sábado, novembro 05, 2011

Economia da Grécia

Colunistas

Rock Book: quando o nome do jogo é literatura

"A absoluta ausência de ilusões, de auto-engano, é o que caracteriza – ou deveria caracterizar – a postura do escritor"

Márcia Denser
Coletâneas temáticas têm sido uma constante nos anos 2000 – vide todas aquelas lançadas pela Nova Alexandria, editor Luiz Baggio (sobre os Imigrantes, os Apóstolos, os Dez Mandamentos, os Signos, etc.etc.etc.), aliás como “temático” – parques temáticos, bibliotecas temáticas –  tem sido quase tudo sob a cobertura geral da pós-modernidade na linha do fake, do simulacro e do revival. Na falta do original, sob todos os aspectos.

Porque o espírito mercantilista coopta tudo o que se pensa, sente, faz e produz artísticamente, e transforma tudo em merda na velocidade da luz.

Tudo isso pra falar da coletânea lançada agora na praça, Rock Book – contos da era da guitarra (S.Paulo, Editora Prumo, 2011), com a participação de vinte autores (nesta ordem: Márcia Denser, Alex Antunes, André Sant’Anna, Nelson de Oliveira, Luiz Roberto Guedes, Carol Zoccoli & Cláudio Bizzotto, Danislau, Ivan Hegen, Tony Monti, Glauco Mattoso, Andréa Catropa, Mário Bortolotto, Abílio Godoy, Carol Besimon, Cadão Volpato, Xico Sá, Antonio V.S.Pietroforte, Sérgio Fantini, Andréa Del Fuego e Fernando Bonassi) cujo tema é o rock – ou as marcas que o rock, como música e modo de vida, imprimiu na sociedade brasileira. Ou a instauração da cultura de mercado na sociedade brasileira. Ou – como diria meu amigo e crítico Ítalo Moriconi – o processo de “popização” da sociedade brasileira. Algo que ocorreu entre aos anos 60 e meados de 80 (e permanece até hoje sob novas formas), aproximadamente, sei lá, minha cronologia não é rigorosa, nem a especialidade é a música.

Tudo bem, que o tema seja o rock, mas o nome do jogo continua sendo literatura e não show-biz, pois é sob o prisma literário que livros são avaliados.

Criticamente, há duas questões elementares a considerar: 1) coletâneas literárias são fatais sob determinado ponto de vista: os contos são lidos por comparação, logo os melhores ressaltam de imediato, mandando os mais fracos para o espaço. Sorry, mas é isso aí – a lei do mais forte e não tem conversa; 2) coletâneas literárias falham (ou não) inapelavelmente  pelas ausências –  obras e autores obrigatórios mas que inexplicavelmente NÃO ESTÃO LÁ. A exemplo de Clarah Averbuck, Caio F., Leminsky, Roberto Piva, o próprio Arnaldo Antunes – só pra citar os mais óbvios. Isto é, os que NÃO ESTÃO neste Rock Book.

Portanto, de acordo com meus critérios, há três grandes contos neste livro: A história do rock de André Sant’Anna, Miss Tattoo de Luiz Roberto Guedes e o meu, Hell’s Angel (pra eximir o auto-elogio, ele consta em 6º lugar nos anos 80 entre os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século e entre as Cem Melhores Histórias Eróticas Universais). Prefiro não explicar porque são os melhores, deixando ao leitor o julgamento. Uma dica: conquanto completamente diferentes entre si, cada um é extremamente bem realizado, perfeito como texto literário. Outra: o organizador Ivan Hegen teve bons motivos pra botar meu texto abrindo o livro, bem como os de André Sant’Anna e Luiz Roberto Guedes igualmente entre os primeiros – é o mesmo critério do lead em jornalismo.

Num outro plano e por outras razões, secundariamente , escolho também Fenômeno Fenomenal, de Nelson de Oliveira, pela proposta experimental mixando imagem e texto; Nove Canções, de Fernando Bonassi, pela competência e rigor dum estilo já consagrado (um bom texto fechando a obra, e novamente aí entraram acertadamente os critérios do organizador); Rock Suicídio, de Carol Zoccoli e Cláudio Bizzotto, um texto a duas mãos bastante eficiente.

E A good woman is hard to find, de Mário Bortolotto, autor do parágrafo que poderia definir o rock – e muitas coisas mais – ontem, hoje e amanhã no Brasil: "Eu tinha cinquenta anos. E a maioria dos roqueiros que eu admirava já estava na casa dos setenta. Eu era um moleque perto deles. Bem, mas eles tinham inventado o rock and roll. Eu era só mais um diluidor. Alguém se aproveitando do que a maré trazia para a praia. Me senti uma farsa. Mas sempre imaginei o rock como uma farsa. The Great Rock’n Roll Swindle, né? Por isso andava com a camiseta do Motorhead. Imaginava que ainda havia algo de verdade em mim. Ou no rock and roll.

Eu sempre me iludi."


Esta absoluta ausência de ilusões, de auto-engano, é o que caracteriza – ou deveria caracterizar – a postura do escritor.

Finalizo citando Mirisola (em Charque, pag.48) –, cujo diálogo com Mário cai feito uma luva: "A gente se ilude que é rock and roll,  mas, no fundo, estamos de pijama na pracinha jogando dominó. Nossa garota de Ipanema é a Penélope Charmosa,  e ela caiu irremediavelmente nas garras do Tião Gavião, lamento constatar isso, Mário.

- Fudeu.

O nosso único alento…bem, o nosso único alento é saber que no final o Lulu Santos vai desaparecer conosco."


Quando o nome do jogo é literatura, o resto é show-biz.


Sobre o autor

Márcia Denser
A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português), Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos do colunista Márcia Denser.

Publicado originalmente no "congressoemfoco"

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Opinião

Maldita maioria!

Miguel Reale Júnior - O Estado de S.Paulo
Campos Sales, presidente da República de 1899 a 1902, defendia o regime republicano presidencialista, e não o parlamentarista. Se no regime presidencial o Legislativo não governa nem administra, por isso, a seu ver, era necessário que a ação legislativa fosse "esclarecida e mesmo, a certos respeitos, dirigida", pois o Executivo deve conduzir a feitura das leis por conhecer a realidade. Assim, malgrado "decidido adversário do parlamentarismo", Campos Sales admitia como necessária a construção de uma maioria no Legislativo que, pela afinidade de aspirações, constitua um sólido laço, uma perfeita aliança com o Executivo, para o esforço coordenado entre os Poderes "em proveito dos grandes interesses da Nação".

Por outro lado, antepunha-se à concentração de poderes no governo central, que absorve as forças nacionais, advogando a importância da forma federativa, na qual União e Estados cooperem livre e espontaneamente para o desenvolvimento nacional. Para Campos Sales, uma República unitária apenas estimularia o sentimento de separação. Se no Império a força estava no poder central, na República, dizia ele, a força deve estar nos Estados, pois "é na soma destas unidades autônomas que se encontra a verdadeira soberania da opinião. O que pensam os Estados pensa a União!".

Da conjugação destas duas perspectivas - 1) necessidade de cooperação entre Executivo e Legislativo na formação de uma maioria sólida e 2) cooperação íntima entre União e Estados, que se congregam para construção de uma política nacional - surge a formulação da denominada "política dos governadores".

Como unir, então, esses dois objetivos de formação de uma maioria e de fortalecimento do federalismo, em dupla conjugação: entre Executivo e Legislativo e entre União e Estados? No processo eleitoral da Primeira República, em que o voto era aberto e imperava o voto de cabresto, oposição e situação proclamavam-se vencedoras. Havia, no entanto, a exigência de exame das atas eleitorais por comissão da Câmara dos Deputados - Comissão de Verificação de Poderes -, à qual incumbia legitimar ou não os resultados das juntas eleitorais.

Essa comissão era presidida pelo deputado mais velho da legislatura a se findar. Campos Sales conseguiu, em combinação de próceres da Câmara, fixar que viria sempre a ocupar a presidência dessa comissão o ex-presidente da Câmara, pessoa, portanto, de confiança, que garantiria o resultado favorável aos deputados do grupo dos governadores, verdadeira força política no País.

Estabelecia-se uma grande troca de favores: os governadores apoiavam o candidato à Presidência escolhido em conversas com o presidente da República e este apoiava os candidatos dos governadores à chefia do Estado e à Câmara dos Deputados e ao Senado. Os parlamentares, por sua vez, prometiam dar sustentação ao Executivo. Era um grande conchavo para garantia de maioria serena por todo o canto. E às favas a oposição.

Com a Constituição de 1946 os problemas crônicos do presidencialismo afloraram continuamente, em seguidas crises institucionais que desembocaram no regime militar. Havia, como hoje, uma combinação explosiva: federalismo, voto proporcional, fragilização dos partidos e irresponsabilidade dos dois Poderes no exercício de suas funções.

O quadro não mudou com a estrutura política da Constituição de 1988. Ao contrário, acentuaram-se os conflitos entre os Poderes, pois a pauta do Congresso é fixada pelo Executivo, com medidas provisórias e regime de urgência. E o Legislativo tem a arma da obstrução.

Pequeno é o papel do deputado, mesmo porque apenas 10% da produção legislativa decorre de projetos de iniciativa de deputados ou senadores. A grande tarefa do deputado é pensar na reeleição, pelo que não é fiel ao seu partido, mas aos currais eleitorais. Passa a ser office-boy de luxo, a frequentar corredores dos ministérios atrás da satisfação de pleitos da sua região ou da corporação que representa. Mais importante ainda é conseguir a liberação da verba de emenda para a construção de ponte, clube ou posto de polícia.

Nas gestões de Fernando Henrique Cardoso cumpriu-se, na expressão de Sergio Abranches, o presidencialismo de coalizão. PFL, PSDB, PMDB, PPB e PPS tinham 350 deputados, mas o apoio parlamentar decorria da entrega de ministérios e de cargos aos indicados pelos partidos e também da liberação de verbas.

No primeiro mandato de Lula, o PT, isolado, tinha 91 deputados, enquanto a oposição somava 244. O PT ocupou centenas de cargos estratégicos nos ministérios, em especial naqueles cujo ministro, apenas decorativo, era de partido aliado. Como, então, cooptar o apoio de parlamentares "aliados" nas votações importantes? Decidiu-se pela "doação" de quantias a deputados em hotéis de Brasília. Criou-se, então, o presidencialismo de mensalão. No segundo mandato, o valor das emendas de deputados quintuplicou!

Agora, na gestão Dilma Rousseff, há franca maioria governista na Câmara. Há ministros dos partidos aliados, mas na votação importante da emenda constitucional da Desvinculação de Receitas da União (DRU), que permite ao governo usar livremente 20% da receita de tributos federais, os parlamentares, conforme editorial deste jornal, viraram extorsionários ávidos pela barganha: ou liberam emendas parlamentares e nomeiam apaniguados para empresas públicas ou não se aprova a emenda.

Sem as trocas da Velha República, sem os benefícios do mensalão, sem condescendência criminosa e com faxina, mesmo que parcial, o forte Executivo vira fraca vítima de chantagem, a mostrar que desde sempre, na República, não se forja maioria parlamentar "em proveito dos grandes interesses da Nação", na expressão pouco sincera de Campos Sales ao tentar justificar sua política de cooptação.

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Manchetes do dia

Sábado, 05 / 11 / 2011

Folha de São Paulo
"G20 acaba sem achar saída para a crise global" 

Cúpula adia decisão sobre recurso extra para ajudar países e evitar contágio
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O G20 adiou para dezembro a definição do que tanto Barack Obama como Dilma Rousseff chamaram de "Firewall", medidas corta-fogo para evitar que a crise grega contagie economias do porte de Itália e Espanha. O corta-fogo deveria vir do aumento expressivo de recursos para o FMI emprestar aos países necessitados.

O Estado de São Paulo
"Cúpula do G-20 acaba sem reforçar caixa europeu"

Recapitalização é adiada; líderes abandonam discurso de austeridade e agora pregam desenvolvimento

Em meio à turbulência na Grécia e à crise na Europa, os líderes do G-20 não chegaram a acordo para recapitalizar o FMI e o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, informa o enviado especial a Cannes, Andrei Netto. Especulava-se que o FMI pudesse contar com US$ 1 trilhão - seus recursos atuais somam menos de US$ 300 milhões. A discussão sobre a recapitalização foi adiada para dezembro. Em contrapartida, as 20 maiores potências deixaram em segundo plano o discurso sobre austeridade fiscal, enfocando em crescimento, reequilíbrio, fomento aos mercados internos e geração de emprego - como pregava o Brasil. Para os líderes, há sinais claros de desaceleração, até mesmo em países emergentes, e a flutuação do preço das matérias-primas compromete a performance econômica.

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sexta-feira, novembro 04, 2011

Irmãos!

Coluna do Celsinho

Ponto morto 

Celso de Almeida Jr.
O mundo tá esquisito.

Europa balançando.

Grécia, saudoso berço da filosofia, agindo sem pensar.

Estados Unidos na marcha lenta.

Israel e Irã rufando tambores.

Brasil, cuja dívida interna só cresce, ensinando economia.

China, forte como nunca, na espreita.

Tenho a ligeira impressão de que os fatos acima apontam para a ruptura.

Para tanto, é só definir quem puxará o gatilho.

O que conforta é saber que Ubatuba ficará de fora.

Atingimos o nirvana há muito tempo.

Não nos envolvemos em questões além de nossos limites geográficos.

Somos minúsculos na escala planetária, mas gigantes em civilidade.

Campo neutro, como poucos.

Mergulharemos em orações.

Continuaremos em paz.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Opinião

A falta de saneamento

O Estado de S.Paulo - Editorial
Sétima maior economia do mundo, o Brasil apresenta índices de saneamento básico de país subdesenvolvido. O Atlas de Saneamento 2011, recém-publicado pelo IBGE, permitindo uma melhor avaliação da Pesquisa de Saneamento Básico 2008, mostra que somente 45,7% dos domicílios em todo o País têm acesso a redes de esgotos sanitários. Frequentemente, são redes restritas a algumas áreas das metrópoles ou às sedes dos municípios menores. E 2.495 dos 5.564 municípios do País não contam com nenhum tipo de esgoto sanitário. O Estado de São Paulo, onde apenas um município não dispõe desse serviço, é a exceção. Mas, como nota o IBGE, o fato de um município oferecer algum tipo de serviço de saneamento já leva a incluí-lo entre os que são atendidos, independentemente da abrangência, eficiência e do número de ligações domiciliares.

Tem havido avanço, mas muito lento. Pela mesma pesquisa, realizada em 2000, só 33,5% dos domicílios eram servidos por redes de esgotos. Mais da metade da população brasileira continua sendo obrigada a se servir de fossas sépticas ou de alternativas mais rudimentares como fossas a céu aberto ou lançamento de dejetos em cursos d'água, em detrimento das condições de salubridade e do meio ambiente.

A desigualdade entre regiões é bem nítida também sob esse ângulo. A Região Sudeste é a mais bem servida (69,8% dos domicílios), seguindo-se as regiões Centro-Oeste (33,7%) e Sul (30,2%). Os maiores problemas estão no Nordeste (29,1%) e, principalmente, na Região Norte (3,5%). Segundo o IBGE, as deficiências são mais acentuadas nas cidades de menos de 50 mil habitantes e nas áreas rurais. Considerando as dimensões do País, o avanço do agronegócio e as necessidades de preservação florestal em áreas de escassa população, talvez seja impossível a universalização dos serviços de esgotos sanitários no Brasil. De qualquer forma, o saneamento básico deveria ser condizente com a taxa de urbanização nacional, que está em torno de 85% da população, projetando-se um avanço para 93% por volta de 2050.

Os governos, nos três níveis, têm elevado os seus investimentos nesse setor, mas nunca na medida do necessário, apesar do contínuo aumento da carga tributária. Como afirmou o professor Rogério L. F. Werneck, em artigo publicado no Estado (28/10), percebe-se com clareza "a inexplicável carência de recursos que ainda persiste em áreas nas quais a atuação do Estado é indiscutivelmente essencial", como o saneamento básico.

Nas grandes metrópoles, se forem consideradas apenas as necessidades de esgotos sanitários, a situação é melhor, mas os grandes centros do País estão ainda muito longe de alcançar o nível não só dos países mais avançados, mas mesmo de alguns países vizinhos da América Latina, que deram mais atenção às necessidades de prevenção de transmissão de doenças por meio da melhoria das condições de saneamento.

Em sentido mais amplo, entendendo-se o esgotamento sanitário como compreendendo não só a coleta de esgotos, mas também estações de tratamento e manejo de resíduos sólidos e de águas pluviais, as maiores cidades brasileiras ainda deixam muito a desejar. Brasília, sendo uma cidade planejada, mas que cresceu muito além do projetado, apresenta o melhor nível de atendimento do País no que se refere a esgotos (86,4% dos domicílios), mas se vê diante de problemas para lidar com seus lixões.

Muita culpa cabe às administrações municipais, mas, na realidade, as autoridades nos diferentes níveis de governo estão mais interessadas em realizar obras vistosas, às vezes faraônicas, que podem lhes render dividendos eleitorais, do que obras subterrâneas. Alguns governos só se dispõem a realizar tais obras quando contam com verbas ou empréstimos a juros baixos pelo BNDES, que financia alguns projetos de saneamento incluídos no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).

Quanto ao tratamento de resíduos sólidos e de águas pluviais, as grandes enchentes, que assolam no verão as grandes metrópoles brasileiras, aí estão para demonstrar o descaso com que essas questões continuam a ser tratadas.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 04 / 11 / 2011

Folha de São Paulo
"Grego recua de consulta; Obama cobra 'corta-fogo’" 

Premiê deve perder o cargo; parceiros do G20 pedem medidas contra contágio
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Desmoralizado por líderes europeus e abandonado por ministros, o premiê George Papandreou desistiu do referendo sobre o pacote de ajustes que havia anunciado e pode perder o cargo hoje, informa Clovis Rossi. O recuo veio após a União Europeia afirmar que, até saber o resultado da consulta, não seria liberada a parcela de € 8 bilhões, vital para a Grécia pagar suas contas e dívidas em dezembro.

O Estado de São Paulo
"Ultimato faz premiê grego desistir de referendo"

Em meio a pressão europeia, Atenas perde apoio para levar adiante consulta popular sobre plano de ajuda

Após ter sido pressionado por França e Alemanha, o premiê da Grécia, George Papandreou, anunciou acordo para abandonar o referendo sobre o pacote de socorro europeu ao país. A decisão foi o apogeu de novo dia de tensão entre líderes da União Europeia, reunidos em Cannes para a cúpula do G-20, e o governo grego, informa o enviado especial Andrei Netto. Atenas recebera um ultimato: ou aceitava o pacote, ou deixava a zona do euro. Papandreou, então, perdeu apoio interno para fazer a consulta. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, comemorou: "O euro é o coração da Europa. Se o euro explodir, explode a Europa".

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quinta-feira, novembro 03, 2011

Arte

Sus 3

Frase do dia

"Se eu fosse milionária, talvez fosse para um hospital particular também, mas o atendimento aqui é muito completo, muito atencioso." (tirei daqui)

Julieta Aparecida, em tratamento de um câncer pelo SUS no hospital público Instituto do Câncer, em SP

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Opinião

A volta por cima

O Estado de S.Paulo - Editorial
A conduta pública do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde que soube que tem câncer na laringe é a melhor resposta que ele poderia dar às baixezas de que tem sido alvo nas chamadas redes sociais e outros meios de expressão na internet. Mentalidades encardidas, incapazes de distinguir entre rejeição política e respeito pelas vicissitudes pessoais daqueles a quem combatem na cena pública, deram vazão ao que o antecessor Fernando Henrique Cardoso chamou de "recalques" - talvez para não dizer algo pior. Com indisfarçado gozo com o sofrimento alheio, batem na tecla de que Lula devia se tratar no SUS para sentir na pele as mazelas da saúde pública no País que, certa vez, em um dos seus arroubos autocongratulatórios - que este jornal jamais deixou de criticar -, declarou não estar longe de "atingir a perfeição".

Quanto mais não seja, os tipos que espelham nas novas mídias a própria mesquinhez nem sequer se perguntaram se o ex-presidente dispõe de um plano de saúde que cubra o seu tratamento numa instituição de primeira linha. Na realidade, conforme se noticiou, não só dispõe de um seguro do gênero, como ainda, depois de oito anos no Planalto e com as conferências altamente remuneradas que tem sido convidado a fazer, amealhou recursos pessoais para eventualmente complementar as suas despesas médico-hospitalares. É sabido que em toda parte a internet é também um repositório de torpezas. Mas não é em toda parte que líderes políticos contribuem, pelo modo como reagem a uma grave enfermidade, para elevar os padrões da ética pública em seus países - o que inclui, parafraseando Thomas Jefferson, um respeito decente pela opinião da sociedade.

Informado de sua condição, Lula decidiu que não se deveria sonegar dos brasileiros a verdade sobre o seu estado, o resultado dos exames a que se submeteu para aferir a gravidade da sua moléstia, a natureza, duração e efeitos colaterais da terapia que estava para começar, bem assim os prognósticos a que a sua equipe médica podia chegar já nesse estágio. Fez o que não foi capaz de fazer, para citar um exemplo estrangeiro notório, o então presidente francês François Mitterand que escondeu estar acometido de câncer na próstata na maior parte dos 14 anos em que exerceu o poder, entre 1981 e 1995. Lula, a rigor, não foi o primeiro político brasileiro de envergadura a jogar limpo numa situação como essa - que, inevitavelmente, provoca especulações nem sempre otimistas sobre o seu desempenho futuro.

A primazia, até onde chega a memória, foi do governador paulista Mário Covas, cuja incapacitação, licença e afinal falecimento, em 2001, aos 71 anos, vítima de câncer na bexiga, influiu nos rumos da política nacional. Tampouco o vice de Lula, o empresário José Alencar, tentou em algum momento ocultar a sua luta de 11 anos e 15 cirurgias contra um câncer abdominal. Ao contrário, foi um exemplo de tenacidade. E o próprio presidente não há de ter estado alheio à decisão da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, de revelar, em abril de 2009, ter iniciado tratamento contra um câncer no sistema linfático e, desde então, de manter o Brasil informado do seu caso. Àquela altura, já se sabia que era a candidata escolhida por Lula - e os dois, principalmente ela, tiveram de suportar as conjecturas saídas na imprensa sobre o eventual colapso de sua candidatura.

Agora, o ex-presidente não apenas mandou que falassem a verdade a respeito de sua saúde, mas faz ainda outra coisa que se espera de uma figura com a sua estelar popularidade. À maneira de José Alencar, ensina pelo exemplo que o câncer não deve prostrar os seus portadores - que é o que os oncologistas vivem dizendo a seus pacientes e aos familiares deles, por saber que o ânimo dos enfermos desempenha um papel não negligível para as suas chances de recuperação. O vídeo que divulgou anteontem, no qual afirmou que "não existe espaço para pessimismo", despedindo-se com um "até a primeira assembleia, o primeiro comício, o primeiro ato público", é puro Lula.

Dando a volta por cima do susto inicial, vai tirar do drama pessoal o que ele lhe pode render de acréscimo na sua já formidável popularidade.

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 03 / 11 / 2011

Folha de São Paulo
"Contra referendo, Europa ameaça sufocar a Grécia" 

País deve decidir se quer continuar na eurozona, dizem França e Alemanha; ajuda será retida até a definição
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O premiê George Papandreou anunciou que poderá antecipar para dezembro o referendo grego previsto para janeiro. O adiantamento foi uma resposta à pressão da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional. Os europeus avisaram que a cota de € 8 bilhões do primeiro pacote não será liberada se o país não se comprometer a aceitar as medidas de austeridade - sem os recursos, a Grécia não tem como pagar suas contas.

O Estado de São Paulo
"Grécia deve aceitar plano ou deixar euro, determina UE"

Líderes europeus dão ultimato a Atenas depois que premiê grego anunciou referendo sobre socorro ao país

Na véspera da abertura da reunião de cúpula do G-20, a Europa deu um ultimato à Grécia, informa o enviado especial a Cannes, Andrei Netto. Dois dias depois que o premiê grego, George Papandreou, anunciou um referendo sobre a adoção do plano de socorro negociado pela União Europeia, líderes do bloco impuseram três condições a Atenas: que Papandreou obtenha um voto de confiança do Parlamento grego, em votação programada para amanhã; que o referendo seja realizado no menor prazo possível; e que a consulta inclua uma questão direta sobre se os gregos querem continuar na zona do euro. Em outras palavras, os representantes europeus advertiram Papandreou que ou a Grécia diz "sim" ao euro e adota o plano de socorro, ou diz "não" e abandona a moeda. 

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quarta-feira, novembro 02, 2011

Chick Corea


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Brasil

Lula, o câncer, o SUS e o Sírio

Elio Gaspari, O Globo
As pessoas que estão reclamando porque Lula não foi tratar seu câncer no SUS dividem-se em dois grupos: um foi atrás da piada fácil, e ruim; o outro, movido a ódio, quer que ele se ferre.

Na rede pública de saúde, em 1971, Lula perdeu a primeira mulher e um filho. Em 1998, o metalúrgico tornou-se candidato à Presidência da República e pegou pesado: “Eu não sei se o Fernando Henrique ou algum governador confiaria na saúde pública para se tratar”.

Nessa época acusava o governo de desossar o SUS, estimulando a migração para os planos privados. Quando Lula chegou ao Planalto, havia 31,2 milhões de brasileiros no mercado de planos particulares. Ao deixá-lo, essa clientela era de 45,6 milhões, e ele não tocava mais no assunto.

Em 2010, Lula inaugurou uma Unidade de Pronto Atendimento do SUS no Recife dizendo que “ela está tão bem localizada, tão bem estruturada, que dá até vontade de ficar doente para ser atendido”. Horas depois, teve uma crise de hipertensão e internou-se num hospital privado.

Lula percorreu todo o arco da malversação do debate da saúde pública. Foi de vítima a denunciante, passou da denúncia à marquetagem oficialista e acabou aninhado no Sírio-Libanês, um dos melhores e mais caros hospitais do país. Melhor para ele.

(No andar do SUS, uma pessoa que teve dor de ouvido e sentiu algo esquisito na garganta leva uns trinta dias para ser examinada corretamente, outros 76, na média, para começar um tratamento quimioterápico, 113 dias se precisar de radioterapia. No andar de Lula, é possível chegar-se ao diagnóstico numa sexta-feira e à químio na segunda. A conta fica em algo como R$ 50 mil.)

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Opinião

Freio à farra dos convênios

O Estado de S.Paulo - Editorial
Na mesma segunda-feira em que a transmissão do cargo no Ministério do Esporte se converteu em ato de desagravo ao titular afastado, Orlando Silva - a quem a presidente Dilma Rousseff louvou pelo "excepcional trabalho" e que o substituto Aldo Rebelo considerou "mais do que inocente, uma vítima" -, entrou em vigor o decreto destinado a moralizar os negócios da administração federal com entidades privadas sem fins lucrativos, a começar das organizações não governamentais (ONGs). Desde que, em 2003, o PC do B de Orlando Silva e Aldo Rebelo foi premiado pelo então presidente Lula com o Ministério do Esporte, pelo menos 41 ONGs ligadas à legenda receberam recursos públicos para a execução de programas da pasta. O grosso do dinheiro ou foi desviado pelos controladores das ONGs de fachada ou, a julgar pelas denúncias que derrubaram Orlando Silva, carreado para o caixa 2 do "partido do socialismo". Revelação similar de corrupção já havia apeado o ministro do Turismo, Pedro Novais, do PMDB.

O decreto da presidente tem uma dimensão emergencial e outra estrutural. A primeira está na suspensão de 2.670 convênios com entidades sem fins lucrativos, que somam R$ 2,3 bilhões. Durante 30 dias esses contratos serão submetidos a um pente-fino por uma força-tarefa do Executivo. Os que estiverem em ordem voltarão a receber verbas. Nos demais casos, as entidades terão 60 dias para sanar as irregularidades. Se não o fizerem, deverão devolver os valores obtidos e entrarão para a lista negra das organizações às quais o poder público não poderá mais se associar. Além de fechar a torneira dos gastos que iam para o ralo, a intenção do governo é separar as ONGs "sérias e qualificadas" das entidades "fantasmas", nas palavras do ministro da Controladoria-Geral da União (CGU), Jorge Hage, que participou da elaboração do decreto. O censo mais recente das ONGs brasileiras, em sentido amplo, data de 2005: eram 338 mil fundações e entes sem fins lucrativos, empregando 1,7 milhão de pessoas.

No plano estrutural, o ponto talvez mais importante do decreto é o que restringe a "ministros de Estado e dirigentes máximos das entidades da administração pública federal" a faculdade de assinar convênios nas suas áreas. Eles também arcarão com a responsabilidade direta pela gestão e o controle das parcerias que decidiram firmar. De agora em diante, portanto, quando se descobrir irregularidades em convênios, nenhum ministro poderá imitar o ex do Esporte, Orlando Silva, que se eximiu de culpa sob a alegação, verdadeira, de que não fora ele o signatário dos contratos que explodiram na sua face, mas subordinados seus. A responsabilização dos titulares começa já agora: eles é que terão de dizer quais dos convênios suspensos podem ser reativados e quais devem ser objeto do processo administrativo chamado "tomada de contas especial", na CGU. O órgão, por sua vez, deverá cadastrar as ONGs e assemelhadas impedidas de receber recursos federais. O decreto desta semana complementa e amplia o que a presidente baixou em setembro, com a mesma intenção moralizadora.

Daquela vez, Dilma instituiu a chamada pública de entidades para fins de contratação mediante convênios. Com isso, as autoridades de turno perdem a prerrogativa de contratar, por exemplo, quem lhes der na veneta. Além disso, para se qualificar a um convênio, a entidade terá de comprovar que, nos três anos precedentes, exerceu atividades relacionadas com a área de interesse da parceria. Será um tiro nas ONGs de cartolina, registradas apenas para se apropriar do dinheiro do contribuinte, com seus cúmplices na máquina do governo. Por fim, organizações que deixaram de prestar contas de contratos ou cometeram irregularidades na sua execução não terão uma segunda chance. Essas medidas, noticiou o jornal Valor, fazem parte de um pacote de propostas da CPI das ONGs, que funcionou no Senado de 2007 a 2010. Segundo o seu presidente, o ex-senador Heráclito Fortes, do DEM, o relatório final não chegou a ser votado, porque "o governo pressionou, sentou em cima e não permitiu apurar nada".

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 02 / 11 / 2011

Folha de São Paulo
"Referendo grego faz desabar Bolsas" 

Mercado teme que consulta à população, anunciada anteontem, rejeite pacote de ajuste e leve país à moratória
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As Bolsas entraram em queda livre em reação à informação de que a Grécia pretende convocar referendo para que a população decida se concorda com o programa de ajuste recém-acertado com a União Europeia. O pacote grego, exaustivamente negociado e aprovado pelos países da eurozona, impõe medidas duras em troca da injeção de € 100 bilhões no país e do perdão de 50% de sua dívida.

O Estado de São Paulo
"Ameaça grega de recusar plano de ajuda abala Europa"

Anúncio de que adesão ao pacote passará por referendo derruba bolsas; líderes tentam convencer Atenas a recuar

O anúncio de que a Grécia quer fazer um referendo para decidir se adere ou não ao pacote de socorro aprovado pela União Europeia abalou as bolsas pelo mundo. Houve queda acentuada em Londres (2,21%), Frankfurt (5%), Paris (5,38%) e Milão (6,8%), além de São Paulo (l,74%) e Nova York (2,4%). A decisão do premiê grego, George Papandreou, de convocar a consulta surpreendeu até seu ministro de Finanças e aprofundou a crise política no país - Papandreou será submetido a um voto de desconfiança na sexta-feira e seu governo pode cair. Enquanto isso, líderes como a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, buscavam contornar a atitude de Papandreou. Se o eventual referendo recusar o plano da UE, que prevê um calote de 50% das dívidas, a Grécia caminhará para a bancarrota. 

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terça-feira, novembro 01, 2011

Ôps!

Sus 2

Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto

Por Nina Crintzs (original aqui)
Há seis anos atrás eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos.

Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro – na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer porque a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença. Eu tinha 26 anos. Right on target.

Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui em todos – TODOS – os neurologistas famosos – sim, porque tem disso, médico famoso – e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem. Minha mãe é uma heroína – mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz – mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, “estímulos” elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas, crânio, córneas. Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava.

O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso. E sem pára-quedas. E se você ta esperando um “mas” aqui, sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença se morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada.

O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares.

A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu “eu não sei” mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz “eu não sei, vou pesquisar”. Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.

O meu tratamento custaria algo em torno de R$12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. “Custaria” porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil.

O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas – para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$2.000,00.

Eu acredito em poucas coisas nessa vida. Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu – e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem.

Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS – se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, “humor”.

Quem me conhece sabe que eu não voto – não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não.

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Ponte

Sus 1

Tratamento de câncer pelo SUS atrasa e é insuficiente, diz TCU
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Folha.com 
Pelo menos 58 mil pacientes de câncer ficaram sem fazer serviços de radioterapia e outros 80 mil deixaram de fazer cirurgias de câncer no país do ano passado. Estes são números estimados de uma análise feita pelo TCU (Tribunal de Contas da União) no sistema de oncologia do país.

Para o órgão de controle, o sistema de tratamento do câncer "não está suficientemente estruturado para assegurar atenção oncológica adequada para toda a população que dela necessita".

Além de não conseguir atender a todos --na radioterapia o índice de não atendidos é de 34% e em cirurgia, de 53%-- os pacientes começam o tratamento muito depois do tempo devido.

No caso dos procedimentos de quimioterapia, o tempo de espera médio foi de 76,3 dias e apenas 35% dos pacientes foram atendidos com 30 dias (prazo recomendado pelo Ministério da Saúde).

Na radioterapia, o resultado é ainda pior: 113,4 dias de espera e apenas 16% atendidos no primeiro mês.

No trabalho, foi feita uma pesquisa com médicos que apontou que a falta de pagamento pelo ministério da Saúde de alguns procedimentos e os baixos valores pagos atrapalham o tratamento dos doentes.

O Ministério da Saúde informou que os gastos dos SUS com tratamento de câncer triplicaram nos últimos 12 anos, chegando a R$ 1,8 bilhão em 2010. A previsão em 2011 é que o valor alcance R$ 2,2 bilhões.

A quantidade de atendimento aumentou 41% entre 2003 e 2010, sendo que as cirurgias aumentaram em 40% e as quimioterapias em 100%. Além disso, houve reajuste dos procedimentos no ano passado. No total, 300 mil pessoas receberam assistência em 2010, segundo o ministério.

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Hora do Espanto!


Zombie Walk

José Ronaldo dos Santos
Os pagãos, conforme classificaram os líderes cristãos dos primeiros séculos da Era Cristã, estão mais vivos do que se pensa. Explico melhor: na semana passada, no facebook e outras vias, corria um convite para o Zombie Walk. Não me perguntem a origem, nem a iniciativa, mas funcionou! Prova disso foi um considerável número de jovens que se encontraram e fizeram a caminhada na noite de sábado para domingo (29/30 de outubro). Por volta das 5:30 horas, no primeiro ônibus que segue para Caraguatatuba, testemunhei o embarque de uma dúzia deles bem caracterizados (corpos pintados e roupas esfarrapadas tingidas de vermelho). Voltavam para um merecido descanso em seus lares. Faço questão de sublinhar que tais jovens se comportaram muito bem, sem aquilo de querer “zoar no espaço”, de desrespeitar os demais passageiros.

Zombie Walk é uma atualização de uma festa primitiva: o Dia dos mortos. Podemos dizer que é uma versão alternativa ao Halloween. Enfim, isso é tão forte desde sempre que, para contrabalançar tal costume, a Igreja instituiu o Dia de todos os santos precedido do Dia de finados. Ou seja, estratégia para atrair aqueles de hábitos e costumes primitivos para a religião católica. O mesmo que imposição cultural.

Vamos comemorar! Tudo isso é cultura!

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Opinião

Fantasma da fome

Xico Graziano - O Estado de S.Paulo
Segundo as contas da ONU, o mundo acaba de completar 7 bilhões de habitantes. "Hoje à noite precisamos abrir espaço para 219 mil pessoas na mesa do jantar". Curiosa e dramática, a frase de Lester Brown instiga o pensamento. Haverá comida para tanta gente?

A população humana atingiu seu primeiro bilhão em 1800. Naquela época Thomas Malthus fez uma das previsões mais famosas da História, afirmando que a população humana crescia em progressão geométrica enquanto a produção de alimentos aumentava em progressão aritmética. A tragédia da fome aproximava-se.

Demorou 130 anos para dobrar a população humana. E, ao contrário do que se previra, a produção agrícola, impulsionada pela tecnologia, deu conta do recado. A expansão das áreas cultivadas e o aumento da produtividade por hectare afastou o temor do colapso alimentar. Somado aos extraordinários avanços na medicina, que favoreceram a saúde pública, o estouro demográfico na Terra acelerou-se. Em 1960 já éramos 3 bilhões de almas.

Os neomalthusianos se eriçaram. O intenso crescimento populacional no chamado Terceiro Mundo levaria à catástrofe famélica. Novamente, porém, a agronomia ajudou a derrotar o pessimismo, graças à força produtiva do pacote tecnológico, assentado em quatro pilares: melhoramento genético, mecanização, irrigação e quimificação (fertilizantes e defensivos). Em 1970, o Nobel da Paz laureou o agrônomo norte-americano Norman Borlaug, pai da Revolução Verde.

Nos últimos 40 anos a produção rural saltou 150%, ante metade disso na população. O processo da Revolução Verde deixou claro que a fome, persistente em várias regiões do mundo, não se deve às deficiências da produção, mas, sim, às dificuldades de sua distribuição na sociedade. Quer dizer, uma culpa das desigualdades na renda. Sem dinheiro no bolso falta comida na mesa. Malthus parecia esquecido definitivamente.

Ledo engano. Um temor pela escassez varre o mundo. Mesmo atenuado pela queda da natalidade, o crescimento populacional está recebendo a contribuição de novos fenômenos para pressionar a demanda alimentar. Trata-se dos ganhos de renda da população nos países em desenvolvimento, em sintonia com a urbanização, verificada na Ásia, especialmente.

Nesse contexto, a Agência das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que até 2050 a produção de alimentos - grãos e carnes - precisará crescer entre 70% e 100% para atender à procura das famílias. Não ocorrendo, haverá tendência global a majorar o preço médio dos alimentos, afetando imensos contingentes populacionais. O fantasma da fome ronda perigosamente a civilização.

O raciocínio antigo, viciado e simplista, logo pensa: bobagem, esse assunto já se resolveu antes. Há coisas mais relevantes para preocupar a humanidade, como, por exemplo, a devastação ambiental. Aqui, sim, o panorama futuro surge assustador.

Confesso que ando meio desorientado, refletindo sobre essa matéria. Não sou o único. A ameaça da fome coletiva, que angustia os estudiosos há séculos, parece retomar uma espiral ascendente. Desta vez, porém, vestiu uma nova complexidade. É como se a ecologia estivesse elevando ao quadrado o problema resolvido até então pela agronomia. Explico-me.

A gradativa tomada de consciência pública sobre os problemas ambientais estipula limites crescentes à expansão da agropecuária. A sociedade não tolera mais o desmatamento. Antigamente a ocupação do oeste norte-americano ou a mais recente derrubada da mata atlântica eram sinônimos de progresso. Agora representam uma tragédia contra a biodiversidade.

Basta ver, por aqui, a polêmica sobre o Código Florestal. Certos ambientalistas combatem radicalmente as mudanças propostas, recebendo enorme respaldo de mídia. Venerado na velha sociedade, o ruralismo periga transformar-se em palavrão. Os esverdeados tempos modernos azucrinam a agricultura.

Existem, ademais, limitações físicas à expansão dos cultivos. Nos EUA, na Europa, na Austrália, no Oriente Médio e na China as terras aráveis encontram-se totalmente ocupadas. Sofrem, ao contrário, prejuízos trazidos pela desertificação de territórios e pelo rebaixamento de lençóis freáticos. Encolhendo a irrigação, cai junto a produção.

Grosso modo, o homem apropriou-se produtivamente de dois terços da Terra. No terço restante localizam-se a Amazônia, as savanas africanas, as florestas asiáticas, as tundras geladas, áreas preservadas. Explorar tais espaços em nome da segurança alimentar vai dar encrenca, agravando a crise ecológica.

O preocupante cenário indica que entre preservar e produzir é preciso fazer as duas coisas. Só que ninguém sabe direito como. Alguns vislumbram que os produtos transgênicos venham a ser a solução do dilema, elevando a produtividade das áreas já exploradas. Aos ambientalistas soa como uma ironia da História.

Tudo anda contraditório. O aquecimento global, por um lado, compromete a produção tropical de alimentos e, por outro, vai liberar terras geladas para o plantio. O confinamento de animais dispensa pastagens, mas exige rações processadas com grãos, cujo cultivo aumenta. Energia renovável da biomassa pode roubar terra do alimento.

Engana-se redondamente quem pensa ser fácil vencer o moderno desafio da fome. Há quem sugira a dieta vegetariana obrigatória - falta convencer quem começou agora a comer picanha. Combater o desperdício - incluindo a gula da obesidade. Ingerir proteicos insetos - basta esquecer o nojo. Soluções ousadas, não impossíveis.

O caminho da sabedoria passa pela humildade. Se vencer a arrogância típica da humanidade, enterra Malthus de vez. Senão virá a crise.

Xico Graziano, agrônomo, foi secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo. E-mail: xicograziano@terra.com.br

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Manchetes do dia

Terça-feira, 01 / 11 / 2011

Folha de São Paulo
"Escolas e creches de Kassab sobem 28% em um ano" 

Custo de pacote de obras aumentou R$ 163 milhões entre a pré-qualificação das construtoras e a assinatura do contrato
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O pacote do prefeito Gilberto Kassab (PSD) para construir 96 escolas e 59 creches ficou 28% - ou R$ 163,l milhões - mais caro em um ano. O aumento ocorreu entre a pré-qualificação das construtoras, em setembro de 2010, e a assinatura dos contratos, há dois meses. O edital estimava um custo de R$ 587,5 milhões para as obras, mas o total atingiu R$ 750,6 milhões. O custo por unidade, R$ 3,8 milhões, foi a R$ 4,8 milhões, valor que é exatamente o dobro do que se gastou para construir cada uma das dez escolas feitas em 2011.

O Estado de São Paulo
"Consultoria de integrantes do PC do B recebe verba pública"

Confederação que recebe verba do Ministério do Esporte contrata empresa de ex-secretário da pasta

Uma empresa de consultoria montada por integrantes do PC do B recebeu recursos públicos de projetos apoiados pelo Ministério do Esporte, comandado pelo partido, informa o repórter Leandro Colon. Um dos donos da empresa, a Casa de Taipa Comunicação Integrada, é Júlio César Filgueira, ex-secretário do ministério. Seu sócio, Oswaldo Napoleão Alves, também é do partido. Em agosto passado, a consultoria ganhou R$ 825 mil da Confederação Brasileira de Desporto Universitário, que recebeu repasses do Esporte. O contrato mostra o possível vínculo direto de integrantes do partido com o destino final de recursos do ministério. O presidente da CBDU, Luciano Cabral, disse que a Casa de Taipa foi escolhida porque ofereceu o menor preço.

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segunda-feira, outubro 31, 2011

Tarde fria e cinzenta

Novembro vem aí...

Sidney Borges
O tempo continua acelerado. E a população crescendo de forma igualmente acelerada. Quando nasci havia menos de 2 bilhões. Na infância essa marca foi atingida e agora, no limiar da velhice, ouço falar na cifra espantosa de 7 bilhões de viventes. Tem gente que acha ruim, outros acham bom. Eu não acho nada, não tenho dados suficientes. Sei que apesar dos inúmeros problemas que há a humanidade vive melhor do que viveu outrora.

Ubatuba está em obras. O prefeito trabalha para fazer o sucessor. A oposição não se impressiona, torce o nariz e mostra confiança. Sem dispor da visibilidade do alcaide, que domina a mídia, joga na base do corpo a corpo. Vai ser uma disputa no estilo do campeonato brasileiro, acirrada. Fiz uma comparação futebolística para homenagear o ex-presidente Lula que vive um momento especial. Força Lula!

Comecei falando da população, vou continuar. Introdução a um raciocínio esclarcedor: uma hora tem 60 minutos e um minuto 60 segundos, o que dá 3 mil e 600 segundos por hora. Um dia tem 24 horas, fazendo as contas encontramos 86 400 segundos num dia.

Faxendo uma continha simples encontraremos quantos dias serão necessários para que uma pessoa contando gente à razão de um indivíduo por segundo chegue à população terráquea:

Assim: 

86 400 é o número de segundos de um dia;
x é o número de dias buscado;
7 000 000 000 é a população do planeta.

86 400. x  = 7 000 000 000
x = 7 000 000 000/86 400
x = 81 018, 51 dias.

Vamos arredondar pra 81 000 dias que divididos por 365 (número de dias em um ano) nos dará quantos anos contaremos gente.

Feitas as contas chegamos a aproximadamente 222 anos.

Prepare-se então. Se você quer saber se 7 bilhões é um número correto deve passar os próximos 200 anos contando, 24 horas por dia, sem parar nem para ir ao banheiro.

Só um pessoa conseguiria tal feito. Oscar Niemeyer. Mas ele é esperto e não perderia tempo com tamanha bobagem. Se a ONU diz que são 7 bilhões, pra que duvidar?

Para finalizar digo que em Ubatuba tem Sato, tem Moromizato e, no contraponto, tem Tato. Isso antes mesmo do primeiro ato.

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Opinião

Prova para professores é mais uma jabuticaba

João Batista Araujo e Oliveira - O Estado de S.Paulo
Sempre julguei que uma prova nacional para professores fosse uma boa solução. Selecionaria pessoas equipadas para o magistério e apontaria às instituições formadoras aspectos importantes na preparação dos recursos humanos. A recente iniciativa do Ministério da Educação (MEC) mostrou-me que meu repentino otimismo era infundado. Mais uma vez, venceram as corporações. O documento produzido pela comissão responsável reproduz a geleia geral característica dos cursos de Pedagogia, ancorados em teorias da moda, sem fundamentação nem compromisso com os graves problemas da formação do professor, em especial nas matérias básicas. As audiências públicas e os órgãos responsáveis pelos sistemas de ensino não trouxeram racionalidade ao debate.

A menção de que experiências de outros países foram consideradas tampouco diz grande coisa, tendo em vista a seletiva capacidade de ouvir dos que conduzem tais questões. A modelagem do exame com base no famigerado Enem, o mais frágil e controvertido dos testes produzidos pelo MEC, aumenta o pessimismo.

Falta racionalidade à proposta que foi apresentada para debate pelo MEC: uma matriz com três dimensões, dez "competências" e dez "eixos" do conhecimento. Inexiste diferenciação entre professores de creches, pré-escolas e séries iniciais. Os conteúdos das disciplinas centrais - elaborados por comissões formadas por vários especialistas - ocupam 3 a 4 linhas cada, num documento de 15 páginas. Não é possível que essa seja a única contribuição de tão selecionado grupo.

Alguns exemplos e contrastes: na matriz de referência não há referência ao fato de que um educador de pré-escola precisa conhecer as cantigas infantis, mas se afirma que necessita "atuar em situações do cotidiano escolar com base na legislação vigente". A palavra literatura aparece uma única vez, mas se espera que o professor "compreenda aspectos culturais, sociais, ambientais, políticos, econômicos e tecnológicos da sociedade e suas interfaces com a educação". Deu para perceber? 90% do documento trata dessas platitudes ou "competências".

Vale comparar essa melíflua proposta com os concursos públicos para as carreiras sérias. Num concurso típico, os tópicos que vão cair na prova são explícitos - qualquer pessoa sabe o que precisa estudar e onde encontrar a informação. E sabemos que esses concursos têm conseguido recrutar os melhores candidatos. Na prova do MEC a maioria esmagadora das "competências" é do tipo genérico: "promover ações no âmbito da comunidade escolar, com vistas à inclusão e ao respeito às diversidades". Reproduz o viés do Enade, a prova de conclusão de curso superior aplicada aos professores e nada acrescenta que possa mudar os rumos da educação.

Seria um enorme avanço se os professores de Língua Portuguesa dominassem e ensinassem o código alfabético, o código ortográfico e tivessem formação suficiente para ler e interpretar um texto com os alunos. No caso da matemática, o esperado era que tivessem condição de ensinar o sistema de numeração decimal, as quatro operações e soubessem explicar e representar as propriedades das operações, frações, decimais e porcentagens na reta numérica. Em ciências, que dominassem alguns conceitos básicos, como a noção de sistemas, evolução, ciclos e a teoria atômico-molecular, para apresentar os fenômenos e características associadas aos seres vivos e não vivos. Nada disso, parece, cairá na prova do MEC.

Pouco se conhece sobre o que faz uma pessoa ser bom professor. Mas é certeza que não há correlação com titulação ou número de cursos superiores realizados. Há fortes evidências de que um professor bem-sucedido é o que domina bem os conteúdos e sabe um pouco mais para entender as implicações do que ensina. As pedagogias eficazes são associadas a um profundo conhecimento da matéria e às formas adequadas de comunicá-la. Esse é o tipo de conhecimento pedagógico relevante.

Liping Ma, da Universidade Stanford, mostrou que professores chineses com apenas nove anos de escolaridade conseguem resultados muito melhores com seus alunos do que seus colegas norte-americanos, que, apesar de terem cursos de graduação e pós, não conhecem a fundo a matemática elementar e as maneiras de ensiná-la. O último relatório do National Council on Teacher Quality, nos EUA, mostra a precariedade da formação dos professores de Matemática pelas faculdades de educação e analisa como são inadequados os livros didáticos usados nas faculdades daquele país. Aqui, nem sequer temos esses livros - mas queremos desenvolver "competências". Conteúdo da disciplina, parece, é questão secundária.

Não existe receita para formar professores. A evidência científica é bastante limitada. A experiência dos países com melhores níveis de ensino varia em torno de alguns pontos centrais: atrair jovens com boa formação para a carreira, exigir prova de conhecimentos antes do ingresso, estabelecer rigorosos estágios probatórios nos anos iniciais. Em algumas áreas já sabemos quais conhecimentos são relevantes. Fugir disso é querer colher jabuticaba. Com a prova do MEC continuaremos a formar professores com muitas competências no que é periférico e pouca competência no que é essencial.

A qualidade do professor é o nó górdio da qualidade do ensino. Sabemos que a educação só terá chance de melhorar no País quando tivermos professores qualificados. Estamos diante de mais uma oportunidade perdida para avançar e de possibilidades de enorme retrocesso.

O erro na condução do problema está na origem: para dar um salto da qualidade na educação brasileira é preciso libertar a discussão e o MEC do controle das corporações. Não basta ter audiências públicas, é preciso qualificar o debate com base em evidências e não ter como critério a busca de consenso entre parceiros pré-selecionados. O MEC tornou-se refém das corporações. Agora será a vez do País.

João Batista Araujo e Oliveira é Ph.D em Educação e presidente do Instituto Alfa e Beto

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 31 / 10 / 2011

Folha de São Paulo
"Governo só investe 9% do aumento de impostos" 

Elevação da carga tributária foi usada em gastos sociais e salários
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Apenas 8,6% do aumento de impostos ocorrido de 1995 a 2010 se traduziu em novos investimentos públicos - isso significa que, de cada R$ 100 arrecadados a mais, só R$ 8,6 foram para gastos como construção de escolas e hospitais e melhorias em portos e estradas. Os investimentos subiram R$ 56,9 bilhões nesse período, contra uma alta de R$ 661,6 bilhões na carga tributária, descontada a inflação.

O Estado de São Paulo
"Dilma suspende pagamento a ONGs e manda rever contratos"

Parcerias terão de ser revisadas em 30 dias e repasse só volta a ser feito após parecer técnico de cada pasta

Após as denúncias de irregularidades que levaram à demissão de Orlando Silva do cargo de ministro do Esporte, a presidente Dilma Rousseff determinou a suspensão, a partir de hoje, de todos os repasses da União a entidades privadas sem fins lucrativos, como ONGs. Só neste ano, mais de R$ 2 bilhões foram destinados a esse tipo de entidade, a maioria sem licitação. Os contratos terão de ser revistos em 30 dias. O pagamento só voltará a ser feito quando atestada a regularidade da parceria e terá de contar com o aval do ministro da pasta que contratou a ONG. Na semana passada, o Ministério do Esporte rescindiu contrato com sete ONGs responsáveis por ações do programa Segundo Tempo alegando que as entidades descumpriram regras dos convênios.

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domingo, outubro 30, 2011

Linha de ataque campeã:

Da esquerda para a direita: Aldo, Teixerinha, Romeu, Tironepouer e Maneco. Em primeiro plano o técnico paraguaio Flores y Flores y Gardenias...

Coluna do Mirisola

Beijo no Asfalto

Uma tentativa inútil de explicar Nelson Rodrigues aos pirilampos culturais

Marcelo Mirisola
Saindo do Arena, depois de ver Beijo no Asfalto, ouço isso aqui de um casal de barbudinhos culturais:

- O beijo que a Globo varreu pra debaixo do tapete.

– E´ sim, Nelson é super contemporâneo.

Seria o almirante Nelson, aquele que deu uma coça em Napoleão no confronto de Toulon?  Ou teria sido o major, marido de Jeanne? Ou Nelson Ned?  Não, impossível. O cantor virou evangélico, mas não consta que tenha desfilado na última parada gay. Do Nelson Gonçalves eles não podiam estar falando… de que Nelson eles falavam?

Resolvi sair de perto antes que um dos barbudinhos culturais dissesse que Nelson Rodrigues escrevia para reprimir seu desejo homoafetivo, ou algo do tipo. Não faz muito tempo, Contardo Galligaris falou coisa parecida de Hemingway.

Pra começo de conversa, eu tenho que falar dos pezinhos da Gabi. Sim, da atriz Gabi Fontana que me convidou para assistir à montagem de Marco Antônio Braz. A nudez dos pés da Gabi justificam a ida ao teatro. Além disso, temos a parte de cima. Ela inteirinha e sua magreza espadaúda incluindo os ossos da omoplata, foram feitos à medida para o texto de Nelson Rodrigues: sua presença no palco é ambígua – falsa magra – e por isso mesmo acachapante, mas falar isso é lugar-comum.

Todos os atores, um pouco menos o Renato Borghi, que eu achei completamente canastrão (e por isso mesmo perfeito para viver Aprígio), são convincentes e metem o terror na platéia. Tem um gordinho lá que deve ser o filho do Capeta com o Eurico Miranda. O nome dele é Elcio Nogueira, anotem. Também o ator Rodrigo Fregnan, que faz o delegado, é outro que sabe exagerar e guinchar na medida certa. Chega uma hora que ele vomita um gato asmático em cima da pobre Selminha (Gabi Fontana), de pezinhos nus e vestido florido, intimidada e devidamente estuprada por ele e pelo gordinho supracitado, que encarna brilhantemente o capeta na pele de um jornalista corrupto.

Nessa hora, na hora do estupro de Selminha, a rubrica de Nelson Rodrigues deveria apontar: cavalheiro de terno cinza tem ereção na platéia.

Eu fico aqui pensando: e se a Gabi/Selminha tivesse joanetes?  Aí, não teria Nelson, nem almirante, nem dramaturgo pra segurar o rojão. O que mais me impressionou, além do fato de eu não ter adivinhado que o pai de Selminha, Aprígio, era o boiolão da tragédia (mérito do texto que indica e despista o tempo todo), enfim, o que mais me impressionou, foi o fato de que apenas uma sujeirinha diáfana cobria as solas dos pés da  Gabi depois de quase duas horas de peça.

O resto é Nelson Rodrigues de A a Z. Vizinhas fofoqueiras, cunhadinhas sacanas, e um inocente para purgar os pecados do mundo, Arandir – marido de Selminha. O inocente que beijou o atropelado e que, por conta do turbilhão de maldades em que é envolvido, acaba apagado na trama, literalmente.  E aqui cabe uma observação: no começo, avaliei que o ator Hudson Senna, o Arandir, era fraco, todavia, pensando no texto de Nelson Rodrigues, faz todo sentido o herói passar despercebido, praticamente anulado pela maldade que corrompe todos os outros personagens.

Nas peças de Nelson Rodrigues, o canastrão, bem como o ator que não é nenhuma brastemp, ambos têm lugar reservado na tribuna de honra.

Lavei a alma, e recomendo a ocupação do teatro Eugênio Kusnet pelo Círculo dos Canastrões e pela Cia. do Teatro Promíscuo & convidados. Ao longo dos meses de novembro, dezembro e janeiro, eles prometem, além das peças “Beijo no Asfalto”, “Os 7 gatinhos”, “Valsa n-6”, “17 x Nelson” e um especial “As noivas de Nelson”, debates, palestras e pezinhos nus, espero. O endereço é rua Teodoro Baima,94, centro de São Paulo.

O problema foi (e será) o casalzinho de barbudinhos culturais falando merda na saída. Disso ninguém está livre. Será que eles acreditam mesmo que Nelson Rodrigues é um autor que tem a preocupação de “conscientizar seu público em favor de alguma causa”?

A meu ver, acontece exatamente o contrário. Nelson Rodrigues pode ser exaltado por qualidades que eventualmente não possua – a incompreensão afinal faz parte do pacote –  ou pode ser xingado de qualquer coisa. Tudo, menos dizer que o pai do Crioulo do Grapette era um autor engajado. Ao contrário do que os barbudinhos culturais acreditam ou querem acreditar, ele varre o mundo para debaixo do tapete, e esse é o segredo, não só de Beijo no Asfalto, mas de toda sua obra. Ou seja: Nelson Rodrigues usa a abjeção, o beijo gay necrófilo nesse caso, como um instrumento de trabalho: usa, abusa e manipula aliás, se diverte e tripudia, ele é o mestre do dedo apontado. Nelson Rodrigues levou o bullying dos anos 40 e 50 para o palco. Se refestelou com a intolerância da época em que viveu. Chafurdou na lama da hipocrisia, essa, afinal, era sua matéria-prima.

Nelson Rodrigues seria inócuo sem a sujeira debaixo do tapete, sem o bullying e a histeria acusatória. Ele é o rei da alcova. Não há denúncia, nem engajamento algum em Beijo no Asfalto, como os barbudinhos culturais e os oportunistas de plantão acreditam e querem nos fazer acreditar. Ele só é contemporâneo porque fala de um mundo que não existe mais. Associar O Beijo no asfalto à causa gay dos dias de hoje, ou é burrice ou é canalhice.

Sem o tal do “preconceito” – que na boca dos pirilampos culturais tem o efeito de uma piroca malévola, rotunda e engasgada – Nelson Rodrigues simplesmente jamais teria existido. Viva o preconceito! Viva Nelson Rodrigues!

P.S: Dia 31, na próxima segunda-feira, lanço “Charque” na mercearia São Pedro, que fica na Vila Madalena, em São Paulo. A partir das 19 horas. Apareçam.

Sobre o autor

Marcelo Mirisola
Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

Outros textos do colunista Marcelo Mirisola.

Publicado originalmente no "congressoemfoco"

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