quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Opinião

Protestos

O maior premiado da noite foi um diretor mexicano, o que valeu como um protesto velado contra as leis de imigração americanas que o Obama está tentando mudar

Luis Fernando Veríssimo
Com nenhum negro na lista de candidatos ao prêmio de melhor ator, a última entrega dos Oscars prometia ser uma festa não só monocromática, mas branca também, no sentido de engomada e sem nódoas.

Acabou sendo um evento muito mais político do que se esperava. A falta de negros entre os premiáveis foi compensada pela quantidade de negros entre os apresentadores, e o maior homenageado da noite foi Martin Luther King, apesar de o filme “Selma”, sobre a marcha contra o racismo e pelo direito do voto que ele liderou em 1965, só ter merecido um prêmio, pela música.

Mas a música, “Gloria” (que também fala de incidentes raciais recentes, como o de Ferguson), mexeu com a plateia, e seus dois intérpretes, ao agradecerem o prêmio, fizeram fortes e bem articulados protestos contra o racismo que ainda persiste no país — e também foram ovacionados.

O próprio apresentador da noite, tão criticado pelo seu mau desempenho, deu uma leve cutucada política na plateia quando esta aplaudiu o nome de Martin Luther King, que durante tantos anos representou para os brancos a ameaça da insubmissão dos negros: “Agora vocês gostam dele...”

Também houve protestos contra a discriminação das mulheres no mercado de trabalho e contra a homofobia, e — para completar o que foi tudo, menos uma noite branca — o filme premiado na categoria de documentário longo foi sobre o Edward Snowden, que está proibido de entrar nos Estados Unidos depois que revelou segredos da bisbilhotice mundial praticada pela Agência de Segurança Nacional americana.

Também ovacionado. E como se não bastasse tudo isso, o maior premiado da noite foi um diretor mexicano, o que valeu como um protesto velado contra as leis de imigração americanas que o Obama está tentando mudar.

Tomadas

O filme premiado do mexicano, “Birdman”, é bom. Sua proeza técnica mais comentada — o filme é feito no que parece ser uma única tomada, sem cortes, do começo ao fim — já tinha sido realizada pelo Alfred Hitchcock em “Festim diabólico” ou coisa parecida.

Como os rolos de negativos da época (1948) só duravam dez minutos, Hitchcock se obrigou a grandes malabarismos para disfarçar os cortes. Brian de Palma também gostava de tomadas longas, embora nunca, que eu saiba, fizesse um filme inteiro com uma tomada só.

E o mais recente exemplo de tomada inacreditável foi no filme argentino “O segredo dos seus olhos”, em que a câmera começa focando um estádio de futebol do alto, vai descendo, descendo e acaba enquadrando em close o rosto de um homem no meio da torcida do Racing, sem que se note quando a câmera do helicóptero vira a câmera do close. De certa maneira, Hitchcock também foi um grande homenageado na noite dos Oscars.

Cuidado

Entre as muitas razões para se assistir ao “Porta dos fundos” estava a Letícia Lima, rara combinação de beleza e talento, e — mais raro ainda — talento para a comédia. 

Li que ela foi contratada pela Globo, ainda não se sabe para o quê. Olhe lá o que vão fazer com a moça, Globo! 

Original aqui

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