sábado, janeiro 07, 2012

E = m.c2

Colunistas

Balanço de 2011

Do fiasco da direita local ao colapso do capitalismo global: “Embora desfrutável, a ascensão e a decadência de Kassab devem servir de alerta. Assim como fez de uma nulidade um case eleitoral vitorioso, a mídia poderá regenerar vampiros de maior calibre, vendendo-os como ‘gestores capazes’ (capazes do quê mais? sobrou alguma coisa a ‘indigestar’?)

Márcia Denser
Concordo com o editorial de quarta-feira última da Carta Maior que avalia como um grande fiasco a gestão do prefeito paulista, Gilberto Kassab, ora em seu último ano, bancada que foi, em 2008, pela imprensa paulista, como uma espécie de revide à reeleição de Lula dois anos antes. Foi a manipulação desse caldo de cultura que deu ao pupilo de Jorge Bornhausen – a fina flor da ultradireita, sujeito medíocre e dissimulado, com falsos ares de bonzinho & certinho – mais de 60% dos votos no 2º turno das eleições.

A conta da fraude acaba de chegar e representa, em si, uma denúncia do jornalismo que o enfiou goela abaixo do eleitor, abstendo-se, naturalmente, de qualquer autocrítica.  Em fim de mandato, a tal administração patrocinada pelo anti-petismo midiático carrega um atestado de fracasso em praticamente todas as áreas sensíveis à vida da metrópole: transportes, educação, saúde, prevenção de enchentes. Seu único ponto forte: a parada gay – não é sintomático? (pra dizer o mínimo).

Pesquisas dos mesmos veículos que o elevaram aos píncaros da glória, com factóides como ‘A Cidade Limpa’, indicam que um candidato apoiado por Kassab teria hoje rejeição de 49% dos eleitores. Outros 40% classificam a sua gestão como um desastre. O bombardeio pode ser uma advertência à criatura que ensaia voo solo com seu PSD, num momento em que o conservadorismo se ressente de nomes e requer unidade para renovar a sua artilharia política anti-socialóide em outubro.

Embora desfrutável, a ascensão e a decadência de Kassab devem servir de alerta. Assim como fez de uma nulidade um case eleitoral vitorioso, a mídia poderá regenerar  vampiros de maior calibre, vendendo-os como “gestores capazes” (capazes do quê mais? sobrou alguma coisa a “indigestar”?). A melhor denúncia do engodo é confrontá-lo desde já com as respostas inovadoras e criativas, que surgiram sobretudo neste último ano – com ênfase, pela visibilidade global, da Ocupação de Wall Street – sintonizadas com as aspirações urbanas e atentas às lições oferecidas pela crise mundial em outras metrópoles.

Na esfera geopolítica, 2011 foi um bom ano para a esquerda mundial sob vários ângulos, segundo Immanuel Wallerstein. As razões fundamentais devem-se naturalmente às condições econômicas negativas que atingem a maior parte do planeta. O desemprego, que era alto, cresceu ainda mais. A maioria dos governos, endividados e sem grana, novamente tenta impor a velha receita neoliberal que, a longo prazo, não dá certo para ninguém:  medidas de austeridade contra a população e de proteção em favor dos bancos.

O resultado foi a revolta global, expressa no que o movimento Occupy Wall Street chama de “os 99%”. Os alvos são a excessiva polarização da riqueza, os governos corruptos e sua natureza essencialmente antidemocrática. Se o Occupy Wall Street, a Primavera Árabe e os Indignados não alcançaram tudo o que esperavam, conseguiram alterar o discurso mundial, levando-o para longe dos mantras ideológicos do neoliberalismo, isto é, fixando na pauta temas como desigualdade, injustiça e descolonização.

Pela primeira vez, as pessoas comuns passaram a discutir a natureza do sistema em que vivem, não mais considerando-o natural ou inevitável. Agora, a questão para a esquerda mundial é como avançar, convertendo este novo discurso em ação e transformação política. O problema pode ser exposto de maneira muito simples: ainda que exista, em termos econômicos, um abismo claro e crescente entre um grupo muito pequeno (o 1%) e outro muito grande (os 99%), a divisão política já não segue o mesmo padrão. O fato é que as forças de centro-direita ainda comandam metade da população politicamente ativa no mundo.

Concordo também com Wallerstein quando este considera que a esquerda que aí está não tem força de unificação política de tais movimentos, nem a longo ou curto prazos. No momento, as piores e mais críticas divisões dentro da esquerda é quanto às eleições. A respeito, não existem duas, mas três posições: existe o grupo mais radical, que suspeita profundamente de eleições, argumentando que participar delas não é apenas politicamente ineficaz, mas reforça a legitimidade do sistema mundial existente.

Os outros admitem que é crucial participar de processos eleitorais, mas estes se subdividem: há os chamados “pragmáticos” – porque querem trabalhar pelo lado de dentro – dentro dos maiores partidos de centro-esquerda quando existe um sistema multipartidário funcional, ou dentro do partido único quando a alternância parlamentar não é permitida. E há os que condenam essa política de escolher o mal menor, sendo a favor do voto em quem for “genuinamente” de esquerda.

Mas seja qual for a posição, o importante é participar do processo eleitoral. Porque é preciso considerar que, a curto prazo, 99% está sofrendo, e esse sofrimento é sua prioridade: tentar sobreviver e ajudar suas famílias e amigos a sobreviver. Se pensarmos nos governos, não como agentes de transformação social, mas como estruturas que causam o sofrimento a curto prazo, por meio de decisões políticas imediatas, talvez a esquerda mundial seja obrigada a agir. E agir para minimizar a dor exige participação eleitoral. Mas não há uma resposta-padrão para tal debate. Que diz respeito, muito mais, à situação tática de cada país.

O segundo debate fundamental presente na esquerda é entre o desenvolvimentismo e o que pode ser chamado de prioridade na mudança da civilização. Pode-se observar tal debate na América Latina – especificamente em países como Bolívia, Equador, Venezuela. Na América do Norte e Europa, nas questões entre ambientalistas/verdes e os sindicatos, que priorizam a oferta e manutenção do emprego.

De um lado, a opção desenvolvimentista, apoiada por governos de esquerda ou por sindicatos, sustenta que, sem crescimento econômico, não é possível enfrentar as desigualdades econômicas do mundo de hoje – tanto locais como globais. Esse grupo acusa o oponente de apoiar, pelo menos objetivamente e talvez subjetivamente, os interesses das forças de direita.

Os que apoiam a opção antidesenvolvimentista dizem que o foco no crescimento econômico está errado em dois aspectos: 1) É uma política que leva adiante as piores características do sistema capitalista; 2) E é uma política que causa danos irreparáveis – sociais e ambientais.

Essas diferenças poderão ser superadas nos próximos cinco ou dez anos? Não se sabe. Mas se não forem, acreditamos que a esquerda mundial possa ganhar nos próximos vinte ou quarenta anos, a batalha fundamental.

Quando se definir que tipo de sistema que irá suceder o capitalismo, ou seja, quando este sistema entrar definitivamente em colapso. E, neste ponto, lembro Giovanni Arrighi (O Longo Século XX): o problema não é “se”, mas “quando” o Capitalismo entrará definitivamente em colapso.

Publicado originalmente no "congressoemfoco".

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Opinião

Desafios à firmeza de Dilma

Miguel Reale Júnior - O Estado de S.Paulo
Impressionante a foto da jovem Dilma Rousseff diante de oficiais do Exército em seu julgamento pela Auditoria Militar, no processo por infração à Lei de Segurança Nacional. A foto mostra uma moça ciente de sua dignidade e de sua superioridade em face dos julgadores, representantes do sistema que já a punira com meses de tortura. Na mesma foto se veem, atrás, os juízes militares revelando intimidação diante daquela idealista, que fora torturada antes de julgada, ao taparem o rosto com a cabeça baixa.

Nos anos 1970, jovens que aderiram à luta armada contra a ditadura acreditavam valer a pena arriscar a própria vida em favor de uma causa que pretendia não destruir o regime militar e reinstalar a democracia, mas estabelecer o regime comunista, caminho visto como único para a igualdade social e o fim do capitalismo. Tinham os moços um objetivo claro, mas uma avaliação míope dos meios disponíveis ante o inimigo poderoso. Com certeza acreditavam piamente na probabilidade de vencer e até mesmo de arregimentar apoio popular.

O erro de cálculo foi fatal, pois apenas deu justificativas para o regime militar se tornar ainda mais duro na supressão das garantias democráticas, impondo draconiana Lei de Segurança Nacional e a instituição de forças paralelas de investigação, como o DOI-Codi, a agir nos porões com garantia de impunidade para a tortura.

Agora o desafio da presidente, passado o primeiro ano de seu governo, conforme os fatos mostram, está também na avaliação dos meios de que dispõe para enfrentar a cena política. Deve ser firme em suas convicções como foi a jovem integrante do movimento denominado Colina na década de 70. Cumpre-lhe, então, tal como ocorreu ao ser submetida a tortura, enfrentar com coragem a chantagem contínua da base dita aliada.

Deve-se recordar a primeira mandatária dos ensinamentos da História reveladores da supremacia do interesse particular sobre o geral, que Gilberto Freyre considerou ser ostensiva na formação brasileira. Ao longo dos tempos poucos dirigentes do País o presidiram em favor da maioria. Se no Estado patrimonialista "a minoria exerceu o governo em nome próprio", como destacou Raymundo Faoro, ao usá-lo não em prol da Nação, mas segundo o interesse particular, como coisa privada, o mesmo se deu recentemente na Casa Civil com Eunice Guerra.

A busca do poder para benefício privado perdura com as emendas parlamentares, o mensalão e a apropriação do Estado pelos partidos políticos por meio de milhares de cargos dados a apaniguados, verdadeiro loteamento da administração pública, governando-se por ministérios, sendo cada ministério um feudo, fonte livre de benesses, que facilita a corrupção.

O que se destaca no governo de Dilma, bem mais liberta da figura de Lula, é a compostura da presidente, ciente da liturgia do cargo, ao contrário do antecessor, usuário de lances de comunicação, independentemente do dever de ser coerente e verdadeiro. A atitude demagógica conveniente ao instante prevalecia sobre a firmeza das posições, com desprezo pelo papel pedagógico que deve promanar da conduta da Presidência. A mistificação foi o sinal característico do governante anterior. A discrição e o comedimento nas atitudes caracterizam o mandato da atual presidente.

Dilma afirma que tem e terá tolerância zero com a corrupção. Não cabe esperar que seja apenas uma frase de efeito, um jogo de palavras destituído de credibilidade. O sucesso de Dilma, acima dos índices de Lula, decorre do fato de não teatralizar e não gerar o receio de se estar a ser enganado. Infunde confiança.

Mas o desafio de se ter tolerância zero com a corrupção exige correta avaliação dos meios necessários não só a puni-la quando descoberta pela imprensa, mas em exercer a política de modo a preveni-la. Para tal é preciso primeiramente escolher ministros sem ceder à imposição de nomes pelos partidos, que preferem os mais dóceis a atender às reivindicações no preenchimento de cargos e na "assistência" às ONGs e a algumas empresas amigas.

Se o primeiro ano de mandato se notabilizou pela administração das crises decorrentes de desmandos em vários ministérios, herança maldita de Lula, com longos processos de demissão, deve-se extrair desses fatos a coragem de mexer em redutos fechados, criados algum tempo antes, enfrentando a recomendação do ex-presidente a seus antigos ministros no sentido de resistirem à avalanche de denúncias.

A ênfase de Dilma ao dizer que terá tolerância zero com a corrupção requer agora, na reforma ministerial, a independência na escolha de seus colaboradores, a imposição de limites aos ministros e, depois, o acompanhamento de sua gestão, para não atuarem por conta própria em função de interesses particulares.

Para tanto Dilma terá o apoio popular que não obteve na juventude. Esse apoio, que forçará o do próprio Congresso, deve ocorrer também em torno de programa de ação realista, condizente com o atual estágio da economia mundial e voltado, por exemplo, para um específico fim, como a melhoria da educação em todos os níveis, em conjugação com Estados e municípios, mormente no aperfeiçoamento do professorado.

A mobilizar o povo, que acredita na seriedade da presidente, haverá, então, não apenas uma meta de exclusão - no caso, a corrupção -, mas também uma meta de inclusão, consistente, por hipótese, no dar prioridade à educação de crianças e jovens, condição essencial de qualificação para o mundo tecnológico.

É sabido não ser fácil afrontar os fins escusos da base parlamentar, que pretende usar o poder em benefício próprio. Porém a seriedade de Dilma, em razão de sua compostura, bem como a meta fixada, seja a educação ou a saúde, poderão reunir em seu favor a população e lideranças da oposição e da situação para mudança de nossa cultura política ao se reforçar a cidadania graças ao exemplo de firmeza.

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Manchetes do dia

Sábado, 07 / 01 / 2012

Folha de São Paulo
"Ministro privilegia filho deputado com recursos"
 

Parlamentar foi o campeão de emendas pela Integração Nacional
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O ministror da Integração Fernando Bezerra, privilegiou seu filho, deputado Fernando Coelho (PSB-PE) com o maior volume de liberação de emendas da pasta em 2011. Informa Andreza Matais e Breno Costa. Ele foi o único congressista que teve todo o dinheiro empenhado pelo Ministério (R$ 9,1 milhões). Os recursos vão para as ações da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba). Subordinada ao Ministério, a Codevasf é presidida há nove meses, pelo seu tio, Clementino Coelho, irmão do ministro da Integração. Em nota, o Ministério negou que o filho do ministro tenha sido favorecido. Os recursos referentes às emendas de 2011 ainda não foram aplicados, mas os de 2010 (R$ 1,3 milhão) também direcionados à mesma estatal, beneficiaram o reduto eleitoral do deputado, em Pernambuco.

O Estado de São Paulo
"Operação na Cracolândia foi deflagrada pelo 2º escalão" 

Cúpula dos governos estadual e municipal não sabia que o cerco, previsto só para fevereiro, havia sido autorizado

A operação cracolândia foi precipitada por uma decisão de integrantes do segundo escalão do governo e da PM de São Paulo. A ação deveria começar em fevereiro, segundo o acertado pelo governador Geraldo Alckmin e o prefeito Gilberto Kassab, em planejamento que visava a evitar que os usuários de drogas se espalhassem pela cidade depois que a cracolândia fosse fechada. Mas, na segunda-feira passada, o coordenador de Políticas sobre Drogas, Luiz Alberto Chaves de Oliveira, disse ao coronel Pedro Borges, comandante da região central da capital que Alckmin queria a operação. Borges disse que poderia realizá-la imediatamente e deflagrou o cerco no dia seguinte, sem que ninguém do primeiro escalão soubesse.

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sexta-feira, janeiro 06, 2012

Corações ao alto!

Coluna do Celsinho

Reis

Celso de Almeida Jr.
Hoje, brindarei a Belchior, Gaspar e Baltazar.

Os bons Reis Magos do oriente, que visitaram o menino Jesus.

Chegou a hora de desarmar o presépio, a árvore de natal e as luzinhas.

Velhos hábitos católicos.

Tradições.

Bacana ver, da véspera do natal até hoje, os cantadores e instrumentistas percorrendo a cidade, entoando versos, passando de porta em porta em busca de oferendas.

Uma simplicidade encantadora.

Tudo a ver com turismo.

Merecem apoio e incentivo.

Estão tendo?

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Coisas daqui...


Cantiga de Reis ou Reisado
 
José Ronaldo dos Santos
“Hoje é Dia de Santo Reis”. Alegremente anunciava o vovô Armiro assim que se levantava no dia seis de janeiro. Ninguém ia pescar; a roça descansava; o ritmo ficava lento: era feriado sagrado.
Geralmente a “cantoria de reis” dura todo o mês de dezembro e vai até o sexto dia de janeiro. Excepcionalmente volta-se a cantar no dia dois de fevereiro, na comemoração de Nossa Senhora das Candeias, na Festa das Candeias.
O grupo local (porque quase todas as localidades tinham o seu grupo!), muitas vezes cantava até o amanhecer, passando alegremente nas casas. Quase nunca ninguém sabia, mas, de certa forma, estavam esperando a visita, sabiam que em qualquer noite e a qualquer hora o grupo faria a sua visita. Por isso sempre tinha alguma coisa “de prontidão” para o “comes e bebes”.
No dia próprio (seis de janeiro) a cantoria, ao anoitecer, sempre foi na capela da comunidade. Todos cantam, se despedem com emoção do presépio.  Só no próximo Advento ele será novamente montado. É uma devoção popular que por muitos motivos está se esvaindo.
A letra da música que eu transcrevo a seguir foi a que recolhi do grupo da praia do Sapê, onde a voz da saudosa comadre Vitória se destacava. Há variações, mas o tema é o mesmo: os reis da banda do Oriente que buscam localizar o menino-Deus. Segue-se a antiga tradição.
    
1- Ó de casa cavalheiro/ Diga se eu posso entrar/ Se houver  algum agravo/ Ai diga que eu quero voltar.
 

2- Viemos cantar o rei/ Hoje mesmo que é devido/ Viemos trazer notícias/ Ai de Jesus nascido. 

3- Os três reis encaminharam/ Pelas partes do Oriente/ Chegam na Corte de Herodes/ Ai perguntam de repente. 

4- Onde era nascido/ O verdadeiro Messias/  Rei Herodes respondeu/ Ai eu vou ver na profecia. 

5- Lá na profecia reza/ Que era nascido em Belém/ Ides lá e voltais aqui/ Ai que eu quero ir ver também. 

6- Herodes que nem malvado/ Que nem perverso, maligno/ Foi ensinar aos três reis/ Ai as avessas do caminho. 

7- Viagem que era de um ano/ Fizeram em quinze dias/ Porque foram bem guiados/ Ai pelo infante rei-messias. 

8- Atrás daquela cabana/ Uma estrela aparecia/ Era neto de Sant’Ana/ Ai filho da Virgem Maria. 

9- São José quando se viu/ Entre nobres companhias/ De prazer e de alegria/ Ai não sabia o que fazia. 

10- Vinte e cinco de dezembro/ De meia-noite pro dia/ Nasceu o menino-Deus/ Ai filho da Virgem Maria. 

11- Eu não vos peço ofertas/ Que são coisas de valia/ luz acesa e porta aberta/ Ai e afeição de alegria. 

12- Ó senhor que estais dormindo/ Nesse seu colchão dourado/ Vinde nos abrir a porta/ Ai que aqui estão vossos criados.

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Opinião

Formação de professores

O Estado de S.Paulo
Com a expansão do ensino a distância, é cada vez maior o número de professores de ensino básico que estão se formando por meio de cursos online, com as aulas transmitidas por computadores e televisão. O sistema funciona por meio da distribuição de apostilas e livros e de uma plataforma na internet, que permite aos estudantes acessar aulas e sugestões bibliográficas. Ao final do período letivo, vários cursos aplicam provas escritas e provas práticas presenciais, enquanto outros se limitam a pedir fichamentos de leituras, relatórios de atividades de pesquisa e um trabalho de conclusão.

Em 2005, 11 mil pessoas concluíram licenciaturas a distância. Em 2010, foram quase 72 mil. Nesse período, o número de professores de ensino básico formados em cursos presenciais caiu, em média, 3,6% ao ano. Atualmente, os alunos de cursos a distância representam 30% do total de estudantes matriculados em licenciaturas. Há cinco anos, eles eram 5%.

Se esse ritmo se mantiver, em 2015 o número de professores de ensino básico graduados em licenciaturas online será maior do que o número de docentes formados nos tradicionais cursos presenciais. Por terem mensalidades muito baixas, os cursos a distância são os mais acessíveis para grande parcela da população, especialmente nas cidades do interior. Mas, se por um lado, a expansão das licenciaturas a distância permitirá ao País atender quantitativamente à demanda por professores de português, matemática, física, química, geografia e história, por outro lado, muitos especialistas encaram os cursos online com reservas, questionando a qualidade da formação por eles oferecida.

Segundo o Anuário Estatístico de Educação Aberta e a Distância, do MEC, o aluno de um curso a distância está na faixa etária de 30 a 35 anos, é casado, fez o ensino básico numa escola pública, trabalha de dia e tem um rendimento mensal de até três salários mínimos. Os defensores do ensino a distância dizem que o sistema ganhou credibilidade e que há cursos online tão bons quanto os tradicionais cursos presenciais. Mas, há três anos, o MEC suspendeu cursos de graduação a distância de quatro instituições públicas e privadas de ensino superior que, juntas, atuavam em mais de 1,2 mil municípios e atendiam quase 55% do total de alunos dessa modalidade educacional. Os cursos estavam defasados, a infraestrutura era precária e as apostilas eram fracas.

"Ninguém é contra o ensino a distância. Acontece que há um grande arsenal de conteúdo e tecnologia, mas que não é usado. Por exemplo, as instituições não dispõem de equipes suficientemente adequadas para o desenvolvimento dos cursos", diz a professora Bernardete Gatti, da Fundação Carlos Chagas. "As críticas à qualidade do ensino a distância são generalizações sem evidência. Inverto a pergunta. Como está a qualidade no curso presencial?", afirma o presidente da Associação de Educação a Distância, Fredric Michael Litto.

Lançada no País há 30 anos pela Universidade de Brasília, com base em experiência desenvolvida por universidades inglesas, a educação a distância teve um crescimento vertiginoso na última década. Em 2000, havia 10 cursos desse tipo na graduação, com um total de apenas 8 mil alunos. Em 2008, estavam credenciados no MEC 349 cursos de graduação, com 430 mil estudantes matriculados, e 255 cursos de pós-graduação lato sensu, com 340 mil estudantes.

No início, a educação a distância se limitava a cursos de especialização e fazia parte de programas de extensão universitária. Com o tempo, o número de cursos de especialização foi suplantado pelo número de cursos de graduação criados com o objetivo de formar professores para as escolas da rede pública de ensino fundamental e médio situadas em cidades do interior ou em zonas rurais.

Para os especialistas, o que deflagrou a expansão do ensino a distância foram os programas de substituição, na rede pública, dos docentes que não tinham diploma por professores devidamente graduados. Vencida essa etapa, o desafio agora é assegurar às licenciaturas a distância a mesma qualidade dos cursos presenciais.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 06 / 01 / 2012

Folha de São Paulo
"Ação contra o crack quer dispersar morador de rua"
 

Para evitar novas áreas de consumo, PM abordará grupos no centro de SP
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A Polícia Militar vai dispersar grupos de moradores de rua da região central de São Paulo para tentar acabar com o consumo de crack. O comandante-geral, Álvaro Camilo, disse que o objetivo é evitar o surgimento de novas áreas livres para consumo e venda de drogas.

O Estado de São Paulo
"Obama corta US$ 450 bi e reduz força militar dos EUA" 

Presidente garante que Exército estará preparado, mas diz que é preciso melhorar a situação fiscal

O presidente Barack Obama formalizou ontem a nova estratégia militar dos EUA, que tem como base cortes no Pentágono de ao menos US$ 450 bilhões nos próximos dez anos. Outros US$ 500 bilhões poderão ser cortados pelo Congresso. A diretriz difere da adotada nas guerras do governo Bush e dependerá mais do poderio naval e aéreo no Pacífico e no Estreito de Ormuz, para contrabalançar as ações da China e do Irã. Obama, cujas relações com os militares são difíceis, justificou as decisões: "Precisamos colocar em ordem nossa situação fiscal e recompor nosso poder econômico no longo prazo". Criticado pela oposição republicana por sua suposta fraqueza ante a ameaça iraniana, Obama disse que as Forças Armadas americanas vão encolher, mas "o mundo deve saber que os EUA manterão a superioridade militar".

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quinta-feira, janeiro 05, 2012

Pitacos do Zé

Carros velhos e carrocerias na margem do rio Ipiranguinha.

Construções na região da ponte do rio Tavares, na BR 101.

E por falar em civilidade... (VIII)

José Ronaldo dos Santos
Quem disse que existe empenho para defender a mata ciliar, as margens dos rios? Quem arcará com os descasos e politicagens do poder público?

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Opinião

O pessimismo da ONU

O Estado de S.Paulo
Será preciso criar 64 milhões de empregos em todo o mundo para voltar à situação de antes da crise, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), mas a economia global terá mais um ano muito ruim, com risco de um segundo mergulho na recessão. Estas avaliações dão o tom do novo relatório sobre economia mundial preparado pelo Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU para divulgação em 17 de janeiro. Alguns dos tópicos mais importantes, antecipados na terça-feira, reforçam o pessimismo quanto às perspectivas da atividade e das condições do emprego nos próximos meses. A criação daqueles 64 milhões de empregos - uma hipótese altamente improvável - compensaria as demissões ocorridas a partir de 2007, quando estourou a bolha financeira, e permitiria a absorção da mão de obra recém-chegada ao mercado de trabalho. Mas a recuperação econômica nos Estados Unidos e na Europa, segundo os autores do estudo, só ganhará impulso, neste ano, se as políticas forem alteradas.

A maior parte dos economistas havia descartado há mais de um ano o risco de uma segunda recessão no mundo rico, mas essa possibilidade está de novo em discussão e foi citada recentemente em estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), também vinculada às Nações Unidas. De acordo com a OIT, o retorno à situação pré-crise seria possível com a abertura de 80 milhões de postos, mas num prazo de dois anos. Os dois estudos coincidem quanto ao pessimismo: com as políticas econômicas em vigor na Europa e nos Estados Unidos, a atividade continuará deprimida, o desemprego permanecerá elevado e também os emergentes serão contaminados pelo agravamento da crise.

O produto bruto mundial crescerá 2,6% em 2012 e 3,2% em 2013, segundo as projeções do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais. O desemprego médio no mundo rico ficou em 8,3% em 2011 e deverá continuar bem acima do nível de antes da crise, 5,8%. Com muita gente desocupada e salários deprimidos nas economias mais desenvolvidas, as possibilidades de crescimento dos emergentes também serão afetadas, embora esses países tenham sido capazes de uma forte recuperação depois da crise de 2008-2009.

Segundo os economistas da ONU, a estagnação será prolongada, e com risco de uma segunda recessão, se todos os governos continuarem dando prioridade à austeridade fiscal, isto é, a medidas de aperto para a recuperação das contas públicas.

A insistência nessa política, segundo esse raciocínio, dificulta a correção dos desajustes fiscais, porque deprime a economia, destrói empregos e compromete a arrecadação de impostos. O enfraquecimento das contas públicas agrava a situação dos bancos credores, porque as suas carteiras de títulos acabam sendo desvalorizadas. Esses fatores elevam o nível de riscos financeiros e econômicos. Mesmo endividados, muitos países ainda dispõem, segundo os autores do estudo, de espaço para a adoção de estímulos fiscais à recuperação da economia.

Os economistas chamam a atenção também para dois outros problemas: a insuficiente cooperação internacional contra a crise e os impasses políticos nos Estados Unidos, onde o governo enfrenta forte oposição a medidas fiscais para o combate ao desemprego e a reativação da economia.

Diagnóstico e receitas apresentadas nesse estudo são semelhantes, em muitos pontos, a avaliações e recomendações de economistas e dirigentes do Fundo Monetário Internacional (FMI). Políticas de austeridade podem ser inevitáveis em alguns países, mas governos com espaço de manobra deveriam adiar as medidas mais severas, tem repetido a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde.

Economistas de grande reputação, como Paul Krugman e Joseph Stiglitz, também têm apontado os perigos de um aperto fiscal antes da hora, mas avaliações desse tipo têm sido rejeitadas pelo governo alemão e pela oposição americana. Diante desse quadro, resta ao governo brasileiro preparar-se para um ano difícil. Mais do que nunca, será importante cuidar da eficiência econômica do gasto público.

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 05 / 01 / 2012

Folha de São Paulo
"PM promete cortar tráfico na cracolândia em um mês"
 

Sem centro de apoio, previsto para abrir em 30 dias, usuários se espalham
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O comandante Álvaro Camilo afirmou que a Policia Militar vai "cortar" o tráfico na cracolândia em um mês. Segundo Camilo, em 30 dias, a polícia vai identificar os traficantes da área e impedir a chegada do crack. Sem a droga, os viciados ficam mais propensos a procurar tratamento, diz ele.

O Estado de São Paulo
"SP usa estratégia de "dor e sofrimento" na cracolândia" 

Com ação policial, Prefeitura e Estado querem que abstinência leve os usuários a aceitar ajuda

A Prefeitura e o governo do Estado definiram medidas para tentar esvaziar a cracolândia, que resiste no centro de São Paulo desde os anos 90. A estratégia será de “dor e sofrimento" dos usuários de drogas, como a definiu o coordenador de Políticas sobre Drogas, Luiz Alberto Chaves de Oliveira. A ocupação policial, realizada anteontem, visa a dificultar a ação dos traficantes. O consumo não será tolerado, e a intenção é fazer com que a abstinência leve os usuários a aceitar a ajuda da assistência social. A presença da PM na região fez mais que dobrar o número de crianças e adolescentes atendidos em centro de convivência em frente à Praça Júlio Prestes, principal ponto de concentração de usuários de crack no centro.

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quarta-feira, janeiro 04, 2012

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Opinião

Tablets passam o PC em três anos

Pedro Dória, O Globo
Anualmente, a Escola de Comunicação e Jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia (USC) publica um grande relatório sobre a vida digital dos americanos. Acontece desde 2000 e é um dos estudos mais respeitados que há. O próximo sai agora este mês e vem sendo esperado com ansiedade por muita gente. É que os pontos principais já foram publicados, só faltam os detalhes. E os indícios são de que estamos perante uma mudança profunda. Em poucos anos, o computador pessoal vai virar ferramenta da minoria.

O algoz do PC é o tablet. A previsão de Jeffrey Cole, diretor do Centro do Futuro Digital da USC, é de que em três anos o computador ficará relegado a um canto da casa. Sobra para ele algo entre 4% e 6% do uso de equipamentos digitais: servirá para quem escreve profissionalmente, para programadores, para jogar games, para cientistas, arquitetos. Usos de nicho.

Apenas três anos, nos EUA. Cole gosta de fazer previsões dramáticas. Trabalhou como consultor na Casa Branca de Bill Clinton e de George W. Bush, é um pesquisador sério. Pesquisas como a que ele capitaneia são baseadas em inúmeras entrevistas que, ano após ano, investigam o que as pessoas fazem on-line, como se informam.

Conforme o tempo passa, tendências se revelam. Prever datas para que mudanças se consolidem é difícil, mas perceber que elas estão para ocorrer, com uma coleção tão grande de dados, não é.

Ainda assim, ele gosta de prever datas. No estudo deste ano, por exemplo, diz que a maior parte dos jornais impressos dos EUA acabam em cinco anos. Cole é audacioso. Em 2000, previra que o fim viria entre 25 e 30 anos. Encurtou o prazo mesmo com ele se aproximando.

Há uma nuance em sua previsão: o "New York Times" não está ameaçado. Nem o "Wall Street Journal". Os grandes jornais de circulação nacional continuarão nas bancas. Assim como pequenos jornais semanais que existem em várias cidades miúdas dos EUA e são, muitas vezes, os únicos a informar sobre aquelas comunidades. São os de médio porte que o estudo considera condenados.

Se haverá menos jornais, esse destino não será compartilhado por toda velha mídia. A TV aumentará de tamanho. Ela mudará, mas são tantas as telas que estarão em nosso cotidiano, incluindo-se aí celular e tablet, que televisão será mais importante, não menos.

Mídias sociais também aumentam de tamanho. Só que enfrentam um problema de credibilidade. Dos entrevistados, 51% revelaram que não acreditam na maior parte do que lêem no Twitter, Facebook, blogs ou primos. No outro extremo, apenas 14% disseram que acreditam em quase tudo. É seu calcanhar de Aquiles. Credibilidade é coisa que só vêm com o tempo. Se vier.

As mudanças econômicas não afetam apenas os negócios que envolvem informação e entretenimento. De acordo com a pesquisa, 68% dos usuários da internet americana compram on-line. E a grande maioria destes explicam que, por causa disso, compram menos em lojas físicas, daquelas erguidas com tijolos e ornadas por vitrines.

O resultado de tanta compra on-line é o fim da privacidade. O usuário americano da internet tem consciência disso e a mudança não veio da mesma forma que fora prevista pela literatura de ficção científica. O Big Brother não vem do governo. Mais de 50% dos consultados estão preocupados com o que grandes empresas sabem sobre nós, menos de 40% preocupam-se com o que o Estado sabe.

O estudo se esgueira por cantos mais profundos de nossa vida. Ele retrata, ano após ano, o lento fim do horário de trabalho. Se é verdade que o trabalho ficou mais eficiente, ele também ocupou todos os momentos do dia. Trabalhamos 24 por 7. Computadores e a internet não diminuíram, aumentaram a quantidade de trabalho. É algo que, intuitivamente, percebemos todos.

Não é que o estudo da equipe de Cole surpreenda. Intuitivamente já sabemos de tudo isso, pois é. Ele documenta que o mundo mudou e que continuará mudando. E mostra, também, que desconfiamos de algumas das mudanças.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 04 / 01 / 2012

Folha de São Paulo
"Greve de policiais e bombeiros leva medo a Fortaleza"
 

Servidores do Ceará ignoram determinação da Justiça e mantêm paralisação; policiais civis anunciam adesão
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Policiais militares e bombeiros do Ceará ignoraram a ordem da Justiça de voltar ao trabalho e, no quinto dia de greve, o medo tomou Fortaleza, apesar de reforço da Força Nacional de Segurança e do Exército. À noite, policiais civis também anunciaram a decisão de parar. Rumores de arrastão fizeram lojas, creches, repartições municipais, postos de saúde, Tribunal de Justiça e fórum fecharem. O Correio suspendeu suas entregas.

O Estado de São Paulo
"Dilma reage a ministro que fez uso político de verba antienchente" 

Presidente manda fixar critérios técnicos para distribuir recursos depois de o ‘Estado’ revelar que Pernambuco, reduto de Fernando Bezerra, foi privilegiado

A presidente Dilma Rousseff ordenou ontem a adoção de critérios técnicos na distribuição de recursos do Ministério da Integração para o combate a enchente, no dia em que o Estado revelou que 90% dessa verba estava sendo canalizada para Pernambuco, Estado de origem do ministro Fernando Bezerra Coelho. A pedido de Dilma, a ministra Gleisi Hoffman (Casa Civil) interrompeu suas férias no Paraná para convocar a reunião com técnicos do ministério e da Defesa Civil. Dilma não procurou Bezerra, que vai suspender as férias e deve se pronunciar hoje. Até expoentes do PT pernambucano avaliam que o ministro exagerou na politização do uso das verbas antienchente.

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terça-feira, janeiro 03, 2012

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Opinião

O pessimismo da indústria

O Estado de S.Paulo
A economia brasileira vai crescer em 2012 mais que em 2011, promete a presidente Dilma Rousseff, mas há pouco motivo para otimismo na Confederação Nacional da Indústria (CNI). Seus economistas preveem mais um ano ruim para o setor fabril, incapaz de acompanhar a expansão da demanda interna. A previsão é especialmente preocupante, porque a atividade industrial continua sendo a principal fonte de empregos de qualidade e o mais importante foco de modernização tecnológica do Brasil.

Desindustrialização pode ser um diagnóstico exagerado, mas seria um erro menosprezar as dificuldades do setor manufatureiro. A economia brasileira ainda terá de avançar muito para atingir o chamado estágio pós-industrial. Além disso, mesmo nas economias já nesse estágio, a indústria ainda é objeto de cuidados e atenções dos formuladores de políticas. Ninguém despreza os empregos na área fabril.

No ano passado, a indústria de transformação deve ter produzido apenas 1,8% mais que no ano anterior, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) deve ter crescido 2,8%, segundo estimativas divulgadas pela CNI. As projeções para 2012 apontam um quadro parecido, com aumento de 3% para o PIB e de apenas 2,3% para a produção das fábricas brasileiras. O fraco desempenho da indústria de transformação é em parte atribuível à crise internacional. O desemprego elevado afetou a demanda de importações nas economias mais desenvolvidas. As condições mais difíceis no mercado internacional tornaram a concorrência mais dura e até indústrias altamente competitivas têm perdido negócios. Mas, no caso da indústria brasileira, a estagnação no mundo rico apenas agravou e tornou mais sensíveis algumas dificuldades já conhecidas há vários anos e experimentadas mesmo na fase de prosperidade global.

As estimativas do Banco Central (BC) para 2011 e 2012 ajudam a perceber a natureza dos problemas. Segundo esses cálculos, a produção fabril cresceu 0,9% no ano passado, enquanto o PIB aumentou 3%. Do lado da demanda, o consumo das famílias expandiu-se 4,1% e o do governo, 2%. Os investimentos, medidos como formação bruta de capital fixo, foram 5,1% maiores que os do ano anterior. Uma parte importante dessa demanda vazou para o exterior e foi compensada por aumentos de importações.

De acordo com o BC, esse quadro ficará ainda mais bem definido em 2012. As projeções incluem crescimento de 3,5% para o PIB, 3% para o setor de transformação, 4% para o consumo das famílias, 3,2% para o do governo e 5% para o investimento. As exportações de bens deverão aumentar 4,3%, enquanto as importações deverão crescer 7%, com redução do superávit comercial de US$ 28 bilhões (resultado efetivo: US$ 29,8 bilhões) para US$ 23 bilhões.

A incapacidade da indústria de acompanhar o aumento da demanda interna ficará ainda mais patente - assim como a sua dificuldade para conquistar e até para manter espaços conquistados no mercado externo. O resultado comercial de 2011 só não foi pior graças aos bons preços dos produtos básicos, e não graças ao desempenho do setor manufatureiro.

Segundo o governo, a indústria ficará mais forte neste ano, quando estiverem valendo todos os benefícios previstos no Plano Brasil Maior, lançado em agosto. Por meio desse plano, o governo aumentou as barreiras de proteção ao setor automobilístico e estabeleceu benefícios fiscais para exportadores de manufaturados. O principal incentivo será a devolução de parte dos tributos. Foi programada, além disso, a desoneração da folha de salários de algumas indústrias.

Se depender desse esquema, o setor manufatureiro jamais voltará a ser competitivo. Barreiras podem preservar o mercado interno - isso nem sempre ocorre -, mas não tornam as empresas mais competitivas para exportar. Devoluções de impostos podem ajudar, mas são passíveis de contestação internacional, se os critérios não forem muito bem formulados. Nesse caso, a improvisação é evidente. Nenhum remendo substitui uma tributação funcional. As fraquezas do plano são ostensivas. Mas a indústria tem sido incapaz de propor uma discussão razoável e de cobrar uma política séria para redução de custos e aumento de eficiência.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 03 / 01 / 2012

Folha de São Paulo
"TJ vai rever pagamentos a juízes"
 

Novo presidente da corte paulista promete investigar supostos privilégios, como auxílios-moradia e licenças indevidas
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O Tribunal de Justiça de SP vai investigar pagamentos realizados em gestões anteriores, sob suspeita de serem ilegais ou feitos de modo privilegiado a juízes. O desembargador Ivan Sartori anunciou a medida ontem, quando tomou posse na presidência da corte.

O Estado de São Paulo
"Ministro dá ao seu Estado 90% da verba antienchente" 

Cotado para disputar prefeitura de Recife, Fernando Bezerra (PSB) é ligado ao governador Eduardo Campos

Estado do ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho (PSB), Pernambuco foi o maior beneficiado por verbas da pasta para combate e prevenção de desastres naturais, como enchentes, revela Marta Salomon. Em obras novas, iniciadas em 2011, o Estado concentrou 90% dos gastos, segundo levantamento feito pela ONG Contas Abertas com base em registros do Tesouro Nacional. Pernambuco recebeu R$ 25,5 milhões, 14 vezes mais do que o segundo colocado, o Paraná, vítima de deslizamentos provocados pelas chuvas no ano passado. Bezerra é conhecido pela fidelidade ao governador Eduardo Campos, aliado do governo federal, e tem sido cotado como candidato à prefeitura do Recife. O ministério contestou a forma de cálculo das despesas contra desastres naturais. O governo de Pernambuco afirmou que os recursos se referem a contratos firmados em 2010, período em que a pasta da Integração Nacional foi comandada pelos baianos Geddel Vieira Lima e João Santana Filho, ambos do PMDB.

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segunda-feira, janeiro 02, 2012

Raridade: Ford 1936 de aço inox

Cronistas

A última crônica

Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

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Opinião

Moral e legal

Denis Lerrer Rosenfield - O Estado de S.Paulo
A imagem do Judiciário é vital para a democracia brasileira. Sem a sua correção e sem os seus valores a República se veria privada de um dos seus pilares. Nos últimos anos esse Poder, graças ao Supremo Tribunal Federal (STF), tem se destacado publicamente interpretando - e muitas vezes regrando - questões controversas, vindo a aparecer como uma instância de recurso de alta propriedade moral, e não apenas legal. Pode-se mesmo dizer que no vácuo criado pelo Poder Legislativo ele veio a ocupar um novo espaço propriamente político.

Essa "nova" função do STF, no entanto, não se faz sem algumas condições, pois novas tarefas exigem, também, novas qualificações. Dentre estas, a imagem de moralidade é uma das mais essenciais, sobretudo considerando que foi aí que o Legislativo e o Executivo mais sofreram baques nos últimos anos. Corrupção e desvio de recursos públicos se tornaram, infelizmente, o cotidiano dos brasileiros. Ou seja, no que diz respeito a esse critério, o Judiciário e o Supremo, sua instância máxima, não podem ser um Poder como os outros.

O corporativismo tem sido uma forma de imoralidade ao privilegiar os interesses de uma corporação determinada em detrimento do bem coletivo, isto é, do bem de todos os outros cidadãos, que não fazem parte da corporação em questão. Isso é tanto mais flagrante porque os recursos dos contribuintes, pagos em impostos e contribuições dos mais diferentes tipos, são limitados. Se alguns têm privilégios, outros não os terão, pois os privilégios, por definição, são exclusivos, só valendo para alguns. São "direitos" exclusivos de tipo muito especial.

Tomemos um dos motivos de toda a celeuma sobre as investigações que estavam sendo conduzidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no Tribunal de Justiça de São Paulo e foram sustadas por atendimento de uma liminar impetrada por uma associação corporativa. O que estava em questão era um passivo trabalhista que remonta à década de 90 do século passado, algo legalmente reconhecido, que alguns desembargadores, à diferença dos demais, teriam recebido de uma só vez. Em alguns casos, o montante seria superior a R$ 1 milhão.

Um privilégio consistiria nesse montante muito elevado, principalmente considerando que o Judiciário é entre os Poderes o que usufrui maiores salários e benefícios. Alguns juízes, inclusive, estariam reclamando de por que teriam recebido em parcelas o que outros receberam de uma só vez. Aqui se trata de uma questão interna à própria corporação, pois não está em causa a legitimidade do privilégio, mas o fato de ele ter distinguido, sob a forma do recebimento, os seus beneficiários.

A questão, no entanto, deveria focar-se no recurso trabalhista em pauta, isto é, qual é a sua proveniência. Aí reside o problema. Trata-se de um auxílio-moradia que, já usufruído por deputados federais e senadores, foi estendido pelo ex-ministro Nelson Jobim a todos os juízes. Houve o atendimento de uma demanda essencialmente corporativa, que se apresentou como uma espécie de equivalência "justa" com os parlamentares.

Ora, a situação é apenas parcialmente equivalente. Se deputados e senadores usufruem um auxílio-moradia, isso se deve ao fato de exercerem suas funções em Brasília, longe de seus respectivos domicílios, por um período determinado. Nesse sentido, o auxílio em questão é plenamente justificado. Analogicamente, ele poderia, portanto, ser estendido a ministros do Supremo e dos tribunais superiores, também constituídos por pessoas das mais distintas procedências. Daí não se segue, porém, que ele deveria valer para todos os juízes do País, até mesmo para os aposentados. Aí surge a imoralidade.

Por que um juiz ou desembargador de qualquer Estado, com domicílio, deveria usufruir um auxílio-moradia, se já tem uma? Por que um aposentado deveria usufruir esse mesmo auxílio, se nem mais trabalha nos tribunais? Ainda seria compreensível que tal auxílio fosse concedido a juízes cujo local de trabalho não coincida com o seu domicílio, o que ocorre com muitos magistrados em início de carreira, mudando constantemente de comarca. Agora, concedê-lo a todos os juízes e desembargadores indiscriminadamente é uma flagrante imoralidade, contrastando com a situação de todos os outros cidadãos brasileiros, que devem trabalhar para pagar sua moradia.

O corporativismo tem essa estranha "virtude" de tornar legal um interesse particular, exclusivo, coagindo todos os contribuintes a financiá-lo. Quando questionado sobre a sua legitimidade, a única saída consiste em dizer que ele é legal, procurando, com isso, que a questão essencial seja esquivada, a saber, a da sua imoralidade.

Nesse sentido, o trabalho do CNJ tem dado uma inestimável contribuição à democracia brasileira, saindo atrás de irregularidades no funcionamento do Judiciário, verificando os seus disfuncionamentos e morosidades, procurando prestar contas à sociedade de seu trabalho. Um Poder republicano que não se abre à sua análise corre o risco de se encastelar em seus privilégios e interesses corporativos.

A polêmica em torno da competência concorrencial ou subsidiária do CNJ em relação às Corregedorias próprias dos tribunais lança luz sobre um aspecto crucial da moralidade, ou seja, a transparência das ações, no caso, dos atos e procedimentos dos diferentes tribunais. Se as Corregedorias funcionassem a contendo, talvez o CNJ nem tivesse sido criado. Se o foi, foi para equacionar uma lacuna existente. Mais ainda, permitiu que a sociedade, em seu conjunto, pudesse vir a exercer publicamente controle sobre o modo de funcionamento do Judiciário.

A transparência é outro nome da moralidade. Em seu escrito sobre a paz perpétua, Kant elaborou um imperativo que pode ser transcrito da seguinte forma: "Aquilo que não pode ser publicizado, tornado público, é imoral". Ainda, segundo ele, poderíamos dizer que a satisfação de um interesse corporativo que não vale para todos os cidadãos, que não pode ser universalizado, é imoral.

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 02 / 01 / 2012

Folha de São Paulo
"PF apurou desvios R$ 3,2 bilhões em 2011"
 

Valor é mais que o dobro de 2010; número de servidores públicos presos também cresceu
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Operações da Polícia Federal flagraram o desvio de R$ 3,2 bilhões de recursos públicos no ano passado, informa Fernando Mello. O valor é mais do que o dobro de 2010 (R$ 1,5 bilhão) e 15 vezes mais que o verificado em 2009 (R$ 219 milhões). De acordo com a PF, o valor desviado alimentou, por exemplo, pagamentos de propina a servidores, empresários e políticos.

O Estado de São Paulo
"Indústria do País perderá mais espaço, prevê CNI" 

Entidade projeta que setor crescerá menos do que o PIB em 2012, ante ganho de participação dos serviços

Pressionada pela crise, pelo câmbio desfavorável e pela concorrência dos importados, a indústria brasileira crescerá menos do que o Produto Interno Bruto (PIB) em 2012, prevê a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Com isso, deverá ser repetido o desempenho de 2011, quando o setor manufatureiro também teve expansão mais fraca do que a média da economia, relata repórter Lu Aiko Otta. A perda de espaço da indústria na composição do PIB coincide com desempenho mais robusto do setor de serviços, o que mostra uma mudança no perfil da economia. A estimativa da CNI para o fechamento dos dados de 2011 é de crescimento de 1,8% para a indústria é de 3% para os serviços, ante aumento do PIB de 2,8%. Para este ano, a previsão é de que o setor industrial tenha expansão de 2,3%, o PIB, de 3%, serviços, de 3,3%. O governo estuda medidas de estímulo à indústria.

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domingo, janeiro 01, 2012

Ubatubssssss...


Contentando quem?

José Ronaldo dos Santos
Peço licença para reproduzir um trecho de Dirceu Cardoso Gonçalves para ajudar na reflexão sobre a imagem que eu registrei na semana passada no bairro do Ipiranguinha.

“Antes de se contentar só com acessório representado pela pracinha, quadrinha de esportes e outras coisas sem tanta necessidade, é do interesse da população analisar principalmente se o prefeito – que agora já se embandeira para concorrer a um segundo mandato ou lá colocar alguém de sua confiança – cumpriu, nesses últimos três anos, aquilo que prometeu em campanha para conseguir os votos que o elegeram. Não deve se contentar com obras feitas apenas para aparecer, quando os verdadeiros problemas da cidade continuam sem solução”.

É isso! É possível notar que enquanto uma camada preta ganha o chão, a outra de azul politicagem se apodera do poste? Impressionante a sincronia!

Agora, começando um novo ano: o que fazer?

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Sem dó nem piedade...

Coluna do Mirisola

Um ranchinho para os ateus em 2012
 
"Nenhum ateu xarope e mal-humorado vai me dizer que Deus não existe. Bem como a bispa Sônia jamais vai me convencer do contrário. Como é que a micose de unha existe, como é que o Kassab existe e Deus não existe?"

Marcelo Mirisola
Neste final de ano, depois de ter apostado na mega-sena da virada, cheguei mais uma vez à conclusão de que odeio filas e sou partidário incondicional da ilusão e dos enganos. Também resolvi dar mais um crédito às mulheres que não me quiseram, espero que elas façam o mesmo. E é claro que o sentimento de mais um ano meia-boca que passou e a esperança de que no próximo ano tudo vai ser menos insosso, revigorou – vejam só – minha crença no imponderável. De repente, meio que de carona nesse sentimento brega, resolvi acreditar que Deus existe.

Todo final de ano é assim. E parece que nesse final de 2011, depois da morte de Christopher Hitchens, o assunto tornou-se obrigatório na pauta dos feios, sujos e malvados. Na Folha, o portuguesinho das segundas-feiras e a Monga da PUC (nada a ver com o Macaco Simão) enalteceram o inglês , todos eles e mais os blogueiros furiosos da Veja, escreveram o necrológio do homem que processou Madre Teresa de Calcutá, para desespero do Laerte, o cartunista, digo, para a indignação da tia Neném que chegou a mandar carta pro Painel do Leitor reclamando da Monga, e assim por diante.

Mas por que Deus, outra vez?

Uma coisa vou dizer, e até eu fico chocado com isso: é por absoluta falta de opção.

E eu fico aqui pensando comigo mesmo. Não é melhor acreditar nos pássaros, nas cachoeiras e no azul do céu sobre nossos cornos, nos anjos, querubins & serafins que iluminam o quarto das crianças que morreram antes do tempo, enfim, não é preferível acreditar que Deus inventou o arco-íris depois da chuva e mais os bifes de alcatra e a umidade que brota de dentro das mulheres, e que realmente Deus existe, do que acreditar no mundo chato que o Dráuzio Varella inventou pra gente?

Uma praia isolada no final do mundo, gaivotas, o vento batendo na janela, uma índia pelada na sua cama de pernas abertas e a farmácia mais próxima a dois dias de viagem: a pele macia de Oxum. Isso. Ou dr.Vampirinho Varella dizendo que sua felicidade pode matá-lo se você não usar camisinha? Deus ou Draúzio? Pensem a respeito, e se quiserem trocar a praia paradisíaca por um hotel fuleiro no largo Paissandu, e a índia por um travesti, dá quase na mesma.

Se acredito em Deus e nos seus subprodutos, o diabo incluído, e nas ilusões todas, nos sofismas, nas parábolas e nas elipses, e enfim, se acredito no Pai, no Filho e no Espírito Santo e em coisas improváveis, tipo 800 virgens no paraíso e viagras cósmicos, ora, se troco umas idéias com Exu-Caveira e empenho promessas a Santa Edwiges, e se me distraio, ocupo meu tempo e me divirto com essas baboseiras ainda em vida, não lhe parece razoável, caro leitor, que – depois de morto – eu, o incauto que viaja na maionese, também tenha o direito de permanecer mergulhado na ilusão e na inverossimilhança?

Em outras palavras: ainda que não exista nada do lado de lá, o lucro para quem se iludiu com a vida, e acreditou nos enganos, está garantido. Antes da morte, existia vida?

A fraude, a meu ver, é mais do que válida para quem perdeu uma vida fumando escondido, pagou o IPTU em dia, acreditou em Lei Rouanet. Pra quem nada teve aqui, nada lá tá bom demais. Independentemente do querer, e eu quero, todos enganamos e somos enganados. Até no Apóstolo Valdemiro Santiago e no talento do Luan Santana, se quiser, eu acredito e ninguém tem nada com isso.

A vida é ilusão. Vide Buda, Calderón de la Barca, Benito di Paula, Cervantes etc. Por que a morte não pode ser outra trapaça?

E é precisamente aqui que a porca torce o rabo.

Eu escolho os meus enganos, erro nos meus alvos. E nenhum doutor Dráuzio, ninguém tem nada com isso. Embora – como disse o Furio Lonza – o livre-arbítrio seja mais veemente nos urubus que, afinal, nascem brancos, eu ainda acredito que exista liberdade para escolher os lugares errados nesse mundo, viver do meu jeito,cometer meus vexames, brigar com meus amigos e amar as mulheres que não me quiseram. Querem saber? Não uso camisinha e o problema é meu e das malucas que são alérgicas a látex e urram com suspicious mind na hora do sexo. Elvis na pelvis.

Nenhum ateu xarope e mal-humorado vai me dizer que Deus não existe. Bem como a bispa Sônia jamais vai me convencer do contrário. Como é que a micose de unha existe, como é que o Kassab existe e Deus não existe?

Ora, eu acredito no coelhinho da Pascoa e não acredito em arroz integral.  Repito. Ninguém faz escolhas por ninguém e, a partir de agora, fica decretado que a soja faz mal à saúde, porque assim eu quero. Me leva pra Pasárgada, Bandeira.

Eu não quero ser enganado por qualquer mané. Aqui vai: em 2012 ninguém vai meter o bedelho na minha vida e na vida de ninguém. Nenhum higienista do PSDB, nenhuma nutricionista que nunca experimentou o cabrito do Nova Capela, nem tampouco os xaropes que vibram com o Krishna do Nando Reis, terão o direito de dar pitacos nas escolhas alheias. Sem estilo, não.

A partir de agora e para sempre, dispenso a cartilha do Bolsonaro e a cartilha dos gays, os chiliques do Malafaia e o botox da Marta Suplicy. Não preciso ser enganado pelos outros. O auto-engano e o voto nulo são minhas bandeiras. E eu desejo a essa gente que come pizza de chocolate que morra engasgada.

Por que não posso acreditar num Deus displicente se me fio numa memória que me trai o tempo todo? Eu acredito no Felipão! Ora, apesar da crueldade das mulheres, eu acredito no amor das mulheres, creio em peitinhos mexericas servidos à la carte e sobretudo nos beijos de mau-hálito depois de uma noite de sexo quase familiar, e se no dia seguinte esse beijo de cigarro e conhaque se repete até na hora de embarcar a amada no táxi que parte para nunca mais, é porque apesar da mentira da noite passada, as mãos que escorregaram na hora do adeus e o hálito de cemitério existem, oh Deus!, existem para sempre! Numa coisa acredito: é desse material que são feitas as mentiras mais bonitas.

Ah, eu acredito em tanta merda, tenho uma boa vontade danada com meus traidores e, às vezes, chego até a perdoar só para confirmar que a traição é mais previsível que o perdão e que, ambos, são faces da mesma moeda e irão prevalecer porque ninguém inventou nada melhor do que o amor e o ódio para dar uma liga nesse treco que chamamos “um dia depois do outro”, ah, são tantas mentiras que nos arrastam pro fundo do poço… tanta merda que eu fico aqui pensando com meus botões: vai sobrar pro Papai Noel.

E sobrou. Aliás, nunca o bom velhinho foi tão maltratado e difamado como nesse último natal. O povo do facebook tava puto com ele. Relax, Grima. Mesmo assim, eu sigo acreditando em Papai Noel. Nele e no Mustafá Contursi.

E tem mais. Acredito que 2012 será um ano maravilhoso pr’aqueles que advogam as causas da insensatez e as causas perdidas em geral, e se eu quiser acreditar que existe uma conexão entre os maconheiros da USP e a primavera árabe, estarei forçando um pouco a barra, mas mesmo assim o problema é meu e ninguém, a não ser dona Marietta que paga minhas contas, ninguém tem nada a ver com isso. Se eu tenho um milhão de amigos no facebook, e se eu existo aqui no Congresso em Foco há três anos, por que não posso chegar ao final dessa crônica e desejar um feliz ano novo pros meus leitores mais soturnos?

Isso aí, feliz 2012 para vocês, e beijos no coração. “Beijos no coração”?  Não! Aí também já é abusar do estilo, que existe, quero crer, para infernizar a vida daqueles que não têm talento.

Mas se o cara tiver estilo, tudo bem. Pode acreditar em Deus e na vida antes e depois da morte e desejar beijos no coração dos leitores do Christopher Hitchens. Então, só pra sacanear, acredito que exista um sítio que Deus reservou para os céticos, feios, sujos e malvados. Um lugarzinho batuta pro azar do Christopher Hitchens, que, agora, vai ter que dividir sua descrença com o Saramago, lá no ranchinho dos ateus – que é o mesmo dos marxistas. Tão fudidos.

Acreditem ou não, feliz ano novo.

Publicado originalmente no "congressoemfoco".

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