sábado, fevereiro 28, 2015

Dominique

Opinião

Lula, Lênin e a Petrobras

Não se sabe se Lula conhece a palavra de ordem com que Lênin impulsionava sua militância: “Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é”

Ruy Fabiano
Até aqui, quando se aborda o escândalo da Petrobras, pergunta-se quem a roubou, quanto e como o fez. A resposta é parcialmente conhecida: o achaque teve o PT no comando, coadjuvado por seus aliados PMDB e PP, e a quantia chegou à estratosférica casa das dezenas de bilhões.

Conhecem-se alguns operadores, empresários cúmplices e os nomes de agentes públicos (parlamentares, governadores, ministros etc.) citados nas delações premiadas. A lista oficial, a ser divulgada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, está sendo aguardada para os próximos dias.

Não se sabe se virá como denúncia ou pedido de abertura de inquérito, o que fará toda a diferença. Se denúncia ao STF e STJ (para o caso de governadores), os citados viram réus; se inquérito, o rito pode ser longo e diluir-se no tempo.

O prejuízo, no balanço não auditado da empresa, tem cifras oficiais: R$ 88,6 bilhões. A ex-presidente Graça Foster disse que foi o que se pôde apurar, mas, aprofundando-se as investigações, “certamente é mais”. Alguns argumentam: mas nem tudo aí é roubo; há também o fator incompetência, incluso na mesma rubrica. Tudo bem. 

Digamos, então, num raciocínio pra lá de moderado, que o fator roubo seja um quarto daquele valor: R$ 22,1 bilhões. Ainda assim, é dinheiro demais, que excede enormemente ambições pessoais e necessidades partidárias.

E aí entra em cena a pergunta que ainda não se fez, mas que inevitavelmente se fará: para onde foi essa grana? Escondê-la é impossível; fragmentá-la de modo a diluir sua rota parece além do talento mesmo de doleiros experimentados.

Outra coisa: como recuperá-la? O ex-gerente Pedro Barusco se dispôs a devolver a parte que lhe coube: US$ 100 milhões (R$ 280,8 milhões ao câmbio de hoje). 

Considerando-se o seu grau hierárquico, é possível especular quanto coube aos de cima.

E quem são os de cima? Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento – que detalhou os percentuais que cada partido da base recebia -, disse que se situava no nível médio. E que respondia a gente bem mais graúda. Alberto Youssef garantiu que Lula e Dilma eram os graúdos maiores: sabiam de tudo.

Lula e Dilma negaram a acusação, mas, por ato falho, já a confirmaram. Dilma, ao comentar o rebaixamento da empresa pela consultoria Moody’s, considerou-a “desinformada”, o que sugere que ela, presidente – e ex-ministra das Minas e Energia, ex-presidente do Conselho Administrativo e ex-chefe da Casa Civil -, tem informações que aqueles consultores não têm. Lula, no espantoso ato de “defesa da Petrobras”, na sede da ABI, no Rio, na terça passada, se disse informadíssimo, o que ninguém duvida.

Palavras suas: “Fui o presidente que mais visitou a Petrobras; tenho mais camisas da Petrobras que o mais velho funcionário da empresa. Fui o presidente que mais inaugurou plataformas”. Ora, com tamanha intimidade com a estatal, e tendo nomeado toda a sua diretoria, seria surpreendente que não estivesse a par de tudo o que lá se passava. Tudo.

Não há como sumirem bilhões e bilhões sem que sejam percebidos, sem que uma rede ampla e sofisticada estivesse em ação. E como uma rede dessa, montada pelo presidente da República - e que incluía aquela que viria a sucedê-lo -, passaria despercebida a ambos? A resposta é desnecessária.

A metáfora do queijo, que ele evocou diante de uma militância entusiasmada (“se o rato está acostumado a roubar um pedaço de queijo, que fará diante de um queijo inteiro?”), equivale a uma confissão. E ainda: roubava-se menos porque havia menos dinheiro; como entrou mais dinheiro na Era PT, roubou-se mais.

Resta saber para onde foi esse dinheiro. Há especulações, que, de tão inusitadas, evocam a clássica teoria da conspiração. Mas a própria cifra envolvida, não constasse ela do próprio balanço da empresa, provocaria o mesmo ceticismo. Ocorre que tudo nesse escândalo é inusitado, embora real. Fala-se, por exemplo – e isso acabará tendo que ser apurado –, que parte dessa fortuna teria abastecido os aliados do Foro de São Paulo, coadjuvantes do projeto da Grande Pátria Socialista.

A Venezuela, por exemplo, sem dinheiro até para comprar papel higiênico, renovou a frota de sua Força Aérea; a mesma Venezuela que, no final do ano passado, por meio de seu ministro para Comunas e Movimentos sociais, Elias Jaua, firmou convênio para treinar a militância do MST – “o exército do Stédile”, que Lula quer ver nas ruas contra os “golpistas”.

Não se sabe se Lula conhece a palavra de ordem com que Lênin impulsionava sua militância: “Acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é”. Como não é exatamente um estudioso de História – e acha que, por aqui, o PT a inaugurou – é possível que compense a ignorância com seu poderoso instinto político. O certo é que, no ato da ABI, seguiu fielmente a lição de Lênin.

Acusou seus opositores de ter feito com a Petrobras tudo o que de fato ele e o PT fizeram. E os xingou de golpistas. Nada menos. FHC comparou o truque à ação de um punguista que, após bater a carteira da vítima, sai gritando “pega ladrão!”. É por aí.

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U.V.

Manchetes do dia

Sábado 28 / 02 / 2015

O Globo
"A conta do ajuste - Imposto sobe ate 150% e indústria teme desemprego"

Efeito da desoneração da folha e anulado. Para Levy, foi ‘brincadeira’ de R$ 25 bi

Alíquota para empresas que pagam contribuição previdenciária sobre faturamento aumenta de 1% para 2,5% e de 2% para 4,5%, dependendo do setor. Ministro alega que alívio não evitou demissões nem elevou contratações

Após ter dado, nos últimos anos, um alívio na folha de pagamentos para 56 setores da indústria, que passaram a pagar a contribuição previdenciária pelo faturamento, o governo voltou atrás e elevou a alíquota dessas empresas em até 150%. Os setores que pagavam 1% do faturamento agora arcarão com 2,5%. Segundo especialistas, a medida anula o alívio fiscal para quase todas as empresas antes beneficiadas que, até então, tinham reduzido seus gastos com esse imposto entre 37,7% e 49,2%, o que estimulava o emprego. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, chamou de "grosseira” a desoneração feita antes: "Essa brincadeira nos custa R$ 25 bilhões por ano, e vários estudos demonstram que ela não tem protegido o emprego". Empresários reagiram e disseram que o aumento da carga tributária vai reduzir a competitividade do setor e levar a corte de vagas. Economistas também veem risco ao emprego.

Folha de S.Paulo
"Dilma sobe tributo em 150% e empresas preveem demissões"

Novo ajuste atinge 127 mil firmas; Levy classifica política atual de desonerações de ‘grosseira’

O governo Dilma publicou medida provisória que aumentara a partir de junho o tributo pago a Previdência por empresas de 56 setores. Empresários preveem que esse novo ajuste das contas públicas gerará demissões. 

Em 2011, o governo alterou a forma de cobrança e reduziu a contribuição paga por 127 mil empresas, que empregam 14,4 milhões de pessoas. Elas passaram a pagar alíquotas de 1% ou 2% sobre o seu faturamento.

Agora, o Ministério da Fazenda elevou as alíquotas em até 150% para economizar R$ 5,4 bilhões neste ano. Empresas poderão optar por voltar ao regime anterior: pagar 20% de contribuição sobre a folha de salários.

Para Paulo Skaf, chefe da federação paulista de indústrias, a mudança eleva custos e reduz competitividade. Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara, diz que a aprovação da medida no Congresso será difícil.

O ministro Joaquim Levy (Fazenda) classificou a desoneração, vitrine da primeira gestão da petista, de “grosseira” e “brincadeira” que deu errado.

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sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Gafanhoto


Coluna do Celsinho

Cooperando

Celso de Almeida Jr.

Conversei com Enrico Bonomo, que há mais de uma década especializou-se na implantação de cooperativas.

Na ocasião, ele atuou num belíssimo projeto de estímulo para este tipo de associação.

A qualidade do trabalho foi reconhecida com a conquista do 7º lugar no concurso "Prêmio Governador Mário Covas", promovido pelo Sebrae, que consagrou os municípios que conseguiram implantar um programa eficiente de geração de empregos via cooperativas.

A cidade lembra do entusiasmo de muitos cooperados que organizaram-se em diferentes núcleos de produção.

Panificação; confecção; fraldas descartáveis; material de limpeza; reciclagem, são alguns dos segmentos que surgiram e logo conquistaram espaço no mercado local.

Vi brilho nos olhos do Enrico quando revelou-me o significado daquelas realizações.

Lamentou que, por muito pouco, não surgiu uma associação maior, que desse suporte para as cooperativas.

Esta teria a função de uma incubadora de empreendimentos, com capacitação continuada para a gestão e comercialização; equipe integrada para administração e contabilidade; cessão de galpões para a produção, enfim, uma entidade que garantiria a retaguarda inicial aos cooperados; um alicerce seguro.

A ausência deste organismo comprometeu a consolidação daquelas cooperativas, que infelizmente não deslancharam.

Ficou provado, porém, que supridas certas condições, o projeto é viável e merece toda atenção.

Outro aspecto destacado por Enrico foi a questão do exercício do trabalho associativo.

Teríamos que vencer hábitos comportamentais que nos empurram para o individualismo, criando disputas internas que muito comprometem o avanço coletivo.

Esta fascinante experiência mostra um mecanismo para estimular a atividade econômica, gerar empregos, promover o empreendedorismo.

Pois é...

Ubatuba já nos deu belos exemplos, em diversas áreas.

Estudar, aprimorar e retomar estas vivências são passos que a conjuntura manda dar.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Dominique

Opinião

Os saqueadores da lógica

Gabeira
Se o PT pusesse fogo em Brasília e alguém protestasse, a resposta viria rápida: onde você estava quando Nero incendiou Roma? Por que não protestou? Hipocrisia.

Com toda a paciência do mundo, você escreve que ainda não era nascido, e pode até defender uma ou outra tese sobre a importância histórica de Roma, manifestar simpatia pelos cristãos tornados bodes expiatórios. Mas é inútil.

Você está fazendo, exatamente, o que o governo espera. Ele joga migalhas de nonsense no ar para que todos se distraiam tentando catá-las e integrá-las num campo inteligível.

Vi muitas pessoas rindo da frase de Dilma que definiu a causa do escândalo da Petrobrás: a omissão do PSDB nos anos 1990. Nem o riso nem a indignação parecem ter a mínima importância para o governo.

Depois de trucidar os valores do movimento democrático que os elegeu, os detentores do poder avançaram sobre a língua e arrematam mandando a lógica elementar para o espaço. A tática se estende para o próprio campo de apoio. Protestar contra o dinheiro de Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial, no carnaval carioca é hipocrisia: afinal, as escolas de samba sempre foram financiadas pela contravenção.

O intelectual da Guiné Juan Tomás Ávila Laurel escreveu uma carta aos cariocas dizendo que Obiang gastou no ensino médio e superior de seu país, em dez anos, menos o que investiu na apologia da Beija-Flor. E conclui alertando os cariocas para a demência que foi o desfile do carnaval de 2015.

O próprio Ávila afirma que não há números confiáveis na execução do orçamento da Guiné Equatorial. Obiang não deixa espaço para esse tipo de comparação. Tanto ele como Dilma, cada qual na sua esfera, constroem uma versão blindada às análises, comparações numéricas e ao próprio bom senso.

O mundo é um espaço de alegorias, truques e efeitos especiais. Nicolás Maduro e Cristina Kirchner também constroem um universo próprio, impermeável. Se for questionado sobre uma determinada estratégia, Maduro poderá dizer: um passarinho me contou. Cristina se afoga em 140 batidas do Twitter: um dia fala uma coisa, outro dia se desmente.

Numa intensidade menor do que na Guiné Equatorial, em nossa América as cabeças estão caindo. Um promotor morre, misteriosamente em Buenos Aires, o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, só e indefeso, é arrastado por um pelotão da polícia política bolivariana.

Claro, é preciso denunciar, protestar, como fazem agora os argentinos e os venezuelanos. Mas a tarefa de escrever artigos, de argumentar racionalmente, parece-me, no Brasil de hoje, tão antiga como o ensino do latim ou o canto orfeônico.

Alguma evidência, no entanto, pode e deve sair da narrativa dos próprios bandoleiros. Quase tudo o que sabemos, apesar do excelente trabalho da Polícia Federal, veio das delações premiadas.

Alguns dos autores da trama estão dentro da cadeia. Não escrevem artigos, apenas mandam bilhetes indicando que podem falar o que sabem.

Ao mesmo tempo que rompe com a lógica elementar, o governo prepara sua defesa, organiza suas linhas e busca no fundo do colete um novo juiz do Supremo para aliviar sua carga punitiva. O relator Teori Zavascki, na prática, foi bastante compreensivo, liberando Renato Duque, o único que tinha vínculo direto com o PT.

Todas essas manobras e contramanobras ficarão marcadas na história moderna do Brasil. Essa talvez seja a razão principal para continuar escrevendo.

Dilmas, Obiangs, Maduros e Kirchners podem delirar no seu mundo fantástico. Mas vai chegar para eles o dia do vamos ver, do acabou a brincadeira, a Quarta-Feira de Cinzas do delírio autoritário.

Nesse dia as pessoas, creio, terão alguma complacência conosco que passamos todo esse tempo dizendo que dois e dois são quatro. Constrangidos com a obviedade do nosso discurso, seguimos o nosso caminho lembrando que a opressão da Guiné Equatorial é a história escondida no Sambódromo, que o esquema de corrupção na Petrobrás se tornou sistemático e vertical no governo petista.

Dilma voltou mais magra e diz que seu segredo foi fechar a boca. Talvez fosse melhor levar a tática para o campo político. Melhor do que dizer bobagens, cometer atos falhos.

O último foi confessar que nunca deixou de esconder seus projetos para ampliar o Imposto de Renda. Na Dinamarca (COP 15), foi um pouco mais longe, afirmando que o meio ambiente é um grande obstáculo ao desenvolvimento.

O País oficial parece enlouquecer calmamente. É um pouco redundante lembrar todas as roubalheiras do governo. Além de terem roubado também o espaço usual de argumentação, você tem de criticar politicamente alguém que não é político, lembrar o papel de estadista a uma simples marionete de um partido e de um esquema de marketing.

O governo decidiu fugir para a frente. Olho em torno e vejo muitas pessoas que o apoiam assim mesmo. Chegam a admitir a roubalheira, mas preferem um governo de esquerda. A direita, argumentam, é roubalheira, mas com retrocesso social. Alguns dos que pensam assim são intelectuais. Nem vou discutir a tese, apenas registrar sua grande dose de conformismo e resignação.

Essa resignação vai tornando o País estranho e inquietante, muito diferente dos sonhos de redemocratização. O rei do carnaval carioca é um ditador da Guiné e temos de achar natural porque os bicheiros financiam algumas escolas de samba.

A tática de definir como hipocrisia uma expectativa sincera sobre as possibilidades do Brasil é uma forma de queimar esperanças. Algo como uma introjeção do preconceito colonial que nos condena a um papel secundário.

Não compartilho a euforia de Darcy Ribeiro com uma exuberante civilização tropical. Entre ela e o atual colapso dos valores que o PT nos propõe, certamente, existe um caminho a percorrer.

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U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 27 / 02 / 2015

O Globo
"Ajuste pode cortar 22% do Orçamento até fim do ano"

Programa para baixa renda, Minha Casa Melhor é suspenso

Governo limita em R$ 75,1 bi as despesas dos ministérios em custeio e investimento até abril; se a restrição for ampliada para dezembro, deixarão de ser gastos R$ 66 bi da previsão orçamentária

Enquanto trava queda de braço com o próprio PT em torno do ajuste fiscal, o governo anunciou ontem a limitação a R$ 75,1 bilhões do total de gastos de todo o Ministério até abril. Se mantido, poderá significar um corte de 22,5% no Orçamento da União até o fim do ano. A medida foi divulgada em meio a intensas negociações com partidos governistas sobre o ajuste, criticado em nota pela Executiva Nacional do PT e defendido no mesmo dia pelo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. O governo cortou ainda novos financiamentos do projeto Minha Casa Melhor, linha de crédito para beneficiários de baixa renda do Minha Casa, Minha Vida.

Folha de S.Paulo
"Dilma faz novo arrocho para equilibrar contas"

Governo corta gastos com o PAC e decide aumentar tributos de empresas

Frente às dificuldades para cumprir o ajuste fiscal, a presidente Dilma Rousseff (PT) decidiu intensificar o aperto nas contas do Tesouro Nacional com um corte extra de gastos em investimentos e despesas fixas. Ela decidiu também aumentar os tributos de empresas. O novo ajuste incluiu o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), vitrine eleitoral do PT. Os gastos não obrigatórios de todos os ministérios foram limitados a R$ 75,2 bilhões no primeiro quadrimestre, R$ 10 bilhões menos em relação ao mesmo período do ano passado. O próximo passo da equipe econômica será rever a desoneração das folhas de pagamento, medida que beneficiou 56 setores da economia. (...) A senadores do PT o ministro Nelson Barbosa (Planejamento) disse que estuda taxar "o andar de cima". O tributo sobre grandes fortunas é cogitado.

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quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Dominique

Opinião

Protestos

O maior premiado da noite foi um diretor mexicano, o que valeu como um protesto velado contra as leis de imigração americanas que o Obama está tentando mudar

Luis Fernando Veríssimo
Com nenhum negro na lista de candidatos ao prêmio de melhor ator, a última entrega dos Oscars prometia ser uma festa não só monocromática, mas branca também, no sentido de engomada e sem nódoas.

Acabou sendo um evento muito mais político do que se esperava. A falta de negros entre os premiáveis foi compensada pela quantidade de negros entre os apresentadores, e o maior homenageado da noite foi Martin Luther King, apesar de o filme “Selma”, sobre a marcha contra o racismo e pelo direito do voto que ele liderou em 1965, só ter merecido um prêmio, pela música.

Mas a música, “Gloria” (que também fala de incidentes raciais recentes, como o de Ferguson), mexeu com a plateia, e seus dois intérpretes, ao agradecerem o prêmio, fizeram fortes e bem articulados protestos contra o racismo que ainda persiste no país — e também foram ovacionados.

O próprio apresentador da noite, tão criticado pelo seu mau desempenho, deu uma leve cutucada política na plateia quando esta aplaudiu o nome de Martin Luther King, que durante tantos anos representou para os brancos a ameaça da insubmissão dos negros: “Agora vocês gostam dele...”

Também houve protestos contra a discriminação das mulheres no mercado de trabalho e contra a homofobia, e — para completar o que foi tudo, menos uma noite branca — o filme premiado na categoria de documentário longo foi sobre o Edward Snowden, que está proibido de entrar nos Estados Unidos depois que revelou segredos da bisbilhotice mundial praticada pela Agência de Segurança Nacional americana.

Também ovacionado. E como se não bastasse tudo isso, o maior premiado da noite foi um diretor mexicano, o que valeu como um protesto velado contra as leis de imigração americanas que o Obama está tentando mudar.

Tomadas

O filme premiado do mexicano, “Birdman”, é bom. Sua proeza técnica mais comentada — o filme é feito no que parece ser uma única tomada, sem cortes, do começo ao fim — já tinha sido realizada pelo Alfred Hitchcock em “Festim diabólico” ou coisa parecida.

Como os rolos de negativos da época (1948) só duravam dez minutos, Hitchcock se obrigou a grandes malabarismos para disfarçar os cortes. Brian de Palma também gostava de tomadas longas, embora nunca, que eu saiba, fizesse um filme inteiro com uma tomada só.

E o mais recente exemplo de tomada inacreditável foi no filme argentino “O segredo dos seus olhos”, em que a câmera começa focando um estádio de futebol do alto, vai descendo, descendo e acaba enquadrando em close o rosto de um homem no meio da torcida do Racing, sem que se note quando a câmera do helicóptero vira a câmera do close. De certa maneira, Hitchcock também foi um grande homenageado na noite dos Oscars.

Cuidado

Entre as muitas razões para se assistir ao “Porta dos fundos” estava a Letícia Lima, rara combinação de beleza e talento, e — mais raro ainda — talento para a comédia. 

Li que ela foi contratada pela Globo, ainda não se sabe para o quê. Olhe lá o que vão fazer com a moça, Globo! 

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 26 / 02 / 2015

O Globo
"Governo atrasa repasses e bloqueia R$ 32 bi do PAC"

Dinheiro para obras já contratadas fica suspenso pelo menos até julho

Retenção ocorre em meio às dificuldades para aprovar o ajuste fiscal; em estados como Rio, São Paulo, Ceará e Bahia, projetos já sofrem as consequências do atraso nas transferências de recursos

Às voltas com a dificuldade para aprovar o ajuste fiscal no Congresso, o governo bloqueou ontem R$ 32,6 bilhões de despesas contratadas para empreendimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Agora, só em julho o Planalto decidirá se mantém ou não o bloqueio, que atinge obras ainda não iniciadas mas com orçamento já empenhado. Além disso, a União tem atrasado repasses para projetos de infraestrutura, muitos deles do PAC, e há redução no ritmo de trabalho nos canteiros e demissões no Rio, em São Paulo, no Ceará e na Bahia.

Folha de S.Paulo
"Governo tenta evitar queda no crédito do país"

Presidente Dilma teme que crise econômica e redução da nota da Petrobras afastem investidores

Sob um ceticismo crescente quanto às promessas de ajuste fiscal, o governo Dilma busca agora evitar que a perda do selo de investimento seguro da Petrobras contamine a avaliação da dívida pública, e o Brasil perca a nota de bom pagador. Agravada por tensões políticas e sociais como a greve dos caminhoneiros, a paralisia econômica marcou os primeiros resultados da arrecadação tributária do novo mandato da petista. Em janeiro, houve queda de 5,4% em relação a um ano. O índice de confiança do consumidor da FGV atingiu a baixa histórica de 85,4 pontos, 9, 3 abaixo da mínima durante a crise de 2008 e 2009. Em outro sinal de instabilidade, o dólar permanece em patamar elevado, com alta de 8, 7% no ano. O mercado teme que a situação piore com o ciclo vicioso de cortes de gastos públicos e aumento de tributos e com um possível socorro com verba do Tesouro, o que dificultaria manter o país entre as melhores avaliações das agências de risco. Após o rebaixamento pela agência Moody’s, o valor das ações mais negociadas da Petrobras recuou quase 5% em um dia. A presidente Dilma classificou a nota mais baixa como “falta de conhecimento direito” sobre a empresa. 

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quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Dominique

Opinião

Para cobrar de Dilma

O Brasil foi o país que mais perdeu competitividade na última década em um ranking de 12 economias elaborado pela Confederação Nacional da Indústria

Ricardo Noblat
A inflação está sob controle, disse Dilma durante a campanha que a reelegeu.

(A inflação medida pelo IPCA-15, índice considerado uma espécie de prévia do IPCA fechado, subiu para 1,33% em fevereiro, informou o IBGE, ontem. A taxa é a maior desde 2003, quando chegou a 2,19%.

No acumulado em 12 meses, o IPCA-15 acelerou para 7,36%. O número é bem maior que o teto da meta do Banco Central (6,5%) para o IPCA fechado.)

As contas públicas estão arrumadas, disse Dilma durante a campanha que a reelegeu.

(As transações do Brasil com o exterior registraram déficit de US$ 10,65 bilhões em janeiro último. Em janeiro do ano passado, o saldo negativo foi de US$ 11,58 bilhões.

Em 2014, o rombo das contas externas brasileiras bateu recorde pelo quinto ano seguido. O déficit de todas as trocas de serviços e do comércio do país com o resto do mundo ficou em US$ 90,9 bilhões no ano passado. Esse foi o pior desempenho desde o início da série histórica do Banco Central, em 1947.)

O Brasil tem uma das economias mais robustas do mundo, disse Dilma durante a campanha que a reelegeu.

(O Brasil foi o país que mais perdeu competitividade na última década em um ranking de 12 economias elaborado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Além da Austrália, o estudo compara os dados brasileiros com os do Canadá, Itália, Espanha, França, Cingapura, Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos e Taiwan.)

Original aqui

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U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 25 / 02 / 2015

O Globo
"Inflação dispara e protesto nas estradas é nova ameaça"

Prévia do IPCA sobe 1,33% em fevereiro, a mais alta em 12 anos

Caminhoneiros fazem mais de cem bloqueios em rodovias de 12 estados. Com falta de combustível, gasolina é vendida a R$ 5 o litro no Sul. Protestos prejudicam abastecimento da Ceasa no Rio e da Ceagesp, em São Paulo

O IPCA-15, prévia da inflação oficial, subiu 1,33% em fevereiro, com a forte alta da energia e dos transportes. Em dois meses, o índice chega a 2,23%, quase metade da meta fixada pelo governo para o ano todo, de 4,5%. O protesto dos caminhoneiros, que fecha rodovias em 12 estados, pode agravar o quadro, segundo analistas. Com dificuldade para repor os estoques, postos vendiam gasolina a R$ 5 no Paraná e em Santa Catarina. No Rio, preços de frutas e legumes subiram na Ceasa. A manifestação prejudicou o acesso aos portos de Santos e de Paranaguá. Grandes empresas, como Fiat e JBS, interromperam parcialmente a produção. O governo terá hoje reunião com representantes dos caminhoneiros. 

Folha de S.Paulo
"Em crise, Petrobras perde selo de bom pagador do mercado"

Agência Moody’s menciona corrupção e endividamento ao rebaixar a nota da estatal para o grau especulativo

Pela segunda vez neste ano, a agência internacional de classificação de risco Moody’s rebaixou a nota de crédito da Petrobras. Com o novo corte, a estatal perdeu o grau de investimento, uma espécie de selo de bom pagador e de um local seguro para se investir. A Moody’s cortou a nota de Baa3 para Ba2 —o que corresponde à perda de dois níveis na escala de avaliação da agência de risco. Com o rebaixamento, a estatal passa para o chamado grau especulativo — com probabilidade de calote. A Polícia Federal investiga o maior esquema de corrupção da história da Petrobras. A empresa é alvo de denúncias sobre desvios de recursos para políticos e funcionários. A Moody’s informou que todas as notas da companhia foram cortadas e que continuam em revisão para novo rebaixamento. Segundo o comunicado, o corte reflete “uma preocupação crescente em relação às investigações de corrupção e pressões de liquidez”. Grandes fundos de pensão estrangeiros, como os dos EUA, só podem comprar títulos de dívidas de empresas com grau de investimento. Apesar das críticas na época da crise global, o aval das agências de classificação de risco ainda é importante para o investimento. 

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terça-feira, fevereiro 24, 2015

Dominique

Opinião

Pequena história do combate à corrupção no Brasil

Renitente é a corrupção ou o modelo de, prometendo acabar com ela, ganhar o poder? As duas coisas? Mocinhos amanhã serão bandidos e vice-versa?

Tânia Fusco
Duas coisas são repetidas na nossa história política - sempre da M quando a campanha política não acaba na eleição e é o “combate a corrupção” que leva o povo para rua e derruba presidentes. 

Numa historinha pra lá de simplificada, vamos começar por Getúlio Vargas, que enterrou a República Velha. Embora tenha vencido a presidencial de 1950, com 48% dos votos e na maioria dos estados – em São Paulo inclusive –, não teve trégua da oposição até seu suicídio em agosto de 1954, três anos e oito meses depois de ter assumido a presidência.

Defeitos mis. Qualidades também. Mas qual foi a tecla batida e rebatida que derrubou Getúlio? Denúncias de desmandos e corrupção que, junto com a carestia, sempre horrorizam e mobilizam nós cidadãos com ou sem ideologia, filiação partidária ou crença.

O difuso macro poder, naquele momento e em outros tantos, queria outro rumo. Manobrou e derrubou. Vamos para o próximo.

De Getulio para cá, só JK e Lula escaparam da armadilha de campanhas que não acabam com a eleição, quando há divisão clara de posições e disputa acirrada. Com diferenças de estilo e valores, ambos tiveram apontados desmandos, compadrio e corrupção. Lula escapou da inflação. JK não.

Não fosse o legalista Marechal Lott, Juscelino nem tomaria posse. Estreou no governo encarando rebeliões militares, greves e carestia. Habilidoso, salvou-se na artimanha desenvolvimentista que lhe garantiu parceria forte do business - banqueiros, empreiteiros, comerciantes e grandes indústrias – a automobilística como carro chefe.

Levantou Brasília, rasgou estradas para rodar os novos carros nacionais e segurou a onda até o fim do governo, mas não fez o sucessor. Foi derrotado por Jânio Quadros, um outsider histriônico, que venceu com o recorrente mote de varrer do mapa o que, o que? A “corrupção desenfreada” do governo JK. (Ó ela ai de novo!)

Nós, os de mais de 50, temos lembrança do “Varre, varre vassourinha...”, jingle da campanha de Jânio que, claro, tinha a vassoura como símbolo.

Jânio cabia no modelão populista. Sozinho, carregava caspas nos ombros e um partideco, o PTN, sinalizava seguir cartilha da velha UDN – diligente e eterno combate à corrupção!  Mesmo carecendo de apoio político, botou fé nos votos e tentou voo solo. Acabou aterrado por umas tais “forças ocultas e terríveis”. Vazou da presidência seis meses e 27 dias depois de empossado.

Dessa vez, não deu nem tempo do povo pegar o terço e ir para rua num Fora Jânio! Mas, em páginas, corações e mentes de brasileiros vigilantes, já havia certo ensaio contra o bicho papão da ameaça comunista – condecorou Che Guevara, o ícone guerrilheiro! -, a carestia/inflação e a corrupção.

Além de proibir biquine e briga de galo, Jânio, sem nunca ter explicado sua renúncia, foi quem começou a contagem regressiva para uma “tenebrosa” ditadura, que durou 20 anos e – lembram? - teve como principal motivação o que? O que? O combate à corrupção!

Entre o Jânio desvairado e o golpe militar de 1964, houve o Jango, o vice, trabalhista e nacionalista, que, sob permanente crise, segurou-se dois anos e 23 dias no governo.

Dessa vez deu tempo do povo a-me-a-ça-do, terço em punho, ir pra rua defender a pátria do populismo e do comunismo, dos desmandos, do aparelhamento do estado, e da corrupção.  Fora Jango!

Eita! De novo a saúva maldita e resistente da corrupção, que derruba governos, mas não cai em desuso, seja como prática, seja como mote para defenestrar presidentes/grupos de poder.

Dizem que a História só se repete como farsa e Collor repetiu Jânio. Não empunhou vassoura, mas prometeu caça aos marajás municipais, estaduais e federais. Corrupção nunca mais!

Confiscou dinheiro, desdenhou a oposição - “forças ocultas”? - e descuidou dos cofres. Povo na rua. Da noite pro dia, não era mais o verde-amarelo namoradinho do Brasil, mas refém da ira popular: abaixo a corrupção, o desmando e a inflação, que galopava, ameaçando a República desde o governo anterior - do presidente Sarney. Rolou.

FH que, dizem, nasceu virado pra lua, ganhou-ganhando embalado no Real e na bendita estabilidade econômica. Não balançou nem na má lição do ministro: o que é bom a gente mostra, o que é ruim esconde.

Dois mandatos. Até que a economia vacilou, a privatização prevaricou, faltou luz .O tal do mote da corrupção bateu na porta.  “Fora FHC!” não colou, mas deu gás para a eleger muito bem o Lula, que iria acabar com a corrupção no Brasil.

Agora vai! A oposição barbuda e comunista (!) chegou ao poder. Imperdoável e até dolorido para uns tantos, mas esperança para outros milhares.

Lula precisou suar a camisa, mas passou pelo mensalão. Só que deu motivo. Deixou rastro.  Petrobrás bichada? Como assim?  Lá vem a velha ladainha e cai pesada no colo da tia Dilma: contra a corrupção, aparelhamento do Estado, os desmandos!

A coisa anda tão brava, que até o medo do comunismo estão ressuscitando. Diz que por esses dias o povo vai para rua de novo contra o que já derrubou o Getúlio, o Jango e o Collor, ameaçou JK e Lula, bordeou o FHC. (Repetirão o modelo do terço em punho?).

Diz ai: quem é o ovo, quem é a galinha? Renitente é a corrupção ou o modelo de, prometendo acabar com ela, ganhar o poder? As duas coisas? Mocinhos amanhã serão bandidos e vice-versa?

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U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 24 / 02 / 2015

O Globo
"Dilma recorre ao PMDB para sair do isolamento"

Também por medo de derrota, Planalto faz ofensiva para tentar aprovar ajuste

Ministros mais próximos à presidente passaram o dia de ontem, e farão o mesmo hoje, conversando com líderes da base aliada na Câmara : PMDB quer que PT também faça discurso em favor do controle fiscal

A sucessão de derrotas no Congresso e a proximidade da votação das medidas provisórias que mudam benefícios trabalhistas e previdenciários levaram a presidente Dilma a tentar sair do isolamento, deflagrando ofensiva para atrair de volta o PMDB rebelado. As MPs do ajuste fiscal começam a ser votadas esta semana. O Planalto passou o dia ontem fazendo afagos no PMDB. Os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Pepe Vargas (Relações Institucionais) e a equipe econômica tiveram uma série de encontros com os principais dirigentes do partido. Uma das exigências do PMDB é que o PT, que fez duras críticas ao ajuste, também defenda o projeto.

Folha de S.Paulo
"Caminhoneiros travam rodovias em sete estados"

Protesto contra aumento de custos e queda do frete já afeta abastecimento de combustíveis e alimentos no Sul

Caminhoneiros paralisaram trechos de rodovias em sete Estados em protesto contra o aumento do custo e a queda no preço dos fretes. Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais tiveram estradas bloqueadas, prejudicando empresas e moradores. Grandes produtores de aves e suínos, como BRF e Aurora, interromperam a produção em dois Estados. Moradores já sentem os efeitos da greve. No Paraná, a falta de combustível impede a circulação de ônibus escolar e de caminhões de limpeza urbana. Em Santa Catarina, faltam frutas e legumes. As principais queixas dos grevistas são a alta do diesel e do pedágio. Além disso, os preços dos produtos agrícolas estão em queda e dificultam negociações para elevar o valor do frete.

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segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Dominique

Opinião

Tom Zé e o ministro

Nem a velhinha de Taubaté, que personificava a credulidade que não se abate nem mesmo diante das mais rombudas evidências, endossaria a versão do ministro

Aloysio Nunes Ferreira
Tempos estranhos estamos vivendo: enquanto escasseiam notícias sobre ações positivas do ministro da Justiça para enfrentar as pesadíssimas atribuições de sua pasta, sua agenda de audiências ocupa o centro das atenções de todos, exigindo do ministro esfalfar-se em explicações e entrevistas. O mal do Dr. Cardozo é que quanto mais se explica, mais se complica.

O fato é que o ministro reuniu-se com advogados de empresas e de empresários investigados pela operação Lava Jato para tratar com eles de assuntos relativos a esses momentosos inquéritos e processos. Os encontros com advogados da Odebrecht e da UTC foram noticiados pela imprensa.

A revista Veja relatou, inclusive, o teor da conversa do ministro com o advogado Sérgio Renault, patrono do presidente da UTC, Ricardo Pessoa, hoje encarcerado. O último número da Veja chega a asseverar que o encontro se deu por iniciativa do ministro.

Começaram aí os dissabores do Dr. Cardozo, pois, ao revelar uma parte do ocorrido, levanta dúvidas sobre o que não revela e que não teve até agora, e nem terá, explicação convincente, no que depender de Sua Excelência. Ocorreu-me, a propósito, a lembrança do samba Tô, de Tom Zé e Elton Medeiros: “eu tô te explicando pra te confundir, eu tô te confundindo pra te esclarecer”.

Que os advogados vieram tratar com ele da operação Lava Jato não pode haver dúvida. O próprio ministro admite que os advogados da Odebrecht foram à sua presença para queixar-se de alguns procedimentos da operação. Quais procedimentos? Ele não diz. Procedimentos de quem? Da Polícia Federal? Ora, a Polícia Federal, no caso, age sob as ordens da Justiça Federal, e não do ministro.

E se as ordens não foram cumpridas, com rigor e nos limites traçados pelo juiz, cabia uma representação perante a Corregedoria para apurar eventuais desvios. Onde está a representação?

O ministro se cala sobre as perguntas que não querem calar, alegando sigilo. Ora, se o sigilo cobre o inquérito, e não eventuais infrações funcionais cometidas por agentes da PF, deduz-se que os advogados foram mesmo é tratar das estratégias de condução do inquérito. E essa é uma conversa que não poderia ter ocorrido, pois o ministro da Justiça é figura estranha a um inquérito que é conduzido pela Polícia Judiciária da Polícia Federal.

Além disso, esses encontros ocorreram em descumprimento das normas legais que disciplinam as audiências concedidas por ministros de Estado a particulares, com o objetivo de garantir-lhes publicidade e transparência.

Na polêmica sobre a agenda, Dr. Cardozo habilmente tenta concentrar as atenções sobre a reunião com os advogados da Odebrecht que, de qualquer maneira, fora registrada em seu gabinete, ainda que sob a vaga designação de “visita institucional”.

A porca torce o rabo, no entanto, quando se trata da audiência não registrada previamente na agenda: aquela concedida a Sérgio Renault, advogado do presidente da UTC e em cujo escritório se articulava a defesa conjunta dos empresários envolvidos no Petrolão.

Nem a velhinha de Taubaté, genial criação de Sérgio Porto que personificava a credulidade que não se abate nem mesmo diante das mais rombudas evidências, endossaria a versão do ministro: um encontro casual onde ele e Renault trataram breves cumprimentos.

Que encontro casual é esse na antessala do ministro?

Ora, a menos que as reportagens de Veja e da Folha fossem obras de rematados ficcionistas, tratou-se mesmo de um encontro com o objetivo de apaziguar os ânimos do empresário Ricardo Pessoa que, diante da perspectiva de vir a apodrecer na prisão, estaria a ponto de fazer uma delação premiada, demolidora para o PT.

Somente três pessoas participaram desse “encontro casual”: Cardozo, Renault e o advogado Sigmaringa Seixas, velho amigo de Lula e pessoa, aliás, a quem eu respeito.

Quem teria levado à direção da UTC as palavras apaziguadoras atribuídas ao ministro, com uma previsão, inclusive, de uma reviravolta no caso depois do carnaval, graças a uma intervenção providencial de Lula? Pouco importa. O fato é que o simples noticiário surtiu, pelo menos por agora, o efeito desejado pelos personagens políticos que teriam muito a perder com a delação de Pessoa.

Chego mesmo a supor que o objetivo do “encontro casual” foi provocar um efeito calmante na carceragem da Polícia Federal de Curitiba, a partir da publicização do fato. 

Isso porque a intervenção do Dr. Cardozo na condução do inquérito é uma hipótese implausível, não apenas pelo fato de o inquérito não estar institucionalmente subordinado ao ministro, mas, sobretudo, pela altivez profissional com que os investigadores e a Justiça Federal têm se conduzido até agora.

Já que nem eu nem as torcidas reunidas do Corinthians e do Flamengo acreditamos na “troca de cumprimentos em encontro casual”, concluo que o ministro foi no mínimo imprudente ao conceder tal audiência nessa melindrosa conjuntura.

Não ajuda ao ministro a tentativa de seduzir o espírito de corpo dos advogados. Se é normal, numa democracia, que ministros recebam advogados, somente numa democracia doente pode-se tolerar conchavos às escondidas entre autoridades públicas e advogados de réus com o objetivo de obstaculizar o andamento da Justiça.

Foi isso o que, de fato, aconteceu?

Concedo ao ministro o beneficio da dúvida, e darei a ele a ocasião de pôr tudo em pratos limpos perante a Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

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U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira 23 / 02 / 2015

O Globo
"Novo centro de pesquisa teve propina de R$ 36 milhões"

Segundo delator , dinheiro desviado da obra foi para funcionários e partido

Orçada em R$ 1 bilhão, duplicação do Cenpes, no Rio, custou R$ 2,5 bilhões

As obras de duplicação do Centro de Pesquisa da Petrobras (Cenpes), na Ilha do Fundão, no Rio, feitas para atender aos desafios tecnológicos do pré-sal, custaram 150% a mais do que o previsto, e as empreiteiras investigadas na Operação Lava-Jato receberam R$ 1,83 bilhão, contam Cleide Carvalho, Renato Onofre e Thiago Herdy. Em delação premiada, o ex-gerente da estatal Renato Barusco Filho , braço direito do ex-diretor de Serviços Renato Duque, disse que R$ 36 milhões (2% desse valor) foram usados para propina: 1% para diretores e funcionários da Petrobras, e 1% para um partido . Na diretoria de Duque, o partido era o PT.

Folha de S.Paulo
"Fundos têm R$ 9 bi em papéis ligados à crise da Petrobras"

Valor se refere a investimentos atrelados a operações de crédito da estatal e inclui títulos de dívida de empreiteiras

Os fundos de investimento têm R$ 9 bilhões em papéis ligados a operações de crédito da Petrobras e de empreiteiras citadas na Lava Jato. O cálculo da consultoria Economática inclui títulos de dívidas e participações de empresas e adiantamentos que os fornecedores têm a receber da estatal. Ainda entram na conta papéis baseados em imóveis que a petroleira aluga. As aplicações são afetadas pela dificuldade de caixa das empresas. Há preocupação com eventual atraso em pagamentos da Petrobras e de parceiros em obras e serviços. Notas baixas de agências de risco trazem perdas. (...)

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domingo, fevereiro 22, 2015

Dominique

Opinião

Notas sobre o exílio interior

Gabeira
Aceitei o convite de um debate sobre exílio. Não devia. O corre-corre não me permite preparar minhas lembranças. Não posso recorrer, longamente, ao belo livro de Maria José de Queiroz “Os males da ausência”, sobre literatura de exílio. O livro tem 700 páginas e o li há bastante tempo. No convite, havia uma pergunta que me seduziu: existe exílio no próprio país? Em princípio, a resposta deveria ser não. Exílio é desterro. As expressões homesickness e mal du pays são específicas para esse tipo de saudade do país de origem.

De um ponto de vista espiritual, é sempre possível se exilar do mundo. Várias religiões preveem essa escolha, que deixa para trás as preocupações mundanas com a matéria e opta por uma trajetória santificada. Minorias podem se sentir isoladas em certos países em que são desprovidas de direitos e podem viver uma sensação de exílio.

Mas não é isso que persigo, e sim um sentimento de inquietação e estranheza levemente parecido com o que Freud descreve em seu ensaio sobre uma visão do familiar que se torna misteriosa e perturbadora. Algumas pessoas, em relação ao Brasil, sentem-se fora de casa dentro da própria casa. É como se o país fosse um imenso boneco que parece ter vida, ou um defunto que começa a piscar os olhos, na hora do enterro. Arrisco-me a apontar uma das causas: o colapso dos valores na esfera pública.

Bem ou mal, as décadas de redemocratização foram povoadas de valores que convergiram para a vitória do PT em 2002. De uma certa forma, estávamos sob o impacto de 

valores destinados a se instalar, como em outros países, no universo político. Não sou ingênuo a ponto de imaginar que sempre existiram no universo público. A sensação de familiaridade, de estar em casa, nascia da esperança de transformação. A esperança foi traída. Os agentes da mudança passaram a fazer e a falar as mesmas coisas que pareciam combater. O que era apenas uma promessa se tornou uma decepção.

Num exílio de fato não é apenas um lugar que se perde no caminho, mas também a própria expressão. Alguns escritores desterrados chegam a produzir em outro idioma para superar a nostalgia da palavra nativa. Não perdemos o lugar nem a língua. Mas ambos se tornaram estranhos. Surgiu uma nova língua, na verdade um verdadeiro paredão de eufemismos para esconder o cinismo e a roubalheira.

Desconfortáveis com o lugar e a palavra, podemos sentir o medo do garoto de Hoffmann, dissecado pela análise de Freud. O vilão do conto é o Homem de Areia, que lança tanta areia nos olhos das crianças que chega a arrancá-los e levá-los consigo para o seu distante ninho. Na análise de Freud, o medo do Homem de Areia mascara o pavor da castração. Mas, se deixamos a esfera da psicanálise, podemos ver nesses jatos de areia a perda da cidadania. Marqueteiros jogam areia nos nossos olhos. Decidem eleições. De nada adianta denunciar o poder nem restabelecer a adequação das palavras. De tempos em tempos, nas eleições, quando se espera um debate racional sobre o futuro, jatos de areia cruzam o país de norte a sul.

A estranheza cotidiana ao perceber que nem sempre polícia e bandido são diferenciados estende-se também às altas esferas. Acossado pelo escândalo, o governo, por meio do Ministro da Justiça, negocia, sigilosamente, com advogados para acalmar prisioneiros da Operação Lava-Jato.

O Brasil sempre esteve no Ocidente, e, a partir dos últimos anos, tornou-se uma democracia ocidental. Mas se move na política externa de uma forma distante desse paradigma. Entramos num universo bolivariano repleto de loucuras. Nicolás Maduro conversa com Chávez, transfigura em pássaro. Cristina Kirchner zomba dos chineses no Twitter, suicida o promotor Alberto Nisman num dia e, num outro dia, acha que foi assassinado. Dilma Rousseff propõe na ONU um diálogo com os cortadores de cabeça do Estado Islâmico.

O exílio me ensinou que nunca se volta para o país dos sonhos. O país muda, e você também. Não se trata de um reencontro com um país ideal, mas alguma coisa mais familiar, menos inquietante. Ao contrário dos processos mentais que às vezes se repetem de forma mórbida, uma das estranhezas no texto de Freud, o curso da História tende a se renovar. Há um caminho de volta. Não me atrevo a descrevê-lo em suas linhas gerais. Suponho apenas que seja pavimentado por alguns valores. Um deles é encarar as evidências, respeitar os interlocutores, não se socorrer dos homens de areia para nos arrancar os olhos.

Parem de produzir estranhezas históricas, deixem-nos em paz com as estranhezas que o subconsciente produz. Elas bastam. A tarefa de enganar um país inteiro é muita areia para o caminhão deles. Felizmente. Mas, por enquanto, e durante todo o desenrolar do terceiro ato, ainda está tudo um pouco estranho no país.

Original aqui

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U.V.

Manchetes do dia

Domingo 22 / 02 / 2015

O Globo
"Esquema sonegou pelo menos R$ 1 bilhão"

Receita faz devassa em contas de investigados na Lava-Jato

Auditores já abriram procedimentos fiscais contra 57 contribuintes envolvidos na operação da Polícia Federal, incluindo empresas e pessoas físicas. Prejuízo com evasão de divisas ainda não foi incluído no pente-fino

Cálculos preliminares da Receita Federal indicam que o esquema de corrupção na Petrobras, alvo da Operação Lava-Jato, resultou numa sonegação fiscal de pelo menos R$ 1 bilhão, revela Martha Beck. Os auditores que integram o grupo responsável pelo pente-fino nas contas dos investigados abriram procedimentos de fiscalização contra 57 contribuintes, incluindo empresas e pessoas físicas. A conta deverá aumentar porque a devassa não chegou às perdas decorrentes de evasão de divisas. No momento, está em curso a análise de manobras que empreiteiras fizeram para pagar menos Imposto de Renda sobre obras superfaturadas e propinas, com notas frias.

Folha de S.Paulo
"Com queda nas receitas, Sabesp cogita tarifa extra"

Dólar e gasto com crise da água desequilibram finanças da estatal paulista

Com as finanças deterioradas, a Sabesp, empresa de saneamento do governo de São Paulo, estuda propor reajuste tarifário superior ao da reposição da inflação, previsto para abril. Precisará de aval da Arsesp, autoridade regulatória do setor.

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