sábado, novembro 15, 2014

Pitacos do Zé


De quem é a costeira?

José Ronaldo dos Santos
Quando criança, a minha diversão preferida era ir pular pedras pelas costeiras. Coisa boa! Desconfio que esse prazer e as pedaladas constantes deram-me as que forças nas pernas. Também foi assim que aprendi as diversas denominações dos lugares dado pelos antigos caiçaras. Pedra do Alçapão, Costeira do Tolino, Pedra do Zé Bráz, Lage Preta, Toca do Mero... são alguns exemplos. O legal é que eles trazem uma carga emocional muito importante na minha história. Só para ilustrar: foi na Pedra do Alçapão que eu vi o papai pescar a maior garoupa da minha vida. Era uma tarde, pouco antes do serão, quando a vara se retesou. A danada entocou, mas o ardiloso pescador tencionou a vara numa greta de pedra e, no dia seguinte, logo cedo, lá estava a bitela boiando. Que beleza! Comemos e repartimos com  mais gente!

Ainda continuo gostando de estar pelas pedras das costeiras, mas agora a agilidade já não permite pular como antigamente. Num dia desses, lembrando do casal que morava na Prainha do Padre, deu uma vontade de rever o outro lado do Morro do Ocaraçu, “onde a gruta desemboca no mar”. E assim, na maior disposição, me dirigi à prainha que também já foi do Matarazzo, o Cicillo,  prefeito de Ubatuba de 1964 a 1969. É a chamada fase áurea na administração desta cidade. Depois... só penúria! Prova?

A prova está no nosso tesouro que dia a dia é encolhido e não sabemos como impedir, e nem como fazer mais. Explico melhor: chegando onde moravam os saudosos Antônio e Benedita, os últimos caseiros de um espaço que eu e tantos circulavam livremente, uma senhora declarou: “O senhor não pode entrar aqui, não pode passar para o outro lado. Eu cumpro ordens”. Nem perdi tempo para argumentar com alguém que é mandado. Também sei que, há muito tempo, os administradores municipais perderam o rumo do desenvolvimento baseado na sustentabilidade, nas riquezas naturais  culturais que temos. Em casos assim, a Marinha do Brasil não poderia ser acionada? Quantas histórias e belezas têm do outro lado do Ocaraçu!!!

“Ah! Se eu fosse um homem de visão, com a política adequada que temos aqui e o tanto de dinheiro que tenho de sobra, a primeira coisa que faria na Prainha do Padre era uma escavação arqueológica!”. Assim brincava o Velho Ademar nas prosas do jundu de Yperoig.

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Dominique


Opinião

O movediço apoio a Dilma

O ESTADO DE S.PAULO
Desta vez o PT não pode acusar a mídia de distorcer os fatos para deixá-lo mal. Ninguém menos do que um de seus vice-presidentes, o deputado cearense José Guimarães, acaba de reconhecer indiretamente um dos deploráveis resultados do modelo petista de fazer política - no caso, os efeitos disfuncionais da forma pela qual, desde os anos Lula, a legenda tenta manter no Congresso o que deveria ser um confiável esquema de sustentação do governo. "O PT não pode ficar nesse mata-mata aqui", desabafou, em declarações ao Estado, dias atrás. Ele aludia ao espetáculo proporcionado pelas siglas que, tendo feito parte das coligações eleitorais petistas ou tendo aderido ao bloco afinal vitorioso, se entregam à rotina de se engalfinhar entre si ou, de preferência, com o partido do Planalto - do qual exigem invariavelmente mais do que sabem que receberão. O nome do jogo é chantagem.

A imprensa afirma serem 365 deputados (em 513) os membros da base, observa Guimarães, para contestar, desacorçoado: "Você chacoalha o saco, não ficam 200". A rigor, ficam ou saem conforme as circunstâncias. Estas são ditadas pelo interesse do Executivo em ver aprovados os seus projetos, o que não raro envolve negociações de tirar as crianças da sala. Pior ainda, talvez, quando se trata de propostas de parlamentares que o Planalto refuga, pela gastança que acarretariam. Deixá-las à margem da pauta de votações não sai de graça. Para manter o preço nas alturas e o governo na defensiva, formam-se "blocões" de bancadas presumivelmente insatisfeitas, como o que gravita em torno do deputado Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro, candidato ao comando da Casa. Perguntada sobre o personagem, em recente entrevista, a presidente Dilma Rousseff foi sumária: "Estamos convivendo há muito tempo com ele".

Guimarães diz preferir "uma base menor, mais consistente, capaz de estabelecer os termos da governabilidade e da relação com o governo". Esse aglomerado disforme de interesses de toda ordem que está aí nem merece o nome que se lhe dá, porque a palavra base remete a uma estrutura cuja firmeza permite que sobre ela se ergam edificações feitas para durar - e, nesse caso, compromissos e programas que assegurem a governabilidade. Mas a marca da assim chamada aliança governista - a fluidez - torna imponderável o que dela o Executivo possa obter. Se há lógica nesse desarranjo, escapa até a políticos experientes como o dirigente petista.

Só que as coisas não são o que são por geração espontânea ou por uma fatalidade do presidencialismo de coalizão, como é classificado o regime brasileiro. O movediço apoio parlamentar de hoje em dia ao Executivo tem história e autoria. Recai sobre a presidente Dilma Rousseff, com a sua contribuição, a consequência perversa de uma concepção hegemônica de relacionamento com o Congresso que o PT começou a pôr em prática quando chegou ao poder com Lula.

De início funcionou a meio mastro, com o presidente tendo de recorrer às suas reservas de carisma, liderança e interlocução fácil para os políticos se sentirem tratados como gostam e receberem o que julgam que lhes é devido no butim do bem público. Quando isso não bastou, supriram-se as necessidades com o vil metal do mensalão. Só no segundo mandato, Lula fez o que lhe aconselhara desde a primeira hora o à época ministro da Casa Civil José Dirceu - e trouxe o espaçoso PMDB para dentro de casa. A partir daí, o PT e os seus aliados compartilharam uma era de ouro. Eleita, Dilma herdou o arranjo, do mesmo modo que havia recebido de Lula o candidato a vice, o peemedebista Michel Temer. Mas, como diria o irmão de José Guimarães, o ex-deputado José Genoino, "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa".

Cheia de si, inflexível e sem interesse ou vocação para o entendimento político, a sucessora e antítese do seu patrono se abandonou a queimar patrimônio. Com o desandar da carruagem - os sinais cada vez mais nítidos de fracasso do seu governo - a situação levantou na Câmara um muro de lamentações para fazer par com a muralha da presidente. O passivo do primeiro mandato e a sua reeleição a fórceps só aumentaram o "mata-mata". E autorizam a expectativa de que Dilma terá quatro anos ainda mais difíceis no trato com a tigrada.

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U.V.

Manchetes do dia

Sábado, 15 / 11 / 2014

O Globo
"Corrupção na Petrobras leva à prisão diretores de empreiteiras"

Contratos de empresas com ex-diretor preso tem conta na a estatal chegam a R$ 59 bi

Ex-diretor preso tem conta na Suíça para esconder propina

MP investiga pagamento de suborno para Roseana Sarney

Na segunda fase da Operação Lava-Jato, o Ministério Público e a PF elegeram como alvos dirigentes das empreiteiras acusadas de pagar propina a servidores da Petrobras e a políticos de PT, PMDB e PP. Entre os 18 presos ontem estão os presidentes das empreiteiras OAS, Queiroz Galvão e UTC. Os de Camargo Corrêa e Iesa são considerados foragidos. Foi preso também o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque, indicado ao cargo pelo ex-ministro José Dirceu. Duque, acusado de negociar a propina repassada ao PT, tinha conta na Suíça para receber os pagamentos. A PF levou a cunhada do tesoureiro do PT, João Vaccari, para prestar depoimento. Ela recebeu R$ 110 mil da OAS para repassar aos petistas. Fernando Baiano, acusado de operar o esquema para o PMDB, também está foragido. Os agentes vasculharam as sedes da Odebrecht, no Rio, e da Camargo Corrêa, em SP. Juntas, as empreiteiras tinham contratos de R$ 59,4 bilhões com a estatal. Os procuradores pediram o bloqueio de 10% do valor, mas o juiz Sérgio Moro só bloqueou bens dos executivos envolvidos e de 3 empresas.

Folha de S.Paulo
"Corrupção na Petrobras leva chefes de empreiteiras à prisão"

PF detém 18 executivos, dos quais 3 presidentes de grandes empresas e um ex-diretor da estatal

Companhias criticam ação policial na 7ª fase da Operação Lava Jato, batizada de Juízo Final

A Polícia Federal prendeu ontem 18 executivos, entre eles três presidentes de grandes empreiteiras e o ex-diretor da Petrobras Renato Duque, durante a sétima fase da Operação Lava Jato, que investiga esquema de corrupção na estatal. Indicado ao cargo pelo PT, Duque é apontado por procuradores e policiais como o principal operador do partido nos desvios da estatal.

Na maior ação da PF contra essas empresas, chamada de Juízo Final, foram presos os presidentes José Pinheiro Filho (OAS), Ildefonso Colares Filho (Queiroz Galvão) e Ricardo Pessoa (UTC). Pessoa foi apontado como coordenador do “clube”, como era chamado o cartel. As detenções envolveram executivos de sete empreiteiras. 

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sexta-feira, novembro 14, 2014

Excelências confabulando...


Coluna do Celsinho

Velhitude

Celso de Almeida Jr.

Uma das vantagens dos recentes cabelos brancos é que vieram com bonificação.

Explico.

Meu grisalho - que há alguns anos começou leve - de uns tempos prá cá avançou acelerado.

E foi aí, justamente nesta transição, que ganhei dose extra de resignação.

Veio gratuita.

Compensação da natureza pela velhitude.

E, acredito, brindou-me em boa hora, justamente em ano de eleições acirradas.

Resignado, consegui não entrar em bola dividida com amigos e amigas que insistiam neste ou naquele candidato.

Resignado, resisti aos embates quentes.

Resignado, declinei de defender ou acusar pretensos salvadores da pátria.

Talvez, a lembrança de passagens da história do Brasil e do mundo tenham contribuído para o meu sossego.

É possível, até, que a constatação de um eleitorado dividido selou a calmaria.

Não gastarei a paciência dos leitores queridos com as explicações de minha calma & paz.

Registro, porém, duas dicas.

A unidade do país foi mantida, mesmo em crises realmente violentas, no meio milênio de sua história. 

Comemoramos três décadas consecutivas de democracia com o surgimento de uma oposição vigilante.

Então, agora, é seguir em frente.

Rumo a uma fase salutar.

Na dúvida, porém, recomendo um suquinho de maracujá...

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Dominique


Opinião

O estranho mundo da presidente

O ESTADO DE S.PAULO
Preocupante é o adjetivo mais suave para classificar a entrevista da presidente Dilma Rousseff em Doha, a caminho da Austrália, onde participará da reunião de cúpula do Grupo dos 20 (G-20). Ao falar sobre a situação das contas públicas brasileiras, amplamente deficitárias, ela mostrou evidente dificuldade para reconhecer as condições econômicas e fiscais de seu país e das maiores potências, tanto desenvolvidas quanto emergentes. Incapaz de alcançar a meta fixada para as contas públicas neste ano, o Executivo mandou ao Congresso um projeto de alteração da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Tentando refutar as críticas ao projeto, a presidente se perdeu num cipoal de despropósitos.

O primeiro erro - e talvez o menos grave - foi a referência aos "20 países do G-20". Os integrantes do grupo são 19 países com representação nacional mais a União Europeia. Qualquer frequentador desse fórum deveria conhecer esse detalhe. A presidente deve conhecer, mas, como ocorre com frequência, deve ter falado sem dar atenção às palavras e, mais grave, às ideias.

Os despropósitos mais significativos surgiram em seguida, quando a presidente comparou a situação das contas públicas brasileiras com as condições fiscais dos demais países do grupo. Dezessete das 20 maiores economias, "hoje estão numa situação de ter déficit fiscal", segundo ela. "Nós estamos ali no zero. Não temos nem déficit nem superávit", acrescentou.

Mais uma vez Dilma parece ter confundido resultado primário (sem o pagamento de juros) e resultado nominal (no vermelho, com a inclusão do saldo financeiro). Mas as contas primárias do governo central do Brasil estão muito longe da robustez. Nos 12 meses até setembro, houve um esquálido superávit de R$ 29,14 bilhões, ou 0,57% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas, de janeiro a setembro, o saldo foi um déficit de R$ 19,47% bilhões, ou 0,52% do PIB, segundo a estimativa do Banco Central. Não há esperança de se alcançar a meta, um excedente de R$ 80,8 bilhões, e até o mero equilíbrio é duvidoso. Por isso, o Executivo pediu ao Congresso a alteração da LDO, para acomodar qualquer resultado.

Quanto ao resultado nominal - mais importante e normalmente citado, quando se trata de países com tradição fiscal melhor que a brasileira -, é um desastre indisfarçável. Entre janeiro e setembro, houve um rombo, nas contas do governo central, de R$ 188,01 bilhões, ou 5,94% do PIB. Em 12 meses, o buracão ficou em R$ 190,12 bilhões, ou 4,92% do PIB.

O déficit fiscal da zona do euro ficou em 3% no ano passado e deve diminuir para 2,9% neste ano, segundo projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI). O resultado fiscal dos países avançados do G-20 foi um déficit de 4,8% em 2013. Para 2014, o número deve passar a 4,5%. Para a Itália ainda se projetava em outubro um balanço de 3% no vermelho, neste ano, igual ao do ano anterior. Se for um pouco pior, ainda será provavelmente bem mais favorável que o do Brasil. A maior parte dos europeus tem contas fiscais menos desequilibradas que as brasileiras. Ao apontar as contas brasileiras como bem melhores que as de potências mais desenvolvidas, a presidente obviamente se perde numa fantasia.

Ela também se perde quando confronta a dívida pública brasileira com a de países mais avançados. Sim, a proporção pode ser menor, no caso do Brasil, mas o Tesouro Nacional paga juros muito maiores para rolar seus papéis. Isso está claramente relacionado com a classificação da dívida soberana do Brasil, ainda bem abaixo dos níveis dos países desenvolvidos.

A presidente Dilma Rousseff também mencionou a geração de postos de trabalho. Pela última Pnad, o desemprego no Brasil ficou em 6,8% no segundo trimestre. Nas sete maiores economias, a média foi de 6,4%. Em 17 dos 34 países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as taxas foram menores que no Brasil. Há motivos muito fortes de inquietação, quando uma presidente reeleita para mais quatro anos se mostra alheia a esse mundo.

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U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira, 14 / 11 / 2014

O Globo
"Corrupção obriga Petrobras a adiar balanço"

Auditoria se recusou a dar aval, e resultado agora só sairá em dezembro

Estatal alega ajustes após investigações de esquema revelado pela Lava-Jato

A Petrobras informou ontem à noite que adiou a divulgação de seu balanço financeiro e, pela primeira vez, reconheceu que tomou a decisão devido a “possíveis ajustes contábeis” por causa da Operação Lava-Jato, da PF. A decisão ocorreu após a empresa de auditoria Pricewaterhouse Coopers se recusar a assinar o balanço sem antes receber relatórios internos da estatal sobre as denúncias de corrupção. A auditoria já havia exigido a demissão do presidente licenciado da Transpetro, Sérgio Machado, citado nas denúncias. O prazo para a Petrobras divulgar o balanço expirava hoje.

Folha de S.Paulo
"Investigada, Petrobras adia entrega de balanço"

Estatal diz ‘passar por momento único’ por conta das denúncias de corrupção

A Petrobras anunciou na noite de ontem (13) que vai adiar a divulgação de seu balanço referente ao terceiro trimestre deste ano. A publicação estava prevista para acontecer hoje. A estatal informou “não estar pronta” para divulgar os resultados em decorrência da necessidade de aprofundar a investigação sobre as denúncias de corrupção e fazer possíveis ajustes no documento. A empresa prevê divulgar os dados no dia 12. A Petrobras disse “passar por momento único” devido às denúncias de corrupção da Operação Lava Jato. Segundo a Folha apurou, a PwC, responsável por auditar o balanço, não assinou o documento, como é exigido pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Norma estabelece o período de 45 dias depois de um trimestre para que a empresa arquive o balanço. Há multa de R$ 500 por dia pela não divulgação. 

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quinta-feira, novembro 13, 2014

Dominique


Opinião

Caixinha de surpresas

Ferreira Gullar
Gostaria de deixar claro que, muito embora tenha criticado a atuação de Dilma Rousseff e do PT durante a campanha eleitoral, não torço para que seu governo fracasse, mesmo porque o que está em jogo, neste caso, é o interesse do país e, consequentemente, o interesse de todos nós.

Na última crônica, afirmei que Dilma terá de enfrentar graves problemas, tanto no plano econômico e político, como nos escândalos que envolvem a Petrobras e o próprio partido do governo. Não me rejubilo com isso. Apenas constato o que está evidente para todo mundo que acompanha a vida política brasileira.

Não resta dúvida que o escândalo das propinas, na Petrobras, não foi inventado pela imprensa, como já agora admite a própria Dilma.

Não sei qual é o grau de envolvimento que têm ela e Lula com esses escândalos, mas espero, como todo cidadão, que os fatos sejam apurados e os culpados, punidos. E certamente ela própria, a presidente da República, pensará assim, uma vez que, durante a campanha eleitoral, sempre se declarou contra a corrupção e a favor da punição dos culpados. Quanto a esse ponto, portanto, podemos ficar tranquilos. Ou não?

Que Dilma neste segundo mandato enfrentará grandes dificuldades não é opinião apenas minha, mas sim da maioria dos comentaristas políticos e até mesmo de gente do governo. E isso se tornou evidente, mais cedo do que todos esperavam, uma vez que, dois dias após sua vitória nas urnas já a Câmara dos Deputados recusava sua proposta de criação dos conselhos populares. Ela já havia feito a proposta de reforma política através de plebiscito, como resposta às manifestações populares de junho do ano passado. Não houve receptividade dos parlamentares.

A derrota de Dilma, agora, surpreendeu a todo mundo, inclusive, creio eu, a ela própria e seu pessoal, conforme se deduz da declaração do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, para quem a decisão da maioria dos deputados foi uma vitória de Pirro, que seria, além do mais, "anacrônica e contra a vontade irreversível da população". Quem disse isso a ele, não se sabe.

Trata-se, sem dúvida, da declaração de alguém que ficou surpreso e indignado com a tal derrota, e a tal ponto que agrediu a seu principal aliado no Congresso, que é o PMDB, cujos dirigentes consideram a criação dos conselhos populares um modo de enfraquecer o Legislativo.

Na verdade, a criação dos conselhos populares seria um avanço. Errado seria entregar a eles a realização da reforma política, que implica o conhecimento cabal das questões jurídicas e políticas envolvidas em tal tarefa. É claro que a maioria das pessoas –e aí me incluo– não tem conhecimento e capacidade exigidos para a realização de uma reforma dessa natureza.

Falando francamente, a proposta de Dilma Rousseff é, como frequentemente ocorre, populista, ou seja, apela para aquele setor da sociedade que, usufruindo da generosidade oficial, pode ser facilmente manipulado.

Ao contrário do que afirmou o ministro Gilberto Carvalho, anacrônico é tentar sobrepor a chamada massa popular ao Congresso, democraticamente eleito para legislar, como têm feito os governos bolivarianos. O PMDB pode tolerar a arrogância petista, mas não ao ponto de aceitar seu próprio fim.

Em sua declaração, o ministro dá a entender que a derrota da proposta de Dilma se deveu à oposição, quando se sabe que esta não tem o número de deputados suficiente para derrotar o governo. Renan Calheiros chegou a garantir isso, ao afirmar que também no Senado a proposta oficial seria rejeitada.

Outra surpresa destes primeiros dias após a reeleição foi a inesperada decisão do Banco Central, aumentando a taxa Selic para 11,25%.

Ninguém contava com isso, mesmo porque, durante toda a campanha eleitoral, a candidata petista garantia que seu oponente, se eleito, aumentaria os juros e com isso provocaria milhões de desempregos. Por isso, ninguém sabe se esse aumento dos juros foi decisão dela mesma ou rebeldia do Banco Central.

Nesta semana, mais surpresas: caiu para 0,24% a previsão do crescimento e surgiu novo escândalo, agora envolvendo a Transpetro, subsidiária da Petrobras. E o segundo mandato de Dilma ainda não começou.

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira, 13 / 11 / 2014

O Globo
"Mudança na meta fiscal já enfrenta forte reação"

Oposição ameaça tomar medidas judiciais, e TCU critica ‘improvisação ’

PMDB na Câmara pede mais tempo para apreciar proposta que permite ao governo gastar mais

Um dia depois de ser anunciada, a proposta do governo para mudar a meta fiscal sofreu duras críticas. O presidente do TCU, Augusto Nardes, chamou a medida de improvisação e jeitinho. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) disse que a oposição estuda medidas judiciais porque, para ele, a presidente Dilma incorrerá em crime de responsabilidade se o projeto for aprovado. O governo enfrenta resistência também em sua base. A bancada do PMDB na Câmara surpreendeu o partido e pediu tempo para apreciar a proposta. O projeto do governo amplia descontos da meta fiscal, dando aval para o país registrar déficit este ano.

Folha de S.Paulo
"Pacto China - EUA destrava negociações sobre o clima"

Maiores emissores de CO2 se comprometem a cumprir metas de redução

China e EUA, após meses de negociações, chegaram a um acordo para reduzir a emissão de gases poluentes. Divulgado durante a visita do presidente Barack Obama ao país asiático, o anúncio deve dar vigor ao esforço para concluir pacto global sobre mudança climática. Ao lado do líder chinês, Xi Jinping, Obama classificou o acordo como “histórico”. A China se compromete a atingir o ápice das emissões de CO₂ até 2030, quando elas deverão começar a cair. É a primeira vez que o país que mais polui no mundo estabelece data para isso. Os EUA assumem o dever de, em 2025, reduzir as emissões de 26% a 28% em relação a 2005. A nova meta é mais ambiciosa que a anterior —corte de 17% até 2020. Chineses e americanos respondem juntos por mais de 40% do dióxido de carbono emitido em escala global. No mês passado, a União Europeia comprometeu-se a reduzir em 40% as emissões até 2030, em relação a 1990. O bloco é responsável por 11% das emissões mundiais de gás carbônico. 

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quarta-feira, novembro 12, 2014

Dominique


Opinião

Lulopetismo desconstrói Dilma

O ESTADO DE S.PAULO
A coisa está pior do que parece para Dilma Rousseff, agora que o PT se garantiu por mais quatro anos no poder. Os graves problemas políticos que ela terá pela frente no segundo mandato que conquistou com escassa margem de votos não moram apenas do outro lado da Praça dos Três Poderes, no Congresso Nacional, mas também a poucos metros de seu próprio gabinete no Palácio do Planalto, onde está instalada, pelo menos até o fim do ano, uma ardilosa quinta coluna comandada pelo ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho. Em longa entrevista à BBC Brasil, Gilbertinho - como Lula o chama - detonou o desempenho de Dilma, a partir de uma 
perspectiva petista, mais particularmente a do próprio ex-presidente.

Os petardos de Gilberto Carvalho: "O governo praticou o diálogo nesses anos, mas, para o padrão da sociedade brasileira hoje, há muito que fazer. Sobretudo no diálogo com os principais atores na economia e na política, o governo da presidenta Dilma deixou de fazer de maneira tão intensa como era feito no tempo do Lula esse diálogo de chamar os atores antes de tomar decisões". Quer dizer: a chefe do governo não ouve ninguém para tomar decisões.

Não seria exatamente o ministro encarregado de coordenar os contatos do governo com os movimentos sociais que admitiria a falta de diálogo com eles. Mas a versão de Carvalho sobre o comportamento da presidente é pior do que a da simples falta de diálogo: "Não faltou diálogo, o que faltou no caso dos movimentos sociais foi o atendimento das demandas. A reforma agrária e a questão indígena avançaram pouco. A reforma urbana - as estruturas de funcionamento das cidades, a mobilidade urbana - também não foi o que os movimentos esperavam". Quer dizer: ele, o ministro, cumpre sua parte, mas contrariando o discurso de Lula e do PT, a presidente não prioriza o "atendimento das demandas" populares.

Tratando em particular da questão indígena e da queixa de movimentos ligados à área de que algumas alianças feitas pelo governo comprometeram os avanços, Carvalho foi categórico: "Em nenhum momento foi por conta da Kátia Abreu (senadora do PSD, porta-voz do agronegócio) que deixamos de avançar. Não avançamos porque faltou competência e clareza". Quer dizer: na questão indígena, tão cara ao PT, o governo Dilma foi incompetente e confuso.

É claro que as declarações de Gilberto Carvalho foram extraídas do contexto mais amplo de uma longa entrevista em que, no geral, ele apresenta um balanço positivo do primeiro mandato de Dilma. Mas, ao contrário do que seria de esperar quando se trata de um ministro pelo menos fisicamente próximo à chefe do governo, as declarações selecionadas de Gilberto Carvalho encaixam-se perfeitamente no contexto mais amplo em que foram feitas, são absolutamente categóricas, falam por si. E o que revelam? Revelam que, obcecado por seu projeto de poder e já de olho em 2018, o lulopetismo está articulado em torno de um duplo objetivo político-eleitoral. O primeiro: partindo do princípio sensato de que uma administração desastrada de Dilma Rousseff nos próximos quatro anos pode botar a perder as possibilidades de Lula se tornar seu sucessor, a facção lulista, inquestionavelmente majoritária, faz pressão sobre a presidente para que corrija os rumos do governo, especialmente o daquele em que se situa a raiz de todos os males - a política econômica. Não é por outra razão que Lula defende a nomeação de um ministro da Fazenda com maior autonomia do que Dilma concedeu a Guido Mantega, para restabelecer a confiança do mercado no governo e o crescimento da economia.

Em segundo lugar, a tarefa de desconstruir Dilma Rousseff - que é exatamente a que Gilberto Carvalho cumpre, agora sem nenhum constrangimento - tem a intenção de estabelecer claramente entre Lula e sua criatura uma comparação favorável ao Grande Chefe, o herói de origem humilde, o único e verdadeiro defensor dos fracos e oprimidos, sempre disposto a abrir os braços e os ouvidos para as reivindicações da massa popular oprimida pela elite perversa. Se Dilma tivesse barba, como seu criador, estaria mais do que na hora de colocá-la de molho.

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U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira, 12 / 11 / 2014

O Globo
"Governo pede brecha para descumprir meta fiscal"

Projeto enviado ao Congresso dá aval para país ter déficit este ano

Planalto propõe mudar Lei de Diretrizes Orçamentárias porque não conseguiu poupar o prometido. Ministra nega que seja ‘cheque em branco’ e alega necessidade de gastar mais. Oposição critica, e PMDB promete apoio

Para evitar o descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o governo enviou ao Congresso projeto que permite abatimento de todas as despesas com PAC e desonerações da meta de superávit primário. Esses gastos somam R$ 138 bilhões este ano, mais que os R$ 116,1 bilhões de esforço fiscal até então prometido. Na prática, a mudança dá aval para o país ter déficit, ou seja, gastar mais do que arrecada. Analistas temem que a piora nas contas públicas leve ao rebaixamento do Brasil por agências de rating.

Folha de S.Paulo
"De saída, Marta provoca mal-estar com Planalto"

Petista deixa Ministério da Cultura com crítica à política econômica de Dilma

A ministra Marta Suplicy (Cultura) entregou nesta terça (11) sua carta de demissão com críticas indiretas à presidente Dilma Rousseff (PT), ao desejar que sua correligionária “seja iluminada” para escolher uma equipe econômica capaz de recuperar a credibilidade do governo. Segundo assessores presidenciais, Marta foi “desleal” ao deixar o governo quando Dilma viaja ao exterior. Também não agradou a ênfase dada a um ponto frágil do governo, a economia. Marta voltará ao Senado e pode se dedicar ao plano de disputar a Prefeitura de SP. A alfinetada de Marta em Dilma reflete críticas que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz à sucessora no comando da economia. Na Esplanada desde setembro de 2012, o relacionamento entre as duas esfriou quando a ministra foi porta-voz do movimento “Volta, Lula”. Com a saída abrupta, a Casa Civil acionou os outros ministros para que colocassem os cargos à disposição num gesto para deixar Dilma à vontade na montagem de sua nova equipe. 

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terça-feira, novembro 11, 2014

Dominique


Opinião

Invadindo terreno alheio

O ESTADO DE S.PAULO
O Congresso Nacional e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estão a caminho de se desentender. Os parlamentares criticam o ativismo judicial da Corte presidida pelo ministro do STF Antonio Dias Toffoli - e as suas queixas procedem. Já na reta final da disputa pelo Planalto, proibiu-se a ida ao ar de mais de uma dezena de peças de propaganda, sob o argumento de que, em vez de "propositivas", como deveriam ser se obedecessem estritamente à letra da legislação, continham ataques ao adversário. Isso, no dizer de Toffoli, degradaria a competição eleitoral no que chamou "baile de risca-faca". À época, sustentou-se neste espaço que a iniciativa, apesar da motivação louvável, configurava censura política e descrença na capacidade do eleitorado de punir nas urnas, ele próprio, a baixaria.

Passadas duas semanas do segundo turno, o mesmo Toffoli indica que o TSE poderá alterar parte das normas que regem a competição pelo voto para "estabelecer alguns pontos que as eleições deixaram de ensinamento". Ele assegura que a Justiça Eleitoral não pretende desconsiderar as prerrogativas do Legislativo, tanto que já teria começado a tratar da matéria com a cúpula da Câmara e do Senado. Ao mesmo tempo ressalta que a experiência credencia os seus pares a apresentar "sugestões" de mudanças legislativas. Mas o anunciado recurso à edição das chamadas súmulas - destinadas em princípio a aplainar decisões contraditórias tomadas por tribunais regionais durante a campanha - pode levar o TSE a invadir seara alheia.

É o caso da imposição da propaganda propositiva por que Toffoli se bate, restringindo o confronto aberto de ideias, valores e qualificações entre os candidatos.
Em um ponto, porém, parlamentares e juízes coincidem - e isso é um mau sinal. Os dois lados defendem a adoção de regras mais rígidas para a divulgação de pesquisas eleitorais, quando não a sua proibição nos 15 ou 20 dias anteriores ao primeiro turno. Os políticos alegam, com desconhecimento de causa ou, provavelmente, em causa própria, que as urnas podem não respaldar os resultados das sondagens publicadas até mesmo no dia da votação - como se estas quisessem antecipá-los e não apenas registrar o que vai pela cabeça do eleitor na data em que foi entrevistado.

Faz anos, ou décadas, que os políticos tentam proibir a divulgação de pesquisas no fecho das campanhas. Se o conseguirem, privarão a sociedade de conhecer, nessa etapa literalmente decisiva, a evolução das preferências dos concidadãos. Sem números a contestá-los, os candidatos estarão à vontade para cantar vitória até a sua derradeira aparição no horário de propaganda. A mordaça nos números evidentemente não fará com que os partidos e demais interessados deixem de encomendar os seus próprios levantamentos, tantos quantos o seu dinheiro for capaz de comprar. Só o incauto eleitor estará condenado à ignorância.

Há quem raciocine, de boa-fé, que as pesquisas influem nas escolhas de cada qual diante da urna eletrônica. Influenciado, o eleitor poderia deixar de votar "de acordo com a sua consciência". Não está claro o que a expressão significa. Quanto mais ele estiver informado sobre as inclinações de seus iguais, tanto mais poderá tomar uma decisão conforme os seus interesses, ou seja, consciente. Se souber que o seu candidato corre um risco ponderável de não chegar lá, terá a alternativa de sufragar, entre os rivais viáveis, aquele com o qual mais se identifica - ou de tentar impedir a vitória daquele a quem mais rejeita. É o voto útil, racional, que leva em conta, além das convicções íntimas, o cenário que as rodeia.

As pesquisas são um meio para uma eventual escolha realista - sem tolher a preferência de ninguém a um candidato fadado a perder. Restam dois argumentos pelas restrições às pesquisas. Um é que encarecem as disputas. É verdade, mas o veto a que se divulguem os seus dados até em cima da hora do pleito não bloqueia a sua realização - só que para consumo exclusivo da minoria afetada direta ou proximamente pelo desfecho da contenda. Outro argumento é que pesquisas podem ser fraudadas. É verdade também, mas o próprio mercado seleciona os institutos confiáveis. É o que o retrospecto comprova.

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U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira, 11 / 11 / 2014

O Globo
"Rio e SP preveem obras de R$ 8,5 bi para água"

Alckmin se reúne com Dilma e pede ajuda federal

Estudo encomendado pelo Inea recomenda intervenções de R$ 5 bi no Rio para resolver gargalos

Juntos, os estados do Rio e de São Paulo terão de fazer investimentos de R$ 8,5 bilhões nos próximos anos para evitar o colapso no abastecimento de água em épocas de seca como a atual. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ontem pediu ajuda à presidente Dilma para financiar 8 obras de infraestrutura hídrica que custarão , ao todo , R$ 3,5 bilhões e só começarão a ficar prontas em 2015. No Rio, um estudo encomendado pelo Instituto Estadual de Ambiente (Inea) prevê que terão de ser gastos R$ 5 bilhões para resolver os problemas de água e universalizar o abastecimento até 2030.

Folha de S.Paulo
"Com tempo seco, SP tem o ar mais poluído em 7 anos"

Previsão de poucas chuvas deve agravar situação na cidade; para Cetesb, cenário não é tão crítico

Com poucas chuvas, baixa umidade e massa de ar quente estagnada sobre o Estado, os moradores da Grande SP respiram neste ano o ar de pior qualidade desde 2007. De janeiro a outubro deste ano, o poluente “poeira fina” passou 1.325 vezes por dia o limite considerado saudável pela ONU. Esse poluente, que afeta narinas, garganta e pulmão, fez 1.478 dessas ultrapassagens diárias em 2007. A situação pode se agravar nas próximas semanas, pois a previsão indica pouca chuva em toda a região metropolitana de SP. Mesmo assim, em média, SP tem 70% menos poeira que Pequim. A agência ambiental Cetesb, do governo Alckmin (PSDB), diz que a qualidade do ar é a pior nos últimos três anos, a partir da lei em vigor. Para especialista, o número se estabiliza num patamar elevado.

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segunda-feira, novembro 10, 2014

Dominique


Opinião

A fonte secou

Fernando Gabeira
“Eu não sou água pra me tratares assim. Só na hora da sede é que procuras por mim”

São versos de uma canção de amor desfeito. Mas revelam a maneira cotidiana como vemos a água num país que tem um quarto dos recursos hídricos do planeta: basta procurá-la na hora da sede.

Um motorista de táxi de São Paulo aproveitou o trânsito lento para me contar como foi a reunião do condomínio onde mora. No final, perguntou se não estava me chateando. Despedi-me sem dizer a ele que, ao contrário, estava me inspirando. Ver o tema da água invadindo as conversas, mudando hábitos, era presenciar o início de uma pequena revolução cultural vivida pela Califórnia, que reformulou suas leis, ou mesmo por Israel, que transformou a escassez de água em produção tecnológica que lhe rende muitas divisas.

Há oito anos, fui convidado pelo Greenpeace para falar na Holanda sobre os temas que poderiam inspirar suas campanhas. Éramos eu e um americano. Propus água, ele propôs as bombas sujas que o terrorismo estava produzindo. Senti que havia mais interesse pela bomba suja. Durante muito tempo, minha ênfase na questão da água foi enfadonha como uma reunião de condomínio. Com a seca, até as reuniões de condomínio são emocionantes. Em São Paulo, tomar um banho coloca questões éticas que sempre existiram, mas agora ganham um sentido de urgência. Estou consumindo mais do que devo?

É a primeira grande seca que vivo na região. No início dos 1980, viajei para o Nordeste para documentar a seca no sertão de Irauçuba, no Ceará. Viajei com o Mário Ferreira, e sua câmera Ikegami não aguentava o calor seco: os controles eletrônicos enlouqueciam com frequência. No Sudeste nem todos se deram conta da seca, algo impossível no sertão. Ela é mais branda, no entanto arrasou rios como o Piracicaba, secou nascentes como a do São Francisco e alterou o cotidiano de São Paulo. Nunca tinha visto os paulistas na rua festejando a chegada da chuva.

Apesar das consequências sociais e econômicas, a seca foi vivenciada de uma forma um pouco blasé nas eleições de 2014. Imaginem que o Congresso brasileiro não fez ainda uma única e miserável audiência para tratar do assunto. Parecem acreditar que isso passa com a chegada das chuvas, que é perder tempo tratar do assunto. A ideia de um país com água abundante ainda domina o imaginário. De fato temos muita água, mas o problema é sua distribuição ao longo do país. Temos boas leis sobre recursos hídricos e um excelente instrumento de gestão: o comitê de bacia. Uma das leis determina o pagamento da água tirada dos rios pelas empresas e agronegócio, destinando o dinheiro para os comitês de bacia.

Mesmo com um mapa indicando o caminho, avançamos pouco. Nas reuniões de que participei do Comitê de Bacia do Piracicaba, sempre esteve muito claro que o rio estava sobrecarregado. Suas águas eram usadas por São Paulo, Campinas, duas cidades imensas, além das outras menores da região. Hoje, compreendo que essas previsões, feitas com tanta antecedência, entram por um ouvido e saem por outro.

Costumamos dizer que a água traz um potencial de conflitos para o século XX1 como o petróleo trouxe para o século XX. Mas e daí? Agora que a seca atinge algumas das áreas mais populosas do Brasil é hora de uma mudança que passa pelos hábitos cotidianos. Mas não se esgota neles. Com a queda dos reservatórios, talvez tenhamos que combinar economia de água e energia simultaneamente. Já tivemos uma experiência de economizar energia, no fim do governo Fernando Henrique. A sociedade respondeu bem. O governo pelo menos se abriu. Foi criado um gabinete de crise, e várias vezes, mesmo sendo de oposição, fui lá trocar ideias com Pedro Parente, designado para cuidar da crise. O apagão de 2001 foi mais dramático, mas a crise atual, leio, custou quatro vezes mais ao país: R$105 bilhões. Um debate nacional sobre a crise da água e, no caso brasileiro, sua enorme repercussão na energia, é mais do que urgente. O governo estava na luta eleitoral e, vencedor, dedica-se agora às escaramuças da partilha do poder. Passamos tanto tempo discutindo se o país estava dividido, e nem nos demos conta de que secou a nascente do rio da unidade nacional.

Estou partindo para Itu, uma cidade do interior de São Paulo atingida pela seca. Dizem que os carros-pipas circulam com escoltas armadas, e as pessoas passam noites nas filas para receber um pouco de água. É um documento sobre a sobrevivência urbana na seca. Mas não basta para colocar a seca na agenda nacional. E, com governo em fase de toma lá da cá com os os partidos aliados, meu medo é que a queda das chuvas, mesmo que modestas, mergulhe o tema, de novo, no limbo da memória.

Nesse caso, será preciso esperar uma nova crise. E se consolar com um poema de Elizabeth Bishop sobre a beleza da chuva caindo em nosso telhado. Dizem que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Mas as pedras, no Brasil, às vezes são duras demais. E a água, agora sabemos, anda um pouco escassa.

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U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira, 10 / 11 / 2014

O Globo
"Custo da violência já chega a 5,4% do PIB"

Estudo mostra que gastos com consequências são maiores do que com prevenção no país

Dados do Anuário de Segurança Pública são um alerta para o impacto financeiro do problema, que atinge todos os estados

A violência no Brasil é devastadora também na economia. Só em 2013, o impacto financeiro foi de R$ 258 bilhões, revela o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que será lançado amanhã. A maior parte desse valor — R$ 192 bilhões — é gasta com as consequências do problema, e não com sua prevenção. O investimento dos governos em segurança pública é de R$ 61,1 bilhões. A violência, que se alastra por todos os estados, já custa ao país 5,4% do PIB. A vítima morre de forma prematura e deixa de produzir e consumir. Entram na conta das despesas, também, gastos com saúde, seguros e segurança privada. Especialistas mostram que a questão é um entrave ao desenvolvimento.

Folha de S.Paulo
"Após Lei Seca mais rigorosa, mortes caem no trânsito"

Depois de três anos de alta, índice tem queda de 10%, a maior desde 1998


As mortes em acidentes de trânsito caíram 10% em todo o país no ano passado, segundo o governo federal. É a primeira queda em três anos e a maior desde 1998. Informações preliminares do Sistema Único de Saúde revelam que no ano passado foram 40,5 mil vítimas, ante 44,8 mil em 2012. A redução coincide com o primeiro ano de vigência da Lei Seca mais rigorosa, que dobrou o valor das multas, e com novos meios para se provar a ingestão de álcool. Especialistas também apontam a redução da velocidade do tráfego e a intensificação da fiscalização como fatores para a queda.

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