sábado, fevereiro 22, 2014

Dominique


Opinião

Perdendo o melhor mercado

O Estado de S.Paulo
Confrontado com a perda de participação do Brasil no comércio mundial de produtos de alta tecnologia, soa hoje como ironia o lema "Inovar para competir. Competir para crescer" com que foi amplamente anunciado o Plano Brasil Maior, por meio do qual o governo Dilma Rousseff pretendia, entre 2011 e 2014, reinserir competitivamente a produção industrial brasileira no comércio mundial e assegurar a ampliação de seu mercado dentro do País.

O crescimento da indústria brasileira no ano passado não foi suficiente para compensar a retração registrada em 2012, o setor vem perdendo competitividade e não está conseguindo nem mesmo preservar sua fatia no mercado interno. O problema é ainda mais agudo no segmento dos produtos de alto conteúdo tecnológico. Há anos o Brasil vem ficando para trás na disputa por espaços no mercado mundial de bens de tecnologia de comunicação, como telefones celulares, computadores, notebooks e componentes eletrônicos. Trata-se do mercado que mais cresce no mundo e, com vendas anuais estimadas em US$ 1,8 trilhão, que representa cerca de 11% do comércio total, já é maior do que o de produtos agrícolas.

O Brasil nunca foi grande exportador mundial de bens de comunicação, mas vem perdendo rapidamente a fatia que chegou a alcançar nesse mercado. Em 2005, para exportações totais de US$ 1,4 trilhão, o Brasil exportou US$ 3,7 bilhões, ou 0,26% do total. Já pequena, essa fatia se reduziu para menos de 0,1% em 2012, segundo os dados divulgados pela Organização das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Enquanto as exportações mundiais passaram para US$ 1,8 trilhão, as do Brasil caíram para US$ 1,3 bilhão, pouco mais de um terço do valor exportado sete anos antes.

Entre outros desafios relacionados no Plano Brasil Maior estavam a intensificação do progresso tecnológico da indústria e o enfrentamento da concorrência internacional mais acirrada. Entre o que os autores do plano chamavam de "diretrizes estruturantes" estavam "a ampliação e criação de novas competências tecnológicas e de negócios", para incentivar atividades e empresas com potencial para ingressar em mercados dinâmicos, e "diversificação das exportações (mercados e produtos)".

Muito pouco foi alcançado. Estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) com base nos números da balança comercial mostra que, em 2013, dos quatro tipos de produtos típicos da indústria de transformação classificados por intensidade tecnológica, o Brasil só conseguiu superávit no comércio dos bens de baixa intensidade, como alimentos, bebidas, produtos madeireiros, papel, celulose, têxteis, vestuários e calçados.

O comércio de bens de alta intensidade tecnológica, porém, registrou um déficit de US$ 32,0 bilhões. As exportações desse bens somaram US$ 9,7 bilhões (o critério de classificação do Iedi é bem mais amplo do que o da Unctad, pois inclui, além dos eletroeletrônicos, bens da indústria aeronáutica e produtos farmacêuticos), enquanto as importações alcançaram US$ 41,7 bilhões.

Embora o Brasil tenha uma pauta de exportações bastante diversificada e um mercado igualmente diversificado para seus principais produtos, o que sugere um grande potencial de crescimento, os resultados recentes mostram uma tendência à concentração das vendas externas em um número limitado de bens e para um número limitado de destinos, o que pode limitar a expansão do nosso comércio exterior.

Uma das causas dessa tendência à concentração é o desprezo com que os governos do PT trataram o relacionamento com os principais parceiros, a começar pelos Estados Unidos, e a necessária busca de acordos comerciais com grandes compradores, depois de terem fracassado as negociações para a abertura do comércio mundial. Parceiros considerados prioritários pelo governo, como a Argentina, além de permanentemente ameaçarem as exportações brasileiras, são menos exigentes em termos de inovação e tecnologia do que os países mais desenvolvidos, o que desestimula investimentos industriais.

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U.V.

Manchetes do dia

Sábado, 22 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Ano de Copa, eleições e, acredite, mais impostos"

O brasileiro, que trabalha em média cinco meses só para pagar impostos, pode se preparar para contribuir ainda um pouco mais 

É o que deve acontecer, admitiu ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, caso o país tenha dificuldade em cumprir a meta de superavit primário, de 1,9% do Produto Interno Bruto. Trocando em miúdos: o governo precisa economizar R$ 99 bilhões para o pagamento de juros da dívida e, com isso, evitar possível rebaixamento do Brasil pelas agências de classificação de risco. Entre o vexame econômico em ano de eleições e o avanço no bolso do contribuinte, o Planalto já trabalha com segunda opção. Pelo menos duas propostas para elevar impostos já estão em análise na Casa Civil. E outra má notícia: o Banco Central anunciou que o rombo nas contas externas em janeiro chegou a R$ 11 bilhões, o maior já registrado pelo país desde 1947.

O Globo

"Mandado de prisão de Roberto Jefferson só sairá na segunda-feira, afirma a PF"

Polícia não explicou o motivo, mas continuará à porta da casa do condenado no processo do mensalão. 'Estou igual a um pai aguardando na sala de parto para ter o bebê', comentou ele ao GLOBO no interior do RJ

A Polícia Federal informou, na manhã deste sábado, que o mandado de prisão do ex-deputado Roberto Jefferson só será expedido na próxima segunda-feira mas não explicou o motivo. Apesar disso, os policiais federais continuam na frente da casa do Roberto Jefferson até ele ser preso. Ao contrário do que disse no início da madrugada deste sábado, que se apresentaria na Superintendência da Polícia Federal na Praça Mauá, o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) afirmou ao O GLOBO, na manhã de hoje, que só irá sair de casa com um mandado de prisão. O delator do mensalão revelou ainda que seu médico particular irá a sua residência para preparar um atestado médico para que ele tenha autorização para levar seus vinte medicamentos para a prisão. Jefferson teve um tumor no pâncreas e, por isso, tentou prisão domiciliar, negada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Roberto Jefferson falou com jornalistas que seus advogados estão na sede da Polícia Federal aguardando o mandado de prisão desde 6h da manhã.

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sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Bunitinhu!


Coluna do Celsinho

Biplano

Celso de Almeida Jr.

A paixão pelo voo está presente nas obras de Richard Bach.

A delicadeza e a simplicidade de seus textos atingem corações e mentes arejadas.

Voamos em suas palavras.

Elas têm a magia de nos levar pelo ar, revelando a liberdade dos pilotos sensíveis.

Em Biplano, uma história onde Bach conta a viagem pelos EUA numa antiga aeronave de 1929, o encanto se repete.

Há muitas passagens especiais, como imaginar se o desejo daquele velho biplano era repousar eternamente na segurança de um museu ou, rasgar os céus, correr todos os riscos.

Os desejos do biplano, os nossos desejos...

Homem e máquina sintonizados na busca de emoções, reverenciando a natureza, descobrindo os limites, entrosados, unidos.

Ler Bach dá a sensação de que é possível viajar no tempo.

O biplano de 1929, voando décadas à frente, levaria o piloto ao passado?

O mesmo céu de outros tempos, o sol mágico e deslumbrante, o vento - de todas as épocas - soprando o rosto, trazendo paz.

Voa a vida, prezado leitor, querida leitora.

Saboreá-la, ao que parece, é o rumo indicado por quem sabe viver.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Dominique


Opinião

Os caminhos das águas, sem tantos atropelos

Washington Novaes* - O Estado de S.Paulo
O noticiário da primeira quinzena de fevereiro foi dominado pelas notícias de apagões e suas ameaças, racionamentos e desabastecimentos de água, crises da matriz energética, etc. O racionamento já estava em quase 150 cidades, onde vivem mais de 6 milhões de pessoas. O uso médio de água ficava de 15% a 20% acima da média habitual de 150 litros diários por pessoa. O nível dos reservatórios do Sudeste e do Centro-Oeste, abaixo da média do ano do racionamento, 2001. A questão da matriz energética já foi tratada em artigos anteriores - não é caso de retornar. Melhor tentar ver com que caminhos poderão ser enfrentadas de imediato as ameaças na área do fornecimento de água à população.

É preciso começar pela questão das perdas de água por vazamentos e furos nas nossas redes públicas, que estão próximas de 40% do total que passa pelos condutos (Estado, 20/3/2013) - o que é uma calamidade difícil de compreender, quanto mais de aceitar, no momento em que 7% da população nacional (mais de 15 milhões de pessoas) nem sequer recebe água tratada em casa. E 44% (mais de 80 milhões) não têm suas residências ligadas a redes de esgotos - uma das causas principais da degradação de ambientes urbanos e das águas onde caem esses esgotos, junto com os que, coletados, não são tratados e têm o mesmo destino. Para universalizar as redes de esgotos e de água em todo o País, dizem os diagnósticos, precisaremos de mais de R$ 300 bilhões em 20 anos. Mas estamos aplicando uma ninharia, diante da necessidade. Mesmo sendo possível caminhar com tecnologias muito mais baratas, como a do sistema de coleta de esgotos por ramais condominiais, mais de uma vez comentada neste espaço (hoje atende a 15 milhões de pessoas e levou Brasília a ser uma cidade com praticamente todos os seus esgotos coletados).

Mas é difícil até imaginar que quase 40% da água levada a mais de 180 milhões de brasileiros (uso médio de 150 litros diários por pessoa, repita-se) se perde nas redes, antes de chegar a seu destino (o Japão perde menos 5%). E as causas são vazamentos e furos em redes antigas e/ou sem manutenção. Custaria algumas vezes menos reparar essas redes, mas em geral as administrações optam por obras novas (reservatórios, adutoras, estações de tratamento), mais visíveis, mais rentáveis eleitoralmente e preferidas pelas grandes empreiteiras, as maiores financiadoras das campanhas. A cidade de São Paulo, que, segundo a Sabesp, reduziu suas perdas para 25,6% da água distribuída, baixou seu prejuízo em R$ 275,8 milhões por ano (há números menos favoráveis, publicados na edição de 18/2). Esse deveria ser um dos temas centrais das campanhas eleitorais, pois os eleitores é que pagam. E eles precisam saber que já existem equipamentos eletrônicos que detectam com precisão onde há furos e vazamentos e facilitam e apressam os reparos. Também precisam pressionar para que a rede de financiamentos, principalmente federal, que praticamente não atua nesse segmento das reparações, passe a fazê-lo. Hoje, como os reparos nas redes não são prioritários, é preciso buscar água cada vez mais longe em todos os lugares, a altíssimos custos e tendo de enfrentar a disputa entre municípios.

Da mesma forma, é preciso enfrentar a questão do uso das águas subterrâneas, inclusive no Município de São Paulo. Boa parte do uso é feito sem licença e sem fiscalização - ameaçando os aquíferos. Já há cidades, como Ribeirão Preto - mais de 500 mil habitantes -, que não usam um só litro de água superficial, por causa da poluição. Ou Manaus, cercada por dois dos maiores rios do País - o Negro e o Solimões.

E que se pode dizer de uma megalópole como São Paulo, com tais problemas de abastecimento, ter de conviver com a impossibilidade de usar a água de rios como o Tietê e o Pinheiros, assoreados e poluídos? Na infância, o autor destas linhas chegou a assistir a uma "Travessia de São Paulo a nado no Rio Tietê"; hoje os competidores correriam riscos altíssimos com a poluição.

Como aceitar também o assoreamento impedindo o uso desses rios como via de transporte? Ou o fato de centenas de milhares de pessoas viverem em áreas de preservação, à beira de reservatórios de abastecimento, em casas sem estrutura sanitária? Ou, ainda, que não se cumpra a legislação que obriga, em muitos municípios, a manter, em cada imóvel, principalmente industriais e comerciais, espaços para a infiltração de água de chuva (impedindo inundações) e manutenção de depósitos que permitam o reúso dessa água, como lembra o projetista Jack Sickermann - acentuando a responsabilidade de arquitetos e engenheiros e lembrando que o retorno dos investimentos é cada vez mais rápido, assim como o custo é gradativamente menor?

Da mesma forma, como entender que não se dê prioridade a projetos para a adequação do sistema de drenagem urbana nas cidades, onde, insuficientes e desgastados, contribuem para inundações - em vez de serem integrados em grandes sistemas de reúso da água para fins compatíveis?

Também é preciso dar prioridade à questão do uso de água em pivôs centrais na zona rural, com grande parte deles perdendo (com a aspersão a grandes alturas) boa quantidade do que capta. Essa perda não repõe todo o líquido no subsolo por causa da evaporação e da compactação da superfície do solo. E ainda contribui para levar altos volumes de nitrogênio para os rios e o mar, onde contribuem para a multiplicação de algas.

Enfim, há muitos caminhos a serem trilhados, que podem evitar tanto o desabastecimento como o racionamento, sem ter de recorrer necessariamente a obras caríssimas. E cabe à comunicação debater tudo isso com as comunidades. A estas cabe optar pelos caminhos mais adequados e menos caros que lhes apontem. Não é possível seguir por uma trilha em que as soluções pareçam impossíveis ou somente viáveis a custos estratosféricos. Pode haver custos adequados.

*Washington Novaes é jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br. 

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U.V.

Manchetes do dia

Sexta-feira, 21 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Da loucura que mata..."

Ucrânia, segundo números oficiais, 75 pessoas morreram desde a terça-feira

A trégua anunciada na quarta-feira à noite, durou poucas horas. Mas a oposição fala em pelo menos 100 mortos e 500 feridos somente nos confrontos de ontem, o dia mais violento desde que a Ucrânia se tornou independente do então império soviético, em 1991. Do alto de prédios, franco-atiradores atacaram manifestantes. Há, também, relatos de radicais armados disparando contra a polícia. Os protestos começaram depois que o governo optou por um pacto com a Rússia, em vez de uma aliança com a União Europeia. Em repúdio ao banho de sangue, o prefeito da capital ucraniana deixou o partido do presidente Viktor Yanukovich. E o bloco europeu anunciou sanções ao país.

Estado de Minas

"Caça aos boateiros"

Polícia vai atrás de quem provoca o pânico ao espalhar falsas notícias de crimes pela internet.

O mais recente boato que se irradiou com força e rapidamente pelas redes sociais, no fim da tarde de quarta-feira, foi o de um suposto arrastão de assaltantes a carros presos no trânsito na Avenida Nossa Senhora do Carmo, no trevo do Belvedere, Região Centro-Sul da capital. Ontem, as cúpulas das polícias Militar e Civil se reuniram para investigar o caso e traçar estratégias para evitar que casos assim se repitam. Caberá à delegacia de Crimes Cibernéticos fazer as apurações. Os responsáveis poderão responder por falsa comunicação de crime, com pena de até seis meses de prisão e multa. Apesar de não haver registro do arrastão de quarta-feira, comerciantes da Nossa Senhora do Carmo e motoristas que passam pelo trevo do Belvedere relatam que os assaltos ali são constantes. Ontem a PM reforçou o policiamento no local.

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quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Dominique


Opinião

A adesão estética

Eugênio Bucci* - O Estado de S. Paulo
Sob o risco de repetir o que já foi dito aqui, neste mesmo espaço, há poucos meses, vale recapitular o seguinte:

1) As manifestações endêmicas que vêm eclodindo no Brasil há quase um ano carregam componentes que vão além da política - e que, portanto, não se esgotam nas categorias mais convencionais da ciência política.

2) Elas disparam conflitos que não cabem no conceito de luta de classes, ainda que empregado de maneira flexível e pouco ortodoxa.

3) Elas se caracterizam, indiscutivelmente, por uma linguagem específica. São regidas por um código de expressão que vai do uso de cartazes - feitos sob medida para as câmeras da imprensa - às indumentárias e coreografias padronizadas. Concentram um conjunto de signos que, por sua vez, se ordenam como feixes de sentido que se opõem a outros conjuntos de signos (os signos do poder e os signos da mercadoria). Nas passeatas, enquanto a maioria ergue mensagens de repúdio a políticos e autoridades, outros poucos investem contra agências bancárias, lojas de automóveis ou mesmo contra a tropa de choque. O que temos aí são signos se batendo contra outros signos.

4) Na sua vertente mais violenta, entra em cena o signo black bloc. O figurino tenta espelhar a farda dos policiais, mas com sinais invertidos. Admite coturnos, além de capacetes, mas recusa o que é oficial e flerta com a clandestinidade e a ilegalidade: a máscara para se proteger do gás lacrimogêneo ou simplesmente para esconder o rosto. O black bloc é uma fantasia em ação (e o termo fantasia, aqui, tem mais de um sentido, ou mais de dois).

5) O repertório sígnico mobilizado nas manifestações de hoje descende de uma história de protestos que alcançaram grande visibilidade na Europa e nos Estados Unidos a partir dos anos 1960. Das marchas de 68 em Paris e dos comícios contra a Guerra do Vietnã em Washington, essa história prosseguiu com os levantes antiglobalização nas principais capitais do mundo desenvolvido nos anos 80 e 90 até chegar à atualidade, com a Primavera Árabe e as ocupações de praças espanholas e até de Wall Street, em Nova York. Os protestos de hoje afloram como espetáculo. Eles falam a língua visual do espetáculo e essa língua já é bem conhecida dos telespectadores de todo o planeta.

6) Portanto, além de eventos políticos, as manifestações que obstruem logradouros e vias públicas para ferir o nervo do poder ganham lugar na arena da cultura, disputando espaço, aí, com outros fatos, outras notícias, outras formas de aglomeração de multidões (de concertos de rock a campeonatos de futebol). Elas são eventos políticos que se revestem também de um caráter estético.

7) E aqui vem o ponto problemático: a adesão da juventude a essas jornadas turbulentas se dá tanto pela face política quanto pela face estética dos movimentos em curso.

A grande maioria dos analistas e dos comentadores tem recusado veementemente a hipótese de existência dessa segunda face dos protestos (a face estética). Essa recusa os leva a uma incompreensão parcial do que se passa. Com isso perdemos todos. Se a sociedade e o Estado não se derem conta de que a onda de gritaria e de tumulto que se avoluma não é meramente uma avalanche de cunho reivindicatório, mas também uma erupção de caráter cultural, não haverá superação possível.

Esse sapo aí não pula apenas por precisão - ele pula também por boniteza. Não é por necessidade extrema que milhares de novos atores vêm engrossando os protestos no Brasil. Não é porque passam fome. É também por desejo - atenção a essa palavra, que já está nas ruas há um bom tempo, mas não é vista nem ouvida. É por desejo de afirmar uma identidade oposta à identidade dos que governam. Desejo de existir, de ser visto, de fazer diferença. O que move as passeatas sígnicas não é a miséria, não é o trabalho insalubre em minas de carvão; é antes o impulso de tomar parte numa cena que seja capaz de roubar a cena da velha política.

O ato de levantar-se não brota de um cálculo cerebrino ou de uma negociação programática, mas de uma aspiração de sair da caixa, de sair da passividade, de não deixar barato. O despertar não é mais ético do que estético. Segue uma demanda da sensibilidade e da emoção (não apenas da razão). Rejeita a feiura generalizada e vislumbra outra beleza possível - ainda que as manifestações de rua, em si, descambem desgraçadamente para o abominável.

Em tempo: dizer que há uma face estética nas jornadas e no engajamento que elas suscitam não significa autorizar ou glamourizar a selvageria black bloc, assim como não significa dizer que as passeatas sejam elas mesmas obras de arte. Por favor. Significa apenas reconhecer que há muita gente que, diante da pequenez das engabelações oficiais, busca um sentido maior para sua existência. Com esse sentimento vai às ruas e confraterniza (pelo sensível) com outros manifestantes. Isso é, também, um movimento estético, embora não seja arte.

A propósito, ou mesmo sem querer, Michel Foucault falou de uma "estética da existência", mas não nos percamos por aí. Basta saber que na existência de uns e outros mora inevitavelmente algo que tem parte com a estética. Basta lembrar que as leis da estética explicam parte da retórica política e, principalmente, as paixões políticas. Isso vale tanto para o bem como para o mal. O nazismo estetizou o Estado e assim conseguiu a obediência reverencial dos cidadãos que se perfilavam diante de Hitler como se fossem soldados imantados. Hoje os marqueteiros estetizam os candidatos para torná-los parecidos não com obras primas, mas com sabonetes que não limpam nem fazem espuma. E conseguem milhões de votos.

Identificar o componente estético nas manifestações que hoje inspiram mais repulsa do que fascínio, enfim, não tem nada que ver com idolatrá-las ou estimulá-las. Isso é apenas necessário para que possamos entendê-las - a elas e à sociedade que as gerou.

*Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP e ESPM.

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U.V.

Manchetes do dia

Quinta-feira, 20 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Azeredo renuncia ao mandato na Câmara"

Em carta, deputado rechaça denúncias de peculato e lavagem de dinheiro

As acusações remontam à campanha pela reeleição ao governo de Minas em 1998. Azeredo diz que deixa o cargo para preservar o PSDB e eleitores. STF decidirá se processo contra ele vai ou não para a justiça de primeira instância.

Estado de Minas

"Azeredo renuncia"

Ex-governador abre mão do mandato de deputado federal e ação a que responde no Supremo deve voltar à 1ª instância.

Eduardo Azeredo (PSDB) renunciou por meio de carta entregue à direção da Câmara em que classifica de “injustas” e “desumanas” as acusações da Procuradoria-Geral da República contra ele encaminhadas ao Supremo. Azeredo é acusado de peculato e lavagem de dinheiro na campanha de reeleição ao governo de Minas, em 1998. A pena pedida é de 22 anos. Com a renúncia, ele perde o foro privilegiado, que garante a parlamentares federais serem julgados diretamente pelo STF. Caberá ao relator da ação, ministro Roberto Barroso, decidir, ou submeter ao plenário, se o processo volta à primeira instância, na Justiça de BH. É o que defendem juristas como o ex-ministro do Supremo Carlos Velloso. Se for mantido, só caberiam recursos à própria Suprema Corte e o julgamento poderia ser concluído este ano. Se voltar à primeira instância, uma série de apelações poderiam adiar o desfecho da ação em até oito anos.

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quarta-feira, fevereiro 19, 2014

Dominique


Opinião

Golpe à brasileira

Marco Antonio Villa* - O Estado de S.Paulo
Às vésperas dos 50 anos do golpe militar torna-se necessário um resgate da História para entendermos o presente. Em 1964 o Brasil era um país politicamente repartido. Dividido e paralisado. Crise econômica, greves, ameaça de golpe militar, marasmo administrativo. O clima de radicalização era agravado por velhos adversários da democracia. A direita brasileira tinha uma relação de incompatibilidade com as urnas. Não conseguia conviver com uma democracia de massas num momento de profundas transformações. Temerosa do novo, buscava um antigo recurso: arrastar as Forças Armadas para o centro da luta política, dentro da velha tradição inaugurada pela República, que já havia nascido com um golpe de Estado.

A esquerda comunista não ficava atrás. Sempre estivera nas vizinhanças dos quartéis, como em 1935, quando tentou depor Getúlio Vargas por meio de uma quartelada. Depois de 1945, buscou incessantemente o apoio dos militares, alcunhando alguns de "generais e almirantes do povo". Ser "do povo" era comungar com a política do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e estar pronto para atender ao chamado do partido numa eventual aventura golpista. As células clandestinas do PCB nas Forças Armadas eram apresentadas como uma demonstração de força política.

À esquerda do PCB havia os adeptos da guerrilha. O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) era um deles. Queria iniciar a luta armada e enviou, em março de 1964, o primeiro grupo de guerrilheiros para treinar na Academia Militar de Pequim. As Ligas Camponesas, que desejavam a reforma agrária "na lei ou na marra", organizaram campos de treinamento no País em 1962 - com militantes presos foram encontrados documentos que vinculavam a guerrilha a Cuba. Já os adeptos de Leonel Brizola julgavam que tinham ampla base militar entre soldados, marinheiros, cabos e sargentos.

Assim, numa conjuntura radicalizada, esperava-se do presidente um ponto de equilíbrio político. Ledo engano. João Goulart articulava sua permanência na Presidência e necessitava emendar a Constituição. Sinalizava que tinha apoio nos quartéis para, se necessário, impor pela força a reeleição (que era proibida). Organizou um "dispositivo militar" que "cortaria a cabeça" da direita. Insistia em que não podia governar com um Congresso Nacional conservador, apesar de o seu partido, o PTB, ter a maior bancada na Câmara dos Deputados após o retorno do presidencialismo e não ter encaminhado à Casa os projetos de lei para tornar viáveis as reformas de base.

Veio 1964. E de novo foram construídas interpretações para uso político, mas distantes da História. A associação do regime militar brasileiro com as ditaduras do Cone Sul (Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai) foi a principal delas. Nada mais falso. O autoritarismo aqui faz parte de uma tradição antidemocrática solidamente enraizada e que nasceu com o Positivismo, no final do Império. O desprezo pela democracia rondou o nosso país durante cem anos de República. Tanto os setores conservadores como os chamados progressistas transformaram a democracia num obstáculo à solução dos graves problemas nacionais, especialmente nos momentos de crise política. Como se a ampla discussão dos problemas fosse um entrave à ação.

O regime militar brasileiro não foi uma ditadura de 21 anos. Não é possível chamar de ditadura o período 1964-1968 - até o Ato Institucional n.º 5 (AI-5) -, com toda a movimentação político-cultural que havia no País. Muito menos os anos 1979-1985, com a aprovação da Lei de Anistia e as eleições diretas para os governos estaduais em 1982. Que ditadura no mundo foi assim?

Nos últimos anos se consolidou a versão de que os militantes da luta armada combateram a ditadura em defesa da liberdade. E que os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heroicas ações. Num país sem memória, é muito fácil reescrever a História.

A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, sequestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. Argumenta-se que não havia outro meio de resistir à ditadura a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos desses grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados pouco depois, quando ainda havia espaço democrático. Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político, e a simpatia pelo foquismo guevarista antecederam o AI-5, quando, de fato, houve o fechamento do regime. O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou sendo usado pela extrema direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva.

A luta pela democracia foi travada politicamente pelos movimentos populares, pela defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve em setores da Igreja Católica importantes aliados, assim como entre os intelectuais, que protestavam contra a censura. E o MDB, este nada fez? E os seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?

Os militantes da luta armada construíram um discurso eficaz. Quem os questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desqualificação dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado. Temos de refutar as versões falaciosas. Romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos adversários da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o antagonista em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.

*Marco Antonio Villa é historiador, autor do livro 'Ditadura à Brasileira' (Ed. Leya).

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U.V.

Manchetes do dia

Quarta-feira, 19 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Maduro prende, arrebenta e recebe apoio brasileiro"

Acusado de terrorismo por liderar protestos, oposicionista se entrega à polícia na Venezuela

Na mão direita, a bandeira do país. Na outra, uma flor. Foi assim que Leopoldo López (E) passou ontem de líder oposicionista a preso político. Apesar da forte repressão do governo, milhares de pessoas saíram às ruas de Caracas para defendê-lo. “Não se entregue! Não se entregue", gritavam. “Se minha prisão permitir à Venezuela despertar definitivamente, (...) ela valerá a pena”, disse López ao ser detido. Pelo menos três pessoas já morreram nas manifestações. O Mercosul, integrado pelo Brasil, declarou apoio ao governo do presidente Nicolás Maduro.

Estado de Minas

"Supersalários: O retorno"

Ministro Marco Aurélio, do STF, libera ganho acima de R$ 29,4 mil no Congresso

Liminar expedida pelo ministro determina que a Câmara dos Deputados e o Senado voltem a pagar as remunerações que ultrapassam o teto constitucional do funcionalismo, atualmente de R$ 29,4 mil, a cerca de 1,9 mil servidores, que tiveram a regalia suspensa em outubro por ordem do Tribunal de Contas da União (TCU). Marco Aurélio acatou o argumento de que os funcionários não foram ouvidos. O mérito do mandado de segurança que garantiu provisoriamente a volta dos vencimentos acima do teto no Legislativo ainda será julgado pelo pleno do Supremo Tribunal Federal. A economia com o corte nos supersalários é estimada em R$ 87 milhões por ano.

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terça-feira, fevereiro 18, 2014

Dominique


Opinião

Verdades que não podem ser definitivas

Paulo Roberto de Almeida* - O Estado de S.Paulo
Algumas "teses" passam por verdades. Como não estou de acordo com algumas delas, permito-me fazer correções a essas "verdades inquestionáveis".

1) Este é o pior Congresso de todos tempos. Não, não é: este é apenas um Congresso "normal", que reflete as realidades políticas brasileiras, e os "tempos" ainda não acabaram. Teremos Congressos ainda piores do que este, pela simples razão de que o Brasil se encontra em plena construção de sua "democracia de massas". Inevitável, assim, que as antigas representações elitistas sejam podadas em favor de novos representantes das classes populares e de setores organizados: sindicatos, igrejas, movimentos sociais, grupos de interesse setorial, etc. O sistema político é uma importante modalidade de ascensão social, atraindo arrivistas e oportunistas que têm no Congresso um excelente vetor de "negócios" de todo gênero.

2) A carga tributária brasileira já bateu no teto, impossível subir mais. Outro ledo engano. Não há limite teórico para a carga tributária, embora possa haver limites práticos, dada a conhecida relação entre taxação e receitas. Quem disse que a carga tributária não pode aumentar mais não conhece a sanha arrecadatória da nossa máquina fiscal, uma das mais eficientes do mundo. As despesas contratadas pelo Estado têm de ser financiadas de alguma forma e o governo vem criando novas fontes de gastos por meio dos programas sociais. Ou seja, continuaremos pagando cada vez mais para o Estado cobrir essas "obrigações", que, diga-se de passagem, são demandadas pela própria sociedade. O povo brasileiro adora o Estado, implora que o Estado venha em seu socorro com programinhas sociais ou com alguma nova prestação especial.

3) A corrupção atingiu limites nunca vistos, não é mais possível continuar assim. Difícil saber, pois não dispomos de um "corruptômetro" para medir avanços e recuos da corrupção. Quantos "por cento" do produto interno bruto (PIB) são intermediados de maneira heterodoxa? Difícil saber, não é mesmo? Não temos base de comparação, histórica ou atual. O certo é que a corrupção tende a aumentar quando fluxos de receitas e de pagamentos transitam pelos canais oficiais, uma vez que transações puramente privadas são vigiadas pelas partes, cada uma cuidando do seu rico dinheirinho. O dinheiro da "viúva" é um pouco de todo mundo: existem milhares de programas "essenciais" para o bem-estar público, objeto de planejamento, discussão congressual, alocação, empenho, licitação, leilão, concorrência, doação, etc. É evidente que num sistema assim alguns dos muitos intermediadores encontrarão alguma maneira de desviar o dinheiro "público" para seu próprio usufruto. Quanto maior proporção do PIB brasileiro passar pelos canais públicos, maiores serão as oportunidades de corrupção. A corrupção só diminuirá quando menores volumes de recursos passarem pelos canais oficiais. Elementar, não é mesmo?

4) A qualidade da educação já atingiu patamares mínimos, tem de melhorar. Os otimistas incuráveis acham que a escola pública já piorou o que tinha de piorar e que daqui para a frente o movimento será no sentido de sua melhoria. Eu acho que ainda não atingimos o fundo do poço, independentemente do volume de recursos que se jogue no sistema atual. Existe uma incultura generalizada na sociedade, detectável nos canais públicos de televisão e nas universidades de modo geral, sem mencionar as "saúvas freireanas" do Ministério da Educação (MEC). Resultado paralelo de nossa "democracia de massas" e de um descaso generalizado com a escola pública, mais e mais pessoas ignorantes ascendem a posições de mando, com o que continuam contribuindo para a deterioração ainda maior do ensino, público ou privado. Uma ignorância enciclopédica atinge os mais variados campos do saber humano; como não existe muita autocrítica, ela continua impunemente produzindo efeitos deletérios sobre o nosso sistema de ensino. Acreditem, não há nenhum risco de melhoria da educação brasileira no futuro previsível.

5) O Brasil está condenado a ser grande e importante, é o país do futuro. Essas tiradas patrioteiras nunca me comoveram, pela simples razão de que tamanho não é documento. A China sempre foi enorme, gigantesca, e decaiu continuamente durante três ou mais séculos, antes de começar a reerguer-se, penosamente, nas duas últimas décadas do século 20. Ela está longe, ainda, de ser um exemplo de prosperidade para o seu povo, mesmo que possa já ser uma potência militar e venha a ser, brevemente, uma potência tecnológica, também. A Rússia sempre foi um gigante de pés de barro, seja no antigo regime czarista, seja durante os anos de socialismo senil, até se esboroar na decadência política e no capitalismo mafioso, do qual o país ainda não se recuperou.

O Brasil sempre foi grande, e pobre, não absolutamente, mas educacionalmente paupérrimo, miserabilíssimo no plano cultural. Somos hoje um país totalmente industrializado - repito, totalmente - e uma potência no agronegócio, mas não deixamos de ser pobres, educacionalmente falando. Ainda estamos no século 18 em matéria de ensino, quando não de cultura. Bem sei que dispomos, atualmente, de um sistema de produção científica que se situa entre os 20 melhores do mundo, mas isso "atinge", se tanto, uma mínima parcela da população, uma superestrutura extremamente fina em termos sociais. O que vale, em última instância, não é poder econômico absoluto, mas o poder relativo e, sobretudo, bem-estar e prosperidade para a população, qualidade de vida, e nisso estamos muito aquém do desejável. O Brasil continuará sendo um gigante de pés de barro enquanto não resolver problemas básicos no interior de suas fronteiras. Para mim, ele continua pequeno...

*Paulo Roberto de Almeida é diplomata e professor universitário (http://diplomatizzando.blogspot.com.br/).

Original aqui

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U.V.

Manchetes do dia

Terça-feira, 18 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Barbárie e preconceito"

O Distrito Federai registrou, em menos de 24 horas, três casos brutais de violência

Em Sobradinho 2, um lavador de carros de 19 anos morreu espancado com barra de ferro por dois homens. No Eixão Sul, dois rapazes foram agredidos por pelo menos 15 pessoas. A intolerância racial também deixou sua marca: em Santa Maria, uma cobradora de ônibus vítima de racismo foi à delegacia denunciar a agressora, mas o policial de plantão se recusou a fazer a ocorrência.

"Só sei o que aconteceu pelo vídeo"

Yan Filipe Lopes Xavier, 18 anos, fez prova de vestibular para direito. Depois, por volta das 18h, foi brincar num bloco de carnaval no Eixão, na altura da 105 Sul. Ao sair para urinar, ele e um amigo teriam sido confundidos com ladrões de carro e foram atacados. O colega apanhou, mas conseguiu fugir. Yan desmaiou após soco na nuca. Quando acordou, com o rosto ensanguentado, estava numa maca no Hospital de Base. Só soube o que havia acontecido porque uma filmagem da agressão foi parar na internet.

"Ainda estou em choque"

Alvo de xingamentos racistas no local onde trabalha, na sexta-feira, a manicure Tássia dos Anjos se revolta ao saber que a mulher que a atacou está livre. “Ela tem de pagar pelo que fez", pede a jovem de 22 anos.

A agressora, servidora da CEB, é investigada por ter cometido o mesmo crime na empresa.

“Eu fiz a minha parte"

A cobradora de ônibus Claudinei Gomes, 33 anos, foi xingada de ‘‘preta safada” e “negra ordinária’’ por uma passageira. Tirou folga no trabalho para prestar queixa. Na delegacia, sofreu nova agressão. Desta vez, do Estado: o policial, contou ela, disse não ter “tempo para perder com isso”.

Estado de Minas

"Reação à violência"

Governo do estado anuncia reforço de policiamento nas ruas com mais 1,2 mil PMs e criação de uma delegacia virtual, destinada a ocorrências mais simples, para desafogar a Polícia Civil

As medidas foram divulgadas pelo governador Antonio Anastasia. Dos 1,2 mil PMs, 800 serão transferidos de setores administrativos e destinados a dois novos batalhões. Outros 400 virão da tropa de alunos, que terão aulas práticas em atividades reais. Num segundo momento, mais 400 militares da administração poderão ir para as ruas. O objetivo é reduzir os crimes e aumentar a sensação de segurança da população.
No âmbito da Polícia Civil, a delegacia virtual absorverá os registros menos graves, como extravio de documentos, que representam 24% do total. Além disso, o Departamento de Crimes contra o Patrimônio (Depatri), com 315 policiais especializados em furtos, roubos e sequestros, que hoje só atua em crimes que envolvam mais de 120 salários mínimos (R$ 86,8 mil), terá o piso reduzido para 20 mínimos (R$ 14,4 mil). 

Desafio maior 

Aumenta o envolvimento de menores em crimes no estado, sobretudo contra o patrimônio.
A participação de adolescentes em roubos cresceu 13,8% entre 2011 e 2013. Em números absolutos, enquanto em 2011 os autores de roubos com menos de 18 anos foram 1.839, em 2013 esse contingente saltou para 2.981, uma alta de 62%. Também aumentou a presença dos jovens no total de ocorrências policiais.
Das 580,3 mil pessoas detidas pela polícia no ano passado, 70,5 mil não tinham chegado à idade adulta, correspondentes a 12,1%. O percentual, considerado alto por especialistas, superou os 11% registrados em 2012. As estatísticas alimentam as discussões sobre a redução da maioridade penal, já em tramitação no Congresso.

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segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Dominique


Opinião

Crônica de uma morte anunciada

José Goldemberg* - O Estado de S.Paulo
O que está acontecendo com o sistema que produz eletricidade no Brasil lembra bem o maravilhoso romance de Gabriel García Márquez que conta a história de um assassinato premeditado. Acusado por Angela Vicario de tê-la desonrado, o jovem Santiago Nasar é morto a facadas pelos irmãos dela. Toda a localidade fica sabendo com antecedência da vingança premeditada, mas nada salva Santiago do seu trágico destino, anunciado logo na primeira linha do romance.

Mais de 80% da energia elétrica gerada no Brasil se origina em usinas hidrelétricas, nas quais a força das águas movimenta as máquinas que produzem a eletricidade. Elas dependem, portanto, de chuvas regulares e de reservatórios que acumulem a água para ser usada nos meses (ou anos) em que chove menos.

Reservatórios, às vezes, inundam terras férteis ou áreas cobertas com florestas. É preciso que as empresas que constroem as hidrelétricas reassentem a população afetada - alguns milhares de pessoas em geral - e reduzam ao mínimo os impactos ambientais decorrentes da formação dos reservatórios. Há muitos casos em que isso foi feito com sucesso, como em Itaipu. Em outros, como Balbina, os cuidados devidos não foram tomados em tempo.

Sucede que desde 1985, nas usinas hidrelétricas construídas no País, os reservatórios de água foram negligenciados, tornando-se cada vez menores. A razão para tal foi a falta de visão e coragem de sucessivos governos para enfrentar os problemas tanto sociais como ambientais, que não eram considerados prioritários.

Os inconvenientes decorrentes da formação de reservatórios são, de modo geral, compensados pelas vantagens de dispor de eletricidade a milhares de quilômetros de distância do local onde as usinas hidrelétricas estão localizadas, atendendo às necessidades de milhões de habitantes nas grandes cidades.

Há aqui a necessidade de comparar custos e benefícios e como tratar os problemas dos que são prejudicados com as vantagens dos que são beneficiados. Essa é a função do poder público.

A gravidade do problema de negligenciar a formação de reservatórios ficou evidente em 2001, quando chuvas mais fracas quase levaram ao racionamento de energia elétrica, fato amplamente explorado nas eleições de 2002, que levaram o então candidato a presidente Lula e o PT ao poder. Daí a analogia com o romance de Gabriel García Márquez: o mesmo problema poderia voltar a ocorrer - como se fosse uma morte anunciada - se não fossem tomadas medidas adequadas. Os ministros de Energia de Fernando Henrique Cardoso poderiam alegar ignorância, mas não os de Lula e Dilma Rousseff.

No governo Lula o problema dos reservatórios não foi enfrentado - como, de modo geral, todos os problemas de infraestrutura do País - e a solução adotada a partir de 2001 foi gerar eletricidade com gás natural para complementar a geração das usinas hidrelétricas em períodos secos. Essa é uma solução transitória e muito cara, como sabem muito bem os técnicos do setor, por causa do elevadíssimo custo do gás natural no Brasil, razão pela qual usinas a gás podem ser usadas emergencialmente, mas não o tempo todo.

Para piorar a situação, o atual governo tomou em 2012 uma medida claramente demagógica, por meio da Medida Provisória (MP) 579: a de reduzir o custo da contra de luz em 20%. Essa medida foi apresentada como uma espécie de "bolsa eletricidade" para ajudar os mais pobres, mas beneficiou também amplamente os grandes consumidores de energia elétrica no setor eletrointensivo da indústria.

Nesse processo as empresas geradoras de eletricidade - na maioria estatais, uma vez que a privatização promovida pelo governo Fernando Henrique se restringiu basicamente às distribuidoras - foram levadas quase à bancarrota e perderam a capacidade de fazer novos investimentos. Além disso, a confiança dos possíveis novos investidores foi seriamente abalada pelas mudanças regulatórias intempestivas.

O resultado não poderia ser outro, como foi o assassinato de Santiago Nasar amplamente anunciado com antecedência. Bastou chover menos em 2014 para vivermos sob ameaça de racionamento, que exigiu o acionamento de todas as usinas geradoras a gás natural, o que elevou o custo da eletricidade a cerca de quatro vezes o seu custo usual. Até o ano passado o Tesouro pagou a diferença, isto é, todos os brasileiros - mesmo os que não consomem eletricidade - pagaram por ela. Os custos já são de dezenas de bilhões de reais e se não houver novo socorro do governo às distribuidoras as contas de luz poderão subir 20% em 2014, anulando os efeitos da MP 579.

É cedo ainda para dizer se chegaremos a um racionamento de energia elétrica. Mas é evidente que a situação atual não pode continuar.

Há muitos anos se costumavam chamar as ações das empresas de eletricidade do País de "ações das viúvas". Isso porque, apesar de renderem pouco, eram seguras, dando às "viúvas" a estabilidade financeira de que necessitavam. Essa confiabilidade foi destruída com as medidas atabalhoadas tomadas pelo governo em 2012, ao reduzir as tarifas em troca da antecipação da renovação das concessões.

Não são manobras eleitoreiras de curto prazo que vão resolver o problema. A atuação do Ministério de Minas e Energia precisa de uma reavaliação: é necessário um planejamento de longo prazo que devolva segurança aos investidores.

Se não houver racionamento de eletricidade em 2014, haverá ainda algum tempo para a tomada de decisões estruturais corajosas a fim de reorganizar o setor elétrico. Com isso se poderia adiar a "morte anunciada" que é o racionamento, o qual acabará por desorganizar ainda mais o já desorganizado setor de energia do País.

*José Goldemberg é professor emérito da Universidade de São Paulo e foi presidente da Companhia Energética de São Paulo (CESP). 

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U.V.

Manchetes do dia

Segunda-feira, 17 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"O racismo envergonha Brasília: 11 casos ao mês"

Dois episódios de preconceito racial acontecidos na sexta-feira passada na capital são apenas a superfície visível de uma grave ferida brasileira, a discriminação de seres humanos pela cor da pele 

Em menos de um ano, o serviço de denúncias por telefone recebeu 8 mil ligações, das quais 126 foram classificadas como racismo, uma média de 11 casos por mês, sem contar os registros de injúria. Menos de 24 horas depois de ter sido presa por insultos racistas a funcionárias de um salão de beleza na Asa Sul, a australiana Louise Stephanie saiu da cadeia por decisão da Justiça. Já a autora das agressões contra a cobradora Claudinei Gomes, xingada de “negra ordinária e preta safada" dentro de um ônibus, ainda não foi identificada.

Estado de Minas

"Procuram-se alunos"

Nove universidades federais de Minas ainda têm 5.029 vagas em aberto para este semestre

Um mês depois da primeira chamada, cerca de um terço das 15.710 cadeiras oferecidas pelas instituições no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que tem por base as notas do Enem, ainda não foram ocupadas. A UFMG é a que tem a maior lista de espera: 35,6 mil candidatos às 947 vagas restantes, correspondentes a 26,8% do total.
A Universidade Federal de Viçosa (UFV) tem o segundo maior número de lugares ainda disponíveis, 910, e a expectativa é de que sejam feitas até 10 chamadas, a última programada para 18 de março. Já a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde restam 304 vagas, fará convocações até 2 de abril.

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domingo, fevereiro 16, 2014

Dominique


Opinião

A Aliança do Pacífico avança

O Estado de S.Paulo
A Aliança do Pacífico, bloco formado por México, Colômbia, Peru e Chile, reduziu a zero as tarifas de mais de 90% dos produtos comercializados entre seus membros. Os demais produtos, todos do setor agrícola e considerados sensíveis, serão zerados em até 17 anos. Está liberada também a circulação de capitais e serviços, com integração inclusive de mercados financeiros. Considerando-se que essa aliança existe formalmente há menos de dois anos, os progressos são impressionantes - ainda mais se comparados à letargia do Mercosul, cujos projetos de integração se arrastam há mais de duas décadas.

Em poucas palavras, a diferença entre um e outro está na visão de mundo: enquanto os países do Pacífico apostam no livre mercado, os parceiros do Mercosul dão cada vez mais ênfase ao estatismo - uma doença que empobrece países importantes, como Argentina e Venezuela - e à ideologia, que, em nome de um suposto resgate dos pobres e dos oprimidos, repele investidores, criminaliza o lucro e condena a região ao atraso crônico.

A intenção da Aliança do Pacífico não é modesta: pretende ser o principal polo de atração de investimentos na América Latina e quer ser a ponte para uma eventual integração com a Ásia - China, Coreia do Sul e Japão já são observadores do bloco. A aliança reúne hoje 212 milhões de habitantes, e seu Produto Interno Bruto (PIB) somado representa 36% do PIB latino-americano. Vários países da América Central, como Costa Rica e Panamá, já manifestaram interesse em aderir, para não perder a chance de integrar um projeto que tem sido visto no resto do mundo como a mais importante iniciativa de comércio internacional no continente.

O acordo recém-assinado serve também para resolver o desequilíbrio causado pelos vários tratados de livre-comércio firmados individualmente pelos países do bloco com os Estados Unidos e a União Europeia. Graças a esses tratados, diversos produtos comercializados no interior da Aliança do Pacífico eram menos competitivos do que os artigos americanos e europeus. Agora, com quase todas as tarifas eliminadas, a competição tende a se restabelecer.

Para os signatários do acordo, trata-se de mais uma prova de que a aliança está fundada em políticas que visam a flexibilizar cada vez mais as relações comerciais, que preservam a previsibilidade da política econômica, que reduzem a burocracia e que, principalmente, respeitam os contratos em vigor. Em 2012, quando recebeu a visita de empresários e políticos espanhóis interessados em investir na Colômbia, o presidente Juan Manuel Santos lhes disse: "Aqui não expropriamos" - poucos dias antes, o governo da Argentina havia tomado da petrolífera espanhola Repsol sua participação na YPF.

O Mercosul, por sua vez, está cada vez mais atado ao bolivarianismo, que hostiliza os investimentos estrangeiros, ergue barreiras comerciais e reluta em relacionar-se com os europeus e, principalmente, com os americanos. A presença da Venezuela na presidência do bloco diz tudo sobre a prevalência da fantasia sobre a razão no Mercosul.

Como resultado, seus membros aparecem entre os últimos colocados no ranking do Banco Mundial que analisa o ambiente de negócios na América Latina. O Uruguai é o 12.º entre os 33 países analisados, seguido do Brasil (23.º), da Argentina (26.º) e da Venezuela - a lanterninha. Os da Aliança do Pacífico ocupam quatro das cinco primeiras posições.

Mas nem tudo é contraste entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul. Um dos objetivos dos fundadores da Aliança é "promover o crescimento econômico, o desenvolvimento e a competitividade das economias dos países-membros, buscando atingir maior bem-estar, superando a desigualdade socioeconômica e promovendo uma maior inclusão social de seus habitantes". Meta idêntica à do Mercosul, como não se cansam de afirmar seus líderes populistas. No entanto, não será necessário muito tempo para constatar que o modelo da Aliança, baseado no livre-comércio e não no atraso ideológico, é o único capaz de cumprir o que promete.

Original aqui

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U.V.

Manchetes do dia

Domingo, 16 / 02 / 2014

Correio Braziliense
"Um país em busca do sorriso perdido"

Chega de desdentados, Brasil diz não à banguela

O Brasil é o segundo mercado mundial de implantes dentários, perdendo apenas para os Estados Unidos. Em 2013, os brasileiros fizeram 2 milhões de procedimentos. Apesar da procura, não se pode dizer que a saúde bucal é uma prioridade: 85% da população não vai ao dentista regularmente.

Estado de Minas

"A Farra Da Verba Indenizatória"

Saiba como vereadores de BH torram recursos extras de R$ 15 mil/mês por gabinete

Destinada a custear despesas de manutenção do mandato, como transporte, alimentação e material de escritório, a verba indenizatória é alvo constante de denúncias e processos judiciais por uso indevido. Análise da prestação de contas feita pelo Estado de Minas aponta claros indícios de abusos e desvio do dinheiro. São notas fiscais seriadas de um mesmo estabelecimento, de empresas que não existem ou funcionam em residências, e até de firma de construção contratada para fornecer lanches. Há uma gráfica que recebeu R$ 783 mil e, segundo o funcionário, não tem maquinário e pertence ao assessor de um suplente de vereador. Já os gastos de um parlamentar com um bufê dariam para ele e seus 18 funcionários comerem 159 salgados por dia nos últimos 12 meses.

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