sábado, fevereiro 11, 2012

Acuma?

Péloras

Sidney Borges
Preso duas vezes por furtar placas do Metrô, o cidadão destituído de moradia, Nelson Renato da Luz, foi condenado à prisão domiciliar. Onde está escrito destituído de moradia leia-se sem-teto, significando tal epíteto que o gajo vive ao léu, mora na rua.

Eu gostaria sinceramente de saber como fica um sem-teto em prisão domiciliar?

Talvez a profundidade da questão a torne irrespondível.

Ou, quem sabe, aluguem um domicílio para prender o meliante, que no frigir dos ovos deixaria, ainda que temporariamente, de ser um sem-teto, sendo promovido de classe nestes tempos de grande mobilidade social no Patropi.

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Cães

 Foto: Elliott Erwitt

Colunistas

Os novos bad-guys

“Uma eventual aliança PT/Kassab nos remete inevitavelmente a George Orwell e ao final de ‘A Revolução dos Bichos’: ‘E olhou alternadamente para homens e porcos (…) e não viu nenhuma diferença entre um e outro.”

Márcia Denser
Os EUA são mestres em inventá-los: de dez anos para cá – e tomo os filmes de Hollywood como testemunha – 1) devido à consolidação da indistinção política entre democratas e republicados; 2) ao envelhecimento das bandeiras neoconservadoras, tais como a cruzada anti-muçulmana, o “renascer do patriotismo”, o “moralismo religioso texano-americano”, sem contar o próprio “terrorismo” como pretexto neo-imperialista – o “bandido”se materializa na figura do vice-presidente, tendo Dick Cheney, vice de Bush, que “absolutamente não via diferença entre interesses públicos e privados”, como parâmetro e inspiração.
 
Ainda que a famosa proporção – 99% de pobres para 1% de ricos, detentores da riqueza global – não tenha se alterado sequer milimetricamente.
 
Voltando à questão dos vices: os exemplos na filmografia, nos quais não vou me alongar, abundam, citando apenas o recentíssimo “Red” (“Aposentados e Perigosos”), concentrando na figura de extrema direita, autoritária, implacável, corporatista, anti-políticas sociais,etc., o Inimigo – que, por sua vez, concentraria o Ódio Coletivo –, enquanto o presidente se manteria intocável, incólume, imaculado e de touca (como se isto fosse possível), uma Entidade Benigna Onipresente – ou pós-Deus-ex-machina  - ao qual “seria possível recorrer em caso extremo” (outra besteira não menos extrema).
 
O próprio Brasil de Dilma não é exceção ou o vice-Michel Temer é o quê? Além do nosso bad-guy de plantão?
 
Conquanto, para muitos, a exemplo do meu querido Luís Nassif, a estratégia política de Dilma tenha sido tão eficiente a ponto de haver deixado o quadro político nacional praticamente “sem oposição”. Diz ele que “se Lula foi uma espécie de Pelé da política brasileira contemporânea, Dilma Rousseff tem se revelado um Coutinho.”
 
Ele tenta explicar o atual dilema da oposição, lembrando o Brasil pós-Sarney, onde as ideias políticas quase sempre acompanharam, com alguma defasagem, as grandes ondas internacionais. A Constituição de 1988 foi o grande documento a sinalizar os novos valores que acompanhariam o país nos anos posteriores. Uma das ideias-força foi a descentralização, revertendo o pesado espólio do regime militar; outra, a questão da cidadania, das políticas sociais, da universalização dos direitos civis, do renascimento da sociedade civil.

FHC empunhou a bandeira da modernização, mas jogou-a fora na crise do câmbio em 1999 e no apagão, que novamente foi assumida por Lula. Na década que marcou o ressurgimento da sociedade civil brasileira, o PSDB fugiu do povo.
 
Nassif: “Beneficiado pela explosão dos preços internacionais de commodities, Lula conseguiu atender a todos os setores da economia e deixar de herança a explosão do mercado de consumo de massa. Trouxe o PT para perto do centro e tornou-o o primeiro partido socialdemocrata brasileiro no estilo europeu – porque casando bandeiras sociais com alianças econômicas e, principalmente, com participação popular através dos sindicatos e movimentos sociais. Tirou do PSDB sua bandeira.”
 
Sem bandeira, restou à oposição o discurso da negação: apontar as vulnerabilidades do governo Lula. A partir daí, poderia juntar os cacos e se preparar para as próximas eleições, desde que conseguisse mostrar o contraponto na sua principal vitrine: São Paulo.
 
Ainda segundo Nassif, aí entra a habilidade de Dilma: “1.Gestão. Há anos aponta-se a ineficiência do Estado e exige-se melhoria na gestão. O governo Dilma instituiu a Câmara de Gestão, definiu maneiras gerenciais de trabalhar o PPA (Plano Plurianual), montou sistemas de monitoramento online nos ministérios e conseguiu a consultoria da maior bandeira brasileira de gestão, o empresário Jorge Gerdau. Com exceção de Minas, nenhum outro estado tucano conseguiu implementar práticas gerenciais modernas. 2. Aparelhamento da máquina. Ponto sensível das críticas à Lula. No primeiro ano do governo Dilma, sete ministros caíram e a força política que herdou do seu padrinho tem permitido enquadrar os aliados.3. Conflitos com a mídia. Desde o primeiro dia Dilma praticamente desarmou os antigos críticos.”
 
E conclui: “A essência do governo Dilma não mudou em relação ao governo Lula. Mas ela conseguiu esvaziar praticamente todas as bandeiras da oposição. Não é à toa que chega ao final do primeiro ano com índices de popularidade recorde enquanto, na outra ponta, o PSDB se desmancha. A única esperança do PSDB seria o governador Geraldo Alckmin montar uma gestão inesquecível, eficiente. Se depender do que foi mostrado até agora, o país caminha para um quadro politicamente delicado: um governo sem oposição.”
 
Inesperadamente, após tantos elogios, a questão retorna (“lacanianamente: o retorno do reprimido?”) – incontornável e indigerível – (editorial de Carta Maior de 8/2): como enfiar um Kassab na nave eleitoral do PT em Sampa, isto é, na vitrine principal apontada por Nassif?
 
Aliás, como definir a abrangência duma frente política? Até onde é possível ampliá-la sem reduzir diferenças históricas a ilusões? O dilema não é novo na trajetória da esquerda e já rendeu frutos desastrosos na forma de rendição ou isolamento. O assunto volta com força na campanha municipal de São Paulo, onde o PT debate a hipótese de uma aliança com o PSD, do atual prefeito Gilberto Kassab, que indicaria o vice na chapa encabeçada pelo ex-ministro Fernando Haddad.
 
Derrotar o PSDB em São Paulo era uma meta importante– aliás, para muitos, como Nassif – ele já estaria derrotado. E, nesse caso, a aliança PT/Kassab, pupilo de Bornhausen, não teria sentido, pois significaria a inclusão da extrema- direita – extrema direita espertamente enrustida sob a “demonologia do embaço” incolor, inodora, insípida e auto-autista kassabiana e seu bom-mocismo de araque e à guisa de contramedidas que são “a alegria da galera hiper-neo-con paulistana” – tornando o vatapá literalmente indigerível.
 
E inevitavelmente nos remetendo a George Orwell e ao final de “A Revolução dos Bichos” – espécie de alegoria antológica, que virou bizantina, da disputa entre stalinistas e trotkystas: E olhou alternadamente para homens e porcos, porcos e homens, e não viu nenhuma diferença entre um e outro."
 
Afinal, com esse tipo de amigos, quem precisa de inimigos? Vice-presidente incluído.

Publicado originalmente no "congressoemfoco"

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Opinião

EBC conta sua história

O Estado de S.Paulo
A Agência Brasil, departamento noticioso da Empresa Brasil de Comunicação, EBC, divulgou nota no último dia 2 para confessar que "errou no processo de apuração, edição e publicação da notícia OAB de São José dos Campos diz que houve mortos em operação no Pinheirinho, no dia 23 de janeiro". É louvável a decisão de reconhecer a falha. O erro foi grave, na verdade, pois não foi levada em conta pelos repórteres e editores da agência a precaução elementar de checar denúncia de tal gravidade com pelo menos mais uma fonte confiável. Ao fazer a necessária penitência, portanto, a direção da EBC comportou-se de modo condigno com a responsabilidade que tem sobre os ombros. Não reconhecer o mérito dessa atitude seria assumir uma posição de intolerância que é mais própria das pessoas que preferiam que a falsa notícia fosse verdadeira.

Descartada, portanto, a hipótese de que a direção da EBC se tenha envolvido numa conspiração contra os governos tucanos do Estado e de São José dos Campos, só resta a possibilidade de comportamento jornalístico negligente ou mal-intencionado. Pode acontecer em qualquer lugar. Mas, por ter ocorrido numa empresa pública, entra em foco uma questão que, além de relacionada à ética jornalística, é de natureza republicana: a que vem exatamente a EBC, empresa pública criada há pouco mais de quatro anos para dar à luz a TV Brasil, tocar algumas emissoras de rádio e prestar serviços de comunicação, principalmente, ao governo federal?

Haverá quem imagine que tudo o que a EBC faz hoje já era feito pela Radiobrás, sua antecessora. Ledo engano. Em seu sítio na internet, a EBC afirma que foi criada para "suprir uma lacuna no sistema de radiodifusão com o objetivo de implantar e gerir os canais públicos, aqueles que, por sua independência editorial, se distinguem dos canais estatais ou governamentais". Vai mais longe: "No Brasil, embora o regime militar tenha instituído a Radiobrás e um conjunto de emissoras educativas estaduais, nunca houve um sistema público de comunicação que buscasse complementar o sistema privado, dando-lhe mais pluralidade (...)". E esclarece: "A Radiobrás sempre foi uma empresa de comunicação governamental, assim como as TVs educativas são emissoras controladas pelos governos estaduais".

Entende a EBC, portanto, que a Radiobrás nunca foi, como as TVs educativas estaduais continuam sendo, independente. De fato, nunca houve muita dúvida sobre isso. A primeira era rigidamente controlada pelo governo federal - e o melhor que se pode dizer de sua sucessora é que vive um drama existencial. As demais permanecem sob o controle administrativo dos governos estaduais, tendo, no entanto, o cuidado de preservar a independência editorial. A Fundação Padre Anchieta, em São Paulo, tem sido um bom exemplo disso.

O sítio oficial da EBC nos deixa saber ainda que "a TV Brasil veio atender à antiga aspiração da sociedade brasileira por uma televisão pública nacional, independente e democrática". Ora, como essa afirmação não se sustenta em nenhuma fonte, só pode pertencer às categorias do dogma ou da retórica. Mais provavelmente a ambas. É muito útil, de qualquer modo, para se descobrir o DNA da empresa que jura não ter o rabo preso com ninguém.

Tão preocupada com sua independência, a EBC cometeu um ato falho na nota oficial em que admite ter errado no episódio de São José dos Campos. Sem que ninguém tenha perguntado ou levantado formalmente a acusação, a nota se preocupa em esclarecer: "Faz-se necessário assegurar aos nossos leitores que não houve má-fé da Agência Brasil ao publicar a matéria. Tampouco houve submissão desta agência a qualquer interesse de natureza política". Ah, bom! Afinal, a que tipo de "interesse de natureza política" a EBC poderia estar submissa? Só porque foi gestada e embalada por Lula e Franklin Martins, os dois cavaleiros andantes do "controle social da mídia"? Não é por acaso que, por meio de documento oficial, o PT acaba de anunciar que "avançará em 2012 (a campanha pela) democratização dos meios de comunicação".

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Manchetes do dia

Sábado, 11 / 02 / 2012

Folha de São Paulo
"Rio indicia e prende PMs para tentar sufocar greve" 

Governo manda deter 17 policiais e 123 bombeiros são indiciados; adesão é mais forte no interior

Para reprimir a greve dos policiais militares, civis e bombeiros, iniciada anteontem, o governo do Rio mandou prender 17 PMs envolvidos com o movimento. Outros 129 foram indiciados sob suspeita de se recusarem a cumprir suas funções, crime previsto no Código Militar. Mais 123 bombeiros foram indiciados.

O Estado de São Paulo
"Rio prende 16 policiais e agiliza processos para punir grevistas" 

Clima era de normalidade na capital; Planalto garante que carnaval terá segurança

No primeiro dia de greve dos policiais e bombeiros no Rio, o governo estadual indiciou dezenas de militares das duas corporações e baixou decreto para agilizar a punição aos líderes do movimento. O Corpo de Bombeiros anunciou a prisão administrativa de 123 guarda-vidas e abriu processo disciplinar. Sete policiais foram detidos em diversos batalhões por desobediência, 147 foram indiciados por crimes militares e 16 foram presos. Dos 11 líderes grevistas da corporação que tiveram prisão decretada pela Justiça da Auditoria Militar, 9 foram detidos - entre eles três oficiais da reserva . Um processo disciplinar foi aberto para julgar 14 PMs, que poderão ser expulsos. Nas principais ruas da capital, o policiamento não era ostensivo, mas a impressão de normalidade predominava. O governo federal afirmou que tem planos de contingência para garantir a segurança do carnaval em qualquer Estado do País.

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Projetos de vovô

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

Coluna do Celsinho

Gerações

Celso de Almeida Jr.
A filha Fernanda provocou uma conversa ao ver um bêbado escandaloso na praça da Matriz.

Saiu com esta:

Por que gente famosa faz propaganda de bebidas?

Eu comecei a responder com uma historinha.

Na juventude, em viagem de formatura ao Paraguai, dentre os presentinhos que comprei, encantou-me uma embalagem plástica do famoso cigarro John Player Special, marca que patrocinava carros de Fórmula 1.

Quem, da minha geração, não se lembra das “Lótus F1” do Emerson Fittipaldi e do Ayrton Senna?

Trouxe três tubos pretos para os fumantes da família.

Naqueles tempos, tínhamos os comerciais de Marlboro, cuja musiquinha eu adorava repetir na gaita de boca.

Sem falar em Hollywood, O Sucesso, com comerciais associados a todo tipo de esporte radical; ou ainda Continental, Preferência Nacional!

Teve também o Vila Rica, cujo jogador de futebol tricampeão, Gérson, anunciava que seria opção natural da nação fumar a marca: “Por que pagar mais caro se o Vila me dá tudo aquilo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também, leve Vila Rica!”
Nascia ali a famosa Lei de Gérson, que marcaria negativamente o atleta, pois acabou sendo associada ao desrespeito a regras, para obter vantagens pessoais, incluindo a corrupção.

Expliquei que eu nunca esperava que os comerciais de cigarros deixassem de ser exibidos.

Mas, felizmente, a legislação avançou e não há mais propaganda de cigarros no Brasil.

Antes que eu concluísse, ela disparou:

Então, quando eu for velhinha, pode ser que eu diga aos meus filhos que, no meu tempo de criança, tinha propaganda de bebidas?

Respondi que sim, concluindo a resposta citando a remuneração dos artistas e atletas, além das questões do marketing; com o zelo de ajustar a linguagem para uma jovem de 11 anos.

E, finalizei, discordando obviamente da indireta sobre a minha faixa etária...

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Opinião

No Brasil não existe direita?

João Mellão Neto - O Estado de S.Paulo
PT e PSDB mantêm uma relação que só Freud explica. Ambos foram dissidências do antigo MDB e nasceram do mesmo ventre: o pensamento socialista. Mas só viveram juntos até meados da década de 1980. A partir daí separaram os trapos e cada um foi cuidar da própria vida.

Intelectuais existem em ambos os partidos. Só que a social-democracia se traduz pela adesão de sindicatos e o PSDB ainda não conquistou nenhum. Os tucanos acreditam contar com a nata da inteligência brasileira. Acham que seus adversários são rudes e pouco educados. Os petistas já perceberam que seus opositores só conhecem a política de punhos de renda e abusa disso. Praticam a política do pragmatismo e a do poder no seu sentido mais realista. O PT vê no PSDB um inimigo a ser combatido. Já no PSDB o PT é tratado como irmão caçula. Todas as suas diabruras são perdoadas, todas as suas malcriações são relevadas como "excessos da juventude". Acontece que o PT não é um adolescente. Nasceu em 1980, sendo, portanto, oito anos mais velho que seu "irmão mais velho".

O PSDB alcançou a Presidência em apenas seis anos. O PT ficou no sereno por mais de duas décadas. E perdeu três eleições nacionais até entender e depurar os seus defeitos. Fala-se dos tucanos que eles não sabem fazer oposição. É claro que não. Eles nunca a fizeram.

Vamos rememorar os fatos. Mário Covas perdeu a eleição presidencial em 1989, mas logo a seguir os tucanos se transformaram na noiva mais cobiçada da corte. O presidente Fernando Collor fez de tudo para atraí-los ao seu leito e Itamar Franco, seu sucessor, concedeu-lhes vários ministérios. Eu residia em Brasília nessa época e acompanhei todos esses fatos de perto.

O senador Fernando Henrique Cardoso ganhou de presente o posto que mais desejara: o de ministro das Relações Exteriores. É um cargo para quem não pretende mais fazer política na vida, uma experiência muito gratificante: viaja-se bastante, convive-se com gente do mais alto nível, trabalha-se no ministério mais bonito de toda a Esplanada. Até aí, tudo de bom. O problema é que o único cargo de livre provimento de que dispõe é o de secretário particular, todos os demais são de carreira. Mas, ainda assim, era tudo o que FHC mais queria.

Uma noite foi acordado, em Nova York, por um telefonema urgente do presidente Itamar. Após três nomeações frustradas para a Fazenda, o nome mais respeitável disponível era o do chanceler Cardoso, que admitia publicamente quase nada saber de economia. Mesmo a contragosto, assumiu a pasta e, assessorado por bons economistas, bancou o Plano Real, que lhe valeria a vitória em duas eleições presidenciais.

O sucesso do "jeito tucano de governar" era tanto que acabou inspirando o então ministro das Comunicações, Sérgio Motta, a vaticinar que os social-democratas permaneceriam no poder por pelo menos 20 anos. Mas eis que, já em 2002, foram apeados do poder pelas urnas. A hora e a vez eram de Lula. O Brasil estava ávido por experimentar o modo petista de exercer o poder.

O presidente Lula demonstrou-se um prestidigitador. O amplo arco de apoio ia do PP, partido que herdara a massa falida da ditadura, até o PCdoB, criado para confrontar o PCB, que seus membros achavam ser por demais moderado.

Surgiu, então, um problema: como o forte do governo anterior fora a economia, o PT haveria de se destacar em outra área, a social. Para tanto o PT contava com uma arma secreta: o famigerado programa Fome Zero. Criou-se até um ministério para implantá-lo, que seria ocupado por ninguém menos que seu idealizador.

A expressão "fome zero" foi um sucesso internacional. Muita gente se propôs a fazer doações ao programa. O governo adiou mais uma vez a compra de novos aviões para a Força Aérea Brasileira e alegou que o fazia para investir no programa de banimento da fome. Demagógica ou não, o fato é que a ideia pegou.

Só que havia um detalhe: ninguém fazia a menor ideia de como fazer chegar os alimentos aos desvalidos. Decidiu-se, então, que os víveres seriam adquiridos diretamente pelos beneficiários. Depois era só eles apresentarem a nota fiscal às autoridades competentes que o governo ressarciria todas as despesas. Ora, nota fiscal nos grandes centros é coisa comum. Mas, e no interior do Nordeste, onde as pessoas nem sequer sabem o que é isso? O barco começou a fazer água por todos os lados. E se optou por uma solução mais simples: bastava o dono do empório rabiscar num papel um indicativo de despesas alimentares para que a exigência fosse cumprida. Não funcionou.

Aí surgiu a ideia de unificar todos os programas sociais então existentes num só, aproveitar os cadastros que haviam sido elaborados e batizar tudo com um novo nome. Foi assim que nasceu o Bolsa-Família, um sucesso de público, mas não de crítica. E dessa forma ficaram divididos os louvores: FHC destacou-se na economia, Lula brilhou no social e Dilma faz um pouco de cada coisa: é autoritária como um tucano e conversa com Fidel Castro como um petista.

Não há, todavia, nada mais parecido com um tucano do que um petista: ambos os partidos contam com excelentes quadros administrativos (os mesmos, aliás), governam com alguma eficiência e se entendem como de centro-esquerda. Afinal, nasceram gêmeos.

Mas, e quanto à direita? Ela não existe ao sul do Equador? Será que no Brasil não existe ninguém que defenda princípios de direita, seja a liberal, seja a conservadora? O pensamento de direita tem bases sólidas e não implica necessariamente complacência com ditaduras ou regimes de exceção. Entre outros princípios, prega o respeito aos direitos humanos, o sagrado direito de tomar decisões e a responsabilidade individual.

Todos pelo social não dá, pessoal. Alguém vai ter de subir pelo elevador de serviço.

*Jornalista, foi deputado, secretário e ministro de Estado. E-mail: puby2011@live.com. Artigos anteriores: www.blogdomellao.com.br

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 10 / 02 / 2012

Folha de São Paulo
"Policiais do Rio param, e Exército pode ir às ruas" 

Na Bahia, PMs deixam Assembleia, mas mantém greve; Dilma é contra anistia a suspeitos de crime

Policiais militares, civis e bombeiros do Rio decidiram, às 23h22, repetir o movimento da PM da Bahia e decretaram greve no Estado. A decisão, tomada por cerca de 2.000 pessoas na Cinelândia, no centro da capital ocorre uma semana antes do Carnaval. 

O Estado de São Paulo
"'Estarrecida' Dilma diz ser contra anistia a PMs em greve" 

Presidente reage à articulação de policiais da Bahia para cometer vandalismo; paralisação é mantida

Após a divulgação de escutas que mostram líderes da greve da Polícia Militar da Bahia planejando atos de vandalismo, a presidente Dilma Rousseff afirmou estar “estarrecida" e se mostrou contrária a perdão aos amotinados. “Se anistiar, aí vira um país sem regras", disse. Ela condenou que “se instaure o pânico, o medo" e se crie “situações incompatíveis com a democracia". Pela manhã, os grevistas desocuparam o prédio da Assembleia. Após negociação durante o dia, a categoria decidiu manter a paralisação. Com a prisão dos líderes, a governo acredita que haverá desmobilização do movimento grevista. Se condenados, os líderes podem pegar até 14 anos de prisão.

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Wando

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Impasses herdados

Las Malvinas son argentinas

Sidney Borges
Quase trinta anos depois de guerrear pela posse das Malvinas/Falklands, Argentina e Inglaterra voltam à dissonância. "Las Malvinas son argentinas" diz a presidente Cristina Kirchner enquanto leva a questão da soberania sobre o arquipélago ao conselho de segurança da ONU. Os ingleses continuam a percutir a mesma tecla: os kelpers (habitantes do arquipélago) querem continuar vivendo sob a bandeira britânica. E colocam um ponto final na questão: Não há o que discutir sobre quem é o dono das Falklands.

Napoleão disse um dia que guerra é assunto sério demais para ser decidido por militares. A história mostra casos que comprovam a tese. Vejamos a situação da Argentina em 1992 e como os fatos se desenrolaram no Atlântico Sul, mas antes vamos lembrar como a Índia recuperou Goa, Damão e Diu, em 1961, sem necessidade de confronto.

Goa é o menor estado da Índia, mas o mais rico per capita. Esteve nas mãos dos portugueses por mais de 400 anos, no entanto, em 1961 esta situação parecia anômala, o mundo mudara, colônias tinham saído de moda. A Índia que tinha se libertado do jugo britânico queria a posse integral de seu território.

Portugal agia como faz a Inglaterra hoje em relação às Malvinas/Falklands. O argumento de que os naturais das possessões preferiam a nacionalidade portuguesa dava a Salazar condições de não discutir a possibilidade da soberania mudar de mãos. 

Portugal tinha uma força de 3500 soldados em Goa. Em dezembro de 1961 o "pacifista" Nehru cercou a região com 60 mil soldados, uma frota de caças e bombardeiros de mais de 100 aviões e uma dezena de navios fortemente armados. Embora Salazar tenha dado a ordem de resistir até o último homem a guarnição lusa preferiu render-se. Obviamente foi o melhor a fazer, a desproporção entre as forças era tal que não havia lógica em combater.

Na Argentina de 1992, os argentinos tiveram a ousadia de invadir as Malvinas, mas esqueceram-se de tornar isso um fato irreversível. A operação deveria ter sido preparada para tornar um contra-ataque se não impossível, altamente temerário. Os carniceiros da ditadura argentina eram hábeis em matar e torturar civis, mas mostraram pouca habilidade ao desafiar um inimigo disposto a ir às últimas consequências.

Uma vez feita a invasão a Inglaterra esperou pelos dados dos satélites espiões americanos. Quando viu que as forças argentinas eram pífias, armou uma frota de navios, cruzou os mares e derrotou os bravos hermanos, recuperando a posse das Falklands.

Não vale a pena perder tempo discutindo direitos em um campo onde o direito é a força. A Argentina teve uma excelente oportunidade, não aproveitou, agora não adianta ir ao conselho de segurança da ONU. A Inglaterra não vai ceder. Aos argentinos só resta um caminho. Invadir. Da próxima vez que o façam com determinação, levando para Stanley, ex-Port Stanley, uma tropa de pelo menos 200 mil homens armados até os dentes, construindo pistas para 150 caças de última geração equipados com mísseis exocet e povoando os mares com uma flotilha de 50 submarinos invisíveis a sonares e radares.

E depois, ao ver o tamanho do rombo das contas do país, concluir: pois é, pra quê?

Folhas

Brasil

O fracasso do UCA-Total

Elio Gaspari, O Globo
A doutora Dilma deveria mandar que sua Secretaria de Assuntos Estratégicos divulgasse o conteúdo do relatório final da "Avaliação de Impacto do Projeto UCA-Total (Um Computador por Aluno)", coordenado pela professora Lena Lavinas, da UFRJ. Ele está lá, a sete chaves, desde novembro passado.

A providência é recomendável, sobretudo agora que o governo licita a compra de até 900 mil tablets.

Com 202 páginas, relata um desastre. A professora Azuete Fogaça, da Federal de Juiz de Fora, trabalhou na pesquisa e resume-a: "Boa parte dos computadores não foi entregue nos prazos. Outros foram entregues sem a infraestrutura necessária para sua adoção em sala de aula. O treinamento dos docentes não deu os resultados esperados. O suporte técnico praticamente inexiste. Os laptops que apresentaram problemas acabaram encostados em armários ou nos almoxarifados, porque não há recursos".

O programa UCA-Total, lançado em 2010, comprou um laptop para cada um dos 10.484 alunos da rede pública de cinco municípios-piloto: Tiradentes (MG), Terenos (MS), Barra dos Coqueiros (SE), Santa Cecília do Pavão (PR) e São João da Ponta (PA). Uma equipe de 11 pessoas acompanhou a iniciativa.

Os computadores chegariam a escolas equipadas com internet sem fio e professores capacitados colocariam a garotada no mundo novo da pedagogia informatizada.

Em São João da Ponta, o sinal mal chegava à escola. Em Barra dos Coqueiros, chegava às praças públicas e, para recebê-lo, os estudantes saíam do colégio. Em Terenos não havia rede. Tudo bem, porque algum dia ela haverá de chegar. Até lá, alguns heroicos professores pagam as conexões de provedores privados com dinheiro dos seus bolsos.

Os laptops comprados pelo governo têm baterias para cerca de uma hora. Como as aulas duram cinco, como fazer para recarregá-los? (Uma tomada para cada carteira, nem pensar.)

As prefeituras colocariam armários-alimentadores nas salas. Nem todos os municípios fizeram isso. Na Escola Estadual Basílio da Gama, em Tiradentes, não havia sinal nem armários de recarga, e os laptops estavam encaixotados.

Deixou-se em aberto uma questão central: o aluno deve levar o computador para casa? Em três municípios, levavam. Num, foram instruídos a não trazê-los todos os dias.

Só metade dos alunos teve aulas para aprender a usar os laptops.

Depois de terem recebido cursos de capacitação, 80% dos professores tinham dificuldade para usar as máquinas nas salas de aula. (Problema dos cursos, não deles, pois 91% tinham nível superior ou curso de especialização.)

Uma barafunda. As escolas estaduais não conversavam com as municipais e frequentemente não se conseguia falar com o MEC ou com a Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Não se diga que os laptops são trambolhos. A garotada adorou recebê-los, e os professores tinham as melhores expectativas. As populações orgulharam-se da novidade. O problema esteve e está na gestão.

A única coisa que funcionou foi a compra de equipamentos. O professor Mário Henrique Simonsen, que conhecia o governo, ensinava: "Às vezes, quando um sujeito te traz um projeto, vale a pena perguntar: 'Qual é a tua comissão? Dez por cento? Está aqui o cheque, mas prometa não tocar mais nesse assunto'"

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Opinião

Desastre na educação

O Estado de S.Paulo
Com 3,8 milhões de crianças e jovens fora da escola e padrões de ensino muito ruins, o Brasil terá muita dificuldade para se manter entre as maiores e mais prósperas economias, diante de competidores empenhados em investir seriamente em boa educação, ciência e tecnologia. Para dezenas de milhões de pessoas, o atraso educacional continuará limitando o acesso a empregos modernos e a padrões de bem-estar comparáveis com aqueles alcançados há muito tempo nas sociedades mais desenvolvidas. Mesmo a criação de vagas será dificultada, porque as empresas perderão espaço - como já vêm perdendo - para indústrias mais eficientes, mais equipadas com tecnologia e operadas por pessoal qualificado. Oportunidades de emprego são oportunidades de bem-estar e de vida melhor para o trabalhador e sua família.

Más políticas para a educação põem em risco esses valores e ainda condenam os indivíduos, por seu despreparo, a uma cidadania muito rudimentar. Não há como evitar pensamentos pessimistas depois de conhecer o último relatório do movimento Todos pela Educação, divulgado nessa terça-feira. O relatório confirma, com dados assustadores, as piores avaliações das políticas educacionais seguidas nos últimos nove anos - marcadas por prioridades erradas e orientadas por interesses populistas.

A partir de 2003 o governo federal deu ênfase à criação de faculdades e à ampliação do acesso ao chamado ensino superior, negligenciando a formação básica das crianças e jovens e menosprezando a formação técnica. Só recentemente as autoridades federais passaram a dar atenção ao ensino profissionalizante.

Por muito tempo ficaram concentradas no alvo errado, enquanto os maiores problemas estão nos níveis fundamental e médio. A progressão dos estudantes já se afunila perigosamente antes do acesso às faculdades. Segundo o relatório, em apenas 35 cidades - 0,6% do total - 50% ou mais dos estudantes têm conhecimentos matemáticos adequados à sua série. No caso da língua portuguesa, aqueles 50% ou mais foram encontrados em apenas 67 municípios.

Criada como entidade não governamental em 2006, a organização Todos pela Educação definiu metas finais e intermediárias para o período até 2022. Talvez fosse mais apropriado falar de "marcos desejáveis", já que a fixação de metas deve caber a quem dispõe dos instrumentos e dos poderes para a formulação de políticas. O confronto dos dados efetivos com esses marcos - nenhum deles muito ambicioso - permite uma avaliação dos avanços, em geral muito modestos, da atividade educacional brasileira. O quadro é constrangedor.

Em 2010, 80% ou mais das crianças no final do terceiro ano fundamental deveriam dominar a leitura, a escrita e as operações matemáticas básicas. No caso da escrita, 53,3% alcançaram o padrão desejado. No da leitura, 56,1%. No da matemática, 42,8%.

As porcentagens melhoram, em algumas séries mais altas, mas, em contrapartida, há um sensível afunilamento. Só 50% dos jovens com até 19 anos concluem o ensino médio. Destes, apenas 11% aprenderam o mínimo previsto de matemática. Não tem muito sentido prático alargar as portas de acesso às faculdades, como fez o governo durante vários anos, quando poucos estão preparados para enfrentar um bom ensino universitário.

Não há, neste momento, grandes perspectivas de melhora. Porque a legislação do ensino médio continua desastrosa, como deixaram bem claro, em artigo publicado no Estado de ontem, os especialistas João Batista A. Oliveira, Simon Schwartzman e Cláudio de Moura Castro, analisando a Resolução 2 do Conselho Nacional de Ensino, publicada em 30/1/2012, que "alarga o fosso que existe entre as elites brasileiras e o mundo das pessoas que dependem de suas decisões".

Além disso, a vertente profissionalizante do ensino médio é oferecida não como alternativa real, mas como um caminho mais trabalhoso, com adição de 800 horas ao currículo. Diante desse quadro, as inovações propostas pelo governo - como a distribuição de tablets aos professores - parecem piadas de mau gosto. Engenhocas podem ser muito úteis, mas nenhuma pode produzir o milagre de tornar eficiente um sistema fundamentalmente mal concebido e orientado.

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 09 / 02 / 2012

Folha de São Paulo
"PMs em greve na Bahia combinaram atos de vandalismo" 

Planos de grevistas foram flagrados em escuta telefônica; oficiais ameaçam se juntar a subordinados no movimento

Gravações divulgadas pelo "Jornal Nacional" mostram o líder da greve da PM baiana, o ex-policial Marco Prisco, combinando ato de vandalismo com outro grevista. O interlocutor de Prisco, diz que vai "queimar viatura" em rodovia. O líder responde: "Fecha a BR". Prisco afirmou que a conversa é uma montagem e que o objetivo era "lotar" a estrada com manifestantes.

O Estado de São Paulo
"Cresce cerco do Exército a policiais em greve na Bahia" 

Mobilização aumenta e soldados chegam a impedir a entrada de alimentos para os PMs na Assembleia

Em um dia sem negociações entre associações de PMs grevistas e governo da Bahia, o Exército voltou a endurecer o cerco aos policiais que ocupam a Assembleia Legislativa. O efetivo foi ampliado de 1.050 para 1.200 homens e, pela manhã, os soldados impediram a entrada de mantimentos e medicamentos para os grevistas. O secretário da Casa Civil, Rui Costa, reiterou que o governo não negocia com os líderes do movimento e afirmou, pela primeira vez, que o Exército pode usar a força para “resolver a situação". “A paciência da sociedade está se esgotando, vão chegar mais tropas à Bahia e a situação será resolvida, de uma forma ou de outra." Não havia previsão da retomada das negociações - o governo baiano não abre mão de punir os grevistas.

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quarta-feira, fevereiro 08, 2012

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Opinião

A primeira privatização petista

O Estado de S.Paulo
O governo petista fez, afinal, sua primeira grande privatização, entregando três dos principais aeroportos do País - Guarulhos, Viracopos e Brasília - a consórcios com participação de capitais brasileiros e estrangeiros. Há alguma esperança, portanto, de que o País venha a ter aeroportos mais modernos, com maior capacidade operacional e melhores condições de atendimento num futuro não muito remoto. Deixando para trás o velho discurso partidário, a presidente Dilma Rousseff aceitou repetir três características importantes das privatizações dos anos 90: a presença decisiva de fundos de pensão de estatais, o compromisso do BNDES de financiar a maior parte dos investimentos necessários e o leilão baseado no maior lance e não na menor tarifa.

Houve duas diferenças importantes. As maiores empresas participantes da licitação, como Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, desistiram de acompanhar os lances mais altos. Ficaram fora, na rodada final. O ágio chegou a 159,8% no leilão de Viracopos, 373,5% no de Guarulhos e 673,4% no de Brasília, com arrecadação total de R$ 24,535 bilhões. A outra grande novidade em relação aos leilões anteriores foi a presença do Estado como grande acionista: a Infraero terá uma fatia de 49% nos três consórcios. Na prática, portanto, quase metade da arrecadação total nunca será, de fato, entregue ao Tesouro, porque o Estado está dos dois lados do negócio.

Pelo menos um ponto parece fora de dúvida. Se os consórcios levarem a sério suas tarefas, a administração dos três aeroportos será muito melhor do que seria se continuassem sob a responsabilidade da Infraero. Os três serão administrados por empresas com razoável experiência no setor. O consórcio Invepar, vencedor do leilão de Guarulhos, associou-se à Acsa, operadora de nove aeroportos na África do Sul, incluídos três internacionais. A gestão do aeroporto de Viracopos poderá ser beneficiada pela experiência da francesa Egis Airport Operation. A argentina Corporación América, associada à Engevix na disputa de Brasília, está presente em 48 aeroportos - a maioria na própria Argentina, na Itália, na Armênia, no Equador e no Uruguai.

Operadoras de maior reputação, como a alemã Fraport e a suíça Zürich, deixaram o leilão antes do fim, juntamente com as grandes construtoras brasileiras, mas isso não desqualifica as participantes dos consórcios vencedores.

O governo tomou o rumo da privatização depois de reconhecer a incapacidade da Infraero de realizar as melhorias necessárias não só para a realização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, mas também para a prestação normal dos serviços num mercado em expansão muito rápida. A estatal tem mostrado grave ineficiência tanto na gestão dos aeroportos quanto na realização dos investimentos programados. No ano passado a Infraero bateu um recorde, investindo R$ 1,14 bilhão, mas, ainda assim, só conseguiu aplicar 75,6% da verba programada. Em 2010, o dinheiro investido correspondeu a apenas 59,5% do previsto. Em 2009 não passou de 42,9%. O problema, de modo geral, não é a disponibilidade de recursos - embora o total disponível seja inferior ao necessário -, mas a qualidade da gestão. Esta deficiência permeia a maior parte da administração federal.

Como o governo deu prioridade ao ágio, deixando em plano inferior a questão das tarifas, o custo para o usuário provavelmente será aumentado. Os consórcios terão de investir não só em pistas e em condições técnicas de operação, mas também no atendimento aos clientes. Terão de recorrer a tarifas para compensar tanto esses investimentos como o ágio elevado.

Mesmo assim, o resultado final poderá ser muito positivo, se ocorrerem as melhorias indispensáveis. Se a Infraero continuasse administrando aqueles aeroportos, mantendo a má qualidade e a pouca variedade de seus serviços, que todos os seus usuários conhecem, seria inevitável algum aumento de custos para o público, simplesmente como consequência da inflação e das necessidades de financiamento do setor público. Em resumo, os serviços seriam os mesmos - ruins e escassos -, mas a um custo maior. Há motivos, portanto, para otimismo, principalmente se o governo continuar privatizando o setor.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 08 / 02 / 2012

Folha de São Paulo
"Governo teme que crise nas policias chegue a 6 Estados" 

Serviço de inteligência federal monitora movimentos de greve 'explosivos' que exigem aprovação de piso nacional para PMs

O governo federal vê risco elevado de a greve da Polícia Militar baiana se alastrar para mais seis Estados: Rio de Janeiro, Alagoas, Pará, Espírito Santo, Paraná e Rio Grande do Sul. Destes, o Rio é considerado o mais crítico. Há temor de violência às vésperas do Carnaval. O serviço de inteligência que abastece o Palácio do Planalto classifica-os de "Estados explosivos". A presidente Dilma Rousseff foi informada de que o levante faz parte de uma articulação para que a Câmara aprove o piso nacional para o salário de bombeiros e PMs.

O Estado de São Paulo
"Negociação fracassa na BA e mortes passam de 120" 

Homicídios na Região Metropolitana de Salvador dobram; perdão a grevistas leva a impasse

Após 16 horas de negociação, as associações de policiais e o governo da Bahia chegaram a um impasse e não fecharam acordo para pôr fim à greve, que completou oito dias. A anistia para os sindicalistas e o prazo para pagar gratificações travaram as conversas. “Não há espaço no orçamento para que o pagamento seja realizado agora", disse o governador Jaques Wagner (PT). “Ô, ô, ô, o carnaval acabou”, gritavam os acampados na Assembleia Legislativa. Desde o início da greve, ocorreram na Região Metropolitana de Salvador pelo menos 120 homicídios - uma média de 15 por dia, mais que a dobra do registrado normalmente. Grevistas são investigados por homicídios e saques. Em meio ao temor de que o movimento se espalhe, o governo Dilma Rousseff desengavetou projeto de lei que disciplina o direito de greve de servidores.

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terça-feira, fevereiro 07, 2012

Viena

Socialismo

Privatização e privataria

Miriam Leitão - Globo, 07
A privatização dos aeroportos foi um sucesso de ágio, houve disputa, mas, como a privatização dos tucanos, foi estatizada demais. O defeito é o mesmo. Fundos de pensão estatais garantem as empresas privadas, o BNDES financiará 80% dos investimentos, e a Infraero vai pagar parte da conta. Os maiores operadores mundiais perderam o leilão nos três aeroportos.

O consórcio Invepar, que comprou Guarulhos, em São Paulo, é 80% formado por Previ-BB, Petros-Petrobrás e Funcef-CEF, ou seja, os mesmos fundos de pensão que sustentaram as privatizações do governo FHC. Além disso, a estatal que vendeu o ativo, a Infraero, continua com 49% e, portanto, pagará metade da conta de R$ 16,2 bilhões. Fica na estranha situação de pagar por ter vendido. Há ainda o compromisso de em Guarulhos investir R$ 4,5 bilhões em 15 anos, sendo R$ 1,4 bilhão até a Copa. O BNDES vai emprestar 80% dos recursos. (Do Ex-Blog do Cesar Maia)

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Opinião

À margem da lei

O Estado de S.Paulo
A tática de, em nome de direitos humanos, levar movimentos reivindicatórios à radicalização e provocar confrontos - quanto mais violentos, melhor - com os poderes constituídos é recurso conhecido e praticado em todo canto onde haja um mínimo de liberdade, mas especialmente nos países em que as instituições democráticas não estão suficientemente consolidadas. A quem interessa esse procedimento? De imediato, aos grupos nominalmente empenhados nas reivindicações e delas potenciais beneficiários, os quais muitas vezes se deixam manipular pelos "agitadores" ou disso não se dão conta. Numa perspectiva política mais ampla, interessa, é claro, aos próprios insufladores da radicalização, cujo objetivo é desmoralizar e enfraquecer os governantes de turno, visando a vantagens num amplo arco que tanto pode se esgotar num ganho eleitoral de curto prazo quanto obter uma conquista ideológica a termo mais longo. É o que aconteceu dias atrás em São Paulo, com a reintegração de posse da área do Pinheirinho, em São José dos Campos. É o que está acontecendo há uma semana na Bahia, com a absurda greve dos policiais militares (PMs).

O movimento dos policiais militares baianos - estima-se que cerca de um terço da corporação tenha aderido à greve - tem levado o caos e o pânico às ruas das principais cidades do Estado, principalmente a capital, onde hordas de criminosos se sentem à vontade para praticar assaltos e assassínios à luz do dia, mesmo com a presença, convocada às pressas, de forças federais. O número de homicídios mais que dobrou e não surpreende que algumas autoridades atribuam essa explosão de violência a uma ação deliberada dos grevistas, para levar o pânico à população.

A greve, declarada ilegal pela Justiça baiana, que expediu mandados de prisão contra 12 líderes da ação, é comandada por uma tal de Associação de Policiais e Bombeiros e de seus Familiares do Estado da Bahia, cujo presidente, o ex-policial militar Marco Prisco, tem um histórico político compatível com a falta de coerência do movimento: filiado há poucos meses ao PSDB - partido em relação ao qual já manifesta insatisfação, porque até o momento "ninguém veio apertar minha mão" -, passou os últimos anos no PSOL, tendo sido anteriormente filiado ao PT e ao PC do B. Em 2001, no governo Cesar Borges, do PFL, quando era soldado, Prisco foi um dos líderes de outra rumorosa greve da PM, o que resultou em sua expulsão. A diferença é que naquela época "lutava" ao lado do PT do então deputado Jaques Wagner, então empenhado em desmoralizar o grupo político do finado senador Antonio Carlos Magalhães.

Hoje do lado oposto àquele em que se encontrava em 2001, o governador Jaques Wagner não hesita em chamar os grevistas pelo nome que boa parte deles certamente merece - "criminosos" - e em sustentar que a greve "pode ser parte da operação montada, da tentativa de criar um clima de desespero na população para fazer o governo sucumbir, uma tentativa de guerra psicológica".

Seis dias depois de iniciado o motim, a situação era extremamente tensa ontem em Salvador, onde um grupo de grevistas, inflado por mulheres e crianças, permanecia sitiado por forças federais e da própria PM baiana na Assembleia Legislativa. As autoridades negavam qualquer intenção de invadir o prédio e os grevistas prometiam reagir a uma eventual tentativa. De parte a parte registravam-se, como era de esperar, queixas e acusações de violações de direitos. O desequilíbrio das forças em conflito e a falta de apoio político significativo aos amotinados indicam que os grevistas acabarão cedendo. Até porque o governo petista, com toda razão, se negava categoricamente a atender a uma das únicas duas reivindicações que os sublevados sustentavam nas últimas horas: a anistia geral aos participantes do movimento.

Esse lamentável episódio só não terá apenas causado sérios prejuízos à população baiana se, de alguma maneira, levar a sociedade brasileira ao entendimento de que existe uma condição absolutamente indispensável à consolidação do regime democrático: o império da lei.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 07 / 02 / 2012

Folha de São Paulo
"Empresas de médio porte administrarão aeroportos" 

Na maior concessão da gestão Dilma, governo arrecada 347% acima do previsto

O leilão dos aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília atraiu os maiores operadores do mundo, mas quem levou foram administradores da África e da Argentina. Os três vencedores pagarão R$ 24,5 bilhões, 347% além do previsto. "O fato de ser emergente não diminui ninguém porque, senão, teríamos de ter o complexo de vira-lata eterno", afirmou o ministro da Aviação Civil, Wagner Bittencourt. O aeroporto de Guarulhos terá como operador a sul-africana Acsa.

O Estado de São Paulo
"Com fundos de pensão, leilão de aeroportos rende R$ 24,5 bi" 

Previ, Funcef e Petros estão no consórcio que levou Guarulhos; ágio médio nas 3 concessões foi de 347%

O leilão de privatização dos aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília superou as expectativas. Teve ágio médio de 347% e vai render ao governo R$ 24,5 bilhões. O consórcio Invepar - formado pelos fundos de pensão Previ, Funcef e Petros e a construtora OAS, em parceria com a estatal sul-africana ACSA - levou o Aeroporto de Guarulhos por R$ 16,21 bilhões, valor R$ 3,3 bilhões acima do segundo melhor lance. Executivos que participaram do leilão sugeriram que essa proposta só foi possível porque o consórcio seria "chapa-branca". Advogados que estudaram os aeroportos acreditam que o retorno do investimento não supere 4%. O presidente da Invepar, Gustavo Rocha, disse que o lance foi feito após oito meses de estudo: “Para entrar numa disputa assim, tínhamos de estar muito seguros".

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segunda-feira, fevereiro 06, 2012

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Opinião

Guerra às doenças tropicais

O Estado de S.Paulo
Embora as doenças tropicais aflijam cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo, elas são geralmente chamadas pelos especialistas de "doenças esquecidas". E, seja por deficiência dos serviços de saúde pública, seja pela falta de pesquisa de novos remédios pelos principais centros médico-científicos e pelas indústrias farmacêuticas, não recebem os cuidados e a atenção devida. Na verdade, são as populações pobres que têm sido esquecidas, como disse Caroline Anstey, do Banco Mundial (Bird). Há anos a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os governos de vários países procuram amenizar o problema, mas não há meta definida de erradicação desses males. Isso pode começar a mudar com a destinação de US$ 785 bilhões para a erradicação de dez doenças tropicais, como a hanseníase, a malária, a doença de Chagas, a esquistossomose e a dengue, até 2020. Metade dos recursos virá da Fundação Bill & Melinda Gates, em parceria com o Bird, a OMC e os governos dos EUA, Grã-Bretanha e Emirados Árabes Unidos, como foi há pouco anunciado em Londres. Como assinalou a OMC não se trata apenas de uma questão humanitária. Essas doenças causam perdas bilionárias de produtividade.

Sem desmerecer a importância de doações filantrópicas, há uma forte motivação econômica nessa iniciativa, que pode vir a ser a maior na área de saúde pública, em termos globais, até agora. Com a expansão das economias dos países em desenvolvimento nos últimos anos, houve um aumento apreciável do poder aquisitivo das populações das regiões tropicais, fortalecendo mercados antes de pouca importância no comércio internacional. Os 13 maiores laboratórios farmacêuticos do mundo, que se engajaram na campanha, têm pleno conhecimento disso e não ignoram que, além de vender novos medicamentos que vierem a ser desenvolvidos, terão também de subsidiar ou doar milhões de doses, uma vez que, se o objetivo é a erradicação de endemias, o esforço não pode ficar limitado pela baixa renda de boa parte dos povos que vivem em países tropicais.

Até agora as grandes indústrias farmacêuticas mundiais não vinham dando a importância devida à pesquisa e desenvolvimento de remédios para tratamento de doenças comuns nos trópicos, concentrando-se na produção de medicamentos destinados ao mundo desenvolvido ou às camadas de maior renda dos países emergentes. A introdução de novos tratamentos ficava, em grande parte, a cargo dos institutos de pesquisas dos países tropicais - e o Brasil obteve avanços significativos nessa direção - ou de instituições públicas de países que foram, no passado, grandes impérios coloniais, como a Grã-Bretanha e a França. O ingresso de laboratórios internacionais na campanha deve dar grande impulso à pesquisa nessa área. A Bayer se comprometeu, por exemplo, com um projeto para tratamento e possível cura da doença de Chagas, que mata 10 mil pessoas por ano na América do Sul.

O secretário de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, Jarbas Barbosa, que esteve na reunião de Londres em que foi lançado esse programa, considera possível a erradicação e o controle das doenças tropicais mais virulentas. O Ministério está atualmente empenhado no combate a três doenças que afetam milhares de brasileiros, mas que vinham merecendo menos atenção das autoridades: o tracoma (infecção bacteriana nos olhos), a helmintíase (transmitida por alimentos contaminados) e a esquistossomose (transmitida por caramujos).

É lógico que, para que essa campanha tenha êxito, não basta medicar, mas é necessário também prevenir. Pode haver, no futuro, vacinas contra aquelas doenças, assim como contra a dengue. Mas essas doenças, como advertem as autoridades sanitárias, podem ser evitadas e controladas com maior vigilância por parte da população para coibir a proliferação dos seus vetores.

É também fundamental que se expandam os serviços de tratamento de água e as redes de esgoto, que ainda são precários no Brasil. Se o clima tropical favorece o surgimento dessas doenças, elas se tornam muito mais facilmente transmissíveis na ausência de condições mínimas de higiene e saneamento.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 06 / 02 / 2012

Folha de São Paulo
"Bahia põe blindados nas ruas e prende PM" 

Já são 86 homicídios nos dias da greve, mais que o dobro da semana anterior

Blindados Urutu do Exército começaram a patrulhar as ruas de Salvador, que vive dias de violência com a greve dos policiais militares iniciada na terça passada. Nos seis primeiros dias de greve, 86 pessoas foram mortas na região metropolitana, contra 42 no mesmo período da semana anterior.

O Estado de São Paulo
"Rendimento de outros Estados sobe e se aproxima do paulista" 

Renda média de SP foi a que menos cresceu entre 2006 e 2011: Rio deve assumir primeiro lugar

A diferença entre o rendimento médio real dos trabalhadores da Região Metropolitana de São Paulo ante o resto do País está menor. De 2003 a 2011, o salário dos paulistanos teve alta de 13,8% e foi o que menos cresceu entre as seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE – quase nove pontos porcentuais inferior à total do País. Desde 2003, quando foi implementada a nova metodologia da Pesquisa Mensal de Emprego, o rendimento médio que mais cresceu foi o da Região Metropolitana do Rio (33,8%), seguida pelas de Belo Horizonte (32,1%) e de Salvador (30,9%). “É possível dizer que as demais regiões estão convergindo para onde está São Paulo”, diz Regina Madalozzo, professora de economia do Instituto de Pesquisa e Ensino. 

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domingo, fevereiro 05, 2012

Ubatubanas caiçarices


“Tá russo!”

José Ronaldo dos Santos
Por um tempo fomos vizinhos, no Perequê-mirim, isso no início da década de 1970, do russo Viktor Kornílov, um tranquilo velhinho que deixou a sua terra logo após a Revolução Russa (1917).

O seo Vito adorava pescar. A sua casa mais parecia uma ilustração de conto de fadas, com uma cerca viva maravilhosa. Ah! A sua edícula servia como oficina, de onde saíam engenhosidades fantásticas! Ele tinha uma embarcação (um bote) tratada com tanto carinho que até dava para comparar a um membro da família. Até desconfio que existe ainda hoje, preservada em algum lugar a servir de base para histórias aos seus descendentes.

Foi convivendo com os caiçaras que o seo Vito aprendeu um monte de coisas, de nomes, de técnicas etc. Porém, o espírito brincalhão de vários dos meus antigos era muito forte. Tudo tinha que render algumas risadas. Assim, por exemplo, alguns nomes de peixes foram ensinados erradamente ao bondoso russo. Mira, um tranquilo peixe da costeira, passou a ser chamado de mierda; o carapicu tornou-se cara de... ; a sarambiguara provocava risos quando ele dizia orgulhosamente sarnanacara; o coitado do roncador virou coçador.

Coitado do seo Vito! Nunca entendeu porque em muitas ocasiões, quando descrevia satisfatoriamente as suas pescarias, exagerando sempre um pouquinho mais como bom pescador, todos riam gostosamente das suas palavras. Imagine ele narrando: “Eu pescar, depois do Saco Manso, um peixe mierda que cansar demais. Ficar entocado no buraco preto da Pedra do Rendido”.

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Opinião

Vazamentos de petróleo

O Estado de São Paulo
O vazamento ocorrido nessa semana no Campo Carioca Nordeste na Bacia de Santos, a cerca de 250 km de Ilhabela, no litoral de São Paulo, preocupa menos pelos impactos ambientais do que por ter sido o primeiro na área da camada do pré-sal, a 2.140 metros de profundidade. Pela estimativa preliminar da Petrobrás, vazaram 160 barris de petróleo (25,5 mil litros), um volume relativamente pequeno, não havendo, segundo a empresa, risco de que venha a atingir a costa. Sob o aspecto ambiental, o derramamento de óleo no terminal da Transpetro, em Tramandaí (RS), no último dia 26, atingindo as praias, com sérios prejuízos à vida marinha na área, foi bem mais grave.

O que causa particular apreensão no que se refere ao último acidente é que, como os reservatórios de petróleo no pré-sal podem estar a mais de 7 mil metros de profundidade, em locais de difícil acesso, a repetição desse tipo de ocorrência certamente terá sérias consequências. Não se questiona a tecnologia utilizada no pré-sal, mas há sérias dúvidas sobre as medidas de prevenção e segurança que deveriam ser adotadas pela Petrobrás e outras companhias que operam em águas profundas.

O oceanógrafo David Zee, que atuou no vazamento de 400 mil litros de óleo no Campo de Frade, na Bacia de Campos, operado pela Chevron, em novembro de 2011, ouvido pelo Estado (1/2), confirma que a profundidade atrapalha as ações. "Em uma profundidade dessas, não se pode fazer muita coisa", disse ele. Além de o ambiente ser inóspito, a acessibilidade ao local é complexa, tanto mais por causa da grande distância do litoral.

A Petrobrás informou que o poço no Campo Carioca Nordeste foi lacrado e o vazamento foi interrompido automaticamente pelo sistema de segurança, mas não esclareceu qual foi o procedimento utilizado. Quanto à apuração da dimensão exata do derramamento, bem como de suas causas, há uma investigação em curso sob a responsabilidade da ANP e do Ibama. As operações do navio-plataforma da Petrobrás, que trabalhava no local, só poderão ser retomadas depois de feito o diagnóstico técnico do acidente.

O que se estranha é que, embora a estatal tenha mencionado que, para fechar o poço, utilizou um plano de emergência, este, aparentemente, decorre de normas técnicas internas, uma vez que o Brasil não dispõe de um planejamento de contingência para vazamentos de petróleo. Em seguida ao desastre no Campo de Frade, a ANP afirmou que um sistema amplo de controle, em estudo no Ministério de Minas e Energia há dez anos, seria finalmente concluído, incorporando as lições do desastre do Golfo do México. Depois de consultados outros Ministérios, a proposta seria enviada à Casa Civil para dar origem a um decreto. Tal plano, portanto, ainda corre por canais burocráticos e, se já estivesse em vigor, talvez não evitasse o acidente no Campo Carioca Nordeste, mas possibilitaria uma melhor coordenação entre a ANP, o Ibama e a Marinha, que passariam a integrar um Comando Unificado. A ação coordenada é considerada indispensável em vazamentos de qualquer proporção, especialmente em áreas tão sensíveis como a da camada do pré-sal.

Como disse o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, "o Brasil e a sociedade estão vendo que o petróleo vaza. A probabilidade de vazamento aumenta à medida que se fura mais poços no mundo todo. As empresas têm de começar a desenvolver procedimentos que tornem mais segura a atividade". Pode-se acrescentar que, depois de tais desastres, não basta que os órgãos ambientais imponham multas, às vezes muito pesadas, às petrolíferas. É preciso que, mediante inspeções periódicas, se previnam acidentes, e este deve ser também um dos objetivos do Comando Unificado, se e quando for implantado.

O País deposita grandes esperanças na extração de petróleo da camada do pré-sal, que está apenas no início e deve durar décadas. Ainda que o acidente verificado não seja de maior gravidade, já está mais que na hora de o governo adotar medidas de proteção desse patrimônio.

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Manchetes do dia

Domingo, 05 / 02 / 2012

Folha de São Paulo
"Fotógrafo da morte de Herzog diz que ditadura o usou" 

Folha localiza o homem que documentou a farsa que se tornou símbolo do regime militar no Brasil

Documentar o corpo do jornalista Vladimir Herzog "enforcado", com os pés encostados no chão de uma cela do DOI-Codi, foi a primeira aula prática de Silvaldo Leung Vieira, em 1975, no curso de fotografia da Polícia Civil de São Paulo. A tentativa dos militares e policiais paulistas, que operavam na rua Tutoia, de simular o suicídio falhou e a repercussão da morte de Herzog ajudou a enfraquecer a linha dura do regime militar. Silvaldo é uma das poucas testemunhas.

O Estado de São Paulo
"Incentivo fiscal busca salto tecnológico" 

Medidas facilitarão importação de equipamentos

A presidente Dilma Rousseff prepara quatro medidas provisórias que vão estabelecer Regimes Tributários Especiais para facilitar a importação de máquinas para produção de equipamentos de alto conteúdo tecnológico nas áreas de semicondutores, TV digital, telecomunicações e computadores pessoais. O objetivo é tentar garantir que a indústria consiga fabricar produtos melhores e mais avançados gastando menor número de horas, o que reduz o custo final. A desoneração vai focar mercadorias que não estão disponíveis no mercado brasileiro, justamente para dotar a indústria local dessas tecnologias. Com o incentivo, o governo espera obter um salto tecnológico no País, como se prevê que aconteça com o novo regime automotivo. 

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