sábado, fevereiro 02, 2013

Balão


Colunistas

O ano em que sonhamos perigosamente

Um breve apanhado do ensaio “Da Dominação à Exploração e à Revolta”, do mais novo livro de Slavoj Zizek, um intelectual que também pensa perigosamente

Márcia Denser
No início deste ano, recebi o último livro de Slavoj Zizek (título acima, S.Paulo, Boitempo, 2012) – um intelectual que também pensa perigosamente! Uma coleção de ensaios que englobam uma abordagem totalizante de fatos que marcaram as primeiras décadas do século XXI: o crash financeiro de 2008 nos EUA, seu repique na UE e a eclosão, em 2011, de movimentos mundiais – da Primavera Árabe até o Occupy Wall Street.

Servindo como uma espécie de Manual para a Mobilização Emancipatória que, segundo o autor, se coloca pela primeira vez em nível planetário, aqui é o velho Lenin da pergunta “o que fazer?”, o filósofo invocado, combinando-se marxismo e psicanálise na linha de Marcuse e Erich Fromm, tudo pra decifrar a “circulação autopropulsora do capital”, que hoje prescinde não só dos trabalhadores como até da burguesia.

Hoje farei um breve apanhado do primeiro ensaio “Da Dominação à Exploração e à Revolta”, no qual Zizek, dialogando com Frederic Jameson (As sementes do tempo, S.Paulo, Ática, 1997), outro dos meus críticos preferidos, aborda questões chave como trabalho, não-trabalho, desemprego crônico, suas ironias e paradoxos, e as várias formas de exclusão e exploração.

Ele abre a análise dizendo que o capitalismo prospera porque evita seus grilhões, escapando para o futuro. Então não há como alcançá-lo. Razão pela qual devemos abandonar a noção falsamente otimista de que a humanidade inevitavelmente “só se propõe as tarefas que pode resolver”: hoje enfrentamos problemas para os quais não há nenhuma solução clara, garantida pela lógica da evolução.

Então por onde começar? Na esfera da economia, no ponto extremo da “unidade dos opostos”, é o próprio sucesso do capitalismo (alta produtividade) que causa o desemprego, isto é, torna inútil uma quantidade cada vez maior de trabalhadores, e o que deveria ser uma benção (necessidade de menos trabalho árduo), torna-se uma maldição.

Assim, o mercado mundial é, quanto à sua dinâmica imanente, “um espaço em que todos já foram trabalhadores produtivos, mas o trabalho começou a se valorizar fora do sistema”.

No processo de globalização capitalista, a categoria dos desempregados adquiriu uma nova qualidade, além de “exército industrial de reserva”: devermos considerar na categoria de “desemprego” as populações maciças ao redor do mundo que foram “desconectadas da História”, excluídas deliberadamente dos projetos modernizadores do Primeiro Mundo, os chamados “Estados falidos” – Congo, Somália, Líbia, etc., vítimas da fome ou de desastres ambientais ou de ambos, presas aos pseudo-arcaicos “ódios étnicos”, alvos da filantropia em geral, das ONGs em particular e da “guerra ao terror” em si.

A categoria dos desempregados, portanto, deve ser expandida para abranger a amplitude das populações, desde desempregados temporários, passando pelos não mais empregáveis e permanentemente desempregados, até as pessoas que vivem em cortiços, guetos, favelas, descartados inclusive por Marx como “lumpemproletariado” ou a “ralé”, segundo Hanna Arendt, uma vez que não têm consciência de si como “classe”.

Então o “populacho” está de volta, surgindo no próprio cerne das lutas? Sim, e tal recategorização muda todo o “mapeamento cognitivo” (Jameson) da situação: o pano de fundo inerte da História torna-se agente potencial da luta emancipatória.

Alterando o quadro, então temos: l) trabalhadores; 2) exército de reserva dos (temporariamente) desempregados; 3) os permanentemente inempregáveis; 4) os “anteriormente empregáveis” mas agora “inempregáveis”; 5) os “ilegalmente empregados”, incluindo os trabalhadores do narcotráfico, mercados negros diversos, máfias, favelas até as mais sórdidas formas de escravidão (inserindo aqui as crianças, por que não?).

O fato é que estes pretensamente “excluídos” são totalmente incluídos no mercado mundial, algo que Jameson não leva em conta. A exemplo do Congo: depois da queda de Mobutu, o país deixou de existir como Estado unificado operante, tornando-se uma multiplicidade de territórios governados por chefes guerreiros que controlam suas terras por um exército (constituído inclusive por crianças drogadas) e cada um deles com ligações comerciais com uma corporação estrangeira que explora riquezas minerais da região. Esta organização atende aos dois lados: a corporação ganha o direito de minerar sem pagar impostos e os chefes ganham dinheiro e… o resto – o povão – fica com zero vezes zero, mesmo fazendo todo o trabalho.

A ironia suprema é que muitos desses minérios são usados em produtos de alta tecnologia como laptops, celulares, Ipods e Ipads, etc. usados pelo “mundo civilizado e incluído” (civilizado como? incluído em que? hem?).

Outro dado importante levantado por Zizek: a categoria dos “anteriormente empregados” deveria ser complementada pelo seu oposto – os estudantes universitários sem nenhuma chance de encontrar emprego. Toda uma geração de jovens sem perspectivas futuras gera protestos em massa. E a pior maneira de resolver esta lacuna é subordinar a educação diretamente às demandas do mercado – cuja dinâmica torna antecipadamente “obsoleta” a educação dada nas universidades.

Estes estudantes não-empregáveis estão predestinados a desempenhar um papel organizador fundamental nos futuros movimentos emancipatórios, como já fizeram no Egito, nos protestos europeus, desde a Grécia ao Reino Unido, o nos EUA através do Occupy Wall Street.

A mudança radical nunca é desencadeada pelo “pobre” de forma a criar uma situação explosiva: portanto, a juventude educada inempregável, combinada à moderna tecnologia digital disponível, oferece a perspectiva de uma situação verdadeiramente revolucionária!

Que será extremamente bem-vinda, porque inescapável! Uma questão de vida ou morte e sobrevivência da honra, dignidade e da própria civilização humana!

Publicado originalmente no "congressoemfoco"

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Opinião

Defensor da ética!

O Estado de S.Paulo
Renan Calheiros é presidente do Senado Federal. A Casa está de joelhos. Cinquenta e seis senadores renderam-se aos interesses subalternos do caciquismo político que transformou o Congresso Nacional no mais desprestigiado poder da República. Cumpriu-se, de resto, mais uma etapa importante da consolidação do projeto de poder do lulopetismo. Mais uma vez, os detentores da hegemonia política no plano federal demonstraram sua habilidade em usar a mão do gato para atingir seus objetivos. Para completar a destruição da credibilidade do Parlamento, só falta agora consumar-se a eleição do notório deputado Henrique Alves como presidente da Câmara dos Deputados.

Para os brasileiros que acompanharam pela televisão as sessões plenárias do julgamento do processo do mensalão pelo STF, a transmissão ao vivo da eleição de Renan Calheiros e da melancólica despedida de José Sarney foi ilustrativa, didática mesmo, por escancarar a falta de cerimônia com que muitos dos nobres parlamentares se esmeram em usar as palavras para esconder o que pensam e dissimular suas verdadeiras intenções. Sob esse aspecto, o comportamento dos petistas foi memorável.

Foi necessária uma eleição porque havia, teoricamente, dois candidatos à presidência. Pedro Taques (PDT-MT) e o notório Renan Calheiros (PMDB-AL). Mas a ampla maioria da base de apoio ao governo, diligentemente construída ao longo de 10 anos, não permitia qualquer dúvida quanto ao resultado. O próprio Pedro Taques se apresentou como "anticandidato", em discurso deliberadamente elaborado para denunciar a farsa que se encenava. Uma tentativa quase quixotesca, saudada com aplausos frouxos, rápidos e encabulados.

Pela tribuna desfilaram 20 senadores. Ironicamente, a maioria manifestou apoio a Taques. Os apoiadores de Calheiros nem se deram ao trabalho de gastar o verbo. Deixaram a missão para os líderes, como o novo comandante do PT na Casa, o piauiense Wellington Dias, que se desincumbiu do modo mais protocolar possível. Eduardo Suplicy (PT-SP), que não perde uma oportunidade de aparecer, não teve coragem de declarar que não aprovava a candidatura Renan e apelou para o recurso esperto de sair pela tangente com a proposta delirante da eleição de um terceiro nome "de consenso".

Os apoiadores da candidatura oficial insistiram no argumento de que o PMDB, como bancada majoritária, tinha o direito regimental de indicar o nome para a presidência. É verdade. Só não está escrito em lugar nenhum que o candidato teria que ter ficha suja, um comprometedor retrospecto de malfeitos exatamente no cargo para o qual estava sendo reconduzido depois de ter a ele renunciado para preservar o mandato de senador. Os opositores bateram insistentemente na tecla do "resgate da credibilidade" do Congresso. Certamente interpretam o sentimento da grande maioria dos brasileiros - que quer exatamente isso. Mas há muito tempo perderam, eles próprios, a capacidade de fazer oposição séria e consequente.

Nos 20 minutos em que, antes da votação, apresentou seu programa, Renan Calheiros repetiu várias vezes, sem corar, que só assumira a condição de candidato havia menos de 24 horas, depois da reunião realizada na noite anterior pela bancada do PMDB que oficializou sua indicação. Uma afirmação tão deslavadamente falsa quanto a crítica que fez, aos brados, dos homens públicos que atuam não em defesa dos interesses nacionais, mas de seus próprios interesses pessoais e de grupos.

O que é verdadeiro é o regozijo de Lula & Cia. com Calheiros na presidência do Senado. Trata-se de um exímio operador, habilitado como poucos ao toma lá dá cá que viabiliza o apoio do Congresso às matérias de interesse do Palácio do Planalto. Certamente isso terá um preço, que não será baixo. Mas Lula já ensinou e Dilma parece estar aprendendo que há sempre um preço a pagar.

Empossado no lugar de Sarney, Renan voltou a discursar, dessa vez para fazer promessas, que não mereceriam qualquer referência não fosse o fato de ter-se declarado o guardião da ética no Senado!

Original aqui

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Manchetes do dia

Sábado, 02 / 02 / 2013

O Globo
"Com apoio até de tucanos, Renan está de volta" 

Peemedebista consegue 56 votos de colegas mesmo denunciado por procurador-geral

Com Renan na presidência do Senado e Henrique Alves na da Câmara, na terça, PMDB terá hegemonia no Legislativo. Cinco anos depois de renunciar ao cargo sob acusações de corrupção, o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) voltou à presidência do Senado apoiado pelos governistas e com votos até de tucanos. Denunciado pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, pelos crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos, Renan, nome central da tropa de choque do ex-presidente Fernando Collor, afirmou que "ética é obrigação de todos". A oposição apoiou Pedro Taques (PDT-MT), mas o peemedebista venceu por 56 votos a 18, dois votos brancos e dois nulos. Aliados de Renan contabilizaram sete traições no PSDB, o que garantiu a vaga da 1º Secretaria da Mesa para o tucano Flexa Ribeiro (PA). O novo presidente do Senado articulou aliados para arquivar processos contra ele no Conselho de Ética da Casa. 


O Estado de São Paulo
"Senado ignora acusações e Renan é eleito com 56 votos" 

Aliados já decidiram que vão arquivar eventuais pedidos de investigação contra o peemedebista

Denunciado pelo Ministério Público por desvio de dinheiro do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) foi eleito ontem, com 56 votos, para presidir a Casa pelos próximos dois anos. Ele volta ao cargo cinco anos após renunciar para não ser cassado e uma semana depois de o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, tê-lo denunciado por peculato, falsidade ideológica e uso de notas falsas. Aliados do peemedebista estão decididos a arquivar eventuais pedidos de investigação contra o novo presidente. Em discurso, o senador Fernando Collor (PTB-AL) classificou de “pseudodenúncia” a acusação de Gurgel, a quem chamou de “chantagista” e “prevaricador”. Em sua fala após a eleição, Renan defendeu a liberdade de expressão e de imprensa e afirmou ser contra qualquer tentativa de controle da mídia.

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sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Cri-cri, chiquitito, pero cumplidor...

Projetado pelo francês Michel Colomban, em 1973, o Cri-cri tem autonomia de 750 km e velocidade máxima de 170 km/h. Michel disponibiliza as plantas a quem desejar. Via

Coluna do Celsinho

Atitude

Celso de Almeida Jr.
Fui informado que a base do litoral norte do Sinhores – Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares enviou ofício aos quatro prefeitos da região alertando para a necessidade de imediata vistoria em todo o comércio formal e informal.
Esta já tem sido uma postura do sindicato há muitos anos, mas tornou-se mais do que oportuna neste instante, após a terrível tragédia na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul, com mais de duzentas mortes.
O Sinhores insiste que os comerciantes que cumprem todas as obrigações legais são extremamente prejudicados por aqueles que se mantêm na informalidade ou driblam a legislação.
E, somente quando tragédias ocorrem, a sociedade se mobiliza para exigir providências dos agentes públicos.
A estes fatos, somei uma experiência que tive no final de 2012, quando, em serviço, acompanhei as eleições internas do Partido Colorado, no Paraguai.
Nesta festa democrática, os filiados de todo o país escolheram os nomes daqueles que representariam o partido nas eleições paraguaias, previstas para o próximo mês de abril.
Conheci, naquela oportunidade, Enrique Riera, que de 2001 a 2006 foi Intendente de Assunção, capital do Paraguai, função equivalente a de prefeito de cidade.
Sua trajetória política era excepcional e seu nome, até julho de 2004, era tido como fortíssimo candidato a presidência do Paraguai.
Nestas últimas prévias coloradas sua expectativa era menor.
Aspirava uma vaga para disputar o senado.
Não obteve, porém, adesão suficiente dos filiados e, portanto, está fora da eleição de 2013.
Riera é um político sério, honesto, extremamente respeitado, mas não teve o aval do partido para disputar o senado.
Onde, afinal, falhou?
Sua trajetória política teve uma gigantesca pedra no caminho.
Em 1 de agosto de 2004, quando já exercia a Intendência de Assunção, ocorreu um terrível incêndio no supermercado Ycuá Bolaños, um complexo de três andares que incluía restaurantes, escritórios e uma garagem de estacionamento subterrâneo. Qua ndo o pânico tomou conta dos clientes, os donos e o gerente fecharam as portas do local, para evitar que as pessoas saíssem sem pagar. O fogo demorou sete horas para ser controlado e mais de 400 pessoas morreram.
Com muita franqueza, o prefeito Enrique Riera reconheceu que o local nunca havia sido vistoriado por suas equipes.
Amargou o repúdio dos familiares das vítimas e, como se vê, ainda hoje sofre os efeitos daquela tragédia, comprometendo fortemente sua carreira política, que até aquele terrível instante prometia ser brilhante.
Não custa, portanto, alertar a classe política para os riscos da omissão.
As implicações legais e para a própria carreira são fortíssimas.
Somadas a uma obrigatória postura pública exemplar, justificam superar fraquezas e romper com qualquer acordo político que ponha em risco a segurança e a vida dos cidadãos.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Pitacos do Zé


Lições de quase todas as tragédias

José Ronaldo dos Santos
Não consigo omitir a responsabilidade dos poderes constituídos na quase totalidade das tragédias. Podemos começar do nosso quintal (Ubatuba) e avançar pelos rincões afora.

Como assim? Explico, lógico que explico!

Até 1980 lembro-me muito bem da seriedade em muitas coisas. Só para pegar um primeiro exemplo, estando concluindo a obra da nossa casa, “uma planta popular”, no bairro da Estufa II, após fazermos a fossa, disse ao meu pai que a tampa de concreto estava devidamente seca e já poderia ser colocada no lugar permanente dela. Ele respondeu que ainda não; era preciso esperar  alguém  da prefeitura, o responsável pela fiscalização de fossas. Não demorou muito para aparecer o finado João Bordini a olhar tudo, fazer algumas perguntas e liberar a conclusão: “Pode chumbar a tampa”.

Pouco tempo depois, novamente sobre um começo de valetas para um alicerce, lá veio um homem segurando uma maleta preta. Era o João Batista, da Pedra Branca, na Praia da  Enseada. Como fiscal de obras da prefeitura foi logo perguntando a respeito da placa do engenheiro responsável pelo projeto. Ao lhe dizer que ela estava ainda no barraco, junto das ferramentas e cimento, foi incisivo na colocação imediata num local bem visível. E esperou que eu pregasse, na parede do barraco, a identificação deixada pela engenheira Patrícia Patural.

Agora, ao passar por obras descaradamente sendo feitas sem nenhuma identificação, posso deduzir que os administradores e legisladores contemporâneos nem imaginam que existiu a função do saudoso João Bordini. Assim, esgotos seguem diretos aos córregos e rios, sujam as nossas praias, com a Cetesb e a Sabesp fazendo “vista grossa” aos abusos contra o nosso meio ambiente, produzindo propagandas de coisas bem distantes, de Onda Limpa, etc; Casas surgem em qualquer lugar, sem respeitar nenhum solo ou regras de civilidade. A propósito: você sabe que as várias dezenas de casas localizadas acima da captação de água, no “Pé-da-Serra”, não têm rede de esgoto nem em sonho?

Depois... após acontecer as tragédias... aqui e por tantos outros lugares... ninguém mostra os verdadeiros culpados, aqueles que se omitem em seus deveres porque está “ganhando um agrado” ou já está de olho nas próximas eleições. Ou ainda: está devendo “ um favor” pelo cargo devidamente mantido pelo suor dos trabalhadores. Entendi melhor isso depois que encontrei um ex-fiscal sanitário sendo proprietário de uma quadra inteira num loteamento periférico. Era um “honrado cidadão” que, a cada “vistoria rigorosa”, deixava os estabelecimentos carregado de “presentes” (peças inteiras de presunto e queijo, pacotes de cigarros, bebidas finas etc.). Será que isso ainda continua assim?

As tragédias continuarão acontecendo. Depois não me digam que “precisamos de luz forte e não de simples vaga-lume”, de muitas e árduas investigações para podermos enxergar os responsáveis dessas tragédias! O pior: é nosso dinheiro que está patrocinando eles!

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Opinião

Disputa acirrada no PT

O Estado de S.Paulo
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-ministro José Dirceu e o presidente do PT, Rui Falcão, para seguir a efetiva ordem de importância de cada um na hierarquia da agremiação, parecem ter tirado o dia, anteontem, para disputar entre si um acirrado torneio de primarismo, descaramento e mistificação. Em Cuba, participando de um daqueles convescotes ideológicos cheios de ar quente e vazios de ideias - no caso, uma "Conferência pelo Equilíbrio Mundial", no Palácio de Convenções de Havana -, Lula demonstrou surpreendente sintonia com o espírito já um tanto fanado da new age, ao pedir ao público que mandasse "energia positiva" para o caudilho venezuelano Hugo Chávez. Se ele porventura superar as sequelas da operação a que se submeteu na ilha em meados de dezembro para extirpar o câncer de que padece, Lula bem poderá se gabar de haver contribuído para a sua miraculosa recuperação. Pelo menos seria coerente com a sua propensão a tratar de proezas alheias como se delas fosse o autor.

Mas o apelo ao despacho de energia cósmica para revigorar o autocrata de Caracas até que passa, com um pouco de caridade. O que fica é o exemplo confeccionado por Lula para a ocasião, a fim de ilustrar a sua enésima diatribe contra as "elites" em geral e a imprensa em particular por seu suposto "ódio" contra Chávez, a argentina Cristina Kirchner, o uruguaio Pepe Mujica e o boliviano Evo Morales pelo bem que fariam aos pobres. (Ele omitiu o equatoriano Rafael Correa.) "No Brasil", afirmou, voando baixo, "a imprensa não suporta que os pobres viajem de avião." O que os viajantes, ricos, remediados ou pobres, não suportam - e o que a imprensa denuncia - é a situação dos obsoletos aeroportos brasileiros, que o lulismo no poder não cuidou de apetrechar para o aumento do número de voos e passageiros. A mídia, a mesma que o ajudou a decolar do sindicalismo para a grande política - como certa vez, em um momento de franqueza, ele admitiu -, é o bode expiatório de há muito escolhido para livrar o PT do acerto de contas com seus próprios malfeitos.

Desde o julgamento do mensalão, ela tem a companhia da Justiça. O Supremo Tribunal Federal (STF), que impôs aos mensaleiros penas compatíveis com o crime de lesa-República que se esbaldaram em cometer, e o titular do Ministério Público Federal, Roberto Gurgel, por ter encaminhado à instância adequada as acusações do publicitário Marcos Valério contra Lula, em vez de lançá-las ao lixo, capitaneiam a "ofensiva da direita contra o nosso projeto político", nas palavras de Dirceu (10 anos e 10 meses de prisão, além de multa de R$ 676 mil). Em um ato da CUT, no Rio, "pela anulação do julgamento do mensalão", o mensaleiro-chefe acusou o STF de violar os direitos individuais e a democracia. No seu vale-tudo mental, atribuiu o noticiário da imprensa sobre as mazelas dos políticos ora à intenção de "amanhã dar um golpe", ora à intenção de inibir o Congresso de regular a mídia. Às vezes, nessas horas, a verdade assoma em meio à fabulação. No caso, a pouca vontade do próprio PT em mobilizar as massas para a defesa dos mensaleiros.

"Aonde (sic) estão os nossos?", perguntou retoricamente Dirceu para se queixar de que ninguém "foi para a tribuna denunciar" a decisão de Gurgel de dar curso às denúncias de Marcos Valério. Por sua vez, Andréa Haas, mulher do condenado ex-dirigente do Banco do Brasil, Henrique Pizzolato (14 anos, 8 meses, R$ 1,3 milhão), pediu aos companheiros "que não sejamos esquecidos, como até hoje fomos". Não será o desalento petista que motiva as exortações de Dirceu e a campanha que promete encetar contra o STF? Não será também o que leva o deputado Rui Falcão a abrir ao máximo a sua "torneira de asneiras", como fazia a boneca Emília das histórias de Monteiro Lobato? São tantas que não é fácil escolher a que merece ir ao pódio. Entre a imputação ao Ministério Público de ter "atuação partidária" e o imperativo de combater a oposição "sem cara, mas com voz" que "tenta interditar a política no Brasil", o Oscar vai para esta obra de arte: "Quando desqualificamos a política (…), a gente abre campo para experiências que, no passado, levaram ao nazismo e ao fascismo" (apud, Rui Falcão).

Original aqui

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 01 / 02 / 2013

O Globo
"Rio começa a fechar hoje teatros sem segurança" 

Medida, adotada por estado e município, vale também para lonas culturais e bibliotecas

Interdição vai durar 20 dias, até que todos os espaços sejam vistoriados e liberados pelos Bombeiros. Após O GLOBO revelar que 49 espaços públicos funcionavam sem autorização dos Bombeiros, a prefeitura e o governo anunciaram a suspensão da programação artística nesses locais, começando hoje pelo Teatro Glaucio Gill. "O critério é único: tem autorização, funciona. Não tem, não funciona. Não vou correr o risco de assistir a uma tragédia", disse o secretário estadual de Defesa Civil, Sérgio Simões.


O Estado de São Paulo
"Alvo de 3 inquéritos, Renan deve ser eleito hoje" 

Senador lançou candidatura na véspera e enfrentará Pedro Taques(PDT), apoiado por ‘independentes’

Alvo de três inquéritos no STF, Renan Calheiros (PMDB-AL) deve ser eleito hoje presidente do Senado. Sua candidatura foi lançada ontem com o apoio de 17 dos 20 representantes da bancada peemedebista. Renan vai enfrentar Pedro Taques (PDT-MT), lançado como candidato único de um grupo de parlamentares apontados como independentes. Com 11 representantes, a bancada tucana decidiu pelo apoio a Taques e corre o risco de perder a Primeira Secretaria do Senado. A expectativa de aliados de Renan, no entanto, é de que ele receba votos de ao menos quatro senadores do PSDB, já que a votação é secreta. Em reunião com os senadores de sua bancada, Renan anunciou a criação de uma secretaria para dar transparência aos atos do Senado e defendeu a votação de novas regras do Fundo de Participação dos Estados (FPE).

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quinta-feira, janeiro 31, 2013

Livro


Colunista do Ubatuba Víbora lança livro infantil

Marcelo Mirisola envia convite aos leitores do blog e diz que pode levar amiguinho na festa

Dia 5 tem lançamento do "infantil" que escrevi a 4 mãos com o Furio Lonza. Ilustrações do André Berger. Apareçam. Todas as informações no convite em anexo. Apareçam!

Abraços,

MM


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Opinião

Ambicioso e dispendioso

O Estado de S.Paulo
Do pouco que se sabe do ambicioso projeto do governo de desenvolver a aviação regional, já ficou claro que barato ele não será. Para assegurar que mais brasileiros utilizem o transporte aéreo entre cidades ainda não atendidas por voos comerciais regulares, o governo vai pagar 50% da passagem de até 60% dos assentos dos aviões que atenderem a essas linhas. O custo dependerá do preço da passagem e do número de passageiros que serão beneficiados, mas o ministro-chefe da Secretaria de Aviação Civil (SAC), Wagner Bittencourt, calcula que os gastos do governo com essa parte do programa serão de R$ 1 bilhão por ano. E este é apenas um dos subsídios do programa.

Vários pontos obscuros do programa anunciado em dezembro pelo governo, entre os quais o custo real dos subsídios para o Tesouro, deixam dúvidas sobre sua viabilidade. Além disso, o fato de pertencer a Estados e municípios boa parte dos aeroportos nele incluídos para serem reformados, modernizados ou ampliados pode trazer dificuldades administrativas e políticas para a execução das obras e a administração do novo sistema.

Embora não alcance o total de "uns 800 aeroportos", como chegou a ser mencionado pela presidente Dilma Rousseff durante encontro com empresários franceses em Paris, no início de dezembro, e não inclua a construção de novas unidades, o programa prevê melhoria, reaparelhamento, reforma e expansão da infraestrutura, tanto de instalações físicas como de equipamentos, de 270 aeroportos regionais (dos quais 19 no Estado de São Paulo), ao custo de R$ 7,3 bilhões na primeira etapa.

Baseado em investimentos federais, isenção das tarifas aeroportuárias para passageiros e companhias aéreas, subsídios no preço das passagens e criação de uma estatal de serviços na área de planejamento e operação de aeroportos, entre outros pontos, o programa continua cheio de pontos indefinidos, a maior parte dos quais só será esclarecida após consulta pública.

O que se sabe ainda está no plano das intenções. O objetivo anunciado pelo governo é ampliar o acesso dos brasileiros ao transporte aéreo e, para alcançá-lo, pretende-se assegurar que 98% da população esteja a menos de 100 quilômetros de distância de um aeroporto em condições de receber voos regulares.

Mesmo representando pouco mais de um terço do número anunciado por Dilma, o total de aeroportos a serem reformados é expressivo. De acordo com a SAC, a infraestrutura aeroportuária do País é formada por 720 aeroportos - alguns deles não são mais que pistas de pouso e decolagem -, dos quais parte é operada pela Infraero, parte é de responsabilidade de Estados e municípios e 3 foram outorgados à iniciativa privada (Guarulhos, Viracopos e Brasília). Do total, 31 atendem às capitais estaduais com voos regulares. Dos 689 aeroportos regionais, 98 recebem voos regulares. Assim, 591 não atendem à aviação regular.

Para estimular a utilização de mais aeroportos regionais (172 serão acrescentados aos que hoje recebem voos regulares) e a criação de companhias aéreas, para aumentar a competição, não haverá cobrança de tarifas de embarque (pagas pelos passageiros) nem de pouso e permanência das aeronaves (pagas pelas companhias aéreas) em aeroportos com movimentação de até 1 milhão de passageiros por ano. A operadora do aeroporto, no entanto, será integralmente remunerada, com recursos do Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC), criado em julho de 2011 e que, em 2013, poderá dispor de R$ 3 bilhões.

O governo pretende que os bilhetes aéreos não sejam mais do que 25% mais caros do que as passagens de ônibus para o mesmo destino. Se se levar em conta que os custos operacionais do ônibus são bem inferiores aos de uma aeronave, pode se imaginar o tamanho dos subsídios.

Por fim, é difícil entender as razões da criação de uma subsidiária da Infraero, a Infraero Serviços, para prestar, entre outros, serviços de consultoria, planejamento e treinamento, ou seja, tudo o que a própria Infraero poderia fazer.

Original aqui

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 31 / 01 / 2013

O Globo
"Rio tem 49 espaços culturais sem alvará" 

Município admite fechar os seus estabelecimentos; estado anuncia vistorias

Entre os que estão em situação irregular, 36 são geridos pela prefeitura; secretário municipal de Cultura, que pediu levantamento, se diz surpreso e admite que, na atual situação, não há garantia de que público esteja seguro. A prefeitura do Rio e o governo estadual têm 49 espaços culturais funcionando sem autorização do Corpo de Bombeiros, informa Luiz Felipe Reis. O Teatro Carlos Gomes, o maior sob gestão do município,está em situação irregular desde 2010.0 secretário municipal de Cultura, Sérgio Sá Leitão, afirmou que toda a programação poderá ser suspensa, até a regularização dos equipamentos. O estado se comprometeu a começar vistorias segunda-feira. Ontem, os Bombeiros interditaram as boates 021 e Nuth Club, na Barra.


O Estado de São Paulo
"Governo eleva a 25% mistura de etanol na gasolina" 

Para reduzir impacto ao consumidor, índice subirá em maio; reajuste já foi repassado para a bomba

O governo vai antecipar para 1º de maio o aumento da parcela de álcool misturada na gasolina de 20% para 25%, como forma de atenuar o impacto do reajuste dos combustíveis ao consumidor. A proposta, porém, está condicionada à elevação da oferta de etanol pelos usineiros. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que, com a medida, o reajuste na bomba deve ficar próximo de 4%. Edison Lobão (Minas e Energia) disse que aumentos abusivos nos postos serão fiscalizados “com rigor”. “O aumento de preços foi de 6,6% nas refinarias, então não pode chegar a 10% nos postos. O mercado é livre, mas não pode se exceder.” O reajuste já foi repassado para 0 consumidor em São Paulo. O acréscimo nos preços do combustível na bomba ficou entre R$ 0,10 e R$ 0,12 por litro, o que fez com que o litro da gasolina comum superasse R$ 3 em alguns locais. As ações ordinárias da Petrobrás caíram 5,12%.

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quarta-feira, janeiro 30, 2013

Mistério!

Onde está o avião?

Sidney Borges
Com base em informações colhidas na Internet foi possível criar uma animação mostrando os pontos de partida e o local do "desaparecimento" do avião RV-7 que decolou de Ubatuba e não chegou ao seu destino: Rio Claro. Pelos dados dos sinais emitidos pelo celular de um dos ocupantes do avião supõe-se que o voo foi interropido na região de Monte Verde.


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Arte

Paul Klee - Red Ballon - 1922

Pitacos do Zé

E por falar em civilidade... (XXX)
   
José Ronaldo dos Santos
Acho bom o prefeito aproveitar o “abrir do tempo” para um grande empenho em eliminar os buracos. 


Eles estão por todos os lados, porém, no Ipiranguinha, sobretudo na Rua Frei Tarcísio, por onde milhares de pessoas transitam diariamente, a situação nunca foi resolvida. 

Ou seja, no bairro mais populoso do município já passa da hora de ter um tratamento decente, onde não tenhamos mais gastos desnecessários com os veículos. Creio que também já pode ser repensado a questão do modelo de  pavimentação em todo o município. 

Que tal uma consulta popular, onde os setores da sociedade discutam e decidam os rumos mais coerentes para tornar a cidade mais decente?

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Opinião

A cobiça cega e o Estado surdo

José Neumanne *
O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), resultou da associação perversa e criminosa da cobiça cega de um capitalismo de vale-tudo, sem código de conduta nem esteio moral, com um Estado estroina, corrupto, incompetente e incapaz de garantir ordem, paz, segurança pública, a vida e a integridade física de seus cidadãos. Não se trata de um fenômeno exclusivo do subdesenvolvimento endêmico do qual países emergentes como o nosso parecem nunca sair, principalmente no que concerne ao espírito e às mentalidades. O mundo inteiro foi assaltado pela brutalidade da busca incessante da fortuna fácil e do desprezo ao trabalho e à conduta moral que deveria reger a vida em sociedade neste século 21, depois da visita à Lua e do telefone portátil, que conecta seu usuário com as notícias do dia, as cotações do mercado de capitais e as manifestações mais escabrosas da miséria humana. Incêndios em boates são comuns e ocorrem em ambientes fechados e abarrotados de material inflamável, produzindo assim vítimas de morte às centenas e crônicas de grosseria e insensibilidade, antes, e de comoção e solidariedade, depois.

No Brasil, a peculiaridade apresenta-se em algo que os comentaristas de arbitragem de futebol e os membros da Academia de Cinema de Hollywood chamariam de "o conjunto da obra". O incêndio da boate gaúcha ocorreu numa cidade que homenageia o espírito que se identifica com o afeto materno, a mãe do Salvador, que reúne em sua aura toda a luz da generosidade, do altruísmo, da capacidade de renúncia e da piedade que um mortal é capaz de sentir e expressar. O momento também é peculiar nosso: a maior seca dos últimos 30 anos no semiárido nordestino torna a escassez ainda mais cruel, as famílias desabrigadas pelas enxurradas na Serra e na Baixada Fluminenses ainda não têm um teto para abrigá-las e o sangue de policiais e inimigos da lei continua empoçado no asfalto precário das vielas da periferia da maior cidade da América do Sul. Às vésperas do carnaval, intempéries naturais, brutalidades pessoais e deficiências institucionais reduzem a expectativa de vida de seres humanos e animais numa tragédia que se repete e se amplia indefinidamente.

Nunca se saberá quantas das mais de 230 vidas ceifadas pelo fogo na boate Kiss seriam poupadas se seus proprietários houvessem obedecido às normas de segurança de edificações às quais acorrem multidões para ouvir, cantar, dançar e se divertir. Quem permitiu que aquele bando de jovens em busca da felicidade efêmera de uma balada arriscasse a vida em meio a fiações e equipamentos eletrônicos capazes de gerar faíscas que se transformariam em labaredas no material inflamável é um assassino serial em potencial e como tal deveria ser tratado depois de contados os cadáveres carbonizados e os prejuízos materiais. Quantos dos jovens imolados deixariam de ser incinerados se não tivessem sido barrados por agentes de segurança empenhados apenas em garantir o pagamento das comandas de consumo, em vez de permitirem a fuga de uma multidão empurrada para fora do lugar pelas chamas? Neste crime se acumpliciam donos e empregados, brutos adoradores do bezerro de ouro, que levam mais em conta a dívida do que a perda da vida.

Nesta Pátria da impunidade, madrasta malvada, quem acredita que alguém será punido? Quem já o foi? Os rústicos proprietários dos barcos apinhados de passageiros que naufragam no caudal da Bacia Amazônica ou nos fios de água do Velho Chico? Quem pagou pela plateia queimada no circo de Niterói, a maior tragédia de nossa história? Quem respondeu pelo afundamento do Bateau Mouche na Baía da Guanabara ou pelos prédios que desabam em reformas mal feitas no centro do Rio? Uma Justiça leniente acaba o serviço macabro que começa na cobiça, sua colega em matéria de cegueira crônica.

No meio do caminho entre o fogo dos sinalizadores e a falta de uso do martelo do juiz figura a incapacidade do Estado brasileiro - municípios, Estados e União - de produzir leis adequadas para proteger o cidadão que trabalha, mora ou se diverte e, sobretudo, de fazer com que as existentes, muito numerosas e pouco eficazes, sejam cumpridas. Os decibéis dos equipamentos eletrônicos da balada da Kiss não perturbaram o sono dos fiscais de Santa Maria, cujo gestor municipal fez vista grossa à desobediência das próprias posturas pelo estabelecimento comercial do qual nunca se omitiu de cobrar impostos. Municípios e o Estado do Rio não gastam um centavo do que recebem da União para prevenir enchentes em seu território, mas voltam a prometer a cada verão trágico novas providências, que nunca serão tomadas nem deles cobradas nas eleições.

A presidente Dilma Rousseff foi a Santa Maria e chorou com pena das famílias que o Estado abandona ao desamparo. Assim como o imperador dom Pedro II jurou que venderia o último diamante da Coroa para não deixar um cearense morrer de fome. Fê-lo mais de cem anos antes de os sertanejos continuarem perdendo tudo, até a própria vida, por causa da sede implacável. As imagens das ruínas da obra inacabada da transposição do Rio São Francisco sem que uma gota de água fosse levada à caatinga mais próxima são a denúncia mais deslavada da hipocrisia generalizada de gestores públicos que, desde o Império até hoje, garimpam votos valiosos na miséria que os donos do poder semeiam em suas posses e colhem na máquina pública que, eleitos pelos súditos, passam a pilotar. Os maganões da República mantêm-se no poder enganando os sobreviventes da seca do semiárido, das enxurradas da Serra Fluminense e deste incêndio em pagos gaúchos.

O Estado brasileiro - as elites dirigentes que se apropriam do dinheiro público no poder em municípios, Estados e na União - é cúmplice da cobiça assassina dos empresários sem lei. Só nos resta rezar por suas vítimas e amaldiçoar os algozes da cobiça cega e do Estado surdo. Já que terminarão impunes, que lhes seja reservado o fogo eterno do inferno.

* José Neumanne é jornalista, poeta e escritor.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 30 / 01 / 2013

O Globo
"Omissão de prefeitura e bombeiros é investigada" 

Polícia Civil aponta falhas na fiscalização e Ministério Público abre inquérito

O Ministério Público do Rio Grande do Sul abriu inquérito para apurar se houve falhas e omissões da prefeitura de Santa Maria e do Corpo de Bombeiros na fiscalização da boate Kiss, onde ocorreu, na madrugada de domingo, o incêndio que já matou 235 jovens. O delegado Marcelo Arigony disse que a boate apresentava uma série de irregularidades e não poderia estar funcionando. Ele enumerou problemas que deveriam ter impedido o funcionamento da boate, entre eles superlotação frequente e saída de emergência insuficiente: "Qualquer criança vê que essa casa não poderia estar funcionando." Segundo o policial, a fiscalização sobre o empreendimento foi ineficiente e colaborou para a ocorrência da tragédia. A polícia já descobriu que a banda usou fogos de artifício proibidos para ambientes fechados, que custavam R$ 2,50. Os fogos próprios para uso em boates custam R$ 70. Um decreto do governo gaúcho determinava que as boates do estado tivessem duas portas de saída. Bombeiros e prefeitura, que se eximem de culpa, autorizaram o funcionamento da Kiss sabendo que ela só tinha uma saída.


O Estado de São Paulo
"MP vai investigar bombeiros e fiscais após tragédia no RS" 

Promotoria apura por que boate funcionava sem alvarás; prefeito culpa corporação e proíbe festas por 30 dias

O Ministério Público Estadual abriu inquérito para investigar se houve improbidade administrativa de funcionários da prefeitura de Santa Maria (RS) e dos bombeiros na fiscalização da boate Kiss. A casa estava sem alvará de funcionamento da prefeitura desde 31 de março e sem permissão dos bombeiros desde 14 de agosto. Uma fiscalização foi feita em abril, mas a construção de um anexo de 234 metros quadrados, erguido sem área de escape, não foi informada pelos fiscais ao governo municipal. Para o promotor do caso, há “evidências claras” de que houve falha na fiscalização. O prefeito César Schirmer (PMDB) não soube informar por que o local nunca foi vistoriado em quase três anos e responsabilizou os bombeiros. “Não temos autoridade para fechar a boate”, disse. Em seguida, porém, ele anunciou um decreto que proíbe qualquer estabelecimento noturno da cidade de realizar festas por 30 dias. O Instituto Geral de Perícias revisou ontem para 234 o número de mortos no incêndio.

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terça-feira, janeiro 29, 2013

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Opinião

O horror de Santa Maria

O Estado de S.Paulo
A maior catástrofe já ocorrida numa casa de espetáculos no Brasil foi o incêndio criminoso que matou 503 pessoas em um circo de Niterói, em dezembro de 1961. A segunda maior - o fogo que irrompeu na madrugada de domingo na boate Kiss, em Santa Maria, Rio Grande do Sul - deixou pelo menos 233 mortos e uma centena de feridos. Queimaduras e sequelas em sobreviventes, como a chamada "pneumonia química", resultado da inalação de fumaça, poderão elevar o número de vítimas. Ninguém premeditou a nova tragédia. Mas a intenção de matar foi só o que faltou na receita que a tornou inevitável. Cerca de mil jovens se divertiam ao som da banda gaúcha Gurizada Fandangueira, superlotando um ambiente em que só havia uma porta de entrada e saída com não mais de 4 metros de largura (decerto para impedir o ingresso de penetras) e nenhuma indicação de como alcançá-la em caso de emergência. Tampouco havia janelas. A noitada se destinava a arrecadar dinheiro para festas de formatura da Universidade Federal da cidade (UFSM), o mais importante polo acadêmico do Sul do País, com 27 mil estudantes.

Quando o vocalista do grupo acendeu um sinalizador de efeito pirotécnico, como se costuma fazer nesses shows, faíscas aparentemente inflamaram o papelão do revestimento acústico do teto. Pode ter havido um curto-circuito. O guitarrista da banda e um segurança contaram que, vendo as chamas se formar, tentaram acionar um extintor de incêndio - que não funcionou. No escuro, os primeiros a perceber o perigo trataram de escapar - apenas para serem barrados por seguranças porque não tinham pago as suas comandas. Quando eles se deram conta do que realmente se passava - notando, como o público, que a música havia parado -, e deixaram de bloquear a saída, era tarde. A multidão arremetia em desespero de um lado para outro. Muitos confundiram o acesso aos banheiros com a porta da rua. Os bombeiros encontraram ali muitos corpos amontoados. A causa de 90% das mortes foi a asfixia, não queimaduras ou pisoteamento.

O escândalo maior era a situação irregular da boate - com o alvará de funcionamento e o aval do Corpo de Bombeiros vencidos desde o ano passado. Um dos donos disse à Polícia que havia pedido a renovação. O delegado que o ouviu ficou de apurar se é verdade e, nesse caso, por que a autorização ainda não tinha sido dada. Qualquer que tenha sido o motivo, e ainda que não se possa atribuir a tragédia à falta do alvará, é óbvio que, nessas condições, a Kiss não podia estar funcionando. Ontem, cumprindo decisão judicial, foram presos dois sócios da boate e dois integrantes do conjunto. O uso de sinalizadores em locais fechados é outra controvérsia. Em 2003, um show pirotécnico durante a apresentação de uma banda matou 95 pessoas e feriu 160 em West Warwick, no Estado americano de Rhode Island. A história se repetiu na virada de 2004 no clube Cromañón, de Buenos Aires. Dessa vez, a pirotecnia provocou 194 mortes e feriu mais de 1.400. Na Argentina, o horror serviu pelo menos para a adoção de novas regras de segurança nas casas noturnas do país.

Em Santa Maria, o contraponto imediato à tragédia foi a rápida e competente mobilização do setor público federal e estadual, civil e militar - começando pela conduta exemplar da presidente Dilma Rousseff. No Chile, onde participava de uma reunião internacional, tão logo foi informada do acontecido, disparou uma sequência de telefonemas, transmitindo instruções precisas a ministros de Estado e outras autoridades. Falou também com o governador Tarso Genro. Em seguida, anunciou, sem segurar as lágrimas, que seguiria para a enlutada cidade gaúcha - "é lá que eu tenho de estar". Chegando ao Ginásio Municipal, para onde os corpos tinham sido levados, emocionou-se novamente com a dor de seus familiares e pessoas próximas. Antes de se retirar, revelando uma sensibilidade incomum ainda mandou que os presentes, sob um sol de 35°C, fossem encaminhados a uma área coberta, na companhia de assistentes sociais.

O mais dependerá da revolta, a "única emoção útil", no dizer do gaúcho Luis Fernando Veríssimo. "A revolta pede providências para que tragédias assim não se repitam."

Original aqui

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