sábado, fevereiro 14, 2015

Dominique

Opinião

A servidão voluntária

João Pereira Coutinho
Sazonalmente, recebo mensagens de leitores que me perguntam por livros fundamentais no mundo da política. Respondo. Melhor, vou respondendo. E é provável que, nas canseiras do dia, os meus disparos tenham alvos diversos: um Aristóteles aqui; um Maquiavel ali; um Locke mais além.

Mas quando penso demoradamente no assunto, consultando os meus neurônios com uma contemplação digna de Montaigne, percebo que nunca sugeri um amigo dele, autor de um ensaio crucial na biblioteca de qualquer cavalheiro que se preze.

Verdade que o autor em questão escreveu o texto na juventude para depois o renegar. Não vou especular sobre esse gesto (outras histórias). Exceto para dizer que o mal estava feito e, no meu caso, a cabeça do cronista já estava formatada pelas palavras do sr. Étienne de la Boétie (1530 - 1563).

O nome não figura como deveria nos grandes compêndios do pensamento político, embora a importância do francês seja imensa na Europa continental. Sem referir, claro, as palavras que o amigo Montaigne lhe dedicou nos seus ensaios.

O texto em causa intitula-se "Discurso sobre a Servidão Voluntária" e, com a devida vênia a todos os anarquistas posteriores, que só impropriamente podem ser considerados discípulos de Boétie, não encontro reflexão mais brilhante sobre a natureza da tirania –e, atenção, sobre a natureza daqueles que se submetem ao tirano.

Porque essa é a questão que anima o ensaio. Como é possível que homens, cidadãos, nações inteiras possam sofrer privações mil às mãos de uma única criatura?

O tirano, afirma Boétie olhando para a história clássica, é normalmente a figura mais ridícula e "efeminada" que existe. Raramente é um Hércules, raramente é um Sansão. Para usar a magistral prosa de Boétie, ele é "um estranho ao poder da batalha", um estranho "nas areias do torneio".

E, no entanto, é aos pés dessa anedota que os homens voluntariamente se escravizam. A ela concedem poder; a ela entregam as chaves das suas próprias correntes. Como explicar esse espantoso fenômeno?

Por interesse, dirá Boétie, referindo-se a uma minoria. Gente de igual caráter aproxima-se do tirano para lucrar alguma coisa com ele. Mas, mesmo sobre essa gente vil, as perguntas do autor são as mesmas: que existência será a dos rastejantes quando passam o dia tentando agradar à pessoa que mais temem?

E, quando não são os pequenos tiranos a submeterem-se à grande tirania, é o resto da nação em peso a fazê-lo, o que torna a servidão voluntária ainda mais insondável.

Boétie arrisca uma hipótese: quando a tirania começou, é possível que as primeiras vítimas tenham sentido o fato como uma privação fundamental.

Mas o tirano só sobrevive porque a servidão torna-se uma espécie de tradição. Gerações passam, a memória do crime apaga-se. E, para quem nunca conheceu um regime de liberdade, viver sem liberdade parece a mais natural das condições.

A proposta final de Boétie é, logicamente, simples: não é preciso lutar contra o tirano para terminar com o abuso; basta que um povo inteiro não colabore mais na sua própria escravidão. "Sem madeira, o fogo apaga-se", escreve metaforicamente o autor. E o Colosso, sem pedestal, quebra-se em mil pedaços, conclui.

O texto foi escrito no século 16. Mas é impossível não pensar no jovem Boétie quando olhamos para o nosso tempo.

Tivemos ditaduras que sobreviveram obscenamente. Não apenas pelo aparato policial que elas promoveram. Mas também porque milhares, milhões de seres humanos permitiram que elas sobrevivessem. Como? Entrando voluntariamente no curral.

Curiosamente, se Boétie teve herdeiros, eles encontram-se nos intelectuais do Leste da Europa que lutaram contra o comunismo. Nomes como Václav Havel que, ao apelarem para "o poder dos sem poder", repetia o que Boétie dissera antes dele: um povo que não é cúmplice da mentira também não será cúmplice da sua própria servidão.

E, se o leitor pensa que o texto de Boétie só se aplica às tiranias históricas, desengane-se: ele tem igual valia para as pequenas tiranias cotidianas. O dilema, ontem como hoje, permanece: por que motivo tantos de nós se submetem aos caprichos de um só – um político, um chefe, um amante?

Se os homens repetissem mais vezes essa pergunta e agissem em conformidade, a máquina que os oprime pararia no minuto seguinte.

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U.V.

Manchetes do dia

Sábado 14 / 02 / 2015

O Globo
"Folia com 344 blocos arrastará 5 milhões"

Só o Bola Preta, que desfila hoje e manhã no Centro, deve reunir dois milhões de pessoas

De hoje até Quarta-Feira de Cinzas, pelo menos 344 blocos de carnaval desfilarão pelas ruas do Rio, prometendo arrastar 5 milhões de pessoas, sendo 900 mil turistas. Além da segurança, que foi reforçada, o desafio é o trânsito: ao entregar a chave da cidade ao Rei Momo, o prefeito Eduardo Paes brincou e pedia que ele resolva todos os problemas da cidade, inclusive os engarrafamentos. Um desafio que já começa hoje com o desfile do Bola Preta que deve levar até dois milhões de pessoas para o Centro á partir das 7hs. À noite, a expectativa é pelo desfile da Estácio na Sapucaí, que briga para voltar ao Grupo Especial.

Folha de S.Paulo
"Investidor já paga mais por seguro contra "risco Brasil""

País é tratado no mercado como se tivesse perdido selo de bom pagador da dívida

O Brasil já tem sido tratado por investidores como um país que não tem o grau de investimento, espécie de selo de bom pagador de sua dívida, concedido do por agências avaliadoras de risco.

O custo para se precaver de um calote do Brasil está mais alto do que o seguro contra uma moratória de Turquia, Bulgária ou Indonésia, considerados “especulativos” pela agência Standard & Poor’s. Nesta sexta (13), o valor do seguro contra um calote brasileiro superava o desses países.

O cenário de 2014 contribuiu para ampliara desconfiança do investidor no Brasil, que no ranking da S&P ainda tem o grau de investimento. União, Estados e municípios apresentaram, juntos, déficit de R$ 32,5 bilhões nas cantas. Economia estagnada e inflação em alta agravam a situação.

Segundo analistas, o mercado pressiona o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a dar sinais concretos de que conseguirá fazer neste ano a economia prometida, de 1,2°% do PIB. 

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sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Carnavais de outrora...


Coluna do Celsinho

Vira, vira

Celso de Almeida Jr.

Nesta sexta-feira 13, véspera de carnaval, talvez a fantasia adequada seja a de Gato Preto.

E por falar no bom gatinho, o Ney Matogrosso já cantava:

Vira, vira, vira homem, vira, vira, lobisomem...

Por essas e outras, o famoso Bloco da Caxorrada - onde homem se fantasia de mulher e, mulher, de homem - promete grandes virações nestes dias de Momo.

Jovem, faz tempo, desfilei de Xuxa, quando ela ainda não tinha aderido à emissora do Bispo.

Felizmente a peruca loira tornou-me irreconhecível, o que poupou-me de grandes sarros de amigos conservadores.

Delícia, o Carnaval.

Vou, então, de reco-reco, pandeiro e tamborim.

Alegria, alegria, até as cinzas da próxima quarta-feira.

Depois, página virada, o início do ano brasileiro.

Ocasião em que o carnaval vira circo.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Dominique

Opinião

Os suspeitos de sempre

Gabeira
Escolheram mais um suspeito de sempre. Essa frase, de um jornalista americano, sobre o novo presidente da Petrobras é precisa.

Certamente não se referia à trajetória pessoal de Aldemir Bendine. Ele ignora que o banqueiro guarda dinheiro no colchão ou que fez um empréstimo generoso à socialite Valdirene Aparecida Marchiori. Creio que queria apenas dizer que o governo arruinou a Petrobraas e dificilmente encontrará alguém, dentro dos seus quadros, capaz de reconstruí-la.

Era preciso um novo presidente com capacidade e autonomia. Se alguém com talento conseguisse sobreviver no governo, decerto seria alvejado pelos atiradores do PT ao revelar alguns vestígios de autonomia.

O PT completou 35 anos com festa. E de alguma forma lembrando a frase “cuidado com os idos de março”. É uma data do calendário, talvez o dia 15, lembrada pelo assassinato de César. Os idos de março sempre evocam momentos trágicos para um governo.

No caso brasileiro, o grande adversário do PT é sua própria visão de mundo. O partido considera manobra golpista a enxurrada de dados sobre corrupção na Petrobrás e outros órgãos do governo. Por exemplo, um ex-gerente, em delação premiada, disse que o PT recebeu mais ou menos US$ 200 milhões em propinas, na área de abastecimento. O partido nega.

Usando o senso comum, parece-me absurda a controvérsia em torno de meio bilhão de reais. Se esqueço de pagar uma água de coco no bar do Baiano, no Flamengo, ele é o primeiro a me lembrar que faltam R$ 5. Se tenho direito a troco de apenas R$ 1, reclamo prontamente. Como é possível que uma verba de R$ 500 milhões, oriunda de contratos reais da empresa, transite tão etereamente a ponto de uma intensa investigação não determinar sua trajetória?

A decisão do PT de negar todas as evidências é a manobra mais perigosa que o partido já engendrou nos últimos anos. Dizem os jornais que na festa de aniversário, em BH, o PT prometeu manifestações públicas para defender o governo e isolar o golpismo. Isso é mais animador, pois pode precipitar a realidade. Bandeiras e camisas vermelhas acusando a Lava Jato de manobra golpista podem revelar ao partido um pouco da realidade.

Ando muito pelas ruas. Mas pode ser que ande pelas ruas erradas e tenha uma falsa impressão. Mas a pesquisa Datafolha mostrando a queda na aceitação de Dilma confirma minhas intuições. Não será fácil de novo desfilar com macacões laranja defendendo uma Petrobrás que a maioria acredita ter sido saqueada pelo PT e aliados. Com que palavras de ordem sairão às ruas? “A Petrobrás é nossa” não é um refrão aconselhável para as circunstâncias. Resta talvez a resistência a um golpe hipotético.

E talvez nisso esteja a grande esperança do PT. Um golpe seria sua redenção, a condição de vítima talvez sepultasse o peso dos bilhões roubados da Petrobrás. Mas não há golpe no horizonte. As próprias condições de inserção internacional do Brasil já sepultaram qualquer solução fora da lei. Resta o desenrolar implacável de um processo de corrupção gigantesco que atrai a atenção mundial, porque ocorreu numa empresa globalizada.

A tática de negar sua responsabilidade neste processo histórico será um dado decisivo na história do PT. Muitos jádenunciam o medo de Lula e Dilma de discutir abertamente o que se passou na Petrobrás. Pode ser que Lula, Dilma e o PT analisem como coragem sua disposição de enfrentar o processo afirmando que tudo o que o partido recebeu foi doação legal. Mas de onde veio o dinheiro senão do saque da Petrobrás?

No momento é possível reunir a coragem para negar. Mas com o avanço das evidências seria preciso uma coragem muito maior para negar também a lucidez das instituições jurídicas e da opinião pública nacional.

Pela experiência, o que acontece nesses casos é sempre muito doloroso. O PT ainda está um pouco escondido, mas pode observar, por exemplo, o que aconteceu com Graça Foster e Nestor Cerveró: tornaram-se máscaras de carnaval; os vizinhos ergueram faixas contra Graça.

O partido, contudo, escolheu o caminho mais espinhoso para enfrentar o processo. Como no passado, tentará convencer as pessoas de que estão erradas e foram manipuladas pela imprensa.

Outro dia, um homem na rua me disse: “Às vezes me arrependo de ser consciente. Se fosse apenas desligado do Brasil, não sofreria tanto. É muito duro para as pessoas, presenciando um processo com números, nomes de contratos, delatores premiados e tudo o mais, assistirem a alguém dizer que tudo isso é uma grande manobra. Querem me convencer de que sou maluco”. Disse ao homem que era um processo mais amplo e, no fundo, está em jogo isto mesmo: ou se pune a corrupção, prendem-se as pessoas e se obriga os partidos a pagarem um enorme preço político, ou então a tática do PT triunfou.

Será preciso enlouquecer todo um país. É uma jogada de alto risco. No mensalão, de punhos erguidos, descobriram a realidade dos presídios e trataram de sair fora, deixando nas grades as secretárias que fechavam envelopes.

Em caso de vitória, terão de governar um País enlouquecido. Em caso de derrota, as consequências são imprevisíveis. Desdea camisa de força até cumprir inversamente a profecia de Delúbio Soares de que o mensalão com o tempo será uma piada. É o próprio PT, com o tempo, que pode virar uma piada.

Se esse é o caminho escolhido, então que vengan los toros. Marqueteiros de todo o País, uni-vos em torno da grana que ainda está nos cofres e provem que essa montanha de dinheiro roubado é apenas miragem, que Pasadena foi um bom negócio e a Petrobrás vai bem, apenas ameaçada pelos inimigos externos.

Procurem fazer um bom trabalho. No mensalão, lembrem-se, sobrou para os marqueteiros. Milhões de dólares rolam pelos computadores num simples toque no teclado. Mas isso não significa que sejam invisíveis.

O empresário de Santa Catarina que tinha 500 relógios num cofre tem lá sua lógica. O tempo está contra a quadrilha, é preciso detê-lo de qualquer forma.

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U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira 13 / 02 / 2015

O Globo
"Doleiro acusa Dirceu de receber propina para PT"

Youssef diz que ex-ministro e Vaccari eram os indicados pelo partido

Petistas negam as acusações; ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa afirma que a Odebrecht depositou US$ 31,5 milhões em contas no exterior para ele

Em novo trecho de sua delação premiada divulgado ontem, o doleiro Alberto Youssef envolve diretamente o ex-ministro José Dirceu, condenado no processo do mensalão e cumprindo prisão domiciliar, no esquema de corrupção na Petrobras investigado na Lava Jato. Assim como o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, Dirceu é apontado por Youssef como um dos responsáveis por receber , para o partido , dinheiro de propina de empreiteiras investigadas no escândalo. Tanto o ex-ministro como o tesoureiro negam as acusações. Ao explicar por que divulgou o novo trecho, o juiz Sérgio Moro afirmou que “não cabe ao Judiciário ser guardião de segredos sombrios”. Já o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa afirmou que recebeu US$ 31,5 milhões da Odebrecht, em contas no exterior, a título de “política de bom relacionamento”. A empreiteira negou e chamou de caluniosas as acusações.

Folha de S.Paulo
"Dirceu sabia de propina paga ao PT, afirma doleiro"

Petrolão

Delator diz que petista e Palocci tinham ligação com empresário que admitiu ter pago suborno

O doleiro Alberto Youssef associou o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu ao recebimento pelo PT de recursos pagos por empreiteiras no esquema de desvio de recursos da Petrobras. Dirceu cumpre pena por participação no mensalão. Segundo depoimento do doleiro de 10 de outubro, o petista tinha conhecimento da propina. Youssef disse que Dirceu e o ex-ministro Antonio Palocci tinham ligações com um dos empresários que confessaram ter pago propina. Segundo o doleiro, o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, também era responsável por receber o suborno. O juiz Sérgio Moro afirmou que o Judiciário não é “guardião de segredos sombrios”. O ex-ministro Dirceu repudiou as afirmações de Youssef. “As declarações são mentirosas.” Já Vaccari Neto negou ter recebido “qualquer quantia em dinheiro” do doleiro. A assessoria de Palocci disse que ele não comentaria. 

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quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Dominique

Opinião

O vírus da Satiagraha na Lava Jato

Elio Gaspari
O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, não precisava ser levado coercitivamente para a Polícia Federal. Bastava chamá-lo, ou ainda revelar que o comissário não atendia a intimações. Também não era necessário que a PF divulgasse o vídeo de um agente pulando o muro de sua casa depois que ele se recusou a abrir o portão. Afinal, o que lhe restava fazer, esperar um disco voador? Em novembro a PF reconheceu que arrolou indevidamente um diretor da Petrobras numa lista de beneficiários de comissões. Já apareceram dezenas de listas com os nomes de parlamentares metidos nas roubalheiras. Nenhuma delas baseada em provas, apenas galerias com os suspeitos de sempre. Nomes encontrados na agenda do "amigo Paulinho" são apresentados como indícios de traficâncias, quando deveriam ser tratados como subsídios para as investigações, até mesmo porque ele assinou um contrato de colaboração com a Viúva.

Noutra investigação, não era necessário que o ex-governador de Mato Grosso fosse levado preso porque em sua casa a Polícia Federal encontrou uma arma com documentação vencida. É injustificável que telefonemas banais dados a ele depois do episódio pelo ministro da Justiça e por Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal, tenham sido passados à imprensa. Ecoam um caso ocorrido em 2005, quando vazou um diálogo telefônico de Paulo Maluf com a secretária eletrônica do ministro Márcio Thomaz Bastos: "É Paulo, bom dia. Clic".

Tudo o que os envolvidos na "Lava Jato" precisam é transformá-la num similar da malfadada Operação Satiagraha, de 2008. Teatrinhos, prisões espetaculosas e vazamentos irresponsáveis prejudicaram as investigações e tisnaram a Polícia Federal. Fechada a conta, deu em nada.

Comparar a Satiagraha à Lava Jato seria uma injustiça para com o trabalho da PF, do Ministério Público e do juiz Sergio Moro na investigação das petrorroubalheiras. O que realmente conta, as provas, ainda estão sob sigilo. As teatralidades de hoje são detalhes, mas esses detalhes são tóxicos. Em 2009 a Operação Castelo de Areia chegou às portas da empreiteira Camargo Corrêa e dois anos depois o processo foi anulado no Superior Tribunal de Justiça por falha processual. Para felicidade geral, as tramas descobertas na "Castelo de Areia" vêm sendo desvendadas na "Lava Jato". Se os diretores da Camargo Corrêa fecharem seu acordo de colaboração, melhor ainda.

A quantidade de mentiras e empulhações produzidas pelos defensores dos petrolarápios já é suficiente para embaralhar as cartas. Não é necessário que o poder público entre nesse jogo.

Nunca é demais repetir a fábula da manhã de 24 de agosto de 1954:

Às oito da manhã, numa pensão da rua Bento Lisboa, a pouca distância do Palácio do Catete, um sujeito é preso saindo de um quarto com uma faca ensanguentada. Lá dentro 

há uma mulher morta a facadas. Meia hora depois já chegaram a polícia e o advogado do suspeito, quando o rádio anunciou:

O presidente Getúlio Vargas suicidou-se.

O advogado chama o delegado para um canto e diz:

— Doutor, esses dois fatos são conexos.

Seu cliente estava frito.

Só lhe restava tumultuar o inquérito. 

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira 12 / 02 / 2015

O Globo
"Pressionado, governo já aceita negociar ajuste"

Planalto deve ceder nas mudanças em benefícios trabalhistas

Áreas técnicas estudam emendas para abrir negociação, admitida por ministros; ‘Ninguém é dono da verdade’, diz Manoel Dias

Diante da reação contrária do PT, de partidos aliados no Congresso e das centrais sindicais, o governo já admite negociar alterações nas suas propostas de mudanças em benefícios trabalhistas, como pensões e seguro-desemprego, incluídas no ajuste fiscal. Ciente das dificuldades para aprovar as medidas provisórias da forma como foram enviadas, técnicos do governo refazem contas e estudam modificações para negociar com o Congresso. Perguntado sobre a possibilidade de o Planalto ceder, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, disse que “ninguém é dono da verdade”. O ministro Pepe Vargas (Relações Institucionais) admitiu que o governo está disposto a discutir , mas não detalhou o que poderia ser mudado: “Quem abre diálogo já dizendo o que vai ceder?”

Folha de S.Paulo
"Alta do dólar complica contas da Petrobras"

Câmbio encarece importações e eleva a dívida; moeda dos EUA vai a R$ 2,88

A recente valorização do dólar vai ajudar a deteriorar as contas da Petrobras, reduzindo o caixa, encarecendo importações e investimentos, e elevando ainda mais a dívida, que está 70% em moeda norte-americana. A estatal está muito exposta aos efeitos do câmbio. Segundo analista, cerca de 7 5% de suas despesas estão em dólares, e apenas 25% das receitas da estatal são obtidas em moeda forte. Especialistas consideram ser a tempestade perfeita para a empresa, que já enfrenta o escândalo de corrupção e a troca da presidência. Consultoria estima que a recente variação do dólar pode ter elevado a dívida líquida da estatal de R$ 261 bilhões para R$ 290 bilhões. No quarto dia consecutivo de valorização, o dólar subiu 2% e fechou cotado a R$ 2,879. É o maior valor desde outubro de 2004. A moeda sofre pressão de fatores internos, como a dificuldade de Dilma em aprovar medidas de austeridade, e externos, como a expectativa sobre os juros dos EUA e a desaceleração na China. Analistas consideram que o BC poderia intensificar o aperto monetário.  

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quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Dominique

Opinião

Reputação abalada

O ESTADO DE S.PAULO
Dilma Rousseff é desonesta, falsa e indecisa. Esta é a opinião, respectivamente, de 47%, 54% e 50% dos brasileiros consultados pelo Datafolha. Esta impopularidade a própria presidente da República construiu e foi significativamente ampliada a partir do momento em que veio se somar à comprovação de sua incompetência como chefe do governo a constatação, diante das medidas anunciadas logo após a posse, de que agiu de má-fé e mentiu deslavadamente durante a campanha eleitoral, fazendo agora exatamente aquilo que havia acusado seus opositores de estarem propondo: uma guinada na condução da economia e das finanças públicas e "correções" em benefícios trabalhistas.

Agora, alarmada com o panorama sombrio da avaliação do seu governo - queda de 42% para 23% de ótimo/bom e aumento de 24% para 44% de ruim/péssimo -, Dilma tenta articular uma ofensiva de comunicação para recuperar as perdas, inclusive recorrendo aos truques do marqueteiro João Santana, responsável pelas peças de ficção que tiveram peso importante na vitória da campanha eleitoral petista.

Certamente como consequência das dimensões bilionárias que o escândalo da Petrobrás atingiu, a corrupção (14%) é hoje, logo depois da saúde (26%), a maior preocupação dos brasileiros apurada na pesquisa Datafolha. Dilma planeja contra-atacar, logo após o carnaval, tirando de seu balaio de promessas o tão anunciado pacote de medidas contra a corrupção. Seriam cinco projetos de lei prometidos ainda durante a campanha eleitoral, dos quais dois deverão ser encaminhados ao Congresso Nacional em regime de urgência.

Essa medida cumprirá ainda o objetivo tático de fazer contraponto à reação negativa que certamente terá na opinião pública a denúncia que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresentará nos próximos dias contra políticos investigados na Operação Lava Jato, muitos deles pertencentes ao PT e à base aliada. Um dos projetos que o Ministério da Justiça diz estar finalizando endurece as penas a serem cumpridas por funcionários públicos condenados por enriquecimento ilícito. Outro prevê o confisco de bens obtidos por meios ilegais.

O escândalo da Petrobrás, do qual a presidente da República tenta manter distância, apesar de sua óbvia vinculação com a estatal desde quando ocupou o Ministério de Minas e Energia, tem pesado muito na avaliação de Dilma: 77% dos entrevistados na pesquisa estão convencidos de que ela sempre soube de tudo a respeito da farra da propina, e, dentre esses, 25% entendem que a chefe do governo simplesmente não podia fazer nada, enquanto 52% são de opinião de que ela simplesmente fez vista grossa à roubalheira.

Mas é dentro do PT que Dilma encontra importante obstáculo à intenção de dar a volta por cima nessa profunda crise de popularidade. A tendência majoritária do partido, a Construindo um Novo Brasil (CNB), a que pertence o ex-presidente Lula, foi alijada da intimidade do Planalto e está em pé de guerra contra a presidente. Aliados a deputados da base governista, os petistas rebeldes resistem no Congresso ao pacote fiscal apresentado pela equipe econômica do governo, que reduz benefícios trabalhistas e previdenciários com o objetivo de obter uma economia de R$ 18 bilhões para atenuar o déficit fiscal. Foram apresentadas por deputados e senadores, até segunda-feira, 620 emendas às duas medidas provisórias em discussão. Dois terços dessas emendas, 412, são de autoria de parlamentares governistas, entre eles o ex-ministro de Esportes de Lula e Dilma, Orlando Silva (PC do B-SP). "Estourar a corda para o lado do mais fraco, na hora da dificuldade, não dá", diz ele.

Isso é parte da herança que a presidente da República legou a si mesma, no primeiro mandato e na campanha eleitoral, graças à sua inépcia administrativa e à sua inaptidão para a política. Há quem aposte que Dilma Rousseff não poderá, nem saberá, sair do poço em que se afunda a cada dia que passa. Lula, por exemplo, já mergulha de cabeça no esforço para recuperar a imagem do PT que Dilma está pondo a perder. Sem isso, afinal, será muito difícil voltar ao Planalto em 2018, como já anunciou ser sua vontade.

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U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira 11 / 02 / 2015

O Globo
"Dilma enfrenta dia de derrotas na Câmara"

Orçamento impositivo é aprovado e oposição comandará reforma política

Documento do Diretório do PT cobra coerência da presidente com discurso da campanha eleitoral e critica mudanças em benefícios trabalhistas, como pensões e seguro-desemprego, incluídas no ajuste fiscal

Sob o comando de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a Câmara impôs dura derrota ao governo ontem ao aprovar o orçamento impositivo, que obriga a execução de emendas individuais dos parlamentares e reduz o poder de negociação do Planalto para a aprovação de projetos. Com o PT rebelado contra medidas do ajuste fiscal que mudam benefícios trabalhistas, o Planalto sofreu ainda outro revés na Câmara: o comando da comissão da reforma política foi entregue à oposição. Documento aprovado pelo PT cobra coerência de Dilma com promessas de campanha.  

Folha de S.Paulo
"Chuvas levam SP a adiar decisão sobre rodízio"

Alckmin diz que esquema mais provável seria de 4 dias sem água por 2 com

O volume de chuvas neste mês e a obra de interligação da represa Billings com o sistema Alto Tietê, capaz de amenizar a demanda do sistema Cantareira, fizeram o governo Geraldo Alckmin (PSDB) adiar a decisão sobre a implantação do rodízio de água na Grande SP. Se continuar chovendo bem até o fim de março e a conexão dos reservatórios for concluída até maio, com moradores abastecidos pelo Cantareira recebendo água também do Guarapiranga, a Sabesp considera viável atravessar sem rodízio o período seco, de abril a setembro. Em reunião secreta no domingo, Alckmin disse ao prefeito Fernando Haddad (PT) que, se houver, o rodízio na capital terá quatro dias sem água e dois com. A interrupção de abastecimento por cinco dias estaria praticamente descartada, relata Mônica Bergamo. No momento, o fim deste mês é o prazo dado como limite pelo governo estadual para definir se haverá rodízio de água, informam Fabricio Lobel e Gustavo Uribe. 

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terça-feira, fevereiro 10, 2015

Dominique

Opinião

A impopularidade que Dilma construiu

O ESTADO DE S.PAULO
Surpresos e alarmados com a forte queda nos índices de avaliação da presidente Dilma Rousseff, o governo e o PT se articulam, não necessariamente entre si, para recolher os cacos da desastrada atuação da criatura de Lula em todas as frentes, da política à econômica, obra que em seu conjunto é tida como a mais grave ameaça concreta, em 12 anos, ao projeto de poder do lulopetismo.

Em apenas dois meses, como revelou pesquisa Datafolha, despencou quase à metade, de 42% para 23%, o número de brasileiros que consideram ótimo/bom o governo de Dilma, enquanto aumentou de 24% para 44% o daqueles que o julgam ruim/péssimo. É o reflexo do choque de realidade pós-eleitoral para o qual a chefe do governo contribui decisivamente com a soberba e a teimosia que inspiram suas decisões quase sempre balizadas por uma bitola ideológica estreita e arcaica. A escalação da equipe econômica foi, pelo menos até aqui, uma surpreendente exceção a essa regra.

Ganhar a Presidência por estreita margem de votos nas urnas em outubro havia sido uma dificuldade desconhecida pelo PT nos três pleitos anteriores. Pesaram decisivamente no resultado eleitoral a raspa do tacho da credibilidade do lulopetismo nas camadas mais populares do eleitorado e também, talvez decisivamente, o despudor com que o marketing da campanha submeteu os brasileiros ao terrorismo eleitoral, lançando na conta dos adversários o espectro da fome e do desemprego.

O pior, contudo, vê-se agora, foi a falta de escrúpulos com a qual a campanha petista mentiu sobre a intocabilidade dos benefícios trabalhistas, acusando os adversários de planejar o retorno à estabilidade econômica à custa de conquistas sociais, para no dia seguinte à posse o governo anunciar "correções" de algumas "distorções" daqueles benefícios. Hoje, ministros e dirigentes petistas enfatizam a necessidade de "explicar as medidas do governo". Mas o que compromete a credibilidade de Dilma é, menos do que o efeito dessas medidas, o fato de a então candidata ter mentido sobre elas. Uma grande mentira que se explicitou no momento em que Dilma cedeu à imposição dos fatos e contrariou suas próprias convicções ao nomear uma equipe "neoliberal", sob o comando de Joaquim Levy, para enfrentar o desafio de, desde logo, botar as contas do governo em ordem. Acresce a isso, decisivamente, o escândalo da Petrobrás, que macula indelevelmente personagens favorecidos por frequentadores e aliados do Planalto e respinga na chapa vencedora do pleito de 2014, beneficiados por dinheiro de procedência mais do que duvidosa. Compromete Dilma sua incapacidade de dialogar e de se articular com os demais protagonistas da cena política - consequência do voluntarismo de quem se julga onisciente. É conhecida a falta de disposição de Dilma para o chamado jogo político. Isso até poderia ser visto como mérito, quando se leva em conta o nível de fisiologismo a que o jogo político foi rebaixado durante os oito anos de Lula, a pretexto de garantir a "governabilidade". Mas Dilma nada fez para sanear o pântano moral criado por seu mentor.

Ao contrário, serviu-se dele quando conveniente e não será torcendo o nariz, fingindo que resolve tudo sozinha e deixando o jogo correr que a presidente conseguirá governar.

A aversão da presidente ao diálogo é tão profunda que nem mesmo com seu partido ela conversa. Reduziu o núcleo duro do poder a um punhado de políticos com os quais tem afinidades ideológicas - ou que trocam a fidelidade à chefe pela possibilidade de desenvolver projetos políticos ou pessoais próprios. Assim, alijou do seu círculo próximo a corrente majoritária do PT e aquele que é ainda seu maior símbolo e liderança.

Nesse cenário ameaçador para seu projeto de poder, o PT, Lula à frente, vai ter de encontrar seu caminho apesar do governo. O escândalo da Petrobrás, que entra agora na fase mais polêmica, a do indiciamento dos políticos; a vigorosa reação do maior aliado, o PMDB, à frustrada tentativa de Dilma de minar seu poder no Congresso; as previsões pessimistas sobre a recuperação da economia no curto prazo; a corrosão do apoio popular à presidente e a possível volta das manifestações de rua - tudo isso anuncia dias difíceis para o País. Piores ainda para o PT, e que se tornarão intoleráveis se, finalmente, a oposição decidir desempenhar o papel para o qual foi eleita.

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U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira 10 / 02 / 2015

O Globo
"Petistas já boicotam ajuste fiscal de Dilma"

PT apresenta emendas que mudam texto da presidente

Deputados e senadores do partido tentam derrubar alterações no seguro-desemprego e no pagamento de pensões a viúvas

Com popularidade em queda e dificuldades para unir a base aliada, a presidente Dilma enfrenta agora fogo amigo em seu partido. Defendido por ela desde a posse, o ajuste fiscal virou alvo de petistas, preocupados com sua imagem junto ao eleitorado. Das 435 emendas apresentadas até ontem à medida provisória que muda as regras de pensões e auxílio-doença, 66 são do PT, informa Fernanda Krakovics. Uma delas, da senadora e ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR), suprime mudança no cálculo das pensões. Na mesma linha, o deputado Vicentinho (PT-SP) quer manter as regras atuais para pensões a viúvas. À MP que muda o seguro-desemprego já foram apresentadas 201 emendas, 36 do PT.  

Folha de S.Paulo
"Governistas do Congresso ameaçam ajuste fiscal"

Base aliada articula contra pacote anunciado pela equipe de Dilma

Congressistas da base governista se mobilizam contra as medidas anunciadas pelo governo Dilma Rousseff para poupar R$ 18 bilhões neste ano com a redução de direitos trabalhistas e previdenciários para reequilibrar as contas públicas. Parlamentares dos partidos que apoiam o governo Dilma foram os responsáveis por 65% das 620 mudanças sugeridas por senadores e deputados até esta segunda (9) nas duas medidas provisórias do pacote. As emendas visam amenizar restrições no seguro-desemprego, no abono salarial e na pensão por morte. A senadora Marta Suplicy (PT) protocolou nove alterações e criticou as MPs. O PC do B fechou questão contra elas. Também vieram mudanças de PMDB, PSD, PP, PDT, PR, Pros, PRB e PTB. Para aliados, a queda na popularidade de Dilma facilita as negociações. Há espaço para dialogar, disse o deputado José Guimarães (PT), líder do governo.  

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segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Dominique

Opinião

A farra dos partidos

O ESTADO DE S.PAULO
Uma democracia só é digna desse nome quando estimula a participação política organizada, razão pela qual não se deveria considerar a criação de novos partidos um problema. No entanto, esse princípio está sob permanente desmoralização no País, uma vez que aqui o sistema representativo ameaça se tornar mero simulacro da relação promíscua entre o governo e sua bancada no Congresso.

O mesmo governo que defende com ardor uma "reforma política", com o alegado objetivo de pôr um fim a essa barafunda, é justamente aquele que, nos bastidores, incentiva os mascates da política a inventar novos partidos e, assim, ampliar as possibilidades de formar sua clientela, para depender menos ou mais deste ou daquele grupo do Congresso. O recado foi plenamente entendido por oportunistas de variados quilates - e a consequência disso é que há mais de 40 partidos na fila da Justiça Eleitoral à espera de autorização para se juntar aos 32 já existentes.

Como informou o jornal Brasil Econômico, pode haver ainda mais partidos com pedidos de criação em análise, porque nem todos os tribunais regionais eleitorais divulgam as solicitações. É, portanto, um verdadeiro nicho de mercado, porque, em primeiro lugar, cada uma dessas legendas terá direito a um pedaço do Fundo Partidário, constituído de recursos públicos que são distribuídos a todos os partidos, mesmo àqueles que não conseguiram eleger ninguém.

E não se trata de uma dotação qualquer. O Fundo Partidário superou R$ 300 milhões no ano passado, e os partidos sem voto chegaram a receber algo entre R$ 500 mil e R$ 800 mil. Para isso, bastou-lhes ter estatuto registrado no Tribunal Superior Eleitoral e prestar contas regularmente àquela corte. Não existe nenhuma cláusula de barreira, como as que vigoram nas melhores democracias.

Some-se a isso a possibilidade de obter preciosos segundos de propaganda eleitoral no rádio e na TV, que serão negociados a peso de ouro com as legendas maiores, e o resultado são coligações eleitorais que se expressam por meio de uma sopa de letrinhas que nada dizem sobre a plataforma política desses consórcios, restando apenas a sensação de que seu único objetivo é eleitoreiro e pecuniário.

Entre os partidos que esperam se regularizar e participar desse festim aparece, por exemplo, o Partido Nacional Corinthiano, que diz defender "uma nova forma de organização social, esportiva e democrática". Há também o Partido da Mulher Brasileira, para o qual "a Nova Ordem Mundial será menos masculina", e o Partido Militar Brasileiro, que considera "vagabundos" os beneficiários do Bolsa Família. A fila inclui ainda o Partido Popular de Liberdade de Expressão Afro-Brasileira, o Partido de Representação da Vontade Popular e o Partido da Construção Imperial. Parece que o único limite é a criatividade.

Mas esse pastelão partidário inclui raposas felpudas que nada têm de folclóricas - e que exploram a facilidade de criar partidos para oferecê-los a parlamentares dispostos a trocar de legenda e, assim, embarcar no governismo sem correr o risco de perder o mandato.

O melhor exemplo é Gilberto Kassab, aquele que não é nem de direita, nem de esquerda, nem de centro e que se tornou uma espécie de Henry Ford do Congresso, ao inventar uma linha de montagem de partidos para atender aos interesses do governo. Seu esforço empreendedor foi recompensado pela presidente Dilma Rousseff com o vistoso Ministério das Cidades.

O chamado "presidencialismo de coalizão", aperfeiçoado pelo lulopetismo, é a expressão que resume o espírito desse jogo. Não é por outra razão que nada menos que oito partidos foram criados desde que o PT chegou ao poder, em 2003, e ao menos metade deles é de legendas de aluguel.

É claro que nem todos os novos partidos pretendem se prestar ao papel de meros mercadores de voto no Congresso. O problema é que, a essa altura, fica muito difícil distinguir quem pretende fazer política legítima daqueles que querem somente participar do feirão governista - e, de quebra, levar um capilé do erário.

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U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira 09 / 02 / 2015

O Globo
"Base teme piora na relação com o Congresso"

Avaliação de Dilma em queda dificulta aprovação de medidas

Mudanças nas regras do abono salarial e do seguro-desemprego são algumas propostas que correm o risco de serem barradas

A forte queda no índice de avaliação da presidente Dilma Rousseff tornará ainda mais difícil a aprovação de medidas de interesse do governo no Congresso. Diante do resultado da última pesquisa Datafolha em que o índice de aprovação do governo caiu de 42% para 23% em dois meses, líderes de partidos da base admitem que a relação do Executivo com o Parlamento tende a piorar, e por isso, correm risco medidas impopulares apresentadas no início deste segundo mandato, como as mudanças nas regras do seguro-desemprego e do abono salarial. Caciques do PT admitem que é preciso melhorar o diálogo com a sociedade, mas analistas preveem que o desencanto da população deve crescer. 

Folha de S.Paulo
"Racionamento de água e luz tem apoio da maioria"

Em SP, 60% querem rodízio; no país, 65% defendem restrição de energia já

A maioria dos brasileiros apoia um racionamento de energia elétrica, aponta pesquisa Datafolha, que mostra também, na Grande São Paulo, aval majoritário para o rodízio de água. Nos dois casos, a adesão é maior entre os mais escolarizados, os mais jovens e os mais ricos. No levantamento nacional, com 4.000 pessoas em 188 municípios, 65% dos entrevistados disseram apoiar a “adoção imediata” da restrição ao fornecimento de luz. Com o baixo nível dos reservatórios no país, o Ministério das Minas e Energia cogita recorrer à medida. Na região metropolitana de São Paulo, 60% das pessoas defendem o rodízio de água, opção que deve ser adotada pela gestão Alckmin (PSDB). Neste domingo (8), o nível do sistema Cantareira, que abastece 6,2 milhões de pessoas na Grande SP, era de apenas 5,7%. Para quase um terço dos entrevistados, o principal culpado pela crise na energia é o governo Dilma (PT). Em São Paulo, 37% veem o governo estadual como o maior responsável pela escassez de água.  

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domingo, fevereiro 08, 2015

Dominique

Opinião

Carnaval, ou me engano?

Gabeira
Neste período de carnaval, sinto-me, às vezes, num planeta vizinho próximo o bastante para ouvir os blocos na rua, numa posição confortável para recordar. Quando menino, ouvi meu tio cantar: “Ai morena, seria o meu maior prazer/ passar um carnaval contigo/ beijar a tua boca/ e depois morrer”.

No final da marchinha, a morena seria mais rainha do que é, e o Rei Momo beijaria os seus pés. Aquilo soava como uma paixão incontrolável. Beijar a sua boca e depois morrer? Não era um preço muito alto? O Rei Momo beijava apenas os pés da morena. Queria preservar a vida, para outros carnavais? Talvez beijar a sua boca fosse, na época, a metáfora de ir para a cama. E o verso “depois morrer”, uma alusão ao orgasmo, esse desligar-se do mundo.

O carnaval é isso, mas não inteiramente. Nunca me saiu da lembrança uma cena no inverno europeu. Era uma festa de exilados, e, a certa altura, alguns fizeram um cordão e começaram a cantar “Mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar”, com dois dedos erguidos em cada mão. Nevava lá fora, e eles cantando no silêncio da noite de inverno. O carnaval para eles era, ao mesmo tempo, uma lembrança do Brasil e da própria infância. Creio que é o mesmo para mim, embora não tenha a mínima disposição de erguer dois dedos em cada mão e sair cantando por aí. Na verdade, se saísse, cantaria: “Tomara que chova três dias sem parar”. Mas, na verdade, cantaria apenas para mim.

Hoje estou sempre atento aos dados que me permitam transitar no Rio, driblando o desfile de blocos. Os foliões são muito simpáticos, mas se vertessem em água a mesma quantidade que vertem em xixi, seriam mais simpáticos ainda. Ouvi o relato de uma senhora que mora num prédio próximo ao ensaio de um bloco. Ela fica nervosa com barulho, xixi, enfim toda a movimentação diante de casa. Várias vezes pensou em ir para a janela e gritar. Mas nem isso pode fazer. O nome do bloco é desencorajador para sua empreitada: Calma, Calma, Sua Piranha.

Desde quando voltei ao jornalismo, o carnaval para mim é quase sempre trabalho. Nos últimos anos, tenho documentado o desfile carnavalesco dos internos do Pedro II e entrevistei Joãosinho Trinta quando proibiram sua imagem de Cristo Mendigo no desfile de carnaval. Pena que Joãosinho não tenha sobrevivido para ver os tempos do Papa Francisco, certamente muito mais abertos para o que, na época, foi tido como uma heresia.

Espero que no carnaval todos beijem muito, não percam tantos celulares, morram um pouco como na marchinha, mas não se esqueçam de sobreviver para o que nos espera. No auge desta crise de água e energia não viveremos apenas as cinzas do carnaval, mas também de um modelo de desenvolvimento que não dá mais pé. Sua falência visível nos ajuda a sair da ilusão da abundância e planejar a escassez. Será uma longa caminhada. A primeira etapa foi colocar Deus entre parênteses. A segundo é colocar o governo entre parênteses. Em outras palavras, as saídas dependem muito da própria sociedade, de sua capacidade de inventar.

Há 30 anos, num programa de televisão, apresentei a história de uma escola no Andaraí que deu como tarefa aos alunos reconstituir a história de um rio do bairro, praticamente morto. Ao longo de sua busca pelo rio, os meninos conseguiram reconstruir a memória do lugar, a partir de depoimentos dos mais velhos. E reconstituíram a vida cotidiana, muito mais rica e alegre com a presença do rio.

Com todo o valor que reconheço na ciência e na tecnologia, creio que é preciso que as pessoas voltem a gostar dos seus rios. Muitos, como os moradores de São Paulo e outras metrópoles, já nasceram sobre rios soterrados ou transformados em esgotos. Para alguns, a própria ideia de rio é associada a mau cheiro e águas imundas. O rio é alma de muitas cidades no Brasil. A maioria não se dá conta disso. Se a crise, pelo menos, conseguir despertá-la para a riqueza que corre em suas terras, terá cumprido um papel pedagógico.

Uma vez, apresentei um projeto criando um estado independente do Pantanal. Não era uma simples bravata. Havia base de apoio entre os pantaneiros, fiz várias visitas a Miranda, que seria a capital. Na ideia de autonomia, havia também embutida uma proposta de governo: o comitê de bacia. A ideia de governar por bacia era muito mais adequada para enfrentar a complexidade da região.

O Brasil terá de encontrar não só criatividade mas também novas formas de se organizar para encarar o problema. Assim como os carnavais, o clima mudou. Vivemos um período de catástrofes naturais, e todos trabalham pensando em administrar a escassez. É difícil despertar do sonho da abundância de recursos naturais. Ele alimenta o populismo, propostas mirabolantes, marqueteiros e mercadores de ilusões. Roubar muito e prometer o paraíso tem sido a fórmula da sobrevivência no poder. Só o PT teria recebido US$ 200 milhões, segundo um ex-diretor da Petrobras.

Estou seguro de que a realidade vai nos abrir o caminho de uma adequação nacional aos novos tempos. Mas poderíamos apanhar um pouco menos dela.

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U.V.

Manchetes do dia

Domingo 08 / 02 / 2015

O Globo
"Escândalos em série - Petrobras contratou 60% das obras por convite"

Usado por cartel, esquema que dificulta fiscalização envolveu R$ 220 bi

Adoção do método cresce nove vezes, justamente no período investigado pela Operação Lava-Jato

O uso de cartas-convite, modelo de licitação em que a Petrobras escolhe quem vai participar, sem obrigação de divulgar editais, cresce nove vezes de 2003 a 2012 e movimentou R$ 220 bilhões em compras, justamente no período investigado na Operação Lava-Jato, contam Alexandre Rodrigues, Fábio Vasconcellos e Cleide Carvalho. Um dos delatores ouvidos pela Polícia Federal disse que esse sistema fortaleceu a ação do cartel de empreiteiras investigadas: três delas foram as mais contratadas por carta-convite.

Folha de S.Paulo
"Crises derrubam popularidade de Dilma, Alckmin e Haddad"

Segundo Datafolha, petista tem a mais baixa avaliação de um presidente desde FHC

Petrolão, piora da economia e escassez de água desgastam imagem dos governantes

Após três meses e meio das eleições, a popularidade de Dilma Rousseff (PT), Geraldo Alckmin (PSDB) e Fernando Haddad (PT) despencou, revela pesquisa Datafolha. É a mais rápida e profunda deterioração política desde o governo Collor. Os três apresentam rejeição igual ou pior à de junho de 2013, auge dos protestos de rua. O cenário resulta da união do escândalo de corrupção na Petrobras, da piora das expectativas sobre a economia e da crise de água e energia. A presidente recebeu o pior golpe. Na pesquisa anterior, Dilma tinha 42% de ótimo ou bom, e agora tem 23%. Os que avaliam o governo como ruim ou péssimo subiram de 24% para 44%. É a mais baixa avaliação de um presidente desde o tucano FHC, com 46% de reprovação em 1999. Para 77% dos entrevistados, a petista tinha conhecimento da corrupção na Petrobras. Mais da metade (55%) acha que a situação econômica do país vai piorar – o maior índice desde 1997. Alckmin perdeu dez pontos e sua aprovação caiu de 48% para 38%. A avaliação negativa do governador de São Paulo subiu de 17% para 24%. A falta de água e a saúde são vistos como os principais problemas. Haddad empatou com Dilma em juízos negativos (44%) e retornou ao patamar dos protestos de rua contra o aumento das tarifas de ônibus em 2013. Pré-candidato à reeleição, o prefeito de São Paulo é visto como indeciso para a maioria dos paulistanos. 

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