sábado, setembro 24, 2011

Nós vamos invadir tua praia... Ou melhor, tua floresta...

Colunistas

O colapso neoliberal – Volume II

“Há uma crise que já está começando. Porque é isso que o mundo está fazendo há alguns meses: financeiramente despencando”

Márcia Denser
Estreou esta semana na tevê a cabo Wall Street – o dinheiro não dorme, uma produção da Fox (argh!) dirigida por Oliver Stone. Não querendo dar release de Stone (mas já dando), um tremendo diretor com um pensamento de esquerda, cuja filmografia inclui obras antológicas como Platoon (86), o primeiro Wall Street (87), Nascido a 4 de julho (89), Assassinos por natureza (94), JFK (91), Nixon (95), Um domingo qualquer (99), inexplicavelmente pontuadas por abordagens equivocadas, como o recente W (2008) , uma biografia estupidamente “psicologizada” de George W. Bush, que deixa do lado de fora o mais importante, omitindo suas motivações e ações, cujas nefastas consequências mudaram o rumo da história recente, reduzindo-o a um “garotinho inseguro cujo único propósito seria agradar o Grande Bush Pai”. Como se em meio aos tsunamis do 11 de setembro ou a ascensão do Capitalismo do Desastre e seu cortejo de guerras limpas e sujas, Stone “optasse” pelos “laços da família Bush”.

Voltando a Wall Street 2: trata do retorno de Michael “Gondon Gekko” Douglas, precisamente durante a crise de 2008, o mago corretor da bolsa que, após oito anos na prisão, apresenta um outro “discurso”: se esta crise (de 2008) é imensa, virá outra pior. É como um câncer que contaminou a sociedade inteira, diz ele, mas o fato é que nenhuma economia sobrevive eternamente apenas com os truques da financeirização, com papéis girando no vazio, sem lastro nem produção material que a sustente.

Crise que, aliás, já está começando. Porque é isso que o mundo está fazendo há alguns meses: financeiramente despencando.

Como previu a economista Maria da Conceição Tavares, a extrema direita republicana pautou Obama; asfixiou a política fiscal da maior economia do planeta. O anúncio de cortes de gastos públicos da ordem de US$ 2,4 trilhões de dólares sobre um metabolismo econômico já terminal, equivale a uma espécie de suicídio. Só a convicção autista (e o oportunismo) do Tea Party no laissez-faire – cujo equivalente nativo é a mídia e seus luminares – poderia inspirar-se em lorotas para pautar os destinos da economia e da sociedade. Porque a maioria das pessoas continua acreditando nisso, eis a realidade.

Contudo, os mercados sabem que a coisa não funciona assim. Investidores e especuladores há muito farejaram o desastre e se anteciparam fugindo em massa de ações e títulos, candidatos a perder o valor de face na recessão em curso. Algumas fontes têm reforçado que os atuais arrochos, ajustes e cortes públicos são uma espécie de canto de sereia, de liquidação final antes da Queda irreversível, prevista para a segunda metade de 2000.

Segundo Conceição, não é um quadro como o de 1929: “ Aquele teve um ápice, com recidivas, mas ensejou um desdobramento político que inauguraria um outro ciclo, com Roosevelt e o New Deal. O que passamos agora é diferente de tudo isso. Este é um colapso enrustido, arrastado, latejante. Sim, você tem a comprovação empírica do fracasso neoliberal, mas e daí? São eles que estão no comando, ou será o quê esse arrocho fiscal nos EUA enfiado pelo Tea Party na goela do Obama? Vivemos um colapso do neoliberalismo sob o tacão dos ultra-neoliberais: isso é a treva! Não é um fascismo explícito, como se viu na Europa, em 30. Até porque o nazismo, por exemplo – e isso não abona em nada aquela catástrofe genocida –  postulava o crescimento com forte indução estatal. O que se tem hoje é o horror de um vazio político de onde emergem as criaturas do Tea Party e coisas assemelhadas na Europa. Não há ruptura na crise, mas sim, permanência e aprofundamento.”

Em entrevista recente à Carta Maior, ela comenta que em 2008 tivemos um efeito oposto: “Capitais em fuga migraram de várias partes do mundo, de filiais de bancos e multinacionais, para socorrer a quebra das matrizes na Europa e nos EUA. Então, o que houve foi uma desvalorização cambial; o Real ficou mais fraco. Isso facilitou as coisas pelo lado das exportações e da contenção de importações, ainda que quase tenham levado à breca aqueles que especulavam contra a moeda brasileira, fazendo hedge fictício para ganhar na desvalorização. Mas do ponto de vista macroeconômico, foi um quadro mais favorável. Hoje é o inverso.”

“Há uma conjunção de colapso do neoliberalismo com a desagregação política que realimenta e reproduz o processo.  Mas o poder que conta está em outras mãos, as dos responsáveis pela crise. Vivemos um colapso neoliberal sob o tacão dos ultra-neoliberais. Não estamos falando de gente normal, é preciso entender isso. Não são neoliberais comuns. Isso é a treva! E ela se espalha desagregando, corroendo. Será uma crise longa por conta dessa dimensão autofágica que não enseja um desdobramento político à altura, que inaugure um novo ciclo, como foi com Roosevelt e o New Deal em 29.”

“Aliás, as bases sociais do New Deal não existem mais nos EUA. Obama é o reflexo disso. É uma liderança intrinsecamente frouxa. Não tem a impulsão trabalhista e progressista que sustentou o New Deal. É frouxo. Seu eleitorado é difuso. Ele se comunica com os eleitores pelo twitter e daí? É uma força difusa, desorganizada, estruturalmente à margem do poder. Está fora do poder efetivo no Congresso, que é da direita, dos ricos, dos grandes bancos e grandes corporações, como vimos agora no desenho do pacote fiscal. Está fora da indústria também que foi para a China. Esse limbo estrutural é o Obama. Ele pode até ser reeleito e tomara que seja. Porque a alternativa a Obama é amedrontadora.”

Para Conceição, é o declínio de um império, como foi o declínio do poder da Inglaterra no final século XIX. O poder inglês foi sendo confrontado por nações com industrialização mais moderna. Um arranjo com estrutura de integração superior entre indústria e capital financeiro e que, aos poucos, ultrapassaria a hegemonia inglesa. Foi uma quebra, uma inflexão entre o capitalismo concorrencial e o capitalismo monopolista.  A Inglaterra, berço da Revolução Industrial, perdeu o posto para os norte-americanos e alemães. Algo que se arrastou durante décadas. Foi uma Depressão – a primeira que tivemos no capitalismo, que durou de 1873 a 1918. Levou à Primeira Guerra, que resultou na Segunda.
E o novo hegemon? Conceição é categórica: “As forças que se articularam na sociedade norte-americana – basicamente forças conservadoras, de um reacionarismo profundo – não têm condições de produzir uma nova hegemonia propositiva. Claro, eles têm as armas de guerra. E vão se impor através delas por mais algum tempo. Mas daí não sai um novo hegemon. Vamos caminhar para um poder multilateral, negociado, sujeito a contrapesos que nos livrarão de coisas desse tipo, como a ascendência do Tea Party nos EUA. Uma minoria que irradia a treva para o mundo.”

Mas tocando na questão do próprio capitalismo, é preciso considerar também a tensão intrínseca entre o capitalismo e seu próprio excesso. Segundo as teorias de Zizek, ao longo do século XX, percebeu-se um padrão: para esmagar o inimigo, o capitalismo começou a brincar com fogo e mobilizou seu “excesso obsceno” disfarçado de fascismo, mas esse excesso ganhou vida própria e tornou-se tão forte, que o capitalismo “liberal” foi obrigado a unir forças com seu verdadeiro inimigo – o comunismo – para derrotá-lo.

Significativamente, a guerra entre o capitalismo e o comunismo foi uma guerra fria, ao passo que a grande guerra quente foi lutada contra o fascismo. O caso do Talibã não é semelhante? Depois que criar um monstro para combater o comunismo, eles o transformaram em seu principal inimigo. Consequentemente, mesmo que o terrorismo mate todo mundo, a guerra americana contra o terrorismo não é nossa, mas uma luta interna dentro do universo capitalista.

Assim, o primeiro dever dum intelectual progressista (categoria na qual me incluo) é apresentar os fatos, não lutar as lutas do seu inimigo. Certo?

Sobre o autor

Márcia Denser
A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos do colunista Márcia Denser.

Publicado originalmente no "congressoemfoco".

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Zé Ronaldo pergunta:



E por falar em civilidade...

                 
Onde é a ciclovia?

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Opinião

Uma causa na mira do mundo

O Estado de S.Paulo - Editorial
Aos 76 anos, o líder palestino Mahmoud Zeidan Abbas fez história ontem. E não só por ter cumprido a promessa de entregar ao secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, o pedido de reconhecimento da Palestina como Estado e membro de pleno direito do organismo - depois de enfrentar pressões ocidentais, ameaças israelenses e a reprovação dos extremistas do Hamas, que controlam a Faixa de Gaza e se opõem à solução dos dois Estados para o conflito entre árabes e judeus. Abbas fez história também porque, dê no que der, a sua iniciativa colocou a causa palestina, pela primeira vez em décadas, no centro das atenções da instituição que, mal ou bem, representa o mundo. Além disso, criou as condições para ressuscitar, quem sabe com novo script e novos atores, o processo de paz que o governo direitista do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu deixou morrer de inanição.

Os homens não fazem a história como querem, mas como podem. Abbas soube distinguir uma coisa da outra ao aceitar que o Conselho de Segurança (CS), o foro por excelência para temas dessa natureza, não decida no calor da hora, mas espere a demanda palestina começar a produzir efeitos que se estendam ao calcinado terreno das negociações. Se o plano de Abbas fosse tudo ou nada, ele insistiria no exame imediato da reivindicação, que os Estados Unidos já anunciaram que vetarão no colegiado -, e deixaria a Cisjordânia ocupada por Israel pegar fogo, com a irrupção de novos protestos turbinados pelo exemplo da primavera árabe. Abbas sabe que os americanos estão jogando pesado nos bastidores para transformar presumíveis votos pró-Palestina em abstenções, a fim de não arcar solitariamente com a responsabilidade de provocar, mais uma vez, a ira muçulmana.

Para passar, a iniciativa depende da adesão de 9 dos 15 países com assento no CS, entre membros permanentes com poder de veto (5) e rotativos. No primeiro grupo, Rússia e China apoiam o pleito palestino, França e Grã-Bretanha tendem a lavar as mãos, EUA e Alemanha se opõem. Na outra bancada, Abbas tem garantidos apenas os votos do Brasil, África do Sul, Índia e Líbano. Para que não consiga os três demais sufrágios que lhe dariam a vitória moral, Washington pressiona duramente Portugal, Nigéria, Bósnia e Gabão a ficar em cima do muro. Dar tempo ao tempo, portanto, interessa ao palestino. O que ele podia querer de imediato já obteve - com a paradoxal ajuda de um presidente Barack Obama ansioso por conservar nas eleições do ano que vem o maciço voto judaico que obteve em 2008.

Ao pronunciar na ONU, anteontem, um discurso cujo facciosismo animou o ultrarradical chanceler israelense Avigdor Lieberman a dizer que o assinaria "com as duas mãos", Obama vaporizou o que restava da alegação dos EUA de ser um intermediário honesto entre judeus e árabes, e pavimentou o caminho para a remodelagem das negociações de paz. Na sua vez de falar, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, debitou aos EUA os "60 anos de fracasso" das tentativas de resolver o impasse no Oriente Médio e desafiou: "Vamos parar de acreditar que um só país ou pequeno grupo de países pode resolver um problema de tamanha complexidade". Para resolvê-lo, não se pode prescindir da Europa nem "do envolvimento dos Estados árabes que já escolheram a paz" - numa alusão ao plano de 2002 da Arábia Saudita, que Israel ignorou.

Sarkozy propôs um cronograma rígido para um acordo que acabaria com a ocupação da Cisjordânia e daria à luz o Estado palestino em um ano. Falta combinar com os russos - no caso, os judeus que migraram em massa da ex-União Soviética e empurraram para a extrema direita o pêndulo da política israelense. Avigdor Lieberman, por exemplo, é um deles. Defendem ardorosamente a colonização da "Judeia e Samaria", abominam a ideia de devolver Jerusalém Oriental aos palestinos, para ser a sua capital, e dizem que a Palestina deve ficar na Jordânia. Não há diferença essencial entre eles e Netanyahu. Este age como se Abbas pudesse continuar negociando enquanto se expande a ocupação judaica dos territórios. Para os palestinos, equivaleria a discutir como dividir uma pizza com alguém que já começou a comê-la - e não dá sinal de parar.

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Manchetes do dia

Sábado, 24 / 09 / 2011

Folha de São Paulo
"Carga total de tributos volta a subir em 2010"

Governo arrecadou R$ 1,2 trilhão, o equivalente a 33,56 % do PIB do país
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A carga tributária voltou a crescer no ano passado, transferindo para os cofres do governo federal fatia maior das riquezas do país.
Estudo divulgado ontem pela Secretaria da Receita Federal mostra que tributos recolhidos pelos três níveis de governo em 2010 somaram R$ 1,2 trilhão - 33,56% do PIB. Em 2009, a carga tributária havia atingido 33,14% do PIB. Trabalho do economista José Roberto Afonso sugere que o aumento foi maior. Segundo ele, o total de impostos das três esferas de governo soma 35,16% do Produto Interno Bruto do país, se a conta incluir royalties do petróleo e outros tributos. O pico da carga tributária foi atingido em 2008, com 35,5% do PIB.


O Estado de São Paulo
"Abbas pede à ONU que reconheça a Palestina

Solicitação será avaliada pelo Conselho de Segurança; potências tentam retomar negociações de paz

O presidente palestino Mahmoud Abbas, pediu oficialmente o reconhecimento da Palestina como membro pleno da ONU. O pedido será examinado na segunda-feira pelo Conselho de Segurança – os EUA usarão o poder de veto. Abbas quer uma vitória simbólica, com o apoio de Brasil, China, Rússia, Índia, África do Sul e Líbano. O quarteto (EUA, Rússia, União Européia e ONU) pediu que israelenses e palestinos apresentem em até três meses planos de fronteiras e segurança. Em seu discurso, Abbas disse que os assentamentos israelenses podem “destruir” as chances de paz de Israel. Já o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, declarou: “Primeiro os palestinos precisam fazer as pazes com Israel, e só depois terão seu Estado”.

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sexta-feira, setembro 23, 2011

Árvore

Tem mais de 2000 anos. No próximo download quero ser árvore.

Coluna do Celsinho

Núcleo

Celso de Almeida Jr.
Vejo a luta da sogra.

Consegue sorrir.

Doença matreira, não abala a guerreira.

Célula teimosa, não turva a esperança.

Força invisível ajuda.

Medicina ajuda.

Família ajuda.

Humor ajuda.

Amigos ajudam, alegram e torcem.

Na batalha diária pela vida, fica o exemplo espetacular.

Núcleo de energia e confiança.

Na órbita, trilhamos firmes.

Contagiados por sua fé.

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Opinião

A presidente impressionou

O Estado de S.Paulo - Editorial
De volta ao hotel onde estava hospedada em Nova York, depois de pronunciar, como compete ao Brasil, o discurso de abertura de nova sessão da Assembleia-Geral das Nações Unidas, a presidente Dilma Rousseff fez uma breve pausa antes de se preparar para a etapa seguinte de sua agenda - encontros bilaterais com os chefes de governo do Chile, Colômbia, França e Grã-Bretanha - e compartilhou uma Veuve Clicquot com membros de sua comitiva. Havia, de fato, o que comemorar. Durante 25 minutos, diante de líderes e representantes diplomáticos de 194 países, ela fizera um pronunciamento que impressionou pela limpidez, correção e maturidade, para expor a posição do País em relação às questões centrais da atualidade mundial.

Poderia se ressaltar ainda o vigor de sua fala, mas esse atributo, por si só, não torna mais respeitáveis os argumentos desfiados. É o caso do ranço ideológico que permeava, ano após ano, a contundente oratória do então presidente Lula naquela mesma tribuna. Foi um alívio não ouvir de Dilma, por exemplo, a descrição maniqueísta do mundo dividido entre a cupidez do Norte e os padecimentos do Sul, marca registrada da visão simplória de seu antecessor sobre a natureza e a solução dos problemas internacionais. Já para Dilma, mais importante do que execrar os culpados pela presente crise econômica é promover "um novo tipo de cooperação" entre países emergentes e desenvolvidos. Porque a crise, indicou, é também de "governança e coordenação política".

Trata-se de "substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo". De mais a mais, se os Estados Unidos são em boa parte responsáveis pela situação, "que pode se transformar em uma grave ruptura política e social", entre outras coisas porque permitem que conflitos partidários sustem a aprovação de projetos para revitalizar a economia, a China adota uma política cambial (mantendo o yuan artificialmente baixo) que desequilibra as relações de troca entre os países e, por extensão, retarda a recuperação econômica global. Lula pensaria duas vezes antes de fazer críticas ao governo com o qual imaginava, bisonhamente, celebrar uma aliança contra o capitalismo loiro, de olhos azuis.

Dilma não fez o Brasil de vítima da recessão que avança no exterior. Mas observou que, embora o País ainda tenha sido pouco afetado, "nossa capacidade de resistência não é ilimitada", o que reforça o sentido de urgência de seu apelo para a redefinição dos compromissos que regem as relações internacionais. Não foi apenas ao discorrer sobre a economia que ela - a primeira mulher a abrir uma temporada de debates no plenário da ONU - se guardou de separar os países entre "bons" e "maus". Respeitando os fatos, apontou que violações de direitos humanos existem em toda parte, sem exceção. "Reconheçamos esta realidade e aceitemos, todos, as críticas", exortou.

Como era de prever, reiterou a posição brasileira pela reforma do Conselho de Segurança, com a inclusão de representantes dos países em desenvolvimento entre os seus membros permanentes, defendendo explicitamente a aspiração do País a um lugar no colegiado. Também como se esperava, apoiou a reivindicação palestina ao reconhecimento do seu Estado e ao seu ingresso na ONU como membro de pleno direito - o tema principal desta 66.ª sessão do organismo. "Apenas uma Palestina livre e soberana", raciocinou, "poderá atender os legítimos anseios de Israel por paz com seu vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno." Foi uma paráfrase da clássica tese de que Israel não terá para si o que insiste em negar à Palestina.

Escaldada, talvez, pelo fracasso da pretensão de Lula de mediar o conflito, Dilma se absteve de entrar nos meandros de sua eventual solução, salvo para consignar que o Brasil já reconhece o Estado palestino nas fronteiras de 1967. Com o pouco que disse, foi mais coerente do que o americano Barack Obama. Ele nem sequer aludiu a esse ponto, como se já não o tivesse endossado, ao condenar a iniciativa palestina no seu discurso mais pró-Israel desde que chegou à Casa Branca - onde espera continuar depois de 2012.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 23 / 09 / 2011

Folha de São Paulo
"BC intervém para segurar o dólar"

Pela primeira vez desde 2009, o governo precisou frear a valorização da moeda, que fechou em R$ 1,895
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A crise global voltou a sacudir os mercados ontem, derrubando as principais Bolsas de Valores do mundo e provocando outro salto na cotação do dólar no Brasil. Pela primeira vez desde junho de 2009, o Banco Central teve de intervir no mercado, para reduzir as perdas que as variações abruptas criam a empresas com negócios no exterior. O dólar chegou a ser vendido a R$ l,963 e fechou o dia em R$ 1,895.

O Estado de São Paulo
"Deputado revela venda de emendas na Assembleia"

Em vídeo, Roque Barbiere (PTB) afirma que até 30% do Legislativo de SP 'enriquece fazendo isso'

O deputado estadual Roque Barbiere (PTB) disse que "tem bastante" parlamentar da Assembleia Legislativa de São Paulo ganhando dinheiro com a venda de emendas e com lobby de empreiteiras. "Não é a maioria, mas tem um belo de um grupo que vive e sobrevive e enriquece fazendo isso", declarou Barbiere em um vídeo divulgado por um site de Araçatuba. Ele estima que entre 25% e 30% dos deputadas paulistas adotem essa rotina. O petebista não cita nomes: “Poderia (citar), mas não vou ser dedo-duro". Barbiere cumpre o sexto mandato consecutivo de parlamentar estadual, está na política há 29 anos e integra a base aliada do governa Geraldo Alckmin (PSDB).

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quinta-feira, setembro 22, 2011

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Opinião

Cascos duros

O Estado de S.Paulo - Editorial
O Brasil andou. A presidente Dilma Rousseff fez menos do que a sociedade anseia em matéria de combate à corrupção. Mas talvez tenha feito o possível, até aqui, dentro das herdadas condições em que lhe é dado governar. Ela exerce o poder dependendo de uma cáfila de políticos a quem o então presidente Lula ensinou que tudo lhes será perdoado desde que não criem problemas para a "governabilidade" do País. De todo modo, apesar das limitações com as quais lida pelo método do ensaio-e-erro, e ao contrário do seu patrono, soa convincente quando louva a ética pública e reitera de que lado está entre o vício e a virtude.

Por uma dessas coincidências a que se deve ser grato, porque lançou um súbito facho de luz sobre o contraste entre a mentalidade que reinava até há pouco no coração do governo e a que tenta se afirmar, quanto mais não seja pela força da palavra, Dilma e Lula falaram de corrupção no mesmo dia, anteontem, em locais e circunstâncias tão diferentes como os dizeres de cada qual. No hotel Waldorf Astoria, em Nova York, perante dignitários de 46 países, a começar do americano Barack Obama, ela foi uma das oradoras da sessão inaugural da organização Parceria para o Governo Aberto, da qual o Brasil é um dos codirigentes. A entidade incentiva o livre fluxo da informação oficial a fim de promover a participação das sociedades nas decisões do Estado e a vigilância sobre a conduta das autoridades.

Nesse cenário, a presidente brasileira deu o seu recado não propriamente aos grandes deste mundo, mas aos residentes do mundo político brasileiro, cuja integridade não raro é inversamente proporcional ao tamanho de sua propensão para a falcatrua e de suas expectativas de impunidade. Daí ela ter renovado a advertência que ecoou bem à época, mas os fatos subsequentes (e a licenciosa lição do passado) ameaçaram desmoralizar: "Fui muito clara desde o meu discurso de posse, em janeiro, quando afirmei que meu governo não terá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito". Foi também para o Brasil, em especial para as pulsões liberticidas que costumam irromper no PT, o estudado elogio à "posição vigilante da imprensa brasileira, não submetida a qualquer constrangimento governamental".

Pano rápido para outra cena. Em Salvador, onde recebeu um título de doutor honoris causa da Universidade Federal da Bahia, Lula deu uma aula sobre o que os errados, desviantes e malfeitores devem ser - e o que não devem fazer - quando os seus atos são trazidos à tona. Reza o manual lulista de resistência à faxina que "político tem que ter casco duro". Quando acusado de fazer coisa errada, "não pode tremer". Se não enfrentar a briga, ensinou, "acaba saindo mesmo". O ex-presidente não está nem remotamente preocupado com a presença de corruptos ou coniventes com a corrupção nos altos escalões da administração federal. É a sua sobrevida que lhe interessa. Foi assim consigo próprio. De início, atrapalhou-se com o mensalão. Se não chegou a tremer, fraquejou. Depois, o casco duro prevaleceu - e o escândalo foi debitado à "mídia golpista".

O Brasil andou, sim, mas tropeça quando menos se espera. Não fosse o injustificado bloqueio do presidente do Senado, José Sarney, e do seu colega Fernando Collor, relator da matéria, ao projeto da Lei de Acesso de Informação, que permite a divulgação de documentos secretos depois de 25 anos, prorrogados por outro tanto - e acaba com o sigilo de textos que envolvam direitos humanos -, Dilma não teria sofrido óbvio constrangimento no evento de Nova York em que falou sobre seus compromissos éticos. Ela ouviu Obama citar o México, a Turquia e a Libéria, mas não o Brasil, evidentemente, como exemplos de países que aprovaram leis "que garantem o acesso de suas populações à informação pública". Sarney e Collor alegaram que os diplomatas e os militares se opunham ao projeto do governo. O Itamaraty e as Forças Armadas os desmentiram.

Pensando bem, faz sentido. Esperar daquela dupla de "cascos duros", com seus notórios prontuários, apoio à transparência na gestão das instituições de governo equivale a esperar de Lula, de quem ambos foram aliados, intolerância à corrupção.

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 22 / 09 / 2011

Folha de São Paulo
"Câmara aprova aviso prévio de 90 dias"

Texto, que segue para sanção presidencial, valerá para quem for demitido ou pedir demissão, mas não será retroativo
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A Câmara aprovou a concessão de aviso prévio de até 90 dias, proporcional ao tempo de trabalho. O projeto, parado desde 1995, segue para a sanção presidencial. Hoje, o empregado tem direito a 30 dias. Se a lei for sancionada, ele ganhará mais três dias por ano trabalhado até o limite de 90 dias, que será atingido com 20 anos de serviço.

O Estado de São Paulo
"Dólar tem maior alta diária desde 2008 e vai a R$ 1,84"

No mês, valorização atinge quase 16% e preocupa governo; preços de matérias-primas já são pressionados

O dólar teve ontem a maior alta diária desde o auge da crise global, em outubro de 2008. A moeda subiu 2,84%, para R$ 1,845. No mês, acumula valorização de quase 16%. Por causa disso, o Banco Central decidiu não renovar um tipo de contrato de câmbio futuro. Na prática, equivale a vender dólar. É a primeira vez que isso ocorre desde o início de 2009. Em Nova York, o ministro Guido Mantega (Fazenda) descartou adotar medidas para segurar o dólar. Mas o Estado apurou que os fortes ganhos da moeda americana já incomodam o governo, por causa do efeito na inflação. Se o dólar se mantiver nesse nível ou subir mais, a meta de inflação estará ameaçada em 2011 e 2012. A alta da moeda já começa a afetar preços de matérias-primas.

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quarta-feira, setembro 21, 2011

Espaço do Zé

Foto: Julio Mendes

Os peixes precisam do largo

José Ronaldo dos Santos
Eu pude conhecer a Baía de Ubatuba piscosa, mas de acordo com os mais antigos, ainda “não era nada em comparação com outros tempos, quando não havia traineira arrastando até no quebramar!”. Lembro-me bem dos lances de rede dados por Florindo T. Leite, por Aládio e outros. Ainda era fartura, alimentava muita gente. Enfim, parece que o pessoal, desde aquele tempo (do início dos arrastos mecanizados nas nossas baías) já sabia o que diminui a oferta de pescados. Afinal, a rede de malha miúda pesca tudo, inclusive os filhotes. O que tem de ser feito?

a) Optar por uma pesca mais artesanal, ou seja, que deixe o peixe procurar a isca;

b) Garantir a proteção dos peixes, sobretudo dos que precisam crescer.

Eis a minha proposta: fazer da Baía de Ubatuba um espaço de parcéis artificiais para que os frutos do mar se reproduzam e atraiam os peixes para a alimentação e proteção. Quantas carcaças de automóveis vemos abandonadas no município? É certeza que, após um tratamento adequado, num semestre afundadas, as cracas as infestarão e os peixes já estejam em casas novas. E posso propor outras sementes de civilidade para o nosso espaço: por que não criar um charme para a cidade das canoas, com o mar coalhado delas? E por que não desenvolver a canoagem desde os primeiros anos escolares como uma marca coerente com a tradição natural?

Nós todos precisamos refletir sobre isso, mas principalmente aqueles que dependem diretamente da atividade pesqueira e precisam ir cada vez mais longe para trazer uns pescados que, há coisa de quarenta anos, eram devolvidos ao mar porque fazia parte da miuçalha.

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Opinião

Recuperação de ferrovias

O Estado de S.Paulo - Editorial
O governo tem planos ambiciosos para o setor ferroviário, sendo previstos, na segunda etapa do PAC, investimentos da ordem de R$ 43,9 bilhões, entre 2011 e 2014, para a expansão da malha em mais de 4,5 mil km e para a construção de linhas de bitola larga. São obras viáveis, algumas já em andamento ou em estágio de planejamento, como a extensão da Ferronorte e da Ferrovia Norte-Sul, a conclusão da Transnordestina, o Ferroanel de São Paulo e a Ferroeste. Se haverá recursos ou financiamentos para levar a termo todas essas obras nos prazos previsto é uma questão em aberto. Além desse desafio, o País enfrenta outro: como recuperar milhares de quilômetros de estradas de ferro construídos no século 19 e no início do século 20, mas que, abandonados durante décadas, são hoje praticamente inúteis ou subutilizados.

Segundo o diretor da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Bernardo Figueiredo, dos 28 mil km de estradas de ferro em funcionamento no País, dois terços não estão em boas condições de tráfego. Esta foi uma das motivações do novo marco regulatório do setor, em vigor desde julho deste ano. Além do direito de passagem de trens de uma companhia pelas linhas de outra, cuja inexistência constituía um dos empecilhos ao transporte ferroviário no País, foram estabelecidas metas que devem ser cumpridas pelas concessionárias, que agora têm de recuperar os ramais abandonados ou devolvê-los ao governo.

Segundo Figueiredo, a desativação de tantos quilômetros não ocorreu por culpa das concessionárias, mas em razão do modelo adotado na privatização, que não exigia que as companhias operassem a totalidade da malha que passaram a administrar. As companhias pagam entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões por ano pelas concessões, mas só investem se lhes for economicamente proveitoso. Agora, será diferente. Não estando as empresas interessadas em alguns trechos, devem devolvê-los ao governo, que pode promover nova licitação, mantê-los inativos ou dar-lhes outra destinação.

Isso levou as concessionárias a apresentarem recentemente projetos para a recuperação de 27 trechos, numa extensão de 5.500 quilômetros. Sobraram 6 trechos, de 1.700 km, o que parece muito. Cada concessionária tem razões específicas para não investir em determinado trecho, mas, em geral, falta motivação econômica. É preciso considerar também que, em algumas áreas, os dormentes apodreceram ou foram roubados, os trilhos praticamente sumiram, cobertos de terra ou de vegetação, e muitas estações foram destruídas, dilapidadas ou invadidas. Somente em poucos municípios as velhas estações foram preservadas como museus ou transformadas em prédios públicos. E alguns pequenos ramais são mantidos pelas prefeituras, com apoio dos governos estaduais, para pequenas viagens turísticas.

Na realidade, recuperar significa, muitas vezes ter de reconstruir. Isso só vale a pena quando existe interesse econômico. É o caso do ramal de 131 km entre Pradópolis e Colina, no oeste do Estado de São Paulo, que vai ser reconstruído pela concessionária, em parceria com uma trading, para suportar o tráfego de trens de até 80 vagões de 100 toneladas. O ramal, que só servia a uma usina de açúcar, fará a ligação com a linha tronco da concessionária até o Porto de Santos, possibilitando o escoamento da produção de até 4 milhões de toneladas de açúcar por ano. O frete compensa e tende a ser barateado com o aumento do transporte de mercadorias, como fertilizantes, nas viagens de retorno.

Alguns avanços têm sido feitos, mas o País está ainda muito longe de ter "ressuscitado" esse setor, como se chegou a afirmar no lançamento do Plano de Revitalização das Ferrovias, no fim de 2010. O Plano também dá ênfase ao transporte de passageiros, mas casos como a suspensão do projeto de ligação ferroviária entre o centro de São Paulo e o Aeroporto de Guarulhos mostram que uma coisa é planejar e outra, muito diferente, é tirar o projeto do papel.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 21 / 09 / 2011

Folha de São Paulo
"FMI reduz previsão de crescimento mundial"

Brasil ficará especialmente vulnerável em termos fiscais, segundo o fundo
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O FMI reduziu a projeção de crescimento global para este ano e para o próximo e alertou que a crise da dívida europeia e a apatia econômica dos EUA ameaçam a estabilidade mundial. Para o órgão, a economia crescerá 4% em 2011 e 2012. As previsões anteriores, eram de 4,3% e 4,5%. Nos países desenvolvidos, o crescimento mal chegará a 2%; nos emergentes, a 6%.

O Estado de São Paulo
"STJ acelerou anulação das provas contra filho de Sarney"

Evidências obtidas pela PF foram suspensas em poucos dias; casos semelhantes levaram até dois anos

O processo de anulação das provas da Operação Boi Barrica - que investigou Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney - levou apenas seis dias para ser relatado no Superior Tribunal de Justiça e foi julgado pela 6ª Turma do STJ em uma única sessão. Dois juízes tiveram de ser convocados para completar o quorum e viabilizar o julgamento. A mesma Turma levou dois anos para julgar a processo contra a operação Castelo de Areia - foram oito meses só para relatar o caso. Na Operação Satiagraha, por sua vez, o STJ anulou as provas após 1 ano e 8 meses. Ministros do tribunal levantam dúvidas sobre a celeridade do caso Boi Barrica, concluído semana passada.

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terça-feira, setembro 20, 2011

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Opinião

STJ acode o clã Sarney

O Estado de S.Paulo - Editorial
Quatro anos de trabalho policial acabam de ir para o ralo com a decisão da 6.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de invalidar as provas colhidas pela Polícia Federal (PF) na investigação sobre os negócios do clã do presidente do Senado, José Sarney. Com base em interceptações telefônicas e no acesso a movimentações financeiras da família, autorizados pela Justiça do Maranhão, a PF abriu cinco inquéritos que resultaram no indiciamento do filho do oligarca, Fernando Sarney, por desvio e lavagem de dinheiro, tráfico de influência e formação de quadrilha. O ponto de partida da inicialmente denominada Operação Boi Barrica e, depois, Faktor, foi a descoberta de um saque de R$ 2 milhões em dinheiro da conta do casal Fernando e Teresa Sarney, às vésperas da eleição de 2006, quando a irmã do empresário, Roseana Sarney concorria (pela terceira vez) ao governo maranhense.

As conversas captadas pelos federais registraram, além de fortes indícios de transações escusas, a desenvoltura com que os Sarneys exerciam a política de patronagem no governo Lula, reproduzindo na esfera federal, com a maior naturalidade, os padrões de controle oligárquico sobre o seu Estado de origem reduzido a capitania hereditária. Em 2009, a pedido de Fernando Sarney, o desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal - e amigo do patriarca Sarney -, proibiu este jornal de continuar divulgando as evidências levantadas pela PF. A aberração da censura prévia imposta ao Estado completa hoje 781 dias. Enquanto essa ilicitude se perpetua, o STJ resolveu considerar que a decisão judicial que permitiu conhecer de perto as traficâncias sarneysistas, mediante quebras de sigilo bancário, fiscal e de dados telefônicos, carecia de fundamentação.

Formalmente, isso não significa o fim da investigação, muito menos equivale a um atestado de inocência dos investigados. Mas a volta à estaca zero, no caso, "abre a porta para a impunidade", como diz o presidente do Sindicato dos Delegados Federais em São Paulo, Amaury Portugal. "A PF respeita as decisões judiciais, mas o trancamento da Boi Barrica é temerário", alerta. O órgão policial sente-se diretamente atingido no cumprimento das suas atribuições, na medida em que a anulação das provas possa sugerir que a PF "forçou a barra" junto ao Judiciário maranhense para obter a prorrogação das interceptações por 18 vezes. "A PF não inventa, ela investiga nos termos da lei e sob severa fiscalização", retruca o diretor de Assuntos Parlamentares da Associação Nacional dos Delegados da PF, Marcos Leôncio Sousa Ribeiro. Ele se refere ao controle do Ministério Público Federal, "fiscal da lei", e do Judiciário, "garantidor de direitos".

Pode-se concordar ou discordar da sua opinião sobre a falta de "interesse em deixar investigar" quando os investigados não são pessoas comuns - como, numa tirada reveladora do quanto mudou o combatente social de outrora, o presidente Lula se referiu ao bom amigo José Sarney. Pode-se também concordar ou discordar da tese de que o Judiciário está "a serviço das elites", o que seria, segundo o delegado, o pano de fundo do ato do STJ. Mas é difícil refutar a sua narrativa do episódio, a partir da referência aos controles que incidem sobre a atuação da PF: "Aí uma Corte superior anula todo um processo público com base em quê? Com base no 'ah, não concordo, a fundamentação do meu colega que decidiu em primeiro grau não é suficiente'. Nessa hora não importa que os fatos sejam públicos e notórios e que nem sequer há necessidade de se ficar buscando uma prova maior".

Não é a primeira vez que o STJ invalida ações da Polícia Federal. Os precedentes mais notórios foram a Operação Satiagraha, que focalizou o banqueiro Daniel Dantas, e a Castelo de Areia, envolvendo diretores da empreiteira Camargo Corrêa. Num caso, o motivo foi a participação, julgada ilegal, de membros da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) nas investigações. No outro, o tribunal entendeu que denúncias anônimas não justificam autorizações para escutas telefônicas. São objeções respeitáveis. Agora, está-se diante de uma interpretação equivocada - ou pior.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 20 / 09 / 2011

Folha de São Paulo
"Montadoras dizem que preço de carro pode subir"

Com IPI maior, produzir no México e na Argentina fica mais barato, afirma Anfavea
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A Anfavea não descarta aumento de preços por conta da concorrência menor de veículos importados. Para o presidente da entidade, Cledovino Belini, assumir que as tabelas não subirão seria como admitir um "cartel". Na semana passada, o governo aumentou em 30 pontos percentuais o IPI para veículos com menos de 65% de componentes nacionais, reduzindo a competitividade do importado, cujo preço pode ser majorado até 28%.

O Estado de São Paulo
"Real perde 11% em 30 dias e dólar chega perto de R$ 1,80"

Tensão no Europa afeta câmbio e faz moeda brasileira ter a maior queda entre as principais do mundo

As tensões decorrentes da crise europeia afetaram o mercado de câmbio. O dólar iniciou a semana com alta de 2,54%, valendo R$ 1,774, a cotação mais alta desde 21 de julho de 2010. Nos últimos 30 dias, o real apresenta a maior queda ante o dólar no ranking com as 16 principais moedas do mundo. Algo que, dizem analistas, indica que atitudes recentes do governo brasileiro também tem influenciado o humor dos investidores. O levantamento revela que as perdas do real já alcançam 11,01% no período, ante 11% do franco suíço. Vale lembrar que o governo da Suíça adotou recentemente um piso para sua moeda, o que explica grande parte da desvalorização. A seguir, com 6,23% de perdas, vem o peso mexicano e, com 6,05%, o rand da África do Sul.

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segunda-feira, setembro 19, 2011

American way of life...

Ubatuba em foco

Por falar em duplas

Sidney Borges
Ubatuba excede em certos momentos. Na terra de Coaquira grassa a ingenuidade. Falam em duplas para governar a cidade. Suponho que estejam se referindo aos futuros prefeito e vice. Não entendo essa coisa de dupla. No sistema vigente o prefeito governa e o vice, bem, o vice poderíamos dizer que viceja. Com todo o respeito, vice fica quietinho vendo a ação transcorrer. Como pechinchê de casa de tolerância. Obviamente recebendo salário, polpudo dada a precariedade da região.

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Opinião

Mais pobres no mundo rico

O Estado de S.Paulo - Editorial
Piores do que esperavam os economistas e o governo, os números sobre a redução da renda média das famílias americanas, e o consequente aumento do número de pobres no país, reforçam os temores de que a economia dos Estados Unidos poderá levar muito tempo para atingir um ritmo de crescimento capaz de melhorar a vida da população.

É uma má notícia para todos, especialmente para o presidente democrata Barack Obama, que, além da queda da popularidade, enfrenta grandes dificuldades para fazer avançar no Congresso suas propostas para o enfrentamento da crise econômica. Mas, paradoxalmente, pode facilitar as ações da Casa Branca, na medida em que as evidências do impacto da crise sobre a vida de um número cada vez maior de americanos forem capazes de reduzir as resistências da oposição republicana à adoção de providências urgentes.

Dados divulgados pelo Escritório do Censo dos EUA mostram que, em 2010, a parcela de americanos vivendo abaixo da linha de pobreza atingiu seu maior nível desde 1993 - 15,1% da população - e, em números absolutos, foi o maior da história: 46,2 milhões de pessoas, bem mais do que os 43,6 milhões (14,3% da população) que viviam na pobreza em 2009.

Para economistas e membros do governo, a recessão americana que se seguiu à crise global de 2008 terminou há pouco mais de um ano (em julho de 2010), mas as estatísticas do Censo dos EUA mostram que, para milhões de americanos, esse fato, se teve algum efeito em suas vidas, foi para pior. No ano em que a economia superou o pior da crise, mais 2,6 milhões de pessoas se tornaram pobres.

Na média, todos os americanos perderam renda no ano passado, na comparação com 2009. A renda familiar média no fim de 2010, de US$ 49.445 para uma família de quatro pessoas, foi 2,5% menor do que a de um ano antes. Em valores reais, a renda média de 2010 está US$ 6.000 abaixo da registrada em 2000.

Nos EUA, são consideradas pobres as famílias de quatro pessoas com renda anual abaixo de US$ 22.113. É tentador comparar esse valor com os critérios utilizados no Brasil para a definição de pobreza. O limite americano equivale a cerca de R$ 38.000, ou a uma renda familiar mensal média de aproximadamente R$ 3.170, ou pouco mais de R$ 790 por pessoa. Esse valor é mais do que o quíntuplo do valor utilizado pelo governo brasileiro para definir pobreza. Mas, se forem considerados os custos com que arcam os americanos para comer, estudar, vestir, locomover-se e, sobretudo, morar, entre outras despesas típicas de uma família e que são muito maiores do que no Brasil, a diferença ficará compreensível.

Há um aspecto particularmente nocivo no aumento da pobreza nos EUA. O problema afeta mais agudamente os adultos jovens, que representam o futuro do mercado de trabalho. De 2007 até agora, o número de jovens adultos que, por falta de oportunidades de trabalho, continuam a morar com suas famílias aumentou 25%. Quando se considera não a renda familiar dividida pelo número de pessoas que moram com eles, mas sua renda individual, observa-se que 45% desses jovens ganham menos do que a linha de pobreza para um adulto sozinho.

Na segunda-feira, o presidente Barack Obama apresentou ao Congresso seu plano de recuperação econômica, com investimentos e benefícios fiscais que totalizam US$ 447 bilhões, para estimular o consumo, gerar empregos e reativar a produção industrial. Mas a bancada republicana ainda resiste a detalhes do plano, especialmente os que implicam aumento de impostos.

É possível que os novos dados sobre a queda da renda média dos americanos no ano passado sensibilizem mais congressistas e facilitem a votação do plano de Obama. Mas, diante da feroz resistência da facção republicana radical Tea Party, às iniciativas de Obama para enfrentar a crise, a proposta pode perder consistência e transformar-se em novo pretexto para a oposição acusar o governo de responsável pela crise e de incompetente para conter seus efeitos sobre a economia e a vida dos americanos. Se isso acontecer, o que está ruim, ainda pode piorar, antes de começar a melhorar.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 19 / 09 / 2011

Folha de São Paulo
"Ação da Petrobras não vai dar retorno tão cedo, diz Gabrielli"

Presidente da empresa afirma, porém, que a longo prazo cenário é melhor que o de concorrentes
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O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, atribui a queda das ações da empresa a uma "situação de penalização no curto prazo". A baixa desde o início deste ano atinge 23,5%. "A Petrobras fez a maior capitalização da história mundial em 2010. Isto tem um custo", afirma Gabrielli em entrevista à Folha.

O Estado de São Paulo
"EUA buscam apoio na ONU para vetar Estado palestino"

Americanos negociam com países europeus uma proposta que leve os palestinos a recuarem do pedido

Os Estados Unidos ampliaram ontem a ofensiva contra o reconhecimento pleno do Estado palestino pela ONU, informa o correspondente em Nova York, Gustavo Chacra. Os americanos têm poder de veto contra a iniciativa no Conselho de Segurança da ONU e já anunciaram que vão exercê-lo, mas temem o constrangimento de ficar isolados. Seus diplomatas trabalham em duas frentes: conseguir aliados no conselho e costurar com europeus uma proposta que faça os palestinos recuarem do pedido. O Brasil e outros 121 países já declararam apoio ao reconhecimento do Estado palestino. Em Israel, o premiê Binyamin Netanyahu disse que a iniciativa está destinada ao "fracasso". O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, prometeu manter o pedido, para conseguir uma vitória simbólica.

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domingo, setembro 18, 2011

Arte

Coluna do Mirisola

O Rap do Medalhão – 130 anos depois

“Há coisa de uns sete anos, arrumei uma encrenca dos diabos com os manos do rap – numa época em que Bill, o Mensageiro da Verdade morava na Cidade de Deus”

Marcelo Mirisola
A especulação – no meu caso – é mais arte do que maldade propriamente dita. Porque escolhi assim, mas penso que a viajada na maionese não deve ser regra. Tenho apreço pelos números e as estatísticas – sobretudo quando existe a chance de promiscuidade entre a matemática e a fantasia.

Às vezes, atravessar a rua de olhos fechados se impõe como ficção, e é claro e evidente que, nessas horas, não me lanço a partir de uma calçada incerta e não sabida. Olho para os dois lados, e só depois de constatar que o caminhão de mudanças passou – só depois -, atravesso a rua. Geralmente meu ponto de partida é uma implicância, uma negativa, uma pedra no sapato ou um raio de luz vindo do céu – que pode ser o inferno, dependendo do ponto de vista.

Ainda não fui atropelado pela metafísica, e meu índice de acerto é altíssimo.

Pois bem, há coisa de uns sete anos, quando escrevia no falecido site da AOl , arrumei uma encrenca dos diabos com os manos do rap – numa época em que Bill, o Mensageiro da Verdade (MV, mensageiro da verdade)* morava na Cidade de Deus, e não cogitava ser discriminado e – pasmem – desclassificado na Dança dos Famosos lá do Faustão.

Nunca me enganou. Nem ele, nem mano Brown.

Um dia ligaram pra minha casa, e me aconselharam a ficar quietinho, caso contrário, se eu insistisse em “desmoralizar o movimento” correria um sério risco de amanhecer … “com a boca cheia de formiga”… É: foi isso mesmo o que me disseram: “Boca cheia de formiga, tá ligado?”

A coisa ficou feia pro meu lado. Se a ameaça não fosse tão tosca, e se a fraude e esse lixo todo não fosse tão desprezível, bem, mesmo assim, eu não perderia a piada. Seria a mesma coisa que pedir um rap sem rima pro mano Brown. Complicado, né? Daí que, na época, depois da ameaça, “tá ligado?”, escrevi uma crônica que dizia mais ou menos o seguinte: “Não basta ser assaltado por esses caras? Ainda tenho que engolir essa xaropice e chamar de música?”

Só na cabeça dos executivos da Nike e das professoras da PUC que aquilo ali podia ser uma revolução. Depois de oito anos, estão todos domesticados, devidamente engajados nas causas sociais e nos projetos do Itaú Cultural – basta acompanhar a agenda do feroz mano Ferréz para constatar que minha especulação de outrora virou estatística. E virou dinheiro, muito dinheiro no bolso da malandragem. Os revolucionários do Jd. Ângela e da Cidade de Deus, como eu havia previsto naqueles tempos, transformaram-se em prósperos comerciantes, garotos propaganda, dançarinos de axé, vendedores de livros, camisetas e bonés.

Ah, penso, as coisas seriam diferentes se, naquela época, eu tivesse lido a “Teoria do Medalhão”… ou não? Acho que não. Sou teimoso e turrão. Embora o bruxo do Cosme Velho tenha diagnosticado e projetado a alma flácida e arriada do brasileiro para o além, e apesar de tudo, continuo acreditando que minh’alma é portenha, gosto da peleja. Há 130 anos, Machadão vaticinava: “Não deves empregar ironia, esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano**, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e abusados. Não.”

Não! Nem fudendo! Jamais! Use a chalaça, aconselhava Machadão, nossa boa chalaça amiga, “gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, usa a chalaça”.

Traduzido para 2011, seria algo parecido com: incense, alise, jogue sua filha de doze anos na roda e deixe a rima pobre se meter no meio do samba e do rock and roll, tudo pela chalaça, use os grunhidos e desfile os moletons da Nike, acompanhe as rimas e corrija esse maldito sotaque italiano que você herdou do Adoniran Barbosa, branco, porco, reacionário, playboy, se liga!: “Uma vez entrado na carreira, deve pôr todo o cuidado nas idéias que houveres de nutrir para uso alheio e próprio”. O melhor – aconselhava o Pai ao filho candidato a medalhão – “o melhor será não as ter absolutamente”.

Sob hipótese alguma. Nada de idéias, zero. Nem ouvidos, acrescento eu; portanto, vai passando o celular e não reaja porque isso aqui é um assalto e uma dádiva para ambas as partes: se pretende ser um  medalhão, meu filho, entenda que nossos irmãozinhos das quebradas são Mensageiros da Verdade sempiternos, ungidos e benfeitores, jamais reaja, não ouça, não veja, não pense. Apenas levante as mãos. Mãos ao alto! Peça bis, aplauda de pé (ou de quatro…), quanto piores as rimas, tanto melhor para sua segurança.

Pois bem, todo esse preâmbulo para dizer que ontem, quando eu saía da Estação Brigadeiro do metrô, minhas profecias e especulações se cumpriram matematicamente: fui abordado por dois artistas, um fazia rimas enquanto o outro me assaltava e improvisava o sample a partir de minhas costelas “Perdeu, playboy/ branco safado/ a vida é correria, passa-o-ouro-cala-boca/ é nóis na fita noite e dia/ tum tum tum” ou algo assim…

Ainda bem que eles tiveram o mínimo de coordenação motora. Se em algum momento a dupla se desentendesse na batida e, sei lá, trocasse a rima pelo breque (ou vice-versa) eu não estaria aqui a reproduzir essa obra de arte da música contemporânea, também conhecida – em tempos idos –  como assalto a mão armada. O problema não foi nem perder o celular e os 80 reais que eu havia acabado de sacar no caixa eletrônico (emprestado do Waltinho, outro artista, a juros de 14% ao mês), nem o susto que é tão comum nessas ocasiões.

A questão era: como é que eu registraria a ocorrência?

- Doutor, fui assaltado. Sei que podia ser bem pior, podia ser uma dupla sertaneja. Mas é o seguinte: perdi o celular, também me levaram 80 reais e ainda tive que ouvir uma porra de rap umas cinco vezes. No começo, não entendi o que se passava. Depois que o mano com o gorro da Nike (ou teria sido aquele que usava a camiseta do Corinthians?) me encostou a arma nas costelas é que percebi o assalto. Eles me obrigaram a ouvir aquele lixo do começo até o final.

- Sei – diria o doutor – provavelmente imaginando em qual artigo iria me enquadrar.

A vida é correria/ é nóis na fita noite e dia.

Como é que eu ia fazer um B.O desse jeito? O rap dos manos já me acusava de ser branco e safado. Vai que, numa dessas, devido ao nervosismo, eu deixasse escapar que ouço Piazolla todo final de tarde e que também sou palmeirense desde criancinha… E se eu dissesse que queria ter nascido em Buenos Aires, que Borges vale por uma semana ou um século inteiro da nossa arte moderna, e que eu não troco todo o Machadão por dois tangos de Angel Luna (ou talvez três). No mínimo, eu seria acusado de crime hediondo e inafiançável, cometido por motivo torpe e fútil: idéias, o melhor será não as ter absolutamente, ibidem Machadão. Infortúnio.

O pior de tudo é que esse mardito rap não desgruda de mim…  A vida é correria/ nóis na fita noite e dia…

*MV = Mensageiro da Verdade
MM (que sou eu mesmo) = Mensageiro da Mentira

** Machadão falava de Luciano de Samósata, autor de “Diálogos dos Mortos”, leiam urgentemente!

Sobre o autor

Marcelo Mirisola
Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

Outros textos do colunista Marcelo Mirisola.

Publicado originalmente no "Congresso em Foco".

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