sábado, dezembro 10, 2011

Pitacos do Zé


E por falar em civilidade...

José Ronaldo dos Santos
Quem disse que é mais lógico pintar ladrilhos (com o azul politicagem) do que limpá-los?

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Fotografia

Ralph Graef

Colunistas

De editores & balanços da realidade nos estertores de 2011

Ano que já vai tarde!

Márcia Denser
Esta coluna vai ser uma espécie de mix pessoal e geral de 2011, misturando emoção e razão, fatos subjetivos e ficções verdadeiras, economia doméstica & geopolítica. Cá entre nós, meu novo editor, Pedro Galé (Ed. Barcarola, idem Mirisola e Mário Bortolotto), de trinta e poucos anos mas iradíssimo, por dentro absolutamente de TUDO, zapeando e tangenciando e integrando num click, sem deixar de analisar, numa costura vertiginosa, os universos pessoal, social, político, editorial, nacional & global, como um todo, o acadêmico, em particular e a prática  em si – aliás vai editar o Politicamente Incorreta, minha primeira obra de não-ficção classificada como Anti-Ajuda (o leitor que se vire e se foda sozinho, não vou dar mole), saindo no começo  de 2012 –, piscou-me dizendo que o Clóvis Rossi da Folha & Adjacências Midiáticas deviam me ler mais!

Editorialmente, é absolutamente não ortodoxo, no sentido publicar de tudo indiscriminadamente (tendo como “sine-qua-non” & parâmetro o alto nível estético) – autores e idéias sejam de esquerda, direita, centro, frente, verso, de lado, de costas, enfim, não importa a posição – mas com uma queda absoluta, pior, paixão, por tudo que é maldito, marginal, outsider, seja lá o nome que atualmente se dá a isso. Isso. A que, pessoalmente, chamo Originalidade. Ou Autenticidade. Talento, talvez, mas é preciso algo mais. E por aí vamos: taí o Pedro Galé, meu novo editor: welcome!

Foi uma das boas surpresas de 2011! Tô escrevendo para ele ficar sabendo em absoluta primeira mão e por escrito. Só teve um cara que fez o mesmo comigo: Paulo Francis.

A outra, simultânea – que incorpora surpresa sempre renovada, ao presente, no sentido de “dom” e à amizade – é minha associação (eu devia dizer conluio) miraculosa – e que persiste no tempo (tipo cinco anos) exatamente como no primeiro dia – ao editor Sylvio Costa que incrivelmente me detona um inusitado ângulo prismático, mistura altamente explosiva (e instável, diga-se) de Realidade e Ficção, onde ambos se fundem – iluminando-se e se aquecendo mutuamente e, de repente, dando outro sentido à vida. No qual ninguém tinha pensado.

Misturando coisas, gente, acontecimentos da cultura e da política (ou geopolítica), que aparentemente nada têm a ver (para a esmagadora maioria) e contudo fulguram sobretudo por isso, quer dizer, em razão do método retro-referido, método que precisamente consiste não existir de modo algum, salvo como cadeia brilhante de insights, resultando numa Via-Láctea, espécie de DNA divinamente inapreensível.

Ele assina o prefácio do Politicamente Incorreta e, sabem? De certa forma, é parecidíssimo com o Pedro: a julgar pela quilométrica relação de colunistas de todos os matizes possíveis (e impossíveis), o Sylvio também inclui tudo, aglutina, acolhe. Seu parâmetro: a informação. Afinal, o leitor precisa saber tudo e de todos os ângulos discerníveis, donde as saias justas. Como a denúncia é uma das suas especialidade, tornou-se um dos editores de site mais processados do país, naturalmente algo que faz parte do jogo quando alguém com poder de fogo editorial decide simplesmente informar o leitor. Ou seja, fazer seu trabalho honestamente.

Ainda não chegamos à denúncia, mas só o fato de fazer e bem seu trabalho, isto é, informar sem interpretar, sem distorcer, sem omitir nem alterar, ou informar pela metade ou faltando partes – quer dizer, “editar”, em geral conforme os interesses do patrão – o que faz a esmagadora maioria sem nenhum constrangimento (tanto quanto senta numa cadeira da ABL e toma seu chazinho), na boa – como quem apenas toca do serviço. Voltando ao Sylvio (e não custa repetir: tanto a puxasaquice pânica quanto a modéstia não são características minhas): informar sem deixar passar batido, sem omitir, simplesmente passar o recado como recebido e pronto, atualmente é terrivelmente subversivo. Desde que informação virou mercadoria.

A diferença entre ambos é que o Pedro edita livros, mexendo com a Segunda Realidade (a tal Realidade Simbólica), vivesse na ditadura tava fudido; mas o Sylvio edita um site de informações, um dos sites políticos mais lidos do Brasil, então ele atua na Primeira Realidade – a que diz respeito à sobrevivência.

Porque tanto informação como dicionários ou ferramentas e instrumentos de trabalho, de utilidades domésticas, meios de transporte, computadores, incluindo armas – do arco & flecha a Uzis – é o que um filósofo centro-europeu chamado Ivan Bystrina chama Primeira Realidade, isto é, aquele conjunto de elementos essenciais à sobrevivência, tais como abrigo, roupas, comida, lata de lixo, válvulas hydra, pochetes, gôndolas de supermercado, alicates – sobrevivência é Primeira Realidade. O resto faz parte da Segunda Realidade ou Realidade Simbólica ou Semiosfera.

O problema é que se o homem não tivesse desenvolvido o poder de “simbolizar” (abstrair a coisa, quando ela não está presente, fazendo-a agir conforme sua vontade) – donde o desenvolvimento da subjetividade, inventividade, imaginação criadora – ou Visualização Estrutural – (sim, no Neolítico já existia a popular Realidade Virtual, só que fazia sentido) – a sobrevivência teria ido para o brejo. Não haveria Civilização, ponto.

De volta à barbárie, significa voltar a sobreviver como na Idade da Pedra. Mas, a julgar como a esmagadora maioria dos seres humanos agem, vivem, pensam (pensam?), sentem atualmente, covardes, abjetos, medíocres, especializados em Imbecilização, Bestialização & Negação. Defendendo sem necessidade bobagens como Religião, Moralismo de Fachada, Costumes Idiotas, Dinheiro, Banco & Propriedade dos Outros, sobretudo os Ricos, aqueles que não precisam de Nada & Ninguém para prosseguir no Poder Absoluto, sejam Nações, Corporações, Idéias e Indivíduos, pregando um Sociedade Excludente e um Individualismo Autista, glamourizando Terror & Violência, negando Coragem, Solidariedade (pra dizer o mínimo), Vivência em Comunidade, Adaptação como Leis (o mesmo que ignorar a Gravidade) – só nos tornamos Humanidade porque fomos corajosos, audazes, solidários, sábios – muito antes disso seremos Extintos.

Uf, um ano e tanto! E os filmes de tevê refletem isto: literalmente um ano aterrorizante, mix de hipermediocridade geral com autismo coletivo. Esperamos um 2012 mais calminho (e, repetindo a dose ou overdose, é dose: vêem aí as predições dos Maias para 2012, como se não bastasse). Bobagem, o terror hollywoodiano (e a Globo como triste sub-repetidora) encheu até arrebentar nossa subjetividade com um besteirol subfantasioso de quinta – contramedidas para nos manter “distraídos” - donde o status quo se manteve e “a realidade” (essa coisa absurda sem a qual não sobreviveríamos meio minuto na natureza) prosseguiu igual, igual, isto é, sem incomodar ”ricos, chics e famosos” – que ficaram ainda mais ricos, chics e famosos em 2011 (esses caras têm um lobby incrível! VOCÊ não teria se fosse um deles? Essa “esmagadora maioria” de 1% da “humanidade”? )  – que já vai tarde!

A mediocridade é tanta em todos os níveis que merecemos ser extintos. Nosso inconsciente cultural CLAMA pela própria autodestruição! Lembro uma frase de Jung:”O inconsciente não se engana, nós é que nos enganamos.” Podem apostar!

PS: eu IA continuar escrevendo a (Im)Pietá, mas fui devidamente embargada. Por razões familiares que só me dizem respeito. E editoriais. Afinal, não sou nenhum despachante literário, mas tenho que pensar que não seria estratégico publicar todo o conto na rede: vocês leram uma parte, mas querendo saber o resto, será preciso comprar o Politicamente Incorreta, ou seja, publicar em livro. Aliás, esse conto será a única concessão que farei à ficção. E, de uma forma obscura, à verdade. Doa a quem doer. Que primeiro vai doer em mim.

Sobre o autor

Márcia Denser
A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos do colunista Márcia Denser.

Publicado originalmente no "congressoemfoco".

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Tulipas

Brasil

Mulheres precisam querer mais

Luiza Nagib Eluf
O último censo realizado pelo IBGE mostrou que as mulheres têm, em média, dois anos de educação a mais que os homens. No entanto, em que pese esse diferencial positivo, os salários pagos às mulheres ainda são, em média, 30% menores do que os dos homens, para a mesma função. Outra constatação intrigante é a de que quanto maior o nível educacional, maior a diferença entre os rendimentos masculinos e femininos.
 
Sabemos que o patriarcalismo se sustenta na pobreza da mulher. A idéia é que as mulheres não tenham dinheiro nem poder, que precisem vender seus corpos para se sustentar, seja pela prostituição, seja pelo casamento. Além disso, a pesquisa mencionada mostrou que não basta ter mais educação formal para que a violência doméstica diminua. A correlação de forças entre os gêneros continua desigual e as mulheres permanecem sofrendo discriminações, tanto no espaço público quanto no privado. O Brasil já tomou várias medidas para promover a igualdade de gênero. Começou pela Constituição Federal, que estabelece direitos iguais, reconhece a união estável, cria a licença-paternidade,  equipara os direitos dos filhos independentemente da situação dos pais. Vieram, também, as Delegacias de Defesa da Mulher, o crime de assédio sexual, a Lei Maria da Penha, as Varas de Violência Doméstica. Entendemos que  a opressão feminina é milenar e não será banida do dia para a noite, mas com as possibilidades que temos hoje, é de espantar que a maioria das mulheres ainda esteja em tamanha desvantagem. Em outras palavras, a marcha para uma vida melhor está devagar demais.

A dominação masculina transformou o mundo em um lugar hostil às mulheres. Desde os mínimos detalhes, as atividades profissionais remuneradas são organizadas para causar desconforto à mulher. Os ambientes são rígidos, os banheiros são sujos, o relacionamento com os outros é impessoal, os termos lingüísticos são rudes, a nomenclatura dos cargos de comando está no masculino, as roupas são controladas e criticadas, isso tudo sem falar do assédio sexual ou moral, de forma que as mulheres sintam medo de ser mulheres. Assim, diante de tantas dificuldades, muitas desistem antes de tentar, outras alcançam uma posição razoável e se conformam; apenas algumas poucas ousam lutar para chegar o mais alto possível. É difícil resistir à tentação de se acomodar, de aceitar a subalternidade ou dedicar-se apenas ao marido e aos filhos.

Sim, gostamos de ser mães, de cuidar da casa e dos outros, mas isso não engloba todos os nossos anseios. Precisamos, também, de independência  financeira, sexual e profissional, de respeito, de dignidade e de reconhecimento social. Para escapar da violência e mudar a correlação de forças, temos que estar no poder. Mesmo que esse poder, instalado por homens para o bem dos homens, não seja nosso ideal de vida. Ainda que pareça difícil suportar as contrariedades do ambiente hostil, não será possível evitar essa etapa evolutiva: ocupar os espaços para depois fazer as transformações Enquanto as mulheres não tiverem a clareza de que é preciso querer mais, ambicionar o máximo e não se contentar com o mínimo, os bons níveis de escolaridade não serão suficientes para vencer a imposição de inferioridade.

Por outro lado, não podemos prescindir da colaboração dos homens nessa árdua jornada. E eles precisam começar modificando a forma como encaram as relações afetivas. Sobre esse tema, David Servan-Schereiber, médico francês que escreveu dois livros para contar sua luta contra o câncer, sintetizou o assunto na obra “Podemos dizer adeus duas vezes”. Depois de muita meditação e durante os momentos finais em que passou a rever sua vida, reconheceu que não soube amar as mulheres como gostaria de ter amado. Em suas palavras: “quando eu era muito jovem, tinha a cabeça cheia de idéias imbecis sobre o assunto. Para mim, amor era coisa que o homem impunha à mulher, pois ela era por essência recalcitrante. O único modo de agir era subjugá-la. Uma história de amor era em primeiro lugar uma história de conquista, depois uma história de ocupação. Pura relação de força, na qual o homem tinha interesse de se manter na posição dominante. Nem pensar em deixar-se levar, mesmo depois de ela se render. Como a dominação era ilegítima, ele devia vigiar constantemente sua conquista, devia mantê-la sob sua influência, se quisesse evitar que ela se rebelasse. Impossível imaginar  uma relação harmoniosa, uma relação baseada na troca ou numa igualdade qualquer dos parceiros. Ainda me pergunto de onde me vinham aquelas idéias idiotas que deterioraram minhas histórias de amor até por volta dos meus 30 anos. Eu me esforçava por me comportar como potência ocupante. Minha busca amorosa se resumia à procura de um território para conquistar. Resultado:eu amava, às vezes loucamente, mas não era amado. Ou mesmo quando o era, não me autorizava a me sentir amado. Porque, nesse caso, precisaria depor as armas. Que tristeza ter perdido tanto tempo e tantas oportunidades de felicidade! Por fim, acabei me desvencilhando daquelas idéias grotescas, dei um salto quântico que me projetou anos-luz, num universo encantado em que as mulheres são dotadas de inteligência e conseguem compartilhar comigo uma infinidade de interesses comuns. Finalmente, fui capaz de viver verdadeiras histórias de amor, com mulheres que eram iguais a mim, humana e intelectualmente. Consegui  abandonar o frustrante papel de tutor. Aprendi que há muito mais prazer em dar e receber do que em dominar ou impor-se pela sedução.”

Talvez seja isso que nossas escolas tenham que ensinar para que os níveis de instrução formal possam fazer alguma diferença.

Luiza Nagib Eluf é Procuradora de Justiça do Ministério Público de SP. É autora de vários livros, dentre os quais “A paixão no banco dos réus”, sobre crimes passionais, e “Matar ou morrer – o caso Euclides da Cunha”.

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Opinião

Descompasso no setor elétrico

O Estado de S.Paulo
Consequência da desarticulação das ações do governo, o descompasso entre a construção de usinas hidrelétricas e de linhas de transmissão da energia por elas geradas impedirá o País de se beneficiar integral e imediatamente de uma obra que está sendo concluída em tempo recorde. Até o fim deste mês, estará em plena operação a primeira turbina, de 71,6 megawatts (MW), da Usina de Santo Antônio, no Rio Madeira (RO), que terá capacidade total de 3,15 mil MW. Mas tudo que ela gerar nos próximos meses será consumido na região, pois ainda não há como transmitir sua energia para os principais centros de consumo.

À época de sua licitação, há cerca de quatro anos, a Hidrelétrica de Santo Antônio foi considerada a principal alternativa para evitar uma crise de abastecimento de energia no País a partir de 2012. No que dependeu do consórcio responsável pela construção e, em breve, pela operação de Santo Antônio, essa expectativa poderia se concretizar, pois a primeira turbina está sendo colocada em operação cinco meses antes do prazo contratual. Novas turbinas entrarão em operação nos próximos meses.

Pelo menos até novembro do próximo ano, porém, não haverá como transmitir essa energia para os grandes centros consumidores, pois a linha de transmissão ligando Porto Velho à subestação de Araraquara, já no sistema nacional interligado, com cerca de 2,4 mil quilômetros de extensão, começou a ser construída há pouco tempo.

O cronograma previa a conclusão da linha em novembro passado, mas, com os atrasos acumulados até agora, sobretudo em razão da demora na concessão da licença ambiental, ela só estará pronta quase um ano depois de a usina ter iniciado suas operações. Então, Santo Antônio estará operando 15 turbinas, com capacidade de 1.074 MW, de acordo com as projeções da Aneel (concluída, a usina terá 44 turbinas).

Santo Antônio é uma das duas usinas em construção no Madeira. A outra é a de Jirau, que deverá iniciar suas operações em janeiro de 2013 com capacidade total de 3,45 mil MW. O atraso na construção das linhas de transmissão (serão duas, entre Porto Velho e Araraquara) imporá perdas para os controladores de ambas, pois eles não poderão beneficiar-se das vantagens de antecipar a produção, que lhes asseguraria o direito de vender a energia no mercado livre, a preço melhor do que o acertado nos leilões de concessão. Esse, infelizmente, é um problema generalizado no setor.

Balanço feito pela Aneel em meados deste ano indicava que 55% das linhas de transmissão em construção estavam atrasadas, e o atraso médio era de mais de dez meses. Em agosto, quando do anúncio do novo plano decenal para o setor, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética, dirigentes de empresas energéticas calculavam haver de 30 a 40 projetos de linhas de transmissão com obras atrasadas, com atraso médio de 22 meses, por conta da demora na concessão do licenciamento ambiental.

No caso do linhão que atenderá a Hidrelétrica de Santo Antônio, os funcionários do Ibama alegaram que a empresa responsável pelas obras atrasou a entrega da documentação necessária, mas que, uma vez entregues os documentos, a licença foi concedida com rapidez. A empresa, por sua vez, argumenta que o prazo previsto pelo governo para a concessão da licença era de 12 meses, mas 27 meses se passaram até que a questão ambiental fosse inteiramente resolvida.

Assinado em fevereiro de 2009, o contrato para o linhão de Santo Antônio previa a conclusão da obra em 36 meses, mas, até agora, só 22% foram executados. A empresa responsável informou ao Estado que, mesmo sem a licença, já havia contratado os insumos, materiais e equipamentos necessários, o que deve contribuir para acelerar os trabalhos daqui para a frente.

O caso mostra como é falho o planejamento do setor. O problema se repetirá com a Usina de Jirau e, se nada mudar, provavelmente também com a de Belo Monte, no Rio Xingu, que será a terceira maior do mundo.

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Manchetes do dia

Sábado, 10 / 12 / 2011

Folha de São Paulo
"Acordo dá fôlego ao euro, mas pode dividir a Europa" 

Países que usam a moeda concordam em ter contas controladas; Reino Unido recusa tratado
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Após dez horas de discussões, líderes europeus concordaram em endurecer o controle das contas públicas e em perder parte da autonomia para tentar salvar o euro. Mas a discordância do Reino Unido impediu mudanças nos tratados da UE. Os detalhes das propostas serão definidos em 2012, quando aprovados pelos Parlamentos nacionais.

O Estado de São Paulo
"E faz pacto fiscal para salvar euro e isola Grã-Bretanha" 

Ditado por Berlim, acordo prevê punição a países que não controlarem contas; Londres se opõe e fica fora

A União Europeia decidiu aprofundar sua integração para tentar salvar sua moeda, o euro. O acordo, como queria a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, prevê punições a quem não colocar suas contas em dia; controle sobre os orçamentos; fortalecimento do FMI para resgatar países da UE; e um novo mecanismo de € 500 bilhões para frear o contágio da crise. Mas a Grã-Bretanha foi excluída. O premiê David Cameron apostou que sua ameaça de vetar a “refundação” da UE nos termos ditados por Merkel e pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, os fará recuar. Mas ambos abandonaram a ideia de fazer um novo tratado e optaram por um acordo intergovernamental, o que isolou Cameron.

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sexta-feira, dezembro 09, 2011

Praia! Uêba!

Coluna do Celsinho

Dias

Celso de Almeida Jr.
Frases cada vez mais frequentes:

Sim, senhor.

Obrigado, senhor.

O senhor já foi atendido?

Acostumei...

Um amigo recomendou que eu pintasse os cabelos.

Não encarei.

Aceitei o grisalho.

Perguntei a um jovem se já tinha ouvido falar de Forte Apache.

Rim Tim Tim.

Cabo Rusty.

Não, não e não!

Poxa!

Parece que foi ontem...

Decididamente, tenho que aceitar que muitos dias se passaram.

E, tudo indica, os próximos serão mais velozes.

Contribuirão para tornar-me esquecido.

Felicidade!

Finalmente, serei como meus heróis da infância.

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Opinião

Transposição abandonada

O Estado de S.Paulo
O jogo de palavras com que o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, tentou negar a paralisação das obras de transposição do Rio São Francisco, que estavam em execução por empresas particulares, não esconde o fato de que na origem dos problemas mostrados pelo Estado (4/11) estão a pressa eleitoral e a incompetência gerencial do governo. Planejadas como cenário para a propaganda do governo Lula e, no ano passado, para a campanha eleitoral de Dilma Rousseff, as obras de transposição foram iniciadas sem que houvesse projetos adequados. Por isso tiveram de ser interrompidas para que fossem elaborados esses projetos, cuja execução exigirá a recontratação de diversos trechos. Para o ministro, porém, tudo não passa de uma simples "desaceleração".

O problema, porém, é bem mais grave. Os repórteres Eduardo Bresciani e Wilson Pedrosa percorreram trechos das obras durante três dias e constataram que elas estão se deteriorando. As estruturas de concreto dos canais, submetidas ao calor intenso e sem utilização, começam a estourar ou a rachar e há vergalhões de aço abandonados. Natural em qualquer construção interrompida, a deterioração pode ser mais rápida em obras como as da transposição do São Francisco, feitas para receber continuamente a carga de um grande volume de água e não para ficarem expostas diretamente às condições climáticas da região semiárida.

Em todo o trecho percorrido pela reportagem - com exceção da parte sob responsabilidade do Exército -, o que se constatou foi o abandono das obras. Entre os municípios pernambucanos de Betânia e Custódia, em um trecho de 500 metros do eixo leste, o concreto está quebrado e vários pedaços estão caídos sobre o leito do futuro canal. "As empresas abandonaram as obras e já começou a se perder o trabalho feito", disse o padre Sebastião Gonçalves, da diocese pernambucana de Floresta. "É um desperdício inexplicável."

O Ministério da Integração Nacional reconhece que, dos 14 lotes em que a obra foi dividida, 6 estão parados. Não se trata de uma interrupção, segundo o ministro Fernando Bezerra. "Estamos vivenciando uma desaceleração no ritmo em consequência das dificuldades e dos problemas que enfrentamos pela contratação de projetos básicos que se revelaram frágeis quando da execução", disse ele ao Estado. "A obra já não cabia dentro dos contratos e muitas frentes não puderam ser abertas."

Em linguagem mais simples, isso quer dizer que a obra mais alardeada do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - que ampliou a popularidade do ex-presidente Lula e garantiu boa parte dos votos com que a presidente Dilma Rousseff se elegeu -, uma das mais polêmicas dos últimos anos e uma das mais caras em andamento no País, começou a ser executada sem que houvesse projetos executivos adequados. Um governo só age desse modo por pressa, determinada por cálculos político-eleitorais, ou por incapacidade administrativa e técnica - ou pelas duas razões.

Ganhos políticos para o governo e sua então candidata certamente houve. No município de Floresta, por exemplo, em 2010 a candidata petista obteve 86,3% dos votos; em Cabrobó e Custódia, 90,7%; e em Betânia, 95,4%. No segundo turno, Dilma teve 75% dos votos válidos de Pernambuco, Estado onde começa o desvio do São Francisco.

Mas a pressa com que as obras foram contratadas já provocou revisões de seu custo total, agora orçado em R$ 6,8 bilhões (R$ 1,8 bilhão mais do que a previsão original). Segundo o governo, desse valor, R$ 3,8 bilhões já foram empenhados e R$ 2,7 bilhões, pagos.

É muito provável que, até o fim das obras, o custo seja novamente revisto. O próprio ministro Fernando Bezerra admitiu a necessidade de renegociação e recontratação de diversas frentes de trabalho. Além disso, haverá o custo de recuperação daquilo que se está perdendo com a suspensão das obras. Apesar da veemência do ministro, não é certo que as empresas arcarão com esse custo. Afinal, a "desaceleração", como diz o ministro, é de responsabilidade do governo, não das construtoras.gases-estufa.

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Sexta-feira, 09 / 12 / 2011

Folha de São Paulo
"PF acusa policiais de SP de extorsão a traficantes" 

Agentes do Denarc e Deic cobraram R$ 3 milhões para liberar criminosos, diz inquérito
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Policiais civis de São Paulo são investigado pela Polícia Federal sob suspeita de exigir propinas de R$ 3 milhões para deixar de prender traficantes, entre agosto de 2010 e março deste ano, informa André Caramante. Ao menos 12 policiais do Denarc (Departamento de narcóticos) e do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), considerados órgãos de elite da Polícia Civil, aparecem nas 1.771 páginas do inquérito.

O Estado de São Paulo
"Brasil e EUA aceitam acordo do clima" 

Pacote negociado em Durban prevê que todos os grandes emissores de gases-estufa tenham metas obrigatórias de corte

Após um aceno positivo dos EUA e do Brasil, os quase 200 países reunidos na 17ª Conferência do Clima em Durban (África do Sul) estão bem perto de fechar um "pacote climático", informa a enviada especial Afra Balazina. Ele incluirá um segundo período para o Protocolo de Kyoto - que funcionará de 2013 a 2020 - e também um roteiro para um futuro acordo global contra as mudanças climáticas, em que todos os grandes emissores de CO2, do mundo, incluindo o Brasil, terão metas obrigatórias para cortar as emissões de gases-estufa.

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quinta-feira, dezembro 08, 2011

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Opinião

O mais cruel dos meses

Demétrio Magnoli - O Estado de S.Paulo
A "perseguição da mídia" e o "ódio das forças mais reacionárias" derrubaram Carlos Lupi, segundo o próprio Lupi. O homem impoluto desafia a verdade até mesmo na carta de despedida: de fato, ele foi demitido por Dilma Rousseff, depois de uma recomendação da Comissão de Ética Pública. É o sexto ministro abatido por indícios gritantes de corrupção, o que dá uma taxa de queda de um para 57 dias, desde a posse do governo, ou de um para 30 dias, desde o adeus de Antônio Palocci, recordes absolutos na história política mundial.

O Brasil era, há um ano, um país que se comprazia por ter elevado uma mulher - uma "mulher forte" - à Presidência da República. Hoje é um país que imagina essa mulher como a faxineira da República. Há algo de curioso, a ser investigado pelos antropólogos, nessa sutil recuperação de um simbolismo patriarcal. Contudo, para além disso, a nova narrativa, veículo de uma esperança ingênua, nasce no riacho do equívoco. Faxineiras eliminam a sujeira contingente - ou seja, as impurezas que se acumulam sobre um meio íntegro. A corrupção pública no Brasil é, porém, outra coisa: a seiva que confere vitalidade e equilíbrio a um sistema político degenerado.

Na hora do acordo geral que propiciou a emenda da reeleição, Fernando Henrique Cardoso perdeu irremediavelmente a oportunidade de deflagrar tanto uma reforma do Estado como uma reforma política. Lula nunca viu a necessidade de tais reformas e, após o quase colapso provocado pelo "mensalão", se tornou um mestre na arte de manusear as disfunções de nosso sistema político como uma ferramenta de poder. A grande coalizão que articulou em torno da candidatura continuísta de Dilma está amparada, essencialmente, no princípio operativo da partilha de um butim.

Lula não inventou o patrimonialismo, mas o alargou até limites extremos. Sob o ex-presidente, a máquina administrativa dos ministérios foi reconfigurada para atender aos interesses particulares das incontáveis facções que formam o heterogêneo bloco de poder. Segundo a lógica do lulismo, ministérios não existem para desempenhar funções de administração pública, mas exclusivamente para acomodar as forças da coalizão, e ministros não são escolhidos a partir de critérios de competência, mas apenas em função de cálculos de intercâmbio político.

O ex-presidente sempre exerceu a prudência quando se trata da estabilidade da ordem política maior: do butim ministerial ele excluiu as pastas ligadas ao Tesouro, às Armas e à Diplomacia. Fora desse núcleo do poder de Estado, toda a Esplanada foi cedida aos leilões de privatização da máquina pública. Os "partidos da base" foram contemplados segundo proporcionalidades maleáveis, mas se reservaram cotas pessoais, como o latifúndio ministerial de José Sarney. Na divisão dos despojos tratou-se o PT como uma confederação de correntes de peso desigual e o PMDB, como uma coleção de máfias regionais. Ofertaram-se escalpos secundários da administração aos "movimentos sociais" palacianos e à miríade de ONGs articuladas em torno das bandeiras do ambientalismo e do multiculturalismo. O fruto da partilha de quase quatro dezenas de ministérios e mais de 20 mil de cargos de livre nomeação é um polvo monstruoso, imerso em guerras intestinas, mas unido por uma visceral hostilidade aos direitos e interesses dos cidadãos.

O bloco de poder lulista organizou-se à volta de um personagem carismático, de inclinações caudilhescas. Nas circunstâncias constitucionais de proibição de sucessivas reeleições, Lula criou o cenário paradoxal em que a fiel depositária de seu poder é uma figura destituída de brilho político autônomo e de qualquer traço de carisma. Além disso, a presidente é o seu oposto num aspecto decisivo, pois enxerga a administração pública com os olhos de um gerente. Lula e Dilma leem o mesmo livro todos os dias, mas onde um lê negro, o outro lê branco. A gerente não aceita - na verdade, nem sequer entende - a lógica depravada sob a qual o líder caudilhesco montou o governo cujo comando lhe transferiu.

No seu primeiro dia no gabinete presidencial, de acordo com uma fábula verossímil, Dilma solicitou um calendário de 2012 e escreveu a palavra "liberdade" no espaço do mês de janeiro. Ela experimentaria um ano de submissão compulsória antes de formar um governo que pudesse chamar de seu. A queda em série das peças mais podres do dominó ministerial animou o seu projeto de remoldagem da máquina administrativa por um torno mecânico guiado pelo princípio gerencial. Metodicamente, vaza-se do Planalto a notícia de que a presidente pretende reduzir o número de ministérios e conferir ao conjunto um nível básico de eficiência operacional. Dilma quer mudar para uma casa nova, pois a que ocupa não pode ser saneada. Ela sonha com a mãe de todas as faxinas.

O sonho presidencial, contudo, está sustentado sobre a ilusão de ótica que é a marca inconfundível do pensamento gerencial. Numa organização corporativa, uma deliberação de diretoria é condição suficiente para a reconfiguração de todo o organograma. Um sistema político nacional funciona de modo mais complexo, principalmente quando assentado sobre o princípio da legitimidade democrática. A reforma ministerial almejada por Dilma não se coaduna com a teia de compromissos que formam a armadura do bloco de poder construído por Lula. A mãe de todas as faxinas solicitaria a reforma do Estado e, no fim das contas, uma reforma política de substância - ou seja, a ruptura com uma herança que serviu de lastro para o lulismo. A presidente não tentará dar esse salto, que está além de seu poder.

Ao que tudo indica, para Dilma janeiro será um tempo de confronto com o espectro da impossibilidade e de reconhecimento de sua insanável subordinação à figura do antecessor. No mais cruel dos meses, ela riscará a palavra "liberdade" do calendário que mantém numa gaveta secreta.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP.
E-mail: demetrio.magnoli@terra.com.br

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 08 / 12 / 2011

Folha de São Paulo
"Senado rejeita criação de outro imposto da saúde" 

Texto aprovado define percentuais e critérios para gastos municipais, estaduais, da União e segue agora para sanção
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O Senado aprovou projeto de lei que regulamenta os gastos obrigatórios de União, Estados e municípios com o sistema público de saúde. Foi derrubado o artigo que possibilitaria futura criação de um novo imposto para área, a CSS (Contribuição Social à Saúde). Os senadores rejeitaram a regra que obrigava o governo a destinar 10% das receitas da União para área. Ficou valendo a norma atual - orçamento do ano anterior mais a variação do PIB.

O Estado de São Paulo
"Dilma vai mudar gerência do PAC para aquecer economia" 

Presidente pretende passar a responsabilidade das obras de infraestrutura do Planejamento para Casa Civil

Insatisfeita com o ritmo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a presidente Dilma Rousseff pretende transferir do Ministério do Planejamento para a Casa Civil a gerência de áreas de infraestrutura - como rodovias e ferrovias. Dilma avalia que o PAC é fundamental para ajudar a aquecer a economia, que parou de crescer no terceiro trimestre. As mudanças no plano, considerado uma das vitrines do governo, dvem ocorrer no ano eleitoral. A ideia é reforçar o perfil técnico da Casa Civil - comandada por Gleisi Roffmann, pré-candidata do PT ao governo do Paraná - e desafogar o Planejamento, dirigido por Miriam Belchior.

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quarta-feira, dezembro 07, 2011

Guerra!

Ramalhete de "causos"


Saudade serve para...
    
Como os causos que contou,
Era todo paladar
Como o pirão que provou,
Era todo caiçara
Como o povo que amou,
Era todo coração
 
José Ronaldo dos Santos
Em 7/12/2007, quando o dia amanhecia, João de Souza, "o caiçara do pé rachado" nos deixou. É a ele que a poesia do Domingos faz referência.
 
Foi um duro golpe, sobretudo pela nossa amizade, pelos causos contagiantes e pelo ser caiçara que ele era. Infelizmente muitos sequer têm noção de quem ele era, onde morou... Imagine então conhecer os seus causos - os que ele teve oportunidade de escrever!
 
Desconfio que o causo de hoje ele não escreveu. Dele eu escutei quando fazia um serviço de pedreiro no Camping do Velho Rita. Os personagens são: Sebastião Rita, o pai do nosso saudoso João, e, João de Paula, o caiçara hippie. Eram primos. 

Os dois estiveram trabalhando na construção de um muro, mas o serviço se arrastava porque era hábito dos dois as escapulidas para "uma bicadinha" no Bar do Barriquinha, na beira do campo de futebol do Itaguá. 

Num dia bem cedo os dois prepararam uma grande quantidade de concreto para enchimento das colunas. Misturaram tudo. Antes das oito horas da manhã a massa já estava no ponto. Ao perceberem que estavam adiantados, resolveram "molhar a goela" na "fruteira do bairro". Em pé, deixaram a enxada afundada na massa para mostrar que logo estariam de volta. Porém, isso não aconteceu. 

De gole em gole, acompanhado de torresmo frito, passaram toda a manhã e viraram a tarde. Depois foram tirar uma soneca no rancho de canoa do velho Tibúrcio Mesquita. Anoiteceu. Já passava a Voz do Brasil quando Sebastião Rita chegou em casa. Todos estavam preocupados! Na mesma noite o tempo desabou: se seguiram quatro dias de chuva forte. Ninguém colocava nem o nariz para fora de casa. O terreiro era um lago porque o rio Acarau transbordou. Só depois de cinco dias, quando o tempo deu um recarmão, pareceu se firmar no sol, é que viram o monumento: do monte de concreto saía o cabo da enxada. Resultado: perdeu-se tudo, inclusive a ferramenta. Por fim completou o João de Souza: 

"Acho que foi desse jeito que surgiu a história da espada na pedra, lá na Inglaterra! Só que aqui não teve nenhum Arthur forçudo. Sobrou para o Chico Preto malhar com marreta e ponteiro um dia inteiro!".

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Opinião

A produção entravada

O Estado de S.Paulo
A economia brasileira estagnou no terceiro trimestre, embora o Produto Interno Bruto (PIB) - o valor dos bens e serviços finais gerados no período - ainda tenha sido 2,1% maior que o de um ano antes e tenha crescido 3,7% em 12 meses. Mas o crescimento zero no período de julho a setembro é um sinal inequívoco: até o consumo perdeu impulso e isso justifica o empenho do governo em estimular a volta às compras. Mas o pacote econômico divulgado na semana passada é limitado. Pode animar os consumidores a curto prazo, mas é preciso fazer mais pela indústria de transformação, o setor mais enfraquecido e mais abalado pela concorrência internacional. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, fala em retomada já neste trimestre e promete para o próximo ano um crescimento de até 5%. Qualquer resultado igual ou superior a 4% será satisfatório, num quadro internacional muito ruim. Mas políticas de curto prazo, incluída a redução dos juros básicos, serão insuficientes para sustentar a expansão por mais tempo e impedir danos maiores à estrutura industrial. É preciso destravar a produção.

Os principais desafios ficam mais claros quando se examinam os dados de um ano ou de um período um pouco mais longo. O consumo das famílias cresceu 5,4% em quatro trimestres. O do governo, 2,3%. No mesmo período, a produção da indústria de transformação só aumentou 1,7%. A diferença vazou para o exterior. A importação de bens e serviços avançou 14,5%. A exportação, apenas 6,8%. O quadro fica mais feio quando se examinam alguns detalhes com mais atenção. A participação de importados no mercado brasileiro de bens industriais chegou a 20,4% em quatro trimestres, 1,3 ponto a mais que no período anterior, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria. Isso inclui tanto produtos destinados ao consumo final quanto ao processo produtivo. Essa proporção cresceu de forma quase contínua a partir de 2003, quando era pouco inferior a 12%. Parte dessa evolução é atribuível à valorização do real, mas a causa mais importante, a longo prazo, tem sido o descompasso entre os custos no Brasil e nos principais países competidores (transportes, energia, impostos, encargos sociais, etc.).

O peso da tributação é visível nas contas divulgadas ontem pelo IBGE. Calculado a preços básicos, isto é, sem impostos, em 12 meses o PIB cresceu 3,3%. O número chega a 3,7% quando se acrescentam os impostos sobre produtos. Estes impostos aumentaram 6,1%, muito mais que o valor da produção de cada setor (2,7% na agropecuária, 2,9% em todos os segmentos industriais e 3,6% nos serviços).

O investimento em máquinas, construções e obras de infraestrutura diminuiu 0,2% do segundo trimestre para o terceiro, mas ainda acumulou crescimento de 7% em quatro trimestres. Foi o item com maior expansão no período - um dado muito positivo, porque sem esse fator o crescimento é insustentável a longo prazo. Também o dinheiro investido acaba sendo, em boa parte, canalizado para fora. Isso se explica por dois fatores. Em alguns casos, o bem procurado não é disponível no mercado interno. Nenhum país, mesmo entre os mais avançados, fabrica todos os tipos de equipamentos. Mas há também o problema do preço, afetado pela valorização do real e por outros fatores. No terceiro trimestre, o câmbio foi mais favorável do que um ano antes, mas o desajuste vem de longe.

Embora o investimento cresça mais que o consumo há vários anos, continua insuficiente para sustentar um crescimento duradouro em ritmo superior a 5%. No terceiro trimestre, o País investiu o equivalente a 20% do PIB, 0,5 ponto menos do que um ano antes. Em 2008, a proporção chegou a 20,6%. Deveria ser de uns 24% ou 25%, pelo menos, para garantir uma expansão econômica sustentável de uns 7%, segundo estimativa corrente entre os economistas. Isso depende em boa parte do governo, incapaz de poupar para investir e também de administrar a execução de projetos. Depende também de uma redução de custos. No Brasil, o empresário paga impostos pesados quando investe na modernização e na expansão da capacidade produtiva. Países com políticas mais sensatas crescem mais e conquistam mercados mais facilmente.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 07 / 12 / 2011

Folha de São Paulo
"Brasil para de crescer" 

Serviços, indústria e consumo encolhem; Dilma estuda conceder novos incentivos
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A economia brasileira parou de crescer no terceiro trimestre e fez o governo reduzir a previsão de crescimento do PIB (soma dos bens e serviços do país) em 2011 de 3,8% para 3,2%. A estagnação foi recebida com alívio, pois temia-se uma retração. Só a agropecuária teve ganho; serviços e indústria encolheram, e o consumo das famílias caiu 0,1%, primeira queda desde a crise de 2008.

O Estado de São Paulo
"PIB estaciona e mercado prevê expansão inferior a 3% no ano" 

Contenção do crédito e crise externa afetam consumo e serviços; crescimento de 2012 também está ameaçado

O PIB brasileiro estacionou no terceiro trimestre, com crescimento zero em relação ao segundo. Em comparação com igual período de 2010, o crescimento foi de 2,1%, o pior resultado desde a queda de 1,5% no terceiro trimestre de 2009, em plena crise internacional. Como esperado, a indústria teve queda (0,9%), e a surpresa ficou por conta do recuo dos serviços (0,3%) e da desaceleração do consumo das famílias, que tem sido o suporte da economia brasileira. Com isso, para analistas, ficou bem difícil o PIB crescer 3% em 2011, porque o último trimestre deve repetir um desempenho fraco, abaixo de 0,5%. Alguns acham difícil chegar a 3% também em 2012. A alta dos juros e as medidas de contenção de crédito desde o final do ano passado aliaram-se ao impacto da crise internacional para provocar a parada da economia. “No momento, não há medidas que o governo pense em tomar, mas vamos seguir na f1exibilização do crédito", afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

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terça-feira, dezembro 06, 2011

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Opinião

Caiu de podre

O Estado de S.Paulo
O que terá passado pela cabeça da presidente Dilma Rousseff entre a quinta-feira e o domingo da última semana? Na quinta, ela deixou boquiabertos os observadores ao mandar às favas a inédita recomendação da Comissão de Ética da Presidência da República, anunciada no começo da noite anterior, de que exonerasse o ministro do Trabalho, Carlos Lupi. No entender do colegiado, ele não conseguiu oferecer, nem ao Congresso nem à imprensa, explicações convincentes para as denúncias que se sucediam contra ele havia quase um mês. Além disso, comportou-se de forma inconveniente ao reagir a elas - por exemplo, dizendo que só sairia "abatido à bala", o rompante que o notabilizou.

Naquela quinta, horas antes de viajar para uma reunião em Caracas, ela recebeu Lupi em audiência, ao fim da qual mandou divulgar que resolvera esperar as suas explicações para a revelação de que na maior parte do período entre 2000 e 2006 conseguira a proeza de ser funcionário fantasma da Câmara dos Deputados e da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Pior ainda, cobrou da Comissão de Ética que informasse como e por que chegou à sua conclusão. Nos dias seguintes, nada de novo aconteceu que abreviasse ou prolongasse a permanência de Lupi no governo - salvo a sensação de pasmo entre os setores bem informados da sociedade e os comentários condenatórios da mídia.

No domingo, porém, tendo antecipado em 24 horas a volta da Venezuela e tendo feito saber, na véspera, que decidira abater o ministro que se proclamara invulnerável, Dilma o chamou para o ritual da "conversa definitiva" - a chance para que se demitisse. Não há explicação racional para o zigue-zague da presidente (daí a pergunta que abre este texto). Ela não ganhou nada deixando que o caso Lupi se arrastasse por semanas a fio até ele cair de podre. Só perdeu. Assim que rebentou o primeiro escândalo no Ministério do Trabalho - a extorsão de ONGs conveniadas com a pasta para que continuassem a receber os repasses previstos - vá lá que Dilma não quisesse aparecer, pela sexta vez consecutiva, como caudatária do noticiário sobre as lambanças de seus ministros.

O que se viu depois, no entanto, foi a presidente perdendo uma oportunidade atrás da outra para preservar a imagem de ser implacável com a corrupção quando exposta ao público e de se dar ao respeito no trato com a sua equipe. Para a sua própria conveniência, ela poderia ter demitido Lupi quando ele se gabou de que só cairia à bala; poderia tê-lo demitido quando se saiu com o "eu te amo, Dilma"; ou quando ficou provado que mentira na história do voo fretado com o dono de uma entidade beneficiada pela pasta; ou ainda quando da descoberta de que recebera de duas fontes públicas ao mesmo tempo; ou, enfim, quando a Comissão de Ética, amarrando todas as pontas, julgou que ele não devia continuar ministro.

Se a presidente imaginou que a crise minguaria com a sua decisão, devidamente vazada, de afastar Lupi na reforma ministerial marcada para o começo do ano, é sinal de que não aprendeu nada com os casos anteriores. Suas agonias duraram um pouco mais, um pouco menos, mas nenhum dos ministros atingidos por denúncias - de Antonio Palocci, da Casa Civil, a Orlando Silva, do Esporte, passando por Alfredo Nascimento (Transporte) Wagner Rossi (Agricultura) e Pedro Novais (Turismo) - sobreviveu. Pela razão essencial de que, desatado o escândalo, os fatos novos que se seguiam invariavelmente agravavam a situação dos envolvidos, até ela ficar insustentável.

A sensação que fica é de que, impondo-se à fria contabilidade do custo-benefício das escolhas por fazer, prevalece a relutância de Dilma em dar o passo devido não quando queira, mas sob o império dos fatos. Quem sabe, ela não atine com uma verdade elementar: candidata, o seu patrimônio político era a popularidade do patrono Lula e a ele devia lealdade; da posse em diante, passou a depender do julgamento do eleitorado - e é à Nação que deve prestar conta, tanto de seus atos como de suas omissões. Se ela não compreende esse fato elementar, o País tem um problema. O de ter uma presidente cujo temperamento perturba a sua sintonia com a opinião pública.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 06 / 12 / 2011

Folha de São Paulo
"Governo vai acabar com entrega de IR de empresa" 

Outras sete declarações serão gradualmente extintas pela Receita Federal
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O governo decidiu acabar com a entrega da declaração do Imposto de Renda das empresas até 2014. Outros sete documentos hoje exigidos serão gradualmente extintos pela Receita, que também vai adotar medidas para simplificar o PIS/Cofins. O objetivo é racionalizar o sistema tributário, uma promessa de governo de Dilma.

O Estado de São Paulo
"Agência ameaça rebaixar zona do euro" 

S&P fala em rever notas de crédito inclusive de países AAA; com isso, Alemanha e França apressam acordo para refundar a UE

A agência de classificação de risco Standard & Poor's alertou que pode rebaixar as notas de todos os 17 países da zona do euro. Isso inclui o rating AAA de Alemanha, Holanda, Áustria, Finlândia, Luxemburgo e França. Na maioria dos casos, essa medida é prenúncio de rebaixamento que ocorre três meses depois. A ameaça obrigou Paris e Berlim a apressar a criação de um novo tratado europeu, para exigir maior disciplina orçamentária e punir quem acumular dívidas - o déficit máximo que um país poderá atingir é de 3% do PIB. Os alemães tiveram de aceitar modificações em sua proposta para garantir o apoio, mas o esboço da nova União Europeia terá a marca alemã. A meta é aprová-la até sexta-feira, quando os líderes do bloco se reúnem. Alemanha e França ameaçam manter a proposta mesmo sem apoio de todos os países. Nesse caso, seria implementado com um grupo menor de integrantes.

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segunda-feira, dezembro 05, 2011

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Opinião

Corporativismo e impunidade

O Estado de S.Paulo
Se o órgão criado para apurar indícios de atos ilegais praticados na administração pública e punir os responsáveis pelas irregularidades se alia aos investigados, as consequências mais óbvias serão a facilitação e a disseminação das práticas sob investigação. Esta é, lamentavelmente, a situação que se está criando no serviço público, pois as corregedorias - responsáveis pela apuração de atos irregulares e punição dos eventuais culpados - estabeleceram um "acumpliciamento corporativo" com servidores envolvidos em desmandos e corrupção, como descreveu o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, criando uma situação por ele considerada "inaceitável" (Estado, 26/11).

Dinheiro público que deveria ser aplicado em projetos de interesse coletivo é desviado para os bolsos de umas poucas pessoas ou é desperdiçado. Assim, os contribuintes recolhem impostos em troca de serviços cada vez mais deficientes. Por causa de acertos entre corregedorias e investigados, os responsáveis pelos atos ilegais raramente são alcançados pela punição administrativa ou financeira. Em muitos casos, ainda escapam da ação judicial que poderia ser aberta contra eles com base no que foi apurado no plano administrativo.

"Quantas vezes vemos situações de corregedorias que, diante de ilícitos evidentes e de um mal-estar na própria corporação em que o órgão está, resolvem colocar a sujeira debaixo do tapete para não ter que colocá-la à luz do sol, o que evidentemente propiciaria uma lição mais firme e decidida", disse o ministro, durante reunião da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro, organização formada por 70 entidades de prevenção e repressão ao crime organizado. Essa organização se reúne anualmente para discutir mecanismos de proteção dos recursos do Tesouro Nacional contra a corrupção.

Nem todas as corregedorias se renderam ao corporativismo denunciado pelo ministro da Justiça. Há exemplos de órgãos de investigação interna que não se submetem ao tráfico de influência ou aos interesses de uma pequena parte do funcionalismo, e procuram desempenhar seu papel com a isenção que ele requer.

Embora o ministro Cardozo não a tenha citado, suas palavras podem ser interpretadas como de apoio à corregedora do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministra Eliana Calmon, que enfrenta forte resistência corporativa de parte da magistratura ao ritmo e ao estilo de trabalho que vem desenvolvendo.

Na semana passada, a chefe da corregedoria do CNJ informou que o órgão está investigando operações suspeitas envolvendo um grupo de juízes em grilagem de terras nos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí e divisa entre Bahia e Goiás. Em setembro, a ministra Eliana Calmon havia afirmado ser necessário combater a impunidade dos "bandidos que se escondem atrás da toga", o que provocou a divulgação, pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Cezar Peluso, de uma nota de repúdio em que também cobrava retratação da ministra, que não se retratou.

Em ação de inconstitucionalidade impetrada no STF, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) questiona as prerrogativas do CNJ para investigar e punir juízes acusados de desvio de conduta. No seu entender, só depois de julgadas pelas corregedorias dos respectivos tribunais as denúncias poderiam ser examinadas pela corregedoria do CNJ.

É neste ponto que as afirmações do ministro da Justiça ganham maior relevo. As corregedorias locais têm em andamento 1.085 investigações contra magistrados, de acordo com dados divulgados pelo ministro Cezar Peluso, que também preside o CNJ. O número elevado pode sugerir trabalho intenso das corregedorias locais. Mas relatórios da Corregedoria Nacional de Justiça, chefiada pela ministra Eliana Calmon, constataram a existência de processos "esquecidos" em prateleiras ou que vêm passando de gaveta em gaveta - alguns, desde 2005. Na prática, pouco se investiga.

Como são leves as punições administrativas para boa parte das atos investigados, o prazo de prescrição é curto. A demora no julgamento dos processos, por isso, beneficia os investigados.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 05 / 12 / 2011

Folha de São Paulo
"Lupi é sexto ministro de Dilma a cair sob suspeita" 

Pedetista, que pediu demissão do Trabalho após falar com presidente, se diz vítima de perseguição
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O ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), pediu demissão do cargo após se reunir ontem com a presidente Dilma Rousseff. Para o Planalto, as suspeitas de irregularidades tornaram insustentável sua permanência. No cargo desde 2007, no governo Lula, Lupi é o sexto ministro de Dilma a cair por suspeita de irregularidades.

O Estado de São Paulo
"Carlos Lupi pede demissão e PT já disputa o ministério" 

O pedetista é o sexto ministro a cair sob acusação de corrupção em menos de um ano de governo

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, pediu demissão ontem, depois de se encontrar com a presidente Dilma Rousseff. Envolvido em uma série de denúncias, Lupi perdeu o apoio do PDT, entrou em rota de colisão com o PT e não conseguiu explicar à Comissão de Ética os casos de cobrança de propina na pasta. Na sexta-feira, a presidente, em viagem à Venezuela, avisou que decidiria o caso "na segunda". Para se antecipar ao gesto presidencial, Lupi retornou ontem à tarde a Brasília e apresentou sua carta de demissão. Ele é o sexto ministro a cair sob acusação de corrupção em menos de um ano de governo. O PT já negocia nos bastidores para retomar o domínio da pasta.

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domingo, dezembro 04, 2011

1917!

Sobre o achismo...

Questão de estilo

"Ache 56 milhões de votos, sente na minha cadeira, e aí você pode achar o que quiser". 

Dilma para Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras (aqui) 

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Morde?

Coluna do Mirisola

Balada do lixão do amor demais 

"Uma eternidade é ninharia/ Quando o amor brota lá do fundo do lixo/ e empesta a vida, uma eternidade é menos que as sobras do bandejão, não vale uma fruta podre"

Marcelo Mirisola
Tenho um gênio chamado Marisete, às vezes ele se transforma num vampiro. Ontem, logo que acordamos (antes mesmo da proverbial mijadinha), ele/ela sussurrou-me a seguinte maldade: "Duas semanas para viver vinte anos não é nada/ sobretudo para um vampiro quem tem uma eternidade inteira para ser jogado na lata do lixo".

– Oh, ilusão, Marisete!

Uma eternidade é ninharia/ Quando o amor brota lá do fundo do lixo/ e empesta a vida, uma eternidade é menos que as sobras do bandejão, não vale uma fruta podre.

Nem você, nenhum vampiro, nenhuma eternidade metida a besta vai dar conta do amor demais. Nem sou eu quem vai revirar o lixo e separar placentas desamparadas de seringas descartáveis. Esqueça, meu gênio.

Uma eternidade – disse pra ele: – É ninharia quando o amor escorre feito chorume do lixo/:  nesse ponto, corre-se o risco de o "para sempre" durar um segundo e não terminar nunca mais: tamanha dor/ A dor que causei/ quando traí você e minhas meninas –  comigo mesmo/

Essa é a questão. Perdi as garotas porque não sei fazer cálculos/ nem sequer tenho o controle dos líquidos que escapam do meu próprio cadáver: não tenho as medidas do sofrimento, nem do que sinto/ nem do que faço afligir nos outros, manja o lixão? Tamanha dor. Então, meu amor é chorume, aquele líquido viscoso que escorre do lixo: sou meu próprio biodigestor/ da merda que é minha vida/ vidinha vivida aos soluços/ aos trancos/ minúscula/ dentro de uma eternidade igualmente mesquinha e apodrecida, assim é que me reinvento e deixo herança: filetes de alma e carniça misturados pelo caminho/

“Maldito vodum” – acrescentou Marisete.

Olha só minhas asas: marrons, atrofiadas. Sem falar do inchaço nas canelas / ah, minhas vergonhas injustificáveis e os entraves de sempre/ que porra! / elas moram longe pra caralho. Não pretendo visitá-las!

Sabe, Marisete, o espelho de casa é tão inútil quanto a elegância que carrego comigo/ incrível: mas apesar de tudo, sou um cara elegante: lá do fundo do azedume e dos CDs do Benito di Paula/ que não servem pra nada senão para embalar meus hinos absurdos/ e dar um verniz à minha pauta fajuta, sou elegante sim/ em decomposição/ tenho estilo e ritmo, avenidas derramadas e as cinzas das quartas-feiras/ e perfuro sacos de lixo com meu amor adiposo/ um canastrão tagarela/ percolado e carente/
 
"Al dente"  – Marisete fez a rima só pra me azucrinar….

Afinal, o que as garotas, lindas & jovens, cheias de vida & filhos únicos, o que elas teriam visto nesse tiozinho?/

“Que só fez desperdiçar o amor das pobres criaturas”

– Até o bagaço,eu diria. "O amor" – vaticinou Marisete: – "não é igual à eternidade mesquinha que consome os inexperientes/  feito comida estragada/ aos soluçinhos: você é o vampiro das matinês dessas garotas".

Voilà!  Às vezes, Marisete enche o saco. Às vezes acerta no alvo: sou o Conde Drácula das matinês dos amores abortados, mas afinal:

Por que vocês cismaram com esse tiozinho que faz escorrer chorume de suas coxas / esse chupador de cu que nem bem dá no couro/ e tira o pau pra fora/  como quem não enxerga o próprio fantasma diante no espelho?

O meu amor é fedentina.  O que eu faço é apenas controlar a respiração/ e incensar o horror de seus corpos em surto/ Um mestre-zen tem que saber se pirulitar. Isso foi ela, Marisete, quem me ensinou: a sair fora, pirulitar, dar o pinote. Um pouco pra zoar com vocês antes de gozar/ na órbita de seus olhos esbugalhados/ de anjinhos barrocos/  bastante pelo prazer da sacanagem/ e outro tanto por pura covardia/ e medo. E é só;

O que vocês viram nesse animalzinho eterno? Que não sabe amar menos que amar demais?/ e mais até: o que vocês querem desse jardineiro que aduba as flores negras de suas esperanças com gás metano? O que escolhem, afinal: a explosão, o amor irrestrito, a eternidade ou as avencas colhidas do meu aterro sanitário?

Sobre o autor

Marcelo Mirisola
Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

Outros textos do colunista Marcelo Mirisola.

Publicado originalmente no "congressoemfoco".

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