sábado, outubro 13, 2012

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Opinião

A omissão do Congresso

O Estado de S.Paulo
Como os parlamentares não decidiram até agora, e não dispõem mais de condições práticas de decidir até o fim do ano, quando termina o prazo que lhes foi dado, a Mesa do Senado Federal fará o que parecia impensável: pedir, sem nenhum fundamento legal, que o Supremo Tribunal Federal (STF) modifique uma decisão tomada há mais de dois anos e meio, pela qual a Casa deveria adotar, por lei, até 31 de dezembro, novas regras de repartição dos recursos do Fundo de Participação dos Estados (FPE).

Só assim será possível evitar o congelamento, a partir de 1.º de janeiro de 2013, do dinheiro que compõe o FPE, formado por 21,5% da arrecadação do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e do Imposto de Renda (IR). É dinheiro essencial para manter em operação o serviço público em vários Estados. Neste ano, por exemplo, o FPE distribuirá R$ 55 bilhões aos Estados.

Ja é histórica a negligência com que o Congresso vem tratando da questão das regras para a divisão dos recursos do FPE. Esse fundo foi criado em 1965 e começou a distribuir os recursos em 1966, com o objetivo de reduzir as disparidades regionais do País. A Constituição de 1988 o incorporou. A Lei Complementar n.º 62, de dezembro de 1989, estabeleceu critérios provisórios para a reparticipação dos recursos. Novas regras deveriam ser estabelecidas até o fim de 1991, com base nos dados do Censo de 1990. Essas regras nunca foram aprovadas.

Atualmente, dos recursos do FPE, 85% vão para os Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste e 15% para os Estados do Sul e Sudeste. Estados com renda per capita menor têm direito a fatias maiores do Fundo. Descontentes com os critérios estabelecidos em 1989, por considerarem que eles não atendem mais à nova realidade econômica e social do País e prejudicam seus Estados, alguns governos estaduais entraram com Ações Diretas de Inconstitucionalidade (Adins) contra a Lei Complementar n.º 62.

Foi no julgamento dessas Adins que, em fevereiro de 2010, o STF declarou inconstitucional o artigo da lei complementar que define os critérios para a distribuição de recursos do FPE, mantendo, porém, sua vigência até 31 de dezembro de 2012, para que, até essa data, o Congresso definisse as novas regras. Se isso não for feito, o FPE não poderá ser repartido entre os Estados. A decisão do Supremo deveria forçar o Congresso a discutir e votar, com urgência, as novas regras, para evitar que alguns governos estaduais sejam obrigados a paralisar as suas atividades.

O FPE responde por cerca de 70% do orçamento de Estados como Amapá e Rondônia. Mesmo em Estados com mais recursos próprios, como a Bahia, o FPE representa quase 30% do orçamento. "É inadmissível, impensável, ficar sem o FPE", disse ao Estado (7/10) o secretário da Fazenda da Bahia, Luiz Alberto Petitinga. "O FPE não pode simplesmente acabar."

De fato, não pode, sem que seja substituído, ainda que transitoriamente, por alguma outra forma de redistribuição de recursos federais. Os parlamentares sabiam disso e sabiam que dispunham de um prazo razoável para decidir. No entanto, nada fizeram para cumpri-lo. Agora, não têm mais tempo.

"Politicamente, é impossível discutirmos um projeto, qualquer que seja ele, até o fim do ano", disse o senador Romero Jucá (PMDB-RR), coautor de um dos projetos sobre o assunto que tramitam no Senado. Há outros sete projetos modificando as regras do FPE, mas nenhum deles foi discutido nas comissões encarregadas de examiná-los. Só um já teve voto do relator escolhido por uma das comissões.

Agora, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e líderes dos partidos estão preparando uma carta na qual pedirão ao STF a prorrogação do prazo de validade das atuais regras de repartição do FPE. Um ministro do STF ouvido pelo Estado disse que a situação é "complexa" e observou que "nunca o País esteve diante de uma situação em que o Poder Legislativo solicita ao Poder Judiciário a prorrogação de uma decisão tomada com antecedência".

É a consequência prática - e vergonhosa - da irresponsável omissão do Congresso.

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Manchetes do dia

Sábado, 13 / 10 / 2012

Folha de São Paulo
"Em crise, União Européia leva Prêmio Nobel da Paz" 

Esforços para reconciliar o bloco desde a 2ª Gerra motivaram a premiação

Vivendo grave crise econômica e crescente insatisfação social, a União Europeia recebeu ontem o Prêmio Nobel da Paz. 0 motivo da escolha foram os esforços realizados pelo bloco político para reconciliar a região nos últimos 60 anos. Duas ocasiões históricas foram mencionadas: a união obtida pela Europa após a Segunda Guerra Mundial e a sua reunificação nos anos que se seguiram à queda do Muro de Berlim (1989) e ao fim da União Soviética (1991). Analistas divergiram quanto ao momento da premiação. Para alguns, é um estímulo para garantir avanços já conquistados. Outros questionam se é adequado fazer tal escolha em meio à conturbada crise da dívida pública na zona do euro. Na declaração oficial, o comitê diz que focou no “bem-sucedido esforço para a paz e a reconciliação e para a democracia e os direitos humanos”.

O Estado de São Paulo
"Serra diz que Haddad segue lição de Dirceu e petista rebate" 

Tucano sobe tom e fala em ‘esquema do pega-ladrão’; para candidato do PT, adversário quer mobilizar trevas’

Na maior troca de acusações no 2º turno, o candidato José Serra (PSDB) comparou Fernando Haddad (PT) ao ex-ministro José Dirceu, condenado pelo mensalão. “José Dirceu quando atacado, ataca o outro. Esse é o esquema do pega-ladrão, que ele fundou no Brasil. O Haddad apenas está seguindo as lições de Dirceu, de quem é companheiro e camarada”, atacou. Em resposta, Haddad disse que Serra está “fora de si” e pretende “mobilizar as trevas” para tentar vencer eleição. O PT estadual avalia que Serra ofendeu a honra do partido e entrará com ação criminal.

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sexta-feira, outubro 12, 2012

Ubatuba em foco


Recordar é viver

Sidney Borges
Em dezembro de 2004 o a rapaziada do PT comemorava a primeira chegada ao poder. Domingos dos Santos era vice-prefeito e seu irmão, Jairo do Santos, vereador e futuro presidente da Câmara. Nem todos da foto continuam petistas, mas Domingos, Gerson Florindo, Agnaldo e Maurício permanecem firmes. À esquerda no primeiro plano o prefeito eleito Maurício Moromizato. Essa foto foi tirada com uma câmera chinesa de 0,3 megapixels que não existe mais, derreteu literalmente com a maresia.

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Café


Coluna do Celsinho

Luz

Celso de Almeida Jr.
O Eduardo Antonio de Souza Netto partiu há uma semana.

Quando a notícia me alcançou, veio à tona uma inesquecível passagem que tivemos.

Em 1997 eu saía de uma tremenda trombada política que acabou atingindo nossa escola.

Ironia do destino, a sinalização de auxílio veio justamente de um outro grupo político que, em campanha eleitoral de 1996, tanto combati.

O interlocutor deste, Eduardo de Souza Netto, costurou um possível socorro em dinheiro, nos moldes de investimento.

Eu redigi uma carta de intenções aos financiadores, apresentando uma saída engenhosa que, na prática, em alguns anos, representaria a transferência para eles da empresa mantenedora da nossa instituição de ensino.

Os desdobramentos?

Uma das mais belas conversas de minha vida...

Eduardo de Souza abriu o diálogo dizendo que eles não se interessaram pelo negócio.

Certamente, percebeu naquele instante o meu olhar sem rumo, já que eu estava numa situação limite, dificílima e inédita em minha vida profissional.

Em seguida, muito calmo, comentou cada linha de minha carta e sugeriu que aquela seria uma decisão precipitada, equivocada.

Disse que eu deveria enfrentar os obstáculos com minha família, suportando o fardo, sem perder o controle e a direção da instituição.

Eu sabia que a escola era a materialização do sonho de minha mãe, fruto de um magnífico esforço coletivo.

Mas, só naquele momento, compreendi a profundidade das palavras do Eduardo.

Não combinava com alguém ligado a educação - ferramenta libertadora - ficar refém daquelas circunstâncias.

A partir daí, buscamos do infinito a energia para enfrentar tamanha tormenta.

E, por estes mistérios da vida, superamos aquela fase crítica, ocasião em que citei ao Eduardo a importância daquele diálogo que tanto me confortou.

É isso, querida leitora, prezado leitor.

Muitas vezes, um gesto de generosidade, uma palavra amiga, uma voz despertadora, revelam a luz do bom caminho, mostrando que nem todas as soluções dependem de dinheiro.

Assim, em singela homenagem à memória do saudoso Eduardo Antonio de Souza Netto, torno pública esta história e a frase que felizmente pude lhe dizer em vida:

Muito obrigado!

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Pitacos do Zé


Alguém tem que fazer

José Ronaldo dos Santos
Vou apostar na fala de um amigo para descrever o que acontece na esquina da minha casa (bairro do Ipiranguinha, em Ubatuba). Esclareço: o Julinho afirma que as suas denúncias têm sido notadas e resolvidas pelas autoridades competentes. Espero que também a minha receba uma atenção ou sirva de exemplo para que situações similares sejam denunciadas. É mais uma questão de civilidade. Afinal, as leis existem e muitos as cumprem. Em decorrência disto, os que são taxados de “bobos” são na verdade os cidadãos. Os outros são “sem noção” que contribuem com o atraso da sociedade ubatubense. Certamente que os últimos revelam uma carência educacional que se arrasta há muito tempo. Só uma educação de qualidade pode implantar um estado avançado de civilidade.

Há pouco mais de meia dúzia de anos, um “sem noção” se instalou por ali. Impressionante o que é capaz de fazer alguém que parece viver com a cabeça mais voltada para o dinheiro, para o ter em detrimento do ser! Só isso pode fazer compreender, por exemplo, porque um motorista devidamente habilitado torna-se  irresponsável, displicente, aproveitador da índole pacifista e/ou passiva do povo. E o pior: “sem noção” se multiplica rapidamente!

Fiz essa introdução para entender o que vem a seguir:

Ontem, ao chegar em minha casa para o almoço, o meio fio da esquina estava pintado de amarelo (ou ocre?). Me perguntei: Será que o departamento de trânsito municipal passou por aqui e percebeu que o dito cujo sempre estaciona os veículos (caminhões) na curva, pelas calçadas? Expressei em silêncio:  Aleluia! Porém, alguém que passava no local esclareceu que o serviço foi de uma dupla anônima. Então deduzi: mais gente, certamente da vizinhança ou de outras ruas do bairro, está descontente com as atitudes irresponsáveis de determinada pessoa. Só isso permite afirmar que as atitudes de um “sem noção” incomoda mais gente do meu entorno.

Finalizo dizendo que não é de hoje que eu denuncio tais situações. As autoridades policiais e fiscalizadoras poderiam excursionar pelos nossos bairros, tomarem as atitudes cabíveis para tentar remediar os danos dos “sem noção”, dos que querem se aproveitar de uma terra que pode se tornar “terra sem lei”. Descobrirão edificações nas calçadas, praças públicas invadidas, carros estacionados por onde transitam os pedestres, esgotos a céu aberto, despejo irregular de resíduos estranhos pelas ruas e valetas, bicicletas e motos sobre canteiros de flores, lixos em qualquer lugar que não seja lixeira, amplificação de ruídos desconexos  tratados por música, xingamentos, discussão de asneiras etc... etc...

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Uma vez flamingo, flamingo até morrer...


Colunistas

Cerra, Ruçomano & houtras hecatombes

“Fernando Haddad surge como uma opção verdadeira numa eleição controversa e plena de absurdos eleitorais”

Márcia Denser
Só por puro masoquismo o eleitor paulistano reelegeria Cerra no segundo turno.

Porquanto Ruçomano – a outra hecatombe alucinógena – foi afastada, graças possivelmente a alguma espécie de iluminação à beira do abismo que acometeu unanimemente todos os candidatos a prefeito em Sampa, fazendo de Ruçomano não só o alvo comum de todos os ataques, como rigorosamente de tiro ao alvo. Mas foi por pouco, dada a votação (tipo 22%) relativamente expressiva da abantesma em pauta.

Voltando ao Cerra, repito: só por puro masoquismo o eleitor paulista reelegeria o nosso vampirinho de plantão pro segundo turno, configurando algo como o Retorno do Ressentido, parafraseando malandramente Lacan, sem contar a Antecipação do Esquecimento (uma vez que já não se trata de Falta de Memória Política), tão comum ao homo otarius paulistano, classe média-média e média-alta, conformado após duas décadas de gestões tucano-demoníacas, cujo julgamento eleitoral vai mixando, sem mais aquela, política, religião & mensalão.

Memória que desde já me proponho a refrescar não fosse esse mesmo Cerra a assinar e referendar em cartório, jurar de pés juntos que “jamais deixaria a prefeitura em 2008” e, também sem mais aquela, dar no pé pra se candidatar à Presidência – o que, do meu ponto de vista, foi esplêndido, não só por deixar a gestão da minha cidade em troca duma Presidência que, de qualquer jeito, ele ia perder – contudo legando uma herança maldita – representada por Kassab, o pupilo autista-autoritário-come quieto de Jorge Bornhausen – pro paulistano amargar durante oito anos intermináveis.

E terminando o mandato com uma rejeição história de cerca de 60%, o sujeitinho é perito em soltar contramedidas e manobras divergentes, tipo retirar saquinhos plásticos do supermercado, impor silêncio nas feiras livres, proibir cartazes na cidade & bobagens afins, enquanto dá-lhe obras e mais obras no melhor estilo Maluf (que a grande mídia faz questão absoluta de NÃO REPORTAR), ganhando por fora das empreiteiras e cujo único legado é ter incrementado – infinitamente – a Parada Gay em Sampa!

Tais gestões tucano-demoníaco-privatistas transformaram a Sampa dos anos 70 – dum cosmopolitismo que prometia uma espécie de mix de Nova York com Hong Kong e naturalmente pré-TeaParty – nesta pós-Sampa dos anos 2000 – uma Mega-Curitiba, atrozmente conservadora, provinciana, careta, tacanha, “politicamente correta” e caipira (cruzes!). Um estado – e respectiva capital – literalmente oco.  Sinceramente, dá vontade de mudar pra Pago-Pago!

Quanto a Serra, lembramos ainda seu comportamento autoritário, inacessível, irascível, tipo tirano não-esclarecido (burro mesmo), sua estratégia política truculenta, diante das greves dos professores, policiais, etc.etc.etc. Em suma: seu alheamento e tolerância zero perante qualquer reivindicação, inclusive do próprio eleitorado, até porque o paulista (capital e estado), por algum motivo que me escapa completamente, vota sistematicamente em quem administra CONTRA os interesses da população que o elege!

Por isso, nós – intelectuais, professores, artistas, formadores de opinião – desta vez, nos reunimos num movimento sem precedentes em vários anos – mais de vinte, trinta? – em torno de Fernando Haddad porque, além de qualificado, carismático e com propostas sociais claras e concretas, surge como uma opção verdadeira numa eleição controversa e plena de absurdos eleitorais.

Aliás, Fernando Haddad é nossa Única Opção, salvo zebras posteriores, nas quais absolutamente não acredito, até porque, apoiado por todos nós, Haddad terá uma responsabilidade redobrada e por uma razão muito simples: nós vamos cobrar.

Quem somos “nós”? Antonio Cândido, Dalmo Dallari, Marilena Chauí, Paul Singer, Gabriel Cohn, Zé Celso Martinez Correia, Maria Rita Kehl, João Adolfo Hansen, Sergio Miceli, Márcia Denser, Roniwalter Jatobá, Luiz Gê, José Miguel Wisnick, Ermínia Maricato, Maria Vitória Benevides, Olgaria Matos, Altamiro Borges, André Singer, Celso Favaretto, Ismail Xavier, Ladislaw Dowbor, João Sette Withaker, Laura Mello e Souza, Luiz Roncari, Raquel Rolnik, Ricardo Musse, Vladimir Safatle, etc.etc.etc.

By the way: eis os “intelectuais” de Cerra: FHC (of course) Bruna Lombardi (who?) e Agnaldo Timóteo – que, por falar nisso, não se reelegeu.

Que descansem em paz.

ET: Querem apostar que NÃO vai ter debate na Globo (sobretudo na Globo)? Na civilização da imagem, qual é o maluco do marqueteiro que iria reeditar Serra-Nixon vs Haddad-Kennedy?

Publicado originalmente no "congressoemfoco"

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Opinião

Rotina macabra

O Estado de S.Paulo
O combate ao crime organizado no Estado de São Paulo com base no "mata-mata" já chegou a um ponto intolerável. Há meses, os paulistas estão assistindo a uma rotina macabra. O mais recente episódio ocorreu entre a noite de terça e a tarde de quarta-feira desta semana, quando pelo menos 12 pessoas foram mortas a tiros na Grande São Paulo, 7 das quais assassinadas pouco depois de um policial militar (PM) ter sido morto em Taboão da Serra. Policiais da região disseram ao Estado que a ação foi uma vingança pela morte do PM. Antes disso, na Baixada Santista, uma onda de violência deixou 13 mortos em cinco dias, também após o assassinato de dois policiais.

Esses números mostram que as autoridades de segurança pública não têm sido capazes de conduzir investigações que levem à captura dos responsáveis pelos atentados contra os policiais. Já são 79 soldados mortos neste ano, e os PMs, por medo de serem surpreendidos pelos criminosos, escondem a farda e andam em comboio quando voltam para casa. Ao mesmo tempo, o governo não parece enérgico o bastante para desestimular a ação dos justiceiros, para quem não interessam coisas civilizadas como o Estado de Direito.

A resposta do governo foi anunciar uma operação com 15 mil PMs no Estado e a realização de um cerco na Baixada e na região metropolitana. "A PM quer demonstrar que está respondendo aos picos de incidências criminais", disse o comandante da PM, coronel Roberval França. Ele negou que esteja em curso uma guerra entre a PM e o PCC, principal organização criminosa do Estado. Para França, trata-se somente de uma "série de delitos".

A reação da PM está em linha com a versão recorrente do governo segundo a qual o fôlego do PCC está no fim. O secretário de Segurança Pública do Estado, Antonio Ferreira Pinto, negou que as mortes na Baixada tenham relação com o PCC e chegou a dizer que parte da imprensa "glamouriza" o grupo, "o que só traz desassossego à população". Segundo Ferreira Pinto, o PCC se resume a "30 ou 40 indivíduos que estão presos há muito tempo e se dedicam ao tráfico". Documentos do Ministério Público, porém, mostram que a facção tem mais de 1.300 criminosos em 123 cidades paulistas.

Atuando desde 1993, o PCC só teve sua existência reconhecida no ano 2000, pelo então governador Mário Covas, de modo que o grupo teve bastante tempo para desenvolver-se sem ser incomodado. E esse poder logo viria a se manifestar: em 2001, o PCC paralisou 30 presídios paulistas, demonstrando alto grau de articulação, que só seria possível num ambiente de ausência do Estado. O impacto dessa exibição de força foi tal que gerou a implantação do Regime Disciplinar Diferenciado, para isolar os líderes das facções nos presídios. Em novembro de 2002, o governo já se sentia à vontade para declarar, pela voz do delegado responsável pelo combate ao crime organizado, que o PCC havia sido "desmantelado" - e ainda brincou: "Se o PCC tinha uma boca cheia de dentes, agora tem um dentinho aqui, outro ali". Apenas quatro anos mais tarde, esse PCC "banguela" promoveu uma onda de terror inédita em São Paulo, matando dezenas de policiais e impondo toque de recolher em bairros da periferia.

É de fato prudente não exagerar o poder do inimigo, e o esforço do governo para não demonstrar fraqueza ante o PCC é estrategicamente correto. No entanto, ao minimizar o alcance do grupo, querendo fazer crer que se trata apenas de um punhado de traficantes, as autoridades atentam contra as evidências e manifestam em seu discurso uma tal desconexão com a realidade que, ao fim e ao cabo, os cidadãos ficam sem saber se poderão voltar a se sentir seguros.

Para conter a ofensiva do crime organizado, as autoridades do Estado fariam melhor se deixassem de lado o discurso sobre a fragilidade do PCC, que a realidade teima em desmentir, e começassem a investir de fato na inteligência para identificar os autores intelectuais dessa onda de crimes contra policiais. Outra solução, bem menos trabalhosa, é fechar os olhos e deixar que vingadores façam o "serviço". Mas aí sairemos do campo da segurança pública e entraremos no da barbárie.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 12 / 10 / 2012

Folha de São Paulo
"Supremo absolve ex-líder do governo Lula e mais 2" 

Professor Luizinho é inocentado da acusação de lavagem; mais 3 devem se livrar

A divisão dos ministros do STF sobre a caracterização da lavagem de dinheiro deve levar à absolvição dos seis réus no capítulo do mensalão que trata de repasses de dinheiro a petistas e a um ex-ministro. Já há maioria para livrar três: o ex-deputado federal Professor Luizinho (PT), que foi líder do governo Lula na Câmara, e Anita Leocádia e José Luiz Alves —acusados de intermediar recebimento de recursos ilícitos. Os outros três —os ex-deputados petistas Paulo Rocha (PA) e João Magno (MG) e o ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto— têm cinco votos favoráveis e precisam de só mais um para serem inocentados. Desta vez, a maioria dos ministros esteve com o revisor, Ricardo Lewandowski; Joaquim Barbosa ficou isolado. Restam três votos para encerrar o capítulo. Em caso de empate, os réus devem ser beneficiados.

O Estado de São Paulo
"Planalto diz que uso político do mensalão não é inteligente" 

Para Carvalho, apelo moral não funciona; Serra afirma que Dirceu quer compensar condenação com eleição

Às vésperas do segundo turno das eleições, o mensalão continua gerando discussão entre governo e oposição. O ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) disse que quem usar o tema não terá sucesso. “A única coisa que posso dizer é que aqueles que têm apostado no uso político de fatos como esse nunca se deram bem”, disse. “O primeiro turno registrou a vitória das forças progressistas do País, acho que isso tem de ser comemorado, então quem for inteligente não vai tentar fazer esse uso.” As declarações ocorrem dois dias após a condenação de José Dirceu pelo STF. O candidato José Serra (SP) disse que “o mensalão é obra do PT” e Dirceu tenta usar a eleição para “compensar” sua condenação. “É uma coisa estranha que alguém condenado pela Justiça de repente considere que o mais importante é ganhar a eleição em SP.”

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quinta-feira, outubro 11, 2012

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Opinião

O alcance de uma sentença

O Estado de S.Paulo
Conceda-se, apenas para argumentar, que os costumes políticos brasileiros permanecerão em geral os mesmos apesar da decisão sem precedentes do Supremo Tribunal Federal (STF) de condenar por corrupção ativa, entre outros, um dos mais importantes líderes de sua geração, o ex-ministro da Casa Civil da Presidência da República José Dirceu, homem forte do PT durante décadas e do governo Lula nos seus primeiros anos. Afinal, poderão dizer os céticos, invocando um exemplo de varejo, porém ainda assim revelador, na semana passada, em pleno julgamento do mensalão, a Polícia Federal apreendeu R$ 1,1 milhão que serviria para subornar eleitores em Paraopebas, no Pará, sem falar de R$ 1.280 que, como manda o figurino, estavam escondidos na cueca de um agente petista em Manaus.

Mas o prognóstico de que, passado o choque inicial das sentenças acachapantes da Suprema Corte, tudo continuará igual em matéria de conquista e ocupação do poder, equivale de alguma forma a acreditar na enormidade de que o mensalão não só foi uma operação de caixa 2 entre o PT e aliados, como saiu da cabeça do tesoureiro da agremiação, o matuto Delúbio Soares. O fato é que, "pela primeira vez na história deste país", a Justiça processou, julgou e puniu dezenas de réus de um esquema ambicioso de corrupção política engendrado nas entranhas do governo federal. E o fez deixando claro que, em estrita obediência ao devido processo legal, o Judiciário tem condições técnicas, institucionais e morais para reconstituir, passo a passo, um escândalo de tamanhas proporções e identificar os seus autores.

Se não por uma improvável conversão aos valores que devem ditar a conduta dos detentores da representação popular, ao menos a certeza da punição fará a maioria dos políticos habituados a ceder aos seus piores instintos, a custo zero, pensar duas vezes antes de delinquir. Inescrupulosos ou honestos, decerto já se deram conta de que o breve do Supremo contra a corrupção vem no bojo da repulsa da opinião pública - uma coisa realimentando a outra - à imundície das estrebarias do poder. Há, nesse sentido, uma relação entre a cobrança popular que gerou a Lei da Ficha Limpa e as esperanças do País quando, sete anos depois da revelação dos fatos, o STF começou a julgar os mensaleiros. A súbita popularidade do severo relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, atesta que a consciência moral da Nação está viva e desperta.

Os brasileiros leigos nem sempre conseguimos acompanhar os pontos de doutrina discutidos nas sessões da Corte transmitidas ao vivo. Mas a sociedade entende perfeitamente - e se rejubila - quando o decano do tribunal, Celso de Mello, saúda o direito do cidadão de exigir "que o Estado seja dirigido por administradores íntegros, legisladores probos e juízes incorruptíveis". Ou quando a ministra Cármen Lúcia expressa a sua ira contra a versão oficial, rota desde o primeiro momento e descartada pelo STF, de que não houve suborno de deputados, mas caixa 2. "Caixa 2 é crime, uma agressão à sociedade", fulminou. "(A defesa) passa a ideia de que ilícito pode ser praticado e tudo bem. Não é 'tudo bem'". Ela integrou a maioria que condenou Dirceu (além do então presidente petista José Genoino e do notório Delúbio) com base em três pontos críticos.

Pela posição que ocupava no coração do governo e por sua influência política dentro e fora do PT, ele dispunha dos meios para orquestrar a compra de apoio parlamentar ao Planalto. Portanto, podia e - a julgar pelo muito que dele se conhece - queria. Não bastasse isso, há a proximidade de datas entre os encontros de Dirceu com banqueiros (e Delúbio!) e os repasses de dinheiro manchado. Por último, se é inverossímil que o tesoureiro do PT tenha criado e dirigido o espetáculo, a tese da iniciativa e comando de Dirceu é de todo verossímil. Assim também o nexo entre Lula e o mensalão. A mesma lógica que une Delúbio e Genoino a Dirceu no trâmite do negócio liga o "capitão do time" do governo ao presidente. O ex-ministro condenado por ter concebido e comandado o esquema, não o levaria adiante sem, no mínimo, o sinal verde do chefe. E este, que nomeou 5 dos 10 atuais membros do STF, vem dizer, insultuosamente, que a condenação de seus companheiros foi "uma hipocrisia".

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 11 / 10 / 2012

Folha de São Paulo
"Haddad começa 2º turno 10 pontos à frente de Serra" 

Datafolha mostra petista com 47% dos votos, e tucano com 37%; Russomanno diz que não apoiará ninguém

O primeiro Datafolha para o segundo turno em São Paulo mostra Fernando Haddad (PT) com 47% dos votos, dez pontos à frente do tucano José Serra (37%). Os eleitores que dizem estar indecisos somam 8%. A margem de erro é de dois pontos percentuais. Se forem considerados só os votos válidos (excluídos brancos e nulos), Haddad vence Serra por 56% a 44%. Terceiro colocado no primeiro turno, com 21,6% dos votos válidos, Celso Russomanno (PRB) anunciou que ele e seu partido não vão apoiar nenhum candidato. Com problema para fechar acordo com o PT em Natal, o PMDB de Gabriel Chalita adiou para hoje o anúncio de apoio à campanha de Haddad.

O Estado de São Paulo
"Condenado, Dirceu diz que prioridade é ganhar 2º turno" 

Ex-ministro afirma no Diretório do PT que meta agora é superar o PSDB em SP; Genoino deixa cargo no governo

Condenado pelo STF por corrupção ativa, o ex-ministro José Dirceu disse ontem no Diretório Nacional do PT que a demanda do mensalão será “uma batalha para muitos anos”. Ao conclamar seus companheiros a se mobilizar para o desafio das eleições municipais em São Paulo, ele declarou: “A prioridade agora é o segundo turno, ganhar a eleição em São Paulo. O resto vamos resolver durante toda a nossa vida”. O ex-ministro agradeceu “o apoio, a solidariedade” que vem recebendo do PT. Antes de destacar que o importante agora é levar o candidato da legenda Fernando Haddad ao triunfo, ele se disse “injustiçado, condenado sem provas”. Também condenado, José Genoino pediu ontem demissão do cargo de assessor especial do Ministério da Defesa. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, autor dos pedidos de condenação, disse que o resultado é “exemplar” e rebateu carta em que Dirceu comparou a decisão do STF a um “juízo político de exceção”. Para ele, a afirmação é “absolutamente despropositada”.

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quarta-feira, outubro 10, 2012

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Opinião

O convênio Petrobrás-CUT

O Estado de S.Paulo
Como outras empresas que necessitam de mão de obra qualificada não disponível no mercado, a Petrobrás tem realizado diretamente ou com a contratação de empresas especializadas cursos de formação e preparação de técnicos em vários níveis nas áreas de petróleo, gás e energia. A educação básica, porém, não tem nada a ver com a natureza da estatal e, para isso, já existem programas específicos do governo, sob a responsabilidade do Ministério da Educação (MEC). Não foram suas necessidades nem seus objetivos sociais que justificaram os convênios de R$ 26 milhões firmados em 2004 e 2007 com a Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do PT, e à sua coligada Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS), para alfabetização de 200 mil pessoas. Trata-se de área inteiramente estranha às atividades sindicais e aos objetivos definidos pelos estatutos da Petrobrás.

Se há algo surpreendente na decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) - tomada no último dia 26, de determinar a abertura de tomadas de contas especiais para calcular os prejuízos e identificar eventuais responsáveis por irregularidades, por não haver comprovação suficiente de que o trabalho tenha sido realizado em condições satisfatórias - é o fato de a providência ter demorado tanto. Além da CUT, são alvo de processos para apuração de danos três outras instituições, que receberam da estatal valores menores, mas também deixaram de apresentar os documentos comprobatórios exigidos. A área técnica do TCU havia proposto a aplicação imediata de multas aos dirigentes da estatal, o que não foi aceito pelo relator do processo, tendo o tribunal decidido avaliar antes as tomadas de contas especiais.

O relatório do TCU nota que os convênios foram firmados sem uma exposição de motivos ou documentos que permitam saber a razão pela qual a CUT e a ADS receberam os recursos da Petrobrás para um projeto do programa Brasil Alfabetizado, do MEC. Além de não ser equipada para proporcionar ensino básico, a CUT nunca mostrou preocupação especial com o tema. Sua cartilha é outra, versando, principalmente, sobre o direito de greve. Quanto à ADS, constituída em 1999, da qual também participam o Dieese e outras instituições, suas atividades têm sido orientadas, principalmente, para o fortalecimento de cooperativas e outros empreendimentos coletivos, sem vínculo, pelo que se tem conhecimento, com atividades na área de educação fundamental.

O relatório diz também que a Petrobrás não apresentou fichas de acompanhamento individual dos alunos, listas de presença, documentos sobre o acompanhamento das ações dos alfabetizadores e o número de alfabetizandos. Por isso, não é possível aferir se o dinheiro pago era compatível com as atividades previstas. A CUT alega ter cumprido todas as etapas da parceria e que apresentou comprovantes dos serviços prestados. A Petrobrás afirmou que não existem irregularidades ou beneficiamento político-partidário nos convênios firmados durante a gestão de José Sérgio Gabrielli, "o que será comprovado pela companhia no andamento do processo". Nem a CUT nem a estatal explicaram, no entanto, por que o MEC foi mantido inteiramente à margem desses convênios, já que, como assinala o TCU, a pasta deveria, no mínimo, atuar como fiscal dos projetos.

Parece longe de ser casual o fato de a Federação Única dos Petroleiros, que representa os funcionários da Petrobrás e com a qual a direção da estatal procura manter as melhores relações, ser filiada à CUT. Isso pode explicar por que a diretoria da empresa transferiu generosamente recursos para a central sindical petista, para um programa sem justificativas, pois não faz parte das suas finalidades, e cuja execução, como mostrou o TCU, não tem comprovação adequada.

Acertos financeiros motivados por interesses político-partidários ou ideológicos, como tudo indica ser esse entre a Petrobrás e a CUT, são condenáveis em quaisquer circunstâncias. Quando envolvem, como falsa justificativa, o déficit educacional do País, o "malfeito" é ainda mais grave.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 10 / 10 / 2012

Folha de São Paulo
"Mensalão o julgamento - Culpados" 

Maioria do STF condena José Dirceu e cúpula do PT por corrupção; Tribunal conclui que homem forte de Lula comandou compra de votos ex-ministro afirma que foi ‘linchado’

Sete anos e quatro meses após o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) revelar à Folha a existência do mensalão, a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal concluiu que José Dirceu (PT), então ministro da Casa Civil e homem forte do governo Lula, comandou o esquema de compra de votos no Congresso. Chamado de “chefe da quadrilha” pela Procuradoria-Geral da República, Dirceu foi condenado por corrupção ativa por 6 dos 8 ministros que já votaram — faltam outros dois. Para eles, o petista foi o principal responsável por corromper congressistas com o uso de dinheiro público. Lewandowski e Dias Toffoli o absolveram. Também foram considerados culpados o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, o ex-presidente da sigla José Genoino e Marcos Valério, o operador do mensalão. Dirceu alega ter sido “linchado” e ataca o STF, que, segundo ele, agiu “sob forte pressão da imprensa”. Para o petista, houve “um juízo político e de exceção”. “Vou acatar a decisão, mas não me calarei”, afirmou. Genoino disse que, “como inocente”, está “revoltado”. Em reunião fechada, Lula conclamou petistas a reagir sempre que forem chamados de mensaleiros.

O Estado de São Paulo
"Supremo condena Dirceu" 

Maioria considerou o ex-ministro da Casa Civil culpado por corrupção ativa; Também foram condenados José Genoino e Delúbio Soares; Decisões do mensalão poderão alterar entendimento da 1ª instância sobre crimes de quadrilha e lavagem

Mensalão Especial - Sete anos após o início do escândalo do mensalão, a maioria dos integrantes do STF condenou José Dirceu pelo crime de corrupção ativa. Para a Corte, o ex-ministro participou do esquema de compra de apoio político. Dirceu ainda não foi julgado por formação de quadrilha, da qual é acusado de ser o “chefe” pela Procuradoria-Geral da República. Embora sua defesa diga não haver provas de sua participação em compra de voto, o STF concluiu que não havia como Dirceu não saber do esquema que envolvia o PT - partido que ajudou a fundar em 1980 - e mais quatro siglas. Para o STF, a ordem para formar a base de apoio a Lula saiu do Palácio do Planalto. Com isso, os ministros também abrem um novo capítulo no combate à corrupção: a inexistência de um “ato de ofício” não será mais garantia de impunidade para autoridades que praticarem crimes no exercício da função pública. O STF selou também o destino de outros dois réus do PT: José Genoino, ex-presidente do partido, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro, foram condenados. Após a condenação, Dirceu publicou nota em seu blog em que diz que “acatará a decisão”, mas “não se calará”.

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Novidade!

Thomas Edison examina um carro elétrico por volta de 1914

terça-feira, outubro 09, 2012

Eleições 2012

Excesso de cordialidade

Sidney Borges
Há perplexidade em minha cabeça de candidato derrotado. Como pode acontecer? Eu tinha certeza de que teria cinco vezes mais votos do que tive. Certeza que ganhou forma através dos contatos com o povo em minhas andanças por esse município comprido como o mapa do Chile. Foram mais de 5 mil casas visitadas. Fui bem recebido, tomei café, comi mandioca cozida e recebi a garantia de que tinha sido escolhido. Não foram poucas as vezes em que o dono da casa disse que ia conversar com parentes, cunhado, prima e tia para indicar o meu nome.

O resultado das urnas foi terrivel, meus sonhos rolaram por água abaixo. Onde foi que errei? Pensando bem não houve erro, houve má avaliação. Acreditei demais no povo da minha terra. O ubatubense é a prova viva de que Sérgio Buarque de Holanda estava certo quando escreveu Raízes do Brasil. O homem brasileiro é cordial, o ubatubense é, por tradição caiçara, um pouco mais. É hospitaleiro, recebe bem, ouve o que o visitante tem a dizer e concorda para não estragar o clima. Depois age conforme seu coração manda.

Se estivessemos na Alemanha as coisas seriam diferentes: "eu não fota na senhorrr de xeito nenhum..., mas estamos no Brasil. Vai daí que...

Vou reclamar com o bispo! Resolve?

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Pitacos do Zé


E por falar em cidadania... (XIV)

José Ronaldo dos Santos

 
Momento 1: No dia da eleição, assim que amanheceu, bem perto da escola “Aurelina”, no bairro da Estufa II, registrei a cena triste: muito “lixo democrático” pela rua se confundindo com a aparência desagradável e maltratada do estabelecimento de ensino.

Momento 2: Ao passar pelo local de votação, na Escola Objetivo, reparei num casal que ia adiante. Reconheci a mulher: é uma vice-diretora de escola pública municipal. Vasculhavam o entorno tranquilamente. Logo o homem, um perfeito cavalheiro, se abaixou para pegar, no “lixo democrático”, um papel. Entregou à sua companheira. Pareceu-me que ela ficou satisfeita com a escolha. Depois foi a vez dela fazer o mesmo. Tive a impressão que ele também aceitou de bom grado o achado dela. E lá se foram felizes em direção às urnas para o exercício da cidadania.

Depois desses momentos, pergunto:
- Que lição tirar dessa eleição, desses momentos?

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Opinião

A força dos grandes partidos

O Estado de S.Paulo
As urnas de domingo em âmbito nacional trouxeram resultados para quase todos os gostos. O PSB do governador pernambucano Eduardo Campos, por exemplo, tornou-se a quarta maior força eleitoral do País, tendo avançado duas casas (ou 51% em número de votos para prefeito) desde a primeira rodada da disputa municipal de 2008 - coroando as suas robustas vitórias no Recife e em Belo Horizonte. Já o PSD do prefeito paulistano Gilberto Kassab, na sua eleição de estreia, foi o que mais elegeu prefeitos em proporção ao total de candidatos apresentados, passando a ocupar o antigo lugar do PSB na configuração política das cidades brasileiras. Mas a relativa dispersão das preferências do eleitorado, acrescentando dois atores ao elenco principal e confirmando o rebaixamento do DEM a coadjuvante, não abalou a hierarquia partidária estabelecida.

O PMDB continua sendo a agremiação municipal hegemônica do Brasil. Embora tivesse perdido 280 das posições conquistadas há quatro anos e 10% do seu eleitorado, ainda fez cerca de 1.020 prefeitos - a começar do campeão de votos Eduardo Paes, no Rio - e levou outros 15 de seus candidatos ao segundo turno. O PT manteve a trajetória de alta nas urnas municipais. Com 17,3 milhões de sufrágios, desbancou o PMDB como o partido mais votado para o governo das cidades e agregou 69 prefeituras às 558 de 2008. Por fim, no pelotão da frente, o PSDB ratificou a sua condição de maior partido oposicionista. Embora tivessem perdido, grosso modo, 100 prefeituras e 630 mil eleitores, os tucanos foram mais uma vez a primeira escolha dos brasileiros refratários ao PT do ex-presidente Lula e da sua sucessora Dilma Rousseff. A sua taxa de sucesso - proporção de eleitos no conjunto de seus candidatos - é sete pontos superior à do partido do governo.

Em nenhuma das principais cidades, a preferência por uma ou outra das maiores legendas em confronto foi tão nítida como em São Paulo, precisamente onde, há poucas semanas, um candidato da periferia do sistema partidário, Celso Russomanno, do PRB, parecia a caminho de subverter o padrão consolidado de distribuição de votos, eleição depois de eleição. Tucanos e petistas tardaram a ir para cima do outsider - o primeiro a fazê-lo foi o peemedebista Gabriel Chalita. Mas, a partir do momento em que passaram a expor a contrafação que era a candidatura do "menino malufinho" tutelado pela Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, começou a "volta aos quadros constitucionais vigentes", como diria em tempos idos o marechal Henrique Teixeira Lott. E o desde sempre favorito, o ex-prefeito e ex-governador José Serra, terminou na ponta, com 30,7% dos votos.

O restabelecimento da normalidade eleitoral na metrópole levou ao segundo turno, com praticamente 29% dos votos, o petista Fernando Haddad, neófito em eleições. Não faz muito, o cenário tido como o mais provável para o tira-teima do dia 28 opunha Serra a Russomanno. A recuperação do ex-ministro da Educação na reta final premiou o seu patrono Lula, que tinha prometido "até morder canela de adversário" para levar o afilhado adiante. Agora é que não arredará o pé das ruas paulistanas. Isso, mais o êxito no seu reduto de São Bernardo do Campo e em outros municípios da Grande São Paulo, decerto lhe servirá de consolo para o vexame sofrido no Recife, outro bastião lulista, onde o candidato que impôs ao PT ficou em humilhante terceiro lugar. Dilma, por sua vez, carregará a derrota de seu escolhido em Belo Horizonte para o prefeito Marcio Lacerda, do PSB, com o apoio entusiástico do presidenciável tucano Aécio Neves.

O que chama a atenção em São Paulo, tanto quanto a repetição dos embates de 2004 e 2008 entre PSDB e PT, é a cristalização da geografia eleitoral do Município, com os tucanos dominando o centro expandido a oeste e a norte, e os petistas prevalecendo nas zonas leste e sul - duas realidades estruturadas.

Por fim, ressalte-se a eficiência operacional "escandinava" do sistema de votação, apuração e divulgação dos resultados em todo o País. Se a área pública em geral funcionasse assim, o Brasil seria outro.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 09 / 10 / 2012

Folha de São Paulo
"Petistas e tucanos dominam eleição em grandes cidades" 

PT vence em 8 municípios com mais de 200 mil eleitores e disputa mais 22; PSDB obtém 6 vitórias e tem chance em 17

O resultado das eleições municipais mostra que o PT e o PSDB tiveram os melhores desempenhos no grupo das principais cidades do país, aquelas que possuem mais de 200 mil eleitores. Dos 83 municípios que se incluem nesse perfil, 8 foram conquistados no primeiro turno pelo PT, que disputará outros 22 agora. Por sua vez, o PSDB elegeu 6 prefeitos e tem 17 candidatos ainda no páreo. Apenas em municípios com mais de 200 mil eleitores é possível a realização de um segundo turno. As siglas vão duelar em seis dessas cidades no segundo turno, sendo três capitais: São Paulo, João Pessoa (PB) e Rio Branco (AC). O PT também está na disputa em Salvador (BA), Fortaleza (CE) e Cuiabá (MT), e o PSDB, em Belém (PA), Manaus (AM), São Luís (MA), Teresina (PI) e Vitória (ES). Contrariando Lula, o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) disse que o mensalão atrapalhou o PT, mas o partido “sobreviveu ao obstáculo”.

O Estado de São Paulo
"STF define futuro de Dirceu e Planalto tenta se blindar" 

Ex-ministro deve ser condenado hoje por corrupção; ordem no governo é respeitar decisão e evitar manifestações

Após sete anos sob investigação, José Dirceu terá um novo capítulo de sua biografia escrito hoje pelo STF. O ex-ministro da Casa Civil deve ser condenado por corrupção ativa por ter comandado esquema de compra de apoio político no Congresso, o mensalão. Três dos dez ministros do STF já condenaram Dirceu e devem ser acompanhados pelos colegas. A presidente Dilma Rousseff quer blindar o governo contra qualquer efeito do veredicto de Dirceu e dos ex-dirigentes do PT José Genoino e Delúbio Soares. Nos últimos dias, a orientação repetida no Planalto é a de respeitar a decisão do tribunal, evitar manifestações políticas públicas contra o resultado e prosseguir com a rotina de governo. A mesma instrução havia sido transmitida no início do julgamento, em agosto.

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segunda-feira, outubro 08, 2012

Raios...


Eleições 2012 - Ubatuba

É a matemática estúpido...

Sidney Borges
A expressão "é a economia estúpido" foi criada por James Carville, assessor da campanha de Bill Clinton e serviu para derrotar George Bush, o pai. Faço uma adaptação aos dias que correm e a uso para fazer alguma considerações sobre a eleição de ontem, 7 de outubro de 2012.

Alguns meses atrás ainda não estava claro quem seria o candidato que Eduardo Cesar lançaria para ser seu sucessor. Falava-se em Sato e em Júnior, secretário de obras, que chegou a iniciar uma campanha com adesivos em carros, mas foi preterido na corrida ao trono. Para os que acompanham política era sabido que Maurício Moromizato seria o adversário da situação. Bem votado em 2008, Moromizato tinha a seu favor a popularidade em queda do prefeito e o trabalho incansável da militância petista.

Acabei de colocar dois parágrafos de obvidades, logo chego aonde pretendo. Na matemática. Escolhido o candidato a sucessor ficou claro que a parada seria difícil. Sato nunca emplacou. Jamais conseguiu entusiasmar o eleitorado. Eduardo Cesar sabia disso e em uma reunião famosa na Praia Dura colocou seus temores e sua estratégia para impedir a vitória do opositor. Estavam presentes alguns futuro candidatos cujos olhos brilharam de entusiasmo com a possibilidade de receber apoio do Rei, que teria dito algo do seguinte teor: "se a campanha do Sato não decolar eu apoio qualquer um de vocês, farei qualquer coisa para impedir a vitória do Moromizato".

As palavras podem ter sido outras, em síntese estou colocando o que me foi passado por diversos participantes do colóquio.

A candidatura Sato continuou batendo pino enquanto Moromizato crescia. Sem números é difícil saber a quantas andamos. A base da estratégia política - e da guerra - é a informação. O apoio da máquina dá a impressão de força. Contando com os votos dos agregados, mas inseguros os estrategistas da situação tomaram uma decisão que considerei suicida - e foi suicida - dividiram as preferências dos eleitores apoiando abertamente uma segunda candidatura. De mesmo perfil ideológico. 

Quando algumas pesquisas começaram a pipocar na mídia tive acesso aos números de duas delas sem registro na Justiça Eleitoral, mas com dados tão próximos que me deram a impressão de autenticidade. Maurício tinha ampla vantagem nas duas. Houve estrilos por toda parte, mas restritos aos envolvidos na disputa, as pesquisas não eram públicas.

O caldo entornou quando veio a público a pesquisa do Imprensa Livre. Houve choro e ranger de dentes e foi aberta a caça ao Saulo que teria manipulado os números na versão de alguns eleitores da situação que mostraram descontrole e desespero.

Usando de um mínimo de matemática foi possível traçar as curvas que os números definiam no plano cartesiano e assim fazer uma previsão do que aconteceria ontem.

Só não foi posível prever que a vitória da oposição seria tão contundente.

Mérito do Moromizato, mas também de Eduardo Cesar e seus espantosos oitenta e dois por cento de rejeição.

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Eleições 2012

Em Ubatuba tem um desses gargalhando...

Coluna do Mirisola

Sobre demolições

“Surgiu um novo tipo de preconceito na praça. Trata-se do preconceito contra apresentadores de televisão apadrinhados por bispos neo-evangélicos”

Marcelo Mirisola
Eu sempre digo que não atravesso uma rua,que não digo bom dia ao porteiro do meu prédio, sem antes consultar meus preconceitos. Na maioria das vezes eles – que são muitos e das mais variadas espécies e categorias – são bons conselheiros. Eu os assumo. Tenho preconceito contra borda de pizza recheada com catupiry, não tolero balconistas que perguntam se “é pra viagem” (se fosse eu pedia, ora!) e acredito que o mundo seria muito melhor se Carlinhos Brown e Regina Casé e as terceirizações de ambos não existissem. Até aqui nenhuma novidade.

A grande novidade é que surgiu um novo tipo de preconceito na praça. E, embora eu compartilhe 100% da nova modalidade, juro que não fui eu quem o inventou. Trata-se do preconceito contra apresentadores de televisão apadrinhados por bispos neo-evangélicos.

E se Russomano fosse macumbeiro, homossexual, preto e se chamasse Silva?  Seria odiado e rejeitado pela “inteligência esclarecida” da mesma forma que é somente porque apresenta programas sensacionalistas na tevê, é branco e apadrinhado pelo Edir Macedo? A ojeriza se deve à imagem ou àquilo que ele efetivamente representa? Se é impossivel dissociar uma coisa da outra, seria o caso de dizer que existe uma intolerância tolerável? Uma espécie de preconceito politicamente correto?

***

Voltei pra SP pra ver minha gata, palestrar no SESC , assistir o show do Bortolotto, que fez 50 anos cantando Robertão, e combinar o lançamento do meu infantil com o Pedro Galé, oquei. Resolvi que ia comer uma feijoada no bar da Geralda. Quando chego na Nestor Pestana não existe mais a Kilt. Derrubaram o Castelinho da Cinderela. De uma hora pra outra, minha memória afetiva – que já é um escombro pela própria natureza – vira um amontoado de nada.

Pra quem não é de São Paulo, explico: a Kilt era mais do um puteiro. Era uma lenda. Bem, vou fazer uma comparação que vai parecer descabida pra muita gente. Seguinte. Quando se trata de Teatro Oficina, o lugar é sagrado. Aquela frescura. Tem a arquitetura da Lina Bardi, invoca-se o Exu de Oswald, Oswald … com aquele sotaque insuportável dando ênfase ao “d” mudo que o próprio “Homem do Povo” repudiava, e ninguém mexe. Tem verba da Petrobrás, chilique do Zé Celso e o escambau. A mim, o Oficina nunca disse nada. Inclusive, eu moro (ou morava, sei lá) nas redondezas. Acredito sinceramente que a permanência do Oficina naquele lugar é prejudicial ao entorno. A região adjacente … ou “aquilo ali” virou anteparo da miséria humana. Um lugar ermo, violento, degradado. Sou a favor de construir um shopping bem escroto no local, pelo menos vai ter banheiro limpo pra gente cagar e iluminação nas vias públicas. Você que está odiando o que eu escrevo, experimente subir a rua Jaceguai de madrugada. Vai lá.

A questão é a seguinte. O Castelinho da Nestor Pestana era paisagem da minha libido. No meu caso, mais paisagem do que carne. Nunca tive grana pra gastar lá dentro, mas a Kilt funcionava como matéria de ficção, era minha ondina, minha fada guardiã dos tesouros dos Nibelungen, minha Lorelei/ Mandiopã. E eu garanto que o Castelinho ocupou não só a minha libido, mas o tesão de muita gente – e por décadas. Só que essa gente não é artista pra reclamar, né?

Eu só queria ver a gritaria se, da noite pro dia, derrubassem o Teatro Oficina. Que – a meu ver – não passa de uma libido artificial, oficializada às custas de ladainha, e muito chilique do Zé Celso.

Derrubar o Castelo da Kilt foi um desastre. Um desastre simbólico. Porque arquétipos não são exclusividades do mundo do teatro, e nem das artes no atacado. Os signos se impõem como aleijões no inconsciente das cidades. Por si só, e muito raramente funcionam quando planejados. Vejam só o Memorial da América Latina. Aquilo ali é um deserto, não diz nada a São Paulo e muito menos à América Latina.

Acontece o oposto vertiginoso com a estátua do Borba Gato. Que é uma aberração, porém, ao mesmo tempo, é um sucesso que se impôs pela sua própria natureza grotesca, o bandeirante sanguíneo pulsa no ritmo pesado da cidade, apesar do suposto bom gosto daqueles que o abominam. Aquilo ali é imune a qualquer tipo de macumba antropofágica. Aliás, se eu fosse o prefeito mandava construir uma réplica do Borbão dentro do Oficina, e metia o bacamarte na bunda do Zé Celso – ele ia adorar. Tentem imaginar São Paulo sem o Borba Gato ou imaginem um microondas gigante em cima do Corcovado.

A Nestor Pestana ficou banguela sem a Kilt. Eu me senti um assexuado ao passar por aquela esquina, minha libido ficou mais molenga que a pança do Kassab. Só pra dizer que eu carregava a breguice e as doenças venéreas daquele lugar na alma. E agora? Quem é que vai indenizar minha memória afetiva gonocócica e o meu mal gosto encalacrado?

***

Será que alguém lembrou de salvar os vikings da demolição?

***

Ufa! Hebe morreu.

Um trecho do Monólogo da Velha Apresentadora, peça que escrevi em “homenagem” a Hebe Camargo quando ela, e o saudoso Guzik que a interpretou no palco dos Satyros, ainda viviam:

“Um Cadillac preto estacionava na frente do apartamento do Flamengo, e levava a biscate. O chofer pessoal do dr. Getúlio vinha apanhá-la e seguiam direto para Poços de Caldas:

Hebe – Uma vez só participei de uma festinha no Palace Hotel. Virginia me levou – é claro – porque foi obrigada. Se não fosse por isso, hoje, o petróleo não seria nosso. Mas essa é uma outra história, coisa minha e do doutor Euzébio, homem “idialista” mas completamente desleixado. Uma alma elevada!… ele sempre trazia consigo uma orquídea junto com um buquê de versos. Ele que me apresentou Neruda:

Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos cabelos,
vem com mil homens entre o peito e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados.

Um rio cheio de afogados… Ah!… Ninguém lembra do dr. Euzébio! Mas eu lembro… era um obcecado: doutor Getúlio o ouvia, e ele, dr. Euzébio… humm fazia o que eu queria debaixo dos lençóis. Nojento. Descuidava do asseio: um horror! Dos tímpanos e das narinas daquela “alma elevada” brotavam enormes tufos de pêlos grisalhos. Um horror! Ai, que horror.

Mas o Petróleo é nosso, é ou não é? Essa merda brotou dos meus pesadelos direto para os sonhos do dr. Euzébio. Carca, mete a broca, Euzébio! O líquido negro e viscoso começou a brotar daqui (apalpa o púbis com raiva) desse meu ventre seco que nunca verteu nada diferente de aborto, luxúria, interesse e desdita. Isso mesmo, eu tenho orgulho! EU PARI CADÁVERES! PARI CAMUNDONGOS! PARI DUPLAS SERTANEJAS! Eu me fiz, e a história desse país escroto passa por aqui, e vocês querem saber de uma coisa? Cheira mal, muuuuuito mal”.

Aqui a peça na íntegra. http://www.cronopios.com.br/site/prosa.asp?id=4723

Tenham todos uma ótima semana e lembrem que o Tiririca tá dando um ótimo deputado.

Publicado originalmente no "congressomfoco"

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Opinião

Brasil, o pesadão da turma

O Estado de S.Paulo
Mais pesadão e, portanto, bem menos ágil que grande parte dos vizinhos, o Brasil deve chegar ao fim do ano com um crescimento econômico de apenas 1,6%, metade do projetado para a região, segundo projeções da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Confirmadas as previsões, a economia brasileira será um destaque negativo também sob outro aspecto. Será um dos poucos países do hemisfério com desempenho pior que o do ano passado, quando sua expansão, de 2,7%, já foi muito modesta e bem inferior à média regional, de 4,2%. Os resultados da economia latino-americana deverão ser bem melhores em 2013, com avanço geral de 4%. A atividade no Brasil deverá acompanhar esse ritmo, segundo as novas estimativas. Depois de dois anos de estagnação, será uma recuperação muito modesta.

A melhora do quadro no Brasil e na maior parte do hemisfério dependerá em boa parte do enfrentamento da crise no mundo rico. O cenário global de 2013 foi construído, no relatório, com base em uma hipótese um tanto otimista. Tanto nos EUA quanto na Europa haverá arranjos políticos para impedir um aperto fiscal mais severo e mais recessivo. Isso dependerá, nos dois lados do Atlântico Norte, de complicadas negociações entre partidos e até entre governos. A mesma hipótese tem sido adotada em outras projeções. Em qualquer caso, as perspectivas do Brasil parecem bem menos favoráveis, neste momento, que as do Chile, da Colômbia, do Peru, do México e de vários outros países latino-americanos.

O maior dinamismo desses países fica evidente quando se compara sua expansão ao longo de três anos. Tomem-se as médias aritméticas de crescimento em 2010, 2011 e 2012, admitindo-se como corretas as previsões para este ano, que são as seguintes: Brasil, 3,9%; Chile, 5,7%; Colômbia, 4,8%; México, 4,5%; Peru, 7,2%; e Uruguai, 6%. A média anual latino-americana é de 4,5%. A sul-americana, 4,6%.

As comparações seriam mais desfavoráveis ao Brasil, se os autores se aprofundassem mais no exame de certos detalhes. Segundo eles, a maior parte dos governos latino-americanos ainda tem espaço, nas contas públicas, para a adoção de políticas anticíclicas, em caso de choques recessivos. No caso do Brasil, poderiam ter acrescentado, o espaço é hoje bem menor do que em 2008, porque o governo pouco fez para tornar o orçamento mais sólido e mais flexível. Apesar da redução dos juros pagos pelo Tesouro, neste ano, o déficit nominal (a medida mais ampla do resultado fiscal) aumentou desde março. Isso se explica tanto pela piora da arrecadação quanto pela rigidez dos gastos.

Sem pormenores desse tipo, o relatório oferece um balanço geral das políticas dos últimos dez anos, com algumas recomendações à maioria dos governos. Antes de recorrer de novo a estímulos, será bom reavaliar as limitações orçamentárias. Observação semelhante foi feita recentemente por economistas do FMI: há menos folga para ações anticíclicas do que há quatro anos.

O espaço para estímulos de curto prazo, no entanto, é apenas uma das questões relevantes neste momento. Mesmo essa margem de manobra depende de políticas de mais longo alcance, destinadas à acumulação de gordura fiscal nas fases de prosperidade para ser queimada nos períodos de baixo dinamismo. Outros governos - o chileno, por exemplo - seguiram essa estratégia. O brasileiro preferiu gastar nos bons e nos maus tempos. Normalmente as metas fiscais foram alcançadas graças à elevação da receita.

Uma política fiscal sadia, combinada com uma gestão competente dos programas públicos, é essencial também para a expansão do investimento produtivo, governamental e privado. No Brasil, o investimento tem-se mantido na faixa de 18% a 20% do PIB. Em vários países latino-americanos a taxa tem sido superior a 22% e em alguns tem oscilado entre 24% e 30%. Será essencial aumentar a capacidade de investimento, se os brasileiros quiserem manter, por um longo período, um crescimento igual ou superior a 5% ao ano. O governo sabe disso. Falta agir com a seriedade necessária.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 08 / 10 / 2012

Folha de São Paulo
"Serra e Haddad estão no 2º turno; Dilma cobra apoio de Russomanno" 

Com queda livre do candidato do PRB, disputa tem reviravolta histórica; PT negocia acordo com Chalita, e PSDB, com Soninha e PTB; Abstenções, brancos e nulos somam 1/3 dos eleitores

Na maior reviravolta já registrada em São Paulo, José Serra (PSDB) e Fernando Haddad (PT) deixaram Celso Russomanno (PRB) para trás e disputarão o segundo turno, daqui a três semanas. Com 100% dos votos apurados na cidade, Serra obteve 30,75% e Haddad, 28,98%. Antes mesmo do início da apuração, os candidatos já se movimentavam em busca de apoio dos derrotados. Dilma cobrará a adesão de Russomanno e Gabriel Chalita (PMDB) à campanha petista. Já os tucanos tentarão fechar acordo com Soninha (PPS) e com o PTB. O resultado confirmou o derretimento da campanha de Russomanno, que liderava a disputa desde agosto e terminou em terceiro lugar, com 21,6% dos votos. Bombardeado pelos adversários, o candidato teve a maior queda da história das eleições na capital. Serra e Haddad retomaram de Russomanno regiões em que o PSDB (centro expandido) e PT (periferia) tradicionalmente têm mais votos, repetindo a porarização de eleições passadas. O índice de votos brancos e nulos e abstenções (31,3%) é o maior desde 1996.

O Estado de São Paulo
"Serra e Haddad farão 2º turno; tucano ataca e PT acena à base" 

Eleições 2012 - candidato do PSDB cita Supremo e vai intensificar discurso ético usando mensalão; Petista diz que quer apoio de partidos aliados e reforçará presença de Lula e Dilma na campanha; Russomanno fica em 3º lugar

Pela sexta vez seguida, o prefeito de São Paulo será escolhido em segundo turno. José Serra, 70 anos, em sua quarta eleição à Prefeitura, vai enfrentar Fernando Haddad, 49 anos, em sua primeira eleição. Celso Russomanno (PRB), 56 anos, ficou em terceiro lugar. O resultado da apuração das 24 mil urnas reedita mais uma disputa entre PSDB e PT, briga que tem um olho na metrópole, outro na próxima eleição, daqui a dois anos,q uando estarão em jogo a cadeira do governador do Estado e do presidente República. Confirmado no segundo turno, Serra faz referência ao julgamento do mensalão no STF, dando o tom de como deve ser sua estratégia até o dia 27. Haddad afirmou que a eleição em São Paulo integra um projeto nacional do PT. Seu plano é se apegar ainda mais ai ex-presidente Lula e à presidente Dilma Rousseff.

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domingo, outubro 07, 2012

Pra comemorar a vitória!


Colunistas

Tributo a Hobsbawn – por quem os sinos dobram

“Morto, este consumado mestre da pesquisa histórica vai fazer falta. Razão pela qual sua morte me diminui, diminui a todos”

Márcia Denser
Esta colunista não podia deixar de prestar sua homenagem a Eric Hobsbawm, morto aos 95 anos, esta semana, em Londres, tantas vezes me reportei e citei seus textos e idéias ao longo dos seis anos que escrevo no Congresso em Foco. E, no caso, nada mais oportuno que me inspirar na resenha escrita pelo jornalista Terry Eagleton na London Review of Books, sobre seu último livro, publicado em 2011, “How to Change the Word: Marx and Marxism 1840-2011”, uma espécie de suma, de resumo do pensamento deste historiador socialista e humanista – o que comprova a constância e a persistência de suas atividades e quanto foi prolífera sua obra mesmo em idade tão avançada.

Nessa coletânea de ensaios, Hobsbawm lembra que não foi o colapso do bloco soviético que levou os comunistas mais fiéis a relegar à lixeira os cartazes de Guevara. O fato é que o marxismo já estava em pedaços muito antes da queda do muro de Berlim. Uma das razões da débâcle foi que o tradicional agente das revoluções marxistas – a classe trabalhadora – havia sido varrida do mapa devido às mudanças do sistema capitalista. Contudo, se o proletariado industrial encolheu, por outro lado Marx jamais disse que a classe trabalhadora fosse composta só de proletários da indústria.

Em Das Kapital, os trabalhadores do comércio aparecem no mesmo nível que os trabalhadores da indústria. Marx também sabia que o maior grupo de trabalhadores assalariados de seu tempo não eram os da indústria, mas os empregados domésticos, a maioria dos quais, mulheres. Marx e seus discípulos jamais supuseram que alguma classe trabalhadora pudesse avançar sozinha, sem construir alianças com outros grupos oprimidos. E, embora o proletariado industrial devesse ter papel de liderança, nada permite supor que Marx imaginasse constituir uma maioria para desempenhar seu papel.

Mas algo novo aconteceu entre 1976 e 1986. Acossada por uma crise de lucros, a produção de massa à moda antiga deu lugar à produção em menor escala, mais versátil, descentralizada e pós-industrial; a uma cultura “pós-industrial”’ de consumo, de tecnologia da informação e de serviços. A terceirização e a globalização tornaram-se a nova ordem do dia.

Mas isso não implicou em mudança essencial no sistema: só levou a geração de 1968 a trocar Gramsci e Marcuse por Said e Spivak. Ao contrário, o sistema estava então mais poderoso que nunca, com a riqueza ainda mais concentrada em poucas mãos e as desigualdades de classe crescendo rapidamente. Ironicamente, em razão disso, as esquerdas se lançaram em busca de saídas mais rápidas e mais fáceis, acomodatícias. Assim degradadas, as ideias radicais pareciam cada vez mais implausíveis. Segundo Hobsbawm, a única figura pública que denunciou o capitalismo nos últimos 25 anos foi o Papa João Paulo II. Duas ou três décadas depois, os covardes e fracos de coração assistiram à glória de um sistema tão exultante e inexpugnável, ao qual bastava manter em funcionamento os caixas eletrônicos do planeta.

Eric Hobsbawm, que nasceu no ano da Revolução Bolchevique, permaneceu amplamente comprometido com o campo marxista – fato que se deve destacar, porque, porque em seu livro, tal compromisso não é percebido, até pela consistência do saber do autor, que conviveu com tantas das turbulências históricas sobre as quais discorre com uma visão desapaixonada. Seria difícil conceber outro crítico do marxismo tão competente a ponto de refletir sobre suas crenças com tanta imparcialidade e equilíbrio. Hobsbawm, é claro, não tem a onisciência do Espírito-do-mundo hegeliano, apesar do saber cosmopolita e enciclopédico. Ele também pensa que Gramsci é o mais original pensador do ocidente pós-1917. Talvez queira dizer “o mais original pensador marxista”, mas isso também não fica claro. Walter Benjamin, com certeza, seria o candidato mais bem qualificado neste setor. O fato é que até os mais eruditos estudiosos de marxismo têm muito a aprender nesses ensaios.

Como Hobsbawm teria dito: houve revoluções praticamente sem derramamento de sangue e processos de reforma social horrivelmente sanguinários (do que o Brasil e toda a América do Sul são exemplares).

Assim como Edmund Wilson (1), EH reconhece em Engels (na obra “The Condition of the Working Class in England”) o pioneiro e o primeiro entre todos a abordar a classe trabalhadora sistematicamente. Na opinião de Hobsbawm, a análise que ali se faz do impacto social do capitalismo ainda não foi superada em vários aspectos. O livro não pinta seu objeto com cores suaves, mas a ideia de que todos os trabalhadores fossem famintos ou vivessem em miséria absoluta, ou que jamais ultrapassariam a linha da sobrevivência, não tem qualquer fundamento.

Marx antevia como inevitável a vitória do socialismo? Sim, como se lê no Manifesto Comunista, mas Hobsbawm não concorda que seja documento determinista. Isso porque ele não discute o tipo de inevitabilidade que estaria em questão. Marx escreve como se as tendências históricas fossem forças da natureza e operassem como as leis naturais; mas, ainda assim, nada explica porque, depois do capitalismo, viria o socialismo como resultado lógico. Se o socialismo é historicamente predeterminado, por que tanto empenho na luta política? A explicação está em que Marx esperava que o capitalismo se tornasse cada vez mais explorador e que a classe trabalhadora cresceria muito, em poder, em números e em experiência acumulada. Nesse quadro, os homens e mulheres trabalhadores, satisfatoriamente racionais, rapidamente encontrariam todos os motivos necessários para levantar-se contra seus opressores.

A verdade é que não se pode falar sobre o que homens e mulheres livres seriam obrigados a fazer em dadas circunstâncias, porque, se são obrigados a fazer, seja o que for, não são livres.

É possível que o capitalismo esteja nas últimas, à beira da ruína, mas nada assegura que, depois dele, venha o socialismo. Pode vir algum tipo de fascismo ou a própria barbárie. Hobsbawm nos lembra uma frase curta, mas muito significativa do Manifesto Comunista: o capitalismo, escreve Marx sinistramente, pode terminar “na ruína comum das classes concorrentes”. Não se deve descartar a possibilidade de que o único socialismo que talvez venhamos a conhecer será imposto por circunstâncias materiais, depois de uma catástrofe nuclear ou ecológica.

Como outros crentes do progresso infinito no século 19, Marx não considera a possibilidade do engenho humano avançar tanto no campo da tecnologia, que acabe por se autodestruir. Aí está uma das várias vias pelas quais se pode demonstrar que o socialismo não é historicamente inevitável, como de fato nada é. Marx não viveu o suficiente para ver como a democracia social consegue subornar qualquer paixão revolucionária.

Para EH, o que Marx tinha a dizer não era exatamente verdade, mas viria a ser, digamos, à altura do ano 2000, resultado da transformação operada pelo capitalismo. O ensaio de Hobsbawm sobre o Manifesto comenta “sua eloquência obscura e lacônica”, notando que, como retórica política, “ele tem força quase bíblica”. O Manifesto inaugurou um novo gênero, de que se serviram artistas como Futuristas e Surrealistas, cujo vocabulário audacioso e hipérboles fizeram obras de arte dos próprios manifestos. Aliás, o gênero literário “manifesto” é uma mistura de teoria e retórica, de fato e ficção, programático e performativo.

Nos anos 1840s, argumenta Hobsbawm, não era de modo algum improvável concluir que a sociedade estivesse às portas da revolução. Improvável, isso sim, seria a ideia de que, em meia dúzia de décadas a política da Europa capitalista estaria transformada. Mas a maioria desses críticos teria rejeitado a ideia marxista de que o pensamento humano é muitas vezes modelado e curvado, pela pressão de interesses políticos, fenômeno que atende pelo nome de “ideologia”. Só recentemente o marxismo voltou à agenda planetária, metido ali, ironicamente, por um capitalismo agonizante. Afinal, quando os capitalistas começam a falar sobre o capitalismo, você pode apostar: o sistema entrou em estado crítico.

Há muito mais a admirar em How to Change the World (Como mudar o mundo). Hobsbawm mostra uma simpatia moderada pelo pessoal de 1968, o que não surpreende num eterno membro do Partido Comunista. “Mas se algum pensador deixou marca visível no século 20”, diz Hobsbawm, “foi Marx”. Setenta anos depois de sua morte, para o bem ou para o mal, um terço da humanidade vivia sob regimes políticos inspirados por seu pensamento. Mais de 20% continuam a viver. O socialismo foi descrito como o maior movimento de reforma da história da humanidade.

Poucos intelectuais mudaram o mundo de modo tão definitivo como Marx. Algo mais para estadistas, cientistas e generais, não para filósofos ou teóricos da política. “Os únicos pensadores individualmente identificáveis que alcançaram status comparável”, escreve Hobsbawm “são os fundadores das grandes religiões do passado. Com exceção de Maomé, nenhum deles triunfou tão rapidamente, nem em escala comparável”. Mas poucos, Hobsbawm destaca, previram que seriam tão célebres igualmente pela miséria extrema e pelo exílio de judeu atormentado por furúnculos, um Marx que observou um dia, falando de si próprio, que ninguém jamais escrevera tanto sobre dinheiro, nem vivera com menos do que ele.

How to Change the World é o trabalho dum homem que chegou à idade em que a maioria se dá por feliz se conseguir levantar da poltrona sem apoio de enfermeiras ou parentes. Morto, este consumado mestre da pesquisa histórica vai fazer falta. Razão pela qual sua morte me diminui, diminui a todos.

Então, parafraseando John Donne: “Por isso não me perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”.

(1)In "Rumo à Estação Finlândia"

Publicado originalmente no "congressoemfoco"

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Opinião

Desempenho constrangedor

O Estado de S.Paulo
Foi constrangedor - não há outra palavra - o desempenho do ministro Ricardo Lewandowski, revisor do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), na sessão da quinta-feira do julgamento do escândalo. Na véspera, o relator Joaquim Barbosa havia condenado 8 dos 10 acusados de corrupção ativa pelo Ministério Público, a começar do ex-ministro da Casa Civil do governo Lula José Dirceu, do ex-presidente do PT José Genoino e do ex-tesoureiro da agremiação Delúbio Soares. Logo em seguida, o revisor corroborou a condenação de Delúbio, mas votou pela absolvição de Genoino. E anteontem, para surpresa de ninguém, livrou Dirceu da imputação de comandar a compra de apoio de deputados a projetos do Planalto.

O que constrangeu não foi nem sequer a sua conclusão, mas a falta de sutileza com que exerceu o papel de defensor do principal réu da mais importante ação da história da Corte. Pior. Ao longo de sua fala de duas horas, um aflito Lewandowski procurou meios e modos para livrar Dirceu da condenação. Ora disse que não há nos autos prova documental ou pericial que o incrimine, ora que há "provas para todos os gostos". Segundo ele, o procurador-geral da República se baseou essencialmente nas acusações a Dirceu de seu "inimigo figadal" Roberto Jefferson, o denunciante e corréu do mensalão. E mesmo essas ele não confirmou em juízo, arguiu - apenas para ser corrigido pelo presidente do STF, ministro Carlos Ayres Britto, que, a seu modo suave, repôs a verdade dos fatos.

Ele foi um dos quatro membros do colegiado a desmoralizar com os seus apartes a linha do revisor. Gilmar Mendes apontou a contradição entre os seus votos anteriores pela condenação de políticos por corrupção passiva, e de Delúbio por corrupção ativa, e a sua insistência em negar o que a maioria da Corte já deu por assente: o suborno de deputados para votar com o governo. Marco Aurélio Mello refutou a versão de que Genoino e o publicitário Marcos Valério tinham apenas contatos casuais. E Celso de Mello expôs a improcedência da tese de Lewandowski segundo a qual a teoria do "domínio do fato" só vale em situações excepcionais. Esse princípio permite condenar réus, como José Dirceu, cuja autoridade os coloca em condição de promover atos ilícitos, ainda que não fique demonstrada a sua participação pessoal nos crimes.

Mas foi a ministra Rosa Weber, ao proferir o seu voto, quem demonstrou singelamente o absurdo da alegação do revisor de que Delúbio tinha autonomia em relação a Genoino e Dirceu, ou, nas suas palavras, "total independência" no que toca às finanças do partido. "Não é possível acreditar", assinalou, "que Delúbio, sozinho, teria comprometido o PT com uma dívida de R$ 55 milhões e repassado metade disso a partidos da base aliada, sem conhecimento de qualquer outro integrante" da agremiação. Afirmar o contrário equivaleria a atribuir-lhe "uma mente privilegiada". Por delicadeza, a ministra se guardou de comentar a figura tosca do apadrinhado de Lula, que o País veio a conhecer, tropeçando nas palavras, durante as transmissões da CPI dos Correios. "Ele não faria carreira solo", resumiu, em aparte, Ayres Britto.

Assim como Rosa Weber, o ministro Luiz Fux, que votou em seguida, condenou Delúbio, Genoino e Dirceu - este, "como articulador político desse caso penal, até pela posição de proeminência no partido e no governo que ele tinha". A condenação de Delúbio, a se consumar na próxima semana, decerto será unânime. Em relação a Genoino e, principalmente, a Dirceu, será uma grande surpresa se tiverem a seu favor outros votos além dos de Lewandowski e, como se espera, de Dias Toffoli, ex-assessor do ministro e advogado de Lula em três campanhas presidenciais. O que não se esperava é que o revisor trouxesse "à colação", como gosta de dizer, um parecer que mais se parecesse com um memorial dos patronos dos réus que optou por absolver.

Ser voto vencido é uma circunstância inseparável da função de magistrado em plenários plurais. Mas, quando assentar a poeira do julgamento do mensalão, Lewandowski provavelmente será lembrado menos por ter ficado em minoria do que pela fragilidade de suas posições.

Original aqui

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