sábado, dezembro 03, 2011

Crônicas do Zé Ronaldo


Dez anos depois

José Ronaldo dos Santos
Nesta semana, em 1º de dezembro, foi o aniversário do nosso caiçara Mané Hilário. Fui visitá-lo por volta das onze horas, perto da hora do almoço, pensando que o encontraria acordado, mas... só pude contemplá-lo no seu pesado sono. A comadre me informou que agora ele está ficando menos tempo na cadeira, está dormindo mais, mas tem muitos momentos de lucidez. Até pediu uma festinha de aniversário, com cantoria de reis se possível. Isso demonstra que, apesar dos efeitos colaterais dos remédios fortes que toma, o bom velhinho continua sabendo o que quer, tem clareza daquilo que está ao seu alcance.

Voltei no tempo. Há dez anos, por ocasião da entrevista que gerou o artigo publicado na Enciclopédia Caiçara (Vol.4), assim disse o nosso personagem querido:

“Eu sou de 1908; 1º de dezembro de 1908. Eu nasci numa casa na rua Dr. Esteves da Silva [...] Dancei muito baile. Onde tinha baile eu tava rente. Hoje não posso mais; a perna não ajuda. Hoje eu gosto de vê. O coração dá umas mordidas, mas...o que vou fazê? Não posso mais, né? O que os olho não vê o coração não sente, mas eu gosto de tá olhando. E... tudo acaba!”.

Ou seja, aos 93 anos, naquela ocasião, o Mané Hilário já aceitava numa boa as limitações do corpo. Imagine hoje, aos 103 anos!

Parabéns às pessoas que fazem de tudo para que o nosso pescador descanse enquanto os ventos cantam no traquete. Depois de contemplar alguém que alcançou essa idade, fica a certeza de que muitas coisas jamais saberemos e que existem muitos fios soltos cujas pontas não poderemos nunca achar.

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Teclado + impressora

Colunistas

(Im) Pietá
“Em memória dela”

Márcia Denser
O casamento de meu pai foi, como diziam os romances do século 19, uma mésalliance. Literalmente, segundo o Aurélio, “um casamento desigual, com pessoa de condição social inferior à sua”: ele fica com a rosa, ela com os louros. Ledíssimo engano. Não é bem assim, até porque uniões desastrosas são mesmo feitas de paradoxos, algo que Thomas Mann, nos Bunddenbrooks (história sobre a decadência de uma família), descreve duma forma deliciosamente sutil: comerciante da aristocracia hamburguesa, o mais velho da linhagem, Gotold, é deserdado ao se casar com “uma loja” – só lendo pra curtir tudo o que o autor quis dizer com isso.

Álvaro, meu pai, seria uma mistura de imigrantes alemães – gente vinda de Berlim antes de 1860, urbanos, profissionais liberais, alguns intelectuais, quase todos boêmios (naquele tempo havia muitos boêmios, mas num sentido mundano, chic como o diabo), tipo homens do mundo, também como se definia até meados de 30/40, quando a capital mundial ainda era Paris que ficava no que hoje vagamente se denomina EU – União Européia – , unidos a um ramo dos  Borba (precisamente, do bandeirante Borba Gato, o tal da estátua), portugueses de sangue azul, significativamente alterado pela mestiçagem e as disputas das terras de Santo Amaro, algo que “resolviam” casando-se entre primos irmãos, donde a linhagem não ter durado muito, bem como as respectivas terras.

Conquanto meu avô, Victor, único a ter escapado à cobiça e à tara de sangue, posteriormente haver assumido honradamente o cargo de linotipista do Diário Oficial do Município, bem como uma vasta biblioteca, ter-se casado com Teresa, mulher que era o diabo, a matriarca por excelência e desespero de marido, filhos, noras e netos e bisnetos – filha dum calabrês avarento, dono de praticamente todos os imóveis da rua do Paraíso com uma suave austríaca, advinda dos Hehl de Santa Catarina.

De forma que Álvaro, meu pai, terceiro filho de seis irmãos, quatro varões e duas mulheres, casou-se como Vivien, oficiosamente descendente de colonos italianos chegados em 1900 nas negras terras de Ribeirão Preto – mas a coisa era mais complexa, pois sua verdadeira origem seria algo mais obscura (pra dizer o mínimo) e controversa (e muito mais simples, mais óbvio), envolvendo ciganagem deslavada & campesinato brutal, chafurdando em pântanos de costumes  grotescos, sem esquecer as manhas e espertezas, sobretudo daqueles posteriormente donos de terras, gado, usineiros. O que não foi o caso de Vivien.

Repito: de origem obscura e controversa (aliás, vovó Teresa tinha um nome pra isso, um nome e uma explicação lógica), Vivien era filha de Rosa e Dionísio, um casal de fazendeiros arruinados – a mulher analfabeta, ele, jogador inveterado – cuja grande família – constituída por seis mulheres e dois varões apagados, além de três mortos, ainda crianças – migrou pouco a pouco do norte do estado para a capital, mediante as adversas condições determinadas pela Segunda Guerra e a crise do café, instalando-se, a princípio, em casas de parentes e cortiços do Bexiga.

Vivien aportaria por lá na primeira leva, enquanto Álvaro ainda caçava passarinhos no vasto casarão da Rua França Pinto em Vila Mariana. Naturalmente, a guerra também fizera alguns estragos à sua família, mas nada muito importante comparado à dela.

Este é o ponto essencial, o momento do encontro de ambos: 1945, final da Segunda Guerra, a euforia e os bailes do Trianon e Centro do Professorado, a leiteria Campo Belo, o Bar Viaduto na Rua Direita: tudo isso relativizava usos e costumes, aos quais se daria a devida e maior importância em tempos ditos normais.  Entre namoro e noivado, casaram-se em 1947.

Vivien, minha mãe, ostentava em seu rosto uma espécie de síntese de todo o capital estético das divas de Hollywood, mas como quem saca sem fundos (o que era a expressão da verdade, pois tudo o que tinha era a duração e a consistência dum cartaz do cine Marrocos). Fisicamente, analisá-la traço por traço revelava-se um exame tão inútil quanto decepcionante, o mesmo que seguir uma pista falsa: eram todos irregulares. Mas vistos no conjunto resultavam na tal síntese deslumbrante e absurda a que chamamos beleza. Conseguia parecer-se simultaneamente com Vivien Leigh, Maureen O’Hara e Heddy Lamar – impossível reservar personalidade bastante para si própria. Mas isso não deve ter ocorrido a Álvaro quando a quis por mulher e mãe de seus filhos.

Vivien: os negros olhos circunflexos abrigavam um demônio fixo de rocha e pássaro, a boca, fina como um risco, subitamente se alastrava nem sorriso esfuziante, falsamente inacessível, marcado por covinhas. Mas a massa de cabelos ruivos ocultava o crânio irregular, onde o nariz despontava atrevido,ligeiramente adunco:  Rita Haywoorth com pudor, sem as luvas negras ou o decote expectorante, mas a sugestão velada de tudo isso, estrela duma constelação se movendo para dentro dum universo totalmente improvável, sem deus nem lei, aguardando em suspenso a vinda de Tyrone Power que a levaria para um outro céu de néon e cetim cor-de-rosa –  essa garota tão tola, tão simplória, tão Cinderela montada no leão da Metro.

Pouco antes de morrer, colocava batom para assistir aos filmes de George Clooney (que substituiu Antonio Banderas, que substituiu Tyrone Power nas muitas e mesmas e eternas versões de O Zorro).

Mas nem tudo eram flores, considerando-se as sardas de gata irlandesa, suas pernas curtas, o intestino preguiçoso (que acabou matando-a) e apenas um curso primário: detalhes que só a tornavam mais bela, porque as mulheres verdadeiramente belas são as de carne e osso, deste lado da realidade, aquém do sonho, da foto na parede da juventude, das promessas do celulóide e ao alcance dos homens, do amor, de Álvaro, especialmente.

A irmandade materna feminina emergiu com o sonho americano na década de 50 e pergunto-me até que ponto não foram os mesmos os sonhos que assombraram minha infância quando, fascinada, contemplava tia Jane ou tia Marjorie na penteadeira iluminada por lâmpadas de camarim, porque Marjie era cabeleireira tendo, presumo, íntimas ligações com circos e teatros de revista, a mesma relação feérica de rugas prematuras, cosméticas cicatrizes acrobáticas que viviam misteriosamente mudando de lugar ao sabor da fantasia, além desse perfume abafado pela colcha chinesa de péssimo gosto, misturado ao típico ranço de mulher amanhecida que ninguém e todos sabiam o que fazia nas noites de sábado.

A irmandade materna emigrou do interior com a guerra, a crise do café, o cinemascope, o know-how, as raízes cortadas também pela miséria, daí o trabalho nas fábricas de biscoitos, nos laboratórios farmacêuticos, na Casa Anglo-Brasileira, solidariamente amontoados nos cortiços do Bexiga, desmantelados e febris mas obedecendo  uma ordem invisível – as  leis não escritas dos movimentos migratórios a determinar que os jovens venham na frente abrir espaço para os pais e avós, o suficiente talvez para conter uma cadeira de palhinha na porta ensolarada do beco  onde quietamente seria confinada a velhice, a ruína, o orgulho espezinhado, como também os fundamentos do altar da memória, tão mais grandiosa quanto mais distante no tempo e espaço, nos estreitos limites de um beco, de um assento de palhinha.

O pequeno Dioniso, o avô irlandês, jogador e sanfoneiro arruinado, filho único de três fazendas perdidas em mesas de pôquer, cuja qualificação profissional consistia em não ter nenhuma graças à sua alma de moleque e reprodutor passivo de onze filhos, o avô Dioniso depressa arranjou um posto de vigia noturno na CMTC para manter as aparências de chefe de família, enquanto durante o dia lampeiramente fazia progressos na auspiciosa carreira de bicheiro, “Uma verdadeira mina!”, proclamava entre duas risotas velhacas e apostava todo o salário na borboleta. Perseguiu-a até a morte, este bichinho tão poético.

Tia Jane (também morta poucos meses antes de mamãe – a alienação pessoal, o parasitismo e a simbiose familiares e Hollywood são fatais a longo prazo) seria a eterna Miss Cinelândia, por incríveis sistemas paramnésicos, a Jane, namorada do Tarzan, ou Glória Grahame, amante de Lee Marvin, o gangster que lhe atira ácido na face. Ela e Marjorie eram mulheres mais fatais a si próprias, fatias em carne e osso do produto ao avesso do sonho americano, do grande engano acalentado na penumbra das salas de projeção cheias de pulgas de terceira classe, as mesmas que, mais tarde, estariam picando e sugando por baixo da colcha chinesa de péssimo gosto, após o intervalo esquecido do amor entre aquele sonho e este aqui, mais próximo, feito de lençóis gosmentos e mau-hálito, racionalizando o esquecimento dos intervalos espúrios do amor, porque a vida realmente não era tão cor-de-rosa.

Em 1947, o verdadeiro nome do amor vinha impresso em letras douradas, assumia as formas ovais e oblongas das caixas de bombom, brilhava nos créditos e títulos na marquise do cine Marrocos anunciando E O Vento Levou, nos vestidos e toaletes, absurdas simbioses de cortinas velhas, retalhos de sofá e mosquiteiros. Se a invenção é filha da necessidade, em 1947 o pai era Daryl Zannuck.

E a juventude, os bolinhos do entardecer, os tipos mal-encarados, os bondes, as longas filas do pão e novamente os bondes, as matinês dançantes, as novelas da rádio São Paulo. Vivien: cabeça cheia de sonhos, pés plantados na realidade. Ao acordar, lavava o rosto com sabão amarelo espiando pela vidraça o atordoante, fuliginoso casario sob um céu de filme polonês amanhecendo por entre nuvens sujas. Tinha apenas um casaco e um par de sapatos de cor indefinida mas, ao sair, os cabelos ruivos adejavam no espelho do porta-chapéus, deixando um rastro de fagulhas elétricas, um perfume de madressilvas. E tinha dezoito anos. O bastante para ser feliz.

Na realidade, Vivien era filha do vicio com a inconsciência, mas a Álvaro isto importou-lhe um corno: fora definitivamente fisgado. Jovem, ingênuo, o popular “malandro bobo” (imagine-se, ganhou dinheiro vendendo “bônus de guerra”, que Lista de Schindler resiste a isto?) – boêmio demais para se importar, casou-se num pincho.

- Aqui, te cai como uma luva! Max apoiou o livro no ombro do irmão – a diferença entre romântico e sentimental, citou: “Sentimental é aquele que pensa que as coisas duram, romântico é aquele que espera, contra toda a esperança, que as coisas não durem.”, Scott Fitzgerald, fechou o livro.

- Quero que conheça Vivien. Com Lineu, o mais velho, casado, papai morto, você é agora o chefe da família, disse Álvaro. – E não faça essa cara, você terá que amansar a velha: estou apaixonado, Max.

- Vivien! A neta duma cadela irlandesa que abandonou as crias para que o diabo as carregasse! praguejou Teresa.

- Vivien irlandesa? Visto que fugiu com um soldado da cavalaria, a avó só podia ser cigana! disse  Liris, a irmã.

- Vivien, uma ruiva meio vampiresca, pai jogador. E bicheiro, piscou a outra, Laís (as irmãs de Álvaro não eram nada bobas. A isto se chama bom senso, preconceitos de classe incluídos).  Lé com lé, cré com cré, coisas do gênero.

- Vivien: pai jogador, avó cigana, agora você caprichou, mano! riu, Lineu, congratulando-se intimamente com a burrice de Álvaro.

- Vivien: a mulher mais bela do Trianon, disse Max, a título de consolo – realmente, ele caprichou: você vai se foder, meu querido.

- Vivien, encantado, Álvaro.

Vivien, minha mãe.

(fim da primeira parte, continua na próxima coluna)

Sobre o autor

Márcia Denser 
A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos do colunista Márcia Denser.

Publicado originalmente no "congressoemfoco".

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Opinião

O novo-rico e o FMI

O Estado de S.Paulo
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, aproveitou a visita da diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, para mais um comentário digno de um novo-rico emergente: "É uma satisfação que desta vez o FMI não tenha vindo para dar dinheiro ao Brasil, mas para pedir dinheiro". Ele fez o comentário no fim de uma entrevista coletiva, em Brasília, ao lado da visitante. Ela já estava sem o fone usado para ouvir a tradução simultânea e talvez não tenha notado as palavras de seu anfitrião. Se notou, preferiu silenciar.

A possível participação brasileira no reforço de caixa do FMI foi discutida nas conversas da diretora-gerente com o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e a presidente Dilma Rousseff. Não houve notícia oficial sobre o assunto, mas o governo, segundo fontes qualificadas, estuda uma contribuição na faixa de US$ 10 bilhões a US$ 15 bilhões.

O Brasil se comprometeu recentemente com o esquema de captação de recursos conhecido como New Arrangements to Borrow (NAB), criado depois da crise mexicana de 1995. Por esse esquema, o FMI fica autorizado, em situações de emergência, a sacar determinados valores dos países contribuintes - um acerto parecido com o dos cheques especiais. Formado inicialmente por poucos países, na maior parte desenvolvidos, o grupo foi ampliado a partir de negociações iniciadas em 2009 e hoje inclui 40 participantes. Só uma vez o esquema foi acionado para socorrer um país - o Brasil, em 1998.

Participar de arranjos desse tipo é geralmente um sinal de maturidade financeira. Países capazes de assumir responsabilidades e papéis importantes na vida internacional normalmente o fazem sem bravatas e sem exibicionismo. Bem antes do Brasil, o Chile integrou o NAB, por meio de seu banco central, e seu governo jamais alardeou isso. As autoridades da China e da Rússia, habituadas há muito mais tempo a posições importantes - e com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas -, são em geral discretas e não costumam chamar a atenção para a sua importância.

Além disso, russos e chineses normalmente agem e negociam invocando em primeiro lugar seus interesses nacionais. Muito raramente falam em nome dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) e é ainda menos frequente aparecerem como porta-bandeiras dos emergentes ou das economias em desenvolvimento. Autoridades chinesas, indianas e russas não costumam aparecer no noticiário condicionando esta ou aquela ação a consultas prévias a seus parceiros de acrônimo - porque os Bric são, antes de tudo, um acrônimo e muito raramente agem como bloco.

O ministro Guido Mantega, no entanto, costuma agir como se os quatro países - ou cinco, se a agregação da África do Sul for levada a sério - tivessem muitos interesses comuns e formassem uma frente unida nos grandes foros internacionais. Por isso, segundo o ministro, a contribuição brasileira só será definida depois de uma confabulação do grupo.

Com isso, o governo brasileiro mostra-se incapaz de resolver por si se o País é suficientemente importante para assumir um papel de mais peso no combate a uma das maiores crises de todos os tempos. Mostra-se incapaz, igualmente, de expor suas condições para participar.

Mas os membros do Bric têm obviamente poucos objetivos comuns, como comprova - entre muitos outros fatos - a insistência chinesa em manter sua moeda subvalorizada. Além disso, o governo chinês aliou-se ao americano para impedir a inclusão de um debate sobre o câmbio na próxima reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio. O Brasil havia proposto o tema.

Lagarde conhece as enormes diferenças entre os interesses dos Bric, mas não comenta a posição brasileira. Prefere elogiar a política do governo e apontar o País como um dos mais preparados para enfrentar a crise, por suas condições fiscais, pela solidez de seu sistema financeiro e pelo volume de reservas. Também não faz bravatas. O objetivo do FMI, disse ela em São Paulo, é obter resultados e não visibilidade. Por isso, explicou, boa parte de seu trabalho é feita nos bastidores. Isso inclui as negociações com os europeus.



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Manchetes do dia

Sábado, 03 / 12 / 2011

Folha de São Paulo
"Desde 2001, só 1 multa por poluição de óleo foi paga" 

Entre 2001 e 2011, o Ibama fez atuações de R$ 57 milhões e recebeu R$ 200 mil
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Desde 2001, O Ibama lavrou 93 multas decorrentes de poluição por petróleo, mas apenas uma delas foi paga. O total das autuações chegou a R$ 57,3 milhões; o valor recebido, R$ 200 mil. As outras 92, todas de empresas do grupo Petrobras, estão na Justiça; dessas, 4 foram depositadas em juízo.

O Estado de São Paulo
"Merkel quer refundação da UE e união fiscal rigorosa"

Chanceler alemã e Sarkozy discutirão plano que prevê expulsão de país que desrespeitar equilíbrio

A presidente Dilma Rousseff desmoralizou ontem a Comissão de Ética Pública da Presidência ao não aceitar de pronto a recomendação, feita anteontem, de demissão do minisA chanceler alemã, Angela Merkel, propôs ontem um novo tratado de integração e a criação de uma união fiscal como forma de solucionar a crise do euro. Ela quer maior controle de Bruxelas sobre as contas dos países que usam a moeda e mecanismos rápidos para punir e até expulsar governos que desrespeitem a lei do equilíbrio fiscal. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, já havia indicado na quinta-feira que ele e Merkel tinham planos para refundar a União Europeia e que começariam a debater medidas efetivas na segunda-feira. A meta é ter um acordo até o dia 9, para apresentá-lo na cúpula da UE. Os mercados comemoraram a iniciativa e terminaram a semana com a maior taxa de ganho desde a eclosão da crise, em 2008.tro do Trabalho, Carlos Lupi, suspeito de irregularidades. Irritada com a “faca no pescoço”, Dilma desafiou o colegiado a demonstrar as razões que embasaram a decisão e abriu crise com o órgão do Planalto incumbido de avaliar casos envolvendo integrantes do governo. Ao garantir sobrevida a Lupi, a presidente, segundo assessores, ganha tempo para restabelecer sua autoridade e preparar a mudança no Trabalho, em poder do PDT, mas cobiçado pelo PT. A cúpula pedetista avalia que a insistência de Lupi, que ontem deu explicações a Dilma, em se manter no cargo está atrapalhando os planos do partido.

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sexta-feira, dezembro 02, 2011

Vida...

Ubatuba em foco

Conforme previsto...

Sidney Borges
"Eduardo Cesar deve voltar. A liminar que o afastou não é definitiva. O retorno dar-se-á em uma semana, duas, um mês, ou em algumas horas". (aqui)

A volta dos que não foram deu-se em algumas horas. Bingo! O julgamento do mérito fica pras calendas gregas. O resultado será conhecido um dia. Arrisco dizer: um dia bem distante...

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Pizza. De tainha...

Coluna do Celsinho

Respeito

Celso de Almeida Jr.
Lamentei o afastamento do prefeito.

Eu o apoiei na última eleição.

Tive a esperança de que a sua juventude e o seu entusiasmo contribuíssem para avanços em muitos setores do município.

Na ocasião, observando os primeiros momentos, alertei publicamente para que adotasse uma atitude construtiva com as várias correntes políticas ubatubenses.

Nossas carências exigem unir forças para superar desafios, compartilhar relacionamentos, buscar apoios, verbas, investimentos.

Com minhas manifestações, infelizmente, colhi do governo raivosos ataques, ofensas e pressões de toda ordem, explicitando a ausência de respeito; inviabilizando um debate civilizado.

Agora, nesta hora crítica, insisto que rever atitudes e serenar os ânimos são posturas que continuam representando um bom caminho.

Talvez, até, sejam as únicas opções para garantir um final de mandato menos traumático.

A conferir.

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Opinião

O PT e os seus bons advogados

João Mellão Neto - O Estado de S.Paulo
Tem sido uma preocupação do PT o tal do controle "social" da mídia. Principalmente da ala do partido ligada a José Dirceu. Isso lembra um pouco o início da revolução comunista na Rússia. Todo o pessoal que fez a Revolução de Outubro de 1917 estava convicto de que a convivência do comunismo com a liberdade de opinião seria impossível. Embora tanto o ideólogo - Karl Marx - como os ativistas - Lenin e Trotsky - se tenham valido dos jornais para divulgar as suas ideias, não confiavam neles.

"A imprensa serve aos interesses burgueses", argumentaria Antonio Gramsci alguns anos depois. Ela serve aos interesses de seus proprietários e cuidará sempre de passar ao povo, como notícias, aquilo que nada mais é do que a versão que importa aos patrões. As massas serão sempre retratadas como volúveis e perigosas turbas. As vozes burguesas serão sempre sensatas e ponderadas, enquanto as revolucionárias serão apresentadas como radicais e irresponsáveis. Daí a concluir que, a bem da revolução, a imprensa deve ser controlada é apenas um passo.

O PT, que nasceu de uma insólita aliança entre padres progressistas, sindicalistas exacerbados e intelectuais de esquerda, apesar de se preocupar, hoje em dia, apenas com a manutenção do imenso poder que amealhou, de quando em quando ainda se dá ao trabalho de dar uma satisfação ao pessoal antigo - aquele que ainda leva ideologia a sério. A luta a ser empreendida, agora, é contra os excessos que vêm sendo cometidos pela grande mídia.

Tática antiga, eles evitam bater de frente com o sagrado direito à informação, algo que até o mais ferrenho dos petistas respeita. O que é pedido à militância e à opinião pública em geral é que se proceda a uma análise desapaixonada da questão.

Será que, aqui, no Brasil, com essa imprensa que temos, o povo está sendo bem informado? Segundo eles, tudo é controlado por não mais que meia dúzia de organizações de comunicação: a Rede Globo de Televisão, a revista Veja, jornais conservadores como O Estado de S. Paulo e a Folha de S.Paulo e alguns mais são chamados pelos blogs petistas de "PIG", o Partido da Imprensa Golpista.

Golpista por quê? Por acaso algum desses órgãos de imprensa ousou tramar um golpe de Estado contra o legítimo e democrático governo do PT? Segundo os petistas, a resposta é sim. Todos eles, em comum acordo, passaram ao povo, em 2005, a falsa impressão de que teria existido um esquema de pagamento mensal, em dinheiro, aos parlamentares que se dispusessem a votar favoravelmente aos interesses do governo. Esse fato, caso comprovado, subverteria de vez todo e qualquer vestígio de respeito às regras do jogo democrático. Lula, o metalúrgico, seria capaz de tamanha sordidez? O ex-presidente jura que não. Mas seu então todo-poderoso chefe da Casa Civil, José Dirceu, leva todo o jeito de que sim: ele, sim, se disporia a fazer esse tipo de trabalho.

Dirceu, em função da malvada campanha que a "grande mídia" empreendeu contra ele, foi obrigado a renunciar ao cargo no Executivo. No momento seguinte, foi a própria Câmara dos Deputados que lhe cassou o mandato parlamentar e o condenou a oito longos anos sem direitos políticos. Como é que ele faz, agora, para viver? Simples: tornou-se um bem-sucedido consultor de empresas, às quais vende as suas evidentes qualificações, adquiridas nas suas experiências no centro do poder. Administra também um blog, no qual apresenta as características de um guerrilheiro, que nunca foi, e de um "injustiçado", que parece nunca ter sido.

Se houve ou não o tal do "mensalão", a decisão, agora, está nas mãos do Supremo Tribunal Federal (STF), no qual estão enredados o próprio Dirceu e mais 39 supostos membros do esquema. Os acontecimentos, por enquanto, têm sido desfavoráveis ao romântico "bandoleiro". O STF acolheu a denúncia contra o esquema e o procurador-geral da República já apresentou o seu parecer, no qual pede a condenação dos réus e põe Dirceu na condição de "chefe da quadrilha". O julgamento está para ocorrer no ano que vem.

O "mensalão" nunca existiu? Essa é a linha de defesa apresentada pelo PT à opinião pública. Não poderia ser de outra forma. Admitir a existência do esquema e, ao mesmo tempo, isentar figurões do partido é tarefa impossível. Por essa razão o melhor a fazer é dizer que tudo não passou de uma grande armação da grande imprensa. A qual deve ser submetida a algum tipo de "controle social", para que não venha, no futuro, a cometer semelhantes barbaridades.

Mas se o esquema nunca existiu, por que havia tantos políticos na folha de pagamento do "carequinha" Marcos Valério? Ora, alegam os petistas, tudo não passou de um ajuste de contas entre os parlamentares, para o qual foram utilizados "recursos não contabilizados" de campanha. Isso parece mais uma bela história criada por advogados do que uma tradução fiel da realidade.

Já tivemos oportunidade de tratar desse tema em artigo anterior - Manual da picaretagem intelectual (9/9). Para quem não o leu, trata-se de um ensaio baseado em obra postumamente publicada do filósofo Arthur Schopenhauer, a qual recebeu o sugestivo título Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão. Uma de nossas advertências era a seguinte: não acredite em histórias perfeitas, daquelas que têm explicação para tudo. A realidade não produz enredos perfeitos. Os que existem não passam de elaborações humanas.

Os advogados são pagos para isso. Para produzir bons enredos que expliquem o inexplicável. Os causídicos eficientes são aqueles que não se impressionam com o fato de Cristo ter ressuscitado os mortos. Afinal, quando querem, eles também conseguem fazer isso. O que eles não entendem, mesmo, é por que o Altíssimo nunca mandou a conta.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 02 / 12 / 2011

Folha de São Paulo
"Crise faz governo acelerar pacote para ativar economia" 

Planalto reduz impostos sobre consumo e tenta criar condições para o país voltar a crescer em 2012
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Com o agravamento da crise externa e temendo forte desaceleração em 2012, o governo Dilma anunciou ontem um pacote de redução de tributos. O objetivo foi se antecipar ao PIB ruim, que será divulgado na terça, e conter o clima de desânimo. Entre as medidas apresentadas estão a redução do IPI sobre eletrodomésticos da linha branca (fogão, geladeira, máquina de lavar), do PIS/Cofins sobre massas e do IOF em financiamentos a pessoa física e aplicações de estrangeiros na Bolsa.

O Estado de São Paulo
"Dilma desafia Comissão de Ética e Lupi é mantido"

Presidente se sentiu afrontada, cobra explicações e tenta ganhar tempo para restabelecer sua autoridade

A presidente Dilma Rousseff desmoralizou ontem a Comissão de Ética Pública da Presidência ao não aceitar de pronto a recomendação, feita anteontem, de demissão do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, suspeito de irregularidades. Irritada com a “faca no pescoço”, Dilma desafiou o colegiado a demonstrar as razões que embasaram a decisão e abriu crise com o órgão do Planalto incumbido de avaliar casos envolvendo integrantes do governo. Ao garantir sobrevida a Lupi, a presidente, segundo assessores, ganha tempo para restabelecer sua autoridade e preparar a mudança no Trabalho, em poder do PDT, mas cobiçado pelo PT. A cúpula pedetista avalia que a insistência de Lupi, que ontem deu explicações a Dilma, em se manter no cargo está atrapalhando os planos do partido.

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quinta-feira, dezembro 01, 2011

Pausa para os comerciais...


Dois amigos se encontram:

- Você não ia?
- Ia.
- E já voltou? 
- Já. 
- Mas como?
- Pela Real...

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Corações ao alto!

Brasil

Parece eterno

Blog do Alon
O brasileiro tem problemas para pagar as dívidas porque elas custam muito caro. E não é que elas custem caro pela dificuldade de cobrá-las. Aqui, sabe-se com precisão que a galinha nasceu antes do ovo. O sujeito fica inadimplente tentando pagar a dívida, e não porque tentou escapar dela

O Comitê de Política Monetária está reunido para analisar e decidir mais um corte no juro básico, a taxa que o governo paga a quem lhe empresta dinheiro.

É algo mais complicado que isso, mas simplificar não chega a ser crime capital. Como ensinam os grandes líderes, o primeiro passo para tentar explicar a realidade é buscar simplificá-la.

O Copom vem num bom momento, por ter vencido o cabo de guerra contra quem meses atrás criticou a decisão de começar a baixar radicalmente o juro básico, mesmo com a inflação inquieta.

Deu certo. A inflação anda razoavelmente comportada, no teto da meta. Que foi aliás o prometido pelo Banco Central.

As projeções para 2012 continuam aquecidas, é verdade, mas até o fim do ano que vem o BC tem margem para manobrar. Pois a promessa do BC é que o ritmo dos preços convergirá daqui a doze meses para 4,5%.

Mesmo num país desmemoriado, como o nosso, é promessa com boa chance de ser cobrada.

A antecipação do BC e do governo evitou que a mediocridade econômica, uma provável marca registrada deste quadriênio,  virasse estagnação instantânea.

E o governo Dilma Rousseff ganhou espaço operacional para pelo menos apresentar resultados não nulos nesse campo. Politicamente será um ativo.

Para uma nação que abandonou o desenvolvimentismo e agora faz o jogo do contente, 3% pode até ser apresentado como trunfo.

O governo Dilma beneficia-se de sermos um país com baixas expectativas. Aceitamos, por exemplo, e bovinamente, que o limiar da classe média fique num nível baixo, e daí festejamos o ingresso de milhões nessa mesma classe média.

Por falar em juros, e não é a primeira vez que escrevo aqui, impressiona a nossa passividade diante das taxas cobradas do investidor e do consumidor. Com a notável exceção de quem tem acesso ao subsidiado.

Isso explica em parte. O Brasil pratica um juro para quem tem poder e outro para quem não tem. E sobra a estes últimos reclamar, sem o mesmo impacto que haveria caso os primeiros estivessem no barco.

O juro extorsivo já recebeu diversas explicações entre nós. Disseram que a coisa melhoraria com a introdução de novos mecanismos legais, como a lei de falências e o cadastro positivo. Aguardam-se os resultados. E convém esperar em posição confortável.

Outro mantra diz que o brasileiro paga muito juro pois é muito inadimplente. Mas ninguém prova que somos mais caloteiros, na comparação. Eu aposto que é o contrário. O brasileiro tem problemas para pagar as dívidas porque elas custam muito caro.

E não é que elas custem caro pela dificuldade de cobrá-las. Aqui, sabe-se com precisão que a galinha nasceu antes do ovo. O sujeito fica inadimplente tentando pagar a dívida, e não porque tentou escapar dela.

É uma encrenca resistente. Parece insolúvel. Só parece, pois outros povos já a resolveram. Mas aqui prefere-se o esconde-esconde. Finge-se que tudo vai bem. A espoliação financeira é apresentada como um dado da natureza.

Como o sol que nasce e se põe todo dia.

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Opinião

Caro leitor, você é cliente ou produto?

Eugênio Bucci - O Estado de S.Paulo
Que a pergunta acima não lhe soe agressiva. Só o que ela pretende é indagar sobre a natureza da relação que cada um de nós mantém com os veículos que nos trazem informações jornalísticas todos os dias. Alguns são aparentemente gratuitos, como as emissoras de televisão aberta. Por outros é preciso pagar uma assinatura ou o preço do exemplar, tanto faz se esse exemplar chegue até nós pelo correio, pelas bancas ou pelos chamados tablets, como o iPad. O cenário é suficientemente óbvio: às vezes, a gente paga pelo que lê; outras vezes, não.

Acontece que a gratuidade é mera aparência, ela de fato não existe. Quando a gente não paga nada em dinheiro, paga em olhar. É aí que, em vez de cliente, a gente vira produto.

Pensemos na televisão comercial de sinal aberto. Ela tem um modelo de negócio bastante conhecido: o que a sustenta é a receita de publicidade. A mercadoria essencial do negócio da televisão aberta é o tempo da programação que vende aos anunciantes. Em termos menos abstratos, o que ela comercializa, no fundo, é o olhar de seu público. Seu negócio é atrair olhar - em bom número e de algum poder aquisitivo - para depois vendê-lo aos anunciantes.

Nada de indigno nesse modelo, que é legítimo, legal e democrático. Apenas uma observação: nele o cliente é o anunciante; quanto a nós, o público, bem, somos o produto, somos aquilo que é vendido. Em troca da programação que recebemos da TV, nós a remuneramos com o tempo do nosso olhar que dedicamos aos filmetes de publicidade. Trata-se de um escambo consentido e consagrado. Tudo bem. Assim tem funcionado, de modo eficiente e lucrativo, ao menos até hoje.

Pensemos agora na relação de troca que você mantém com este jornal. A resposta é relativamente simples, embora híbrida. Aqui, você, leitor, é cliente, pois o exemplar que você tem agora nas mãos é pago. Ao mesmo tempo, você é produto, pois há publicidade à sua espera logo ali adiante, nas páginas mais à frente. Esses anunciantes pagaram para ter acesso aos seus olhos, para ter um ou dois segundos da sua atenção. Eles esperam que você, ao tomar conhecimento do que eles estão divulgando, compre algum serviço, alguma coisa. Claro, você tem absoluta consciência da expectativa deles. Estamos, então, falando de um jogo limpo, transparente.

Com a internet as coisas já não são tão claras. Os modelos de negócio que há décadas estavam consolidados nos meios de comunicação convencionais foram transpostos para a web, embaralhando quase tudo. Há fórmulas em que o leitor ou espectador (que alguns chamam de "internauta") precisa desembolsar seus trocados para ter acesso às notícias, aos vídeos ou aos textos (a que chamam "conteúdo"). Em outras fórmulas a gratuidade aparente prevalece - e aí, também, a publicidade paga ou pagará a conta, ainda que de forma indireta. E então? Que fórmula vai prevalecer na era digital?

Se para todos os cidadãos a interrogação é pertinente, para os jornalistas é crucial, para não dizer excruciante. De que modo a imprensa se deve relacionar com o público? Deve tratá-lo como produto ou como cliente? Se as fórmulas híbridas vão prosseguir, qual o estatuto de cada um desses dois componentes? O público, para a instituição da imprensa, deve ser visto antes como cliente ou como produto? Diante disso, os jornalistas são agregadores de olhar que depois será comercializado? Ou eles devem antes buscar a sua sustentação fundamental na remuneração - em dinheiro - que vem do público?

O que vai ficando claro, ao menos até aqui, é que, se o público não financiar diretamente com seu dinheiro - e não apenas com seu olhar - a atividade da imprensa, nós não teremos jornalismo independente. Não custa relembrar: jornalismo independente traduz-se em redações que não se dobram ao Estado ou aos governos, assim como não cedem aos interesses de anunciantes, de igrejas, de partidos ou de ONGs. Se os cidadãos não derem sustentação a isso, não haverá imprensa livre.

Em resumo, ainda que a receita publicitária, na imprensa, possa ter cifras mais expressivas do que a receita vinda da venda de exemplares ou de assinaturas, os modelos de negócio no jornalismo devem saber pôr os interesses do público acima - e não ao lado - dos interesses dos anunciantes. A razão para isso é econômica, política e ética.

Econômica: a receita publicitária existe para remunerar o olhar do público e, desse modo, o público, dono do olhar, é quem financia, na prática, todas as operações jornalísticas. É uma ilusão acreditar que o cliente final é o anunciante.

Política: ao dar sustentação econômica à imprensa, o público dá-lhe sustentação política, pois protege a imprensa contra poderes que são estranhos aos direitos e interesses dos cidadãos. É o público que sustenta a imprensa como o contrapoder que ela deve ser.

Ética: se o público é quem paga a conta, seja com olhar, seja com dinheiro, a ele é devido respeito, na forma de informações confiáveis e de uma atividade cujos efeitos sejam, sempre, a expansão da liberdade.

De toda forma, nada disso ainda está resolvido. Muitos erros ainda serão cometidos. A boa notícia é que a pergunta que está no título deste artigo vem ganhando corpo. A propósito, o nosso título é inspirado num cartoon que circulou recentemente nas redes sociais do Brasil. Ele mostra dois porquinhos contentes comentando que na fazenda onde moram não precisam pagar por comida nem pela hospedagem. Originalmente publicado no site Geek and Poke, o cartoon recebeu depois uma legenda anônima, com uma crítica direta contra o Facebook, e assim correu o mundo. Eis o que diz a legenda provocativa: "Facebook e você. Se você não está pagando para usar, você não é o cliente. Você é o produto".

Em tempos em que o jornalismo precisa se redefinir como negócio, é bom prestar atenção a isso.

Eugênio Bucci é jornalista e professor da ECA-USP e da ESPM

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 01 / 12 / 2011

Folha de São Paulo
"Lupi acumulou cargos ilegalmente" 

Ministro recebia salários do Congresso e da Prefeitura do Rio, o que é proibido; ele diz que, se for ilegal, devolverá o dinheiro
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O ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT), ocupou simultaneamente, entre dezembro de 2000 e novembro de 2005, cargos de assessor na Câmara dos Deputados e na Câmara Municipal do Rio, informam Fernando Mello e Andreza Matais. Enquanto era assessor-fantasma do PDT em Brasília, como a Folha revelou, Lupi assessorava no Rio o então vereador Sami Jorge (PDT). A lei proíbe o acúmulo remunerado de funções.

O Estado de São Paulo
"Comissão de Ética pede a Dilma que demita Lupi"

Pela primeira vez, grupo que assessora a Presidência recomenda exoneração de ministro sob suspeita

A Comissão de Ética Pública da Presidência da República sugeriu ontem a exoneração de Carlos Lupi do cargo de ministro do Trabalho. É a primeira vez que a comissão toma esse tipo de decisão. Lupi é suspeito de irregularidades envolvendo convênios firmados pela pasta com ONGs, muitas delas ligadas a integrantes do PDT, partido do ministro. De acordo com a comissão, casos de cobrança de propina no ministério não foram esclarecidos. Para os conselheiros, Lupi deu explicações insatisfatórias sobre as acusações, e suas respostas ao Congresso e à imprensa foram consideradas "inconvenientes", segundo Sepúlveda Pertence, presidente do órgão. Lupi já estava na lista de ministros que serão trocados na reforma programada para o início do ano que vem, e a recomendação da comissão deve apressar sua saída.

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quarta-feira, novembro 30, 2011

Arte

A Sala de Jantar - Paul Signac (1887)

Imprensa

Em pedra dura

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo
Ao "presidente operário" tudo era permitido. Inclusive renegar o próprio discurso sem ser confrontado com rigor diante da contradição-mãe de chamar de herança maldita o legado do antecessor e, ao mesmo tempo, tirar dela o melhor proveito.

A partir dos tropeços do governo é que o cenário mudou. Mas não mudou no partido a ideia de exercer domínio sobre a grande imprensa, o único setor que lhe foge completamente ao controle. E é isso o que incomoda.

Por mais disfarçados que sejam os argumentos. Em artigo no jornal O Globo de ontem, o presidente do PT, Rui Falcão, lista alguns pontos que seriam alcançados pelo "marco regulatório".

Fala em "ferramentas eficazes de inclusão social e defesa da comunicação e cultura nacionais", na garantia do acesso universal à internet em banda larga, em mecanismos para "evitar que o poderio econômico dos grandes grupos de telefonia sufoque setores da mídia tradicional" e na ampliação de recursos para "grandes redes de radiodifusão pública e de telecomunicações".

Tudo muito decente. E vago. De substantivo mesmo, resta o resumo das intenções feito no seminário de sexta-feira pelo deputado cassado, réu do mensalão e dirigente do PT, José Dirceu: "Os proprietários de veículos de comunicação são contra nós, fazem campanha dia e noite contra nós. Só lamento que não haja um jornal de esquerda, que seja a favor do governo".

Há de todos os matizes no País todo: de esquerda, de direita, sem orientação, nos blogs, nos sites. Não falta espaço de comunicação em defesa do governo.

Mas há também os que exercem a crítica, e ao PT e sua pretensão à hegemonia desconforta essa convivência com o contraditório. Daí a insistência.

Vai levando. Crua e resumidamente, prevalece a seguinte visão no governo sobre o efeito das denúncias de corrupção na popularidade da presidente: enquanto a interpretação geral for a de que as demissões significam que Dilma é implacável, não há necessidade de bancar o risco de confrontação com a base mudando os critérios de ocupação de espaços.

E prossegue o raciocínio: como o noticiário de rádio e televisão favorece a essa conclusão, pois não se aprofunda na análise de que a presidente só demitiu por impossibilidade de não demitir, há margem para esticar a corda e evitar novas demissões.

Até que a reforma ministerial renove a imagem de uma Dilma ativa - e não reativa - face às deformações de origem nos critérios de composição da equipe de governo.

Resumo da ópera: quanto menos as pessoas alimentarem o hábito da leitura e quanto mais continuarem a se informar por meios cuja própria natureza remete à informação menos elaborada e desprovida de interpretação, melhor para o governo.

Embora seja bem pior para o desenvolvimento da massa crítica, sem a qual não se faz uma sociedade capaz de dialogar de igual para igual com o poder público.

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Opinião

Dois anos ruins

O Estado de S.Paulo - Editorial
O Brasil deve preparar-se para pelo menos mais dois anos de estagnação no mundo rico, aperto no mercado financeiro e comércio internacional em marcha lenta. Para atenuar o impacto da crise, o governo terá de ir além da redução dos juros básicos. Precisará conter seus gastos de custeio, cortar impostos e dar espaço ao setor privado - consumidores e empresas - para manter um ritmo razoável de atividade sem pressionar a inflação nem abrir um buraco perigoso nas contas externas. As previsões de uma fase mais difícil foram reforçadas pelas novas estimativas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), formada por 34 dos países mais desenvolvidos. As economias desses países crescerão em média apenas 1,6% em 2012 e 2,3% em 2013. Neste ano a expansão não deve passar de 1,9%. O crescimento do comércio mundial deve passar de 6,7% em 2011 para apenas 4,8% no próximo ano. Em seguida haverá uma retomada, com aumento de 7,1%. As condições de concorrência em todos os mercados serão quase certamente muito mais duras em todo esse período.

Mas a realidade poderá ser pior que o cenário desenhado pelos economistas da OCDE. Se os governos europeus continuarem retardando uma solução para a crise das dívidas soberanas, nem as maiores economias da região ficarão livres de dificuldades muito graves. Um sinal de alerta soou na semana passada, quando o governo alemão só conseguiu vender, num leilão, 65% dos títulos oferecidos ao mercado. Além disso, também no Reino Unido a situação é pior do que se previa até há pouco tempo. O Ministério das Finanças cortou de 1,7% para 0,9% a estimativa de crescimento neste ano e de 2,5% para 0,7% a expansão projetada para 2012. Além disso, até 2015 o governo precisará obter financiamentos de 111 bilhões de libras a mais do que se calculava anteriormente.

Os Estados Unidos, também com grandes problemas fiscais, ainda crescerão bem mais do que a Europa e o Japão nos próximos dois anos, segundo a OCDE. Pelas novas contas, o crescimento americano passará de 1,7% neste ano para 2% em 2012 e 2,5% em 2013. Para a zona do euro, os números estimados são 1,6%, 0,2% e 1,4%. O Japão deverá sair de uma contração de 0,3% em 2011 para uma expansão de 2% no próximo ano e 1,6% no seguinte.

O governo americano, embora muito endividado, ainda se financia muito mais facilmente que os europeus. A demanda de ativos denominados em dólares - especialmente papéis do Tesouro - continua elevada e assim deverá permanecer por muito tempo, se não houver uma enorme surpresa. Em reunião com líderes europeus na segunda-feira, em Washington, o presidente Barack Obama declarou-se preparado para organizar alguma ajuda à Europa. No mesmo dia, a Fitch, uma das principais agências de avaliação de risco, reafirmou a nota AAA para a dívida pública americana, mas com perspectiva negativa. Apesar disso, e do rebaixamento anunciado em agosto pela Standard & Poor's, os títulos federais dos Estados Unidos permanecem como referência para o mercado mundial.

A zona do euro já está em recessão e seu Produto Interno Bruto (PIB) deve encolher 1% em termos anualizados neste trimestre, segundo a OCDE. No primeiro trimestre, deverá diminuir em ritmo equivalente a 0,4% ao ano. O desastre será menor no resto do ano e o resultado médio de 2012 será uma expansão modestíssima de 0,2%.

Enquanto a crise se agrava, líderes da zona do euro continuam promovendo reuniões, apresentando esboços de planos para reforma do bloco e adiando a adoção de soluções práticas para os desafios mais urgentes. Conseguiram aprovar o aumento do fundo europeu de resgate de 440 bilhões para 1 trilhão, mas não foram capazes de pôr em funcionamento esse mecanismo. Enquanto o quadro piora, o Banco Central Europeu continua como a única entidade regional capaz de agir para atenuar os problemas. Em suas piores fases, países latino-americanos foram capazes de apresentar resultados muito mais tangíveis em seus duros programas de ajuste supervisionados pelo Fundo Monetário Internacional.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 30/ 11 / 2011

Folha de São Paulo
"FGTS lucra mais do que instituições bancárias" 

Resultado em 2009 e 2010 superou o obtido por grandes bancos do país
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O lucro do FGTS bateu o de grandes instituições financeiras do país nos últimos dois anos. Em 2009, o ganho foi de R$ 11,4 bilhões, superando todos os grandes bancos. Em 2010, foram R$ 13 bilhões, perdendo apenas para o Itaú Unibanco, informa Sheila d'Amorim. Os motivos foram o aumento de emprego, os juros elevados e a captação de recursos a baixo custo.

O Estado de São Paulo
"Petrobras produz abaixo da meta"

Por falta de equipamentos, estatal não deve alcançar nem o piso do estimado para o ano, após não atingir seu objetivo de produção em 2010

A Petrobras não deverá atingir pelo segundo ano seguido a meta de produzir 2,1 milhões de barris de petróleo por dia em território nacional. Após fracassar em 2010 e postergar o objetivo para este ano, a estatal enfrenta dificuldades com a demora na entrega de equipamentos e por isso deixará de produzir neste ano volume equivalente a pelo menos 2,5% da oferta nacional de petróleo. A companhia, apesar de ter investido mais de R$ 50 bilhões entre janeiro e setembro, apresenta volume de produção praticamente estável em relação a 2010. Por isso, até mesmo o piso da meta, de 2,050 milhões de barris diários em média, não deverá ser alcançado, projeção que ganhou força após a divulgação dos dados de produção de outubro, na sexta-feira passada. Com a chegada de novas sondas, a Petrobras planeja acelerar o ritmo das atividades de exploração e produção e também eliminar o gargalo nos investimentos.

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terça-feira, novembro 29, 2011

E, por falar em antas...

Ubatuba em foco

Crônica de um afastamento anunciado

Sidney Borges
A liminar  deferida pelo juiz João Mário Estevam da Silva, da 1ª Vara Judicial de Ubatuba, em ação civil pública por ato de improbidade administrativa movida pelo promotor de Justiça Jaime Meira Nascimento Júnior, determinou o afastamento cautelar do prefeito municipal de Ubatuba, Eduardo de Souza Cesar, de seu chefe de Gabinete, Délcio José Sato, e do motorista da Prefeitura, Richarles Freitas.

Eles são acusados de uso da máquina pública para patrocinar interesses individuais no município. 

De acordo com a ação, o motorista foi fotografado, durante desfile no aniversário da cidade, distribuindo panfleto de propaganda pessoal do prefeito, com diversas fotos de seu chefe de Gabinete, pré-candidato nas próximas eleições municipais.

Os panfletos estavam no porta-malas de um veículo da frota municipal. Após analisar os materiais, o juiz escreveu em sua decisão que “patente se encontra o uso da máquina e de funcionários do Município para patrocinar interesses diversos daqueles do próprio Município e, pior, para patrocinar o atual gestor e seu candidato, o que viola frontalmente os princípios da legalidade e da moralidade”.

Isso que você acabou de ler é filme velho. Pertence ao passado. A dúvida que paira sobre as cabeças ubatubenses é: o que vai acontecer agora?

Eduardo Cesar deve voltar. A liminar que o afastou não é definitiva. O retorno dar-se-á em uma semana, duas, um mês, ou em algumas horas. Eu soube de um bolão com tainha laqueada para quem acertar a data da volta.

Se o retorno é quase certo, também é certo o rombo político causado pela ação da Justiça.

O prefeito não vinha bem no campo da popularidade, mas estava fazendo um trabalho de recuperação digno de nota. Esforço jogado por terra graças a um panfleto. Aliás, que panfleto!

Papel couchê 120, formato tablóide, com muitas fotos do Prefeito e do chefe de gabinete, Sato. 

Panfleto desnecessário, todos na cidade sabem quem são os dois e o que pretendem. Panfleto que é um autêntico pleonasmo gráfico. Caro e inútil. Ou melhor, útil para a oposição.

Eduardo Cesar tem agido como candidato a prefeito. Joga no personalismo, talvez antevendo concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado. Depois do afastamento vai ter de trabalhar dobrado para fazer o sucessor.

Para ser deputado é outra história. Sem a máquina da prefeitura, não digo que seja impossível, mas é tarefa de grande complexidade. Dificílima. Tão improvável quanto Gisele Bündchen, passando por Ubatuba, apaixonar-se por um conhecido cachaceiro.

E fugir com ele para Cuba.

De quem teria sido a idéia do panfleto? Jamais saberemos, mas de uma coisa tenho certeza. Não foi uma boa idéia. Muito caro...

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Hedy Lamar

Região

Promotor de últimas ações contra prefeito Eduardo Cesar irá atuar em Caraguatatuba

Saulo Gil no Imprensa Livre
O Promotor de Justiça Jaime Meira do Nascimento revelou na semana passada que deixará a comarca de Ubatuba para passar a atuar na promotoria vizinha, em Caraguatatuba. Jaime ganhou destaque na cidade no ano passado, quando logo que chegou a Ubatuba abriu ação de improbidade contra o prefeito Eduardo Cesar, por supostas irregularidades na cobrança do IPTU municipal.

Com a licença do promotor eleitoral (Dr. Percy), Dr. Jaime também participou da Ação do Conselho Tutelar do município, em função de supostas ameaças dirigidas contra uma das testemunhas do caso. As polêmicas e afastamentos envolvendo ambas as Ações fizeram com que o Ministério Público ubatubense ganhasse destaque, principalmente, no meio político da cidade.

Jaime do Nascimento ressalta que apenas cumpriu seu papel e garante que não existe nenhuma perseguição contra políticos, ou gestores em especial. “Recebi algumas denúncias que achei pertinente a investigação e isso que foi feito. O Ministério Público existe para isso: promover a justiça”, resume o membro do Ministério Público, explicando a mudança de comarca.

“Minha mudança pra Caraguatatuba tem razões pessoais e profissionais. Primeiramente, estarei mais perto da minha família, o que é fundamental. Depois, a comarca de Caraguatatuba tem chance de se tornar uma entrância final e não intermediária, como Ubatuba, o que tem bastante diferença para a formação da carreira dentro do MP”, argumenta o promotor que deseja disputar uma vaga para a Procuradoria de Justiça futuramente.

“São promoções que demandam tempo, pois funcionam por meio de listas onde os mais antigos têm prioridade. Então, como sei que há um longo caminho a percorrer, esse é mais um passo”, completa Jaime do Nascimento, fazendo um breve relato de sua passagem por Ubatuba.

“Na verdade, Ubatuba foi um lugar de grande aprendizado e sinto que cresci muito em termos profissionais e pessoais. Gostaria de deixar registrado que o relacionamento com o Poder Judiciário foi o melhor que tive na minha carreira. Os juízes aqui estão comprometidos e todos realizam um trabalho de competência na Comarca. Fico feliz de trabalhar o lado de colegas como esses, sempre muito prestativos. Não foi fácil o trabalho em Ubatuba, principalmente, sobre o ponto de visa da questão política. Trabalhar na área de defesa do patrimônio público exige cuidado. E espero que a classe política amadureça. Torço para que o trabalho recente do Ministério Público na cidade não seja apenas um divisor de águas para minha carreira, mas também para a democracia ubatubense”, completou o promotor.

Já em Caraguá, Jaime do Nascimento, estará mais distante das questões políticas. Segundo o promotor, ele deverá atuar na Vara da Infância e Juventude da cidade vizinha. A mudança está prevista para ocorrer ainda esse ano, mas aguarda a confirmação do Conselho Superior do Ministério Público.

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Opinião

Armadilhas sobre rodas

O Estado de S.Paulo - Editorial
São de arrepiar as conclusões do teste de avaliação da segurança dos automóveis populares mais vendidos no Brasil. Na maioria deles, colisões a velocidades moderadas representam um alto risco de lesões fatais para motoristas e acompanhantes, pois esses veículos não dispõem de bolsas infláveis (air bags) e suas cabines têm estrutura deficiente. Numa escala de 1 a 5, sete modelos básicos das principais montadoras em operação no País receberam a nota mais baixa. São armadilhas sobre rodas.

De acordo com a ONU, o Brasil registra em média, por ano, 19 mortes no trânsito para cada 100 mil habitantes. É um índice quatro vezes maior do que o detectado na Europa, de cerca de 5 mortes por 100 mil habitantes por ano. São vários os fatores que explicam o alto número de acidentes de trânsito registrados no País, entre os quais os efeitos da ingestão do álcool ocupam posição destacada. Também a má qualidade das pistas e a sinalização insuficiente contribuem para essas ocorrências. Mas o alto índice de letalidade tem muito a ver com a má qualidade dos veículos no que se refere à segurança das pessoas que os utilizam.

Esta é uma clara conclusão dos resultados dos testes dos veículos novos fabricados e vendidos na América Latina - onde o índice de acidentes com mortes é o mais alto do mundo - realizados pelo braço latino da New Car Assessment Programme (NCAP). Os testes de impacto a média velocidade (64 quilômetros por hora) contra uma barreira deformável, que simulam uma colisão com outro veículo, mostraram que os veículos vendidos na região são frágeis, não dispõem de itens hoje essenciais em outros países para proteger as pessoas, cujas vidas, por isso, são colocadas em risco. Esses carros estão atrasados 20 anos em relação aos modelos comercializados na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo.

A NCAP é uma organização apoiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela Federação Internacional do Automóvel (FIA) que realiza testes independentes para alertar os consumidores e os governos sobre a segurança dos modelos comercializados no país e orientar os fabricantes, desde que estes estejam dispostos a receber orientações desse tipo.

No Brasil, eles resistem. Já no ano passado, a Anfavea, associação que representa as montadoras instaladas no País, disse que os veículos aqui fabricados atendem às especificações legais e, por isso, seus fabricantes nada tinham a comentar sobre os resultados dos testes da NCAP. Repetiram a resposta neste ano. De fato, a despeito de colocarem em risco a vida de seus usuários, os veículos comercializados no mercado interno respeitam as regras do governo.

Essas regras têm sido muito favoráveis às montadoras, desde que elas começaram a se instalar no País, na metade do século passado. Nos últimos anos, elas ganharam apoio explícito dos governos do PT, pois, na década de 1980, o partido deu seus primeiros passos na região onde se concentravam as montadoras e onde, não por acaso, surgiu politicamente sua figura mais popular, o ex-presidente Lula.

Desde essa época, em várias ocasiões, interesses do PT e das montadoras se confundiram. O episódio mais recente ocorreu em setembro, com a escandalosa proteção dada a elas, mediante a imposição de alíquota de 30% do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) aos veículos importados fora do Mercosul e do México. Assim protegidas, e agindo como uma espécie de "oligopólio consentido", as indústrias têm assegurada uma imensa fatia do mercado doméstico. Desse modo, impõem preços muito altos - mesmo descontados os impostos, que são muito pesados, os carros brasileiros chegam a custar o dobro do modelo equivalente vendido nos Estados Unidos - e amealham grandes lucros. De acordo com publicações especializadas do mercado de automóveis, nos oito primeiros meses deste ano, elas remeteram para suas matrizes no exterior cerca de US$ 4 bilhões como pagamento de lucros e dividendos. É o setor que mais remete lucros para o exterior.

Mas elas quase nada investem em tecnologia e, sobretudo, em segurança dos veículos. O resultado não poderia ser diferente daquele constatado pela NCAP.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 29/ 11 / 2011

Folha de São Paulo
"Servidor em função de risco vai poder se aposentar antes" 

Governo cede à pressão de aliados e cria regime especial para funcionários de carreiras perigosas
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Para aprovar o novo modelo previdenciário do funcionalismo, o governo de Dilma Rousseff cedeu a pressões de PT e PDT e vai criar regime de aposentadoria especial, com redução do tempo de serviço, para servidores cujas funções coloquem sob risco a saúde. Entram na definição policiais federais, rodoviários e médicos que atuam em fronteira. Não há estimativa de quantos são esses servidores, mas só a PF, por exemplo, tem 14 mil agentes.

O Estado de São Paulo
"ONU acusa ditador sírio de crime contra humanidade"

Investigação indica tortura e morte inclusive de crianças e amplia isolamento do regime de Assad

Uma investigação da ONU liderada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro concluiu que o governo de Bashar Assad na Síria cometeu “crimes contra a humanidade" ao reprimir manifestantes desarmados, com tortura e assassinatos em estádios, escolas e hospitais. Em uma mobilização para isolar ainda mais Assad e minar a posição de China e Rússia, americanos e a União Europeia querem agora a condenação do regime e que Assad seja julgado pelos crimes revelados ontem. Segundo Pinheiro, não resta dúvida de que torturas, violações sexuais, mortes e desaparecimentos de milhares de pessoas inclusive de crianças, foram ordenados pelo alto escalão do governo sírio. Mais de 4 mil pessoas foram mortas desde o início do levante, em fevereiro. A investigação da ONU mostra ainda que é crescente a deserção de militares no país.

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