sábado, outubro 08, 2011

Política

Difícil, quase impossível

Sidney Borges
Nesta semana recebi um e-mail de um candidato com o resultado de uma pesquisa. Ele aparece na frente na corrida pela sucessão de Dudu. Perguntei a diversos amigos sobre o tal cidadão. Ninguém conhecia. Eu que também não o conheço, desejo boa sorte. Ninguém ganha eleição se não tiver sorte. No caso desse candidato que lidera pesquisas, a sorte terá de ser muito grande, do tamanho do "Prédio Martinelli", sinônimo de coisa grande na paulicéia dos anos 50.

Ubatuba pulula de pré-candidatos. São tantos que o panorama político parece o mar em tempo de tainha. Não dá para sair de casa e andar dez minutos sem esbarrar num "futuro prefeito". Todos falam que a coisa em Ubatuba está feia.

Perdão, nem todos, tem um que diz que está bonita.

Em tempos idos, quando Nélio governava, Paulo Ramos dizia que a coisa estava feia. Ele então lançou-se candidato pela primeira vez. Ganhou. No final de seu mandato, famoso pela slogan "Paulo Erramos", era evidente a necessidade de salvar Ubatuba da feiura. Paulo tentou, mas não conseguiu. 

Dizem que por ter usado apenas 30% das possibilidades.

A "Terra de Coaquira" continuava desabonitada e assim, como uma bala, como um avião, como um super-herói da Marvel Comics, surgiu avassaladora no horizonte a dupla de "cirurgiões plásticos" salvadores. Os dinâmicos Zizinho e Frediani, que ganharam a eleição e tentaram de tudo, mas não houve botox que funcionasse. Acabaram brigando e ao final do mandato, com Jija na algibeira, Zizinho perdeu para Paulo Ramos, brancos e nulos.

Não antes de ouvir Paulo dizendo alto e em bom som para que todo o litoral escutasse:

- A coisa aqui tá, tá, tá, feia...

Com esse brado destemido Paulo voltou a empunhar a caneta. Para evitar aborrecimentos ao leitor, no final do segundo mandato, tentando a releição, Paulo perdeu para Eduardo Cesar, que nunca deixou de afirmar que em Ubatuba a coisa estava feia.

Depois de oito anos de Dudu a caneta vai mudar de mãos. Quem será que vai ganhar? Não faço a mínima idéia, só sei que são dezenas de tainhas, digo candidatos, bradando contra a feiura da terra e um apregoando as belezas da administração do chefe.

Se não sei quem vai ganhar,  tenho certeza das restritas possibilidades de algumas candidaturas. Mas faço questão de dizer que todos têm chance. (he, he, he)

Neste mundo de tantos eventos inexplicáveis todos ficariam surpresos se Justin Bieber caisse de paixão por Hebe Camargo. Ele está vivo e é homem, ela está viva e é mulher. Então! Mas a possibilidade é remotíssima, do ponto de vista matemático desprezível.

Assim como é remota a chance de certos candidatos que estão fazendo espuma, muita espuma e acabarão por fazer mais e mais espuma.

Sem a caneta nas mãos.

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Trem Bala da Cantareira...

Colunistas

Aplaudindo Hitler
 
"Apostar na força aponta inequivocamente para o retumbante fracasso ideológico do hegemon norte-americano"

Márcia Denser
Crueldade e exclusão são os dois lados da mesma moeda. E a julgar por alguns fatos que ocorrem atualmente no mundo inteiro, há indícios de algo fundamental: a ultra-direita e o conservadorismo – para muitos (quem diria?), no auge – estão em franco declínio.

Senão, vejamos: a ocupação sem precedentes de Wall Street por parte de ex-trabalhadores, estudantes, desempregados – os excluídos permanentes do neoliberalismo, sistema injusto e desumano. A propósito, ver matéria de David Brooks para La Jornada, comprovando que a repressão policial só tem fortalecido o caráter nacional do movimento que já tomou 100 cidades americanas, a exemplo de Boston, Chicago, Los Angeles, Austin, sem contar a adesão de artistas e intelectuais como Noam Chomsky, Susan Sarandon, Tim Hobbins, Stephen Colbert, Cornel West, Michael Moore. Suas palavras de ordem: “Conhecemos a devastação causada por uma economia onde os trabalhadores, suas famílias, o meio ambiente e nossos futuros são sacrificados para que uns poucos privilegiados possam ganhar mais dinheiro em cima do trabalho de todos, menos do próprio”.

Por outro lado, segundo avaliação do jornalista Jonathan Schell no The Nation (intitulado “A América Cruel”), cresce o avanço da crueldade no interior do hegemon norte-americano – que agora celebra publicamente (refiro-me a aplausos, vivas, etc.) as execuções orquestradas pelo sistema judiciário do país, bem como a tortura, esta em qualquer parte do mundo, terceirizada ao não. Ele observa que a regressão (ou não) à barbárie se estabelece em dois estágios. Primeiro, os demônios são apresentados – ou seja, testados. Segundo, vem a reação – seja indignação e rejeição aos mesmos – ou aceitação e até prazer com o capeta.

A escolha pode indicar a diferença se um país está restaurando a decência – a civilidade, sua comum humanidade – ou se está afundando na mais negra barbárie. O que explicaria, talvez em parte, porque os EUA mergulharam fundo num padrão de crueldade. Naturalmente isso significa: l) A decepção do povo americano pelo fracasso ideológico dos EUA;

2) Donde a fé crescente coletiva (e absurda) na força como solução de todos os problemas, seja onde, como e porque for.

O entusiasmo por matar é um sintoma inequívoco de crueldade: apareceu depois da morte de Osama Bin Laden, mobilizando estrondosa celebração em todo país. Uma coisa é acreditar na triste necessidade de matar alguém, outra é alardear isso, algo especialmente perturbador quando não são apenas as pessoas do governo, mas gente comum, que aplaude tais efusões.

De qualquer forma, é uma solução desesperada (apostar na força), mas que aponta inequivocamente para o retumbante fracasso ideológico do hegemon norte-americano. Numa outra volta do parafuso, o presidente Obama, mesmo tendo ordenado (nominalmente?) o fim da tortura, decidiu pelo contrário, ao impedir qualquer responsabilização pelas patifarias, afastando assim qualquer punição em geral. Ele sequer buscou algo equivalente a uma Comissão da Verdade como ocorreu na África do Sul depois do apartheid (aliás, como ocorre em várias partes do mundo).

Existem muitos outros sinais de que o caminho ladeira abaixo está selado. A justiça criminal norte-americana busca a injustiça. A pena de morte desafia padrões de decência praticados por qualquer país civilizado. O encarceramento de mais de dois milhões de americanos – a maior proporção per capita no mundo – é um reflexo assustador de um país que considera a punição como único remédio para os problemas sociais.

O pleno emprego seria um deles. Mas como a social-democracia e o welfair, a barreira capitalista à implantação do

socialismo pleno, também dançou, parece que o próprio capitalismo chegou a um impasse. Nos EUA, segundo observadores, parece que ninguém é infeliz (e pobre) o suficiente para ser isento de corte orçamentário, ao mesmo tempo, ninguém é feliz (e rico) o bastante para que lhe cortem os impostos. Aparentemente, decisões orçamentárias não envolvem a pena de morte, mas o domínio ideológico norte-americano do mundo desde os anos 90 ocorreu precisamente em razão delas.

De forma que nada mais lhes resta senão aplaudir a Força e o Capitalismo de Desastre. E os primeiros a fazê-lo são as próprias vítimas do Sistema. Como se os judeus, encaminhados à câmara de gás, tivessem que fazê-lo dando vivas a Hitler!

Sobre o autor

Márcia Denser
A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos do colunista Márcia Denser.

Publicado originalmente no "congressoemfoco"

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Opinião

Fonte da ruptura

Miriam Leitão - O Globo
Com Steve Jobs o mundo teve sua chance de reencontro com o verdadeiro sentido da economia: alguém que, do nada, cria riqueza, empregos, inovações, produtos. Jobs mudou o cotidiano, anteviu necessidades ainda não sentidas, produziu criaturas sobre as quais nos perguntamos como foi possível a vida sem elas.

É difícil imaginar uma área não afetada por esse furacão chamado Steve.

Jobs é daquelas pessoas que aparecem raramente. Sua capacidade de inovação, genialidade e intensidade estão sendo objeto de reflexão neste momento de perda. Ao pensar nele a gente vai se dando conta do quanto ele comandou as mudanças pelas quais passamos.

Steve Jobs criou conceitos novos, ampliou o existente. O smartphone não foi invenção dele, mas o iPhone levou adiante as possibilidades do telefone inteligente; o tablet não foi criatura da sua empresa, mas o iPad redefiniu e ampliou o conceito. Ele não ficou só nos artefatos, porque o iTunes e o iPod redefiniram a indústria da música. A Pixar, de laboratório de efeitos especiais de George Lucas, virou o centro do novo cinema gráfico.

A imprensa está hoje repleta de reflexões inteligentes sobre a inteligência de Jobs e como isso alterou cada atividade econômica. É impossível separar, por exemplo, Steve Jobs do jornalismo como nós o conhecemos hoje.

O especialista em mídia digital Jeff Sonderman publicou, na época da renúncia de Jobs, um artigo republicado agora no "Poynter. " Na sua visão, nos últimos anos, a Apple de Jobs conseguiu ao mesmo tempo ajudar, transformar e criar uma ruptura na mídia. O título é um bom resumo da tese: "Como Steve Jobs mudou (mas não salvou) o jornalismo."

O jornalismo vive o desconforto das revoluções que ao mesmo tempo destroem conceitos, criam novos, e ampliam incertezas. A travessia nos últimos anos foi pontuada pela presença das infernais e geniais criaturas de Jobs.

"O iPhone e o iPad criaram tendências inescapáveis. Eles não são apenas artefatos, mas toda uma nova categoria de produtos da economia do conteúdo", escreveu o especialista.

É avassaladora a presença dele em inúmeras áreas, sem dúvida, mas o interessante é também o fato de que ele incorpora uma figura indispensável à economia e ao capitalismo: o criador de eventos, produtos, necessidades e transformações.

Sua ausência vem no meio de uma profunda crise econômica e num momento em que os Estados Unidos precisam reencontrar sua capacidade de criar inovadores.

Em décadas passadas a economia americana permitiu o aparecimento de gênios que encubaram revoluções em garagens. Essa é a parte mais brilhante do país.

Hoje a economia mundial vive os danos causados pelas criaturas perigosas e tóxicas nascidas no mercado financeiro. Faz pouco sentido demonizar o mercado; as inovações e produtos financeiros permitiram geração de poupança, sustentaram negócios da economia real, protegeram iniciativas em todas as áreas produtivas.

Mas é inegável que a crise está drenando as forças da economia americana e mundial. É lá que riquezas desaparecem e os bancos são salvos com dinheiro público em nome do bem coletivo.
A Apple afundou no período "jobless": quando seu fundador se afastou da empresa. Pre

Prejuízo, perda de capacidade inovadora, queda de valor de mercado foram o final daqueles anos sem Steve Jobs. Sua volta produziu o melhor momento da companhia. Curioso é que a Apple não foi ao governo americano pedir para ser socorrida alegando ser um símbolo nacional. Fez o mais racional: chamou seu mago de volta.

Steve Jobs voltou melhor do que saiu. É como se no período em que esteve ocupado com efeitos especiais, toy stories da Pixar e os softwares da NeXT uma parte do seu cérebro estivesse voltada para a Apple, vendo-a de fora. E assim, ao voltar, ele soube entender melhor a natureza da empresa que criou, e ela, como nunca, passou a oferecer complexidades simples para o usuário. O que era sofisticado tecnologicamente tinha que virar algo capaz de ser entendido por uma criança.

Meu neto Daniel, de um ano e meio, está convencido de que o melhor brinquedo do mundo é o iPad de seu pai. Os adultos descobrem todas as outras dimensões do brinquedo.

As lições do evento da queda e ascensão da Apple, do período com e sem Jobs, ensinam um pouco sobre a economia de mercado, como ela deve ser. A teia protetora do Estado, que no Brasil — mas não só aqui — salva empresas quando elas se enfraquecem, impede a saída encontrada pela Apple.

Se a empresa sobreviverá ao desaparecimento da sua figura central é menos importante. O relevante é entender que será vitoriosa no futuro a economia que permitir inovações que promovam rupturas. O capitalismo mostrou mais capacidade de fazer isso ao longo da história dos saltos tecnológicos recentes, mas até nisso é preciso cuidado.

"Não se deixe cair na armadilha dos dogmas, o que pode significar viver com o resultado do pensamento do outro", disse Steve Jobs, certa vez.

A história de Jobs mostra que é preciso liberar a força criativa na economia. E que o medo do fracasso — como o que rondou a Apple — pode ser o melhor impulso para o salto.

Saber, como os bancos sabem hoje, que todos serão salvos ao final pelo Fed ou pelos Fundos de Estabilização não faz bem à economia.

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Manchetes do dia

Sábado, 08 / 10 / 2011

Folha de São Paulo
"Inflação chega a 7,3% ao ano e é a maior desde 2005" 

IPCA acumulado em 12 meses gera críticas à estratégia do Banco Central para combater alta de preços no país
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Apesar dos sinais de desaquecimento da economia brasileira, os preços continuaram subindo em setembro (0,53%) e o IPCA acumulado em 12 meses bateu em 7,3% - maior marca desde maio de 2005, quando atingiu o valor de 8,05%. O índice contrariou as expectativas do BC, que no início do ano previa que a inflação em 12 meses teria um pico em agosto e começaria a recuar em setembro. A projeção da autoridade monetária agora é que isso ocorra em outubro.

O Estado de São Paulo
"Meirelles entra no PSD e pode disputar a Prefeitura de SP"

Ex-presidente do BC troca PMDB pelo partido de Kassab no último dia de filiações

O ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles deixou o PMDB e filiou-se ao PSD, mudando seu domicílio eleitoral de Goiás para São Paulo. Ele teve a garantia do presidente do partido, Gilberto Kassab, de que poderá concorrer no ano que vem à Prefeitura de São Paulo ou em 2014 ao governo do Estado ou a um cargo numa chapa presidencial. A filiação de Meirelles foi a maior surpresa reservada ao PSD no último dia de mudança partidária para quem pretende disputar a eleição municipal em 2012. Em nota divulgada pelo PSD atribuída a Meirelles, ele nega que sua filiação seja um “projeto eleitoral” e afirmou que quer apenas “contribuir no debate”.

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sexta-feira, outubro 07, 2011

Empacou, como certas candidaturas ubatubanas...

Coluna do Celsinho

Cem mil

Celso de Almeida Jr.
Ontem, o Blog do Núcleo Infantojuvenil de Aviação-NINJA, ultrapassou as 100.000 visualizações.
 
O NINJA, que procura levar a cultura aeronáutica para crianças e jovens, conta com o blog para atingir o público leitor adulto, na expectativa de conquistar novos aliados.
 
O resultado tem sido extremamente gratificante.
 
Com o grande alcance das redes sociais, o Núcleo Infantojuvenil de Aviação consegue divulgar com maior eficiência as suas propostas.
 
Hoje, valendo-se de vídeo aulas, encaminhadas para diversas localidades do Brasil, o NINJA rompe os limites geográficos de Ubatuba.
 
Um fato que comemoramos com muito entusiasmo e compartilhamos com todos os colaboradores e apoiadores do projeto.
 
Neste instante, estamos em tratativas com o Aeroclube Regional de Taubaté para levar, em 2012, as atividades presenciais do NINJA até nossa vizinha cidade.
 
Hoje, na Sala Gastão Madeira, instalada no Colégio Dominique, crianças e jovens de diferentes escolas públicas e particulares de Ubatuba praticam, gratuitamente, aeromodelimso, plastimodelismo, estudo de meteorologia, navegação aérea, conhecimentos técnicos, teoria de voo, regulamentos de tráfego aéreo, simulação de voo, além de diversas atividades lúdicas.
 
Nossa intenção é despertar vocações, revelar talentos e gerar oportunidades profissionais, mostrando aos jovens o promissor mercado aeronáutico.
 
Aos amigos leitores desta coluna semanal conto com o apoio na divulgação do Blog do Ninja e dos Detalhes do Projeto: www.ninja-brasil.blogspot.com
 
Juntos, voaremos mais alto!

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Opinião

Do analfabetismo à 'educação sensual'

Washington Novaes - O Estado de S.Paulo
Voltam os jornais a povoar-se de notícias inquietantes sobre os dramas da educação no Brasil, sua repercussão sobre a economia e as taxas de pobreza e desigualdade. Segundo órgãos internacionais, o Brasil está em 88.º lugar nos índices de educação, entre 128 países pesquisados - em situação mais precária até que Paraguai, Peru, Colômbia, Equador, Bolívia e Honduras. Segundo a OCDE (Estado, 17/9), quem conclui curso superior tem renda média 156% maior que a dos que não passam pela universidade. Mas no Brasil só 12% das pessoas entre 25 e 34 anos têm curso superior. Uma das razões certamente está em que gastamos em educação (5,3% do PIB) menos que a média aferida pela OCDE (5,9% em 2008).

Não podem surpreender as consequências no mercado de trabalho, principalmente na oferta de mão de obra qualificada. Metade dos alunos do terceiro ano da escola fundamental pública e privada não aprendeu os conteúdos previstos; 44% não têm conhecimentos necessários para a leitura; 46%, para a escrita; 57%, para Matemática. Isso na média, no Nordeste os índices são ainda mais preocupantes (Estado, 26/8).

Com tantas dificuldades, 9,6% da população (18,43 milhões de pessoas) é ainda analfabeta, segundo o IBGE (42,6% entre maiores de 60 anos, 16,4% entre os pobres, 52,2% entre nordestinos). Mas a erradicação do analfabetismo não está no plano plurianual Brasil Maior, enviado pelo Executivo ao Congresso. O que pretende o Ministério da Educação é reduzir a porcentagem de analfabetos a 6,7% da população (12,86 milhões), segundo o respectivo ministro. Principalmente entre mulheres, habitantes da zona rural e afrodescendentes.

As deficiências educacionais repercutem com intensidade na área do conhecimento científico, em que o número anual de patentes solicitadas no País (previsão de 36 mil em 2011) é 17 vezes menor que o dos Estados Unidos (Estado, 4/7), embora pudesse ser um pouco maior, já que o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), com restrita capacidade operacional, tem 154 mil pedidos "em tramitação" e a média de conclusão é de oito anos. De qualquer forma, a iniciativa de inovação científica em nossas empresas não passa de 38% do total, ante mais de 70% na Alemanha. E, para agravar, o Brasil só investe 1,09% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia (Estado, 4/7).

Falta de recursos? Depende de como se olhe. O País - como foi dito aqui na semana passada - gasta em subsídios na economia, juros bancários da dívida e ajuda a mutuários mais de R$ 100 bilhões por ano, algumas vezes mais que no Bolsa-Família. Não sobra muito para investir em cada aluno no sistema educacional, quatro vezes menos que nos Estados Unidos, por exemplo. Aqui, o investimento médio é de R$ 1.221 por aluno no ensino fundamental, R$ 1,5 mil no ensino médio e R$ 11,8 mil no superior. E já não falta quem proponha até a supressão do ensino da escrita na escola. Quando há décadas se sabe, a partir da proposta do professor Darcy Ribeiro para os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), onde levada à prática com competência: só a escola de tempo integral - dois turnos, três refeições diárias, período de estudo acompanhado fora de classe, assistência psicológica, esporte dirigido - pode suprir as carências das crianças de famílias mais pobres, compensar o que elas não podem ter em casa.

A importância do acompanhamento, da assistência, foi comprovada em pesquisa da prefeitura de Nova York, que concluiu ser o melhor rendimento escolar nas escolas públicas o de crianças de famílias imigrantes (vietnamitas, sul-coreanas, chinesas), em que pais e mães dedicavam em média três horas e meia diárias ao acompanhamento das tarefas escolares - quando nas famílias das demais crianças era de uma hora por dia. Outra pesquisa da mesma prefeitura mostrou que parte do tempo que deveria ser dedicado ao ensino das matérias tradicionais nas escolas públicas era tomado pela educação para o trânsito, pelo acompanhamento e orientação da sexualidade dos pré-adolescentes, pelo ensino da relação com pessoas mais velhas, etc. - tarefas que deveriam caber às famílias. Mas como exigir delas, se os pais aqui mal têm tempo para cumprir sua jornada de trabalho fora, mais o tempo na condução?

Parece utópico trazer à discussão estudo feito pela Universidade de Michigan, há umas duas décadas, a pedido do governo de Israel, que queria orientação sobre como trabalhar nas escolas com crianças superdotadas. O estudo mostrou que essas crianças eram especialmente indicadas para uma formação especial, que partisse do princípio de que todo conhecimento, para chegar ao cérebro humano, tem de passar obrigatoriamente por um dos sentidos - visão, audição, tato, olfato, paladar. Por isso, seria preciso investir no que o estudo chamou de "educação sensual", que passe por um deles, já que "a ciência só florescerá na mente de pessoas sensíveis e emocionais".

Um dos exemplos citados era o de um grande pianista, que contava haver passado, quando pequeno, horas de cada dia debaixo da cauda de um piano tocado pela mãe pianista - acostumou-se, nessa prática, a sentir na pele cada nota do piano, como se fosse uma gota de água que caísse. Outro cientista - um químico especializado em ligas metálicas - narrou que passava horas de olhos fechados imaginando-se atropelado por um trem em alta velocidade, ou um asteroide, para poder avaliar e imaginar a resistência da liga que buscava. Albert Einstein, quando pesquisava as relações entre gravidade, velocidade e tempo, imaginava-se dentro de um elevador que subia e descia, com um raio de luz pulando para a frente e para trás.

Há claras opções preferenciais a fazer: investimento maior e prioritário em educação, preferência para as faixas de menor renda, escolas de tempo integral como as sugeridas por Darcy Ribeiro, dotações maiores para a área científica. Se for possível, chegar também ao requinte da "educação sensual"...

Washington Novaes, jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 07 / 10 / 2011

Folha de São Paulo
"Meia-entrada vai custar R$ 180 mi; Fifa rejeita fatura" 

Prefeito do Rio sugere que Estados, União e municípios banquem o benefício; outras cidades-sedes são contra
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A Fifa informou ao governo federal que a concessão de meia-entrada na Copa-14 pode custar US$ 100 milhões (R$ 180 milhões) a entidade, relatam Natuza Nery e Filipe Coutinho. A estimativa do potencial prejuízo foi usada como argumento pela entidade para vetar o desconto a idosos e estudantes no país.

O Estado de São Paulo
"Disputa por verba é estopim do escândalo das emendas"

Deputado Barbiere denunciou esquema depois que bancada evangélica investiu em seu reduto eleitoral

Disputas por redutos eleitorais no interior paulista, acirradas pelo uso de repasses de verba estadual e também federal, fizeram vir a público o escândalo das emendas na Assembleia de São Paulo. Parlamentares da bancada evangélica em Brasília e na Assembleia direcionaram mais de R$ 5 milhões para a base eleitoral do deputado estadual Roque Barbiere (PTB). A maior fatia foi para Birigui, cidade em que Barbiere obteve mais de 50% dos votos na eleição de 2010, mas foi derrotado na disputa pela prefeitura em 2008. A amigos, Barbiere disse que a "invasão" dos evangélicos em seus redutos eleitorais estaria entre os motivos que o levaram a denunciar a venda de emendas na Assembleia. O reforço dessa estratégia com recursos federais também teria desagradado ao parlamentar.

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quinta-feira, outubro 06, 2011

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Opinião

Retrocesso nos aeroportos

O Estado de S.Paulo - Editorial
Enganou-se quem pensou que o leilão do Aeroporto de São Gonçalo do Amarante, em Natal, no fim de agosto, realizado sem a participação da Infraero no negócio, estabeleceria um padrão para concessões à iniciativa privada dos terminais aéreos no País. A minuta do edital de concessão dos Aeroportos de Cumbica, em São Paulo, de Viracopos, em Campinas, e de Brasília - disponível para consulta pública por 30 dias - reintroduz a Infraero como sócia, determinando que a empresa detenha nada menos que 49% das ações das concessionárias. A estatal terá ainda poder de veto sobre "decisões estratégicas" das companhias privadas que deveriam, em princípio, administrar os terminais. Essas exigências representam um verdadeiro retrocesso, reproduzindo, em essência, o esquema que levou os aeroportos do País ao caos em que se encontram.

O que ocorreu com o Aeroporto de Natal foi uma privatização efetiva, com acirrada disputa, graças à qual o ágio pago pelo consórcio vencedor foi 229% superior ao valor mínimo, elevando o preço final a R$ 270 milhões. Nos três grandes aeroportos que devem ir a leilão em dezembro, segundo promete a Secretaria de Aviação Civil (SAC), quaisquer que sejam os consórcios vencedores, eles terão de dividir, na prática, a administração dos terminais com a Infraero.

Estabelece também o edital, com o argumento de estimular a concorrência, que nenhuma concessionária privada poderá administrar mais de um aeroporto. A Infraero, porém, participará de todos. Há ainda um objetivo corporativista nessa decisão que fica nítido com a cláusula que permite que a Infraero venda a seus funcionários sua participação nas futuras concessionárias, se e quando estas tiverem condições de abrir o seu capital.

O ministro-chefe da Secretaria de Aviação Civil, Wagner Bittencourt, de quem se esperava uma nova orientação do transporte aéreo no País, além de permitir que um modelo que não deu certo tenha continuidade, embora disfarçado de parceria igualitária com o setor privado, complicou ainda mais a privatização ao colocar no edital que parcela da receita bruta anual das concessionárias - não da receita líquida, note-se - proveniente do aluguel de lojas, exploração de estacionamento e outros serviços irá para o Fundo Nacional de Aviação, subordinado à SAC, que deverá aplicar esses recursos na expansão de aeroportos regionais.

Esse ônus não pesou na privatização do Aeroporto de Natal e, dependendo do porcentual a ser fixado, pode inviabilizar as futuras concessões. A SAC acabou transferindo para sua esfera uma das atribuições da Infraero, que também teria de modernizar aeroportos regionais com os recursos obtidos pelos terminais comprovadamente lucrativos, que não passam de sete no País. Atribuição que a estatal não cumpriu.

Em termos financeiros, a equação também é complexa. Ao que se informa, o BNDES vai proporcionar financiamentos para Cumbica, Viracopos e Brasília nas mesmas condições do Aeroporto de Natal. Mas vale notar que a modalidade de financiamento para aquele terminal foi a de project finance, que requer elevado retorno, que pode ser comprometido pela cobrança pretendida pela SAC.

Como se não bastasse, o governo praticamente excluiu do processo as empresas aéreas, cuja fatia nas concessões não poderá passar de 1%. Além disso, elas estariam sujeitas ao pagamento de uma "tarifa de conexão", que supostamente beneficiaria o Aeroporto de Brasília. Segundo Bittencourt, essa taxa será calculada por passageiro, mas não será paga por ele e, sim, pelas empresas. Dá para acreditar que os usuários sejam poupados desse custo?

Tudo isso pode afugentar os investidores, uma vez que terão de assumir o compromisso de pesados aportes. O edital prevê a instituição de uma espécie de "gatilho", um mecanismo semelhante ao que existe na concessão de rodovias, que sinalizaria o momento em que a concessionária deve investir antes que a capacidade do terminal esteja para esgotar-se. Mas será preciso, primeiro, passar pelos obstáculos do edital.

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Quinta-feira, 06 / 10 / 2011

Folha de São Paulo
"Steve Jobs, da Apple, morre aos 56 anos" 

Câncer no pâncreas mata o empresário que reiventou celular, tablet e o jeito de ouvir música
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Steve Jobs, cofundador da Apple - empresa mais valiosa do mundo -, morreu na Califórnia, aos 56. Ele havia deixado o comando da companhia em agosto para tratar um câncer de pâncreas. Desde que reassumiu o comando da companhia, em 1997, cargo do qual fora destituído dois anos antes, o americano elevou as ações da Apple de um patamar de US$ 5 para mais de US$ 370.

O Estado de São Paulo
"Alckmin cobra deputado que denunciou venda de emendas"

Barbiere, que comparou colegas da Assembleia a 'camelôs', deve dizer tudo o que sabe, afirma governador

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), cobrou explicações do deputado estadual Roque Barbiere (PTB) sobre as denúncias de venda de emendas ao Orçamento na Assembleia. “E eu entendo que ele (Barbiere) tem o dever, como homem público, de apontar o que sabe”. Anteontem, o deputado afirmou que seus colegas atuam como "camelôs" e disse ter alertado o governo paulista sobre as irregularidades. Alckmin negou: "Ele não citou um caso para ninguém". O governador disse que o caso “está sendo averiguado com rapidez e rigor" e que as informações sobre as emendas liberadas já foram publicadas pelo governo na internet. "E tudo está transparente."

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quarta-feira, outubro 05, 2011

Aí tem coisa...

Comissários em fúria...

Gisele Bündchen incomoda tutores estatais (Editorial)

O Globo
Desde 2003, com a vitória eleitoral da aliança lulopetista, a sociedade tem sido surpreendida, de tempos em tempos, por atitudes de autoridades federais dentro do figurino de regimes não democráticos, em alguns casos sem nada a dever ao pensamento de grupos fundamentalistas conservadores.

Numa visão superficial da colcha de retalhos político-ideológica existente no país, seria algo incoerente, pois grupos que desembarcaram em Brasília em 2003 na caravana vitoriosa lulopetista sempre procuraram ser vistos como progressistas, autênticos democratas.

Engano. Na verdade, sempre fizeram parte das alianças de esquerda frações autoritárias, defensoras de um Estado forte a pairar sobre uma sociedade incapaz de decidir o que é bom para ela.

Serão estes agentes da clarividência, donos de verdades inabaláveis, que irão “proteger” a população contra maus hábitos e más influências. Neste mesmo coquetel ideológico há, misturado, o ingrediente do “politicamente correto”, de cujo jargão, por exemplo, fazem parte termos como “afrobrasileiro”.

É uma espécie de cultura refratária à leveza de espírito e ao bom humor que um dia já foram considerados aspectos da alma brasileira.

O mais recente exemplo de ação desses grupos infiltrados no poder é a reação da titular da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), Iriny Lopes, a uma campanha publicitária de roupas íntimas femininas, estrelada pela modelo Gisele Bündchen.

Em três comerciais para TV bem humorados — grave delito —, a agência de publicidade usou o clichê da mulher que usa a beleza para conseguir o que quer dos homens para expor alguns produtos do anunciante.

Foi demais, e a secretária formalizou ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) pedido de suspensão da campanha, por “falta de respeito à condição feminina”, tendo considerado as peças “preconceituosas e discriminatórias”. O Conar instalou processo, a ser julgado em breve. Cumpre seu papel.

Menos mal que a SPM recorreu ao órgão de autorregulamentação. Não fez como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Ministério da Saúde, contumaz infratora da Constituição ao tentar censurar propagandas quando as considera daninhas ao brasileiro.

Na Anvisa existe outro bunker de tutores estatais do brasileiro, um povo sem condições de comprar os alimentos mais saudáveis, de se medicar, e assim por diante.

Não é um problema haver reações negativas a campanhas publicitárias ou ao que seja.

Tratam-se de fatos normais numa democracia.

Anormal é quando grupos militantes de pressão, por contingências político-partidárias, passam a controlar instrumentos públicos para impor seu projeto ideológico.

Este aparelho feminista instalado no governo convive lado a lado com outra secretaria cuja missão é executar no Brasil um projeto racialista. Devido a este aparelhamento é que foi tentado contrabandear para o programa de Defesa de Direitos Humanos a censura à imprensa para o caso de divulgação de supostas ideias racistas.

O ataque da SPM à propaganda com Gisele Bündchen não é cômico. Poderia, mas se trata de algo mais sério, por ser nova tentativa de comissários de intervir na liberdade da produção audiovisual brasileira.

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Ramalhete de "causos"


O papagaio da dona Preciosa

José Ronaldo dos Santos
Na minha adolescência convivi com a família Góis, que se deslocara da Enseada para o Perequê-mirim. A matriarca, dona Preciosa, companheira valorosa do seo Dito Góis, era como outra mãe para nós (eu, Fernando, Dominguinho, Dimas...). Ao lembrar-me dela, além do seu vistoso jardim, vem-me à memória o seu falante papagaio herdado da finada sogra e o bravo cachorro chamado Radar.

Todas as vezes que precisávamos passar pelo seu quintal, era necessário chamar a querida dona Preciosa para prender o cachorro. Um de nós gritava: "Dona Preciosa, o Radar tá preso?". Conforme a resposta dela vinha a ação da gente. Se fosse “Tá. Podem passar!”, a gente prosseguia despreocupadamente. Mas de vez em quando precisávamos esperar. Em tais ocasiões ela dizia: "Esperem um pouco. Vou prender o Radar!".

Agora, a parte do papagaio: ele logo aprendeu a fala que era quase rotina; acontecia várias vezes de responder por sua dona. Era perfeita a sua imitação ("Tá. Podem passar!"). Acertava muitas vezes, mas também não foram poucas as ocasiões nas quais passamos apuros. Ou seja, a gente acreditava que era a fala da dona Preciosa dando garantias para a passagem, quando na verdade tratava-se de uma informação falsa do papagaio. E lá vinha o Radar desesperado em cima da criançada! Era um corre-corre danado!

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Opinião

Crise na Bolívia de Evo

O Estado de S.Paulo - Editorial
Ao inaugurar o seu segundo período de governo, em janeiro de 2010, o primeiro ato do presidente Evo Morales foi consagrar a transformação da Bolívia em Estado Plurinacional, conforme previa a Constituição que ele fizera redigir, aprovar e ratificar no ano anterior. A nova Carta conferiu poderes políticos sem precedentes aos 36 grupos indígenas que somam 2/3 da população nacional de 10 milhões de habitantes - o Congresso, por exemplo, passou a se chamar Assembleia Plurinacional e a sua composição deve refletir esse perfil multiétnico. Além disso, as "nações" foram dotadas de autonomia também inédita em assuntos locais, em um complicado enlace com os órgãos de governo dos 9 departamentos, 112 províncias, 327 municípios e 1.384 cantões que compõem a geografia política do país vizinho.

Em tese, portanto, as comunidades que vivem na reserva do Parque Nacional e Território Indígena Isiboro-Sécure (Tipnis), na Amazônia Boliviana, deveriam ter sido ouvidas sobre o projeto, anunciado há dois anos pelo governo de La Paz, de construir uma estrada de 306 quilômetros ligando San Ignacio dos Moxos, no Departamento nortista de Beni, a Vila Tunari, no Departamento de Cochabamba, no centro do país. O traçado atravessa a área protegida, afetando os seus recursos naturais e os meios de subsistência da maioria de seus habitantes. Estes suspeitam de que por trás da obra de US$ 415 milhões, dos quais US$ 322 milhões financiados pelo BNDES, a cargo da empreiteira brasileira OAS, está a intenção do ex-líder sindical cocalero Evo Morales de facilitar a atividade dos plantadores de coca da região, pouco preocupados, aliás, com o meio ambiente.

Em 15 de agosto, com a construção já começada, os indígenas contrários ao empreendimento iniciaram uma pacífica marcha de protesto para La Paz, onde esperavam chegar em fins de setembro, no que deveria ser o coroamento de um movimento de opinião pública pela paralisação dos trabalhos. A pressão se beneficiaria da queda da popularidade de Evo, reduzida a 30%, pela frustração com a alta dos preços e a perpetuação dos níveis de pobreza no país, desmentindo as promessas do líder populista, aliado do bolivariano Hugo Chávez. Contra esse pano de fundo, a mando de uma autoridade ainda não identificada, 400 policiais militares investiram no domingo atrasado contra os participantes da marcha.

Usaram cassetetes, bombas de gás, armas de fogo. Ninguém morreu, mas houve dezenas de feridos e crianças desaparecidas em meio ao pânico. Estilhaços da violência policial atingiram em cheio o governo. Os ministros da Defesa e do Interior denunciaram a violência e renunciaram. Evo pediu desculpas à população e criou uma comissão, com participação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, para apontar os responsáveis pela explosão de truculência - que marcará a história de Evo, que sempre se apresentou como paladino da luta contra a secular opressão dos indígenas bolivianos. Para pôr panos quentes na crise, a Assembleia Plurinacional, controlada pelo MAS, o partido do presidente, foi incumbida de convocar um referendo sobre a estrada.

Não está claro se votarão apenas os moradores da área afetada ou também os eleitores dos departamentos beneficiados. Se estes puderem votar estará criada uma causa potencial de novos conflitos políticos. De toda forma, os indígenas de Tipnis não se opõem à ideia. Com a obra já em andamento (embora suspensa desde o fatídico domingo), não faz sentido, argumentam, promover uma consulta pública sobre a sua execução. Os críticos mais radicais veem o "imperialismo brasileiro" na obra apoiada pelo BNDES por decisão do então presidente Lula, executada por uma construtora que ajudou a financiar as campanhas presidenciais de ambos os lados da fronteira e que estaria sobrefaturando o serviço. O Brasil está certo ao se distanciar do novo ciclo de tensões na Bolívia, que pode desembocar sabe-se lá no que. O país, escreveu domingo no Estado o jornalista americano Mac Margolis, tem "memória longa e pavio curto".

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 05 / 10 / 2011

Folha de São Paulo
"Para deputado, cada colega de SP tem um preço" 

Frase é de Roque Barbiere, que apontou venda de emendas na Assembleia; governo estadual diz que ele nunca denunciou
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O deputado estadual Roque Barbiere (PTB) comparou a Assembleia de São Paulo a um camelódromo e disse ter alertado o governo do Estado para a existência de um esquema em que seus colegas negociariam emendas ao Orçamento com prefeitos e com empreiteiras. "Isso é igual camelô, cada um vende de um jeito", afirmou durante entrevista.

O Estado de São Paulo
"No Judiciário, mais de 4.800 podem ter supersalário"

Estimativa parcial mostra quantos servidores seriam beneficiados com vencimento acima do teto

A proposta do Judiciário para elevar os vencimentos de servidores pode fazer com que o número de funcionários que recebem os chamados “supersalários" - acima do teto do funcionalismo, hoje em R$ 26.700 - salte dos atuais 512 para 4.814. O número é de levantamento da Anata (associação de funcionários do Judiciário) em 8 dos 50 tribunais do País. A proposta de reajuste consta do projeto de lei 6.613, que prevê correção média de 54% para analistas e 56% para técnicos, dependendo do estágio da carreira em que o servidor se encontra. Como o projeto eleva de forma linear o salário, os servidores que recebem os chamados "penduricalhos", como funções comissionadas e gratificações, ultrapassariam o teto do funcionalismo. "Se esses dados forem confirmados, é absolutamente inviável aprovar esse projeto de lei", avaliou o deputado Cláudio Puty (PT-PA), que preside a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, onde está o projeto.

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terça-feira, outubro 04, 2011

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Opinião

Dilma Rousseff, no comando do BC

O Estado de S.Paulo - Editorial
A presidente Dilma Rousseff assumiu oficialmente o comando do Banco Central (BC) e a política de juros é agora decidida no Palácio do Planalto. O plano do governo para 2012 é baixar a taxa básica para 9%, porque "ainda há margem de manobra" para novos cortes, segundo informou ao Estado o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. A conversa, com participação de dois outros membros do primeiro escalão do Executivo, foi bastante clara para eliminar qualquer dúvida: há um plano traçado no Palácio do Planalto e a decisão final caberá à presidente. Ressalvas quanto ao ritmo dos cortes - determinado com "prudência", segundo o secretário - em nada alteram o dado principal. A autonomia de fato do BC, adotada nos anos 90 e mantida nos dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é uma experiência encerrada, embora ninguém, na administração federal, o admita de forma explícita. Não há outra forma de entender as declarações do secretário-geral nem os pronunciamentos da presidente Rousseff e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, desde a última semana de agosto.

Esses pronunciamentos foram logo seguidos pelo anúncio da redução dos juros, decidida pelo Comitê de Política Monetária (Copom). A aparente dissidência - a decisão foi tomada por 5 votos contra 2 - até poderia ser interpretada como sinal de permanência da autonomia de fato. Em pouco tempo as palavras do ministro e da presidente confirmaram a interpretação oposta. Eles continuaram falando sobre os cortes de juros como se apontassem o caminho ao BC. E, na sexta-feira, a presidente foi absolutamente explícita - mais do que pretendia, provavelmente - ao defender a redução da taxa básica como resposta ao agravamento da crise internacional. "Desta vez", disse ela, "o Brasil não pode errar na avaliação do quadro externo." Não seria "admissível", acrescentou, deixar de levar em conta o risco de recessão e de deflação no resto do mundo. Não é o tom de quem apenas manifesta um desejo, mas de quem transformou o Banco Central em mais um instrumento da política econômica do governo.

Ontem, o ministro da Fazenda voltou a falar sobre as medidas possíveis diante de uma piora do cenário global e mencionou novos cortes de juros e redução do depósito compulsório dos bancos. Usou o pronome "nós", ignorando qualquer separação relevante entre o BC e o comando do Executivo.

Além de comandar a redução dos juros, a presidente da República decidiu também, segundo todas as evidências, afrouxar o regime de metas de inflação. Sem usar essas palavras, o BC admite o fato num relatório trimestral divulgado na semana passada. Pelas projeções publicadas, a inflação acumulada em 12 meses só voltará ao centro do alvo (4,5%) no terceiro trimestre de 2013 - mas essa hipótese, a mais otimista, só aparece num dos três cenários apresentados.

O afrouxamento do combate à inflação será adotado num período de eleições municipais, com salários em alta e sem garantia, além de meras promessas, de efetiva austeridade fiscal. Ao mesmo tempo, o Executivo embarca em políticas protecionistas muito mal disfarçadas, com o pretexto de tornar mais competitivos certos setores da indústria nacional. Medidas efetivas para promover esse aumento de competitividade permanecem na esfera das promessas e de planos muito mal esboçados.

Bons argumentos a favor de uma política monetária mais branda poderiam surgir em breve, com o provável agravamento da crise no mundo rico. O primeiro passo poderia ser a redução do depósito compulsório, para ampliação do crédito. Vendas de dólares, como em 2008, poderiam ser um complemento, em caso de escassez de financiamentos em moeda estrangeira. O BC tomou medidas como essas no início da grande crise, há três anos, e foi muito mais eficiente, na ação imediata, do que o Ministério da Fazenda - ao contrário da versão cultivada no Palácio do Planalto. Mas o governo preferiu agir às pressas, impondo ao BC uma ação arriscada, alimentando a expectativa de inflação e desmontando a credibilidade do regime de metas e da autoridade monetária. Esse retrocesso pode sair muito caro para o País.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 04 / 10 / 2011

Folha de São Paulo
"Metrô falha pela 2ª vez em 3 dias e afeta 75 mil" 

Pane impediu que estações da linha amarela abrissem; atraso foi de quase 4 horas
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Uma falha no sistema de sinalização dos trens prejudicou 75 mil usuários da linha 4-amarela do metro.A prefeitura colocou ônibus extras para os passageiros, mas eles foram insuficientes para a demanda.

O Estado de São Paulo
"Dilma diz que Europa deve evitar ajuste fiscal recessivo"

Na Bélgica, presidente lembra das décadas de estagnação na América Latina para dizer que só austeridade não basta

A presidente Dilma Rousseff sugeriu à Europa que rompa o ciclo de ajustes fiscais para combater a crise. O conselho foi dado ao premiê belga, Yves Leterme, em sua visita a Bruxelas. Dilma lembrou que a América Latina passou nos anos 1980 e 1990 por uma crise de dívidas, que causou "perdas bastante significativas". Essa experiência mostrou que reajustes fiscais extremamente recessivos só aprofundaram o processo de recessão, de perda de oportunidades e de desemprego", disse Dilma. Para ela, "dificilmente se sai da crise sem aumentar o consumo, o investimento e o nível de crescimento da economia". Em resposta, o premiê belga afirmou que ajuste no bloco e “equilibrado".

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segunda-feira, outubro 03, 2011

Música


Guitarra
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Sidney Borges
Muito se fala das influências sofridas pelos criadores da Bossa Nova. Roberto Menescal confessa que prestou atenção às gravações de Julie London e ficou fascinado com a guitarra que marcava o ritmo ao fundo. Aos poucos todos os músicos e apreciadores de música ficaram fascinados com a mesma guitarra, de Barney Kessel. Ouça você também e tire suas conclusões.
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Barney Kessel aqui
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A conferir...

Vendedores de milagres

Blog do Alon
O vetor político não deve imaginar que vai surgir do nada, do vácuo, aparecendo domingo pela manhã na porta de casa para tocar a campainha e oferecer um elixir milagroso. E que o comprador vai cair nessa

A política brasileira habituou-se a um método invertido. Em vez de os políticos terem a coragem de aparecer com a própria cara ao eleitor, procuram antes saber do que o eleitor gostaria, para daí assomarem como legítimos intérpretes do desejo popular.

Daí que liberais se transformem repentinamente em estatistas, e velhos intervencionistas subam ao palco para cantar as glórias do liberalismo. Claro que não assim escancarado. Sempre “traduzido”, para que “o povo entenda”.

Eis um problema dos partidos brasileiros.

Em vez de se oferecerem à sociedade como canais de acumulação e transmissão de visões a respeito das diferentes formas de organização política e social, reduzem-se a ajuntamentos de gente disposta a vestir qualquer máscara para tomar o poder.

Ou para manter o poder.

Uma vantagem competitiva do PT sobre os adversários ao longo dos anos de crescimento do partido foi ter desafiado essa lógica. Se bem que a recente força incontrastável do líder maior e as circunstâncias vão esmaecendo isso.

Partidos ficam fortes quando expressam organicamente o que uma parte (daí o nome) da sociedade acha que deve ser feito do país, ou do mundo.

E chegam ao poder quando essa parte vira maioria. Isso na democracia.

Mas é preciso haver alguma legitimidade. E o partido coloca o ovo em pé quando consegue se apresentar naturalmente como protagonista de uma onda histórica.

No Egito, a Fraternidade Muçulmana hibernou durante décadas até surgir a oportunidade. Após o esgotamento do modelo nacionalista-militar, o mundo árabe vê a ascensão do Islã como promessa de transformação social.

Se para o bem ou para o mal, a História dirá.

Mas o fato é que a FM está lá na hora certa, organizada em torno de suas ideias, propósitos e ações. Assim como, por exemplo, os comunistas e socialistas portugueses quando eclodiu a Revolução dos Cravos, em 1974.

Um fato já algo distante, mas que vale a pena relembrar.

Vindo para mais perto, no começo da década de 1970 o então MDB (Movimento Democrático Brasileiro) chegou a pensar em se autodissolver. Logo depois ganhou a eleição de 1974 e abriu o período de declínio do regime militar.

O MDB estava lá quando o povo decidiu que era hora de abrir, de buscar mais democracia, para atacar problemas como a inflação e a péssima distribuição de renda.

Assim como o PSDB pôde pegar a onda da luta contra a hiperinflação e garantir oito anos em Brasília.

Assim como o PT pôde apresentar-se como o mais indicado para promover justiça social e fazer o Brasil voltar a crescer.

O vetor político não deve imaginar que vai surgir do nada, do vácuo, aparecendo domingo pela manhã na porta de casa para tocar a campainha e oferecer um elixir milagroso.

Está cada vez mais difícil fazer o comprador cair nessa.

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Opinião

O Brasil torce pela China

O Estado de S.Paulo - Editorial
O Brasil terá um bom apoio para enfrentar a crise internacional, se a China, principal mercado para suas matérias-primas, continuar em crescimento. Mas falta saber se a própria economia chinesa poderá manter um bom ritmo de expansão com o mundo rico estagnado. Há sinais "óbvios" de desaceleração, segundo uma nota divulgada nesta sexta-feira pela agência estatal Xinhua. Alguns analistas arriscam previsões de longo prazo. O crescimento chinês será inferior a 5% em 2016, segundo 59% dos entrevistados numa sondagem realizada pela Bloomberg em vários países. A desaceleração já ocorrerá no próximo ano, de acordo com 42% dos 1.031 investidores consultados. O próprio governo chinês, no entanto, mantém um discurso otimista sobre as perspectivas de curto prazo e o roteiro de ajuste econômico do país.

No primeiro semestre o Produto Interno Bruto (PIB) chinês foi 9,6% superior ao de um ano antes. Num período pouco maior - de janeiro a julho - dados parciais continuaram mostrando um nível de atividade muito alto. As vendas no varejo, o investimento em máquinas e construções e o comércio exterior foram, respectivamente, 16,8%, 25,4% e 25,1% maiores que os de igual período de 2010. Esses números foram apresentados na semana passada pelo presidente do Banco do Povo da China, o banco central, Xie Xuren, durante a assembleia conjunta do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. "O desenvolvimento saudável e estável da economia chinesa continuará sendo uma contribuição positiva para a recuperação da economia global", afirmou.

O próprio FMI projeta uma desaceleração muito pequena para a China: 9,5% de expansão do PIB neste ano e 9% em 2012, resultados muito parecidos com a média dos últimos dois anos - 9,2% em 2009 e 10,3% em 2010.

Esse notável desempenho resultou da conjugação de um grande estímulo à demanda interna e da manutenção de um grande esforço de exportação num mercado muito menos dinâmico do que antes da crise. Em 2010, as exportações mundiais de bens aumentaram 14,1%, mas essa variação mal compensou a diminuição de 12,1% ocorrida no ano anterior. Na semana passada a Organização Mundial do Comércio reduziu de 6,5% para 5,8% a projeção de crescimento das exportações globais neste ano.

As perspectivas para 2012 são de uma expansão menor do comércio internacional, por causa do cenário econômico previsto para o mundo rico - uma desaceleração muito forte ou, segundo os mais pessimistas, uma recessão. Esta última hipótese depende principalmente de fatores políticos. Se o Congresso americano rejeitar as medidas de estímulo contidas no pacote fiscal proposto pelo presidente Barack Obama, a economia americana levará muito mais tempo para sair da estagnação. Se novos impasses na Europa agravarem a situação dos países mais endividados, o estrago no setor financeiro terá um forte impacto no setor produtivo. Mas há sinais positivos. A mobilização política pela aprovação do novo modelo do fundo de estabilização europeia - aumento de recursos para 440 bilhões e maior amplitude de ação - é um dado animador, embora insuficiente para eliminar as preocupações.

Uma desaceleração maior da economia chinesa dependerá em grande parte da evolução econômica do mundo rico. Quanto pior o quadro nos Estados Unidos e na Europa, tanto piores as perspectivas da China a curto prazo. Nesse caso, as cotações das matérias-primas serão com certeza afetadas, exceto se as condições de oferta de produtos agrícolas forem muito prejudicadas por eventos naturais. Mas o governo chinês tentará, de toda forma, impor um freio ao crescimento, para conter as pressões inflacionárias.

Se o freio for moderado, melhor para o Brasil. De janeiro a agosto o País exportou para o mercado chinês produtos no valor de US$ 29 bilhões, 17,4% da receita global. Nenhum outro país comprou tanto do Brasil. Se os preços das commodities caírem, a receita comercial brasileira será fortemente prejudicada no próximo ano.

O País pagará pela negligência do governo em relação às condições efetivas de redução de custos e de elevação da competitividade industrial.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 03 / 10 / 2011

Folha de São Paulo
"Planalto quer impor teto salarial aos três Poderes" 

Governo enviará projeto ao Congresso para acabar com os supersalários
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A presidente Dilma Rousseff enviará ao Congresso um projeto para acabar com brechas na legislação que permitem a servidores dos três Poderes receber salários acima do teto do funcionalismo, revela Natuza Nery. Atualmente, cada Poder adota seus próprios critérios para definir o que se enquadra no limite e o que pode ser recebido além do teto salarial - de R$ 26,7 mil, equivalente aos vencimentos dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

O Estado de São Paulo
"Deputado dirá ao MP que empreiteira compra emenda"

Roque Barbiere (PTB) afirma ao Estado que vai denunciar esquema de corrupção na Assembleia de São Paulo

Na primeira entrevista após ter apontado um esquema de venda de emendas na Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado Roque Barbiere (PTB) disse ao repórter Chico Siqueira que vai confirmar as denúncias no Conselho de Ética da Casa e no Ministério Público Estadual. Em agosto, Barbiere gravou um vídeo para um canal de internet em que acusava entre “25% e 30%" dos deputados de vender emendas e fazer lobby de empreiteiras. Barbiere disse não estar arrependido das denúncias, mas admite que pode ter errado "na porcentagem, para cima ou para baixo". Ele vai dizer nos próximos dias ao Conselho de Ética e aos promotores que as empreiteiras “compram" dos deputados as emendas e as oferecem a prefeitos.

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domingo, outubro 02, 2011

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Opinião

A Comissão da Verdade

O Estado de S.Paulo - Editorial
A criação da Comissão Nacional da Verdade, proposta no 3.º Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3), assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro de 2009 e aprovada pela Câmara dos Deputados no último dia 21 (será votada agora no Senado), tem como objetivo precípuo investigar e divulgar a "verdade histórica" sobre a ditadura militar de 1964/1985 para "promover a reconciliação nacional". Um passo decisivo - e, para muitos, suficiente - nessa direção já foi dado pela Lei da Anistia, de 1979, que impede a responsabilização penal por crimes políticos cometidos naquele período, assim consideradas tanto as ações armadas da guerrilha rural e urbana como as ações repressivas praticadas por agentes do Estado - inclusive a tortura.

Com a pedra colocada pela Lei da Anistia sobre esse conflito que durante muitos anos jogou brasileiros contra brasileiros, a tendência seria que o tempo consolidasse a desejada reconciliação nacional, inclusive a partir dos ensinamentos extraídos daquela traumática experiência histórica. Mas com o advento do governo do PT, a partir de 2003, e a chegada ao poder de muitos antigos militantes da luta armada, sucederam-se as tentativas de abrir brechas na Lei da Anistia, a partir de uma perspectiva unilateral. Dizia o texto assinado por Lula na apresentação do PNDH-3: "No tocante à questão dos mortos e desaparecidos políticos do período ditatorial, o PNDH-3 dá um importante passo no sentido de criar uma Comissão Nacional da Verdade, com a tarefa de promover esclarecimento público das violações de Direitos Humanos por agentes do Estado na repressão aos opositores. Só conhecendo inteiramente tudo o que se passou naquela fase lamentável de nossa vida republicana o Brasil construirá dispositivos seguros e um amplo compromisso consensual - entre todos os brasileiros - para que tais violações não se repitam nunca mais". Sobre violações de direitos humanos praticadas por "opositores", nenhuma palavra.

O projeto de criação da Comissão da Verdade -que agora tramita no Senado - acabou sendo escoimado de radicalismos unilaterais e se concentra agora na ideia do estabelecimento de um grupo de sete pessoas nomeadas pela Presidência da República que se dedicará, pelo prazo de dois anos, a levantar informações sobre a chamada "guerra suja", visando, principalmente, a apurar o paradeiro de brasileiros desaparecidos ou as circunstâncias em que pessoas foram mortas naquele entrevero. As negociações que permitiram a aprovação do projeto pela Câmara incluíram a ampliação do período que será investigado, de 1946 - fim da ditadura Vargas - até 1988 - já em pleno processo de redemocratização. Venceu-se, assim, a resistência dos que se opunham a colocar na berlinda exclusivamente os mais de 20 anos do regime militar de 1964.

Houve acordo também sobre a definição do perfil dos futuros integrantes da comissão. Serão necessariamente pessoas desvinculadas de partidos, organizações não governamentais ou dos quadros da administração pública, que demonstrem, até o ponto em que isso é possível reconhecer, postura isenta em relação aos fatos a serem apurados.

A maneira como a Comissão da Verdade está sendo constituída parece indicar que o bom senso afinal prevalecerá, em benefício do objetivo maior de reconciliação nacional e da construção de um futuro assentado em bases de convivência democrática. A última tentativa de impor a essa questão, em nome de uma visão estreita de direitos humanos, um tratamento sectário e unilateral, foi derrotada essa semana na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara. Projeto de autoria da deputada Luiza Erundina (PSB-SP), que previa a revisão da Lei da Anistia e a possibilidade de levar a julgamento agentes do Estado responsáveis por mortes, torturas e desaparecimento de opositores do regime militar, foi rejeitado por expressiva maioria.

Por mais dolorosa que seja a memória de episódios da ditadura, a Lei da Anistia colocou um ponto final nessa questão. Resta apenas o trabalho de recompor historicamente esse período de triste memória da vida nacional, até para evitar no futuro a repetição dos mesmos erros. É a missão que caberá à Comissão da Verdade.

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