sábado, março 01, 2014

Dominique


Opinião

De novo, Ciência sem Fronteiras

O Estado de S.Paulo
Lançado em 2011 com o objetivo de internacionalizar o sistema de ensino brasileiro, oferecer intercâmbio para docentes e pesquisadores estrangeiros e reduzir a distância entre as universidades nacionais e as de outros países mais bem classificadas nos rankings comparativos de qualidade de ensino, o Ciência sem Fronteiras apresenta um número cada vez maior de problemas de gestão, o que pode comprometer seu sucesso.

Os primeiros problemas envolveram atrasos no depósito das bolsas e auxílio-alimentação dos bolsistas. Como ficaram sem recursos para pagar aluguel e comer, algumas universidades britânicas tiveram de oferecer empréstimos de emergência aos estudantes brasileiros. Em seguida, descobriu-se que o governo mandou para o exterior milhares de bolsistas que não tinham condição de assistir às aulas e de participar de experiências compartilhadas em laboratórios, por falta de fluência em inglês. As autoridades educacionais tentaram realocar esses estudantes em universidades portuguesas, mas constataram que havia excesso de demanda para essas instituições e suspenderam o programa para Portugal. Depois, por discordar dos critérios adotados pelo governo para a seleção de bolsistas, a iniciativa privada deixou de bancar todas as bolsas que havia prometido em 2011.

Agora, depois de três anos de funcionamento, sabe-se que o Ciência sem Fronteiras também não vem conseguindo atrair para o Brasil cientistas de outras nacionalidades e pesquisadores brasileiros que atuam em países desenvolvidos. A informação consta da ata da 10.ª reunião do comitê executivo do programa. Das 101 mil bolsas para serem distribuídas entre 2011 e 2014, cerca de 2 mil são destinadas para "pesquisador visitante especial", com o objetivo de trazer professores e pesquisadores estrangeiros que tenham "liderança internacional". Outras 2 mil bolsas são destinadas ao que os dois órgãos que lideram o programa - a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) - chamam de "jovens talentos". Ou cientistas brasileiros em início de carreira que, depois de obtido o doutorado no exterior, decidiram não voltar para o País, por falta de condições de trabalho e de estímulo no ambiente acadêmico nacional.

Para tentar contornar o problema, as autoridades educacionais chegaram a cogitar a possibilidade de incluir na categoria dos "jovens talentos" os pós-doutorandos brasileiros que foram para o exterior pelo Ciência sem Fronteiras. Mas, quando receberam a bolsa de pós-doutorado, eles assinaram um contrato com a Capes e o CNPq comprometendo-se a retornar ao País logo após o término dos estudos. Em outras palavras, como têm a obrigação legal de voltar, esses pós-doutorados não estão sendo "atraídos", como pretende o programa. Por isso, os dois órgãos de fomento à pesquisa descartaram essa "solução".

A proposta de aumentar a presença de pós-graduandos brasileiros em instituições de excelência no exterior e atrair cientistas estrangeiros para trabalharem no País é decisiva para melhorar a qualidade do ensino. "Ela rompe com décadas de isolamento de nossos cursos de pós-graduação, o que levou a um sistema autorreferente e atrasado em relação ao que se ensina no resto do mundo", afirma Leandro Tessler, professor de física da Unicamp.

Mas, do modo atabalhoado como o Ciência sem Fronteiras foi posto em prática, seu desempenho ficará muito aquém do esperado. "O grande nó é a quantidade de bolsas. De onde saiu esse número de mais de 100 mil bolsas? Era melhor ter feito um programa menor, mas com um processo seletivo mais rigoroso", diz o ex-reitor de graduação da Unicamp Marcelo Knobel, no que tem inteira razão. E também lembra, acertadamente, que, por estarem ainda num estágio inicial de formação acadêmica, muitos bolsistas não têm a maturidade necessária para desenvolver projetos de pesquisa no exterior. Infelizmente, é de forma inepta que a educação pública tem sido gerida no Brasil.

Original aqui

Twitter

U.V.

Manchetes do dia

Sábado, 01 / 03 / 2014

Correio Braziliense
"Após denúncia de regalias, governador Agnelo visita Dirceu na prisão"

O mensaleiro também já recebeu visitas de advogado e até do chefe da Defensoria Pública da União. Todos os encontros ocorreram fora do horário

O governador Agnelo Queiroz (PT) esteve no Complexo Penitenciário da Papuda, no último dia 20, onde se encontrou com o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que cumpre prisão decorrente da condenação no julgamento do mensalão. Uma matéria publicada na revista Veja mostra que a visita não foi divulgada na agenda oficial do governador. O GDF confirmou que o encontro com Dirceu ocorreu, mas alega que foi “casual”. Destaca ainda que Agnelo aproveitou uma inauguração, próxima a Papuda, para fazer uma inspeção no local. “Durante a visita, encontrou-se com o ex-ministro e ex-deputado federal José Dirceu. Eles trataram de assuntos pessoais e o ex-ministro manifestou sua expectativa em relação ao julgamento de recurso junto do STF”, destacou o GDF, em nota.

Estado de Minas

"Chuvas ficam abaixo da média em fevereiro e cresce risco de racionamento"

Chuvas deste mês devem ficar abaixo da média e crise energética pode ser agravada. Associações vão entregar carta de alerta ao ministro Lobão. Brasileiro tem que economizar

A falta de transparência do governo em lidar com a atual crise energética — provocada pelo declínio do nível dos reservatórios de hidrelétricas em pleno período chuvoso e pelo avanço do consumo, embalado pelas altas temperaturas em todo o país — está testando os nervos de empresários e até mesmo de autoridades do setor. As seguidas posturas evasivas do Planalto em relação ao crescente estresse do Sistema Interligado Nacional (SIN) começaram a alimentar o temor de que um racionamento nos moldes do adotado pelo país em 2001 seja anunciado logo após as eleições. Apesar dos impedimentos fiscais para arcar com a disparada do custo da eletricidade no atacado, puxado pelo uso intensivo da caríssima geração térmica e dos alertas do Operador Nacional do Sistema (ONS) sobre os volumes escassos de chuvas, o Planalto insiste em colocar nas mãos de São Pedro a saída para driblar o colapso nos próximos meses. Tal posicionamento, reforçado semana passada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi ironizado pela revista britânica The Economist e a expectativa oficial de reforço no fluxo dos rios do Sudeste e Centro-Oeste ainda não se confirmou.

Twitter

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

Carnaval. Uêba!


Coluna do Celsinho

Perequê-Açu

Celso de Almeida Jr.

O Celso Teixeira Leite - sempre o Celso Teixeira Leite... - me convidou para o ensaio final do Bloco do Perequê, ontem a noite.

Levei o Lemar Gonçalves, sogro querido.

Não deu outra...

Bastou uma meia horinha e já emprestei um chocalho, fascinado pelo ritmo.

O mestre animado, os integrantes da bateria, as cantoras da Marcha do Pereca - que tem letra do Paulo Motta com melodia da Maria Luiza e da Ana Lucia - contribuíram para o meu reencontro com a infância e a juventude.

Foi inevitável...

Veio à lembrança os tempos em que toquei em duas escolas de samba ubatubenses: BAC (vermelho e branco) e Acadêmicos (verde e rosa).

Na ocasião, no repique, entrar na avenida Iperoig, sem álcool, sem drogas, me deixava num estado de excitação e entusiasmo impressionantes.

Na mágica noite de ontem, vendo crianças, jovens e adultos tocando juntos, assistidos por familiares numa pracinha do Perequê-Açu, tive a certeza de presenciar a melhor fórmula.

Senti no ar a mesma ingenuidade e inocência que me encantavam em outras épocas.

Qual é o nosso papel?

Apoiar iniciativas como essa.

Parabenizar e estimular os diretores e coordenadores de empreitadas desta natureza.

Dar dinheiro.

Ajudar a gerar dinheiro.

Como?

Aglutinando talentos, contribuindo para que promovam ensaios, eventos, festas, concursos, confecção de instrumentos, fantasias, o ano todo.

Envolvendo as famílias, fortalecendo nossas raízes, nossa cultura.

Com o tempo, estas seriam as verdadeiras grandes atrações para a alegria de nossos visitantes.

E, o que é melhor: nós daríamos o espetáculo!!!

Creio que com boa vontade, persistência e desprendimento as coisas acontecem.

Na volta pra casa, provoquei o Lemar para fundar uma escola de samba.

Amante da música, alegre por natureza, ele tem todos os pré-requisitos para a causa.

Dona Fernanda, saudosa sogrinha, lá do céu, deve aprovar a ideia.

Afinal de contas, mulatas como as do Sargentelli são cada vez mais raras...

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

Twitter

Dominique


Opinião

O desfecho do mensalão

O Estado de S.Paulo
Seria apenas irônico, se o episódio não pudesse tisnar a imagem da nova composição do Supremo Tribunal Federal (STF): parece ter sido finalmente provada a tese do PT de que o julgamento da Ação Penal 470 tem um componente predominantemente político. Uma "maioria de circunstância, formada sob medida", como afirmou em seu voto um inconformado ministro Joaquim Barbosa - mas, de qualquer modo, um colegiado diferente daquele que julgou o mensalão em 2012 -, reverteu a decisão original da Corte e absolveu José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoino e mais cinco do crime de formação de quadrilha, livrando os dois primeiros do cumprimento da pena em regime fechado.

Essa nova decisão não livra da cadeia os ex-dirigentes petistas condenados agora a penas inferiores a 8 anos, mas oferece ao partido no poder o argumento, extremamente útil num ano eleitoral, de que seus ex-dirigentes não formaram uma quadrilha para comprar apoio parlamentar.

Agiram então, segundo o STF, por iniciativa individual, como criminosos avulsos. O que não impede de estarem inapelavelmente encarcerados.

A acusação de atuar politicamente, ou de armar "uma farsa", que a companheirada lançou contra a Suprema Corte quando percebeu que seus líderes seriam inevitavelmente condenados, foi uma tentativa, muito bem-sucedida pelo menos no que diz respeito à militância petista, de transformar em mártires criminosos como José Dirceu, Delúbio Soares e José Genoino e preservar a imagem de um partido que alardeia ser monopolista da virtude.

Essa estratégia se tornou evidente durante a sustentação oral dos advogados de defesa dos petistas, na abertura do julgamento dos embargos infringentes. Numa ação obviamente articulada, relegaram a segundo plano as razões e os argumentos jurídicos para promover um ato de desagravo político aos seus clientes.

Todos os ex-dirigentes petistas que a Justiça colocou atrás das grades depois de um longo e meticuloso julgamento pela Suprema Corte transformaram-se, na retórica de seus causídicos, em heróis com admirável folha de serviços prestados ao País e injustamente condenados por um tribunal que se comportou como se fosse de exceção.

Ninguém mencionou, é claro, o fato de que 8 dos 11 ministros que então compunham o STF foram nomeados pelos governos petistas. Mas o defensor de Genoino foi mais longe: garantiu que o fato de o PT estar no poder há quase 12 anos é indesmentível "sinal de que o povo concorda com as práticas que vêm sendo adotadas". O que não é verdade.

O desfecho do julgamento do mensalão merece uma reflexão que, acima das paixões ideológicas e partidárias, contribua para o aperfeiçoamento institucional do Brasil. É impossível, por exemplo, haver estabilidade, precondição para o desenvolvimento, numa sociedade que não respeita suas instituições fundamentais. E o Judiciário é uma delas.

Pode-se discordar de suas decisões que, afinal, são tomadas por falíveis seres humanos. E, para garantir a incolumidade dos direitos individuais diante de eventuais erros da magistratura, existe uma ampla legislação processual. Mas questionar a legitimidade do Poder Judiciário e de seus agentes é conspirar contra a estabilidade institucional. Numa sociedade democrática a ninguém é dado esse direito.

Assim, é lamentável a necessidade de registrar e reprovar a insistência com que o presidente do STF e relator do mensalão, ministro Joaquim Barbosa, tem atropelado o decoro de um colégio de altos magistrados para se comportar com acintosa agressividade e intolerância sempre que seus pares divergem de seus votos. A recente elevação do tom desses rompantes pode sugerir que não se trata mais, apenas, de uma questão de temperamento irascível, mas de cálculo político.

Ainda falta o exame de embargos menos relevantes, mas é chegada a hora de o triste episódio do mensalão sair de cena - sem prejuízo de ações correlatas, como o chamado mensalão mineiro, ou tucano - para que a Justiça produza seus efeitos e continue a cumprir seu curso.

Original aqui

Twitter

U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira, 28 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Absolvição de mensaleiros pelo Supremo repercute no Congresso Nacional"

"Ninguém opera um esquema desse tamanho de forma meramente eventual. As duas decisões são contraditórias", disse o líder do DEM na Câmara, deputado Mendonça Filho
 
A decisão do Supremo de absolver José Dirceu, Delúbio, Genoino e outros cinco réus repercutiu imediatamente no Congresso. O líder do PT, deputado Vicentinho (SP), manteve a avaliação de que o julgamento anterior, em 2012, havia sido “viciado”. Foi planejado com base no calendário eleitoral. E, por fim, houve a condenação sem que os autos trouxessem provas suficientes”, disse. Para o líder do DEM na Câmara, deputado Mendonça Filho (PE), a decisão de ontem do STF entra em conflito com as sentenças anteriores proferidas pelo tribunal ao longo da Ação Penal 470. “A partir do momento que o Supremo decidiu e condenou por prática de crime, a associação entre os que o praticaram está dada. Uma coisa leva a outra. Ninguém opera um esquema desse tamanho de forma meramente eventual. As duas decisões são contraditórias” disse.

Estado de Minas

"Montes Claros quer colocar Bruno no gol e deve assinar contrato nesta sexta"

Time tenta viabilizar inscrição do goleiro, que precisará de autorização da Justiça para jogar

O Montes Claros Futebol Clube, time da cidade de mesmo nome do Norte de Minas, anunciou a contratação do goleiro Bruno Fernandes de Souza, preso pela morte de Eliza Samudio, e tenta viabilizar a inscrição do jogador na Federação Mineira de Futebol (FMF). Segundo o presidente da equipe, Vile Mocellin, o objetivo é registrar o contrato hoje, quando termina o prazo para a inscrição de jogadores para disputar a segunda fase do Campeonato Mineiro do Módulo II. O clube norte-mineiro é líder da Chave B da competição.

Twitter

quinta-feira, fevereiro 27, 2014

Dominique


Opinião

A revolução do real

O Estado de S.Paulo
Há 20 anos uma revolução sem armas e sem passeatas começou a mudar a vida dos brasileiros, quando o presidente Itamar Franco assinou a Medida Provisória (MP) 434 e criou a Unidade Real de Valor (URV), embrião de uma nova moeda, o real. Naquele mês de fevereiro, os preços ao consumidor subiram 40,27% e a alta acumulada em 12 meses chegou a 757,29%. Em 2013, a inflação anual ficou em 5,91%. Há 20 anos, os preços de bens e serviços aumentavam muito mais que isso em apenas uma semana. Recebido o pagamento, os trabalhadores corriam ao supermercado para abastecer a casa. A corrosão do salário em poucos dias era muito maior do que foi em todo o ano passado.

Como o ar, a água, as praças e a ordem democrática, a moeda é um bem público e a sua preservação é uma das obrigações mais importantes do poder político.

Cumprir essa obrigação é também proteger os pobres, os mais indefesos diante da alta de preços. Em tempos de inflação elevada, o reajuste de seus ganhos é normalmente mais lento que a alta do custo de vida. Além disso, eles são menos capazes de poupar e de buscar proteção em aplicações financeiras. Políticas de transferência de renda teriam sido inúteis no Brasil da espiral inflacionária, porque os benefícios seriam rapidamente anulados pelos preços em disparada. Apesar disso, há quem defenda a tolerância à inflação como política progressista.

Assinada em 27 de fevereiro, a MP entrou em vigor no dia seguinte, com a publicação no Diário Oficial. Durante quatro meses o Brasil teria duas moedas. A URV serviria como referência de valor. O cruzeiro real, ainda em circulação, continuaria usado para os pagamentos e outras operações do dia a dia.

Lançada com o valor inicial de CR$ 647,50, a URV seria reajustada todos os dias até a emissão da nova moeda, em 1.º de julho. Nesse período, serviu de base para o reajuste de todos os preços, a atualização de contratos e a fixação da taxa de câmbio pelo Banco Central (BC).

Emitido o real, com valor correspondente a CR$ 2.750,00, houve de novo a unificação monetária, com um só instrumento servindo como unidade de conta, meio de pagamento e reserva de valor. Não seria apenas uma nova moeda, como aquelas criadas em planos anteriores de estabilização e logo erodidas e desmoralizadas por um novo surto inflacionário.

A atualização diária dos preços, com base na variação da URV, deveria servir para uma recomposição geral de valores e de suas proporções. Tudo se passaria como se a indexação fosse levada ao extremo para em seguida, de repente, ser interrompida. Autores de planos anteriores haviam tentado vencer a inflação inercial - a realimentação constante da alta de preços pelo prolongamento do impulso inflacionário. Mas essas tentativas haviam sempre envolvido congelamentos de preços e truques variados. Não haveria mágicas no real.

Proibir a indexação na maior parte dos contratos foi uma das primeiras medidas, a partir da reforma monetária. Mas essa iniciativa teria sido anulada pelo retorno da inflação, se faltassem esforços muito mais ambiciosos. Avançou-se na desestatização para aliviar o Estado e aumentar a eficiência do governo e de importantes indústrias de base e de infraestrutura. Ampliou-se a abertura comercial.

Iniciou-se, enfim, uma complexa renegociação das dívidas de Estados e municípios. Esse arranjo incluiu a extinção ou reforma de bancos estaduais. Essa manobra permitiu o ressurgimento de uma política monetária eficaz, algo impossível quando o BC era forçado a sancionar a desordem criada pelos governos de Estados e seus bancos.

Só um BC revigorado e com bons instrumentos poderia ter vencido com rapidez, como venceu, os surtos inflacionários de 2002-2003 e de 2009. Em 2000, a Lei de Responsabilidade Fiscal completaria a reforma.

Com o real, o brasileiro passou a dispor de novo de uma moeda respeitável e adequada às funções clássicas de meio de troca, unidade de conta e reserva de valor. Como tantas outras conquistas, essa também é reversível. Nenhuma moeda é indestrutível quando se combinam por algum tempo a tolerância à inflação, a irresponsabilidade fiscal e o populismo.

Original aqui

Twitter

U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira, 27 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"PIB cresce 2,3% em 2013, puxado pelo consumo das famílias e governo"

A média de crescimento do governo Dilma Rousseff fica em 2%, a menor taxa desde o governo Collor

O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2,3% em 2013, puxado pelo consumo das famílias e pelo consumo do governo. No 4º trimestre do ano, o PIB avançou 0,7%, afirma as estimativas do mercado. A média de crescimento do governo Dilma Rousseff fica em 2%, a menor taxa desde o governo Collor. Foi um alívio para o governo, pois havia a perspectiva de retração na atividade, o que levaria o país para recessão.

Estado de Minas

"Inflação dita a alta de juros no país"

Essa é mais uma tentativa do governo de conter a inflação. De olho no PIB, ciclo de aumento deve terminar

Em decisão unânime, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) elevou nessa quarta-feira a taxa de juros básicos da economia (Selic) de 10,5% para 10,75% ao ano. Essa é mais uma tentativa do governo de conter a inflação. O mercado espera que, com a nova alta, a autoridade monetária esteja encerrando o ciclo de aperto nos juros iniciado a partir de abril do ano passado, quando a Selic saiu de 7,25%, o patamar mais baixo da história, para 7,50%, e em seguida subiu meio ponto percentual a cada uma das seis reuniões seguintes, além dos 0,25 ponto percentual (p.p.) de ontem, alcançando oito aumentos seguidos. A expectativa agora é de desaceleração no avanço dos juros até o fim do ano com vistas ao crescimento da economia . Hoje, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2013.

Twitter

quarta-feira, fevereiro 26, 2014

Dominique


Opinião

Ela fala pelo Brasil

O Estado de S.Paulo
Até mesmo o lusófono presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, deve ter tido sérias dificuldades para entender os dois discursos da presidente Dilma Rousseff proferidos em Bruxelas a propósito da cúpula União Europeia (UE)-Brasil. Não porque contivessem algum pensamento profundo ou recorressem a termos técnicos, mas, sim, porque estavam repletos de frases inacabadas, períodos incompreensíveis e ideias sem sentido.

Ao falar de improviso para plateias qualificadas, compostas por dirigentes e empresários europeus e brasileiros, Dilma mostrou mais uma vez todo o seu despreparo. Fosse ela uma funcionária de escalão inferior, teria levado um pito de sua chefia por expor o País ao ridículo, mas o estrago seria pequeno; como ela é a presidente, no entanto, o constrangimento é institucional, pois Dilma é a representante de todos os brasileiros - e não apenas daqueles que a bajulam e temem adverti-la sobre sua limitadíssima oratória.

Logo na abertura do discurso na sede do Conselho da União Europeia, Dilma disse que o Brasil tem interesse na pronta recuperação da economia europeia, "haja vista a diversidade e a densidade dos laços comerciais e de investimentos que existem entre os dois países" - reduzindo a UE à categoria de "país".

Em seguida, para defender a Zona Franca de Manaus, contestada pela UE, Dilma caprichou: "A Zona Franca de Manaus, ela está numa região, ela é o centro dela (da Floresta Amazônica) porque é a capital da Amazônia (...). Portanto, ela tem um objetivo, ela evita o desmatamento, que é altamente lucrativo - derrubar árvores plantadas pela natureza é altamente lucrativo (...)". Assim, graças a Dilma, os europeus ficaram sabendo que Manaus é a capital da Amazônia, que a Zona Franca está lá para impedir o desmatamento e que as árvores são "plantadas pela natureza".

Dilma continuou a falar da Amazônia e a cometer desatinos gramaticais e atentados à lógica. "Eu quero destacar que, além de ser a maior floresta tropical do mundo, a Floresta Amazônica, mas, além disso, ali tem o maior volume de água doce do planeta, e também é uma região extremamente atrativa do ponto de vista mineral. Por isso, preservá-la implica, necessariamente, isso que o governo brasileiro gasta ali. O governo brasileiro gasta um recurso bastante significativo ali, seja porque olhamos a importância do que tiramos na Rio+20 de que era possível crescer, incluir, conservar e proteger." É possível imaginar, diante de tal amontoado de palavras desconexas, a aflição dos profissionais responsáveis pela tradução simultânea.

Ao falar da importância da relação do Brasil com a UE, Dilma disse que "nós vemos como estratégica essa relação, até por isso fizemos a parceria estratégica". Em entrevista coletiva no mesmo evento, a presidente declarou que queria abordar os impasses para um acordo do Mercosul com a UE "de uma forma mais filosófica" - e, numa frase que faria Kant chorar, disse: "Eu tenho certeza que nós começamos desde 2000 a buscar essa possibilidade de apresentarmos as propostas e fazermos um acordo comercial".

Depois, em discurso a empresários, Dilma divagou, como se grande pensadora fosse, misturando Monet e Montesquieu - isto é, alhos e bugalhos. "Os homens não são virtuosos, ou seja, nós não podemos exigir da humanidade a virtude, porque ela não é virtuosa, mas alguns homens e algumas mulheres são, e por isso que as instituições têm que ser virtuosas. Se os homens e as mulheres são falhos, as instituições, nós temos que construí-las da melhor maneira possível, transformando... aliás isso é de um outro europeu, Montesquieu. É de um outro europeu muito importante, junto com Monet."

Há muito mais - tanto, que este espaço não comporta. Movida pela arrogância dos que acreditam ter mais a ensinar do que a aprender, Dilma foi a Bruxelas disposta a dar as lições de moral típicas de seu padrinho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Acreditando ser uma estadista congênita, a presidente julgou desnecessário preparar-se melhor para representar de fato os interesses do Brasil e falou como se estivesse diante de estudantes primários - um vexame para o País.

Original aqui

Twitter

U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira, 26 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Sem ônibus, passageiros enfrentam dificuldades para chegar a trabalho"

Quem conseguir chegar teve que apelar para o transporte pirata, ou pedir carona

Passageiros de ônibus de Santa Maria, Gama, São Sebastião e Paranoá enfrentam dificuldades para chegar ao trabalho na manhã desta quarta-feira (26/2). Com paradas lotadas e falta de coletivos, muitos foram obrigados a faltar ao trabalho e voltar para casa. O transtorno é por causa da paralisação de 70% dos rodoviários do Grupo Pioneira, que cruzam os braços desde as 5h de hoje. Eles reclamam da demora na rescisão dos contratos com as empresas Satélite, Planeta e Cidade Brasília, que devem deixar de operar no Distrito Federal.

Estado de Minas

"Carreta carregada com óleo diesel tomba e fecha Anel Rodovário de BH"

Acidente aconteceu quando o veículo descia a rodovia na altura do Bairro Olhos D´Água, região oeste da capital. Segundo a polícia, a pista foi interditada devido ao risco de explosão

Uma carreta carregada com óleo diesel tombou no Anel Rodoviário de Belo Horizonte, na manhã desta quarta-feira, provocando a interdição da via. Após o acidente houve vazamento de combustível e, devido ao risco de explosão, as pistas ficaram fechadas nos dois sentidos. O veículo tombou quando descia a rodovia na altura do Bairro Olhos D’Água, região oeste da capital, na direção Rio de Janeiro/Vitória. Segundo a Polícia Militar Rodoviária (PMRv), não há vítimas.

Twitter

terça-feira, fevereiro 25, 2014

Dominique


Opinião

Depois da avalanche

O Estado de S.Paulo
Foi um desfecho, mas não um epílogo. A destituição do presidente Viktor Yanukovich pelo Parlamento ucraniano, no sábado, depois de sua fuga de Kiev, completou o ciclo de três meses de protestos, repressão e, afinal, insurreição popular. As manifestações começaram em novembro quando, sob pressão do líder russo Vladimir Putin, Yanukovich recuou de um acordo comercial com a União Europeia (UE), potencialmente fecundo para o seu país à beira da bancarrota. Putin ofereceu-lhe em troca uma ajuda de US$ 15 bilhões, sob a forma de compra de títulos ucranianos.

Na semana passada, a escalada de confrontos deixou mais de 80 mortos, entre civis munidos de coquetéis molotov e as tropas mobilizadas para dispersá-los do centro da capital. O morticínio tornou inócua a tardia tentativa de um acordo entre governo e oposição, mediado por diplomatas da UE e da Rússia. Depois de passar a sexta-feira em claro, os negociadores, menos o russo, aprovaram um programa que atendia às demandas originais da Praça da Independência, ponto focal do movimento.

Yanukovich concordou em abreviar seu mandato, com a antecipação das eleições para dezembro. Até lá, o país seria dirigido por uma coalizão que incluiria a oposição parlamentar, reduzidos os poderes presidenciais aos vigentes até 2010. O governo ainda abriria mão do socorro financeiro russo. Mas, quando um dos principais líderes oposicionistas, o boxeador Vitali Klitschko, começou a anunciar o que imaginava ser uma boa notícia foi recebido com vaias. Os fatos haviam adquirido o ímpeto de uma avalanche revolucionária.

Deposto Yanukovich, substituído interinamente pelo recém-eleito presidente do Parlamento, Oleksander Turchinov - que não tardou a instar a Rússia a reconhecer "a escolha europeia da Ucrânia" -, convocadas eleições para maio, formado um governo de transição, libertada a ex-primeira-ministra Yulia Timoshenko, ordenada a prisão do foragido Yanukovich, uma página histórica teria sido virada. Faltou, porém - se é que seria possível - combinar com os russos, os imperdoáveis perdedores, na pessoa de Putin, da reviravolta.

Desde tempos imemoriais, Moscou considera a Ucrânia uma extensão da Pátria-Mãe. Foi ali, nos anos 800, que se estabeleceram os russos, os ancestrais da principal etnia do futuro império. Anexada pela União Soviética, da qual se tornaria independente em 1991, com a derrocada do comunismo, a Ucrânia tem uma face ocidentalizada, em cidades como Kiev e Lviv, e cerca de um terço de sua população ligada pela geografia, a cultura e o idioma à Rússia. Esta, por sua vez, tem em Sevastopol, na Crimeia, a sua maior base naval.

Yanukovich se elegeu graças aos votos que lhe deram em 2011 os eleitores de alma russa do leste e do sul. E Putin não só acaba de assistir, impotente, à sua queda - depois de ter-lhe recomendado que esmagasse o "terrorismo" na capital -, como foi golpeado por uma perversidade do destino. O advento da nova ordem política ucraniana coincidiu com o fim da Olimpíada de Inverno de Sochi, no Mar Negro, compartilhado com a Ucrânia. A um custo declarado superior a US$ 50 bilhões, os Jogos foram concebidos para exibir ao mundo o poderio e a opulência da "nova Rússia" de Putin.

Depois de 48 horas de silêncio, o Kremlin reagiu ontem com uma dura nota que acusa Kiev de atentar contra os direitos da minoria étnica russa, numa referência à decisão do Parlamento de abolir o russo como segundo idioma nacional. Em choque direto com os Estados Unidos, o texto condena a convocação do pleito de maio, exigindo antes mudanças constitucionais sujeitas à consulta popular. Assim como o primeiro-ministro Dmitry Medvedev, que atacou o Ocidente pela "aberração" de legitimar o governo dos "mascarados que percorrem as ruas de Kiev portando fuzis Kalashnikov", a nota culpa a União Europeia por se entregar a "cálculos geopolíticos unilaterais" e de não avaliar devidamente "os atos criminosos dos extremistas, incluindo neonazistas e antissemitas". Não é de crer que o revide de Putin se limite às palavras.

Original aqui

Twitter

U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira, 25 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Agressão covarde dentro do shopping"

Rapaz de 27 anos é internado em UTI após ser espancado por dois jovens no Pier 21.

Testemunhas contam que o professor de educação física Lucas Silva Lopes Xavier se dirigia ao banheiro quando se deparou com dois jovens que urinavam do lado de fora. Constrangido, reclamou da situação. Foi o suficiente para que o transformassem na mais nova vítima de um crime bárbaro que teima em se repetir para vergonha de Brasília. Primeiro, um deles o acertou, traiçoeiramente, com uma garrafa de cerveja na cabeça. Mesmo caído e aparentemente desmaiado, a covardia dos “fortões” prosseguiu, com socos e pontapés. Lucas sofreu traumatismo craniano, quebra de mandíbula, coágulos no cérebro e está internado em estado grave. A polícia prendeu os dois suspeitos da agressão no fim da noite de ontem. Em São Paulo, vândalos que espancaram um torcedor do Santos até a morte estão foragidos.

Estado de Minas

"A caçada continua"

Polícia procura outros membros da quadrilha que aterrorizou o Sul de Minas no fim de semana.

Depois do tiroteio seguido de perseguições em Itamonte e região, que resultaram na morte de 10 pessoas e na prisão de outras seis, uma delas ontem, as polícias civis mineira e paulista trabalham para prender mais uma dezena de integrantes do bando especializado em explosões de caixas eletrônicos. São criminosos que escaparam ao cerco ou não participaram da ação na madrugada de sábado no Sul do estado. Um forte esquema de interceptações telefônicas foi montado para chegar aos comparsas do grupo, investigado havia seis meses, responsável por cerca de 20 ataques a bancos. A polícia de São Paulo confirmou que todos os presos e mortos eram paulistas, exceto o técnico em medicina do trabalho Silmar Júnior Madeira, de Itanhandu (MG), vizinha a Itamonte. E considera praticamente certo que Silmar era refém dos bandidos.

Twitter

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Dominique


Opinião

Violência revolucionária

Denis Lerrer Rosenfield* - O Estado de S.Paulo
A morte de um cinegrafista da Band, atingido no crânio por um rojão disparado por um black bloc, tendo contado com a ajuda de outro membro do mesmo grupo, está suscitando uma série de reações indignadas. Algumas dessas reações têm conteúdo eminentemente político, para não dizer que vertem lágrimas de crocodilo. O apoio velado, para não dizer explícito, agora se traduz pela condenação. Ora, a impunidade com que tal grupo tem agido desde junho já anunciava um desenlace como esse. Era só questão de tempo.

Observemos que não se trata de um assassinato qualquer, como esses que são estampados todos os dias nas notícias impressas e televisivas. Há uma nítida tentativa de alguns responsáveis governamentais e formadores de opinião de desqualificar o componente político desse assassinato, como se fosse uma espécie de acidente que poderia acontecer a qualquer um. Desde junho a violência sob a forma de vandalismo, quebra-quebra e das mais variadas formas de intimidação tomou conta das ruas brasileiras. Mais recentemente esses mesmos grupos procuraram apropriar-se do movimento não violento dos rolezinhos, com o intuito de lhe conferir uma dimensão político-ideológica. Ainda mais recentemente, o MST ameaçou invadir o Supremo e o Palácio do Planalto fazendo uso explícito da violência, 30 pessoas sendo feridas. Transfere para as cidades o que já fazia no campo brasileiro.

Agem todos esses grupos impunemente, apoiados por movimentos sociais organizados e partidos de esquerda e extrema esquerda. Agora, com o assassinato político, todos procuram dissociar-se do ocorrido pela simples razão da condenação e do repúdio observados na opinião pública. Procuram dissociar-se do que até ontem, por assim dizer, apoiavam. Outro fato digno de nota nesse processo é que a qualificação de puro assassinato procura retirar dessa morte a conotação propriamente política, como se não fossem os grupos de extrema esquerda que estivessem por trás - ou à frente - deles. É como se a "esquerda" não tivesse nada que ver com isso.

Imaginem se fosse um grupo de extrema direita o responsável por esse assassinato. Os formadores de opinião "engajados" não cessariam de ressaltar que a direita é culpada de todo o acontecido. Palavras como "fascistas" seriam proferidas e escritas diariamente. Como se trata da "esquerda", procura-se não mais falar disso!

Nas jornadas de junho já havia ficado patente o charme que a violência dos black blocs exercia sobre uma esquerda nostálgica do período áureo do marxismo. É como se se tratasse de um recurso legítimo dos descontentes e revoltados contra o status quo, o "capitalismo", a "burguesia", os "conservadores" e a direita em geral. Tudo estaria justificado em nome da moralidade de um fim maior, que seria uma sociedade sem classes, chamada de socialismo ou comunismo. Quando a violência era mencionada, o objetivo era apenas denominar a ação policial mediante o recurso da força. O jogo ideologicamente encenado era o seguinte: a violência da extrema esquerda seria legítima e moralmente justificada, enquanto o uso da polícia para coibir essa violência seria ilegítimo e imoral. Mesmo máscaras chegaram a ser justificadas. Seria a estética de uma violência glamourizada.

A extrema esquerda, por exemplo, personificada no PSOL, que agora procura dissociar-se do assassinato do cinegrafista da Band, dizia há pouco tempo, na fala de seu secretário-geral: "Em tese, as táticas black bloc dispõem-se a proteger manifestações da sociedade civil contra ações truculentas das forças do Estado". E ainda completou: "Não nos parece que o conceito da tática black bloc seja algo retrógrado ou mesmo indesejável em essência e propósitos originais. É algo progressivo, politicamente moderno, trazido pelas mãos da dialética na História". Eis a "modernidade dialética" do assassinato, travestido de ato revolucionário.

Eis um discurso da Academia, que deveria ser um lugar de inteligência, o que não é, aliás, manifestamente o caso: "Ao chamar a atenção para os bancos, para as grandes marcas e para o Estado brasileiro, o Black Bloc resgata a atenção dos meios de comunicação e a redireciona para o sistema econômico e político que está na gênese da verdadeira violência da nossa sociedade". Eis, enfim, a violência revolucionária apresentada como moralmente legítima. O assassinato faz parte desse percurso!

Há uma mentalidade reinante que tende a justificar qualquer ato violento por razões de ordem pretensamente política, como se fosse válida a concepção marxista da luta de classes. Os conflitos seriam estruturais por seu caráter de classe, de modo que qualquer ação que visasse a destruir o status quo capitalista seria legítima. A violência, nessa perspectiva, seria moralmente justificada. Há o que poderíamos chamar de um marxismo-leninismo difuso que se apresenta sob a forma do politicamente correto.

Segundo essa abordagem, a violência seria somente um meio da classe dominante visando a assegurar a exploração dos trabalhadores, sendo a polícia o seu instrumento. Note-se que, na grande maioria das notícias e análises, o foco esteve centrado na dita violência policial, como se o uso legítimo da força não fosse monopólio do Estado. Intencionalmente, a causa foi confundida com o efeito. O uso policial da força, reativo, foi tido como se fosse a causa. A violência causadora, a dos grupos de extrema esquerda, era tida por moralmente válida, sendo uma ferramenta legítima da luta política.

Uma vez que esses grupos conseguiram impor a sua visão, as forças policiais foram desmobilizadas. Passaram a observadoras das cenas de violência, não intervindo. A impunidade abriu o caminho para que a violência se generalizasse. Não mais contidos, os grupos de extrema esquerda passaram a aumentar o grau de violência. As autoridades públicas, nesse sentido, têm também a sua parcela de responsabilidade.

*Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS. E-mail: denisrosenfield@terra.com.br 

Original aqui

Twitter

U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira, 24 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Manual de uma tragédia"

Junte 11 pessoas para passeio em canoa com capacidade para cinco.
Permita que, no grupo embarcado, 10 não usem o colete salva-vidas.
Coloque na embarcação nove integrantes que não saibam nadar.
Convoque para pilotar o veículo alguém que não tenha habilitação.
Resultado: sete mortos, incluindo quatro crianças, da mesma família.

Esse roteiro de desleixos provocou o afogamento de quatro crianças, uma adolescente e dois adultos no Rio Corumbá, em Luziânia, na tarde de sábado. Os 10 passageiros eram parentes, a maioria morava em Santa Maria e visitava a chácara da matriarca da família. Pedro Henrique, 6 anos, o único com colete, salvou a mãe, Joseane, que não sabia nadar. Piloto e sobreviventes têm versões distintas para as causas. A Polícia Civil de Luziânia começa a apurar o episódio e trabalha com a hipótese de homicídio culposo.

Estado de Minas

"Crime sem fronteiras"

Quadrilhas paulistas fizeram quase 80 ataques a bancos em cidades do Sul de Minas no ano passado.

O cerco feito por uma força-tarefa policial a um bando de ladrões de banco em Itamonte, que amanheceu marcada pelo tiroteio, como a fachada de um hotel, e a morte de nove suspeitos são mais um registro das incursões de criminosos oriundos de São Paulo aos municípios sul-mineiros. Segundo levantamento da Secretaria de Defesa Social (Seds), houve em 2013 pelo menos 53 ataques com uso de explosivos a agências bancárias na região. Mas fontes não oficiais informam que foram quase 80 ações. Investigações apontam que os grupos são ligados a poderosas organizações criminosas do país, com forte ramificação no território paulista. Ontem à tarde, dois bandidos que fugiram ao cerco em Itamonte sequestraram um comerciante na BR-354. No fim da noite, a polícia matou um deles e libertou o refém.

Twitter

domingo, fevereiro 23, 2014

Dominique


Opinião

É tempo de acertar contas com o 'curto 
século 20'

Sergio Fausto* - O Estado de S.Paulo
Em 2014 completam-se cem anos do início da 1.ª Guerra Mundial. O conflito foi um divisor de épocas. Eric Hobsbawm, historiador inglês marxista, assinala-o como marco inaugural do "curto século 20". François Furet, historiador francês liberal, escreve que o mundo até ali existente morreu junto com os 15 milhões de pessoas vitimadas pela maior carnificina humana vista até então.

A 1.ª Guerra pôs fim ao "longo século 19", iniciado com a derrota de Napoleão, a formação da Santa Aliança, o fortalecimento da coalizão entre a burguesia industrial nascente e as aristocracias recicladas dos velhos regimes anteriores à Revolução Francesa. Na esteira da guerra, abriu-se a "Era dos Extremos", como Hobsbawm chamou o "curto século 20", marcado pela novidade histórica do aparecimento de sistemas totalitários, de signo oposto, o comunismo e o fascismo (não por acaso, o historiador inglês identifica no colapso da União Soviética o ato final do século passado).

É inegável que a Revolução Russa é filha da guerra de 1914-1918. Sem a ruína do Exército czarista e as privações provocadas pelo conflito os bolcheviques não teriam tomado o Palácio de Inverno em outubro de 1917. O filósofo e historiador francês Élie Halévy foi profético ao escrever, em meio à guerra: "Desfavorável provavelmente às formas liberais do socialismo, ela fortalece, consideravelmente, o socialismo de Estado".

Também a ascensão do nazi-fascismo é indissociável da devastação que a guerra provocou na Europa e do surgimento da "ameaça comunista", representada pela consolidação da União Soviética e pelo seu prestígio entre a esquerda europeia. Prestígio crescente nos anos 20 e 30, apesar das críticas que logo surgiram, na própria esquerda, à ditadura do partido único implantada por Lenin e levada às suas últimas consequências por Stalin.

No Brasil a guerra deu impulso ao primeiro ensaio espontâneo de industrialização por substituição de importações, devido à virtual interrupção do comércio com a Europa. Mais significativos e prolongados, porém, foram os seus efeitos políticos.

A 1.ª Guerra marcou a ascensão definitiva dos Estados Unidos à posição de maior economia, em condições de se tornar igualmente a maior potência militar do planeta, duplo status que a 2.ª Guerra viria confirmar e reforçar, com a União Soviética no polo oposto. A hegemonia americana no Hemisfério Ocidental, de Norte a Sul, tornou-se incontestável. Por outro lado, ao mesmo tempo as ideologias europeias de contestação frontal ao liberalismo encontraram receptividade no Brasil (e na América Latina). Não ganharam adeptos numerosos como em seus locais de origem (o Partido Comunista Brasileiro - PCB -, fundado em 1922, e a Ação Integralista Brasileira, criada dez anos depois, jamais chegaram a ser partidos de massa). A despeito disso, comunistas e integralistas (a versão nativista do fascismo europeu) passaram a ter presença em grupos sociais influentes: profissionais e intelectuais de classe média urbana, em sua maioria, e operários fabris sindicalizados, em menor grau.

Suas ideias antiliberais encontraram pontos de contato e afinidade com o pensamento nacionalista autoritário dominante nos anos 30. Ambos tinham no "artificialismo da democracia liberal-burguesa" um alvo comum. Por esse caminho o fascismo deixou suas marcas no Estado Novo (1937-1945) e, mais tarde, na ditadura militar (1964-1985). Mais distante do poder, o comunismo não imprimiu marcas institucionais tão claras, mas o DNA autoritário do leninismo continuou a se reproduzir ao longo do século 20 no Brasil, mesmo depois de parcialmente expurgado do seu componente totalitário puro e duro, a partir da segunda metade dos anos 50, quando os crimes de Stalin foram revelados e o stalinismo perdeu vigor. Veio então a revolução cubana a dar-lhe novo alento.

A esquerda brasileira paga até hoje um tributo caro à sua incapacidade de se livrar desse DNA antiliberal. Sobram restos mal digeridos de uma herança histórica que parte significativa da esquerda prefere não enfrentar com transparência e honestidade intelectual. Em lugar de um diálogo aberto sobre as contribuições, conflituosamente complementares, do liberalismo e do socialismo democrático às conquistas civilizatórias da humanidade, grande parte da esquerda prefere refugiar-se na pantomima dos punhos erguidos e no ataque robótico ao "neoliberalismo" - como se o liberalismo econômico fosse um só e o liberalismo político, o seu apêndice - e ao "imperialismo americano", como se ainda vivêssemos sob a guerra fria. Ao mesmo tempo, silencia diante de regimes autoritários "de esquerda" e não hesita em agir para enfraquecer processos e instituições que, pertencendo ao liberalismo político clássico em sua origem, se tornaram, pelas lutas sociais, patrimônio das democracias dignas desse nome em qualquer lugar do mundo.

Justiça seja feita a intelectuais eurocomunistas ligados ao antigo PCB que promoveram o debate sobre o liberalismo e o socialismo na primeira metade dos anos 80, ainda na etapa formativa da nova democracia brasileira. No âmbito do PT, principal partido da esquerda brasileira no pós-64, intelectuais como Francisco Weffort fizeram esforço na mesma direção. O debate, porém, foi posto à margem, substituído pelo empenho na organização da máquina partidária e pelo pragmatismo da luta pelo poder. Tampouco o PSDB colaborou para dar densidade a essa discussão, em que pese a contribuição individual de algumas de suas lideranças.

Se queremos construir um pensamento social e político à altura dos desafios deste século, que mal começa e já coloca novas exigências, precisamos retomar o debate apenas ensaiado sobre o liberalismo e o socialismo, com sensibilidade para as suas manifestações especificamente brasileiras, e acertar as nossas contas com "o curto século 20".

*Sergio Fausto é superintendente executivo do iFHC, colaborador do Latin American Program do Baker Institute of Public Policy da Rice University e é membro do Gacint-USP. E-mail: sfausto40@hotmail.com 

Original aqui

Twitter

U.V.

Manchetes do dia

Domingo, 23 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Odisséias de vida"

No convívio com o câncer
A cura do mal é difícil. Mas a ciência já consegue controlá-lo. A astrônoma Maria Thomé teve vários tumores no abdômen e ainda domina alguns com remédios e, principalmente, espiritualidade: "A doença não é minha, é apenas uma hóspede no meu corpo”, conta.
Na luta contra as drogas
Neusa de Paula é um exemplo típico de quem lida com filhos dependentes químicos. No combate diário, ganha e perde: a filha, por exemplo, está presa na Colmeia. O martírio é tanto que outras mães fazem loucuras: uma já comprou drogas para não ver o filho “sofrer".

Estado de Minas

"A testemunha da história"

Aos 94 anos, o ex-governador de Minas Rondon Pacheco, em entrevista exclusiva ao EM, lembra os momentos tensos dos primeiros anos do governo militar no Brasil

O personagem não poderia ser mais propício à abertura da série de reportagens dominicais do EM sobre a tomada de poder pelos militares, que completa 50 anos em 31 de março, com a derrubada de João Goulart da Presidência da República. Rondon Pacheco (acima), além de governar Minas, ocupou cargos importantes na ditadura e conhece bastidores daquele período. Mesmo não gostando de falar sobre o assunto, mostra lucidez ao comentá-lo: “O ambiente foi de grande apreensão. Lembro-me das tropas mineiras ocupando Brasília (DF) ao lado das forças federais”. E sinceridade ao declarar: “Não vou censurar um governo do qual participei”.

Twitter
 
Free counter and web stats