sábado, setembro 03, 2011

Câmara e Senado a passeio...


Colunistas

Sobrevivendo à desumanidade?

“Como quer Boaventura, é fundamental a defesa duma ‘democracia de alta intensidade’, isto é, que volte a agregar valores morais – de igualdade, fraternidade e justiça social”

Márcia Denser
Em dois artigos recentes, o sociólogo e pensador de esquerda Boaventura de Souza Santos, professor nas universidades de Coimbra (Portugal) e Wisconsin (EUA), realiza um preciso diagnóstico do estado catastrófico em que se encontra a sociedade atual e – algo raro de acontecer – aponta algumas saídas à esquerda (inclusive para a própria esquerda) no sentido de apagar um incêndio social de proporções inimagináveis, cujo resultado óbvio é o retorno à barbárie.

A propósito, uma frase de Michael Douglas em Wall Street 2, é lapidar, ele diz mais ou menos isto: “Se antes a ganância era censurável, hoje ela é legal!”

Boaventura observa que os violentos distúrbios que têm explodido nas ruas do mundo – Europa, Oriente Médio, EUA – (que não ocorriam até um passado recente e cuja origem pode ser identificada em Seattle/1999, vejam que vida curta teve o Pensamento Único – 10 anos – da queda do Muro de Berlim e colapso da União Soviética em 1989 até 1999) realmente não são “um fenômeno isolado”, ao contrário, representam um perturbador sinal dos tempos. Sem perceber, as sociedades contemporâneas estão gerando um combustível altamente inflamável que flui nos subsolos da vida coletiva.

Tal combustível é constituído pela mistura de quatro componentes: a promoção conjunta da desigualdade social e do individualismo, a mercantilização da vida individual e coletiva, a prática do racismo em nome da tolerância e o sequestro da democracia por elites privilegiadas, com a consequente transformação da política na administração do roubo “legal” dos cidadãos. Cada um destes componentes tem uma contradição interna: quando se superpõem, qualquer incidente pode provocar uma explosão:

- Desigualdade e individualismo. Com o neoliberalismo, o aumento brutal da desigualdade social deixou de ser um problema, tornando-se uma solução. A ostentação dos ricos e da riqueza transformou-se na prova do êxito de um modelo social que só deixa miséria para a imensa maioria dos cidadãos, supostamente porque estes não esforçam o suficiente para ter sucesso na vida (darwinismo social). Isso só foi possível através da conversão do individualismo num valor absoluto, o qual, paradoxalmente, só pode ser experimentado como uma utopia da igualdade: a possibilidade de que todos dispensem a solidariedade social!

- Mercantilização da vida. A sociedade de consumo consiste na substituição das relações entre pessoas pelas relações entre pessoas e coisas. Os objetos de consumo deixam de satisfazer necessidades para criá-las incessantemente, e o investimento pessoal neles é tão intenso quando se tem como quando não se tem. Os centros comerciais são a visão espectral de uma rede de relações sociais que começa e termina nos objetos. O capital, com sua sede infinita de lucros, submeteu à lógica mercantil bens que imaginávamos comuns a todos (como a água e o ar) ou demasiado pessoais (a intimidade e as convicções políticas) para serem comercializados no mercado. Entre acreditar que o dinheiro é a medida de todas as coisas e acreditar que se pode fazer tudo para obtê-lo, há um passo bem pequeno. Os poderosos dão esse passo todos os dias sem que nada ocorra a eles. Os despossuídos, que pensam que podem fazer o mesmo, terminam nas prisões.

- O racismo da tolerância. Não é uma coincidência: são irrupções da sociabilidade colonial que continuam dominando nossas sociedades, mesmo décadas após do fim do colonialismo (o racismo é apenas um componente, já que de todos os distúrbios mencionados participam jovens de diversos grupos étnicos). Mas é importante, porque reúne a exclusão social com um elemento de corrosão da auto-estima – a inferioridade do ser agravada pela inferioridade do ter.

- O sequestro da democracia. O que há em comum entre os distúrbios e a destruição do bem estar dos cidadãos provocada pelas políticas de austeridade dirigidas pelas agências classificadoras e os mercados financeiros? Ambos são sinais das limitações extremas da ordem democrática. Os jovens rebeldes cometem delitos, mas não estamos diante de delinquentes nem terroristas, tal supersimplificação é idiota. Estamos frente a uma denúncia violenta de um modelo social e político que tem recursos para resgatar os bancos, mas não para resgatar os jovens duma vida sem esperanças, do pesadelo de uma educação cada vez mais cara e irrelevante, dado o aumento do desemprego; do completo abandono em comunidades que as políticas públicas anti-sociais transformaram em campos de treinamento da raiva, da anomia e da rebelião.

Entre o poder neoliberal instalado e os rebeldes urbanos há uma simetria perturbadora. A indiferença social, a arrogância, a distribuição injusta dos sacrifícios estão semeando o caos, a violência e o medo. Livre das esquerdas, o capitalismo voltou a mostrar a sua vocação anti-social. Por isso, retorna a urgência no sentido de reconstruir as esquerdas para evitar a barbárie. Como recomeçar? Pela aceitação de algumas idéias. Aqui, Boaventura, didaticamente, levanta nove pontos essenciais:

Primeiro, o mundo diversificou-se e a diversidade instalou-se no interior de cada país. A compreensão do mundo é muito mais ampla que a compreensão ocidental do mundo; não há internacionalismo sem interculturalismo;

Segundo, o capitalismo concebe a democracia como um instrumento de acumulação; se for preciso, ele a reduz à irrelevância e, se encontrar outro instrumento mais eficiente, dispensa-a (o caso da China). A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas. (grifo nosso)

Terceiro, o capitalismo é amoral e não entende o conceito de dignidade humana; a defesa desta é uma luta contra o capitalismo e nunca com o capitalismo (no capitalismo, mesmo as esmolas só existem como relações públicas).

Quarto, a experiência do mundo mostra que há imensas realidades não capitalistas, guiadas pela reciprocidade e pelo cooperativismo, à espera de serem valorizadas como o futuro dentro do presente.

Quinto, o século passado revelou que a relação dos humanos com a natureza é uma relação de dominação contra a qual é preciso lutar; o crescimento econômico não é infinito.

Sexto, a propriedade privada só é um bem social se for uma entre várias formas de propriedade e se todas forem protegidas; há bens comuns da humanidade (como a água e o ar).

Sétimo, o curto século das esquerdas foi suficiente para criar um espírito igualitário entre os humanos; este é um patrimônio da esquerda que esta só tem dilapidado;

Oitavo, o capitalismo precisa de outras formas de dominação para florescer, do racismo ao sexismo e à guerra e todas devem ser combatidas.

Nono, o Estado é um animal estranho, meio anjo meio monstro, mas, sem ele, monstros piores estariam à solta. Melhor Estado, sempre; menos Estado, nunca.

Como quer Boaventura, é fundamental a defesa duma “democracia de alta intensidade”, isto é, que volte a agregar valores morais – de igualdade, fraternidade e justiça social. Resta saber até que ponto (e até quando) o espírito humano será capaz de sobreviver sem eles, isto é, sem a própria humanidade.

Sobre o autor

Márcia Denser
A escritora paulistana Márcia Denser publicou, entre outros, Tango fantasma (1977), O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora/Tango Fantasma (Global,1986, Ateliê, 2003,2010, 2a.edição), A ponte das estrelas (Best-Seller,1990), Caim (Record, 2006), Toda prosa II - obra escolhida (Record, 2008). É traduzida em nove países e em dez línguas: Alemanha, Argentina, Angola, Bulgária, Estados Unidos, Espanha (catalão e galaico-português),Holanda, Hungria e Suíça. Dois de seus contos - "O vampiro da Alameda Casabranca" e "Hell's Angel" - foram incluídos nos Cem melhores contos brasileiros do século, organizado por Ítalo Moriconi, sendo que "Hell's Angel" está também entre os Cem melhores contos eróticos universais. Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, é pesquisadora de literatura e jornalista. Foi curadora de literatura da Biblioteca Sérgio Milliet em São Paulo.

Outros textos do colunista Márcia Denser.

Publicado originalmente no "Congresso em Foco".

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Opinião

O consumo continua forte

O Estado de S.Paulo - Editorial
Sustentado pelo aumento do emprego, pelos ganhos salariais e pela expansão do crédito, o consumo privado continuou crescendo mais que a oferta interna de bens e serviços no segundo trimestre, quando o Produto Interno Bruto (PIB) foi 0,8% maior que no primeiro, segundo o IBGE. No trimestre anterior, a economia havia crescido 1,2%.

Entre abril e junho o consumo privado foi 1% maior que nos três meses anteriores e 5,5% superior ao de um ano antes. A expansão trimestral foi a 31.ª consecutiva. O descompasso entre a demanda dos consumidores e a oferta interna explica em boa parte a vigorosa e prolongada alta de preços, interrompida brevemente no meio do ano e agora retomada, como confirmam os últimos dados de inflação.

Também o consumo do governo - o custo dos serviços prestados pelas administrações federal, estadual e municipal - continuou em expansão, com aumento de 1,2% entre o primeiro trimestre e o segundo.

Quando se examinam os novos dados gerais da economia brasileira, fica evidente, mais uma vez, a precipitação do Banco Central (BC) ao decidir o corte dos juros básicos. O esfriamento econômico, alegado pelo governo e pelo BC para justificar essa decisão, é apenas parcial. É muito mais sensível do lado da oferta interna de bens e serviços. O cenário é diferente do lado da demanda. O crescimento do consumo familiar foi maior no segundo trimestre do que no primeiro, quando havia ficado em 0,7%. E continua vigoroso, como indica, por exemplo, o número de veículos emplacados em agosto, 6,9% maior que o de julho e 4,7% maior que o de um ano antes.

Novos ganhos para os trabalhadores devem ocorrer no segundo semestre e já está garantido um aumento de 13,6% para o salário mínimo. Somados esses fatores a um orçamento expansionista para 2012, ano de eleições, como se pode apostar num arrefecimento da inflação? O próprio governo embutiu na proposta orçamentária uma previsão de crescimento econômico de 5%. A estimativa oficial para 2011 está em torno de 4%. O mercado prevê menos que 4%.

O investimento em máquinas, equipamentos, imóveis e infraestrutura, no segundo trimestre, foi 1,7% maior que no primeiro. Essa expansão dependeu, em parte, da importação de bens de capital. O aumento das compras externas foi impulsionado tanto pelo consumo quanto pelo investimento. Do primeiro para o segundo trimestre a produção industrial avançou 0,2%, mas esse resultado ligeiramente positivo dependeu essencialmente das atividades extrativas. A indústria de transformação, segundo o IBGE, ficou estagnada.

Esses dados da produção fabril podem até parecer muito pessimistas. De toda forma, as informações parciais disponíveis até agora apontaram uma desaceleração. A perda de impulso resultou principalmente das condições de competitividade da indústria brasileira, prejudicada pela valorização do real - seus produtos ficaram mais caros que os estrangeiros. O câmbio muito valorizado se somou a outras desvantagens bem conhecidas e genericamente descritas como "custo Brasil".

A redução dos juros básicos, neste momento, não resolverá nenhum desses problemas. O problema da indústria não está no lado da demanda, mas na formação de custos, por causa de fatores como o excesso de impostos, as deficiências da infraestrutura e o alto preço da energia. Se a demanda interna crescer com mais vigor, pressionará mais fortemente os preços e exigirá mais importações, oferecendo um mercado mais amplo aos produtores de fora.

Juros básicos menores não tornarão muito mais fácil o investimento industrial, até porque a maior parte do financiamento de longo prazo é concedida em condições melhores que as do mercado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A criação de um mercado para títulos de longo prazo depende de vários outros fatores, incluída uma gestão austera e mais equilibrada das contas públicas.

Por enquanto, só diretores do BC parecem acreditar nas promessas de austeridade. Até pagaram adiantado, cortando os juros antes da prometida contenção de gastos.

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Manchetes do dia

Sábado, 03 / 09 / 2011

Folha de São Paulo
"PIB desacelera, mas consumo continua em alta"

Indústria, afetada por importações, creceu só 0,2%; gasto das famílias, impulsionado por emprego e renda, subiu 1%
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O PIB (Produto Interno Bruto), soma dos bens e serviços gerados pela economia, cresceu 0,8% no segundo trimestre, revelando desaceleração diante do 1,2% do trimestre anterior. Já o consumo das famílias impulsionado por mais emprego e renda, cresceu 1%. Segundo os números divulgados pelo IBGE, a perda de ritmo foi mais concentrada na indústria, que sob os efeitos do real forte e das importações registrou expansão de apenas 0,2%. O setor de serviços, termômetro do consumo doméstico, teve um crescimento de 0,8%, puxado por comunicação e informática. A boa notícia foi o aumento de investimentos, de 1,7%, sinalizando aumento de produção. Analistas esperam que o ano feche com alta de 3,5%.

O Estado de São Paulo
"PIB desacelera e Mantega diz que juro e imposto podem cair"

Economia no segundo trimestre cresce 3,1% ante igual período de 2010, contra 4,2% no primeiro trimestre

O PIB desacelerou no segundo trimestre de 2011, por causa do fraco desempenho da indústria e da agropecuária. O ministro Guido Mantega (Fazenda) disse que o governo poderá adotar medidas fiscais – o que pode incluir corte de impostos e de juros – para garantir um crescimento de 5% no ano que vem. O câmbio valorizado, as medidas de contenção de crédito e a alta dos juros comprimiram a produção industrial do País. A expansão no segundo trimestre foi de 0,8% em relação ao trimestre anterior, sem influências sazonais. Em termos anualizados, corresponde a 3,2%. O PIB atingiu R$ 1,02 trilhão no segundo trimestre. Na comparação com igual período de 2010, a expansão no segundo trimestre foi de 3,1%, um recuo ante os 4,2% do primeiro trimestre. Vários setores se retraíram no período, como indústria, construção civil, indústria extrativa mineral e áreas como transporte e aluguel. O serviços tiveram o melhor desempenho, crescendo 0,8%.

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sexta-feira, setembro 02, 2011

American way...

Coluna do Celsinho

Felicidade

Celso de Almeida Jr.
Setembro.

Aniversário da filhinha.

11 anos.

No espelho de seus olhos, meus cabelos brancos.

Ela, conquistando a juventude.

Eu, entendendo a maturidade.

Nova primavera.

Novos ciclos.

Vidas distintas.

Caminhos, idem.

Unidos pela genética.

Livres pelo amor.

Linguagens engraçadas.

Humor adorável.

Doce como a mãe.

Sonhos de menina.

Mocinha.

Caiçarinha.

Brasileirinha.

Pisará no meu pé pelas palavrinhas.

Perdoará o papai bobão.

Visite: www.letrasdocelso.blogspot.com

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Opinião

Alguma coisa acontecendo, Mr. Jones

Fernando Gabeira - O Estado de S.Paulo

De Sana a Londres, de Tel-Aviv a Santiago, de Trípoli a Madri, os jovens estão em movimento no mundo. Uma armadilha perigosa seria estabelecer paralelos com 1968. O próprio Daniel Cohn-Bendit se recusa a isso, afirmando que são momentos diferentes na História e se quisermos entender o que se passa melhor é esquecer 68. No entanto, um verso de Bob Dylan, composto na época, ainda tem alguma validade: alguma coisa está acontecendo, Mr. Jones, e você não sabe o que é.

A maioria dos processos ainda não foi concluída. Por maior que seja o esforço analítico, é preciso uma dose mínima de humildade para tentar entender tudo o que se passa e estabelecer conexões entre lugares tão distantes e sociedades tão singulares. Até agora, um único denominador comum tem sido enfatizado: o uso de instrumentos de comunicação fora do controle dos governos, como é o caso da internet. Mas mesmo esse dado é relativo, porque no Egito e em outros países do Oriente Médio a repressão conseguiu bloquear a internet.

Na Inglaterra talvez tenha acontecido algo realmente especial. Cohn-Bendit, ironicamente, afirma que ali ocorreu a primeira revolta liberal da juventude planetária. Alguns políticos ingleses chegaram a pedir aos produtores de BlackBerry que bloqueassem as mensagens no interior do país. O que, a julgar pela iniciativa, define a revolta inglesa como também a primeira realizada por usuários de BlackBerry.

Os jovens ingleses atacaram lojas e supermercados sempre com a preocupação de obter objetos de consumo, de preferência das marcas mais famosas. O que levou o Daily Telegraph a concluir que sua revolta era para consumir o mesmo que os dirigentes ingleses.

Já tive a oportunidade discutir esse tema durante os saques no início da década de 1990 no Rio. Muitos saqueadores levaram iogurte e bacalhau, escolha que levou a uma condenação mais severa da imprensa. Era uma prova de que não estavam apenas famintos. Mas a perplexidade tem a mesma origem do choque dos ingleses com as características dos saques do verão londrino.

Nem todos os bens de consumo estão ao alcance de todos. Mas a propaganda, sim.

Tangidos pelo desemprego, pela alta dos alimentos e revoltados com a ditadura em seus países, os jovens dos países árabes iniciaram uma nova fase histórica na região. Ditadores balançaram, ditadores conciliaram, foram presos e exilados.

A implantação da democracia em alguns países já abre uma enorme perspectiva para a juventude árabe. Mas o que dizer dos espanhóis, também pressionados pelo desemprego? Sua luta é para aprofundar a democracia, mudar o modo de fazer política. É uma demanda nova, difícil de ser entendida claramente pela população e até por alguns manifestantes. O que significa aprofundar a democracia, que novos hábitos políticos devem ser inaugurados?

Todos nós temos alguma ideia sobre isso. Mas não há consenso nem clareza. O movimento dos indignados em Madri ganhou grande atenção na Espanha e no mundo também por ter surgido perto das eleições municipais. Seu grande teste será sobreviver e crescer no período pós-eleitoral, quando grande parte dos eleitores desloca sua atenção da política para a vida cotidiana.

Em Israel, o movimento dos jovens talvez seja o que mais tem crescido numericamente, a ponto de projetar um encontro de 1 milhão de pessoas, algo que não é de todo impossível na China ou na Índia, mas um feito extraordinário para um país de 8 milhões de habitantes.

O modelo do movimento em Israel e mesmo o da Espanha se inspiraram na Islândia. Em Tel-Aviv, revoltado com o aumento do preço de seu aluguel, Daphni Leef decidiu acampar como protesto. Na Islândia, a inspiração dos espanhóis, o banco Kaupthing acabara de quebrar. O cantor Hordur Torfason pegou sua guitarra e foi para a porta do Congresso. É um cantor conhecido, atraiu gente e abriu o microfone para as pessoas que se aproximaram. Daí nasceu um movimento chamado Vozes ao Vento, que levou a Islândia, via plebiscito, à recusa de pagar uma dívida de 4 bilhões cobrada pela Inglaterra e pela Holanda.

É ilusão, entretanto, achar que com uma guitarra na mão e uma revolta na cabeça milhares de pessoas se vão aglutinar em torno de um líder ocasional. Pesquisa do Pew Global Attitudes Project revelou que 27% dos egípcios estavam satisfeitos com seu país, bem abaixo dos 47% registrados em pesquisas anteriores. Na China, 87% estavam satisfeitos.

Isso não explica o fracasso dos protestos de Jasmin.

A China aprendeu com as manifestações da Praça Tiananmen. Um longo relato na revista Atlantic de agosto, feito por James Fallows, revela que as autoridades chineses agora temem tudo e tomam providências com antecipação, às vezes até desproporcionais ao perigo. A China começa prendendo os advogados de direitos humanos - Fallows sublinha que, embora pareça impossível, eles existem lá. Só depois passa a prender os possíveis manifestantes. Por isso os protestos chamados para a esquina de Wangfujing, defronte ao McDonald"s, tinham mais jornalistas estrangeiros do que chineses.

O caso chileno, que tenho acompanhado esta semana, também é particular. O sistema educacional formulado na época de Pinochet continua em vigor. Estudantes saíram às ruas contra um modelo de mercado, pedindo educação gratuita e de qualidade. Independentemente do que se acha da proposta, é inevitável constatar que num país com grande tradição de luta ela subiu ao topo da agenda. E a maioria dos chilenos, cerca de 77%, apoia a tese dos estudantes, sem, contudo, apoiar os distúrbios que extremistas provocam ao fim das manifestações.

O jornal chileno El Mercurio destacou, esta semana, Índia e Brasil às voltas com a corrupção. Ambos os países em processo de se tornarem potências mundiais. Todos se olham em busca do movimento fora de suas fronteiras, porque sabem que vivemos uma história sem fim.

JORNALISTA

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 02 / 09 / 2011

Folha de São Paulo
"Orçamento ignora aumento de juízes e STF se revolta"

Judiciário quer reajuste de 14,7%, mas governo considera pedido impossível por onerar cofres e causar efeito cascata
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Uma revolta dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) levou o governo a reavaliar o Orçamento de 2012. O Judiciário reivindica reajuste de 14,7%, e Dilma havia concordado em apoiar 5%. A proposta enviada, porém, nada previa. O governo também ignorou a previsão de 56% de reajuste dos demais servidores do judiciário. A equipe econômica considera a demanda impraticável, por onerar os cofres públicos e provocar efeito cascata em outras categorias.

O Estado de São Paulo
"Texto do PT critica "faxina" de Dilma e pede reforma política"

Documento para congresso do partido vê 'conspiração midiática' para dissolver base aliada no Congresso

Uma resolução de 24 páginas que norteará o 4º Congresso do PT, entre hoje e domingo, argumenta que a oposição, apoiada por uma "conspiração midiática", quer dissolver a base parlamentar do governo, informa Vera Rosa. O texto recomenda ao partido repelir as "manobras" para promover a “criminalização" da base aliada e diz que o núcleo de combate à corrupção está na reforma política e do Estado – uma crítica a "faxina" promovida pela presidente Dilma Rousseff em sua administração. O documento defende o ex-presidente Lula, dizendo que ele empreendeu "combate implacável" à corrupção. Petistas temem que ações de Dilma carimbem o governo Lula como "corrupto", já que todos os demitidos foram herdados dele.O texto diz que, para vencer a "batalha" da opinião pública, será preciso desmontar as armadilhas da "espiral do cinismo", que aceita a corrupção como "inevitável".

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quinta-feira, setembro 01, 2011

Onde foi que eu errei?


Coluna do Mirisola

O velho bonde número 10

“Se o meu ódio e o meu amor tivessem um som, e se eu tivesse que responder a todos os ruídos de Sta Teresa, eu guincharia feito um bondinho descarrilado, condenado e sem freio”

Marcelo Mirisola
Ocorreu-me a lembrança do condutor que vestia suspensórios, e que alegrava os gringos falando “gudi morninguis” macarrônicos e, junto ( ou logo acima dessa lembrança), veio o céu do Rio de Janeiro, do ponto de vista de quem se dependura nos estribos, joga um braço pra fora e olha pro alto, literalmente suspenso de vento e do azul do céu. Eu saltava na porta de casa. Não foram poucas as vezes que subi as ladeiras de Sta. Teresa meio bobo, turistão e completamente feliz.

A foto mostra o bonde espatifado, bem na curva, logo à direita da escadaria que liga a Joaquim Murtinho com a Francisco Muratori.

Quando lembro de Sta.Teresa, a primeira coisa que aparece diante de mim são os degraus dessa escadaria, como se aquele início de subida fosse o botão de start da memória . Imagino que Proust usava método parecido para não se livrar de si mesmo.  Do ano que morei no Grajaú, por exemplo, um passarinho cisca em círculos na esquina da Engenheiro Richard com Mearim, e exerce – até hoje – a mesma função de ligar passado e presente. Em seguida, lembro de uma loja de pijamas na Pça.Verdun e do Paulinho boca de cadáver, zelador do prédio, que sempre me pedia cigarros (que eu não fumava) e cinco reais emprestados.

Pois bem, agora o lugar da melhor lembrança que guardo de Sta.Teresa é exatamente o lugar amaldiçoado que matou o motorneiro de suspensórios (Oh,Deus! será que foi ele?) e mais cinco pessoas, e deixou outras dezenas gravemente feridas. A notícia é que o bonde que fazia a linha Paula Matos-Centro descarrilou na altura do número 400, a partir daí seguiu em linha reta por cerca de cinquenta metros até se chocar com o poste localizado imediatamente antes da escadaria e bem na frente das minhas lembranças mais bonitas de Sta. Teresa, acima da ladeira da Francisco Muratori.

Numa noite de lua cheia, eu e o Edinho apostamos uma corrida ali, pra ver quem chegava antes, naquele mesmo poste. Lembra, Edinho?

Não me adaptei a Sta.Teresa, ao contrário do que pensava, o bairro é muito barulhento. Eu morava no 802 da Joaquim Murtinho, nos fundos da Chácara do Céu, antes do Largo do Curvelo, de frente para todos os barulhos da Lapa. Bom lembrar que aquilo ali é um vale. De onde ecoavam/ecoam diuturnamente a sinfonia da cachorrada histérica e o diabo do serralheiro da rua André Cavalcanti, lá na toca do gambá, quase bairro de Fátima. Aos sábados era tudo isso, mais os bailes funk. Como não conseguia reclamar com os cães nem com o serralheiro, nem pretendia apresentar Villa-Lobos aos meus vizinhos funkeiros, restava-me olhar pro Cristo da janela e pedir só um pouco de silêncio antes de mandar o cenário lindo pra pqp toda santa manhã ao acordar, e de noite também porque não conseguia dormir. Enquanto isso, as gaivotas bordejavam no céu mais bonito e azul do mundo, suspensas – as gaivotas e meus tímpanos – pela brisa que deve continuar soprando lá da baía de Guanabara. O Rio é lindo.

Mas como é que um lugar pode ser tão bonito e barulhento?

Quero dizer que – mesmo na remota hipótese de ter havido falha humana – acho uma canalhice pôr a culpa no motorneiro. Outra coisa. Suspender a circulação dos bondes, depois de consumada a tragédia, é algo mais estúpido, hipócrita e lamentável ainda. Mal comparando, é o mesmo que esvaziar uma piscina onde crianças se afogaram porque não havia rede de proteção.

Isso me dá um desânimo maior que o barulho todo do mundo, como se, agora, minhas lembranças dependessem de um laudo técnico, como se meu passado estivesse nas mãos de engenheiros e burocratas da Secretaria de Transportes, como se minha felicidade egoísta não pudesse existir mais naquele lugar desgraçado.

O ranger dos bondes que subiam e desciam a Joaquim Murtinho jamais incomodou. Ao contrário, foram os únicos ruídos amigos que me acompanharam naquele ano de solidão, azul do céu e contrariedade absolutas. Se o meu ódio e o meu amor tivessem um som, e se eu tivesse que responder a todos os ruídos de Sta Teresa, eu guincharia feito um bondinho descarrilado, condenado e sem freio. O velho número 10.
 
Sobre o autor
 
Marcelo Mirisola
Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

Outros textos do colunista Marcelo Mirisola

Publicado originalmente no "Congresso em Foco".

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Opinião

O ato indecoroso da Câmara

O Estado de S.Paulo - Editorial
Primeiro, a boa notícia: a banda limpa da Câmara dos Deputados congrega 1/3 dos seus 513 membros. São os 166 deputados que, embora protegidos pelo escrutínio secreto, tiveram a decência de votar pela cassação da colega - no sentido puramente formal do termo - Jaqueline Roriz, do PMN do Distrito Federal(DF), filha do notório capo político local Joaquim Roriz. A notícia é boa porque até experientes observadores dos modos e costumes do Legislativo brasileiro calculavam que a bancada da decência seria muito mais rarefeita. Nada, nada, é um consolo.

Agora, a constatação devastadora: Lula talvez tenha sido até generoso quando disse, em 1993, que havia no Congresso "uns 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses". A julgar pelo desfecho da votação de anteontem, pode-se presumir que só na Câmara eles sejam ainda mais numerosos. São, antes de tudo, os 265 que absolveram a parlamentar filmada em 2006 recebendo dinheiro do pivô (e depois delator) do chamado mensalão do DEM, Durval Barbosa. A bolada se destinava ao caixa 2 da campanha de Jaqueline a um segundo mandato na Câmara Legislativa do DF. A cena foi divulgada em março último pelo portal do Estado.

Aos 265 que não perderam mais essa oportunidade de induzir a opinião pública a perder as migalhas de respeito que ainda pudesse ter por seus representantes, somem-se os 20 que se abstiveram e os 62 que nem sequer compareceram à sessão. Dá um total de 347 deputados. Mesmo que um punhado deles possa oferecer desculpas aceitáveis para a abstenção ou a omissão, o número é acachapante. Não custa lembrar que, em decisão aberta, o Conselho de Ética havia aprovado por 11 a 3 o pedido do PSOL de abertura de processo contra Jaqueline por quebra de decoro, para a sua subsequente expulsão da Casa.

A rigor, os que preservaram o mandato da deputada agiram como quem faz um seguro para proteger a própria carreira. Afinal, mais dia, menos dia, podem surgir contra qualquer deles provas irrefutáveis de bandalheiras que tenham praticado antes de se aboletar no Legislativo federal, pondo em xeque o bem-bom de que desfrutam. A cassação de Jaqueline abriria um intolerável precedente. Criaria uma legítima jurisprudência política, segundo a qual o procedimento indecoroso é incompatível com o processo eleitoral e a atividade parlamentar, seja quando e em que circunstâncias haja ocorrido. Não se trata de refazer a história, como alegam desavergonhadamente os defensores da impunidade.

A razão é simples: os 100.051 eleitores do DF que em outubro passado marcaram na urna eletrônica o nome de Jaqueline não sabiam que ela recebera dinheiro sujo ao menos uma vez, no vasto esquema rorista de corrupção mantido pelo então governador José Roberto Arruda, do DEM. (A propósito, também ele foi flagrado embolsando R$ 50 mil do mesmo operador Durval Barbosa que financiou Jaqueline.) Ainda que 100.050 daqueles eleitores não dessem a mínima para o delito posteriormente evidenciado, bastaria um único caso de lesa-eleitor para tornar ilegítimo o mandato da deputada.

Contesta-se a Lei da Ficha Limpa porque ela impede o registro da candidatura de políticos que tenham sido inculpados por fatos anteriores ao advento da medida saneadora. O argumento é que as leis só podem retroagir em benefício dos réus. Na realidade, porém, o passado de um candidato não pode conter transgressões ao princípio constitucional da moralidade na vida pública. Assim também na questão do decoro parlamentar. Trata-se de uma exigência que precede o momento em que o político põe os pés pela primeira vez numa Casa legislativa.

Já para os deputados que seguraram a cadeira de Jaqueline Roriz, para garantir as deles em circunstâncias similares, é como se a integridade não fosse parte inamovível do caráter de cada qual. Teria uma espécie de prazo de validade às avessas e poderia, ou não, se manifestar conforme a circunscrição territorial em que se movem. Isso, em meio à aberração do voto secreto no Parlamento. Nesse sistema de valores virado de ponta-cabeça, nada mais natural do que a queixa de Jaqueline, antes da votação, de que a imprensa, ao expô-la, havia destruído a sua "honra".

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 01 / 09 / 2011

Folha de São Paulo
"Sob pressão, BC reduz juro a 12%"

Desde o acirramento da crise internacional, comitê da instituição vinha sendo cobrado a cortar o custo do dinheiro
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O Banco Central surpreendeu e cortou a taxa básica de juros da economia de 12,5% para 12% ao ano, um após a presidente Dilma Rousseff dizer que o país estava pronto para a possibilidade de redução. A queda anunciada pelo Copom (Comitê de Política Monetária), a primeira em dois anos, não foi unânime. Cinco diretores do BC votaram a favor da redução e dois, pela manutenção.

O Estado de São Paulo
"Pressionado, BC alega crise externa e baixa juros para 12%"

Após apelo do governo, Copom interrompe ciclo de alta iniciado em janeiro e corta 0,5 ponto porcentual da Selic

Em meio à pressão do governo para que reduzisse os juros, o Banco Central alegou ter havido "substancial deterioração" do quadro global nas últimas semanas e decidiu interromper o ciclo de alta iniciado em janeiro. O Comitê de Política Monetária do BC anunciou a redução da taxa básica de juros em 0,50 ponto porcentual, para 12% ao ano. Os diretores do BC mostram que, após meses de trabalho para segurar a alta da inflação e esfriar a economia, agora é necessário acelerar a atividade econômica em reação à crise global. "O Comitê avalia que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante", cita o comunicado. Se economias centrais crescerem menos, a demanda por produtos brasileiros seguirá fraca. Com isso, o BC ignora a inflação que segue em ritmo elevado. Nos últimos 12 meses, o IPCA tem alta acumulada de 6,87%, acima do teto da meta, que é de 6,50%.

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quarta-feira, agosto 31, 2011

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Opinião

A primeira Aglomeração Urbana

Sete municípios integram a recém-criada Aglomeração Urbana de Jundiaí, a primeira do Estado de São Paulo. Na quarta-feira da semana passada, o governador Geraldo Alckmin sancionou o Projeto de Lei Complementar que cria esse instrumento de gestão regional e articulação de políticas públicas. São Paulo começa, assim, a reconhecer o papel das cidades médias como protagonistas no desenvolvimento de projetos de uso do solo, transporte e sistemas viários, habitação, saneamento básico e meio ambiente.

Além de Jundiaí, fazem parte da Aglomeração Urbana os municípios de Cabreúva, Campo Limpo Paulista, Itupeva, Jarinu, Louveira e Várzea Paulista, que somam 700 mil habitantes. Conforme o Índice Paulista de Responsabilidade Social, Jundiaí faz parte do grupo de municípios mais ricos e com bons indicadores sociais. Classifica-se em quarto lugar no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal entre as cidades paulistas e em 14.º lugar, se considerados todos os municípios brasileiros. Estreitos laços de ordem funcional e socioeconômica entre Jundiaí e seus vizinhos foram mantidos ao longo do tempo. Campo Limpo Paulista, Itupeva, Louveira e Várzea Paulista foram distritos de Jundiaí e, embora emancipados, o processo de conurbação há muito diluiu as fronteiras.

Jundiaí se situa no entroncamento rodoferroviário entre a capital e Campinas e conta com boa infraestrutura. A Aglomeração Urbana tem economia estruturada, um setor de serviços bem desenvolvido e comércio atacadista de abrangência nacional. Mas suas características ambientais - complexo de serras e de reservatórios - exigem planejamento integrado e ações conjuntas para o desenvolvimento econômico e social equilibrado.

Com 96% de sua população vivendo nas cidades, essa aglomeração tem como um de seus principais desafios a mobilidade urbana. Grande parte de sua população em idade economicamente ativa se movimenta entre as cidades da Aglomeração Urbana para o trabalho, estudos, compras e lazer. Por isso, é de fundamental importância o anúncio feito pelo governador Geraldo Alckmin a respeito da construção do Expresso Jundiaí, trem que ligará o município à capital em um percurso de 45 km, a ser feito em 25 minutos. As obras deverão ser iniciadas em fins de 2013.

As linhas de ônibus intermunicipais que operam entre os sete municípios passarão a ser gerenciadas e fiscalizadas pela Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), que já começou a estudar medidas destinadas a melhorar a manutenção e a conservação da frota, com vistas a uma operação mais eficaz.

A criação da Aglomeração Urbana de Jundiaí é o primeiro passo para a formação de redes regionais de cidades que compõem a macrometrópole de São Paulo. Um estudo realizado pela Emplasa e pela Fundação Seade constatou que um conjunto de 153 cidades, num raio de 200 quilômetros da capital, abriga 72% da população e 82% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado. É a quarta macrometrópole do planeta, ficando atrás apenas de Tóquio, Mombai e Cidade do México.

O alto índice de urbanização dessa região deixa evidente a necessidade de articular políticas de integração para facilitar o planejamento, o financiamento e a execução dos projetos destinados a assegurar desde a mobilidade até a saúde pública.

O governo do Estado está empenhado nessa questão. Em junho, Alckmin sancionou o Projeto de Lei Complementar que reorganizou a Região Metropolitana de São Paulo. Há 15 dias, a Assembleia Legislativa aprovou o projeto que cria a Aglomeração Urbana de Jundiaí e a lei foi sancionada em tempo recorde. Os próximos passos serão a criação da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e a Aglomeração Urbana de Piracicaba.

Com esse instrumento de gestão mais avançado, o governo estadual ajuda os municípios a vencer os desafios impostos pela descentralização administrativa: a falta de recursos - humanos, financeiros e tecnológicos - e a dificuldade de resolver problemas que ultrapassam seus limites.

Manchetes do dia

Quarta-feira, 31 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Governo reduzirá tributo para elevar produção de álcool"

Safra 2011/2012 de cana deve registrar queda de 5,6%; governo pensa em utilizar crédito para estimular setor
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Com o objetivo de estimular a produção de etanol e evitar a falta do combustível, o governo deverá anunciar nos próximos dias a redução de PIS/Cofins para as indústrias de álcool, benefício fiscal que hoje vale só para produtores de açúcar. Para a safra 2011/2012, estima-se uma redução de 5,6% na colheita de cana-de-açúcar. Na avaliação do governo, 25%0 da capacidade instalada das usinas está ociosa. Por isso o estímulo ao setor, que deve contar também com mais crédito.

O Estado de São Paulo
"Governo paga por projeto fantasma para a Copa"

Sindicato de dirigentes de futebol leva R$ 6,2 milhões para cadastrar torcedores, mas trabalho não é realizado

O governo federal repassou R$ 6,2 milhões a uma entidade de dirigentes de futebol para um projeto fantasma para a Copa, informam os repórteres Marta Salomon, Leandro Colon e Fernando Gallo. Sem licitação, o Ministério do Esporte contratou o Sindafebol, liderado pelo ex-presidente do Palmeiras Mustafá Contursi, para fazer um cadastramento das torcidas organizadas. O contrato foi assinado em 31 de dezembro de 2010 e o dinheiro foi liberado em 11 de abril deste ano. Mas as empresas que aparecem como responsáveis pelos serviços do projeto nunca foram efetivamente contratadas. O Ministério do Esporte alega que escolheu o Sindafebol por ser o mais "adequado", mas o próprio Mustafá admitiu que a entidade é despreparada para tocar o convênio. O dinheiro está depositado numa conta controlada por ele.

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terça-feira, agosto 30, 2011

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Opinião

Bons modos no orçamento

O Estado de S.Paulo - Editorial
Diante do risco de nova turbulência internacional, o governo decidiu como precaução adicionar R$ 10 bilhões à meta de superávit primário deste ano, anunciou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Para 2012, segundo ele, a ideia é cumprir a meta integralmente - sem desconto - e conter a expansão do custeio, mas sem cortar o gasto social nem o investimento. Na manhã de ontem, a presidente Dilma Rousseff apresentou o plano a líderes da base parlamentar e pediu ajuda para aprovação das medidas - como faria, num país diferente, um chefe de governo cercado de partidários menos fisiológicos. Mas ela precisava realizar esse ato de fé. O primeiro desafio será mudar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2011, para elevar de R$ 117,8 para R$ 127,8 bilhões a meta de superávit primário, o dinheiro separado para os juros e a amortização da dívida pública. A segunda tarefa será conseguir a aprovação de um orçamento moderado para 2012.

Se a presidente de fato estiver empenhada em alcançar esses objetivos, terá de conseguir de seu partido e dos aliados um apoio raramente obtido nos primeiros oito meses de mandato. Será um resultado especialmente notável, porque a intenção do governo, nesse caso, é conter a gastança - uma bandeira impopular no Congresso e quase nunca empunhada pelos petistas e seus companheiros de jornada. Seria um exagero, no entanto, descrever o plano da presidente como um arrocho. Nenhum sacrifício será necessário para a elevação do resultado primário deste ano e o cumprimento da meta "cheia", em 2012, será apenas uma demonstração elementar de decoro político e administrativo.

Não se pretende, como deixou claro o ministro, cortar despesas, mas simplesmente limitar o aumento do custeio. A melhora do resultado fiscal, neste ano, será muito fácil. O setor público já alcançou cerca de 80% do superávit primário programado para 2011. Isso se deve principalmente à enorme elevação da receita, como já foi mostrado muitas vezes, e não a algum esforço especial de austeridade.

É animador, no entanto, ver o governo reconhecer as condições muito favoráveis da arrecadação e propor o acréscimo de R$ 10 bilhões ao superávit destinado ao serviço da dívida. Esse acréscimo será realizado, segundo o plano, só pelo governo central. Sua meta será elevada de cerca de R$ 81 bilhões para R$ 91 bilhões. Não será necessário convocar Estados, municípios e estatais para o "esforço" adicional.

Mas a contenção do aumento do custeio será com certeza muito limitada em 2012. O governo já está comprometido com aumentos concedidos ao funcionalismo na gestão anterior. Parte desses aumentos entrará na folha a partir do próximo ano. Além disso, a nova elevação do salário mínimo - na faixa de 13% a 14%, segundo promessa do ministro da Fazenda - afetará as despesas da Previdência Social. Além disso, estão em negociação aumentos salariais para algumas categorias e servidores.

Uma verdadeira política de austeridade iria mais longe, mesmo sem corte dos programas sociais mais importantes e sem redução do investimento custeado pelo Tesouro. Uma política mais austera cortaria ou eliminaria, por exemplo, as transferências de recursos para os bancos estatais. São subsídios de utilidade muito discutível, tanto econômica quanto socialmente.

Depois, a conversa de conter o custeio para elevar o investimento é enganadora. O governo central só não investe mais porque não consegue elaborar projetos adequados e executá-los. Os desembolsos ficam sempre muito abaixo do valor autorizado para cada exercício. A isso se acrescenta um fato bem conhecido: parte do dinheiro vai para projetos definidos em emendas parlamentares de interesse clientelístico, quando não para entidades fantasmas ou para obras ou compras superfaturadas.

De toda forma, o compromisso do governo com um pouco mais de controle orçamentário é bem-vindo e pode ser o começo, talvez, de alguma mudança mais ampla. Mas é preciso que esse lance não sirva de pretexto para uma redução dos juros básicos antes da hora. Se isso ocorrer, a credibilidade do Banco Central irá pelo ralo, com péssimas consequências para a economia.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 30 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Dilma quer usar 'extra' de R$ l0 bi para pagar juros"

Planalto acha que medida abrirá caminho para reduzir custo do dinheiro
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O governo decidiu aproveitar arrecadação extra de R$ 10 bilhões prevista para 2011 e pagar parcela maior dos juros da dívida pública. Gastos programados serão mantidos, disse o ministro Guido Mantega; a ideia é segurar novas despesas. Na avaliação do Planalto, a medida deixará o país mais preparado para a possibilidade de uma nova recessão nos EUA e na Europa e abrira espaço para que o Banco Central possa diminuir a taxa básica de juros da economia, hoje de 12,5%. 

O Estado de São Paulo
"Dilma quer economizar mais R$ 10 bi"

Meta para contas públicas deste ano sobe para R$ 127,9 bilhões, e cresce a expectativa do mercado sobre redução de juros agora

O governo anunciou que economizará R$ 10 bilhões acima do previsto, elevando a meta das contas públicas do ano para R$ 127,9 bilhões. A medida permite cortar os juros, disse a presidente Dilma Rousseff a sindicalistas e a seu Conselho Político, mas Guido Mantega (Fazenda) afirmou que isso acontecerá "quando o Banco Central entender que é possível". O Comitê de Política Monetária do BC fará reunião sobre juros hoje e amanhã. A expectativa do mercado sobre queda da taxa neste momento cresceu. O esforço anunciado será concentrado na União, que quer saldo positivo de R$ 91,8 bilhões, em vez dos R$ 81,8 bilhões fixados na Lei de Diretrizes Orçamentárias. 

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segunda-feira, agosto 29, 2011

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Opinião

O Ideb na porta das escolas

O Estado de São Paulo - Notas e Informações
Desde junho, tramita no Congresso projeto de lei que obriga as escolas da rede pública a afixar, na porta de entrada e em local visível, uma placa de um metro quadrado comunicando sua colocação no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). A ideia é exibir para os pais dos alunos a qualidade do estabelecimento em que seus filhos estão matriculados e estimular as famílias a cobrar melhoria do ensino.

A medida já foi adotada no Estado de Goiás e em algumas capitais, como Rio de Janeiro e Teresina. Mas em várias regiões, entre elas São Paulo, a ideia não tem avançado por causa da oposição corporativa e política de entidades de professores. Segundo essas entidades, as avaliações escolares são técnicas e os pais de alunos não saberiam o que significam, exatamente, as notas do Ideb. Para essas entidades, as notas das escolas refletem o nível econômico dos alunos e o nível de escolaridade de suas famílias - por isso, a exibição da classificação do Ideb na porta dos estabelecimentos de ensino dos bairros pobres seria uma forma de discriminação social.

O projeto é de autoria do deputado Edmar Arruda (PSC-PT). Mas a ideia partiu do economista Gustavo Ioschpe, fundador do Compromisso Todos pela Educação e membro dos conselhos do Instituto Ayrton Senna, da Fundação Iochpe, do Instituto Ecofuturo (Grupo Suzano) e da Fundação Padre Anchieta.

Criado em 2007 e divulgado a cada dois anos, o Ideb tem por objetivo aferir a qualidade das escolas públicas. O próximo Ideb vai avaliá-las ainda este ano e será divulgado em 2012. O índice é calculado a partir de dados sobre aprovação obtidos no Censo Escolar e das médias de desempenho na Prova Brasil e no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb). A Prova Brasil é um exame nacional de português e matemática aplicado às 4.ª e 8.ª séries de escolas públicas de ensino fundamental duas vezes por ano. Tem por finalidade avaliar comparativamente o rendimento dos alunos e a capacidade das escolas de ensinar no início e no final de cada período letivo. Já o Saeb avalia, por amostragem, alunos da 4.ª série e da 8.ª série do ensino fundamental e do 3.º ano do ensino médio, em matemática (com foco na resolução de problemas) e em português (com foco em leitura), de escolas públicas e particulares. Com base nas informações do Saeb e da Prova Brasil, os municípios, os Estados e a União podem definir ações para melhorar a qualidade do ensino, promovendo a correção de distorções e dirigindo recursos técnicos e financeiros para áreas consideradas prioritárias.

Os resultados do Ideb são divulgados pelo site do Ministério da Educação e podem ser acessados por qualquer pessoa. A meta do Plano de Desenvolvimento da Educação para o período de 2011 a 2020, que também tramita no Congresso, é que o Ideb atinja o nível 6 (numa escala de zero a 10) até o final da década. Esse é o índice mínimo considerado aceitável pelos 34 países da OCDE. Atualmente, o índice médio das escolas brasileiras, no último ano do ensino fundamental, é 4.

Para muitos especialistas, a oposição de determinados setores docentes ao projeto não se justifica. Em primeiro lugar, se as avaliações do MEC são públicas, não faz sentido impedir a maior divulgação de seus resultados, por meio de placas nas escolas. Em segundo lugar, mesmo que pais e mães não consigam entender as classificações do Ideb, eles irão comparar a avaliação da escola de seus filhos com as de outras escolas na mesma região. Há mesmo, entre os defensores do projeto, quem proponha que os municípios passem a mandar cartas para as famílias, informando os índices de todas as escolas do município.

A colocação de uma placa com a nota do Ideb na porta das escolas não resolverá, por si só, o problema do baixo aproveitamento dos alunos da rede pública. Mas a iniciativa é importante, uma vez que estimula os pais a refletirem sobre a qualidade das escolas de seus filhos e a se mobilizar para pressionar as autoridades educacionais a tomar providências para melhorar o ensino.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 29 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Banco infla calote para sonegar, afirma Receita"

Autuações chegam a quase R$ 200 milhões; instituições negam ilegalidade
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Para pagar menos impostos, bancos têm declarado inadimplência maior do que a verificada pela Receita em suas carteiras de crédito, informa Lorenna Rodrigues. O que as instituições deixam de receber dos clientes pode ser abatido do que é pago ao governo federal.


O Estado de São Paulo
"Dilma busca apoio político para vetar novos gastos"

Presidente convoca às pressas Conselho Político; PMDB não abre mão de emenda que amplia despesa

A presidente Dilma Rousseff deve anunciar hoje medidas de aperto fiscal para conter efeitos da crise econômica e permitir a redução dos juros. Dilma convocou às pressas uma reunião do Conselho Político para esta manhã, com o objetivo de garantir apoio ao pacote e conter pressões dos aliados por aumentos de despesas. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, vai falar aos líderes da preocupação de não deixar que o baixo crescimento dos países do Primeiro Mundo afete a economia brasileira. A meta oficial de expansão do PIB para 2011 ainda é de 4,5%, mas o ministro já admitiu que ela pode ficar em 4%. Apesar da mobilização, o PMDB vai avisar ao Planalto que já fechou acordo para aprovar a emenda 29, que amplia gastos com a saúde. Também estão na pauta do Congresso o reajuste do Judiciário e o fim do fator previdenciário.

domingo, agosto 28, 2011

Mundo


Avião faz pouso forçado no meio da rua na Alemanha

Folha.com
O piloto de um pequeno avião particular fez um pouso de emergência em uma pequena rua no oeste da Alemanha, passando de raspão ao lado de uma casa e um poste de luz, na manhã deste domingo.

Apesar da área ser bastante povoada, ninguém ficou ferido. O piloto, de 47 anos, e seu co-piloto tiveram apenas ferimentos leves.

A rua tem apenas cinco metros de largura. A polícia disse que o avião foi forçado a descer por causa de um problema técnico, mas não deu muitos detalhes. Não há estimativa de danos causados.

Nota do Editor - Colocar a "garça" nessa ruazinha estreita e arborizada demandou competência. E sorte, muita sorte. Ao piloto, de bem com os deuses, hidromel e amor eterno das valquírias. Auguri. Sidney Borges

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Colunistas


Folclore

José Ronaldo dos Santos
É do povo!

Nesta semana comemoramos a Semana do Folclore. Quem se lembrou disso?

É necessário ter uma ocasião para pensar e festejar tudo aquilo que passou a ser parte do folclore, da cultura popular. Afinal, tem uma sabedoria e/ou uma resistência que enfrenta o tempo, que nós usamos em diversas ocasiões como recurso imprescindível, mas por preconceito não queremos admitir como cultura popular, como saber preservado pelos mais pobres.

É folclórico aquilo que só é praticado por uma minoria ou sobrevive na saudade de forma decorativa, ou seja, precisamos enxergar de vez em quando para ativar nossas reminiscências. Tudo aquilo a que recorremos de vez em quando, que “deixou de ser essencial” na sociedade consumista e individualista atual, classificamos como folclore.

Eu prefiro, em muitas ocasiões, recorrer ao termo de cultura popular para mostrar uma sutil diferença entre as coisas que quase não sentimos necessidade e as coisas que, regularmente, apelamos como útil, que nos satisfazem. Vejamos as duas situações:

1- É folclórico as técnicas de caçadas que supriam a mesa dos pobres caiçaras. Podem estar detalhadas em museus para que as gerações posteriores conheçam a criatividade que nasce da necessidade. Na minha varanda, só para ilustrar, guardo com muito carinho o bodoque confeccionado pelo amigo Irineu. É de guatambu. Quem já viu um bodoque ou conhece o guatambu, a sua enigmática/curiosa semente?

Na confecção do bodoque está explícita a sabedoria prática dos antigos caçadores: o recurso do arco para lançar flechas sofreu uma adequação para atirar pedras. Agora não precisamos mais disso. O exemplar que tenho em casa é somente como recordação de um amigo e dos tantos bons bodoqueiros (Mané Gaspar, Tião Armiro, Joaquim Sirvino,  Janguinho do Morro e outros) que pude testemunhar na minha infância. Também o disponho aos meus filhos e visitantes para pratica de arremessos com o intuito de sentirem o quanto é difícil ser habilidoso com tal instrumento. (Muitos já arroxearam a unha!).

2- Digo que é cultura popular aquilo que estou sempre buscando para uma solução imediata. Exemplos: Qual mato usar para aliviar essa dor?  O que vem depois de um sudoeste de três dias? Também pode ser sempre desafiante, mesmo ninguém sabendo de que tempo  é. O que seria a adivinha proposta pela minha vó Eugênia?

“Ele morre queimando, ela morre cantando”.

Ou essa outra:

“São três irmãos: o primeiro já morreu; o segundo vive conosco e o terceiro não nasceu”.

Quando a gente queria resposta, a sabida vovó respondia: “Use a cabeça para não enferrujar!”.

É isso! Viva o saber com sabor que vem dos antigos, que nos supre nos dias de hoje!

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Opinião

A César o que é de César

Sergio Augusto - O Estado de São Paulo
Jaques Wagner é um homem lúcido. Diante da queda de mais um ministro, o terceiro a deixar o governo sob acusações de corrupção, o governador da Bahia comparou o estilo da presidente Dilma ao de seu antecessor: "Ela é dura, o sistema dela é um pouco brutal". Já Lula seria "mais ‘palanqueiro’, talvez mais tolerante com as coisas".

Wagner chegou perto de dizer a verdade, mas não a disse por inteiro. A verdade inteira é que foi Lula quem construiu a coalizão de forças que está aí; quem deu passe livre para que seus integrantes, a começar pelo PT, usassem o Estado brasileiro como se fosse propriedade sua, acobertando o malfeito e dando proteção política aos malfeitores.

É frequente o comentário político de que os vícios que agora se revelam são resultado inevitável do funcionamento do presidencialismo brasileiro.

Atribui-se a culpa ao sistema, para isentar de responsabilidade o ex-presidente Lula. Não é verdade, porém, que um presidente esteja condenado a fazer o que fez o antecessor de Dilma Rousseff. Se o fez foi porque escolheu fazer.

No início de seu primeiro mandato, Lula recusou-se a aceitar um acordo preferencial com o PMDB, costurado por José Dirceu. Temia ficar refém de um grande partido e pôr em risco a hegemonia do PT na aliança. Preferiu armar sua base parlamentar com a adesão de pequenos partidos, anabolizados com a transferência de parlamentares e recursos financeiros, sob o patrocínio do Palácio do Planalto.

Cresceu assim o Partido da República (PR), então chamado Partido Liberal, agremiação controlada por Valdemar Costa Neto, cujas estripulias são hoje bem conhecidas.

Para encontrar espaço para enfiar tamanho saco de gastos no Executivo, Lula ampliou, de pouco mais de 20 para 35, o número de postos ministeriais e abriu as portas de empresas estatais e agências regulatórias ao loteamento político. No Congresso Nacional, mais especificamente na Câmara dos Deputados, seu governo passou a operar o esquema que viria a ser conhecido como "mensalão". Que Lula tenha alegado nada saber sobre o esquema não é moralmente desculpável, mas é da lógica política. Ter decidido travesti-lo com a roupagem de caixa 2 e se empenhado na proteção e posterior reabilitação política de boa parte dos envolvidos foi escolha sua.

Diante do susto do "mensalão", Lula resolveu dar ao PMDB o lugar de sócio privilegiado na aliança governista. O cuidado para não enfraquecer a posição do PT explica o zelo demonstrado na proteção política a "aloprados" de variada natureza e dimensão. Seria de esperar que reforçasse os mecanismos de controle dentro de seu próprio governo. Esses não são apenas institucionais. São também políticos e dependem fundamentalmente da autoridade do presidente e de como ele a utiliza.

Mas, como disse Jaques Wagner, que o conhece bem, Lula é "palanqueiro" e "tolerante".

A tolerância pode ser uma virtude política, e Lula a tem: não é homem de perseguir os adversários nem de se negar ao diálogo. Pode ser, porém, um enorme defeito, quando significar complacência com o mau uso dos recursos públicos. Palco de escândalo no primeiro mandato, a Empresa de Correios e Telégrafos foi entregue em seguida ao PMDB. Este deitou e rolou na estatal a ponto de exigir uma intervenção de emergência ao apagar das luzes do segundo mandato, já em plena campanha eleitoral, em face da iminência de um colapso em seus serviços. Outros partidos deitaram e rolaram em outras estatais (Infraero, por exemplo) e agências reguladoras (vide ANP).

Com a economia "bombando", em pleno "espetáculo do crescimento", Lula não pensava senão naquilo: agregar e manter apoios políticos para eleger a sua sucessora, empenhando-se pessoalmente na empreitada, não raro infringindo a legislação eleitoral e debochando de juízes que, cumprindo o dever, lhe aplicavam multas por transformar cerimônias oficiais em palanques eleitorais.

Dilma não se pode dar ao luxo de não ver ou aceitar prazenteiramente o modus operandi da coalizão de forças que a elegeu. Faltam-lhe as grandes qualidades e os defeitos superlativos de Lula. A economia não está mais "bombando". E "bombará" menos ainda, até onde a vista alcança, por mais que seja atenuado o impacto da crise internacional sobre o Brasil. Por ora, não há faxina alguma. Observam-se, sim, umas sapatadas aqui e acolá à medida que uma barata aparece na sala, na feliz imagem do jornalista Fernando Barros e Silva. E elas estão aparecendo não porque a presidente se tenha posto a caçá-las pela casa, mas porque há uma briga de punhais dentro da aliança governista - ou não foi o irmão do senador Roberto Jucá, líder do governo no Senado, quem primeiro acusou o recém-caído ministro da Agricultura? - e porque a imprensa e alguns órgãos de Estado estão cumprindo o seu papel. Conseguirá a presidente rearticular a sua base de apoio político sem coonestar o modus operandi da aliança que foi funcional para a sua eleição, mas ameaça gravemente a qualidade do seu governo?

Uma coisa é certa: o rei está nu. Lula não inventou o sistema político brasileiro, não criou o fisiologismo nem deu origem à corrupção. Tudo isso já existia antes de ele assumir a Presidência. Mas nada do que se está vendo - na escala, na extensão e na profundidade que se revelam - deixa de ter a sua marca registrada.

A honestidade intelectual me impede de dizer sobre o governo Lula o que ele próprio e seu partido disseram sobre o governo Fernando Henrique Cardoso. O antecessor de Dilma Rousseff e seu governo têm qualidades. Deixaram-nos, porém, esta, sim, uma herança maldita: a corrupção sistêmica e disseminada no setor público federal; o aparelhamento do Estado, em níveis que há muito não se viam, incluindo ministérios cruciais, agências regulatórias e empresas estatais; a desmoralização do sistema partidário; e o debilitamento do próprio PT, agora tutelado por sua "majestade".

Ou nos livramos dessa herança ou seremos tragados por ela.

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