sábado, dezembro 26, 2015

Opinião

Viver o presente

João Pereira Coutinho
O Natal aproxima-se e os clichês aproximam-se também: hoje, a data é puro consumismo, dizem. Onde está o "espírito" fraternal (e até religioso) das festividades natalinas?

Entendo esses gritos de desespero. Felizmente, não os partilho. Para começar, o "espírito" fraternal é muitas vezes uma forma de hipocrisia social. As festinhas de escritório são o melhor exemplo: gente que se odeia todo o ano surge em cena com um sorriso digno de Madre Teresa e um amor pelo próximo que transforma o Dalai Lama no misantropo de Molière.

Foram 364 dias de competições, maledicências e brutalidades. Mas existe um dia –um único dia– em que se fazem as pazes e se canonizam os mesmos colegas que ainda ontem eram objeto das nossas fantasias mais macabras e homicidas.

Ou então temos "reuniões de família" nas quais pais/filhos/avós/tios/primos finalmente se encontram para confessarem todas as saudades que não tiveram no resto ano. Como é evidente, isso seria impensável sem a preciosa ajuda do álcool. O líquido turva a consciência e, na manhã seguinte, você já nem se lembra do que disse.

E sobre a "religiosidade" perdida, também lamento: se você precisa de uma data no calendário para sentir as vibrações da transcendência, não é preciso ser um teólogo para decretar que a sua alma é uma aberração espiritual. No Natal, prefiro um bom ateu a um cristão de plástico.

O melhor do Natal é mesmo o consumismo. Aliás, nem sei por que demonizamos o bicho: os coleguinhas de escritório podem ser repulsivos; a família pode ser anedótica; a vivência espiritual pode ser postiça –mas ainda não encontrei ninguém que despreze um bom presente.

Por mim falo: quando dezembro começa, eu elaboro pacientemente uma longa lista de presentes que família e amigos podem comprar para mim. Como um antropólogo do hedonismo, divido tudo em "livros", "discos", "filmes" e "líquidos" –e, sob o título mentiroso de "sugestões", ninguém pode alegar o clássico "Eu não sabia o que você queria, por isso comprei esses 10 kg de cuecas".

No início, a minha tribo ficava horrorizada com as minhas maneiras filistinas. Com o tempo, toda a gente me agradece ("Só você reduz o meu estresse na hora das compras") e existem seguidores que começaram a imitar o mestre.

Mas o materialismo do Natal não me permite apenas receber presentes; também gosto de oferecê-los –ou, dito de outra forma, também gosto de limpar a casa de todos os presentes grotescos que recebi em anos anteriores e aguardam no sótão pela sua libertação.

Não é fácil: recentemente, instalou-se uma moda nas nossas sociedades em que o presente vem acompanhado por uma "nota de troca". Se não gostamos, podemos trocar, eis a filosofia.

No princípio, isso causava algum transtorno: oferecia um livro que jamais, em tempo algum, eu teria vontade de ler –e a pessoa procurava, dentro do embrulho, o famoso papel para a troca. Nada de nada. Restavam apenas sorrisos e nenhuma referência ao crime.

Até o dia em que ofereci inadvertidamente um livro de um colega de letras que tinha uma dedicatória para mim. É preciso manter sangue-frio nesses momentos. E responder, com a calma possível:

– Esse imbecil confundiu o meu nome com o seu?

O outro acrescentava, melancolicamente:

– E errou no ano também.

Mas esse não é o pior momento das minhas experiências natalinas. Verdadeiramente grave é quando devolvemos o presente à mesma pessoa que nos ofereceu o dito cujo. Também aqui, sangue-frio é necessário:

– Mas esse não é o presente que eu te ofereci em 2009? –pergunta o infeliz.

Devemos responder:

– Obviamente que não. Mas eu gostei tanto dele que comprei um igual para você.

Claro que podem surgir situações quase inultrapassáveis, nas quais nenhuma máscara nos protege do vexame: oferecer um livro a alguém que escreveu uma dedicatória para nós. Nunca sucedeu. Mas até nesse pesadelo é aconselhável ter resposta pronta, de preferência com ar grato e emocionado:

– Sabe de uma coisa? Devolvo essa obra porque nunca me senti digno de ficar com ela.

No dia 24, quando a meia-noite chegar, estarei como um inspetor da alfândega, riscando da minha lista o estoque recém-chegado.

E alguns felizardos estarão recebendo das minhas mãos os romances de Ricardo Lísias; um espremedor de pasta de dente; e um boneco duende em porcelana para alegrar o jardim. 

Original aqui

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