sábado, janeiro 31, 2015

Dominique

Opinião

E o lulopetismo desestabilizou a Petrobras

A maior crise na história da empresa é causada por um partido de esquerda e não pelos “neoliberais” tucanos, nem os ‘entreguistas’ de todos os matizes

Editorial O Globo

Num enredo de realismo fantástico aplicado à política, o lulopetismo, corrente hegemônica do PT, partido de esquerda, é que se tornou o maior algoz da Petrobras, nas seis décadas de história da estatal, ícone da própria esquerda.

Não foram o “neoliberalismo” da social-democracia tucana nem os “entreguistas” de todos os matizes o carrasco da companhia, como petistas sempre denunciaram.

Bastaram 12 anos de administração comandada pelo PT para a maior empresa brasileira, situada também com destaque em rankings internacionais, chegar ao ponto de não ter acesso ao mercado global de crédito, devido ao alto risco que representa.

A maior crise da história da Petrobras tem começo, meio e ainda não se sabe o fim. É certo que ela será uma empresa menor, depois da baixa patrimonial que terá de fazer para refletir os efeitos dramáticos produzidos em seus ativos pelo lulopetismo: desde a rapina patrocinada por esquemas político-partidários — de PT, PP, PMDB, por enquanto — a decisões de investimento voluntaristas, sem cuidados técnicos, e também inspiradas por preferências políticas e ideológicas.

No mais recente fiasco da diretoria e Conselho de Administração — a divulgação do balancete do terceiro trimestre do ano passado sem auditoria e registro contábil da roubalheira do petrolão —, foi revelado que, da análise de 31 ativos da companhia, resultou a estimativa de que eles estariam superavaliados em astronômicos R$ 88,6 bilhões.

Não apenas pelos desvios do petrolão, mas por mau planejamento e mudanças de parâmetros como dólar e preço do petróleo.

Sobre a corrupção em si, o Ministério Público do Paraná informa que a Operação Lava-Jato, a que está desbaratando a quadrilha da estatal, permitiu a denúncia contra responsáveis por desvios de R$ 2,1 bilhões, dos quais R$ 450 milhões foram recuperados e R$ 200 milhões, bloqueados na forma de bens de réus. Para comparar: no mensalão foram R$ 140 milhões.

O começo da hecatombe foi a entrega da estatal ao lulopetismo sindical, de que José Sérgio Gabrielli é símbolo. Ex-presidente da estatal, ele foi denunciado devido a evidências de superfaturamento em obras do centro de pesquisa da estatal.

Diretores passaram a ser apadrinhados por políticos/partidos, e assim se abriram as portas do inferno. O próprio Lula fez uso político da estatal, ao impor a construção de refinarias inviáveis no Maranhão e no Ceará, para contentar os Sarney e os Gomes (Cid e Ciro).

Elas acabam de sair dos planos da estatal, mas, só em projetos, desperdiçaram R$ 2,7 bilhões. A Abreu e Lima, por sua vez, um ícone do superfaturamento, surgiu de conversas entre Lula e o caudilho Hugo Chávez — sem que a Venezuela investisse na refinaria.

Na quinta, a agência Moody’s rebaixou todas as notas de risco da estatal, colocando-a no limiar da perda do “grau de investimento”. Abaixo desse nível, os títulos da empresa entram na faixa do junk, “lixo”. Com méritos.

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U.V.

Manchetes do dia

Sábado 31/ 01 / 2015

O Globo
"Contas do país tem rombo de R$ 32 bi"

É a primeira vez que Brasil tem déficit fiscal desde 2002

Com crescimento fraco e incentivos fiscais, governo federal, estados, municípios e estatais gastam mais do que arrecadam

Pela primeira vez desde que o BC iniciou as estatísticas das contas públicas, em 2002, o Brasil registrou um déficit fiscal de R$ 32,5 bilhões em 2014, ou 0,63% do PIB. Governo federal, estados, municípios e estatais gastaram mais do que arrecadaram e, com isso, o país não conseguiu reduzir sua dívida pública, que subiu de 33,8% para 36,7% do PIB, resultado pior do que o previsto pelo mercado. Analistas alertam que será mais difícil cumprir a meta fiscal deste ano, de obter superávit de 1,2% do PIB. 

Folha de S.Paulo
"Licitação de ônibus em SP inclui estatizar garagens"

Prefeitura quer atrair mais empresas para a concorrência e reduzir custos

A Prefeitura de São Paulo desapropriará as garagens de ônibus das empresas que exploram o transporte público, informa Leão Serva.

Os decretos que declaram essas propriedades áreas de utilidade pública já foram encaminhados ao gabinete de Fernando Haddad (PT). 

Segundo a prefeitura, a estatização das garagens permitirá que mais empresas entrem na concorrência, aumentando o capital disponível e reduzindo custos.

A gestão Haddad se apropriará dos espaços para depois entregá-los aos ganhadores da concorrência.

A medida antecipa o início do processo de licitação que deve reorganizar o sistema de ônibus, com mudanças no serviço ao usuário e no modelo administrativo.

Empresas estrangeiras podem entrar na concorrência, cujos trâmites devem começar em fevereiro ou março.

O sindicato das companhias de ônibus de São Paulo afirma que as garagens têm de ser desapropriadas por “valor correto” para evitar prejuízos aos envolvidos. Seu presidente considera que a estatização não assegura a contratação de um serviço melhor.

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sexta-feira, janeiro 30, 2015

São Paulo


Coluna do Celsinho

Ciência

Celso de Almeida Jr.

Uma conversa simples.

Um café para cada um.

No pensamento, a lembrança de José Reis.

Cientista, jornalista especializado em divulgação da ciência, editor e escritor, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Ele é o patrono do Clube de Ciências de nossa escola.

Uma singela homenagem do Colégio Dominique a este saudoso brasileiro, que tanto contribuiu para despertar o interesse científico na juventude do país.

Neste ano, o Clube de Ciências José Reis será coordenado pelo Sidney Borges.

Foi com ele que saboreei o café, no encontro que confirmou esta missão.

Quem conhece o Borges sabe de seu especial talento para tornar acessível a compreensão de assuntos complexos, como, por exemplo, Física e Matemática.

Em encontros semanais, desenvolverá com os alunos do 6º ano do fundamental ao 3º ano do ensino médio as mais diversas experiências científicas.

Daquelas que ficam para sempre na memória dos estudantes.

Dedicará, também, um tempo especial para professores e alunos dos anos finais da primeira etapa do ensino fundamental, que abrange crianças de 9 e 10 anos de idade.

É isso, meus amigos!

A semente da curiosidade, da reflexão, da observação será lançada em cada encontro, em cada sequência de experiências.

Entendemos, entretanto, que apenas uma pequena parte da garotada mergulhará com maior intensidade nestes estudos.

Sem problemas.

É assim que funciona.

Num futuro, quem sabe, em conversas simples, saboreando um bom café, algumas delas também lancem as suas sementes.

Despertem vocações.

Estimulem o conhecimento.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Dominique

Opinião

Morte em Nusakambangan

Gabeira
Uma querida amiga conta que postou um pedido de clemência para Marco Archer e foi soterrada com um avalanche de comentários negativos. Respondi que isto, de certa forma, é pedagógico. Remar contra a maré, com as próprias convicções.

Mas não fiquei surpreendido. De Vargas para cá muita coisa mudou a sociedade brasileira, sobretudo nos últimos anos: aumento da violência, multiplicação de crimes bárbaros e dramáticos programas policiais nas rádios e tevê.

O New York Times registrou uma das consequências: a eleição de uma forte bancada, composta de policiais e militares com a perspectiva de tornar a repressão mais severa. É a chamada Bancada da Bala. Conheço alguns deles. Mesmo respeitando seus argumentos, jamais deixei de condenar a pena de morte, sobretudo esta morte singular de Marco Archer.

Foi através de Carolina Archer que o caso me chegou às mãos. Ela sempre foi a mãe corajosa que se dedicava a salvar o filho, viajando com recursos modestos, lutando contra o desespero. Uma vez, ela chegou a abordar o chanceler Celso Amorim, num restaurante do Rio, pedindo ajuda na solução do caso. Carolina queria que a ajudasse a pressionar o Itamarati. Fiz o que pude, mas a verdade é que o Itamarati sempre me pareceu correto na sua tarefa de assistir a um brasileiro naquela situação e distância.

Uma vez, Marco, sabendo mim através da mãe, ligou de uma prisão de Bali. Disse que aquilo era muito confuso e os presos pareciam uma legião estrangeira. Entre eles, e isto tornava mais confusa a atmosfera, estavam os terroristas islâmicos que explodiram uma bomba em Bali, matando 202 pessoas.

Sua situação piorou quando foi transferido de Jakarta para uma ilha a 400 Km de distância. Isso tornava a assistência muito cara para o Itamarati que trabalha com recursos limitados.

No parlamento fiz alguns discursos pedindo clemência para Marco. Sua única utilidade, talvez, foi consolar Carolina. Discursos não são ouvidos nem em plenário quanto mais na Indonésia.

Num encontro internacional de parlamentares em Turim reuni-me com três deputados indonésios. Falei sobre Marcos. O outro brasileiro no corredor da morte ainda não tinha sido preso.

Senti pela reação deles que não havia o mínimo espaço para contar com o parlamento indonésio. Foram gentis, mas claros o bastante para descartar um perdão.

O caminho era muito estreito. Carolina morreu antes do filho. Morreu sem perder a esperança de salvá-lo. O que de certa forma, para quem a conheceu correndo de um lado para outro, é um consolo.

Nesses anos, a violência crescente no Brasil, a ousadia dos traficantes de drogas, tornaram a retaguarda escorregadia e incerta.

Na Indonésia o horizonte se fechou com a eleição de Ioko Widodo. Sua promessa de campanha: fuzilar os traficantes condenados à morte.

Governos são assim, fazem promessas generosas em campanha e não as cumprem. Fazem promessas terríveis em campanha e as realizam prontamente.

A verdade é que o primeiro brasileiro condenado à morte no exterior foi executado. Alguns brasileiros e o próprio governo perderam a batalha. Eu perdi junto com o ele, nos damos melhor na derrota.

Considero, no entanto, uma bobagem falar em retaliação à Indonésia. E se fosse nos EUA e China, campeões estatísticos em execuções no mundo?

Marco foi fuzilado em Nusakambangan. Numa entrevista ao repórter Renan Antunes de Oliveira, na prisão de Tangarang, confessou que sempre viveu do tráfico de drogas.

Jamais se declarou inocente. Esperava pena de prisão, como a dos terroristas de Bali. Eles explodiram uma bomba no café Petit para que os turistas saíssem assustados e caíssem na explosão da bomba maior.

O episódio é um convite para olharmos a gravidade da nossa situação interna. Os deputados que buscam punições mais severas, ou mesmo a pena de morte, partem de uma cotidiano cada vez mais assustador.

Na mesma semana em que Marco foi fuzilado, duas crianças no Rio foram atingidas por balas perdidas , um surfista na Guarda do Embaú, em Santa Catarina,morto a tiros por um policial militar após uma simples discussão . Os fatos vão se desdobrando e a sensação de medo e revolta fortalece a tese da pena de morte .

Só uma política de segurança e carcerária baseada na inteligência, tecnologia , forte aprovação na sociedade pode, progressivamente, se apresentar como resposta. Não a vejo no horizonte.

Os Estados Unidos tem alguns desses requisitos . Ainda assim a pena de morte foi abolida em apenas 15 estados. Recentemente um homem chamado James Wood foi condenado à morte no Arizona. Agonizou duas horas após receber a injeção letal. O governo anuncia mudanças químicas na próxima. Saem Midazolan e hidromorphone, entram Pentobarbital e sodium penthotal.

Com um tiro no peito, em Nusakambangan, ou pentobarbital no Arizona, a pena de morte é condenável. Mas devo reconhecer: torna-se cada vez mais espinhoso defender esta tese num Brasil violento, em crise econômica e dominada por um universo político em decomposição.

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U.V

Manchetes do dia

Sexta-feira, 30/ 01 / 2015

O Globo
"Petrobras para obras e ameaça reter dividendos"

Corte nos ativos pode passar de R$ 88 bi
94% dos desvios são na área de Abastecimento
Em 2 dias, perda na Bolsa chega a R$ 16 bi

A presidente da Petrobras, Graça Foster, informou ontem, em entrevista coletiva, que vai suspender as obras da segunda etapa da Refinaria Abreu e Lima, um dos principais alvos das denúncias da Operação Lava-Jato, até a revisão de todos os contratos do projeto. Investimentos no Comperj também serão reduzidos. E a Petrobras poderá fazer um ajuste maior no valor de seus ativos, superior às perdas, estimadas em R$ 88 bilhões com corrupção, ineficiência, câmbio e petróleo. A maior parte do ajuste, disse Graça, será na área de Abastecimento, que foi comandada por Paulo Roberto Costa, delator na Lava-Jato. A estatal avisou que, este ano, poderá deixar os acionistas sem sua parcela do lucro. Em 2014, a companhia distribuiu R$ 9,3 bilhões em dividendos, dos quais R$ 2 bilhões foram para a União e evitaram um rombo maior nas contas públicas. As ações da empresa voltaram a cair e, em dois dias, a perda na Bolsa foi de R$ 16,6 bilhões. 

Folha de S.Paulo
"Governo registra o primeiro deficit nas contas desde 1997"

Despesas do Tesouro superam receitas em R$ 17,2 bi; promessa de Dilma era economizar R$ 81 bi

A presidente Dilma Rousseff (PT) fechou o último ano do seu primeiro mandato com um rombo nas contas do governo federal. As despesas com pessoal, programas sociais, custeio e investimentos superaram as receitas em R$ 17,2 bilhões no ano passado. Trata-se do primeiro deficit do gênero apurado pelo Tesouro Nacional desde 1997, quando teve início a série histórica. O rombo equivale a 0,3% do PIB. Com o impulso do calendário eleitoral, os gastos foram acelerados e chegaram a R$ 1,031 trilhão. Já a arrecadação, prejudicada pela fragilidade da economia e por medidas de alívio tributário, ficou em R$ 1,014 trilhão. O governo federal teve de tomar dinheiro emprestado para cobrir os compromissos cotidianos e as obras de infraestrutura. O resultado contrasta com a meta anunciada pelo governo. Até setembro, a administração petista dizia que seriam economizados R$ 80,8 bilhões para o abatimento da dívida pública. Para este ano, a promessa é poupar R$ 55, 3 bilhões. O secretário do Tesouro, Marcelo Saintive, disse que a Fazenda trabalhará com transparência para recuperar a credibilidade. 

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quinta-feira, janeiro 29, 2015

Dominique

Opinião

O sonho e a realidade

Ferreira Gullar
Não faz muito tempo, assisti na televisão a um debate de que participavam alguns analistas políticos e cujo tema era o rumo ideológico que o Brasil seguirá neste ano de 2015, que mal começa.

Como sempre, aprendi muito com suas considerações analíticas, que não deixaram dúvida quanto às dificuldades que o país enfrentará daqui em diante, tanto no plano político como no econômico.

A verdade é que, conforme observaram, a própria constituição dos ministérios no novo governo da presidente Dilma deixa evidente a encrenca em que se encontra, ora nomeando ministro que representa o contrário de sua visão de economia, ora escolhendo outro, para o Esporte, que nada entende do assunto e o confessa.

Há quem tema que este segundo mandato de Dilma Rousseff seja um desastre. Espero que não chegue a tanto, pois quem paga o pato somos todos nós.

A outra parte daquele debate envolveu a questão ideológica, implicando a revelação do que ocorre nas escolas de ensino médio e nas universidades: a atuação de professores, na maioria de esquerda, fazem a cabeça dos alunos, induzindo-os à leitura de livros marxistas, apontados por eles como a única visão correta da realidade contemporânea.

Alguns alunos chegariam a afirmar que as aulas são, com frequência, trabalho de formação ideológica anticapitalista e antidemocrática.

São informações plausíveis, uma vez que em meus contatos com o meio universitário pude verificar, com surpresa, o quanto o marxismo que saiu de moda continua respirando em parte do ambiente acadêmico.

Disse, certa vez, a uma estudante universitária que não tinha cabimento insistir na crença marxista, quando a União Soviética e todos os países da Europa Oriental, sem exceção, trocaram o comunismo pelo capitalismo. Ao que ela me respondeu: "Mas nenhum desses países era verdadeiramente comunista. O comunismo ainda está por vir". Mal acreditei no que ouvia.

Qual a razão de semelhante resposta? Simplesmente, a necessidade de crer numa utopia que prometia mudar a sociedade, torná-la mais justa e solidária. Com o fim do socialismo real, só resta aos que nele acreditavam desistir dessa utopia ou apegar-se a ela, custe o que custar, ainda que contra a realidade dos fatos.

Mas esses são os que realmente sonham com uma sociedade fraterna e justa, e mal podem viver sem acreditar nela. Há, porém, outro tipo de revolucionário que, em face da inviabilidade da utopia, tomou outro rumo, que nada tem de idealista. Trata-se do populista, dito de esquerda ou, como o chamo, o neopopulista. É aí que está o perigo, e não nos marxistas idealistas, que sonham de fato com uma sociedade justa, embora inviável nos termos em que a concebem.

Não é isso o que pensam os neopopulistas, que de idealistas não têm nada, como se vê na Venezuela do chavismo, no Equador de Correa, na Argentina de Cristina Kirchner e, até certo ponto, no petismo que se mantém no poder no Brasil há 12 anos e vai para mais quatro.

Os marxistas, os comunistas de fato, nunca tiveram possibilidade de chegar ao poder no Brasil. Logo, a pregação dos professores, induzindo os estudantes ao marxismo, é perda de tempo, uma vez que, mesmo quando o comunismo era a segunda potência política e militar do mundo, não chegou ao poder no Brasil. Não seria agora que iria consegui-lo. O que esses professores dizem aos seus alunos, a realidade se encarregará de desmentir.

Já os neopopulistas, que nada têm de idealistas, ao mesmo tempo que posam de anticapitalistas, usam o dinheiro público para financiar programas assistencialistas que beneficiam as camadas mais pobres da população. Essas e outras medidas semelhantes garantem-lhes os votos de uma ampla parte do eleitorado e, graças a isso, mantêm-se no poder.

Mas, como dizia um professor meu na escola do partido, em Moscou, em economia não há milagre e, por isso, de onde se tira e não se bota, vai faltar dinheiro.

Por isso, Dilma foi obrigada a entregar o ministério da Fazenda a um economista que pensa o contrário dela. Ele vai tentar repor, nos cofres do Estado, o dinheiro que ela gastou a fundo perdido. 

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira, 29 / 01 / 2015

O Globo
"Petrobras põe R$ 88 bi sob suspeita, e ações caem 11%"

Roubo, ineficiência dos projetos, câmbio e petróleo reduzem ativos

Estimativas, porém, não são incluídas no resultado financeiro, divulgado com dois meses de atraso e sem parecer de auditor . Analistas criticam dados e dizem que falta vontade política da estatal em calcular valor dos desfalques. Com atraso de dois meses, a Petrobras divulgou às 3h21m de ontem seu balanço financeiro do 3º trimestre de 2014, mas sem inclui r o valor desviado em corrupção. A empresa só informou uma estimativa de R$ 88 bilhões de redução nos ativos, não apenas com os desfalques, mas também com fatores como ineficiência dos projetos e mudanças no dólar e no petróleo. Para analistas, o balanço é uma “peça de ficção” e os números não têm qualquer credibilidade. As ações da estatal caíram 11,21% na Bolsa. No mercado, há temor que a Petrobras não consiga divulgar até maio seu balanço anual de 2014 com o aval de um auditor independente, o que pode levar à cobrança antecipada de mais de US$ 50 bilhões em dívidas da companhia. Um “fundo abutre” dos EUA afirmou que vê calote, segundo as leis americanas. 

Folha de S.Paulo
"Petrobras exclui corrupção de balanço e ações desabam"

Papéis da estatal na Bolsa caem 11,2%, por influência também da redução de 38% no lucro

Com mais de dois meses de atraso, a Petrobras divulgou nesta quarta (28) seu balanço referente ao terceiro trimestre do ano passado sem contabilizar perdas por desvios de recursos apontados pela Operação Lava Jato. A frustração do mercado financeiro pela estatal não assumir o ônus da corrupção resultou em forte queda das ações na Bolsa. Os papéis preferenciais caíram 11,2%, e os ordinários, com direito a voto, 10,5%. Com a desvalorização das ações, o valor de mercado da petroleira caiu de R$ 129 bilhões para R$ 115 bilhões em um dia. Em 2010, a cifra passava de R$ 380bilhões. Mesmo sem contar as perdas, os números do balanço revelam fraco desempenho, com lucro e geração de caixa menores e endividamento maior. O lucro caiu 38% em relação ao segundo trimestre, para R$ 3,09 bilhões — o pior resultado desde o segundo trimestre de 2012. O resultado foi influenciado pelo prejuízo de R$ 2,7 bilhões devido à desistência de dois projetos de refinarias no Maranhão e no Ceará. Empresas contratadas pela Petrobras detectaram que os ativos estão inflados em R$ 89 bilhões.

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quarta-feira, janeiro 28, 2015

Dominique

Opinião

Conversas de cama

João Pereira Coutinho
1. O REINO UNIDO tremeu com a notícia do fim. No caso, o fim da página 3 do jornal "The Sun", por onde passaram milhares de moças de topless desde a década de 1970.

Uma delas, se o leitor me permite o apontamento autobiográfico, foi a cantora Samantha Fox, talvez a minha primeira paixão adolescente. Anos mais tarde, já na idade adulta, li algures que Samantha, a heroína dos meus sonhos, afinal era lésbica. É nesses momentos que uma pessoa pondera um qualquer processo judicial por danos psicológicos irreversíveis. Mas divago.

Certo, certo, é que o "Sun" voltou atrás com a censura e convidou Nicole, 22, para continuar a tradição da página 3.

As feministas estão compreensivelmente indignadas porque a indignação é o estado natural de uma feminista: a página 3 "degrada" as mulheres e pertence a uma cultura misógina que não tem mais lugar no século 21.

Não pretendo entrar em polêmica com as brigadas, embora não resista a uma pergunta singela: e o que fazer com as mulheres que voluntariamente aparecem na página 3 do "Sun" para partilharem com os súditos do reino as curvas e contracurvas das respectivas topografias?

Não será essa opção uma atitude de "independência feminina" –a aplicação, na prática, do bordão feminista "no meu corpo mando eu" que é usado, por exemplo, nas discussões sobre a legalização do aborto? Ou essa "autonomia" fundacional não se aplica no caso em apreço?

A questão não é simplesmente "filosófica". Porque foram várias as modelos da página 3, presentes ou passadas, que consideraram o fim das fotos de topless um atentado à autonomia das mulheres.

"Quem são as feministas para decidirem em meu nome?", perguntaram elas. Não será essa atitude uma forma de paternalismo perfeitamente comparável ao machismo que as feministas dizem combater?

Por enquanto, a página 3 continua. Mas tendo em conta o clima politicamente correto que contamina os ares destas ilhas, não é de excluir que o "Sun", em nome do multiculturalismo e para não ofender certas religiões, não acabe optando por mulheres integralmente cobertas.

Só espero que, quando esse dia chegar, ninguém afirme sobre as múmias da página 3 a lamentável conclusão machista de que quem já viu uma, já viu todas.

2. Perguntam-me muitas vezes por que motivo abandonei a história da arte para me ocupar da ciência política. A resposta é mais simples do que imaginam: apesar de ter me formado na primeira, considero a segunda mais suave para os meus neurônios.

Comunismo, nazismo, fascismo, islamismo –coisas de criança quando comparadas com "My Bed", a famosa obra de Tracey Emin que, vendida por £ 2,54 milhões (cerca de R$ 9,9 milhões, em valores atuais) em leilão, tem alimentado discussões sérias entre especialistas.

"My Bed", como o título indica, consiste na própria cama em que Tracey Emin dormiu, vomitou, provavelmente urinou, nos quatro dias em que lá esteve deitada. Tudo por causa de um desgosto amoroso que jogou a artista em depressão profunda.

O problema é que alguns estudiosos não estão convencidos da "autenticidade" do trabalho de Emin. Conta o "The Sunday Times", que dedicou uma página ao assunto, que a cama talvez tenha sido feita –ou, melhor dizendo, desfeita "artificialmente" para parecer mais "autêntica".

O caso é de tal gravidade que Martin Kemp, professor em Oxford e uma autoridade em Leonardo da Vinci (juro), comparou as fotos da cama em 1998 (quando foi exibida no Japão) e em 1999 (quando a cama regressou ao Reino Unido).

Martin Kemp não tem dúvidas: existem "incongruências" quando se comparam as fotos. Para começar, as almofadas não parecem ter recebido o peso de uma cabeça humana.

Além disso, os objetos espalhados sobre os lençóis –lingerie, cigarros, preservativos– surgem em lugares distintos nas várias versões da cama.

Mas o pior, para Kemp, é o estado de conservação dos detritos, a começar pelo vomitado. Em poucas palavras, falta o cheiro nauseabundo.

Não sei se Martin Kemp, para chegar a essa conclusão, terá literalmente enfiado o nariz nos lençóis da sra. Emin. Mas de um especialista em Leonardo da Vinci eu só posso esperar profissionalismo à prova de bala. 

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U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira, 28 / 01 / 2015

O Globo
"Dilma quer blindar empresas privadas"

PF abre inquérito contra mais dez empreiteiras no escândalo da Petrobras

Em seu primeiro discurso, depois de 26 dias sem dar entrevistas, a presidente Dilma defende o ajuste fiscal para manter conquistas sociais, mas afirma que fará adequações nos benefícios trabalhistas

Ao quebrar o silêncio para defender o ajuste fiscal, na primeira reunião ministerial do segundo mandato, a presidente Dilma mostrou preocupação com a situação das grandes empreiteiras brasileiras, parte delas envolvida no escândalo da Petrobras. Em um discurso de 35 minutos, transmitido pela TV oficial, a presidente afirmou que “punir e ser capaz de combater a corrupção não pode significar a destruição de empresas privadas”. Ontem, a PF passou a investigar mais dez empreiteiras, entre elas a Andrade Gutierrez. A presidente pediu empenho dos ministros para que “travem a batalha de comunicação” em defesa do governo. Ela disse que fará correções na política econômica e adequará benefícios trabalhistas. 

Folha de S.Paulo
"Rodízio em SP pode chegar a 5 dias sem água por semana"

Diretor da Sabesp admite recorrer a solução ‘drástica’ se a situação do sistema Cantareira piorar

Em meio à grave crise hídrica, o governo paulista admitiu que poderá adotar um rodízio de água “drástico” e “pesado” na Grande SP . A medida, segundo a gestão de Geraldo Alckmin (PSDB), é uma última alternativa para evitar o colapso do Cantareira, sistema que abastece 6,2 milhões de pessoas na região metropolitana e chegou a 5,1% do nível. Paulo Massato, diretor da Sabesp, disse que com a eventual piora da situação, a Grande SP pode ter cinco dias com rodízio por semana. “Seria uma solução de rodízio pesado, drástico.” A Sabesp não detalhou o plano, e não se sabe se a ideia de rodízio prevê o corte de água por cinco dias seguidos ou alternância de fornecimento entre bairros. O rodízio seria a mais dura medida de Alckmin contra a crise, após reduzir a pressão na distribuição e adotar sobretaxa na conta. A Sabesp passou a oferecer em seu site uma opção pela qual o cliente consulta se a pressão está sendo reduzida em sua cidade e bairro, o que permite saber dias e horários em que há menos água disponível. 

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terça-feira, janeiro 27, 2015

Pitacos do Zé


Aos que chegam

José Ronaldo Santos
Nesses dias passados tenho encontrado gente nova na cidade que vem me perguntar a respeito de fatos da nossa história. Querem se inteirar e interagir com o nosso lugar.  Acho muito bom! É conhecendo essa terra e a essa cultura local que a gente passa a gostar mais e a defender esse pedaço de chão tão especial por natureza.

Eu até sempre tenho um roteiro a apresentar, mas o ponto de partida, na minha preferência, é a vida dos  habitantes que aqui estavam no século XVI (por ocasião da chegada dos portugueses), ou seja, os indígenas da etnia Tupinambá.

Entre os diversos autores que teceram suas considerações a respeito desse importante grupo indígena, eu gosto do Benedito Prezia, cuja obra mais didática, em parceria com Eduardo Hoornaert,  tem o título de Esta terra tinha dono. 

Foi para lutar contra a escravização, no plantio de cana-de-açúcar, que os habitantes desse território se uniram na Confederação dos Tamoios, na primeira resistência organizada dos índios do continente americano.

Tamoio queria significar os mais antigos do lugar, aqueles que estavam aqui primeiro, que não aceitavam a forma de relação imposta pelos portugueses. Então, dessa união dos diferentes grupos indígenas, desde o planalto paulista até o litoral norte fluminense, começou a guerra que durou de 1562 a 1567. De acordo com Prezia, a doença por nome de varíola foi a grande aliada dos portugueses. Até o grande cacique Cunhambebe morreu nesse intervalo. Contribuiu ainda para a vitória lusitana: a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro e a atuação dos padres Manoel da Nóbrega e José de Anchieta.

Hoje, vendo a atuação dos líderes religiosos nessa sociedade de conformismo, de alienação, eu penso nos tupinambás que logo se acalmaram com a fala do padre Anchieta. Acabar com o povo que amava a liberdade era o sentido da missão dos jesuítas?

Após as perseguições, os colonos portugueses implantaram o que se tornaria a Vila Nova da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba, em 1637.

Ao se deparar com nomes, tais como: Avenida Iperoig, Rodovia dos Tamoios, Rua Cunhambebe, Travessa Koakira, Condomíno Paz de Iperoig etc., tenha a certeza de que esta cidade já fez parte do território livre dos tupinambás. Foram dizimados, mas deixaram seus traços na cultura caiçara. Hoje, as duas aldeias que existem (Corcovado e Prumirim), são da etnia guarani, que migraram da região sul, no final da década de 1970, na firme esperança de alcançar a Terra sem males. Quer teologia mais nobre que isso?

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Dominique

Opinião

Brasil de Saudade

Leão Serva
"Nas últimas cinco décadas, o Brasil mudou-se para as grandes cidades, tornou-se um dos países mais urbanizados do planeta. Mas seu coração sofre uma nostalgia do campo infinito que ficou para trás: 'Eu quero mais espaço!' Não é por outra razão que os paulistanos elegeram a onça suçuarana como animal símbolo da cidade. As canções populares no país choram a saudade de um amor distante, da casinha branca lá no pé da serra, onde a lua faz clarão..."

A saudade, esse sentimento tão comum quanto misterioso, é o tema de uma interessantíssima exposição de fotos, aberta no último sábado no Itaú Cultural (na Av. Paulista, 149): "A Arte da Lembrança". O conjunto das obras selecionadas pelo curador Diógenes Moura destaca a presença da nostalgia na fotografia brasileira. E prova que o entendimento de uma imagem independe das palavras: as imagens exalam nostalgia desde a primeira fotografia da sala de exposição, de Benício Dias (1942), em que um homem de costas fotografa a imensidão do litoral de Recife.

A saudade é um sentimento profundamente arraigado na cultura brasileira, como destaquei no trecho acima, parte do texto sobre o aniversário de São Paulo, publicado na revista Serafina de ontem. Há um senso comum de que a própria palavra só existiria no português, ideia que foi contestada com a maestria de sempre pelo professor Pasquale Cipro Neto, em sua mais recente coluna.

No artigo, Pasquale aponta que há sinônimos em quase todas as outras línguas. O curioso é que segundo o Google Tradutor, na maioria das línguas, a palavra correspondente é baseada em "Nostalgia", uma palavra montada a partir de raízes gregas em um período recente, como destaca o próprio texto, pelo médico suíço J. J. Harder. Até o coreano, o georgiano, o malaio e o telugo, essas línguas exóticas para os idiomas europeus, adotam pronúncias locais para dizer "nostalgia".

A pergunta que fica é: será que de fato não terá sido quase sempre o português a única língua munida de um conceito para o sentimento de saudade, só recentemente preenchido nas outras línguas por um neologismo? Será que tantos outros povos do mundo sentiam um vazio indefinível quando distantes de casa ou do amor, e por isso adotaram nostalgia?

A saudade está profundamente entranhada no brasileiro desde a herança portuguesa, como prova sua música popular, o fado, sempre chorando a distância, do amor, da terra natal ou de ambos. Mas os brasileiros renovaram essa marca. Diante das evoluções de arranjos e composições, o que ainda une o sertanejo universitário e o brega contemporâneos à música sertaneja tradicional é o choro da distância, sempre, da paixão, do lugar da infância ou dos dois. Também não é um monopólio luso: não é preciso entender grego para sentir a nostalgia nas canções que choram a distância de Esmirna (cidade de que os gregos foram expulsos pelo exército turco, ao final da guerra de 1921). Mas essa coincidência sugere uma chave para entender que a saudade talvez seja essencialmente um sentimento dos povos viajantes, como foram os gregos da antiguidade e os portugueses do renascentismo.

O professor Pasquale, em seu texto, diz que a palavra não é exclusividade do português e afirma que ele mesmo não consegue sentir saudades do Brasil, país que ele vê envolvido em um clima político hediondo. Curiosamente, ele trai aí sua saudade, claro, de um outro país, com outro clima político, em que viveu antes.

É esse país, predominantemente lembrado em branco e preto, que se destaca na mostra do Itaú Cultural. Cheio de problemas mas mais constantemente de alegria.

PS: A definição semiótica de imagem ("a presença de uma ausência", segundo o professor Norval Baitello (PUC-SP), autor de "A Era da Iconofagia" (ed. Paulus), é exatamente o inverso da saudade ("a ausência de uma presença"), o que talvez permita explicar porque usamos imagens para matar saudades.

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U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira, 27 / 01 / 2015

O Globo
"Governo do Rio corta mais no orçamento da segurança"

Balas perdidas já fizeram 16 vítimas na Região Metropolitana este ano

Secretário José Mariano Beltrame anuncia UPPs nos morros do Chapadão e do Juramento e diz que Forças Armadas deveriam assumir controle das fronteiras para impedir entrada de armas e drogas que chegam ao Rio

As polícias Militar e Civil terão juntas um corte de R$ 1,37 bilhão no orçamento, o maior dentro do aperto fiscal anunciado pelo governo de Luiz Fernando Pezão. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse que tem feito esforço para economizar, mas que certas ações não poderão ir adiante se houver contingenciamento. Mais três pessoas foram vítimas de balas perdidas nos dois últimos dias, elevando para 16 o número de casos este ano. Beltrame anunciou que os morros do Chapadão e do Juramento, que sofrem com a guerra do tráfico, ganharão UPPs e defendeu que as Forças Armadas assumam o controle das fronteiras. O Ministério da Defesa afirmou que os militares já fazem esse trabalho.

Folha de S.Paulo
"Pressão sindical faz Dilma rever novo seguro-desemprego"

Planalto pretende ceder a centrais para aprovar medida no Congresso; tempo mínimo para obter benefício pode mudar

O governo federal já admite reservadamente que vai ceder às centrais sindicais e rever parte das mudanças no seguro-desemprego, que endureceram o acesso ao benefício trabalhista, informam Valdo Cruz e Julianna Sofia. A avaliação é que, sem alteração, a medida provisória que mudou as regras não será aprovada no Congresso. A declaração do ministro Joaquim Levy (Fazenda), que chamou de ultrapassado o modelo do seguro-desemprego, irritou sindicalistas e o Palácio do Planalto. A equipe de Dilma considera que pode ser obrigada a sinalizar mais concretamente o que irá mudar na próxima reunião com as centrais sindicais, marcada para o próximo dia 3. O governo pode rever a regra que amplia de seis para 18 meses o período mínimo de trabalho para concessão do benefício na primeira solicitação. Para as centrais, a medida prejudica principalmente jovens num período em que deve haver alta do desemprego. 

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segunda-feira, janeiro 26, 2015

Dominique

Opinião

Morte em Nusakambangan

Gabeira
Uma querida amiga conta que postou um pedido de clemência para Marco Archer e foi soterrada com um avalanche de comentários negativos. Respondi que isto, de certa forma, é pedagógico. Remar contra a maré, com as próprias convicções.

Mas não fiquei surpreendido. De Vargas para cá muita coisa mudou a sociedade brasileira, sobretudo nos últimos anos: aumento da violência, multiplicação de crimes bárbaros e dramáticos programas policiais nas rádios e tevê.

O New York Times registrou uma das consequências: a eleição de uma forte bancada, composta de policiais e militares com a perspectiva de tornar a repressão mais severa. É a chamada Bancada da Bala. Conheço alguns deles. Mesmo respeitando seus argumentos, jamais deixei de condenar a pena de morte, sobretudo esta morte singular de Marco Archer.

Foi através de Carolina Archer que o caso me chegou às mãos. Ela sempre foi a mãe corajosa que se dedicava a salvar o filho, viajando com recursos modestos, lutando contra o desespero. Uma vez, ela chegou a abordar o chanceler Celso Amorim, num restaurante do Rio, pedindo ajuda na solução do caso. Carolina queria que a ajudasse a pressionar o Itamarati. Fiz o que pude, mas a verdade é que o Itamarati sempre me pareceu correto na sua tarefa de assistir a um brasileiro naquela situação e distância.

Uma vez, Marco, sabendo mim através da mãe, ligou de uma prisão de Bali. Disse que aquilo era muito confuso e os presos pareciam uma legião estrangeira. Entre eles, e isto tornava mais confusa a atmosfera, estavam os terroristas islâmicos que explodiram uma bomba em Bali, matando 202 pessoas.

Sua situação piorou quando foi transferido de Jakarta para uma ilha a 400 Km de distância. Isso tornava a assistência muito cara para o Itamarati que trabalha com recursos limitados.

No parlamento fiz alguns discursos pedindo clemência para Marco. Sua única utilidade, talvez, foi consolar Carolina. Discursos não são ouvidos nem em plenário quanto mais na Indonésia.

Num encontro internacional de parlamentares em Turim reuni-me com três deputados indonésios. Falei sobre Marcos. O outro brasileiro no corredor da morte ainda não tinha sido preso.

Senti pela reação deles que não havia o mínimo espaço para contar com o parlamento indonésio. Foram gentis, mas claros o bastante para descartar um perdão.

O caminho era muito estreito. Carolina morreu antes do filho. Morreu sem perder a esperança de salvá-lo. O que de certa forma, para quem a conheceu correndo de um lado para outro, é um consolo.

Nesses anos, a violência crescente no Brasil, a ousadia dos traficantes de drogas, tornaram a retaguarda escorregadia e incerta.

Na Indonésia o horizonte se fechou com a eleição de Ioko Widodo. Sua promessa de campanha: fuzilar os traficantes condenados à morte.

Governos são assim, fazem promessas generosas em campanha e não as cumprem. Fazem promessas terríveis em campanha e as realizam prontamente.

A verdade é que o primeiro brasileiro condenado à morte no exterior foi executado. Alguns brasileiros e o próprio governo perderam a batalha. Eu perdi junto com o ele, nos damos melhor na derrota.

Considero, no entanto, uma bobagem falar em retaliação à Indonésia. E se fosse nos EUA e China, campeões estatísticos em execuções no mundo?

Marco foi fuzilado em Nusakambangan. Numa entrevista ao repórter Renan Antunes de Oliveira, na prisão de Tangarang, confessou que sempre viveu do tráfico de drogas.

Jamais se declarou inocente. Esperava pena de prisão, como a dos terroristas de Bali. Eles explodiram uma bomba no café Petit para que os turistas saíssem assustados e caíssem na explosão da bomba maior.

O episódio é um convite para olharmos a gravidade da nossa situação interna. Os deputados que buscam punições mais severas, ou mesmo a pena de morte, partem de uma cotidiano cada vez mais assustador.

Na mesma semana em que Marco foi fuzilado, duas crianças no Rio foram atingidas por balas perdidas , um surfista na Guarda do Embaú, em Santa Catarina,morto a tiros por um policial militar após uma simples discussão . Os fatos vão se desdobrando e a sensação de medo e revolta fortalece a tese da pena de morte .

Só uma política de segurança e carcerária baseada na inteligência, tecnologia , forte aprovação na sociedade pode, progressivamente, se apresentar como resposta. Não a vejo no horizonte.

Os Estados Unidos tem alguns desses requisitos . Ainda assim a pena de morte foi abolida em apenas 15 estados. Recentemente um homem chamado James Wood foi condenado à morte no Arizona. Agonizou duas horas após receber a injeção letal. O governo anuncia mudanças químicas na próxima. Saem Midazolan e hidromorphone, entram Pentobarbital e sodium penthotal.

Com um tiro no peito, em Nusakambangan, ou pentobarbital no Arizona, a pena de morte é condenável. Mas devo reconhecer: torna-se cada vez mais espinhoso defender esta tese num Brasil violento, em crise econômica e dominada por um universo político em decomposição.

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U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira, 26 / 01 / 2015

O Globo
"Estado vai cortar mais R$ 2,7 bi do Orçamento"

Redução em custeio atingirá até pastas de Educação, Saúde e Segurança

Governo já havia anunciado no início do ano contenção de R$ 1,5 bi em todas as secretarias, motivada pela queda de arrecadação e repasses dos royalties de petróleo. Transferências para municípios também encolherão R$ 1,1 bi

O governo do estado cortará mais R$ 2,7 bilhões do Orçamento, além da redução de R$ 1,5 bilhão que já havia sido anunciada no início do ano, após a posse do governador Luiz Fernando Pezão, informa Clarice Spitz. O contingenciamento, motivado pela queda da arrecadação e dos repasses dos royalties do petróleo, atingirá todas as secretarias, mesmo as de setores considerados prioritários, como Educação, Saúde e Segurança. As transferências para os municípios também encolherão R$ 1,1 bilhão. O secretário estadual de Fazenda, Sérgio Ruy Barbosa, disse que a arrecadação com ICMS ano passado ficou em R$ 31,4 bilhões, abaixo dos R$ 34 bilhões previstos. Foi o pior resultado desde a crise internacional de 2008.

Folha de S.Paulo
"Grécia rejeita austeridade e elege partido de esquerda"

O partido de extrema esquerda Syriza, contrário às medidas de austeridade na Grécia, venceu neste domingo (25) as eleições legislativas no país, relata Leandro Colon, enviado a Atenas. Com 70% dos votos apurados, o Syriza conquistara 149 das 300 cadeiras do Parlamento, o bastante para tornar Alexis Tsipras, 40, primeiro-ministro. (...) O resultado configura um marco na história do país: em quase 200 anos de existência do Estado moderno grego, um partido de esquerda vai assumir o poder pela primeira vez.


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domingo, janeiro 25, 2015

Dominique

Opinião

A privataria petista na Petrobras 

Elio Gaspari
Imagine-se a doutora Dilma Rousseff dizendo o seguinte durante a campanha eleitoral:

"Nossos adversários quebraram o país três vezes e venderam para um banco metade da participação da Petrobras em ricos campos de petróleo da África."

Em julho de 2013 a Petrobras vendeu ao banco BTG Pactual metade de suas operações em campos de petróleo de sete países africanos. O coração do negócio estava em dois campos da Nigéria (Akpo e Agbami), dos quais a empresa tira uma produção de 55 mil barris/dia, 60% de todo o petróleo que o Brasil importa, ou 25% do que refina.

Para se ter uma ideia do que isso significa, é uma produção equivalente a 10% do que sairia do pré-sal brasileiro um ano depois, ou quatro vezes o que Eike Batista conseguiu extrair.

No século passado a Petrobras decidiu internacionalizar-se para controlar reservas fora do país. Nada mais certo. A empresa trabalhou em sigilo e em outubro de 2012 contratou o Standard Chartered Bank para assessorá-la. Um mês depois, numa negociação direta com a Petrobras, o BTG Pactual mostrou-se interessado no negócio, propondo a formação de uma nova subsidiária. A Petrobras listou 14 petroleiras que poderiam se interessar, nenhum banco. Além do Pactual, só uma empresa chegou à reta final.

Quanto valiam os campos? Aí é que a porca torcia o rabo. Uma nuvem preta pairava sobre os marcos regulatórios da Nigéria (onde estão Akpo e Agbami). O consultor financeiro da Petrobras estimou que, com a entrada em vigor de uma lei nova e ruim, valeriam US$ 3,4 bilhões, ou US$ 4,5 bilhões sem ela. O banco BSC estimou essas mesmas cifras. Sem considerar o eventual impacto da lei ruim, segundo uma publicação da consultoria Wood Mackenzie, valeriam até US$ 4 bilhões, e para outra, da IHS, só o campo de Akpo valeria pelo menos US$ 3,6 bilhões. Endireitando-se o rabo da porca: com o barril de petróleo a US$ 100, o ano de 2014 acabou-se e até hoje a lei ruim não entrou em vigor.

Em maio de 2013 o Pactual ofereceu US$ 1,52 bilhão, superando a proposta rival. Esse valor derivava de sua avaliação de US$ 3,04 bilhões para todo o pacote africano. Como a lei poderia mudar para pior, fazia algum sentido. O banco propunha que, ao nascer, a subsidiária tomasse um empréstimo de US$ 1,5 bilhão. Mistério: por que a Petrobras venderia um ativo por US$ 1,52 bilhão e, seis meses depois, criaria uma nova empresa, endividada em US$ 1,5 bilhão? A sugestão foi rebarbada, mas admitiu-se negociar outro endividamento, mais adiante.

Seis meses depois de fechar negócio com o BTG Pactual a Petrobras discutia a tomada de um empréstimo de US$ 700 milhões para a subsidiária africana junto aos bancos Standard Chartered (o mesmo que assessorou a venda) e Paribas. O setor financeiro da empresa achou as condições salgadas, com uma taxa de juros acima do que a empresa paga no mercado internacional. Em janeiro de 2014 estimava-se que a subsidiária distribuísse US$ 1 bilhão em dividendos no primeiro semestre daquele ano. Portanto, um ano depois de ter entrado no negócio, o BTG Pactual poderia receber US$ 500 milhões. Na vida real, no primeiro trimestre distribuíram-se US$ 300 milhões, deixando-se US$ 500 milhões no caixa e US$ 200 milhões aplicados. (O empréstimo, aprovado, não entra nessa conta.)

Aquilo que no século passado foi uma ideia de ampliar os interesses da empresa em terras estrangeiras resultou numa privatização de metade da sua operação africana. Acertou-se também que ela continuaria sob o logotipo da Petrobras, apesar de a estatal só ter metade do negócio. A presidência da empresa e a diretoria comercial seriam ocupadas rotativamente pelo BTG e pela Petrobras, a cada dois anos. O diretor financeiro da subsidiária seria nomeado pelo banco, e o diretor operacional sairia da estatal. Se a Petrobras tivesse liquidado alguns micos ou operações menores, tudo bem, mas ela vendeu metade de sua participação em terras d'África, especificamente a de dois campos nigerianos estrategicamente valiosos. Fez isso com relativa pressa, pois o negócio deveria ser concluído em 2013.

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U.V.

Manchetes do dia

Domingo, 25 / 01 / 2015

O Globo
"Crise hídrica: Falta de água já afeta 46 milhões de brasileiros"

As três maiores regiões metropolitanas estão sob risco de racionamento.

Produção industrial e geração de energia também podem ser prejudicadas.

A seca que castiga o Sudeste e o Nordeste já prejudica a vida de 45,5 milhões de pessoas e leva as três maiores regiões metropolitanas do país a conviver com o risco iminente de racionamento,relata Tiago Dantas. Há 936 municípios em estado de emergência devido à estiagem que também pode afetar a produção industrial e a geração de energia.

Folha de S.Paulo
"Seca atinge metade das maiores regiões metropolitanas"

SP, Rio, BH, Recife, Campinas e entornos, que abrigam quase 1/4 da população do país, sofrem com a estiagem.

Cinco das dez maiores regiões metropolitanas do país já convivem com racionamento de água, problemas de abastecimento ou represas em níveis de alerta. Juntas elas abrigam 48 milhões de pessoas, quase um quarto da população do país. Há relatos de falta de água nas capitais e entornos de São Paulo, Recife e Campinas.

Reservatórios que abastecem as Grandes BH e Rio mostram sinais de esgotamento.

Na Grande São Pauto, todos os reservatórios chegarão a zero em cerca de cinco meses caso seja mantido o atual ritmo de chuvas e consumo. Na região de Campinas, cinco cidades já fazem racionamento e outras enfrentam cortes frequentes.

No Rio, o principal sistema que abastece o estado atingiu o volume morto e há hotéis e condomínios que já recorrem a caminhões-pipa. Em Minas Gerais, o governo pediu economia à população e não descartou cobrar sobretaxa sobre o consumo excessivo. Em Pernambuco, 40% do Grande Recife enfrenta rodízio.

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