sábado, março 03, 2012

No ar, antes de mergulhar...

Colunistas

Especialista do inconfessável
(Ou politicamente incorreta)

Márcia Denser
Desde a morte anunciada do “intelectual público” – aquele que opinava sobre assuntos que não eram da sua conta – e a instauração, pela direita, do “especialista”, cada vez mais, o outro – se escritor ou artista ou intelectual – têm ocupado, no espaço e na cena pública, o papel do que eu chamo de “especialista do inconfessável”. O sujeito a se imolar publicamente, o neguinho a dizer que “o rei está nu”, aquele a tocar em assuntos ditos “tabu” (que, atualmente, dados os altíssimos níveis de mediocridade, acrescidos à celebração da ignorância como “qualidade”, são inúmeros).

A exemplo da questão da proibição da venda e prescrição das anfetaminas (anfepramona, femproporex) pela Anvisa em todo o território nacional, ora sendo contestada na justiça pelo Conselho Federal de Medicina.

Sem entrar no mérito de tal questão, mas sendo eu mesma usuária pública e confessa, em prosa e verso, da referida substância – o popular “speed” – , tanto que se tornou objeto duma recente novela minha, O Quinto Elemento – inicialmente escrita de encomenda e publicada na antologia Tarja Preta (Objetiva, 2003) e republicada em meu Toda Prosa II – Obra Escolhida (Record, 2008).

De forma que, à guisa de depoimento (na pior das hipóteses), na melhor, de dupla “curtição” de speed e literatura e de como ambos podem ser uma só e a mesma coisa, dependendo do ponto de vista (a associação do ritmo rapidíssimo da minha linguagem ao efeito da droga como “achado” estético), lá vão alguns trechos:

O Quinto Elemento

Parte I

“Na minha fenomenologia as anfetaminas são o quinto elemento, e como não se fica pensando no ar que respira, nem na água ou na luz, nunca penso nelas, uma vez que a ingestão diária (mínima) de 100 mm é inevitável como o sol nascer todas as manhãs. Mas nem sempre foi assim. Durante meus primeiros vinte anos de vida elas simplesmente não existiam, portanto não são como o universo e a eternidade, tiveram um começo.

Aos vinte anos eu namorava um cara muito rico, gordo e careta, careta num sentido de usar umas roupas caretas, falar com sotaque da Moóca, o protótipo do paulistano babaquara de arrepiar, mas que basicamente era um maluco absoluto, alcoólatra e devastador, um sujeito radical enfim, fundamentalista em Cristo, em Camaros vermelhos, em Paris, radical em certa inocência e perversidade básicas (iguais às minhas), e naturalmente em dietas para emagrecer. Foi aí, começou aí.

Porque não existe força de vontade, percebem? William Burroughs (os mais junkies aí devem ter lido WB), viciado em heroína, disse precisamente isso: que para o Dr. Dent, de Londres, médico que o curou com apomorfina, força de vontade realmente não existe, você tem que chegar a um estado mental em que não quer ou não precisa da droga que for. O mesmo a respeito da fome, abolida pela anfetamina, um euforizante que além de liquidar a fome te deixa feliz, pleno, esperto, lúcido, maravilha.

Maravilhosamente travados passávamos o dia com meio bife e duas folhas de alface. Engolidos, aliás, com certa dificuldade. Fora isso, estava tudo perfeito, para mim, mas para Alvim – o namorado bem rico, gordo (mas emagrecendo a olhos vistos), maluco e fundamentalista e que era também alcoólatra e devastador desde os 14 anos, as coisas começaram a ficar ligeiramente alteradas uma vez que ele esqueceu de abolir o litro de uísque da dieta, porque as anfetaminas não liquidam a sede, ao contrário, incrementam a boca seca – aliás, a sensação de boca seca é um dos únicos colateral damages do bichinho – e infelizmente no caso do Alvim, meio que beirando o letal essa associação de speed, uísque e fundamentalismo, isto é, ele ficava letal, perigosíssimo, querendo jogar o Camaro contra penhascos, isso quando não me associava a Maria Madalena, incitando apedrejamentos em praias, restaurantes, discotecas, coisas do tipo, havia toda uma liturgia.

Mas aos vinte e três anos não se acha nada engraçado, a falta de cultura exclui o senso de humor, tende-se para o trágico e fazer drama de tudo (claro que lá no fundo JAMAIS me ocorreria ficar com aquela hecatombe masculina), mas sempre fui uma garota demasiado pragmática, pois havia a questão do aluguel e da faculdade que Alvim me pagava, sem contar as roupas de Courréges e Paco Rabanne que me trazia de Paris, assim o que eram uns penhascos e uns apedrejamentos a mais ou a menos se era tudo o que eu tinha que engolir, afinal não eram apenas alucinações, isto é, de mentirinha?

Naturalmente, nessa fase das alucinações e do pragmatismo já não havia amor, porque eu apenas era jovem, mas não estúpida, e quanto a Alvim, este sobretudo era rico, o pai era rico, o avô fora rico, etc., várias gerações sem preocupações com a sobrevivência, e isto abria um abismo entre nós. O que me permitia dar o fora sem muitos escrúpulos. Por isso, como o coveiro nos dramas elisabetanos, Alvim cumpriu seu papel introdutório e desapareceu de cena.

Então me pergunto: será assim tão absurdo intentar uma exposição de motivos, inventariar minhas escolhas, descrever como foi se estruturando um desígnio a partir de um dos periféricos de sustentação?(porra, se não é um bom nome para as anfetaminas).

A palavra talvez fosse cristalização para descrever o processo. Porque elas funcionam como catalisadores que interligam os elementos pré-existentes, vinculando-se e vinculando-os entre si, promovendo uma síntese única para tornar manifestas nossas luminosas qualidades.

Isoladamente, em meio árido, são como notas mudas – nada fazem, nada transformam, não se manifestam, silêncio absoluto. Combinadas, operam maravilhas – ou catástrofes (vide Alvim).

Absolutamente não são mágicas, mas algo em mim as tornava magnéticas (algo a ver com o talento inato para a literatura, ressoando ocultamente do passado e já avançando para um hipotético futuro e, desta vez, como um desígnio) e eis que mil nadas existenciais – desses que a gente não lembra e jamais esquece – começaram a fazer sentido, saltar sozinhos, alados, vindo, um após o outro, prender-se ao bico imantado da minha bic, em fila interminável e trêmula de significação.

Que fique bem claro: não estou fazendo a apologia de porra nenhuma, até porque anfetaminas é preciso merecê-las. Mas insisto: terá esta química atuado para acelerar a revelação e o reconhecimento duma vocação ou desígnio, terá ajudado a liberar as forças do inconsciente para emergirem, colocando-se a serviço duma poética, terá atuado no sentido de forçar as paixões para fora do seu balbuciante elemento nebuloso?

Eu diria que sim, contudo não estava inaugurando nada, se já citei Burroughs, também penso em Edgar Allan Poe (ou no meu filtro para Poe que é Cortazar) cuja recorrência ao láudano, ao ópio, ao álcool justifica-se plenamente num poema como O Corvo, num conto como Ligéia, porque escritores precisam soltar a mão, dar nomes aos bois, sem contar que então precisamos sobretudo nos entender em questão de centros: se arrancar o olho dum gato é o eixo dum conto de Poe, não significa que o seu sadismo seja suficiente para produzir um conto. Toma-se conhecimento do sadismo pelas crônicas policiais, a partir daquela filmografia de quinta, mas não bastam maus sentimentos (tampouco euforizantes) para produzir boa literatura.

Parte II

Quanto às anfetaminas, dez anos de incorporação metafísica duma substância à personalidade significam dez anos de ingestão física diária e seu elenco de males e riscos decorrentes; dez anos de uso continuado constelam uma inexorabilidade vital que, por sua vez, forjam seus hábitos, criam regras, inauguram e encerram fases, âmbitos, patamares e, a propósito, a regra número um manda impessoalizar fontes médicas e farmacológicas. Esqueça o médico bonzinho, amigo da família, o farmacêutico camarada e meio trambiqueiro, pois com o passar do tempo – e nisso aposto meu pescoço – o bonzinho vira dragão da maldade. Ao constatar tua necessidade, ele se torna um filha-da-puta ganancioso que transforma a quebrada de galho em relação de poder, tipo viciado versus traficante – o que não era o caso.

Essencialmente, se alguém tem algo a vender é porque existe alguém que quer comprar e vice-versa, esta é uma transação comercial de mútua interdependência e por canais competentes, diferente da relação traficante / viciado, que acontece na clandestinidade.

Usuária oficial, o caso de Diana seria antes do junkie bastante modesto, literalmente do “junkie careta”, o que, naturalmente, é um paradoxo, mas paradoxal não é a condição da literatura?

A regra dois manda não exagerar no consumo, jamais ultrapassar o patamar de pico e nunca mixar anfetaminas com outras drogas, sobretudo as incompatíveis, tipo droga suja ou droga de sonho (como a cocaína, a anfetamina é droga “branca”, droga “limpa”, isto é, droga de poder), drogas de evasão, através das quais se abre mão do controle do ego, como a maconha ou certos ácidos, ou as que relaxam, liberam o superego, tipo o álcool e, nesse caso, a associação inclui desde o simples cancelamento dos efeitos até a piração generalizada (lembram-se de Alvim?). Resumindo: se você for um junkie careta, não misture as bolas e mantenha-se na dose de manutenção, ok?

Certa vez, alguém me perguntou qual era a relação dos meus amigos, namorados, parentes, etc., com o fato de usar anfetaminas: a resposta é que essa relação não existe, é zero vezes zero, nula, caput. Ou eles simplesmente não sabem, ou é bom fingirem muito bem que não sabem. Porque eu nego.

Por isso, a terceira regra é a mais severa: nunca, JAMAIS, em hipótese alguma, conte a ninguém que você usa anfetaminas, nem debaixo de pau-de-arara! Tive algumas experiências amargas about. E uma vez que esse hábito não tem características anti-sociais – até porque os efeitos não são para uso externo e tampouco motivo de jactância – então amoite-se.

Porque a contratransferência na contramão – a popular cobrança – é uma merda. Psicologicamente te deixa tão por baixo que funciona como um anulador de efeitos (que supostamente deviam te botar para cima), ou melhor, é O Grande Anulador de Efeitos.

Sobre ti, qualquer um julgar-se-á no direito de tripudiar, sobretudo aquela vizinha que não bebe, não fuma, pertence à Universal do Reino de Deus, curte (nesta ordem) Adriane Galisteu, Ratinho, barbecue e o Padre Marcelo Rossi. Ou a filha da vizinha que há quatro anos ganhou da mãe um aparelho de karaoquê apenas para cantar, catatonicamente, dia após dia, mês a mês, ano a ano, a abertura do programa da Xuxa: na cultura de massa, a imbecilização infantil é um fato. Quer nasçam com 40 ou 140 de Q.I., aos oito anos todas se nivelam com o mesmo quociente de imbecilização globalizada. Ou o marido da vizinha, um fundamentalista paulistano de chinelo, cujo secreto herói cultural seria um mix de George Bush, Nero e a Cuca.

Afinal de contas, todos eles são politicamente corretos e você não, meu bem.”

Publicado originalmente no "congressoemfoco"

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Opinião

Dilma entra na campanha eleitoral

O Estado de S.Paulo
Para que serve o Ministério da Pesca e Aquicultura? Serve para garantir a bênção dos evangélicos da Igreja Universal à candidatura do petista Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo. Simples assim, a presidente Dilma Rousseff entregou ao bispo Marcelo Crivella (PRB-RJ) a pasta até agora ocupada por um petista. Mas o sacrifício deve valer a pena: além de o PT se livrar da incômoda gritaria dos evangélicos da Universal em torno de delicados temas religiosos, o candidato imposto por Lula ganha a possibilidade de vir a contar com o apoio do PRB - que, por enquanto, permanece no páreo, com o deputado Celso Russomanno num surpreendente primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Mas isso é mero detalhe. O que importa é que se escancara o ingresso, de sola, do Palácio do Planalto na campanha eleitoral paulistana. E trata-se apenas do começo.

A cada dia que passa - e estamos a sete meses do pleito - as impressões digitais de Lula se tornam mais nítidas na estratégia eleitoral que tem como objetivo consagrar a hegemonia do lulopetismo em todo o País. Para isso é imprescindível derrotar seus adversários nos redutos mais importantes que ainda lhes fazem alguma resistência: a cidade e o Estado de São Paulo. Este fica para daqui a dois anos.

Essa estratégia não vai custar barato para o PT - a senadora Marta Suplicy e o defenestrado ministro Luiz Sergio que o digam -, mas Lula já deixou claro que está disposto a pagar o preço que for necessário. Cacife não lhe falta e Dilma Rousseff acaba de comprová-lo, com a presteza com que se dispôs a entrar no jogo e procurar o chefão em São Bernardo para, num encontro de quase três horas, pedir conselhos e receber novas instruções. Mas teve que ouvir calada o novo membro do Gabinete dizer, com inegável senso de humor, que, embora ministro da Pesca, não sabe nem "colocar minhoca no anzol". O que não tem a menor importância, já que essa pescaria nada tem a ver com peixes.

Toda a encenação que fez o pano de fundo da triunfante entrada do bispo Crivella em cena criou em Brasília uma situação política tão desfrutável que propiciou manifestações que foram do deboche ao puro cinismo. Deste se encarregou a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti: "É a incorporação efetiva (ao primeiro escalão do governo) de um aliado. Mas não traremos disputas locais para o âmbito federal". Já o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), ex-petista e ex-ministro de Lula, optou pela zombaria: "O governo resolveu pôr na Pesca um pescador de almas, que ainda vai andar sobre as águas". Como levar a sério o que se passa em tal ambiente político?

O eleitor paulistano pode se preparar, portanto, para uma das campanhas eleitorais mais disputadas e extravagantes da história da cidade, na qual, pelo andar da carruagem, a ética e os bons modos certamente acabarão sendo deixados de lado. As evidências disso se acumulam.

Em manobra rasteira claramente destinada a cacifar poder de barganha com o governo, o mensaleiro Waldemar da Costa Neto, dono do PR, explora a ingenuidade do folclórico e muito bem votado deputado Tiririca, lançando-o candidato a prefeito de São Paulo. O homem já se sente "prefeito do povão".

E o jovem e ambicioso deputado Gabriel Chalita não faz feio nessa galharda companhia: depois de transitar por três partidos em menos de dois anos, finalmente encontrou um que se dispôs a lançá-lo a um cargo executivo e anuncia orgulhoso: "Eu tenho uma cara só".

O saldo desse circo de horrores é que a cidade de São Paulo, com todos os graves problemas sociais e urbanos que aqui se agravam, corre o risco de se tornar a vítima de uma longa campanha eleitoral que tende a passar ao largo do debate das questões que realmente interessam aos seus mais de 10 milhões de habitantes.

A federalização do pleito de outubro é inevitável, e em certa medida até desejável, porque aqui estará sendo decidido o futuro político do País a curto e médio prazos. Mas é preciso que os candidatos não se esqueçam de que, apurados os votos, o vencedor terá de enfrentar a enorme responsabilidade de governar a cidade.

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Manchetes do dia

Sábado, 03 / 03 / 2012

Folha de São Paulo
"Síria barra ajuda humanitária da Cruz Vermelha" 

Para órgão, proibição é inaceitável; opositores acusam governo de tentar ocultar indícios de execuções sumárias

O Exército sírio barrou a chegada do comboio humanitário da Cruz Vermelha ao distrito de Baba Amro, em Homs, reduto dos rebeldes que está há quase um mês sob bombardeios. Não está claro por que o governo proibiu a ajuda um dia após prometer autorizá-la. Opositores acusam o regime de tentar ocultar indícios de execuções sumárias. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, diz haver "relatos terríveis" de assassinatos, detenções arbitrárias e tortura. Para a Cruz Vermelha, o atraso para a entrada da missão é inaceitável. A jornalista francesa ferida que apelou para ser resgata chegou a Paris ontem. Os EUA afirmam ainda apostar num acordo de transição do regime do ditador Bashar Assad.

O Estado de São Paulo
"Dilma chora, fala do "fardo" de governar e pede união a aliados" 

Em meio a rebelião na base governista, presidente segue conselho de Lula e faz apelo a 'coalizão forte'

Menos de 24 horas após se encontrar com o ex-presidente Lula em São Bernardo para discutir a rebelião na base aliada, a presidente Dilma Rousseff fez apelo à união dos partidos governistas. Ela falou sobre o "fardo" de governar, chorou e destacou a importância da "coalizão forte" para dividir a tarefa e fazer o que somos eleitos para fazer. Instruída por Lula a cuidar mais da política para evitar levantes, Dilma usou a posse do ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB), para tentar amenizar a crise. Após o discurso, o presidente do PMDB, Valdir Raupp (RO), negou que o manifesto de peemedebistas contra o PT, divulgado na véspera, signifique ruptura com Dilma.

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sexta-feira, março 02, 2012

Trincando de modernidade em 1967


The Monkees

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Coluna do Celsinho

Kombi

Celso de Almeida Jr.
Van é exagero.
 
Uma Kombi resolve.
 
Na frente, dois guardas municipais, um dirigindo.
 
Atrás, dois assistentes sociais.

Acompanhando, uma viatura da polícia militar.

Quinze dias antes, uma conversa com o comandante da PM.
 
Convocar pastores e padres também é necessário.
 
Geralmente, as igrejas têm uma enorme capacidade de mobilização, contando com o apoio de fiéis para auxiliar nas tarefas que pedem muita solidariedade e desprendimento.
Pronto.
 
Pera aí...
 
Prepare uma garrafa térmica com café e um isoporzinho com sanduíches para nutrir a turma da perua e da viatura policial.
 
Agora sim...
 
Primeira parada, lá pela meia noite, em frente à Santa Casa.
 
Há vários por ali.
 
Acomodam-se na entrada do Banco do Brasil.
 
Encontram-se, também, na  avenida  Iperoig  e em outros lugares.
 
Será fácil localizar.
 
A primeira abordagem é dos assistentes sociais.
 
Convencer a entrar na Kombi, explicando que boa comida, um banho e uma cama confortável esperam em lugar seguro.
 
Se a palavra não resolver, Guardas e PMs seguram firme nos braços e colocam o sujeito no utilitário.
 
Não vejo mal algum em subir o tom.
 
Não é necessário dor de consciência.
 
Afinal, na calçada, largado, faminto, está um desorientado brasileiro, que só tem no Estado a última chance de conquistar a cidadania.
 
Nesta hora, nada de imaginar que um apertinho no braço representa desrespeitar direitos humanos; ferir a Constituição.

Ferida está a nação que não toma atitude em situações desta natureza.
Deve-se encarar como uma operação de guerra, onde ser bonzinho é ser pusilânime.
 
Põe na Kombi e pronto!
 
A serenidade virá depois.
 
Em igrejas ou galpões, alguns religiosos esperam pela chegada de mais um necessitado.
 
Assistentes e policiais transferem a responsabilidade para estes abnegados munícipes que receberão o morador de rua com respeito, alimento, asseio e carinho, doando uma madrugada inteira para ampará-lo.
 
Amanhece...
 
Nem precisa desligar o motor.
 
Outra equipe entra no veículo, já com seu café e seu isoporzinho.
 
Voltam agora aos locais onde o mendigo foi recebido, com novos fiéis de prontidão.
 
Começa outra empreitada.
 
Um bom café da manhã e o início da identificação destas pessoas.
 
Tem documento?
 
De onde veio?
 
Como chegou aqui?
 
Pode ser, até, que muitas venham de um mesmo lugar, numa ação orquestrada por especialistas em transferir problemas de suas cidades para municípios, digamos, menos organizados...
 
Daí em diante, não será difícil.
 
Uma passagem de ônibus para a cidade de origem, às vezes, resolve.
 
Ao mesmo tempo, uma ação ostensiva onde se concentrava a mendicância evitará que o problema se repita.
 
Há muitas possibilidades, bastando acionar organismos estaduais, federais, particulares, associações, igrejas, hospitais, centros de recuperação, ONGs, encarando o problema, buscando soluções.
 
Três meses com a Kombi nas madrugadas e a história será outra.
 
Por falar nisso, na infância, em São Paulo, lembro de uma enferrujada, na esquina de casa.
 
Frequentava meus pesadelos, perseguindo-me a toda velocidade, com dentes pontiagudos estampados na lataria, bem abaixo do vidro dianteiro...que medo!
 
Para os desamparados moradores de rua, espero que ela garanta melhores lembranças.

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Opinião

A grande lambança

O Estado de S.Paulo
Quando uma aliança de poder se sustenta quase que exclusivamente sobre as bases voláteis da barganha política e dos interesses rasteiros dos mandachuvas, a máquina do governo inevitavelmente acaba tropeçando na escassez de competência gerencial da companheirada ou no excesso de ambição dos chefetes de facção. Exemplos abundantes da incapacidade do governo federal de tocar com um mínimo de eficiência seus projetos mais importantes, como os do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), esgotam a paciência de qualquer um. Mas a lambança armada na disputa de poder entre executivos de primeiro escalão do Banco do Brasil (BB) e da bilionária caixa de previdência dos funcionários da casa - a Previ - parece ter levado ao limite a tolerância da chefe do governo com aquilo que ela própria costuma chamar, eufemisticamente, de "malfeitos".

O presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, é desafeto declarado do presidente da Previ, Ricardo Flores, que conta com o apoio de gente importante do PT. E a desafeição é recíproca. Ambos são reconhecidos como profissionais competentes na área financeira, julgamento respaldado pelos balanços do banco e do fundo de pensão. Mas nenhum dos dois - obviamente afinados com os interesses dos figurões do governo e dos partidos que lhes garantem a retaguarda - está satisfeito com a extensão de seus domínios. Engalfinharam-se, então, numa disputa pública que ultrapassou o limiar da baixaria quando veio à luz a evidência de que o conflito está sendo municiado com quebra ilegal de sigilo bancário e dossiês destinados a comprometer a reputação dos oponentes. O que, aliás, não chega a ser novidade, considerando que esses são, historicamente, recursos diletos das falanges petistas. E que, afinal, não são usados exclusivamente contra inimigos "de fora".

O imbróglio fez soar o alarme no Palácio do Planalto já no fim do ano passado, quando começaram a vazar informações - ao que tudo indica, baseadas em quebra ilegal de sigilo bancário - de que um dos vice-presidentes do BB, Allan Toledo, estaria envolvido numa "movimentação financeira atípica" de quase R$ 1 milhão. Toledo era aliado do presidente da Previ. Foi demitido em dezembro pelo Conselho de Administração do banco, presidido pelo secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. O presidente do banco, Bendine, a quem Toledo teria "traído", é considerado homem de confiança do ministro Guido Mantega.

Com o recrudescimento da guerra entre os comandos do BB e da Previ, a presidente da República chegou à conclusão de que era hora de intervir. Enviou, segundo fontes do próprio Palácio do Planalto, emissários para dar um ultimato a Bendine e a Flores: o fim das hostilidades ou a demissão de todos. E agora o Ministério da Fazenda instruiu o Banco do Brasil a abrir uma sindicância para tirar a limpo as suspeitas de quebra ilegal de sigilo bancário e as denúncias de irregularidades que resultaram na queda de um dos vice-presidentes da instituição. Ao que tudo indica, portanto, outras cabeças podem rolar.

É impossível prever o resultado final dessa lamentável lambança que envolve duas das mais importantes instituições financeiras do País controladas pelo governo. Este parece agir agora movido, por um lado, pela preocupação de preservar, num mercado extremamente sensível a extravagâncias de qualquer tipo, a credibilidade tanto do Banco do Brasil quanto da Previ. E, por outro lado, de evitar que a irresponsabilidade política de dois de seus principais agentes e respectivas entourages comprometa a imagem do próprio poder central. Dessa perspectiva, o ultimato de Dilma tem todo cabimento.

Ocorre que, numa situação extrema, a presidente poderá livrar-se dos presidentes do BB e da Previ para salvar as aparências. Mas o sacrifício dos dois peões será claramente insuficiente para abater a ambição desmedida por poder que acaba colocando o interesse público em plano secundário. Por detrás de Bendine e de Flores agem, à sorrelfa, figuras influentes encasteladas nos escalões superiores tanto do governo quanto dos partidos que o apoiam. De pouco adianta espantar as moscas que se refestelam no bolo do poder.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 02 / 03 / 2012

Folha de São Paulo
"TSE tira da eleição político que teve contas rejeitadas" 

Justiça barra reprovados em 2010, mas casos anteriores podem levar à punição

Por 4 votos a 3, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu que estão inelegíveis para as eleições municipais deste ano os candidatos com as contas da campanha eleitoral de 2010 rejeitadas. A decisão é uma mudança do entendimento da corte. Nas eleições passadas, os ministros consideraram que bastava apresentar as contas, aprovadas ou não, para que um político se candidatasse. A nova decisão poderá alcançar também aqueles que tiveram o problema em eleições anteriores.
 
O Estado de São Paulo
"Base se rebela e leva Dilma a se aconselhar com Lula" 

No mais recente sinal de insatisfação, PMDB se queixa de que PT pretende se tornar hegemônico

Deputados federais do PMDB elaboram manifesto em que se queixam de que o PT pretende se tornar hegemônico no País. A iniciativa, que irritou a presidente Dilma Rousseff, se soma à crescente rebelião na base governista. A situação levou Dilma a se aconselhar com o ex-presidente Lula. Nas três horas de conversa, ontem, eles mostraram preocupação com o racha e com as dificuldades para agregar apoio à candidatura de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo. Diante dos problemas, Dilma adiará novas mexidas no ministério - a última foi a entrada de Marcelo Crivella (PRB-RJ) na Secretaria da Pesca, para agradar a evangélicos. Crivella admitiu não saber nada sobre pesca.

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quinta-feira, março 01, 2012

Água, peço água!

Deunafolha

O clima é de guerra. De um lado, estão os gays e os Conselhos de Psicologia, em suas vertentes federal e regionais, de outro, os cristãos, mais especificamente o povo evangélico. O tema do embate é (aqui não há como evitar as aspas) "a cura da homossexualidade".

O certame teve início nos anos 90, quando militantes do movimento gay, em particular a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), começaram a denunciar aos conselhos os autointitulados psicólogos cristãos, que prometiam curar homossexuais.

A ABGLT, pedia punições a esses profissionais com base no Código de Ética do Psicólogo, que, em seu artigo 2º, b proíbe: "induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais".

Em 1999, depois de alguns casos rumorosos na mídia, o Conselho Federal (CFP) baixou a resolução nº 001/99, que não deixa nenhuma margem a dúvida:

"Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.

Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.

Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica".

Evidentemente, a briga continua, mas agora no plano da opinião pública e do Legislativo. Além de nos bombardear com e-mails sobre a "perseguição" a psicólogos cristãos, os evangélicos tentam no Congresso aprovar um projeto de decreto legislativo (PDC 234/11) para sustar artigos da resolução do CFP.

Vale observar que o proponente da matéria, o deputado João Campos (PSDB-GO), também tem projetos de decreto para derrubar a decisão do Supremo Tribunal Federal que legalizou as uniões estáveis homossexuais e a que autorizou as marchas da maconha.

A iniciativa do parlamentar social-democrata (sim, há ironia no adjetivo) é uma tremenda de uma bobagem. Da mesma forma que um médico não pode hoje sair por aí dizendo que cura a doença de Huntington e um físico está impedido de afirmar que faz o tempo correr para trás, um psicólogo não pode proclamar que possui terapias efetivas contra o que seu ramo de saber nem ao menos considera uma doença. Não se pode bater de frente e em público contra os consensos da disciplina.

Não existe algo como psicologia cristã, hidrostática católica ou cristalografia judaica. Idealmente, juízos científicos se sustentam na racionalidade amparada por evidências (mas a questão é mais complicada, como veremos ao final do artigo).

É claro que a ciência, ao contrário das religiões, não trabalha com dogmas. Um pesquisador que pretenda provar que o homossexualismo é uma doença pode tentar fazê-lo em fóruns apropriados, como congressos e trabalhos científicos, e sempre apresentando argumentações técnicas, cuja validade e relevância serão julgadas procedentes ou não por seus pares. Se ele os convencer, muda-se o paradigma. Caso contrário, ou ele abandona o assunto ou deixa de falar na condição de psicólogo.

Como cidadão, acredito eu, todos sempre poderão dizer o que bem entendem --além de fazer tudo o que não seja ilegal. Padres e pastores vivem afirmando que o homossexualismo é pecado sem que o céu lhes caia sobre a cabeça. É claro que a ABGLT protesta e de vez em quando um membro do Ministério Público pode tentar alguma estrepolia, mas isso é do jogo. Apesar de alguns atritos, a liberdade de expressão vem sendo relativamente respeitada no Brasil nos últimos anos, como o prova a decisão do STF sobre a marcha da maconha que o representante do PSDB quer derrubar.

Vou um pouco mais longe e, já adentrando em terrenos hermenêuticos menos sólidos, arrisco afirmar que nem o Código de Ética nem a resolução do CFP impedem um psicólogo de, em determinadas condições, ajudar um homossexual que busca abandonar suas práticas eróticas.

Imaginemos um gay que, por algum motivo, esteja profundamente infeliz com a sua orientação sexual e deseje tornar-se heterossexual. O dever do profissional que o atende é tentar convencê-lo de que não há nada de essencialmente errado no fato de ser gay. Suponhamos, porém, que o paciente não se convença e continue sentindo-se desajustado. Evidentemente, ele tem o direito de tentar ser feliz buscando "curar-se". E seu psicólogo não está obrigado a abandonar o caso porque o paciente não aceita a ciência. Ao contrário, tem o dever ético de fazer o que estiver a seu alcance para diminuir o sofrimento do sujeito.

O que a resolução corretamente veta é que o psicólogo coloque na cabeça de seus pacientes a ideia de que ser gay é uma falha moral que pode e deve ser revertida. Impede também que ele faça propaganda em que promete terapias efetivas.

Dito isto, não acho uma boa estratégia a do movimento gay de vincular a defesa dos direitos de homossexuais a uma teoria científica. Este me parece, na verdade, um erro grave.

Para começar, a ciência está calcada em hipóteses que podem por definição ser refutadas a qualquer momento. Vamos supor que o fundamento lógico para eu recusar a discriminação contra gays resida na "evidência científica" de que o homossexualismo tem componentes genéticos e ambientais, não sendo, portanto, uma escolha que possa ser modificada. Imagine-se agora que alguém demonstre de forma insofismável que tais evidências estavam erradas. O que ocorre neste caso? A discriminação fica legitimada?

Não é preciso puxar muito pela memória para lembrar que movimentos por direitos civis e "ciência" (sim, fora dos manuais de epistemologia, ela é uma atividade humana como qualquer outra que caminha ao sabor de circunstâncias políticas e constructos sociais) já estiveram em lados diferentes das trincheiras. Até 1990, a Organização Mundial da Saúde listava o homossexualismo como uma doença mental. Os psiquiatras americanos faziam o mesmo até 1977. Não sei se recomendava ou não o exorcismo, mas certamente autorizava profissionais da saúde mental a tentar a "cura".

O argumento contra a discriminação de minorias precisa ser moral. É errado discriminar gays, negros e membros de qualquer seita religiosa porque não gostaríamos de sofrer tal tratamento se estivéssemos em seu lugar.

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Opinião

Heraldo, a cor e a alma

Demétrio Magnoli - O Estado de S.Paulo
A retratação, obtida por meio dos tribunais, circula na imprensa e na internet. Nela o blogueiro Paulo Henrique Amorim retira cada uma das infâmias que assacou contra o jornalista Heraldo Pereira, apresentador do Jornal Nacional e comentarista político do Jornal da Globo. No seu blog, entre outras injúrias, Amorim classificou Heraldo como "negro de alma branca" e escreveu que o jornalista "não conseguiu revelar nenhum atributo para fazer tanto sucesso, além de ser negro e de origem humilde".

Confrontar o poder, dizendo verdades inconvenientes às autoridades - na síntese precisa do intelectual britânico Tony Judt, é essa a responsabilidade dos indivíduos com acesso aos meios de comunicação. Amorim sempre fez o avesso exato disso. A adulação, reservada às autoridades, e a injúria, dirigida aos oposicionistas, são suas ferramentas de trabalho. Não lhe falta coerência: ao longo das oscilações da maré da política, do governo João Figueiredo ao governo Dilma Rousseff, sem exceção, ele invariavelmente derrama elogios aos ocupantes do Palácio do Planalto e ataca os que estão fora do poder. Às vésperas da disputa presidencial de 1998, no comando do jornal da TV Bandeirantes, engajou-se numa estridente campanha de calúnias contra Lula, que retrucou com um processo judicial e obteve desculpas da emissora. Há nove anos, desde que Lula recebeu a faixa de Fernando Henrique Cardoso, o blogueiro consagra seu tempo a cantar-lhe as glórias, a ofender opositores e a clamar contra o jornalismo independente. Funciona: a estatal Correios ajuda a financiar o blog infame.

Amorim não tem importância, a não ser como sintoma de uma época, mas a natureza de sua injúria racial tem. "Negro de alma branca", uma expressão antiga, funciona como marca de ferro em brasa na testa do "traidor da raça". No passado serviu para traçar um círculo de desonra em torno dos negros que ofereceram seus préstimos interessados ao proprietário de escravos ou ao representante dos regimes de segregação racial. Hoje, no contexto das doutrinas racialistas, adquiriu novos significados e finalidades, que se esgueiram em ruelas sombrias, atrás da avenida iluminada da resistência contra a opressão. Brincando com a Justiça, Amorim republica no seu blog um artigo do ativista de movimentos negros Marcos Rezende que, na prática, repete a injúria dirigida contra Heraldo. Custa pouco girar os holofotes e escancarar o cenário que a infâmia almeja conservar oculto.

O líder africânder Daniel Malan, vitorioso nas eleições de 1948, instituiu o apartheid na África do Sul. Amorim e Rezende certamente não o classificariam como "branco de alma negra", pois uma "alma negra" não seria capaz de fazer o mal e, mais obviamente, porque Malan não traiu a sua "raça". Sob a lógica pervertida do pensamento racial, eles o designariam como "branco de alma branca", embutindo numa única expressão sentimentos contraditórios de ódio e admiração. Como fez o mal, o africânder confirmaria que a cor de sua alma é branca. Entretanto, como promoveu os interesses de sua própria "raça", ele figuraria na esfera dos homens respeitáveis. William Du Bois (1868-1963), "pai fundador" do movimento negro americano, congratulou Adolf Hitler, um "branco de alma branca", pela promoção do "orgulho racial" dos arianos.

Confiando numa suposta imunidade propiciada pela cor da pele ou pelo seu cargo de conselheiro do Ministério da Justiça, Rezende converteu-se na voz substituta de Amorim. No artigo inquisitorial de retomada da campanha injuriosa, ele não condena Heraldo por algo que tenha feito, mas por um dever que não teria cumprido: o jornalista é qualificado como "um negro da Casa Grande da Rede Globo", que "não dignifica a sua ancestralidade e origem" pois "nunca fez um comentário quando a emissora se posiciona contra as cotas". No fim, os dois linchadores associados estão dizendo que Heraldo carrega um fardo intelectual derivado da cor de sua pele. Ele estaria obrigado, sob o tacão da injúria, a subscrever a opinião política de Rezende, que é a (atual) opinião de Amorim.

O epíteto lançado contra Heraldo é uma ferramenta destinada a policiar o pensamento, ajustando-o ao dogma da raça e eliminando simbolicamente os indivíduos "desviantes". O economista Thomas Sowell produziu uma obra devastadora sobre as políticas contemporâneas de raça. Ward Connerly, então reitor da Universidade da Califórnia, deflagrou em 1993 uma campanha contra as preferências raciais nas universidades americanas. José Carlos Miranda, do Movimento Negro Socialista, assinou uma carta pública contra os projetos de leis de cotas raciais no Brasil. Sowell é um conservador; Connerly, um libertário; Miranda, um marxista - mas todos rejeitam a ideia de inscrever a raça na lei. Como tantos outros intelectuais e ativistas, eles já foram tachados de "negros de alma branca" pela Santa Inquisição dos novos arautos da raça.

A liberdade humana é a verdadeira vítima dos inquisidores do racialismo. Mas, e aí se encontra o dado crucial, essa forma de negação da liberdade opera sob o critério discriminatório da raça, não segundo a regra do universalismo. Se tivesse a pele branca, Heraldo conservaria o direito de se pronunciar a favor ou contra as políticas de preferências raciais - e também o de não opinar sobre o tema. Como, entretanto, tem a pele negra, Heraldo é detentor de uma gama muito menor de direitos - efetivamente, entre as três opções, só está autorizado a abraçar uma delas.

Sob o ponto de vista do racialismo, as pessoas da "raça branca" são indivíduos livres para pensar, falar e divergir, mas as pessoas da "raça negra" dispõem apenas da curiosa liberdade de se inclinar, obedientemente, diante de seus "líderes raciais", os guardiões da "ancestralidade e origem". Hoje, como nos tempos da segregação oficial americana ou do apartheid sul-africano, o dogma da raça prejudica principalmente os negros.

*SOCIÓLOGO E DOUTOR EM GEOGRAFIA HUMANA PELA USP. E-MAIL: DEMAG@UOL.COM.BR

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 01 / 03 / 2012

Folha de São Paulo
"Dilma troca ministro para atrair evangélicos" 

Ao escolher religioso para a Pesca, Planalto quer conter críticas a Haddad em SP

De forma inesperada, a presidente Dilma escolheu o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), um dos principais representantes dos evangélicos no Congresso, para substituir o petista Luiz Sérgio no Ministério da Pesca. A nomeação poderá conter críticas de evangélicos ao pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, por causa do "kit gay", que o governo planejava entregar a alunos para combater o preconceito.

O Estado de São Paulo
"Coreia do Norte para seu programa nuclear em troca de comida" 

Em acordo com EUA, país suspende testes e receberá 240 toneladas de alimentos

Dois meses depois da morte do ditador Kim Jong-li e de sua substituição pelo filho Kim Jong-un, a Coreia do Norte concordou em suspender seus testes nucleares e o enriquecimento de urânio. Permitirá também a volta dos inspetores a suas instalações atômicas e fará moratória de lançamentos de mísseis de longo alcanc. O compromisso foi alcançado em acordo com os EUA, que, em contrapartida, fornecerão 240 toneladas de alimentos os norte-coreanos. Os países vinham negociando com a China. O governo de Barack Obama qualificou os novos passos como "importantes, mas limitados".

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quarta-feira, fevereiro 29, 2012

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Opinião

Federaliza-se a eleição em São Paulo

O Estado de S.Paulo
O projeto de poder, com inegável competência idealizado e até agora executado por Luiz Inácio Lula da Silva, "passa, necessariamente, pela imposição da hegemonia do Partido dos Trabalhadores (PT) em seu Estado de origem, São Paulo, a começar pela reconquista da Prefeitura da capital", conforme opinamos neste espaço em 29 de janeiro. Ao se desembaraçar das dúvidas e angústias que o impediam de tomar a decisão agora anunciada de disputar as prévias que indicarão o candidato de seu partido a prefeito da capital em outubro próximo, José Serra cria um fato político que transcende os limites do Município. Reanima a possibilidade - que em termos de nomes ainda é uma questão aberta a ser definida no devido tempo - de existência de uma alternativa ao lulopetismo no comando dos destinos nacionais. E a melhor evidência de que o panorama do pleito municipal paulistano mudou significativamente é o verdadeiro tumulto que a novidade causou nas hostes petistas.

Com todas as cautelas que os vaticínios eleitorais recomendam, parece óbvio que o nome de Serra se colocava como o único, entre os disponíveis nas forças de oposição ao poder central, capaz de disputar o pleito municipal contra Lula - o verdadeiro candidato por detrás do nome que o próprio chefão do PT escolheu a dedo para representá-lo. E isso leva à curiosa conclusão de que, ao final de contas, Lula acabou escalando os dois candidatos que deverão polarizar o pleito de outubro.

Está claro, portanto, que a eleição do prefeito de São Paulo está "federalizada", no sentido de que colocará em jogo muito mais do que o comando político-administrativo da maior metrópole brasileira. Para Lula e seu partido, é ponto de honra vencer as eleições na capital paulista e, a partir daí, conquistar em 2014 o governo do Estado, que estará completando 20 anos nas mãos de seu maior adversário - o PSDB. Não é por outra razão que, do alto de seu incontrastável poder dentro do PT, Lula atropelou todas as lideranças do partido em São Paulo para impor sua escolha pessoal: a candidatura de Fernando Haddad, que, com seu apoio, o ex-presidente considera capaz de superar a rejeição que historicamente a classe média paulistana demonstra em relação à legenda petista.

Tão determinado está o lulopetismo a fazer o que for necessário para vencer o pleito em São Paulo, que as lideranças mais identificadas com Lula não hesitaram um segundo em abrir os braços à possibilidade de aliança com um adversário figadal, o prefeito Gilberto Kassab. A entrada de Serra na disputa poupou os petistas, e o próprio Kassab, da espinhosa missão de justificar uma esperteza inadmissível para quem faz política com um mínimo de coerência. Estão aí a senadora Marta Suplicy e seu pesadelo de "acordar de mãos dadas" com o prefeito a demonstrar que tudo tem limite. Mas essa é uma lição que deve ter sido muito mais útil para o eleitor que, se parou um segundo para pensar, só pode ter concluído que sua capacidade de discernimento estava sendo indecorosamente subestimada.

Daqui para a frente, restará aos tucanos e seus aliados jogar o jogo eleitoral paulistano no campo em que Lula o colocou: a temática nacional. E para isso será necessário, fugindo ao tom das três campanhas presidenciais em que foram derrotados, colocar muito claramente as divergências com o modo lulopetista de governar. São nove anos de uma experiência extremamente vulnerável que, por um lado, corrompe o aparelho do Estado em nome da governabilidade, e, por outro, provoca um crescente déficit de capacidade gerencial que compromete os benefícios sociais de que Lula e seus companheiros se proclamam curadores exclusivos.

De qualquer modo, é importante que, apesar do rumo político que a campanha eleitoral inevitavelmente tomará, candidatos e partidos não se esqueçam de que esta é a maior metrópole do País, com mais de 10 milhões de habitantes e problemas à altura de seu gigantismo. A população paulistana, portanto, merece e exige de seu futuro prefeito propostas concretas voltadas para a solução dos graves problemas que enfrenta em todas as áreas, da social à de infraestrutura.

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Quarta-feira, 29 / 02 / 2012

Folha de São Paulo
"Triplica apreensão de bagagens pela Receita em Cumbica" 

Em janeiro deste ano, 1.897 passageiros foram flagrados no aeroporto de São Paulo com compras não declaradas

Nos últimos três anos, triplicou o número de turistas brasileiros que tiveram bagagens apreendidas na alfândega do aeroporto de Guarulhos, principal terminal do país, por não declarar à Receita Federal produtos comprados no exterior, informa Ricardo Gallo. Segundo Receita, 1.897 passageiros foram flagrados em janeiro deste ano, ante 633 no mesmo mês de 2009. O aumento nas apreensões supera em muito o acréscimo de passageiros que desembarcaram de voos internacionais em Cumbica em igual período, 26%.

O Estado de São Paulo
"Corregedora do CNJ defende punição a juízes 'vagabundos'" 

No Senado, Eliana Calmon diz que a atitude servirá para proteger a maioria dos magistrados, que é 'decente'

Depois de acusar existência de "bandidos escondidos atrás da toga" e provocar Crise no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a corregedora nacional de justiça, ministra Eliana Calmon, afirmou ontem que é preciso expor as mazelas do Judiciário e punir juízes "vagabundos", afim de proteger os magistrados honestos - que, ela ressaltou, são a maioria. Em sessão da Comissão de Constituição e Justiça do Senado convocada para discutir o reforço dos poderes do CNJ, ela chamou de "descalabro" a situação nos Estados. "Toda vez que um governador corrupto quer um favor, ele se junta ao presidente do tribunal e dá aumento", afirmou Eliana, referindo-se aos "penduricalhos" que geram uma "gratificação monstruosa" a magistrados.

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terça-feira, fevereiro 28, 2012

Formigas

Cephalotes atratus, Gamboa, Panamá - Foto: Alex Wild

Ficha Limpa

Agora é que são elas

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
A jornada foi dura e exitosa: quase três anos desde a apresentação da proposta de iniciativa popular ao Congresso, em 2009, até a confirmação da constitucionalidade da Lei da Ficha Limpa pelo Supremo Tribunal Federal há poucos dias.

Noves fora as exceções - tanto as bem intencionadas que enxergam riscos ao Estado de direito e perigo de surgir um novo balcão de negócios no Judiciário e nos tribunais de contas, quanto as más que não ousam dizer seus nomes - o clima geral é de celebração.

Governos, prefeituras e assembleias legislativas se propõem a estender o pré-requisito País afora e surgiu até um projeto de lei federal sugerindo a exigência de ficha limpa para diretores de ONGs postulantes ao uso de verbas federais.

Isso tudo como se já não houvesse na Constituição (artigo 37) a exigência do cumprimento dos preceitos de moralidade, legalidade, impessoalidade e publicidade para a administração pública direta, indireta e fundações nos âmbitos federal, estadual e municipal.

O Brasil parece entoar em coro um animado "agora vai". Mais realista, porém, seria ponderar um agora é que são elas.

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Opinião

Tunga no FGTS

O Estado de S.Paulo
Para cumprir a meta do superávit primário do setor público nos últimos anos, o governo não tem hesitado em realizar manobras contábeis, incorporando receitas de estatais ou não levando em conta certas despesas. Este ano, pelo visto, não será exceção.

Nos cortes de R$ 55 bilhões anunciados na semana passada pelos ministro da Fazenda, Guido Mantega, e pela ministra do Planejamento, Miriam Belchior, no Orçamento-Geral da União para este exercício, consta uma parcela de R$ 2,96 bilhões, relativa à multa adicional de 10% paga pelas empresas que demitirem trabalhadores sem justa causa, recursos que, por lei, deveriam ser creditados ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), gerido pela Caixa Econômica Federal (CEF).

A jogada se tornou possível porque não há exigência de que o repasse seja feito "imediatamente" ao Fundo. Os atilados técnicos do governo se valeram da inexistência desse advérbio no texto legal para encaixar essa parcela nos cortes. E não foi especificado quando esses recursos voltarão para o FGTS, que pertence aos trabalhadores e não ao governo. Trata-se de uma verdadeira tunga. É como se a importância retida fizesse parte, para todos os efeitos, da arrecadação tributária do governo - quando na verdade o governo é mero intermediário entre a empresa que paga a multa e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço que a recebe.

O governo, nesse caso, não improvisou. A artimanha vinha sendo tramada há tempo. Como mostrou o artigo de Ribamar Oliveira, publicado pelo jornal Valor (23/2), a tabela sobre resultados do Tesouro Nacional (de qualquer mês), constante da página do órgão, que pode ser acessada pela internet, informa, em nota de rodapé, que a metodologia utilizada "não inclui receitas de contribuição do FGTS e despesas com o complemento da atualização monetária, conforme previsto na Lei Complementar n.º 110/2001". A "limpeza", portanto, era feita há tempo, em antecipação ao corte de R$ 2,96 milhões, agora efetivado. Esse valor faz parte dos cortes incluídos nas "reestimativas de despesas obrigatórias". Ao reestimar, o governo passou por cima de uma obrigação legal, ou seja, ficou com a receita e cancelou a "despesa".

É preciso deixar claro que não há perda direta e imediata para o trabalhador. Segundo a regulamentação em vigor, em caso de demissão sem justa causa, o empregador deverá depositar na conta vinculada do trabalhador uma indenização de 40%.

Esta é calculada sobre o total dos depósitos realizados na conta do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço durante o contrato de trabalho, devidamente corrigido, inclusive sobre os depósitos sacados durante a vigência do contrato. A conta para o empregador é mais salgada, pois deve recolher mais 10% a título de contribuição social. É esse o dinheiro que deixará de ser repassado para engordar o superávit primário.

As perdas do trabalhador são indiretas. Os recursos oriundos da contribuição social ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço fazem parte do total utilizado para financiamento habitacional e para investimentos na área de saneamento básico. Com menos verbas destinadas ao FGTS, em razão do corte da contribuição social, a Caixa Econômica Federal disporá de menos recursos para atender à crescente demanda de empréstimos para compra da casa própria, inclusive por aquelas famílias de menor renda, em condições de beneficiar-se do programa Minha Casa, Minha Vida, que seria poupado de qualquer redução, como garantiu o governo. Trata-se também, como a própria denominação do encargo indica, de um gasto social, que, na versão oficial, também não estaria sujeito a cortes.

Tudo se subordina à determinação do governo de obter um superávit primário do setor público de 3% este ano, que, em si, é um objetivo louvável, se levado a sério. De acordo com as melhores práticas da administração pública, o superávit primário deveria resultar da contenção rígida das despesas de custeio da máquina, jamais pelo corte sub-reptício de uma contribuição feita pelas empresas com uma finalidade perfeitamente definida.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 28 / 02 / 2012

Folha de São Paulo
"Depósito milionário para ex-vice do BB é investigado" 

Afastado durante crise no banco, ele recebeu recursos de aposentada de 70 anos

O ex-vice-presidente do Banco do Brasil Allan Toledo, que até dezembro dirigia uma das áreas mais importantes da instituição, é investigado por ter recebido quase R$ 1 milhão em sua conta bancária em 2011. Toledo abriu a conta em janeiro do ano passado e recebeu cinco depósitos mensais no total de R$ 953 mil, informa Andreza Matais.

O Estado de São Paulo
"Serra ainda pode disputar a Presidência, indica FHC" 

Ex-presidente avalia que decisão de tentar a Prefeitura, confirmada ontem, faz o tucano voltar 'com força'

A candidatura de José Serra à Prefeitura de São Paulo, confirmada ontem pelo ex-governador, permitirá a ele "voltar à cena política com força" e foi a mais adequada para o PSDB, disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista ao correspondente em Nova York, Gustavo Chacra. Para FHC, a decisão de disputar a eleição para prefeito não significa que Serra tenha abandonado o projeto de tentar a Presidência no futuro: "Política é uma coisa muito dinâmica. Tem sempre a cláusula de prudência". Serra anunciou o apoio às prévias para escolher o candidato do PSDB - líderes tucanos articulam para adiá-las e, assim, permitir que o ex-governador participe de debates.

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segunda-feira, fevereiro 27, 2012

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Opinião

A falta de engenheiros

O Estado de S.Paulo
Enquanto o Brasil forma cerca de 40 mil engenheiros por ano, a Rússia, a India e a China formam 190 mil, 220 mil e 650 mil, respectivamente. Entidades empresariais, como a Confederação Nacional da Indústria, têm feito estudos sobre o impacto da falta de engenheiros no desenvolvimento econômico brasileiro. E órgãos governamentais, como a Financiadora de Projetos (Finep), patrocinam desde 2006 programas de estímulo à formação de mais engenheiros no País.

Segundo estimativas do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea), o Brasil tem um déficit de 20 mil engenheiros por ano - problema que está sendo agravado pela demanda por esses profissionais decorrente das obras do PAC, do Programa Minha Casa, Minha Vida, do pré-sal, da Copa de Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.

No País há 600 mil engenheiros, o equivalente a 6 profissionais para cada mil trabalhadores. Nos Estados Unidos e no Japão, a proporção é de 25 engenheiros por mil trabalhadores, segundo publicações da Finep. Elas também informam que, dos 40 mil engenheiros que se diplomam anualmente no Brasil, mais da metade opta pela engenharia civil - a área que menos emprega tecnologia. Assim, setores como os de petróleo, gás e biocombustível são os que mais sofrem com a escassez desses profissionais.

Para atenuar o problema, o governo federal lançou no ano passado o Pró-Engenharia - projeto elaborado com o objetivo de duplicar o número de engenheiros formados anualmente no País, a partir de 2016, e de reduzir a altíssima taxa de evasão nos cursos de engenharia, que em algumas escolas chega a 55%. Das 302 mil vagas oferecidas pelas escolas brasileiras de engenharia, apenas 120 mil estão preenchidas. O problema da evasão é agravado pela falta de interesse dos jovens pela profissão, que decorre, em parte, da falta de preparo dos vestibulandos, principalmente nas disciplinas de matemática, física e química. Elaborado por uma comissão de especialistas nomeada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o projeto prevê investimentos de R$ 1,3 bilhão.

Mas, apesar de sua importância para a remoção de um dos gargalos do desenvolvimento econômico do País, o Pró-Engenharia ainda não saiu do papel. O projeto está à espera do aval dos novos ministros da Educação, Aloizio Mercadante, e da Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp. "O Pró-Engenharia poderia ter deslanchado, mas tomamos duas bolas nas costas", diz o presidente da Capes, Jorge Guimarães.

Segundo ele, o maior problema que o Pró-Engenharia vem enfrentando, para ser implementado, é o que ele chama de "fogo amigo" no âmbito do governo. "Primeiramente, foi um documento do Ipea dizendo que o País não precisa de engenheiro, que já tem muitos deles nos bancos. Mas isso ocorreu numa época em que a engenharia não tinha demanda. Em segundo lugar, foram os reitores de universidades federais que soltaram um documento mostrando um aumento de cerca de 12% nas matrículas dos cursos de engenharia. Se não se atacar a evasão, o número de matrículas poderá ser aumentado em 300%, mas o problema da falta de engenheiros não será resolvido", afirma Guimarães.

Ele também lembra que, para reduzir a taxa de evasão dos cursos de engenharia, a Capes, além do Pró-Engenharia, vem reformulando os currículos, para torná-los mais próximos do mercado de trabalho. Em vez de estimular a especialização precoce, como ocorre hoje, a ideia é valorizar uma formação básica e interdisciplinar, na qual as disciplinas de engenharia são complementadas por matérias como economia, planejamento estratégico, gestão e empreendedorismo. "No 4.º e no 5.º ano o aluno vai se especializar no que quiser e ganhar visão de mercado", diz o presidente da Capes.

Desde sua posse, a presidente Dilma Rousseff tem falado muito em crescimento econômico. Mas, para que ele ocorra, é preciso que seus ministros sejam mais eficientes na implementação dos projetos anunciados.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 27 / 02 / 2012

Folha de São Paulo
"Farc prometem acabar com sequestro de civis" 

Enfraquecida, guerrilha colombiana diz que libertará seus últimos 10 reféns

A fim de negociar com o governo do país, as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) anunciaram o fim dos sequestros de civis. Restam hoje 9.000 guerrilheiros das Farc, que já contaram com 17 mil. Enfraquecida pela morte de seus líderes, a guerrilha de origem comunista, financiada com o narcotráfico, diz que libertará os dez últimos reféns: "Não cabem obstáculos à possibilidade de retomar negociações".

O Estado de São Paulo
"Reconstrução da base na Antártida vai levar um ano" 

Governo usará o navio polar Almirante Maximiniano como base provisória, enquanto refaz estação científica

O ministro da Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp, afirmou ontem que o governo deve usar o navio polar Almirante Maximiniano como base do Brasil na Antartida até que seja reconstruída a Estação Comandante Ferraz, destruída em um incêndio na madrugada de sábado. Segundo Raupp, a reconstrução deve levar um ano, mas o Programa Antártico Brasileiro não será suspenso. Adquirido em 2009, o navio tem cinco laboratórios e hangar para dois helicópteros. Avaliação preliminar da Marinha constatou que 70% da estação foi destruída - o prédio principal, onde ficavam alojamentos e laborátorios, foi totalmente queimado.

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domingo, fevereiro 26, 2012

História


Um contraponto

José Ronaldo dos Santos
Devido a alguns artigos sobre o Cruzeiro de Anchieta, a minha amiga Maria Cruz pediu que eu fizesse um contraponto. Como? É fácil!

A história que prevalece é aquela que é mais conveniente a um grupo ou ideologia dominante. Ou melhor, isso de revisar algumas “verdades históricas” é coisa recente, do século XX. Então, é “natural” que no nosso município as coisas corram mais ou menos assim. Nessa nova concepção, já se considera que o alemão Hans Staden passou por Yperoig, a nossa  Ubatuba, mas foi prisioneiro por vários meses em outra área, na aldeia de Ubatuba que ficava na região de Angra dos Reis. Porém, a versão de séculos se entranhou de tal forma que até o filme sobre o artilheiro alemão deu todo crédito ao nosso município.

Hoje, recorrendo à tradição oral da comunidade do Sapê/Maranduba, registrada pela própria Maria, pretendo “jogar lenha na fogueira”. Afinal, lá também tem um grande rio com muitas ubás nas margens; dois antigos cemitérios com seus potes cerâmicos foram encontrados e é uma praia muito mais indicada para escrever poemas e declarações a qualquer virgem do que nas areias da praia do Cruzeiro, no centro. Eis o texto-dádiva da Maria Cruz:

“No mesmo lugar onde hoje há um cruzeiro como lembrança, centenário a se perpetuar, é o marco da passagem dele [padre Anchieta] por aquele ponto. Era onde adentrava no jundu e tinha seu ponto de pousada por ali mesmo, na mesma direção do cruzeiro. Foi onde ele montou  seu pousio. No mesmo lugar rezava a missa cotidiana e obrigatória de sua fé.

Na vivência e lembrança dos antigos caiçaras, o primeiro cruzeiro foi erguido pelo padre jesuíta que eles nem sabiam quem era.  Eis a informação que recebemos da tradição e mantemos até hoje:  ‘era um padre que escrevia  nas areias da praia’.

Seguindo a fé e religião de seus antepassados, o cruzeiro foi sempre preservado ou novamente reconstruído, continuando, ainda, como um marco do acontecido, de uma história já esmaecida no tempo.

O repouso do padre, certamente uma palhoça de pau a pique, era ali. Portanto, também seu oratório, onde rezava sua missa cotidiana obrigatória naqueles tempos, sob aquele chão se assentava.

Depois, uma capelinha foi erguida no lugar onde souberam existir as rezas do padre. Passou a ser o lugar sagrado, onde aconteciamas rezas do povoado, as festas de seus santos, as ladainhas cantadas em latim pelos mais velhos.

De onde viera aquele latim, evocado na lembrança dos que vieram; depois passado a seus descendentes, principalmente aos Amorim que eram rezadores?

Um desmatado terreiro ao redor da capelinha, dava espaço ao povo que vinha às rezas  daquela época. Aquele mesmo espaço, livre de mato que circundava a capelinha, continua hoje com o nome de Praça  Santa Cruz. Em seu lugar está instalado o ponto de ônibus, no centro comercial do Sapé”.


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