quinta-feira, dezembro 24, 2015

Pitacos do Zé

Graveto

José Ronaldo Santos
Em tempo de reencontrar os caiçaras e prosear bastante, a pedido de amigos, um causo do Mané Bento vem a calhar. Boas festas a todos!

Graveto, como todos sabem, é um pequeno pedaço de pau ou uma lasca de madeira. Geralmente tem muitas serventias: cutucar casa de marimbondo, fazer cruzeta para pescar panaguaiú, coçar costas, começar fogo, calçar um objeto maior (um móvel, por exemplo), raspar sujeira do chão etc. No linguajar caiçara, por se trocar o v pelo b, a pronúncia saía grabeto, assim como vassoura era chamada de bassora.

Numa ocasião, estando adoentado, o meu parente Mané Bento, o “Mané Aguado”, ficou internado alguns dias na Santa Casa. Nem sei que doença era, mas...se tratando do Mané Bento, podia se esperar de tudo. Era intiqueiro, puxava ponto (encrencava) com tudo e com todos. Coitadas das enfermeiras naqueles dias em que ele esteve internado! 

Naquele tempo, na década de 1960, nas praias e nos sertões não era costume ter banheiro nas casas. Geralmente uma enxada ficava encostada numa parede de trás das casas para, após “usar o mato”, cavar uma cova rasa e enterrar o resultado do esforço fisiológico, evitando o risco de alguém pisar ou de animais domésticos comerem daquilo. Na casa do Mané Bento, os seus hábitos higiênicos não eram diferentes. A verdade é que nessas condições os vermes dominavam a população caiçara. A situação era tão crítica que o Nenê Velloso escreveu a respeito disso: “Os quatro agentes da saúde responsáveis pela vermifugação da população eram os ubatubanos: Trajano Bueno Velloso, João Bordini do Amaral, João Serpa Filho (Fifo) e João Teixeira Filho (Joanito), que hoje eu os chamo de “Anjos da Saúde”. Eram chefiados pelo médico Dr. Antônio Abdalla, mas como a epidemia se alastrava rapidamente, o médico chefe, diante da gravidade, enviou Seu Trajano e Joanito, para colherem amostras de fezes, primeiro no subdistrito de Picinguaba. Só depois de contornada a situação lá, se estenderiam aos demais bairros e no Centro”.

Numa bela manhã, na primeira ronda das enfermeiras, elas sentiram um cheiro forte vindo do banheiro próximo do leito onde estava o Mané Bento. Nem queriam acreditar no que viram: a parede caiada estava cheio de marcas de dedos amarronzadas. Era evidente a porcaria que o homem tinha feito. Tinha se limpado com aquele recurso. Cruz-credo! Imediatamente elas partiram para a bronca. Afinal, não passava um dia sem que não fosse preciso dar um corretivo no enfermo. Sabe qual foi a desculpa dele? “O que eu podia fazer? Vocês não deixaram grabeto!”

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