sábado, janeiro 03, 2015

Dominique

Opinião

Pior do que se poderia esperar

O ESTADO DE S.PAULO
O discurso de posse do segundo mandato de Dilma Rousseff perante o Congresso Nacional foi uma lamentável exibição de soberba, desrespeito à verdade e ao discernimento dos brasileiros e uma ducha de água fria para quem imaginava que, na hora de assumir a continuidade do comando de um país que deixou pior do que quando o recebeu quatro anos atrás, a chefe do governo tivesse um mínimo de humildade para estender a mão à metade do País que não lhe deu o voto, mas faz parte da unidade dentro da diversidade que compõe a Nação brasileira.

O que se viu assomar à tribuna do Congresso Nacional transformada em palanque no dia 1.º de janeiro foi a prepotência e o desapreço pelo contraditório democrático de uma presidente que, como o seu PT, se considera monopolista da virtude e defensora única dos fracos e oprimidos. Uma presidente e um partido que não se pejam de, contrariando a evidência dos números, das estatísticas e da própria lógica de sua estratégia de manutenção do poder, proclamar que em 12 anos eliminaram "a tragédia da fome", superaram "a extrema pobreza" e, de quebra, "apurou e puniu com tanta transparência a corrupção", como se isso dependesse apenas da vontade de Lula, Dilma & Cia. e não de instituições sólidas que a sociedade brasileira está aprendendo a construir. E, principalmente, como se o PT não tivesse tido a desfaçatez de promover a "guerreiros do povo brasileiro" seus dirigentes-delinquentes condenados no julgamento do mensalão.

O discurso de 40 minutos de Dilma parece ter saído direto do caldeirão de prodígios do marqueteiro a quem, em substituição ao Lula de 2010, coube o mérito de transformá-la em presidente reeleita. "Fui reconduzida para continuar as grandes mudanças do País e não trairei este chamado." "Este projeto de nação triunfou e permanece devido aos grandes resultados que conseguiu até agora." "É a inauguração de uma nova etapa neste processo histórico de mudanças sociais do Brasil."

Empolgada com um desempenho que imagina absolutamente prodigioso nos seus primeiros quatro anos de governo, Dilma não foi capaz de admitir sequer o menor erro entre os muitos que cometeu e dos quais a nação é testemunha, muito especialmente na área econômica e fiscal. Admitiu, no máximo, breves referências a "correção de distorções e eventuais excessos". Nem foi capaz, como seria absolutamente necessário diante da gravidade da situação, de cumprir satisfatoriamente o que prometera no discurso de diplomação: "O detalhamento das medidas que vamos tomar, para garantir mais crescimento, mais desenvolvimento econômico e mais progresso social para o Brasil".

Ao invés de esclarecer, confundiu, contrariando a equipe que nomeou para botar ordem nas contas do governo, gabando-se da redução da dívida líquida do setor público, obtida graças à "contabilidade criativa". Joaquim Levy e companheiros já deixaram claro - se Dilma permitir, é claro - que pretendem trabalhar com o conceito de dívida bruta, que traduz fielmente a realidade. Pior, Dilma não demonstrou o menor constrangimento ao garantir que sempre orientou suas ações "pelo imperativo da disciplina fiscal".

A retórica palanqueira, contudo, não obstante esmerada em arroubos de autoglorificação, não conseguiu evitar que a verdade transparecesse através das frestas da mistificação. "Mais que ninguém sei que o Brasil precisa voltar a crescer", cometeu a imprudência de admitir, assinando a confissão de que sob o seu comando o Brasil parou de crescer. Só faltou, como sempre fez, atribuir os fracassos de seu governo não à própria inépcia, mas a uma situação internacional adversa.

Mas Dilma não se poupou de, no melhor estilo petista, inventar inimigos imaginários que precisam ser combatidos: "Vamos, mais uma vez, derrotar a falsa tese que afirma existir um conflito entre estabilidade econômica e o crescimento social".

A fala presidencial é rica, enfim, em meias-verdades, inverdades inteiras, obviedades e platitudes, mistificação, preconceitos, retórica oca. Reflete, infelizmente para a Nação, o pouco que tinha a dizer. Para completar, Dilma apresentou-se como campeã da luta anticorrupção e disse pretender estimular "uma nova cultura fundada em valores éticos profundos". Como atribuiu a roubalheira na Petrobrás à ação de funcionários miúdos e a uma conspiração internacional, já se sabe o que virá.

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U.V.

Manchetes do dia

Sábado, 03 / 01 / 2015

O Globo
"Governo vai propor nova regra para o salário mínimo"

Ministro do Planejamento afirma, porém, que ganhos reais serão mantidos

Especialistas em mercado de trabalho dizem que a alteração vai exigir muito esforço político
O governo vai enviar ao Congresso proposta de nova regra de reajuste do salário mínimo para o período de 2016 a 2019, com o objetivo de melhorar as contas públicas, mas o novo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, afirmou que a ideia é continuar dando reajustes acima da inflação. A proposta ainda não foi detalhada, mas, no início do ano passado, quando estava fora do governo, Barbosa defendeu que o mínimo crescesse de forma mais moderada e que fosse vinculado à média salarial do país. Ontem, ele também falou sobre a necessidade de mais ajustes na política econômica. Para especialistas em mercado de trabalho, mudanças no mínimo vão exigir esforço político e podem até elevar gastos.

Folha de S.Paulo
"‘Não somos ladrões’, diz principal aliado de Lula"

Ao deixar ministério, Gilberto Carvalho ironizou quem chama o PT de quadrilha

Em solenidade na qual entregou o cargo de ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho (PT) admitiu erros do partido no processo do mensalão, mas ressaltou que petistas não são “ladrões”. “A política é feita pra servir. Estou muito feliz porque a imensa maioria dos nossos companheiros, dos nossos ministros, dos nossos assessores trabalha aqui por amor, trabalha aqui para servir. Nós não somos ladrões”, afirmou o petista. Carvalho foi chefe de gabinete de Lula nos oito anos de governo do petista e era o nome mais próximo ao ex-presidente na equipe ministerial no primeiro mandato de Dilma Rousseff. Visivelmente emocionado ao se despedir do Planalto, onde ficava seu gabinete, declarou ainda que, se são uma quadrilha, são uma “quadrilha dos pobres”. No fim de 2013, petistas históricos foram presos por causa da condenação no processo do mensalão, entre os quais o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu.

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sexta-feira, janeiro 02, 2015

Otto Lilienthal e seu planador (1893)


Coluna do Celsinho

Pátria Educadora

Celso de Almeida Jr.

Em dois cliques na internet, achei os seguintes significados para Pátria:

1) Terra natal ou adotiva de um ser humano que se sente ligado por vínculos afetivos, culturais, valores e história.
2) Conjunto das pessoas que, em comunhão de ideias e de interesses, se associaram para formar uma nação, seja esta organizada ou não em Estado independente.

Fiz o mesmo para Educadora.

Após mais dois cliques, olha o que deu:

1) Aquela que educa.

2) Pessoa que trabalha em jardim de infância.

Fiz a pesquisa após o discurso de posse da presidente Dilma, ontem.

Afinal, na ocasião, apresentou o lema de seu segundo mandato: Pátria Educadora.

Assim, interpreto, ao pé da letra, duas possibilidades:

1) Terra que educa.

2) Pessoas atuando num jardim de infância.

Considerando as historinhas e fantasias de certos líderes, creio que absorvi o real significado.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Pitacos do Zé


Que venha!

José Ronaldo dos Santos
Chegou o novo ano! Já estamos em 2015!

Comecei o primeiro dia do ano com quem mais amo: a minha família! No meu espaço, assim que o dia amanheceu, fui cuidar das plantas e dar uma arrumada no quintal. Fiz podas, enterrei galhos e folhas, transplantei mudas, colhi algumas frutas e varri a calçada.

A minha calçada, assim como muitas, tem árvores e outras plantas menores. Acredito ser muito importante a harmonia proporcionada pela natureza. E quem dos passantes não merece uma sombra em dias tão quentes?!? A cada vistoria que faço nos modestos canteiros da calçada, recolho um monte de lixo: são garrafas, sacos plásticos vazios ou com fezes de cachorros, copos descartáveis, latas de alumínio, tubetes de crack etc...etc... Ou seja, considerando a repetição ao longo do ano, deduzo que são contribuições da vizinhança, de pessoas sem educação e sem respeito ao(s) espaço(s) do(s) outro(s). A casa de gente assim deve ser igual o quê? Imagine a convivência com gente assim! E como fica a perspectiva de luta por um mundo melhor, tendo esse tipo de “parceria”? Resumindo: se nem com o próprio lixo conseguem um comportamento adequado, uma solução civilizada, como poderá decidir encaminhamentos políticos para a realidade desde o entorno? “Miséria cultural!”, exclamava o Mestre Américo. Nos idos de 1970, analisando os rumos dos negócios imobiliário, dos aterros dos terrenos, das ocupações de áreas impróprias e da destinação do lixo em nossa Ubatuba, ele anunciava a formação de uma mentalidade muito diferente da cultura que era natural daqui, a enxergar os recursos naturais de outra forma. Aqueles primeiros trailers e barracas que se instalavam na Praia Grande, segundo ele, eram “uma mostra do que virá nas próximas décadas”. E acrescentava: “Quem viver virá”. Essa mentalidade agora está posta! Parece que de pouca coisa valeram/valem as aulas e as propagandas esclarecedoras em torno do meio ambiente e do valor da vida.

Muita gente não percebe a interdependência entre tudo (animais, rios, mar, restinga, mangue, homens...) que forma a diversidade na nossa terra. A devastação é encarada como normal e inevitável. A indústria também segue um modelo inconsequente. “O que importa é o lucro”, dizem muitos. Não foi assim que eu aprendi dentro da minha cultura caiçara. Lembro-me que até condimentos, especialmente pimenta, não eram usados no preparo dos frutos do mar (marisco, pregoava, sapinhauá...) devido à crença de que disso resultava a diminuição deles na natureza. E o que dizer do respeito aos ciclos dos animais e dos peixes?

Contra pessoas que destoavam de um viver mais fraterno, que davam passos para provocar as desuniões, a saudosa Tia Izolina tascava: “Praga eu não rogo, mas bom fim não há de ter”. No fundo, era versão similar ao “Deus dará aquilo que merece gente assim. Ele é justo”. Eu não quero ser radical! Quem sabe não está certo pensar positivamente no bordão oficial anunciado neste primeiro dia do ano, ou seja, no “Brasil:  Pátria Educadora”?

Vamos apostar na educação a partir da convivência nesse nicho ecológico (entre a serra e o mar) que possibilitou o nascimento da cultura caiçara! Se valendo da época, onde as Folias de Reis percorrem as casas e se preparam para o evento do próximo Dia dos Reis (06/01- 19:30 horas, na Igreja Matriz), não vamos fazer como Herodes e “ensinar às avessas do caminho”. Enfim, começo o ano de 2015 acreditando que devo fazer bem a minha parte a começar pela minha casa e arredores. É o que desejo a todos para a nossa própria felicidade. 

Que venha tudo de bom! Um abraço.

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Dominique

Opinião

Lula e a 'frente de esquerda'

O ESTADO DE S.PAULO
Começa a tomar forma a articulação, estimulada explicitamente pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para aumentar a pressão dos ditos "movimentos sociais" sobre o governo de Dilma Rousseff. A mobilização de uma "frente nacional de esquerda", conforme noticiada pelo Estado, tem como objetivo denunciar o que esses movimentos veem como um avanço conservador dentro do Congresso e do próprio Palácio do Planalto. Assim, Lula recorre às alas mais predatórias dos chamados "progressistas" para tentar ditar a agenda de Dilma e da base aliada.

O que une esses grupos é um solene desprezo pela lei e pelas instituições que garantem a democracia, pois estas são vistas como obstáculos "burgueses" à realização de suas utopias autoritárias.

Estão lá, por exemplo, as alas mais radicais do PT. Uma delas, a Militância Socialista, manifestou durante as últimas eleições seu desencanto por ter chegado à conclusão de que o governo de Dilma é "refém das forças do atraso", e propondo, portanto, "radicalizar a democracia participativa em todas as esferas" - senha para a desmontagem da democracia representativa e para o aparelhamento total do Estado. A Militância Socialista defende que haja "unidade" entre os movimentos de esquerda para conter o "golpismo" contra Dilma e, principalmente, contra o PT - que, segundo essa corrente, deve disputar a "hegemonia na sociedade".

É esse, em outras palavras, o discurso que Lula vem fazendo nos últimos dias, em diversos pronunciamentos para os militantes petistas. Em um dos mais recentes, o ex-presidente disse que, se o PT quiser vencer a eleição presidencial em 2018 - em que Lula aparece como candidato natural do partido -, o atual governo terá de "reorganizar a base de alianças com setores mais à esquerda da sociedade".

Portanto, é com interesse puramente eleitoral, como é de seu feitio, que Lula demarca seu território, tentando cooptar grupos esquerdistas para, se e quando lhe for conveniente, contrapor-se a Dilma. Não é por outra razão que o ex-presidente citou até o PSOL e o PSTU, partidos radicais formados por dissidentes petistas.
É sintomático, portanto, que, à primeira reunião em que se discutiu a formação da tal "frente de esquerda", em São Paulo, tenham comparecido representantes do PSTU e do PSOL. Lula sabe que são partidos que não precisam de estímulo para infernizar a vida de Dilma - e, por tabela, a do País.

Mas é na presença de diversos grupos de baderneiros em geral que a "frente de esquerda" diz a que veio. Lá estão, entre outros, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), a Central de Movimentos Populares, o Levante Popular da Juventude, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, a Via Campesina e a Conlutas.
À frente desse sopão esquerdista está o já notório Guilherme Boulos, líder do MTST, talvez o principal nome da nova safra de arruaceiros que, graças à tibieza de alguns administradores públicos, conseguiram transformar a violência em um modo natural de fazer política.

Boulos foi o sujeito que, de uma só vez, obrigou a presidente Dilma Rousseff, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e a Câmara de Vereadores a ceder às suas chantagens. Para isso, bastaram seu poder de mobilizar algumas centenas de pessoas e uma estratégia de guerrilha que explorou a falta de pulso do poder público para fazer valer o que está escrito na lei contra quem invade terrenos. Em vez de ser punido, Boulos foi tratado como interlocutor legítimo para discutir reivindicações populares. Transformou a população em refém, desmoralizou as instituições do Estado e não pagou o preço da sua ousadia.

Não admira que a iniciativa de formar a "frente de esquerda" tenha partido formalmente de Boulos. Mas seria ingenuidade supor que seja ele o real responsável por essa mobilização. Por trás de Boulos, como já ficou claro, está Lula - que perdeu espaço dentro do governo e, preocupado com a perspectiva de ser derrotado em 2018, busca ter cacife para obrigar Dilma a fazer o que ele quer, nem que seja na marra.

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U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira, 02 / 01 / 2015

O Globo
"Dilma recicla promessas e vê 'inimigos externos' da Petrobras"

Presidente lança lema ‘Brasil, pátria educadora’, que já tinha usado em 2013

Ao assumir 2° mandato, petista defende seu primeiro governo e fala em ajuste fiscal e reforma política

Depois da eleição mais disputada da História e num cenário adverso tanto na economia como na política, a presidente reeleita Dilma Rousseff usou o discurso de posse para defender seu governo. Em longo pronunciamento no Congresso, a petista falou em mudanças, mas limitou-se a repetir promessas de campanha. Ela pregou o ajuste fiscal para retomar o crescimento e disse que a educação será a “prioridade das prioridades”, lançando o que chamou de novo lema de seu governo, “Brasil, pátria educadora”, já usado por ela no discurso do 1° de maio de 2013. A presidente afirmou ainda que seu governo vai defender a Petrobras de “predadores internos” e “inimigos externos”, sem admitir responsabilidade do governo e de aliados no escândalo. No Planalto, ela deu posse a 39 ministros. Titular do Esporte, George Hilton (PRB) foi vaiado. Cerca de 40 mil pessoas, segundo a PM, acompanharam as solenidades em Brasília.

Folha de S.Paulo
"Dilma promete ajustar economia ‘com o menor sacrifício possível’"

Ao assumir 2º mandato, presidente diz que novas medidas não irão trair os compromissos sociais

Petista propõe ‘pacto anticorrupção’ ao congresso e defende Petrobras dos ‘inimigos externos’. Ao tomar posse para o 2º mandato, a presidente Dilma Rousseff (PT) disse que fará ajustes na economia sem trair compromissos sociais e submetendo a população ao “menor sacrifício possível” para o país recuperar a capacidade de crescer. A presidente discursou no Congresso e depois no Planalto, para 15 mil pessoas, segundo a PM. E afirmou que as mudanças incluirão “ajuste nas contas públicas, aumento na poupança interna, ampliação do investimento e elevação da produtividade da economia”. A petista anunciou o slogan “Brasil, pátria educadora” como lema do seu governo e declarou que a educação será a “prioridade das prioridades”. Essa área, disse, receberá mais dinheiro. Dilma prometeu defender a Petrobras, alvo de investigação que apontou desvio de verbas, de “predadores internos e inimigos externos” e propôs um “pacto anticorrupção” ao Congresso. O ex-presidente Lula, que estaria contrariado com a configuração do novo ministério, teve passagem rápida pela cerimônia.

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quinta-feira, janeiro 01, 2015

Dominique

Opinião

Novo governo, rumo novo?

O ESTADO DE S.PAULO
A primeira e mais importante missão da presidente Dilma Rousseff, em seu segundo mandato, será reparar os danos que causou ao Brasil em seus primeiros quatro anos como chefe de governo - um dos períodos mais desastrosos da história republicana. O desafio mais visível será consertar as finanças públicas, mais esburacadas que as de várias economias europeias, muito mais afetadas pela crise internacional. A agenda total incluirá o controle de uma inflação bem acima da meta de 4,5%, a dinamização de uma economia estagnada e a redução do déficit nas contas externas. Se fizer o necessário, seguirá um roteiro em grande parte proposto pela oposição na campanha eleitoral e execrado por ela mesma - e por seu guru Luiz Inácio Lula da Silva - como conservador, recessivo, antipopular e favorável aos banqueiros. Passada a eleição, Lula a aconselhou a entregar a alguém de boa reputação no mercado financeiro a condução da política econômica.

A presidente reeleita seguiu o conselho, mas falta saber se ela e o próprio Lula têm uma ideia clara da extensão e da seriedade dos males acumulados na longa gestão petista e agravados nos últimos quatro anos. Não se pode afirmar com certeza, por enquanto, se estão mais preocupados com a imagem do governo e com o risco de mais um rebaixamento de sua nota de crédito ou se percebem, de fato, a necessidade urgente de uma virada na política econômica. Essa virada, se ocorrer, só produzirá efeitos duradouros se corresponder ao abandono das políticas testadas e fracassadas na última década.

Nos 12 meses até novembro, o déficit nominal do setor público - incluídos, portanto, os juros da dívida - chegou a R$ 297,4 bilhões, 5,82% do Produto Interno Bruto (PIB). Essa proporção é superior à observada na maior parte dos países europeus, mas a presidente Dilma Rousseff, em seus pronunciamentos, tem negado esse fato.
Da arrumação dessas contas dependerá o sucesso do governo em todas as outras frentes, a começar pelo combate à inflação. Mas o acerto das contas públicas envolverá o abandono das principais políticas seguidas pelo governo há muitos anos - como as desonerações a setores selecionados, o crédito oficial subsidiado pelo Tesouro e o uso de dinheiro público para remendar os estragos impostos ao setor elétrico pelo voluntarismo da presidente. O reajuste das contas de luz já começou e o consumidor terá de pagar, afinal, pelo custo real da energia.

Os índices de preços ao consumidor serão fortemente afetados pela correção das contas de eletricidade e pela atualização das tarifas de transporte coletivo, congeladas por pressão do governo federal. Esses aumentos serão somados a outros fatores inflacionários, como a provável valorização do dólar. O ajuste das contas públicas e uma política monetária realista poderão reduzir a demanda excessiva, mas o efeito será provavelmente gradual. Tudo somado, a inflação ainda poderá aumentar, antes de começar a convergir para a meta de 4,5%.

A retomada do crescimento dependerá, no entanto, de mais investimentos e de ganhos de produtividade. Sem isso, será impossível conquistar espaços no mercado internacional. Para a indústria, até a reconquista do espaço perdido no mercado interno será muito difícil, se a produtividade continuar baixa. Será preciso cuidar dos custos e da eficiência, num ambiente com menores subsídios, menores favores fiscais e maior dependência do financiamento privado. Mas o futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, aponta precisamente para essa direção e ainda acena com uma política de maior abertura de mercado. A abertura já funcionou como estímulo à busca de competitividade e poderá funcionar de novo, mas o ajuste será inicialmente penoso.

Se escolher esse caminho, a presidente deverá abandonar o populismo e suportar o custo de uma política realista. Terá de resistir às pressões habituais, muito mais do que tem resistido. O velho esquema de barganhas continua prevalecendo, como se vê na formação da maior parte do Ministério. Além disso, terá de enfrentar a insegurança das investigações sobre o escândalo da Petrobrás. Os próximos meses mostrarão até onde ela estará disposta a avançar.

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira, 01 / 01 / 2015

O Globo
"Dilma assume com a missão de domar políticos e economia"

Para tentar controlar Congresso em meio à crise da Petrobras, petista dá espaço recorde a aliados em seu Ministério; discurso de posse defenderá ajuste fiscal sem prejuízo na área social

Aos 67 anos, a presidente Dilma Rousseff assume hoje o segundo mandato num quadro oposto ao que encontrou quando chegou ao poder, em 2011. Dilma terá que enfrentar a crise na Petrobras, que pode contaminar o Congresso e pôr em risco a governabilidade. Para manter o controle do Legislativo, entregou o maior número de ministérios a aliados desde o primeiro governo Lula. Segundo levantamento do GLOBO, eles administrarão um orçamento recorde de R$ 106 bilhões, livres para investimentos. O Ministério foi concluído ontem com o anúncio de 14 nomes. Na economia, Dilma tem o desafio de domar a inflação, organizar as contas e retomar o crescimento sem prejudicar conquistas sociais. Esse será o mote de seu discurso de posse. A presidente desfila em carro aberto, faz dois discursos, dá posse aos ministros e recebe 13 chefes de Estado e de Governo, além do vice-presidente dos EUA, Joe Biden.

Folha de S.Paulo
"Dilma usará posse para explicar ajuste na economia"

Petista dirá que medidas são necessárias para a retomada do crescimento do país

Em discurso de posse nesta quinta-feira (Io), a presidente Dilma Rousseff, 67, dirá que os recentes ajustes na economia são necessários para a volta do crescimento. Reeleita para o segundo mandato, a petista autorizou medidas de contenção de gastos, como a redução de benefícios trabalhistas e previdenciários e a fixação do salário mínimo de 2015 R$ 2 abaixo do esperado. O PT espera cerca de 30 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios para a solenidade.No último dia do ano, a reforma ministerial iniciada em novembro foi concluída com a indicação de Mauro Luiz Iecker Vieira para o comando das Relações Exteriores. Atual embaixador do Brasil em Washington, Vieira substitui Luiz Alberto Figueiredo. Foram mantidos 13 ministros, entre eles os petistas Aloizio Mercadante (Casa Civil) e José Eduardo Cardozo (Justiça). 

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quarta-feira, dezembro 31, 2014

Dominique

Opinião

Diante da seca, faraós aumentam impostos

Em um reino distante, uma geração de faraós competia para construir obras maiores e mais visíveis, que pudessem preservar para sempre a memória de seus governos. Na capital, o Vizir Novo ansiava por dinheiro para construir o Grande Arco na entrada da cidade.

Para superar o impacto de tal monumento e tornar ainda mais evidente a sua própria imagem, o Governador Provincial projetava túneis e estradas circulares onde coubessem num mesmo dia todos os viajantes do reino, um parado atrás do outro, para admirar o "estado da arte" da engenharia faraônica.

Maior de todas, a rainha planejava derrubar florestas e em seu lugar instalar lagos imensos. De quebra, construiria no fim do mundo conhecido grandes acampamentos para empacotar trabalhadores do reino, longe do conforto das praças e palácios dos centros urbanos. "Minhas obras são minha vida", repetia.

Um misto de pavor e cólera possuiu os três quando o Tesoureiro real (na falta de nome melhor o chamei de José) avisou que uma grande seca abateria o reino por alguns anos e espalharia pobreza e falta de alimentos. Que era preciso parar de gastar, economizar para atravessar com vida aquele período.

"É inadmissível que eu não possa construir meu Arco", disse o Vizir; "Eu exijo meus túneis" falou o Provincial; "Tenho que acelerar o crescimento", alegou a Faraona.

Primeiro, José fez ouvidos moucos. Depois, quando ameaçaram abatê-lo em público como tinha ocorrido ao ministro Mantega do distante Brasil, José se apressou a tomar providências: "Isso não dá, eu jamais suportaria tal humilhação pública". Assim, apresentou logo a solução para atravessar o período de crise: "Vamos aumentar impostos. No primeiro momento, os ricos do reino vão ser pegos de surpresa e o tesouro ficará cheio. No segundo momento, eles atravessarão o deserto e levarão seu dinheiro para outros reinos. Mas a essa altura, restarão os pobres e deles tiraremos o sangue e o couro. Cada vez que um trabalhador for para sua casa sua vida, no fim do mundo, uma passagem na biga lotada custará como três bigas e meia. Vamos aumentar também o preço das velas: à noite, ao acender o fogo, se lembrarão de nós".

"Mas e se todos ficarem ainda mais pobres e não lhes sobrar dinheiro para comer?" perguntou a rainha. "Então distribuiremos bolsas mensais com comida e daremos descontos nas bigas. Os que tiverem sobrado agradecerão a imensa bondade do governo e o seu reino não terá fim."

Por algum tempo tiveram sucesso. O Vizir construiu pontes sobre os rios para que no futuro todos pudessem contemplar o seu Arco; o Provincial fez estradas tão grandes que atraiam todos os reinóis que se empacotavam em admiração. A Rainha extinguiu as florestas e fez do deserto um oceano.

Os problemas começaram quando o mar se tornou deserto; os ricos do reino foram para Mianmar e só a pobreza sobreviveu no Egito. Descoberta milênios depois, coberta de areia, a obra do Vizir passou a ser chamada "O Arco do Passado". O Provincial fracassou ao tentar conquistar o trono; hoje suas estradas unem dunas desertas. E Faraona se transformou em uma estátua de sal ao olhar para trás e ver que sob seu governo, o reino foi coberto por montanhas de areia. 

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U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira, 31 / 12 / 2014

O Globo
"Dilma dá reajuste menor para tabela do IR e mínimo"

Restrição a benefícios sociais começa em 60 dias

Piso salarial é arredondado para baixo e será de R$ 788 a partir de janeiro; já Imposto de Renda terá correção de 4,5%

Era um cenário de aperto nas contas do governo, a presidente Dilma Rousseff arredondou para baixo o valor do salário mínimo, fixado em R$ 788 a partir de amanhã, com reajuste de 8,84%. A Comissão Mista de Orçamento do Senado apro vara R$ 790. A decisão representa economia anual de R$ 600 milhões. Dilma também vai vetar o reajuste de 6,5% na tabela do IR e editar medida provisória com correção de 4,5%. As restrições ao acesso a benefícios como seguro-desemprego, pensões e abono salarial começam em março. Mas o Ministério do Trabalho enviou nota ao Planalto alertando que a mudança no PIS seria inconstitucional.

Folha de S.Paulo
"Sob Dilma, dólar lidera ranking de aplicações"

Nos quatro anos de gestão da petista, fundo cambial teve avanço de 59,1%

No primeiro mandato da presidente Dilma, os fundos cambiais, que seguem o dólar, foram as aplicações de maior rentabilidade. De 2011 a 2014, esses fundos, indicados como proteção contra o avanço do dólar, tiveram ganho líquido de 59,1%, resultado, entre outros pontos, da valorização da moeda com o crescimento da economia americana. Populares no passado e de custo elevado, os fundos cambiais aplicam basicamente em contratos de dólar na Bolsa e em dívida corrigida pela moeda dos EUA. Por outro lado, fundos de ações subiram apenas 10,7% nesses quatro anos de Dilma, abaixo da inflação oficial prevista, de 27,1%. “Com Dilma, aumentou a aversão ao Brasil devido ao maior intervencionismo na economia, baixo crescimento e risco de mudança nas regras do jogo”, disse Rafael Paschoarelli, professor de finanças da USP. 

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terça-feira, dezembro 30, 2014

Dominique

Opinião

A festa dos desalentos

Janio de Freitas
O ensaio, na tarde dominical, foi mais autêntico: não tinha povo. Para a posse, o PT providencia a ida de centenas de ônibus, há quem fale em 800 deles, que levem a Brasília forasteiros em milhares suficientes para o que deve ser uma posse presidencial petista. Mas, a poucas horas dessa posse, o PT ainda luta pelo reconhecimento ao seu direito de uma presença menos inadequada ao novo "governo petista".

O PT se esvazia. Os "governos petistas" esvaziam o PT. Os "governos petistas" servem ao PMDB, proporcionam-lhe a nutrição que trouxe de volta o seu predomínio político, perdido quando o governo do PSDB entregou-se ao PFL, o hoje comatoso DEM.

A militância petista míngua, no corpo e no espírito. Com suas bandeiras relegadas e até contestadas pelos "governos petistas", nas eleições a militância exibiu a que está reduzida: no seu território, São Paulo, não foi capaz de mobilizar-se, de ser parte efetiva da disputa. Não para enfrentar as dificuldades paulistas dos candidatos do seu partido à Presidência e ao governo estadual, mas para não ser, como foi, com seu alheamento, a causa fundamental dessas dificuldades.

Os chamados movimentos sociais sentiram os efeitos do desalento petista. Com a recusa a ser petistas nos "governos petistas", mesmo em atitudes tão simples como prestigiar o PT no Congresso, Lula e Dilma fizeram o mesmo por modos e em graus diferentes: Lula conteve os movimentos sociais, Dilma desconheceu-os.

Podem ser 800 ônibus, até mais, é provável que lotados. Mas não será o PT viajando neles. É só aquela lembrança de militância petista, é uma representação da militância que não se moveu nas eleições, porque não foi reconhecida nem reconheceu os "governos petistas". É uma presença simbólica dos movimentos sociais, imagino que saudosos de si mesmos. São pessoas que esperariam ouvir falar, quando a eleita falou do novo governo, em ainda mais empregos, em distribuição da renda subindo, subindo, subindo muito mais, e o Minha Casa, Minha Vida se completando, e os empresários sendo chamados a gastar menos bilhões em casas no exterior e investir mais no seu país.

Não foi o que o PT ouviu. Por certo, grande parte dos petistas e dos componentes de movimentos sociais nem entendeu o que ouviu, nas escolhas ministeriais auspiciosas para a direita e conservadores em geral. Tudo sugere que a massa dos recém-empregados e dos beneficiados pelo assistencialismo entenderá pelo método prático. É o seu método histórico de aprendizado. Mas são muito diferentes o longo não receber e o perder ganhos. Ainda assim, às vezes dão no mesmo. Às vezes, não.

O que não foi dito quando esperado será dito nos discursos, é o que convém aos discursos dos vitoriosos. E Dilma Rousseff é vitoriosa. À qual acrescenta uma explicação, para os que não entendem como lida com sua vitória: "Saber vencer é não ter medo de mudar a si próprio, mesmo que isso lhe cause algum desconforto".

Essa, porém, é a sabedoria conveniente a quem perdeu, não a de quem venceu. O perdedor é que não deve temer a lição da derrota, e aprender com a reprovação o que deve mudar para vencer. A sabedoria do vencedor –e, nela, os valores éticos– consiste em ser coerente com o que disse e fez para obter o apoio que lhe deu a vitória.

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U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira, 30 / 12 / 2014

O Globo
"Seguro-desemprego e pensão terão regras mais rígidas"

Contas públicas registram pior resultado em 17 anos; gasto sobe mais que receita

Em medida provisória que será enviada hoje ao Congresso, Dilma vai restringir acesso a benefícios trabalhistas, incluindo o abono salarial, e de previdência. Objetivo é economizar R$ 18 bilhões a partir de 2015

O governo envia hoje ao Congresso medida provisória que reduz direitos de trabalho e de previdência, com restrições no acesso ao seguro-desemprego, ao abono salarial e a pensões, que deixam de ser vitalícias para cônjuges jovens. A economia prevista é de R$ 18 bilhões em 2015. É o primeiro corte de gastos para o segundo mandato de Dilma, num cenário em que as despesas têm crescido mais que as receitas. O setor público teve déficit primário de R$ 19.6 bilhões no ano — e não conseguiu economizar para pagar juros da dívida. O resultado foi puxado pelo governo federal, que em novembro teve o pior rombo em 17 anos.

Folha de S.Paulo
"Governo endurece regras para obtenção de benefício"

Meta é poupar R$ 18 bi ao ano para reequilibrar as contas

A três dias da posse da presidente Dilma, o governo anunciou regras mais rígi das para concessão de benefícios trabalhistas e pievi-denciários. A mera é econo i niv.ar RS 18 bilhões ao ano e reequilibrar as contas públicas para recuperar a credibilidade da política fiscal. As medidas endurecem a concessão de abono salarial, seguro-desemprego, pensão por morte e auxílio-doença. Em geral, as mudanças elevam os prazos para obter o beneficio. No seguro-desemprego, o período de carência passa de seis para 18 meses na primeira solicitação. Além disso, Dilma deve vetai mudanças na tabela do Imposto de Renda. Segundo o ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil), as medidas corrigirão distorções que existem nos programas. “Se não fizermos alterações, as futuras gerações pagarão um preço muito alto.” As mudanças só valem para novos benefícios e ainda terão de ser aprovadas pelo Congresso. Integrantes da oposição criticaram as medidas e acusaram Dilma de mentir na campanha eleitoral ao negar que tomaria medidas contrárias aos trabalhadores. 

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segunda-feira, dezembro 29, 2014

Dominique

Opinião

Crônica de quatro faces

Antonio Prata
A primeira gaveta, a dos talheres, é a mais organizada. Divisórias separam os garfos, as facas e as colheres grandes; os garfos, as facas e as colheres de sobremesa; por fim, num escaninho perpendicular, ficam as colherinhas de café. Essa arrumação militar me traz sentimentos contraditórios. Por um lado, vendo cada coisa em seu lugar, me tranquilizo: temos aqui um lar, um teto, um ninho seguro para criar os filhos, construído dia a dia –garfo a garfo– com o suor do nosso rosto. Sei que a última frase soou meio clichê. É que o lugar comum, como a própria expressão aponta, traz o conforto do reconhecimento –e eis aí a segunda parte dos sentimentos contraditórios sugeridos pela gaveta: essa tranquilidade desperta em mim a ânsia do rebanho. Trata-se, sem dúvida, de uma gaveta totalitária. Ali dentro não há qualquer possibilidade de dissenso: uma colherinha de café que resolva fazer companhia pras facas é imediatamente reconduzida ao seu compartimento. Stalin seria um bom patrono para a primeira gaveta. Kafka saberia retratar bem seus horrores. Ou Orwell? (No fundo da primeira gaveta, através de uma pequena "Teletela", o Grande Irmão assiste a tudo.)

A gaveta de baixo é diferente. Não há divisórias. Todos se misturam. Parece uma festa. Uma festa do jet set , claro, porque ali não há sombra de padronização, cada um é único, o melhor de sua área: a faca de churrasco flerta com a espátula de silicone, o saca-rolhas conta uma piada pro descascador de cenoura, a escumadeira cochicha algo para o funil. Se a primeira gaveta veste farda, a segunda é esporte fino. Lá no fundo não há "Teletela", mas um globo de espelhos.

A terceira gaveta também é uma festa, só que mais esculhambada. Ali moram os utensílios que a gente não usa. Uma geringonça de espremer batata, colheres de pau lascadas, uma faca de pão com o cabo derretido, ancestrais garfinhos de fondue. (Nunca fizemos fondue. Será que ainda temos a panela?). Pensando bem, talvez eu esteja sendo preconceituoso: por que "esculhambada"? Talvez, festa boa, mesmo, seja a da terceira gaveta. Não aquele clima de cercadinho VIP da segunda, mas de jam session num hotel decadente. Bem mais interessante bater um papo com a faca de cabo queimado e ouvir a história de sua cicatriz do que aguentar a espátula da Spyce, no andar de cima, contar vantagens sobre seu cabo de silicone. Britney Spears, Tom Cruise e Cristiano Ronaldo estariam na segunda gaveta. Itamar Assumpção, Jacques Tati e Sócrates, na terceira.

E a quarta e última gaveta? Pois é, taí uma questão que eu nunca consegui responder. A quarta gaveta é um limbo, um "achados e perdidos" onde se misturam o manual de instruções da geladeira, uma caixa de palitos Gina, três jogos americanos (diferentes), um toco de vela, araminhos de fechar pão e uns hashis de japonês delivery ainda com telefones de sete dígitos. É como se, saindo da organização platônica da primeira gaveta, fôssemos descendo rumo à desordem, até chegar à indeterminação total, onde tudo perde o sentido. Perdoem terminar assim essa crônica natalina, sem vislumbre de manjedoura ou cheiro de panetone: mas essas gavetas, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo.

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U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira, 29 / 12 / 2014

O Globo
"Metade das cidades não terá verba de saneamento"

Para receber transferência da União, decreto exige criação de conselho Associação Brasileira dos Municípios estima que ao menos 50% das prefeituras não se adequaram à nova legislação

A Associação Brasileira dos Municípios (ABM) estima que ao menos metade das cidades brasileiras começará 2015 sem poder mais ter acesso a transferências da União para investir em saneamento básico. O motivo é que a maioria das prefeituras não criou conselhos municipais para acompanhar a execução de projetos, exigência de um decreto federal que passará a valer a partir de 1º de janeiro. “A estimativa é que somente de 20% a 30% dos municípios tenham conselho municipal que cuide de saneamento”, diz José Carlos Rassier, secretário-geral da ABM. O Ministério das Cidades diz que não adiará o prazo, mas garante que convênios já assinados e transferências constitucionais não serão afetados.

Folha de S.Paulo
"Juízes de SP são cobrados por processos acumulados"

Dos 357 desembargadores do Estado, 35 são responsáveis por 31% dos casos em atraso

Um grupo de desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo com processos atrasados acumulados nos gabinetes passou a ser alvo de cobranças da cúpula do tribunal e do Conselho Nacional de Justiça, informa Frederico Vasconcelos. O presidente do TJ, José Renato Nalini, disse que alguns juízes não conseguem atingir os índices de produtividade do tribunal. A corregedora nacional de Justiça, Nancy Andrighi, pediu a Nalini empenho para acelerar o julgamento de casos antigos. Se o tribunal não resolver a questão, a corregedoria poderá abrir processo disciplinar. Levantamento da Folha mostra que 35 dos 357 desembargadores do Estado acumularam estoque de processos não julgados acima da média do tribunal. Esse grupo é responsável por 31% dos casos em atraso. Os desembargadores afirmam que herdaram muitas ações de outros juízes e que se empenham nos julgamentos. Alguns defendem a avaliação mensal da produção, sem o estoque antigo.

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domingo, dezembro 28, 2014

Dominique

Opinião

Sobre um feliz ano novo

Gabeira
Outro dia, encontrei um amigo na rua e perguntei: “Tudo bem?” “Tudo”, respondeu. “Comigo, tudo, mas o país, você sabe …” Aquilo não me pareceu estranho. Era como me sentia. Tudo bem no âmbito pessoal, um certo desencanto com o Brasil. Vejo agora que isso acontece em escala maior. Pesquisas indicam que estamos otimistas com nossas vidas e bastante céticos quanto à política nacional.

Quando é que essas linhas vão convergir? É uma das perguntas que faço. Até que ponto as peripécias políticas vão envenenar nosso cotidiano? Ou até que ponto nosso otimismo pessoal acabará transbordando no universo político?

No meu caso, o sucessivo aumento do dólar dificulta os sonhos de acompanhar uma indústria que se move com uma velocidade vertiginosa.

As câmeras servem para reproduzir a realidade. Quanto mais modernas, mais capazes de transmitir uma decapitação no deserto, o massacre de crianças pelo Talibã, o pouso de um robô num cometa. Elas registram tudo com uma frieza algorítmica.

Em outras palavras, o progresso técnico apenas revela também o lado tenebroso da Humanidade. O filme americano “Blade Runner” foi uma boa antevisão disso tudo. Progresso e barbárie andaram juntos em 2014.

Não há razão para desespero. No Brasil, a operação Lava-Jato lançou luz sobre o escândalo do Petrolão. O próprio juiz Sérgio Moro chamou a atenção para a existência das mesmas práticas em outros setores, além do petróleo.

Um dos ex-diretores da Petrobras, Paulo Roberto Costa, foi mais longe e disse que a corrupção estava presente em todas as dimensões da atividade pública.

Não demorou muito, o jovem prefeito de Itaguaí, Luciano Mota (PSDB), confirmou essa tese: usava uma Ferrari amarela para se deslocar na cidade, tinha televisões com telas gigantescas, esbanjava dinheiro. Possivelmente, royalties do petróleo.

O juiz Sérgio Moro colocou a possibilidade de combater esse processo e reduzi-lo, radicalmente. Mas juízes e procuradores não resolvem sozinhos. Será preciso um esforço nacional.

Depois de uma Copa do Mundo e de eleições presidenciais, o país parece estar um pouco inseguro sobre sua identidade. Ainda ecoam os gritos de gol da Alemanha, naquele célebre 7 a 1.

Eo processo político foi pós-moderno. A palavra-chave era desconstrução. E a teoria vitoriosa, a de que não existe verdade, apenas versões.

Os eleitores de Dilma cobram coerência. Gente da oposição, também. Mas o curso da campanha avisava com muita nitidez: não há coerência, apenas táticas para vencer.

Gostaria de analisar outros discursos, outras retóricas. Mas Dilma é a presidente do Brasil. Ela declarou solenemente: alguns diretores da Petrobras foram colhidos pelo combate à corrupção.

Interessante como ela transforma o processo num fenômeno quase natural. Choveu, e algumas casas foram derrubadas. Passou um bonde contra a corrupção e acabou levando alguns diretores da empresa.

Sabemos que não é bem assim. Havia um esquema político manipulando os diretores da Petrobras. Quando uma gerente quis denunciar o processo de superfaturamento, Paulo Roberto Costa, mostrando o retrato de Lula e a sala de José Sergio Gabrielli: “Você quer derrubar tudo?”

Com dados abundantes, a Operação Lava-Jato demonstra uma corrupção sistêmica. No discurso de Dilma, tentados pela fortuna, alguns dirigentes da Petrobras foram colhidos pelo combate à corrupção. Um fato isolado, o Brasil não vive uma crise ética, conforme ela mesma declarou a jornais latinos.

No momento em que o mundo dá suas voltas, isso só faz atrasar nosso passo. Parece que fomos condenados a cantarolar indefinidamente: “Mentira, foi tanta mentira que você contou”.

Se assumissem sua responsabilidade, poderíamos discutir coisas mais sérias. Como sair dessa enrascada, por exemplo?

A queda de 77% nos títulos de empresas brasileiras no exterior mostra como a economia nacional foi atingida pelo escândalo da Petrobras.

Estamos felizes, crianças crescendo, os amigos, a vida familiar em paz, um trabalho. Mas até que ponto uma parte dos brasileiros estaria mais feliz ainda se pudesse contar com um sistema que ela ajuda a sustentar?

Com a aspereza de uma crise econômica e eclosão de um grande escândalo, não sei como vai se desdobrar nossa equação de felicidade.

Da minha parte, sobretudo neste momento do ano, desejo toda a felicidade do Butão, aquele pequeno país asiático que tem a felicidade, e não o PIB, como alvo de crescimento.

Em termos de crescimento econômico, não espero tanto do Brasil em 2015. A brecha para se aumentar a felicidade é desvendar, punir e reformar um sistema de corrupção que os brasileiros já não aceitam.

Um ano novo não rompe simplesmente. Ele precisa ser construído. Desatar o nó da corrupção sistêmica é dificílimo. Ainda bem que estamos felizes. Por que não tentar?

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U.V.

Manchetes do dia

Domingo, 28 / 12 / 2014

O Globo
"Estados pagam pensão a 104 ex-governadores"

Benefício existe em 21 unidades da Federação e custa R$ 47 milhões ao ano 

Um levantamento do GLOBO nas 27 unidades da Federação mostra que 104 ex-governadores e 53 viúvas recebem aposentadoria vitalícia. Esses benefícios custam R$ 47 milhões ao ano e são pagos em 21 estados, informam Simone Iglesias e Chico de Gois. Em 11 deles, a regra está ativa e valerá para quem está deixando o cargo. A lei mais recente foi aprovada no mês passado pela Bahia, beneficiando o atual governador, Jaques Wagner (PT). Quem também passará a receber a aposentadoria é a ex-governadora do Maranhão Roseana Sarney (PMDB). Há também casos como o da ex-companheira de Leonel Brizola, que recebe do Estado do Rio e do Rio Grande do Sul, e de Pedro Pedrossian, que governou o Mato Grosso antes da divisão, mas depois administrou também o Mato Grosso do Sul, acumulando, com isso, duas pensões.

Folha de S.Paulo
"Alta de tarifas ameaça projeção para inflação"

Energia, transportes e combustíveis podem ter peso maior em índice oficial 

A alta da conta de luz em 2015 — que só em janeiro subirá 8,3% — põe em xeque as projeções oficiais para uma inflação abaixo do teto anual de 6,5% fixado em lei. O BC prevê IPCA de até 6,1% em 2015. Bancos consultados estimam 6,5% ou mais. Enquanto as previsões oficiais situam a elevação de tarifas residenciais em 17% no próximo ano. Analistas do mercado esperam 20%, A fatura de energia elétrica responde por 2,9% do orçamento familiar considerado na apuração do IPCA. Os especialistas trabalham com a possibilidade de uma alta mais expressiva porque há dúvidas sobre os repasses da usina de Itaipu e de encargos setoriais. Há também o impacto de outros "fortes aumentos" de preços de serviços públicos. As tarifas de transportes e os preços dos combustíveis devem subir. Essas altas, porém, podem ser compensadas pelo ritmo lento da economia. O consumo deve ser contido por um aumento menor do salário-mínimo e juros mais altos.

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