresceu 49%. O MEC justifica que "as metas do ReUni não devem ser analisadas isoladamente, pois se integram a um processo amplo de expansão”.

Folha de S.Paulo
"SP solta infrator grave antes do prazo máximo"

Governo propõe subir o teto das internações de jovens de três para oito anos, mas utiliza pouco o potencial da lei em vigor

Estudo do Ministério Público mostra que o governo Geraldo Alckmin (PSDB) quase não mantém jovens infratores internados pelo período máximo hoje permitido, de três anos, embora defenda mudança na legislação que amplie para oito anos o tempo limite de internação de adolescentes culpados por crimes graves.

Em levantamento de 3.712 infrações cometidas por menores na capital paulista (17% do total), que resultaram em 1.356 internações, 88 se referem a estupro, latrocínio e homicídio qualificado (crimes hediondos), sendo que 12 duraram mais de dois anos, e só uma, três.

Em média, o tempo de internação é de sete meses. Quem decide pela soltura é a Justiça, com base em relatórios da Fundação Casa, vinculada ao governo.

A gestão Alckmin afirma que o objetivo de sua proposta ao Congresso “não é o de manter menores internados por prazo maior, mas desmotivá-los a cometer infrações, principalmente crimes bárbaros”.

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domingo, maio 17, 2015

Dominique

Opinião

A escolha do juiz

Gabeira
Mesmo sabendo que a primeira hora é sempre de bobagens, procurei ver desde o princípio a sabatina de Edson Luis Fachin. Afinal, era uma chance de acompanhar uma escolha de ministro e ter uma opinião sobre ela. Na verdade, minha objeção a Fachin não foi discutida profundamente na sabatina. Ela tem um viés político. O fato de Fachin ter votado em Dilma e ter afinidades com o PT não o desclassifica. Pelo menos em tese.

Outros ministros passaram pela política e fizeram um trabalho imparcial. O problema da tese são as circunstâncias concretas em que se aplica. Fachin é um eleitor de Dilma, tem afinidades com o PT. Seu nome é proposto como Ministro do Supremo no momento em que se investiga o escândalo que devastou a Petrobras. Todo esse esforço de investigação pode cair por terra no Supremo Tribunal Federal. Mesmo que isto não caia na sua turma, alguma coisa será resolvida no plenário. E escândalos como os dos Fundos de Pensão, estatais e BNDES podem chegar ao Supremo. Fachin foi acusado de flertar com a poligamia em seus textos teóricos. Mas falando francamente: se propusesse algo como o fim da família e da monogamia seria derrotado por 10 a 1. No entanto, se resolver ser camarada com a força política que ajudou a eleger, no caso Dilma e o PT, seu voto pode ser decisivo e sua entrada no STF uma cartada importante para neutralizar as consequências da Lava-Jato. Os empresários que foram soltos, sobretudo Leo Pinheiro, da OAS, o foram através do voto decisivo de Dias Toffoli, que tinha relações de amizade com o empresário.

Resta saber que tipo de eleitor de Dilma é Fachin. Será que considera a corrupção apenas uma nota de pé de página na história desses anos de governo? Para mim é um enigma. Algumas pessoas que conheço o apoiam: o advogado René Dotti, com quem sempre me aconselhei sobre questões jurídicas quando deputado, e Joaquim Barbosa, que conheço apenas de noticias mas tenho respeito pela sua coragem. E solidariedade pela dor nas costas. Não a sinto no cotidiano, mas tive a oportunidade de conhecê-la por um dias, depois de uma queda nas cheias do Rio Madeira. É duro trabalhar, ser eficiente, tolerante etc. com uma violenta dor nas costas.

Suponho que essas pessoas falem com responsabilidade, a partir de um conhecimento real de Fachin. No entanto, mesmo para elas, é necessário lembrar as circunstâncias. Ele está sendo apontado por um governo que, em breve, terá de julgar por corrupção, administração temerária para falar de algumas acusações. Imaginei, como observador, que alguém fosse levantar esta questão. Alvaro Dias, que defende Fachin, antecipou-se dizendo que Dilma é muito impopular e que não devemos rejeitar Fachin apenas para atingi-la. Mas Alvaro Dias não elaborou sobre alguns temas vitais: por que Dilma é impopular? De que a acusam as pessoas que vão para as ruas? Se respondesse a essas perguntas, seria forcado a concluir que não se rejeita Fachin para atingir Dilma, mas pelo medo de que o todo o esforço investigativo resulte na impunidade dos grandes responsáveis pelo maior escândalo da História.

Outros temas como simpatia pelo MST e reflexões sobre a família podem ter tido algum peso. Mas as reflexões sobre a evolução da família são parte de uma atividade acadêmica. Ninguém pode ser demonizado por pensar a poligamia, senão teríamos de queimar parte da literatura antropológica. O problema de ter ideias minoritárias e disputar um cargo desse tipo não se resolve negando reflexões como intelectual livre. É preciso explicar as ideias, mostrar que tem uma noção clara do pensamento majoritário, do que está escrito na Constituição.

Esta também é uma tarefa difícil. Em política, só após anos de convivência respeitosa com a maioria se ganha a confiança. Assim há sempre um pé atrás. As pessoas preferem quem compartilha suas ideias básicas. E quem vai condená-las por isso? Uma escolha de ministro do Supremo não deve se concentrar no futuro imediato. Há sempre a esperança de que o parlamento recupere sua coragem de decidir temas espinhosos. E deixe o Supremo aplicar a Constituição. No entanto, é um argumento a mais para demonstrar que não são questões de amplo alcance, como a família monogâmica, que estão em jogo.

É no curto prazo, na posição de Fachini diante das investigações, no seu alinhamento com os simpatizantes do PT no Supremo que residem as principais dúvidas. Espero que alguns de meus amigos tenham razão em confiar nele. Mas talvez por ter dedicado anos à política, privilegie esse ângulo. Pela experiência, acho inadequado Dilma indicar um dos seus eleitores fervorosos para julgar o desastre de seu próprio governo. Não temo um Supremo bolivariano, do tipo que absolve o governo de tudo e prende a oposição por qualquer coisa. Temo uma manobra defensiva, a fuga da responsabilidade histórica e moral do PT.

A família vai bem obrigado, embora sempre produzindo nova formas. Nas últimas décadas: família de um só chefe, casais do mesmo sexo. Na minha opinião, caso seja aprovado, os primeiros meses de Fachin vão definir a sua carreira. Escândalos oficiais o esperam na esquina. Sobreviverá?

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U.V.

Manchetes do dia

Domingo 17 / 05 / 2015

O Globo
"Dinheiro público paga farra de partidos"

Mais de 90% do orçamento de 17 legendas vêm dos imposto

Prestação de contas mostra que recursos pagaram carro de luxo e até um avião particular

Dois terços da verba que os 32 parti­dos políticos do país têm para gastar com sua estrutura saem dos cofres públicos, revelam Chico de Gois e Sérgio Roxo. Levantamento feito pelo GLOBO na prestação de contas dos partidos em 2013, a mais recente já processada pela Justiça Eleito­ral, mostra que 66% dos R$ 546 mi­lhões arrecadados pelas siglas na­quele ano vieram do Fundo Partidá­rio, uma parcela do Orçamento da União que teve seu valor triplicado este ano. Nas justificativas das des­pesas, estão mordomias como a compra de um avião. Há até uma fa­mília inteira empregada na direção de um partido.

Folha de S.Paulo
"Arrocho do governo deixa construção civil em crise"

Sob juros altos e corte de gastos, setor teve o pior desempenho desde 2003

Após um período de cres­cimento acelerado, benefi­ciada pela expansão do cré­dito e da renda e por progra­mas de investimento do go­verno, a construção civil enfrenta momento de retração. O PIB do setor cairá 5,5% neste ano, o pior desempe­nho desde 2003, estima a Fundação Getúlio Vargas.

Juros altos e corte dos gas­tos públicos afetaram a de­manda por novos negócios. O panorama piorou com a fuga de recursos da poupan­ça, principal fonte de finan­ciamento para moradia. De janeiro a março, emprésti­mos com verba da poupan­ça tiveram a primeira queda nesse período em 13 anos.

O setor é um dos que lide­ram as demissões no Brasil. Nos primeiros três meses deste ano, as construtoras cortaram 50 mil vagas. Em 12 meses, foram fechados 250 mil postos. “Chegamos ao fundo do poço”, afirma José Carlos Martins, presidente da Câmara Brasileira da In­dústria da Construção.

Para especialistas, a reto­mada só virá após a fase mais dura do ajuste fiscal e monetário. Para aliviar a si­tuação, o governo deve lan­çar nova etapa do Minha Ca­sa, Minha Vida e estuda me­didas para destravar os financiamentos habitacionais para consumidores das clas­ses média e alta. 

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