sábado, março 28, 2015

Dominique

Opinião

Geração 68, de vitoriosa a derrotada

Ricardo Kotscho
Faço parte da geração 68, como ficou conhecida a dos estudantes libertários que viraram o Brasil e o mundo de cabeça para o ar naquele ano do século passado, contestando todas as hierarquias e estruturas de poder, sem ter ideia de onde pretendiam chegar. Sabiam o que não queriam mais, mas não se entendiam sobre o que exatamente sonhavam colocar no lugar.

Pintava de tudo naqueles movimentos estudantis, das barricadas de Paris às grandes passeatas no Rio _ comunistas, trotskistas, anarquistas, hippies do paz e amor, guerrilheiros urbanos, porra-loucas e insatisfeitos em geral.

Tinha acabado de entrar na faculdade, na primeira turma da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, criada um ano antes. Voltei lá esta semana para participar de um debate junto com Heródoto Barbeiro, meu colega no Jornal da Record News, que comemorou na segunda-feira sua milésima edição no ar.

Para mim, foi um verdadeiro choque cultural. Nada mais restava daquele agito permanente em que os alunos ficavam mais fora do que dentro das salas de aula, pintando cartazes e faixas, fazendo discursos inflamados contra o reitor, a polícia, os americanos, a ditadura militar, o diabo a quatro.

Confesso que não tinha na época a menor consciência política e gostava mesmo era da farra, das festas, das paqueras, das intermináveis conversas no Rei das Batidas, um bar que existe até hoje na entrada da Cidade Universitária.

Já trabalhava na época como estagiário do Estadão, o principal jornal brasileiro naquele tempo, onde tinha entrado no mesmo mês em que passei no vestibular. Como viajava muito para fazer reportagens, comecei a frequentar cada vez menos a faculdade, que não consegui terminar até hoje.

Agora, ao entrar na sala, onde os alunos do professor Santoro já nos aguardavam, tive uma sensação estranha. Todos em silêncio, comportadamente sentados, pareciam esperar o início de uma missa. Do lado de fora, nenhum sinal ou som fazia lembrar a escola onde estudei quase meio século atrás. A ECA-USP velha de guerra, um dos principais focos dos confrontos dos anos 60, lembrava a sede de uma repartição pública.

Imaginava encontrar um clima bem diferente após as manifestações do Fla-Flu político dos últimos dias. Nos debates de que participei quando era aluno, os palestrantes passavam o maior sufoco. Eram contestados a todo momento. Desta vez, porém, depois de uma hora de conversa, me dei conta de que só Heródoto e eu falamos, sem ninguém nos interromper para discordar de nada. Até comentei isso para dar uma provocada na turma, que ficou só olhando para a minha cara como se eu fosse um extraterrestre.

Com o entusiasmo de sempre, Heródoto falava das maravilhas das novas tecnologias e eu da minha paixão pela reportagem, relembramos fatos históricos, arriscamos previsões sobre o futuro da profissão. Quando chegou a vez das perguntas, ninguém tocou nas profundas crises que o país está vivendo em todas as áreas. Na verdade, nem eram perguntas, mas apenas comentários sobre teorias da comunicação e mercado de trabalho, algo bem limitado ao que costumam discutir em sala de aula. É como se não estivessem preocupados com o que acontece fora das fronteiras da universidade.

À noite, na TV, quando comentamos nosso encontro na ECA, me dei conta de uma diferença fundamental que aconteceu neste meio tempo: somos de uma geração que dedicou boa parte de suas vidas à luta coletiva, queríamos mudar o país e o mundo, e fomos vitoriosos ao ajudar a derrotar a ditadura e a dar início a um processo de distribuição de renda, que tornou nosso país mais livre e menos injusto.

A oposição culpou o PT pela estagnação. Aécio Neves (PSDB) disse que o governo não poderá responsabilizar mais a crise externa. O Brasil teve desempenho pior que de emergentes.

Hoje, noto um comportamento mais egoísta, em que os jovens estão preocupados com a carreira e a próprio sobrevivência, na base do cada um por si e Deus por todos. Em algum ponto, nós falhamos. Não conseguimos repassar para as novas gerações valores como a solidariedade, a ousadia, o inconformismo, a capacidade de sonhar e mudar o estabelecido para a construção de uma sociedade mais generosa. Desapareceu do mapa uma palavra chamada idealismo (não confundir com ideologia).

Pior do que isso: não fomos capazes de criar novas lideranças nem deixamos herdeiros políticos, tanto que o país continua dividido entre FHC e Lula, trinta anos após a redemocratização do país, nem de manter vivo o espírito que mobilizou os movimentos sociais em torno das lutas pela anistia, pela Constituinte, pelas liberdades públicas. Ou alguém sabe quem são esses "líderes" cevados nas redes sociais que apareceram nas manifestações de março? De onde surgiram, quais são suas histórias, que representatividade têm, quais são seus projetos de país? É um mistério.

Somos ao mesmo tempo vitoriosos e derrotados. Ganhamos nas lutas do passado, mas fomos derrotados na construção do futuro. Por isso, chegamos ao final de um ciclo político, com a falência do chamado presidencialismo de coalizão da Nova República, esta zorra federal instalada em Brasília e tão distante do Brasil real, colocando em xeque o futuro da própria democracia representativa pela qual tanto lutamos.

Nas voltas que a vida dá, nos livramos do jugo dos militares e caimos nas mãos do PMDB dos Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Está na hora de começarmos tudo de novo.

Vida que segue.

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U.V.

Manchetes do dia

Sábado 28 / 03 / 2015

O Globo
"PIB cresce 0,1%, e país adia recessão para 2015"

Levy admite ‘forte desaceleração’ na economia neste início do ano

Investimentos têm pior resultado desde 1999. Consumo das famílias registra 11ª alta seguida, mas analistas preveem queda nos próximos trimestres

A economia brasileira escapou por pouco de ficar no terreno negativo em 2014, quando o PIB subiu 0,1%, segundo o IBGE. Analistas, porém, estimam que já neste trimestre o país enfrentará uma recessão, com o PIB acumulado em 12 meses registrando queda de 0,7%. O ministro Joaquim Levy disse que o país está em “forte desaceleração”.

Folha de S.Paulo
"Sob Dilma, PIB é o pior desde Collor"

Economia do país cresce só 0,1% em 2014 e faz média do primeiro mandato da presidente petista cair para 2,1%

A economia brasileira ficou estagnada em 2014. O PIB, a medida da produção e da renda do país, avançou só 0,1% - o pior resultado desde a retração de 0,2% em 2009, em meio à crise global. 

Apesar da revisão para cima de dados anteriores, feita pelo IBGE, o crescimento médio anual no governo de Dilma Rousseff (PT) não passou de 2,1%, o mais baixo desde os anos Collor.

A derrocada dos investimentos, que caíram 4,4%, na maior queda em 15 anos, a retração de 1,2% da indústria e a desaceleração do consumo das famílias levaram ao fraco desempenho.

Os brasileiros ficaram, em média, mais pobres no ano passado. O avanço da economia não alcançou o crescimento populacional, o que levou o PIB por habitante a recuar 0,7%, para R$ 27.229.

O governo respirou aliviado por ter escapado de uma recessão, mas não comemorou .Segundo o ministro Joaquim Levy (Fazenda), o resultado trará uma forte desaceleração neste ano.

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sexta-feira, março 27, 2015

Reflexões de um gato...


Coluna do Celsinho

Festa aérea: balanço

Celso de Almeida Jr.

No último final de semana, 21 e 22 de março, Ubatuba recebeu os aviadores do 2º Raid Aéreo Sudeste-Nordeste Costa Esmeralda.

Para o evento, foi promovida uma Festa Aérea, instalada no Centro de Convenções vizinho ao aeroporto.

Organizada pelo Aeroclube de Ubatuba e o Núcleo Infantojuvenil de Aviação-NINJA, a festa gerou várias observações, apontadas pelos principais articuladores, que, para efeito didático,  compartilho algumas com os amigos leitores.

Vamos lá... 

1 - As crianças e jovens -principal objetivo - ficaram felizes e tiveram contato com a cultura aeronáutica e, certamente, vocações profissionais foram inspiradas.

2 - A população de Ubatuba  "descobriu" que tem à sua disposição um equipamento social chamado Centro de Convenções.

3 - Os pilotos gostaram da recepção, mencionando querer voltar com familiares para fazer turismo na cidade.

4 - Ubatuba passou a dispor de um portão que possibilita a integração do Centro de Convenções com o Aeroporto, o que será útil para outros eventos.

5 - Foi dada utilidade para uma área remota do sítio aeroportuário, atrás dos hangares. Foi a primeira vez que diversos aviões foram acomodados naquele espaço garantindo a visitação pública com segurança.

6 - Apesar de alguns jovens exercitarem a cidadania, como voluntários, sentimos a ausência de mais adultos com espírito solidário e altruísta para compor todas as equipes necessárias para divisão do grande trabalho. Há muita gente com conhecimento e potencial que pode colaborar e se apresentar como voluntário para os próximos eventos. Estamos nos organizando para aperfeiçoar esta mobilização.

7 - Pais se integraram com seus filhos, participando das atividades no pátio de aviões e nas atrações internas no salão do Centro de Convenções.

8 - Foi possível dimensionar a importância da rua de acesso ao Centro de Convenções e homenagear a memória de Lia de Barros, incentivadora do progresso turístico da cidade.

9 - O Núcleo Infantojuvenil de Aviação - NINJA - se tornou conhecido para muita gente, mostrando que pode oferecer algo positivo para crianças e jovens da cidade. Consolidou, ainda, a parceria com o Kerovoar, que produz aviõezinhos para o público infantil e suas famílias. O Aeroclube de Ubatuba ganhou visibilidade e mostrou ser uma instituição aberta, voltada para a comunidade.

10 - A disponibilidade de equipe de voluntários especialistas em manutenção solucionou problemas elétricos no evento, dando suporte aos estandes e esteve com ferramentas e equipamentos à disposição para eventuais intervenções mecânicas nas aeronaves (o que não foi necessário).

11 - As ações proativas do Instituto Salerno-Chieus e seus dirigentes, que trabalharam com afinco para que fosse possível a boa recepção, buscando apoio no comércio local para oferecer alimentação aos escoteiros e apoiadores. Organizou, ainda, o cerimonial de inauguração da rua Lia de Barros, além da levar a exposição Memória da Gente, que encantou os visitantes.

12 - O destaque para colaboradores: Supermercado Paulista, Varejão Santa Rita, Casa Fernandes, Movéis Teixeira Leite e Ideias Estúdio de Comunicação.

13 - O apoio fundamental da Comtur e da prefeitura, com a retaguarda de outras secretarias municipais. A participação da retreta "Maestro Pedrinho", mantida pela Fundart, encantou os visitantes.

14 - A participação da Guarda Mirim de Ubatuba, do Grupo de Escoteiros do Ar Aviação do Exército, do Curso de Ciências Aeronáuticas da Unitau, do Grupo Bless de sobrevivência no mar e selva, do Kerovoar, do Colégio Dominique, do Clube de Castores, do Serviço Regional de Proteção ao Voo da FAB e diversos colaboradores especialistas em aviação, garantindo atividades para o público, especialmente no domingo, quando as aeronaves expostas precisaram partir mais cedo, em função do mau tempo.

15 - A estratégica colaboração da Polícia Militar que, entre outras ações, cedeu refeitório e alojamentos para escoteiros e organizadores.

Como se vê, o saldo foi bastante positivo.

Agora, desde já, devemos iniciar um amplo processo de mobilização e capacitação de voluntários, garantindo para as próximas festas um número maior de colaboradores. Tal retaguarda permitiria estender as atividades para mais dias, atraindo mais público, mais visitantes, mais turistas, o que é muito bom para a economia local.

Passo a passo, chegaremos lá!

Vamos em frente...

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Dominique

Opinião

Os robôs abandonam o barco

Gabeira
O documento que vazou do Planalto falando dos robôs usados nas redes sociais me fez lembrar de 2010. Foi a última campanha que fiz no Rio de Janeiro. Na época detectamos a ação de robôs, localizamos sua origem, mas não tínhamos como denunciar. Ninguém se interessou.

Os robôs eram uma novidade e, além do mais, o adversário não precisou deles para vencer. Tinha a máquina e muito dinheiro: não seriam mensagens traduzidas, grosseiramente, do inglês – contrataram uma empresa americana – que fariam a diferença. Essa campanha de 2010 pertence ao passado e só interessa, hoje, aos investigadores da Operação Lava Jato.

Os robôs abandonaram Dilma Rousseff depois das eleições. E o Palácio dá importância a isso. Blogueiros oficiais também fazem corpo mole em defendê-la, por divergências políticas. Isso confirma minha suposição de que nem todos os blogueiros oficiais são mercenários. Há os que acreditam no que defendem e acham razoável usar dinheiro público para combater o poderio da imprensa.

Vejo três problemas nesse argumento. O primeiro é uma prática que se choca com a democracia. O segundo, o governo já dispõe de verbas para fazer ampla e intensa propaganda. E, finalmente, Dilma tem todo o espaço de que precisa. Basta convocar uma coletiva e centenas de jornalistas vão ao seu encontro. Se Dilma quiser ocupar diariamente cinco minutos do noticiário nacional, pode fazê-lo. O chamado problema de comunicação do governo lembra-me O Castelo, de Kakfa. A porta sempre esteve aberta e o personagem não se dá conta de que a porta está aberta.

O problema central é que Dilma não sabe tocar esse instrumento. Todos os presidentes da era democrática sabiam. Lembro-me apenas do marechal Dutra, no pós-guerra, mas era muito criança. Falava mal, porém fez carreira militar, era um marechal, que comprou muita matéria plástica. Mas era um outro Brasil comparado com o avanço democrático e a onipresença do meios de comunicação.

Os robôs que abandonaram o barco não me preocupam. Esta semana parei um pouco para pensar na terra arrasada que o PT deixará para uma esquerda democrática no País. Não só pelo cinismo e pela corrupção, pelas teses furadas, mas também pela maneira equivocada de defender teses corretas. Ao excluir dissidentes cubanos, policiais brasileiros, opositores iranianos da rede de proteção, afirmam o contrário dos direitos humanos: a parcialidade contra a universalidade.

Algo semelhante acontece com a política sobre os direitos dos gays, que apoio desde que voltei do exílio, ainda no tempo do jornal Lampião.

Ao tentar transformar as teses do movimento numa política de Estado, chega-se muito rapidamente à desconfiança da maioria, que aceita defesa de direitos, mas não o proselitismo. Tudo isso terá de ser reconstruído em outra atmosfera. Será preciso uma reeducação da esquerda para não confundir seus projetos com o interesse nacional.

Isso se aprende até nas ruas, vendo o desfile de milhares de bandeiras verdes e amarelas. Na sexta-feira 13 houve um desfile de bandeiras vermelhas. Essa tensão entre o vermelho e o verde-amarelo é expressão pictórica da crise política.

Se analisamos a política externa do período, vemos que o Brasil atuou lá fora como se sua bandeira fosse vermelha. Ignora a repressão em Cuba e na Venezuela, numa fantasia bolivariana rejeitada pela maioria do País.

Discordo de uma afirmação no documento vazado do Planalto: o Brasil vive um caos político. Dois milhões pessoas protestam nas ruas sem um incidente digno de registro. 

Existe maturidade para superar a crise, sem violência.

Bem ou mal, o Congresso Nacional funciona. O caos não é político. É um estado de espírito num governo e num partido que ainda não compreenderam seu fim. Nada mais cândido que a sugestão do documento: intensificar a propaganda em São Paulo.

Com mais propaganda, mais negação da realidade, o governo contribui para aumentar o som do panelaço. E exige muita maturidade da maioria esmagadora que o rejeita.

Li nos jornais a história de um deputado no PT reclamando de ter sido hostilizado em alguns lugares públicos. Se projetasse o que virá no futuro, teria razões para se preocupar.

A crise econômica ainda vai apresentar seus efeitos mais duros. Um deles é o racionamento de energia. Sem isso, acreditam os técnicos, não há retomada do crescimento em 2016. Como crescer sem dispor de mais energia?

As investigações da Lava Jato concentram-se no PT. Muitos depoimentos convergem para inculpar o tesoureiro João Vaccari Neto. Li que uma das saídas do partido seria culpar o tesoureiro, uma versão petista de culpar o mordomo.

Um governo que recusa a realidade, crise econômica que caminha para um desconforto maior e o foco da investigação da Lava Jato no PT são algumas das três variáveis de peso que conduzem a uma nova fase.

Diante desse quadro, não me surpreende que os robôs estejam pulando do barco do governo. Apenas confirmam minha suspeita de que se tornam cada vez mais inteligentes.

Eles continuam à venda no mercado internacional. O secretário da Comunicação recomendou ao governo dar munição a seus soldados na internet, Lula ameaçar com o exército de Stédile. Um novo exército de robôs seria recebido com uma gargalhada nas redes sociais.

Juntamente com os robôs, Cid Gomes saltou do barco. Ao contrário dos robôs, seu cálculo é político. Superou em 100 a marca de Lula sobre os picaretas no Congresso. Preservou-se com os futuros eleitores.

Mas, e aquela história da educação como o carro-chefe do projeto de Dilma? Confusão entre os estudantes que não recebem ajuda e o ministro contando picaretas no Congresso.

É tudo muito grotesco. Os partidos querem ver Dilma sangrando. Além de ser muito sangue o que nos espera pela frente, é preciso levar em conta que, de certa maneira, o Brasil sangra com Dilma. Arrisca-se a morrer exangue.

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U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 27 / 03 / 2015

O Globo
"PF desvenda fraude fiscal de R$ 19 bi"

Empresa de Jorge Gerdau, Banco Safra e ex-secretário da Receita são investigados

Companhias pagavam propina a conselheiros de órgão do Ministério da Fazenda que julga recursos contra multas

A PF iniciou a operação Zelotes para desarticular uma organização suspeita de fraudar decisões em órgão da Fazenda que julga recursos a multas aplicadas pela Receita Federal. Os desvios podem chegar a R$ 19 bilhões. Os envolvidos pagavam propina para que as multas fossem reduzidas ou eliminadas. Entre os investigados estão uma das empresas de Jorge Gerdau, o Banco Safra e o ex-secretário da Receita Otacílio Cartaxo, além de Francisco Maurício Rebelo de Albuquerque Silva, pai do deputado Eduardo da Fonte (PP -PE), líder do PP , investigado pela Lava-Jato.

Folha de S.Paulo
"PMDB quer fixar prazo para Dilma indicar ministro do STF"

Propostas passam ao Congresso prerrogativas presidenciais como a nomeação de chefes de agências

Principal aliado de Dilma, o PMDB apoia proposta de emenda à Constituição com prazo para o presidente indicar ministros do STF. Se não o fizer, a prerrogativa passa ao Senado, informam V era Magalhães e Paulo Gama. Indicações a cargos no Judiciário, no Ministério Público e em agências reguladoras são direitos presidenciais. A nova demonstração de força tem a simpatia de senadores e de Eduardo Cunha, presidente da Câmara. Peemedebistas encapam emenda de Blairo Maggi (PR-MT) que dá 90 dias para nomeações ao STF. O líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira, vai propor o mesmo prazo para novos diretores de órgãos regulatórios. Para o vice-presidente Michel Temer (PMDB), a pretensão do Congresso pode ferir a independência dos Poderes. Os apoiadores discordam e argumentam que Dilma é quem interfere no Judiciário ao deixar “um vácuo”. A cadeira de Joaquim Barbosa está vaga há oito meses. O limite de tempo agrada a ministros do Supremo, como Marco Aurélio Mello e Gilmar Mendes, que cita a participação do Judiciário alemão em nomeações.

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quinta-feira, março 26, 2015

Dominique

Opinião

Impeachment

Antonio Prata
No dia 25/8/1999, primeiro ano do segundo mandato do FHC, meu pai, Mario Prata, que tinha votado no Lula, publicou no "Estadão" a crônica "UNE ou desune". Cito abaixo alguns trechos.

"Eu, a princípio, achei que tinha lido errado. Mas li de novo. O erro não era meu. Era de um moleque de 22 anos. (...) Ele é o novo presidente da União Nacional dos Estudantes. Sabe qual é a meta dele? Derrubar o Fernando Henrique Cardoso. (...) Ir pra rua e derrubar o presidente. (...) Será que esse moleque (...) sabe o que a UNE fez durante anos contra a ditadura para agora, finalmente, a gente colocar lá o Fernando Henrique? (...) Eu posso até não concordar com o nosso presidente. Mas vivemos numa democracia. (...) Você não viveu a ditadura, menino. Dê graças a Deus por termos o Fernando Henrique como nosso presidente. É um homem digno, íntegro, honesto e não mata estudante. (...) Se está errando aqui ou ali não é de propósito. (...) Foram muitos mortos, moleque, para conseguirmos a democracia."

No mesmo dia 25, na coluna Joyce Pascowitch, na Folha: "Pode haver nos próximos dias uma revoada de políticos que apoiam o governo para partidos de oposição (...)." "A pedido do próprio Palácio do Planalto, o mago das pesquisas do PSDB [Antonio Lavareda] tem dado várias entrevistas. Tudo para explicar que existe um outro lado das pesquisas de opinião -a população não estaria assim tão insatisfeita com a performance do presidente."

No dia seguinte, 26 de agosto de 1999, a oposição faria em Brasília a Marcha dos 100 mil, gritando "Fora, FHC!". Brizola pregaria a renúncia do presidente e do vice e a convocação de novas eleições. MST e CUT exigiriam impeachment. "O líder do maior partido da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), disse no Rio que o objetivo do movimento é pedir a abertura de uma CPI para apurar suposto crime de responsabilidade de FHC na privatização das teles. 'Pode-se até chegar ao impeachment, a partir do que for apurado pela CPI'", publicou a Folha.

Neste domingo, a mesma história será reencenada, mas com os atores invertendo-se nos personagens. Manifestantes do centro à direita (Dez mil? Cem mil? Dois milhões?) vão às ruas pedir a cabeça da petista. Eu venho ao jornal repetir as palavras do meu pai: "Posso até não concordar com o [a] nosso [a] presidente. Mas vivemos numa democracia".

É inegável que há muita coisa podre em Brasília -e em São Paulo, no Rio, em Birigui e em Santa Rita do Passa Quatro. Somos um país corrupto, da quitanda ao agrobusiness. O petrolão, contudo, está sendo investigado. O Ministério Público é independente. A imprensa é livre -livre, inclusive, para ter o rabo preso com quem bem entende.

Veja: após o mensalão, o presidente do PT, o tesoureiro e o ministro da Casa Civil foram julgados pelo STF (um colegiado cuja maioria foi indicada durante os anos petistas) e mandados pra cadeia. Se isso é a "venezuelização" do Brasil, não precisamos mais nos preocupar com a Venezuela.

Protestos contra o governo são justos e não só dor de cotovelo da "elite branca", mas enquanto não houver provas que envolvam a presidente com a corrupção, qualquer um que falar em impeachment não passará, como disse há 16 anos nosso grande cronista, de um "moleque".

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 26 / 03 / 2015

O Globo
"Novo partido agrava crise entre PMDB e Dilma"

Peemedebistas acusam o governo de manobrar para permitir criação do PL

Kassab pede registro da sigla no TSE na antevéspera de Dilma sancionar lei mais restritiva

Aliado em constante confronto com o governo, o PMDB considera uma manobra do Planalto a atitude do ministro das Cidades, Gilberto Kassab, de protocolar no TSE o pedido de criação de um partido, o PL. Para os peemedebistas, a presidente Dilma teria estimulado a decisão de Kassab, para que a nova sigla não seja afetada pelas regras previstas na lei que ela sancionou ontem. A norma, que restringe a criação de novas legendas, só afetará aquelas criadas após a sua sanção. O PMDB vê no PL uma ameaça e contestará o pedido na Justiça Eleitoral.

Folha de S.Paulo
"Supremo manda municípios e Estados quitarem precatórios"

Dívidas judiciais,que somam R$ 94bilhões, devem ser pagas até 2020, determina tribunal

O STF (Supremo Tribunal Federal) determinou que as dívidas impostas por decisões judiciais — conhecidas como precatórios — que atualmente estão em atraso terão de ser inteiramente quitadas pelos Estados e pelas prefeituras até 2020. O Conselho Nacional de Justiça estima em aproximadamente R$ 94 bilhões os precatórios estaduais e municipais. No governo paulista, eles somam R$ 17,4 bilhões, ou 12,9% da receita anual. DF (22,7%) e RS (16%) também têm dívidas altas. A decisão do STF deve afetar a capacidade de investimento dos endividados. Na Prefeitura de São Paulo, o valor devido é de 41,6% da receita (R$ 15,6 bilhões). O governo federal tem dívida em precatórios, mas sem atrasos acumulados. Conforme decidiu o STF, a partir de 2020, como saldo liquidado, as dívidas reconhecidas até julho terão de entrar no orçamento do ano seguinte dos Estados e municípios, para evitar novo endividamento. O índice IPCA-Ecorrigirá os títulos. O STF manteve a obrigação de Estados e municípios destinarem ao menos 1% a 2% das receitas líquidas até 2020 para quitar precatórios. Quem descumprir pode ser punido. No julgamento, apenas um ministro se posicionou contra as regras.

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quarta-feira, março 25, 2015

Dominique

Opinião

Eternos retornos

João Pereira Coutinho
Assisti recentemente ao filme "Ida", dirigido por Pawel Pawlikowski e vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Gostei. Esteticamente deslumbrante, a obra apresenta-nos uma noviça que, antes de tomar votos no convento, conhece a história do seu passado. E descobre que, afinal, é judia. Mais ainda: a família morrera na Segunda Guerra Mundial e imediatamente depois de 1945.

Essa última afirmação é a mais polêmica de todas: depois de 1945? Precisamente. Na Polônia (mas não apenas na Polônia), os crimes antissemitas continuaram a ser praticados pelos nativos. Sobretudo quando os judeus sobreviventes tinham a ambição legítima de retornar às suas casas entretanto ocupadas.

O filme retrata isso quando Ida, na companhia de uma tia, visita a casa paterna –e os novos habitantes reagem com indisfarçável desconfiança e mesmo hostilidade. Não admira que o filme tenha provocado discussões mil na Polônia.

"Ida" transporta essa desconfortável verdade: o antissemitismo não terminou com a libertação de Auschwitz, tal como afirma Jeffrey Goldberg em artigo obrigatório para a revista "The Atlantic". A Polônia do pós-guerra é um exemplo. Mas a Europa atual é um exemplo ainda maior.

O primeiro mérito do artigo está no fato de Goldberg não se prender apenas aos crimes antissemitas mais recentes e midiáticos –a chacina de Paris, o tiroteio em Copenhague.

O problema é mais vasto e uma das formas de olhar para ele é com números: na França, a comunidade judaica representa 1% da população total (qualquer coisa como 475 mil pessoas). Em 2014, esse 1% foi vítima de mais de metade dos ataques racistas em todo país.

Será de espantar que 7.000 judeus franceses tenham decidido partir no mesmo ano para Israel –e que, em 2015, a cifra possa até dobrar?

Não há espanto. Jeffrey Goldberg defende que o "novo" antissemitismo, ao contrário do velho, é hoje uma combinação aparentemente bizarra –uma mistura de "judeofobia muçulmana" com "neonazismo" tradicional.

Não contesto essa mistura. Mas contesto a "novidade": um conhecimento da história do Oriente Médio, e em particular do Mandato Britânico para a Palestina entre as duas Guerras Mundiais, já apontava nesse sentido.

Amin al-Husseini, o famoso "mufti" de Jerusalém que os ingleses acreditavam ser o agente da paz na conflitualidade entre árabes e judeus, era pessoa íntima do Terceiro Reich.

Terminado o conflito em 1945, foi considerado criminoso de guerra. A fuga para o Egito salvou-o de um destino semelhante ao de muitos nazistas em Nuremberg. Histórias que parecem novas são, na verdade, bem antigas.

E o autor do artigo mostra-nos isso, sobretudo quando fala da Suécia. Desconhecia a vida negra, negríssima, que os judeus do país levavam. Mas o caso da cidade de Malmö, analisado por Goldberg, merece um capítulo à parte.

Com 300 mil habitantes, Malmö tem 50 mil muçulmanos –e uma comunidade judaica com 1.000 pessoas apenas. Mas nem essa insignificância demográfica impede que o rabino da sinagoga local, Shneur Kesselman, tenha sofrido 150 ataques nos últimos dez anos –verbais ou físicos. Fugir, para ele, está fora de questão. Isso seria uma vitória dos antissemitas.

Admiro a coragem do homem. Mas, aqui entre nós, quem, em juízo perfeito, toleraria 150 ataques em dez anos de existência?

É por isso que, na conclusão do artigo, Jeffrey Goldberg termina com um melancólico otimismo: se ele fosse judeu a viver na Europa, provavelmente pensaria em sair. Mas a grande vantagem dos judeus de 2015 sobre os antepassados de 1933 está na existência do Estado de Israel. Um "bote salva-vidas", como ele diz, e que teria mudado a história se já existisse em 1939.

Difícil negar. Mas também não deixa de ser arrepiante a forma como esse "bote salva-vidas", mais de meio século depois, nem a sua própria salvação tem garantida.

E se o leitor pensa que falo de um Irã com capacidade nuclear, garanto que não preciso ir tão longe. Aqui ao lado, a Universidade de Southampton (Reino Unido) prepara-se para organizar em abril uma "conferência" de três dias para questionar a "legitimidade" da existência de Israel.

É o eterno retorno: primeiro, questiona-se a existência; depois, alguém irá tratar dela por outros métodos. 

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U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 25 / 03 / 2015

O Globo
"Câmara derrota Dilma e aprova redução de dívidas"

Presidente diz que não pode abrir mão de receita de estados e municípios

Governo federal alega que renegociação ameaça o ajuste fiscal; projeto para alterar o cálculo dos débitos foi aprovado em votação-relâmpago, por 389 votos a favor e duas abstenções, e agora será analisado pelo Senado

Em votação-relâmpago, a Câmara reagiu à decisão do governo Dilma de adiar a renegociação das dívidas de estados e prefeituras e impôs nova derrota à presidente. Por 389 votos a favor e duas abstenções, os deputados aprovaram projeto que obriga a União a cumprir lei, do ano passado, que reduz o passivo das gestões estaduais e municipais. Antes da votação, Dilma afirmou que o governo não tem condições de fazer essa despesa, para não comprometer o ajuste fiscal. O projeto deve ser votado hoje no Senado e, depois, segue para sanção presidencial. Os prefeito s Eduardo Paes (PMDB), que ganhou na Justiça o direito de reduzir a dívida do Rio, e Fernando Haddad (PT), de São Paulo, criticaram o governo.

Folha de S.Paulo
"PMDB pressiona Dilma com dívida dos Estados"

Principal aliado do Planalto defende norma que pode atingir ajuste fiscal

Com articulação entre os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha, o PMDB deve forçar o governo a renegociar, em 30 dias, dívidas de Estados e municípios com juros mais baixos. A ação atingiria o ajuste fiscal, com perda de arrecadação. A lei que reduziu esses endividamentos foi aprovada em 2014, mas dependia do Executivo. O Planalto protelou a regulamentação para adiar a entrada em vigor da norma, mas o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB) obteve na Justiça liminar para aplicação imediata da lei. A presidente Dilma afirmou não ser possível assumir o impacto, estimado no ano passado em R$ 1 bilhão somente em 2015. O governo anunciou que vai recorrer. O ajuste fiscal proposto foi criticado por Renan, que defendeu manter a desoneração da folha salarial. Apesar da tensão, PMDB fez um aceno ao governo ao retirar da pauta da Câmara um projeto que dava o aumento real do salário mínimo para aposentados. Em troca, Dilma enviou medida provisória que mantém até 2019 a regra de reajuste do mínimo.

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terça-feira, março 24, 2015

Dominique

Opinião

Se correr o bicho pega

Ferreira Gullar
Nestas últimas semanas –antes das manifestações do dia 15– a sensação que tive, como espectador da atual política brasileira, foi de estar assistindo a uma chanchada.

Por exemplo, não poderia definir de outro modo o depoimento de José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, na CPI da Câmara para investigar os envolvidos na operação Lava Jato.

Antes dele, depôs Eduardo Cunha, do PMDB, que se prontificara a ser interrogado na mesma CPI.

Falou muito à vontade, dizendo-se vítima de perseguição por parte do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Não apresentou nenhuma prova do que afirmava, mas contou com o apoio unânime dos integrantes da comissão, sem distinção de partidos: do PSDB ao PMDB, do PT ao PSOL, todos teceram elogios ao deputado que é, por coincidência, presidente da Câmara de Deputados. Segundo alguns deles, o objetivo de Janot seria desmoralizar o Congresso nacional. Por que razão, ninguém sabe.

Mas hilariante mesmo foi o depoimento de Gabrielli, que começou tecendo intermináveis louvores à Petrobras, que estaria no auge de sua prosperidade. Disse isso de cara limpa, muito embora todos saibam que o valor da empresa tem caído no mercado, e sua credibilidade vem sofrendo graves perdas no plano nacional e internacional.

A impressão que tive, ao ouvi-lo, foi a de que se referia a uma outra empresa, por todos desconhecida.

Ele falava e eu mal acreditava no que ouvia, especialmente pela maneira desinibida com que afirmava coisas que nenhuma relação tinham com o que diariamente informa a imprensa e afirmam os especialistas na matéria.

A única explicação para tal atitude surrealista só pode ser uma firme disposição de desconhecer a realidade e enganar abertamente a opinião pública.

Sucede que, àquela altura do depoimento, ele ainda não havia atingido o ápice de seu descompromisso com a verdade dos fatos.

Parece-me que o atingiu quando lhe perguntaram se, como presidente da Petrobras, nada sabia das concorrências fraudadas e das propinas que eram divididas entre altos funcionários da empresa e representantes dos partidos políticos ligados ao governo, como o PT, o PMBD e o PP.

Ele sorriu ironicamente e garantiu que, na estatal, não se sabia disso –mesmo porque a tal corrupção sistêmica, apontada pelos delatores, nunca aconteceu.

E sabem por que nunca houve? Porque a fiscalização, feita por um órgão da própria Petrobras e por órgãos internacionais de alta eficiência, nunca captou nenhum sinal de que estivessem ocorrendo falcatruas na empresa.

Ora, se tais organizações nada detectaram é porque nada havia.

Eu estava perplexo com o que ele afirmava e ainda mais pelo à vontade como o fazia. Conforme apurou a operação Lava Jato, graças à delação de Paulo Roberto Costa e Pedro Barusco, centenas de milhões de reais foram distribuídas como propinas, inclusive a representantes de partidos como João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, ou seja, do mesmo partido de Gabrielli.

Só Barusco devolveu mais de R$ 182 milhões roubados da Petrobras, mas, de acordo com Gabrielli, se a fiscalização nada captou, nada foi roubado.

A chanchada, porém, não acaba aí. Na sexta-feira, dia 13, isto é, na semana passada, a CUT decidiu mobilizar os trabalhadores para manifestações públicas, em todo o país, em defesa da Petrobras.

Se realmente fosse isso, teria de protestar contra aqueles que a saquearam, ou seja, os funcionários nomeados e mantidos por Lula e os partidos que compõem o governo petista. Ledo engano: a manifestação foi contra os que denunciaram a corrupção, porque dizem, como Gabrielli, Lula e Dilma, que tudo foi inventado para criar condições de privatizá-la.

Como se não bastasse, a CUT dizia protestar contra o ajuste fiscal, que prejudica os trabalhadores, mas, ao mesmo tempo, defende Dilma, que autorizou o ajuste.

É chanchada ou não é? Dilma, para se eleger, prometeu uma coisa e, eleita, faz o contrário. Lula, que patrocinou o saque à Petrobras, faz comício para defendê-la.

Dilma, que negava a existência da corrupção, passou a se dizer responsável por sua apuração. Esse pessoal se esqueceu de que é mais fácil pegar um mentiroso do que um coxo. 

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U.V

Manchetes do dia

Terça-feira 24 / 03 / 2015

O Globo
"Paes vai à Justiça contra Dilma para reduzir dívida"

Decisão da presidente de adiar alívio de caixa abre crise com aliados

Ajuste fiscal faz governo protelar aplicação da lei que muda cálculo da dívida de prefeituras e estados

A decisão da presidente Dilma de adiar a negociação das dívidas de prefeituras e estados com a União abriu nova crise entre governo e aliados. A lei que altera o cálculo das dívidas foi aprovada ano passado, mas o Planalto decidiu retardar sua aplicação, em nome do ajuste fiscal. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, entrou na Justiça para fazer valer a lei. Outros prefeitos e governadores devem fazer o mesmo. A situação mais delicada é a de São Paulo, administrada pelo petista Fernando Haddad. O governo estuda ainda elevar impostos de bebidas como uísque, vinho e vodca e cobrar IR de lucros de multinacionais no país.

Folha de S.Paulo
"Agência S&P mantém selo do Brasil de bom pagador"

Avaliação é que ajuste fiscal passará no Congresso; governo comemora

A agência internacional de classificação de risco Standard & Poor’s manteve a nota de grau de investimento do Brasil, uma espécie de selo de bom pagador. Segundo comunicado, a nota continua a mesma — na última faixa antes de grau especulativo—, mas com perspectiva estável. A S&P disse que a decisão deve-se à expectativa de que a presidente Dilma manterá o apoio ao ajuste fiscal da equipe econômica e que as medidas serão aprovadas no Congresso. Para a agência, a credibilidade do governo será “gradualmente restaurada”. O anúncio é um alento para o Planalto. Desde a retirada pela Moody’s da nota da Petrobras em fevereiro, havia um temor de que a do país fosse reduzida. O corte levaria à saída de recursos, já que a avaliação serve de baliza para investimentos. A equipe econômica recebeu a notícia com alívio e certa de que ganhou um trunfo. A Fazenda considera que não precisará promover tantas concessões na negociação com congressistas. A nota da Sete Brasil, parceira da Petrobras no pré-sal, foi rebaixada para “calote seletivo”.

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segunda-feira, março 23, 2015

Dominique

Opinião

Encrencas da leviandade megalômana

Elio Gaspari
O governo está diante de duas encrencas. Pela amplitude, a maior é a do sistema de financiamento dos estudantes de faculdades privadas. Pelo valor, é a da empresa Sete Brasil, que fabricaria sondas para a Petrobras. Ambas foram produto da irresponsabilidade do governo e do oportunismo de empresários que se associaram em empreendimentos condenados ao fracasso, certos de que, na hora da conta, a patuleia seria chamada para cobrir o buraco.

Começando pelo Fies. Em 2010 o ministro Fernando Haddad mudou o acesso aos financiamentos da garotada. Baixou os juros, afrouxou as fianças e criou um sistema pelo qual um estudante que tirasse zero (repetindo, zero) na prova de redação poderia conseguir o financiamento. Com isso floresceram empresas bilionárias. Qualquer empresário sério saberia que essa conta não fechava, pois o dinheiro emprestado não retornaria no volume necessário.

O governo deu-se conta da encrenca e criou novos critérios, todos razoáveis. Centralizará a concessão dos empréstimos, dará prioridade às escolas bem avaliadas pelo MEC e exigirá a nota mínima de 450 pontos do Enem para o acesso ao programa. Quem tirar zero na redação cai fora. O que em 2010 parecia ser uma solução era um problema, e o que hoje parece ser um problema é uma solução.

As mudanças terão duas consequências: quem não tem nota não entra, e quem não oferece ensino de qualidade não arrecada.

Os interesses que se atrelaram à bolsa da Viúva apresentam as mudanças do Fies como um prejuízo social. Falso, elas é que se meteram num prejuízo fiscal. Tanto é assim que, para manter a clientela, começaram a criar financiamentos laterais com a rede bancária, onde não se brinca com fiança. Antes das mudanças de 2010 a rede privada trabalhava num modelo de financiamento privado. Veio o maná do MEC e nele refastelou-se. Agora, começam a estudar um novo caminho, talvez misto. Ele existe. Uma estudante de Chicago, filha de um zelador, casou-se com outro negro da classe média, educado pelos avós. Deram-se bem na vida e diplomaram-se em Harvard. Michelle e Barack Obama levaram 25 anos para quitar os empréstimos de US$ 80 mil dólares que tomaram para concluir seus estudos.

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U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira 23 / 03 / 2015

O Globo
"Metade da lista de investigados já é alvo de ações"

Dos 50 nomes levados ao STF, 24 respondem a inquérito ou são réus em processos criminais ou de improbidade

Casos vão de delitos eleitorais e irregularidades em licitações a embriaguez ao volante e agressão a ex-mulher . O presidente do Senado, Renan Calheiros, é um dos que têm pendências judiciais

Dos 50 políticos investigados na Operação Lava-Jato, cujos nomes foram encaminhados ao Supremo Tribunal Federal, 24 são alvo de outros inquéritos no próprio STF ou réus em processos criminais ou de improbidade administrativa. Estão nessa situação, por exemplo, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB- AL), e os ex-ministros Fernando Bezerra (PSB-PE) e Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). A Fundação Getulio Vargas estima que um inquérito como o da Lava-Jato leve, em média, dois anos só para se tornar ação penal.

Folha de S.Paulo
"Roubo sobe mais na periferia de SP, que tem rotina afetada"

Com menos polícia e aumento de poder aquisitivo, região mais pobre tem escolta para mulheres e ‘caixinha’ do ladrão

Com menos policiais e um aumento do poder aquisitivo da população, a periferia de São Paulo puxou a maior alta consecutiva de roubos na cidade desde 2001, início da série histórica de estatísticas. Nas regiões mais pobres, mulheres agora são escoltadas até pontos de ônibus, lojistas criaram “caixinha” para ladrões e há locais fixos de desova de objetos roubados. Segundo dados da polícia, os dez distritos paulistanos mais pobres tiveram 18.972 crimes desse tipo em 2014, aumento de 37% em relação a 2013. Nas áreas mais ricas, o aumento foi de 19,1% (15.030 roubos em 2014). Para Rafael Alcadipani, professor da FGV, esses dados derrubam “o mito de que são os ricos que sofrem mais com a violência”. Criminosos também passaram a atuar em áreas próximas às suas residências. Especialistas atribuem, em parte, as mudanças na periferia a um novo perfil dos assaltantes, jovens e usuários de drogas, e ao menor contingente policial. O governo do Estado diz que, por segurança, não informa a distribuição dos policiais na cidade.

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domingo, março 22, 2015

Dominique

Opinião

Que país é esse?

Gabeira
Depois das manifestações de domingo passado, o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque foi preso no Rio. A operação tem o nome “Que país é esse?”. É uma alusão à frase de Duque quando foi preso pela primeira vez: que país é esse? Mesmo sem saber ainda que país é esse, na prisão de agora houve uma certeza temporal: era o primeiro dia depois que milhões de brasileiros foram para as ruas contra a corrupção, gritando “Fora Dilma”, “Fora PT”.

A reação do governo foi patética. Desde o princípio, fonte oficial espalhou que o movimento não tinha foco, era dispersivo.

Só mais tarde, na entrevista dos dois ministros, um de barba, outro sem barba, um deles reconheceu que havia uma luta contra a corrupção. E veio com a história de que ninguém mais do que o governo do PT combateu a corrupção.

Interessante é que, na coletiva, não se perguntou: como um movimento contra a corrupção pode, ao mesmo tempo, pedir a queda de um governo que a combateu mais do que tudo?

Volto à questão do foco. Quem trabalha com imagem, pelo menos, sabe que não é uma questão de muita controvérsia. Dez pessoas diante da imagem desfocada tendem a dizer que ela está fora de foco. O governo desfocou propositalmente as imagens de “Fora Dilma”, “Fora PT”, como se os manifestantes tivessem ido à rua apenas para tratar da corrupção de forma abstrata.

Até pesquisas surgiram para afirmar que as manifestações foram, principalmente, contra a corrupção, e não contra o governo. Como se esses elementos não estivessem entrelaçados e pudessem ser servidos em compartimentos estanques.

Se levarmos mesmo a sério tudo o que dizem, passaremos todo o dia batendo panelas. Dilma apareceu na versão sandálias da humildade. O tom era o mesmo. A mesma arrogância: nossa política econômica foi correta, posso ter errado na dose, cometi um pecadinho com o financiamento estudantil. Só faltou dizer: muito apressada, esqueci de fechar a torneira do banheiro por um minuto. É muito difícil sair de uma crise quando não se leva em conta a realidade. É impossível a esquerda manter sua base com um ajuste econômico rigoroso. É impossível conquistar os adversários com ajuste econômico porque seu tema também é a corrupção.

Correndo por fora de toda a cena de reforma política, a prisão de Renato Duque joga o foco na participação do PT. O tesoureiro João Vaccari já foi indiciado. Promotores demonstraram com cruzamento de datas propinas e doações. E revelaram o mecanismo de lavagem de dinheiro através das contas de campanha.

Renato Duque e João Vaccari negam tudo, disciplinadamente protegem o partido. Mas até quando? Independente do que falem ou deixem de falar, os dados recolhidos até agora indicam que dinheiro do petrolão circulou pelas campanhas de Dilma. Tudo isso trará mais tensão à atmosfera política. O problema é que precisamos de algum tipo de ajuste econômico para não cair mais no buraco.

É um momento em que certas espertezas não podem turvar mais o quadro nebuloso. O presidente da Câmara é investigado no petrolão. O presidente do Senado também, assim como dezenas de parlamentares. Como dizer então que a corrupção está apenas no governo?

O que se pode dizer é que ela está principalmente no governo, que detém, em última análise, o controle da estatal saqueada. O PMDB percebeu o momento do PT e procura ocupar o centro da cena. É uma ilusão achar que uma simples mudança na configuração da aliança possa alterar a crise de legitimidade.

Fernando Henrique e Marina afirmam que o impeachment não é a saída. Mas sua reação revela como a crise é profunda; em termos normais, líderes apontam caminhos; no momento, limitam-se a dizer por onde não se deve ir. Apontar ou rejeitar saídas a médio prazo é quase impossível. Mas há algumas variáveis que podem definir seu curso. A primeira delas é a reação da própria Dilma à sua improvável capacidade de autocrítica e energia para recolocar o governo de pé.

A segunda variável é a do ajuste fiscal, que depende, na verdade, mais do governo do que do próprio Congresso. É quase unânime a ideia de que o ajuste fiscal é uma condição para o crescimento. Mas afirmar que basta para a retomada divide opiniões.

A terceira variável é o curso da Operação Lava-Jato. O que predomina até agora é a negação, apesar de tantas evidências apresentadas pelos promotores. No mensalão, Dilma refugiou-se na condição de presidente para escapar do assunto. Tudo o que aconteceu na Petrobras diz respeito ao seu governo, muitas das propinas podem ter irrigado suas campanhas presidenciais. Nesse caso não cabe nenhum tipo de reinvenção, exceto dizer adeus.

“Que país é esse?” na música da Legião Urbana tem um tom de crítica e desencanto. Outro país pode surgir se tudo for investigado e a sociedade obtiver mudanças imediatas. Quem sabe a energia na mudança política seja o componente que falta para um ajuste econômico necessário?

O ex-ministro da Casa Civil (gestão Lula), hoje em prisão domiciliar após ter sido condenado a dez anos no mensalão, negou as acusações. O PT disse que recebeu doações dentro da lei. 

Original aqui

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U.V.

Manchetes do dia

Domingo 22 / 03 / 2015

O Globo
"No Rio, 70% dos prefeitos são alvo de investigação"

Dos 92 chefes do Executivo municipal, 65 respondem a inquéritos ou ações.

A maioria é acusada de improbidade; 50 já são réus e 13 foram cassados, mas recorreram à Justiça

Levantamento inédito feito pelo GLOBO revela que 65 dos 92 prefeitos do Estado do Rio são investigados. Desses, 50 já são réus e 13 recorreram à Justiça contra a cassação, como revelam Elenilce Bottari, Selma Shimidt e Sérgio Ramalho.

A maioria é acusada de mau uso do dinheiro público. Prefeito de Búzios, André Granado responde a dez ações de improbidade administrativa e foi condenado porque a cidade pagava R$ 250 por cada parafuso reposto na frota de carros do município. Na Baixada, cinco dos 12 prefeitos tem imóvel na Barra. Nelson Bornier, de Nova Iguaçu, usa helicóptero de construtora para ir ao trabalho.

Folha de S.Paulo
"Dirceu recebia parte de propina paga ao PT, afirmam delatores"

Segundo executivos, pagamentos a consultoria abatiam comissões ao partido; ex-ministro nega

Executivos de empreiteiras acusadas de ligação com a corrupção na Petrobras disseram que pagamentos à consultoria do ex-ministro José Dirceu faziam parte da propina cobrada pelo PT.

Ricardo Pessoa, da UTC Engenharia, declarou a investigadores da Operação Lava Jato que os repasses ao petista eram descontados das comissões que sua empresa devia ao esquema.

Representante da Camargo Corrêa afirmou que contratou a consultoria por temer retaliações em negócios com a estatal. Ambos falaram que Dirceu era quem procurava as empreiteiras.

Segundo eles, o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, autorizava que repasses ao ex-ministro fossem abatidos da propina ao partido. Empresas alvo da Lava Jato pagaram R$ 9,5 milhões a Dirceu.

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