sábado, agosto 06, 2011

A,B,C,D,...

Das letras...

Notas para um escritor voltar a escrever

"Escrever sem um plano definido, sem premeditar tramas e histórias até porque ainda não sei se o quero dizer é o que precisa ser dito: ambos terão de ser uma só e a mesma coisa"

Márcia Denser
Impor-se uma rotina todo dia, ficar diante da tela em branco, marcar um horário, agora, que horário? Pela minha rotina cheia de rituais, vai ter que ser à tarde, digamos das 15 às 16 horas (hoje, dia zero, estou começando às 14h30). Não produzir nada ou (que merda de palavra essa, “produzir”, mas foi incorporada definitivamente porque, do contrário, que verbo usar? escrever? fazer? elaborar? – essa é horrível! – sempre tive problemas de dar um verbo para o ato de fazer as coisas, de forma que produzir é o menos pior, salvo minha repulsa ao fato dele aludir a servidões trabalhistas, mas que porra, vamos parar com essas antipatias difusas, e por outro lado, parar com intuições é ainda pior, de modo que foda-se!) produzir isso aí, que acaba inevitavelmente ficando entre parênteses.

Então me pergunto: o abuso dos parênteses seria mania de digressão ou uma estranha forma de dizer o mais importante: marginalizar a essência ? Porque ultimamente em tudo o que escrevo, quando escrevo , o texto não flui livremente pelo leito principal, mas se encaminha inevitavelmente (outra vez) para afluentes onde se enreda e enreda e retornar é o diabo, pois significa duas coisas: 1) abandonar o enredamento que ia dar um enredo legal, só que se desdobrando para muito além e fora do assunto principal, o que exigiria muito espaço, tempo ou então que talvez eu parasse com isso;  2) voltar ao tema dá branco, empobrece a coisa toda, porque sinto que algo importante reiteradamente  se frustra.

O que me leva à conclusão que o que eu – uma parte de mim – queria mesmo era estar escrevendo ficção. Mas não consigo. Tem sempre uma merda a impedi-la, seja a textura da sobrevivência, incluindo o jornalismo déja lido, que é preciso fazer pra ganhar dinheiro ou bate aquela preguiça INFINITA, não, por favor, tudo menos escrever um conto ou romance ou novela, um serviço do caralho, um trabalho do cão, de retorno pra lá de incerto e novamente voltamos à grana. Tudo porque continuo fugindo dos fatos principais. Ou seja, de mim. Dessa parte de mim. E uma vez que a literatura exige honestidade absoluta consigo mesma, virei uma hipócrita exemplar.

O fato é que, ao longo dos anos, imperceptivelmente, foram se depositando dezenas de camadas e camadas grossas, densas, entre mim e a verdade lá no fundo a ser dita: as palavras que não quero dizer porque não quero ouvir. Posso imaginar que essa parte de mim deve andar furiosa, sapateando no porão. Uma criatura de dar medo. Sufocada, calada, arrolhada há anos. Décadas.

É. Não vai ser nada fácil. Servicinho dobrado: fazê-la emergir e escrevê-la.

Aceitá-la novamente como minha.

(Mais tarde)

Existem coisas que não têm remédio.

Minha irmã, por exemplo, a impossibilidade de conviver com minha única irmã após a morte da minha mãe, e já falta tão pouco. Depois dos cinquenta, esta foi a derradeira ilusão horrivelmente desfeita, pra começar porque que não a julgava uma ilusão, ao contrário, era a minha mais sólida certeza oculta, uma certeza absoluta (eu devia ter desconfiado) de que ela sempre estaria lá, houvesse o que houvesse, o velho royal street flush debaixo da manga. E vice-versa, naturalmente, eu também estaria firme como uma rocha absoluta, a nossa pedra de Roseta. Traduzindo as dissonâncias da alma, os vários idiomas do afeto, da compaixão, da saudade, das lembranças e esquecimentos, das vozes e silêncios, do entendimento sem palavras.

Mas agora o “absoluta” botou um pouco as coisas em seus devidos lugares, ou seja, em nosso mesquinho plano relativo – aliás,  eu vivo esquecendo a linha de terra –  assim a solidão prevista para um futuro muito próximo quanto avassalador já não é tão terrível, fica mais suportável.

Mas continua irrevogável. Entende?

Voltando ao passado adolescente, tinha um livro, tipo zen-yes, cujo personagem dizia só saber fazer três coisas na vida: jejuar, esperar e pensar. Bom. Comparando com o sujeito, jejuar é o que mais sei fazer, porém com muito speed, então aí meio que não vale; esperar, nem pensar! Devo ter sido inventada junto com a ansiedade, assim, fundidas no mesmo bloco fremente; quanto a pensar, hum, é outra velha merda: só penso legal escrevendo, mas como nas últimas décadas andei escrevendo bem pouco, donde se conclui que tenha me tornado uma espécie de super-id- inflado a pulsar more,more,more. Consumindo qualquer coisa desde que seja MUITO.

Mas é claro que sou atingida por soluções geniais – só que não sei explicar como.

Isto é pensar? Isto é saber? Isto é viver? (olhe, não precisa responder, em primeiro lugar porque são questões retóricas). E cá está você, encurralada por um bom tempo, meu bem.

A propósito: o que andou fazendo realmente de importante nos últimos vinte anos a não ser beber, se dopar, se iludir, ergo contrair uma maldita hepatite C, e aí está você: com um ano inteirinho (o tempo de 48 injeções de interferon com o poético nome de “pegasys”) de sobriedade absoluta (um dos raríssimos casos em que esta palavra de fato se aplica) pela frente pra descobrir o que fez da puta da vida.

Uma oportunidade de ouro. Rara mesmo. Então, me vêm aquelas frases tipo: “Deixe toda a ilusão e toda a esperança do lado de fora e entre!” (inscrita na porta do inferno, assim como em todas as redações), ou “o trabalho liberta!” (afixada ao portão de todos os campos de concentração).

É o que eu chamo de pensar pelo lado positivo.

(Ao anoitecer)

Quatro resoluções (ou pré-receituário pra invocar as musas, digo, musos)

1) Estabelecer uma rotina;

2) Escrever sem plano definido e

3) Qualquer merda que vier à cabeça (e, uma vez que “qualquer idiota pode ser espontâneo”, segundo Pound, o três significa não inibir nenhum conteúdo, não exigir perfeição formal de primeira, a espontaneidade é o ponto chave [e, lá na frente, se merecermos, isto implica em encontrar o “tom”]. Já a idiotice, a gente deixa pra Ezra Pound).

4) Examinar permanentemente  suas razões: jamais mentir pra si mesma. Como se não estivesse fazendo ficção.

(Na manhã seguinte)

Rotinas. Sempre tive horror delas. Quando pintava, eu escrevia e pronto. Pintando, eu sentava, mandava bala e crau, estava feito. Rotinas, jamais! Então, foi acontecendo da coisa pintar e você, sabendo que ela estaria sempre à disposição, começou a adiar. Depois. Amanhã. Mais tarde. Outra hora. Sábado. No Carnaval. Antes do Natal. Nas férias, sem falta. Adiava, adiava. Sentar pra escrever irritava, dava dor de barriga, exigia rituais cada vez mais complexos – uma das tantas formas de adiamento –, sem contar que sou PHD pós-doutora livre docente em “deixar prá lá”, várias medalhas de ouro olímpicas em “livre-se disto!”, “esquece” e por aí vamos.

Então, um dia, um dia não, alguns anos mais tarde, a coisa parou, sumiu, dançou, não tava em parte alguma. A voz se calou. Durante anos tentei viver com isso, pensando, não vou correr atrás, acreditando, uma hora ela volta, rezando, mansinha. Não voltou.

O fato é que não foi tão difícil viver com isso por MUITO tempo por que:

a) eu ODEIO enfrentar meus sentimentos (antes a morte, antes uma cirrose rápida) e para escrever, necessariamente, minha nêga, é preciso encarar geral as paixões e seu féretro de consequências humilhantes. Tenho uma teoria de que virei escritora para conseguir lidar com minhas emoções e não vice-versa. Quem domina as próprias paixões vira presidente, papa, banqueiro, empresário, ministro, fazendeiro, traficante, fabricante de armas;

b) seja por deformação profissional ou falha de caráter ou vantagem absurdamente adicional, quando escrevo ficção, sou capaz de parar a qualquer momento, fechar o caderno, desligar o computador e esquecer completamente, não pensar mais nisso, ir fazer outra coisa, e no dia seguinte (se não estiver de ressaca) retomar o texto numa boa, como se a coisa tivesse ficado ali, em suspenso, me esperando. Como eu escrevia sempre, havia essa espécie de acordo entre o consciente e o inconsciente.

Em desespero, tento agora – após séculos de silêncio – a porra da rotina. Tem que dar certo (não sei se a coisa volta, não sei, não sei, NÃO SEI!). Qualquer semelhança com magia propiciatória não é mera coincidência, afinal é preciso propiciar os deuses. E deusas. Que, no meu caso, devem andar putíssimos, posso até imaginar.

Mas também é preciso que eu, o consciente, tome a iniciativa, dê os primeiros passos no sentido de retornar a eles:

- Através das rotinas, uma, duas horas diárias, eu lhes dou meu tempo;

- O fato de escrever sem um plano definido, sem premeditar tramas e histórias até porque ainda não sei se o quero dizer é o que precisa ser dito: ambos terão de ser uma só e a mesma coisa. Mas seja novela, romance ou receita de bolo, eu não conto – eu e minhas razões mesquinhas.

Terá que ser importante para todo mundo. E para sempre.
("publicado originalmente em http://congressoemfoco.uol.com.br")

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Opinião

Uma escolha infeliz

O Estado de S.Paulo - Editorial
Nelson Jobim fez por merecer a decisão da presidente Dilma Rousseff de exigir que se demitisse do Ministério da Defesa, para não obrigá-la a demiti-lo. Na pasta desde 2007, foi mantido a pedido de seu admirador Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma atendeu ao pedido, mas confinou o apadrinhado ao seu cantão, sem ser chamado para opinar sobre questões políticas e jurídicas alheias à sua área, como Lula fazia a três por quatro, nutrindo as ambições políticas do ministro. Foi além, o ex-presidente, em suas mesuras ao seu protegido, ao manobrar para que chegasse ao comando do PMDB a fim de que o partido o indicasse para vice de Dilma.

Dado esse retrospecto, não será difícil de imaginar o ressentimento de Jobim com a perda de prestígio no Planalto, certamente agravado pelos cortes no orçamento militar que atingiram duramente os projetos de reequipamento das Três Forças e pelas diferenças entre ele e a presidente sobre a questão dos guerrilheiros desaparecidos no Araguaia, entre outros motivos para frustração. A frustração foi o que decerto o levou a dar vazão ao que o seu temperamento tem de mais criticável - a pesporrência que leva à insopitável incontinência verbal a que ele se entregou com frequência ao longo da carreira política, sempre se retratando em seguida. Desta vez a retratação pública não evitou o que parece ser o fim dessa carreira.

Jobim já tinha sido no mínimo indelicado com a presidente da República, à qual devia obediência e respeito, ao insinuar que "os idiotas" se aboletaram no governo e ao tornar público que na última eleição votara no amigo tucano José Serra. Tudo isso ela ouviu em silêncio. O que definitivamente não poderia admitir, sob pena de desmoralização, foi a entrevista do ministro à revista Piauí. Menos pelas grosserias com que se referiu às colegas Ideli Salvatti e Gleisi Hoffman, do que pela versão que deu a uma conversa com a presidente sobre a nomeação do petista José Genoino para assessorá-lo na Defesa. Perguntado sobre a utilidade do ex-deputado na função, ele respondeu: "Quem sabe se ele pode ou não ser útil sou eu".

Feita a coisa certa, ato contínuo a presidente fez o seu contrário. Na ânsia de encerrar rapidamente mais este episódio infeliz do seu breve governo, escolheu o ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim para o lugar de Jobim, sem dedicar algum tempo à avaliação dos problemas que poderá criar para o seu governo na pasta da Defesa. Se tivesse feito isso poderia ver o que salta à vista de todo estudioso da era Lula, ou seja, que nem as Forças Armadas mereciam isso depois de ser comandadas pelo primeiro civil que se fizera respeitar por elas nem o País merecia isso depois de Jobim ter sido o primeiro na pasta a consolidar os instrumentos legais, políticos e administrativos que asseguram a subordinação da esfera militar ao poder civil. Julguem-se como se queiram todas as demais atitudes de Jobim, nisso ele foi exemplar.

Eis que é sucedido pelo homem errado no lugar errado. Primeiro, Dilma errou por entregar a Defesa a quem passou os últimos oito anos - com o entusiasmado aval de Lula - impondo um viés ideológico bolivariano à diplomacia brasileira, com a agravante de ter sido um fracasso total. O apoio ao Irã de Ahmadinejad, a identificação com a Cuba dos irmãos Castro e a confraternização com a Venezuela de Hugo Chávez configuraram uma política que "contrariou princípios e valores" das Forças Armadas, na avaliação de oficiais-generais da ativa ouvidos por este jornal sob a condição de anonimato.

Em segundo lugar, Dilma errou por nomear um egresso do Itamaraty para cuidar dos assuntos militares, aparentemente alheia à verdade elementar de que a função do soldado começa quando se esgota a do negociador. A guerra pode ser a continuação da política por outros meios, mas há um abismo entre a mentalidade de um general e a de um diplomata. As duas áreas cruciais do Estado devem se articular nas circunstâncias necessárias. Mas as culturas profissionais inerentes a uma e a outra são distintas, quando não, distantes. Essa questão de fundo continuaria a existir fosse o escolhido de Dilma um ex-chanceler que tivesse se pautado pelo interesse nacional como o interpretam os militares. Com um ideólogo, então, é brincar com fogo.

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Manchetes do dia

Sábado, 06 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Agência rebaixa nota dos EUA"

Pela primeira vez na história, dívida americana deixa de ser considerada de risco zero
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A maior economia global já não tem os títulos mais confiáveis. Pela primeira vez na história, a agência de avaliação de risco Standard & Poor's rebaixou a nota dos papéis da dívida dos EUA, que sempre foi triplo A, para AA+, relata Álvaro Fagundes, de Nova York. O Tesouro americano contestou a decisão, argumentando que houve erro na análise das contas. As razões apontadas pela S&P foram o aumento do peso da dívida, a instabilidade política e perspectivas negativas para os títulos. Os papéis americanos são o principal refúgio para os investidores em momentos de incerteza financeira, como o desabamento das Bolsas ocorrido em todo o mundo nesta semana.

O Estado de São Paulo
"Dilma tenta acalmar militares após nomeação de Amorim"

Em reunião com comandantes após troca na Defesa, presidente pede que se mantenha normalidade institucional

Na tentativa de acalmar os militares, que reagiram mal à escolha do ex-chanceler Celso Amorim para a Defesa, a presidente Dilma Rousseff reuniu ontem os comandantes das três Forças Armadas, no Palácio da Alvorada, e disse não haver motivo para preocupações. Dilma pediu aos militares que mantenham a 'normalidade institucional', abriu um canal mais direto de relacionamento com eles e disse que seu governo não permitirá revanchismos. O encontro durou uma hora, no dia seguinte ao da demissão de Nelson Jobim, que chefiava o Ministério da Defesa desde 2007. Todos entenderam na conversa que não haverá revisão da Lei de Anistia. A presidente disse a auxiliares que saiu "aliviada" da reunião. Já o ex-presidente Lula criticou os descontentes com a nomeação de Amorim. "Eu não sei se cabe aos militares gostarem ou não gostarem", disse Lula. Amorim tomará posse na segunda-feira e hoje vai se reunir com os comandantes militares. Ele disse que não perderá de vista " os interesses estratégicos" do País.

sexta-feira, agosto 05, 2011

Achei!

Dois morcegos. E um grilo...

Coluna do Celsinho

Novos voos

Celso de Almeida Jr.
Na última segunda feira de agosto, às 19h, teremos o 4º Café Voador.

Implantamos este evento no final de maio.

Uma sugestão do arquiteto Luiz Carlos Lima, coordenador de aeromodelismo do NINJA – Núcleo Infantojuvenil de Aviação.

Em essência, buscamos aproximar os interessados em cultura aeronáutica e fortalecer o NINJA.

O Café Voador ocorre na Sala Gastão Madeira, no Colégio Dominique, mesmo local onde crianças e jovens desenvolvem, gratuitamente, atividades de aeromodelismo, simulação de voo, além de estudos de conceitos teóricos como: navegação aérea, meteorologia, conhecimentos técnicos, teoria de voo e regulamentos de tráfego aéreo.

Um projeto que virou realidade com o apoio de muitos colaboradores.

A boa nova é que esta união de forças já sinaliza para a reativação, nos próximos anos, do Aeroclube de Ubatuba.

Nossa intenção é colaborar para que muitos jovens da cidade conheçam o fascinante mundo da aviação, despertando para o excelente mercado de trabalho neste setor.

Desejamos que muitas vagas de mecânicos, engenheiros, controladores de voo, comissários e pilotos possam ser preenchidas por jovens ubatubenses.

Para tanto, devemos nos preocupar, também, em ter na cidade uma escola de aviação civil e, naturalmente, um aeroclube é a instituição apropriada para conduzir este projeto.

Não é uma tarefa simples.

Há, entretanto, muita vontade, muito entusiasmo, profissionais capacitados, voluntários, enfim, a massa crítica necessária para esta conquista.

Neste instante, estamos mergulhados no planejamento e nos estudos da legislação.

O comando dos trabalhos está nas mãos de Tiago Rizzi, um jovem e competente piloto de aviação executiva, que atualmente voa para diversas partes do mundo. Tiago, aliás, há duas décadas, tirou o seu brevê em Ubatuba, quando a cidade tinha um aeroclube.

Ele nos dá um excelente exemplo de que é possível atuar neste sofisticado mercado.

E, com determinação e entusiasmo, está colaborando para construir novas possibilidades para a juventude ubatubense.

Assim, peço aos amigos leitores o apoio para divulgar as ações do Núcleo Infantojuvenil de Aviação, incentivando crianças e jovens a participar do projeto.

Saiba mais: www.ninja-brasil.blogspot.com

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Opinião

Quinta-feira negra

O Estado de S.Paulo - Editorial
Como se fosse uma nova quinta-feira negra, os mercados financeiros de todo o mundo viveram ontem um dia de pânico excepcionalmente descontrolado. Nenhum novo desastre havia ocorrido nos países do mundo rico atolados na dívida pública e muito próximos da insolvência. Tudo se passou como se a percepção do perigo se houvesse aguçado de um dia para outro e todas as bolsas mergulharam, de repente, num salve-se quem puder. De manhã, especuladores correram em busca do ouro, levando a sua cotação ao recorde de US$ 1.684,90 por onça-troy. Horas depois o preço recuou, porque os investidores foram forçados a vender o metal para cobrir margens e enfrentar perdas nos mercados de ações.

Talvez nenhum outro episódio sintetize tão bem quanto esse a experiência de medo e desordem em um único dia. As tentativas do Banco Central Europeu (BCE) de socorrer os bancos e aliviar a pressão sobre alguns países foram insuficientes para restabelecer a calma.

Dois dias antes o mundo havia escapado de um calote do Tesouro americano - mas não do risco de uma nova e penosa retração econômica dos Estados Unidos. Em seguida, a insegurança em relação à economia americana somou-se ao renovado e intensificado temor diante das dificuldades fiscais da Itália e da Espanha, países grandes demais para ser socorridos pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira.

Na manhã desta quinta-feira o BCE e o Banco da Inglaterra anunciaram a manutenção dos juros básicos em 1,5% e 0,5%, respectivamente. Além disso, o Banco da Inglaterra decidiu prosseguir no programa de compra de títulos no valor de £ 200 bilhões. A novidade mais importante foi a nova intervenção do BCE, leiloando empréstimos a instituições financeiras e absorvendo bônus da Irlanda e de Portugal. As intervenções foram inúteis. Ações de bancos caíram em todas as grandes bolsas europeias. Os papéis do Barclays caíram 7,7%. Os do Lloyd"s, 10%. Os do Commerzbank, 6,1%. A lista de perdas foi longa. No fechamento, os índices das bolsas europeias haviam caído entre 3,23% (Milão) e 3,9% (Paris). O Dow Jones, da Bolsa de Nova York, recuou 4,31%.

O pânico estendeu-se aos mercados de commodities, por causa das perspectivas de recessão. Em Nova York, no começo da tarde, os contratos futuros de petróleo eram negociados com queda de 3,99%.

O temor dos investidores era alimentado tanto pelas dificuldades fiscais das grandes economias endividadas - a começar pela americana - como pela sucessão de más notícias sobre o emprego e o consumo nos Estados Unidos e na Europa. Notícias de problemas continuavam chegando também do Japão, onde o governo havia anunciado novas medidas contra a valorização do iene, uma grave ameaça a uma economia muito dependente das exportações. Mas ninguém poderia esperar, depois dos desastres naturais deste ano, uma contribuição japonesa para a recuperação mundial.

Desde a superação da primeira fase da crise, o mundo nunca esteve tão perto de um segundo mergulho na recessão, profetizado mais de uma vez por economistas conhecidos por suas avaliações pessimistas. Até agora essa hipótese foi descartada em todas as projeções divulgadas pelas grandes instituições financeiras multilaterais. Mas os fatores de risco se avolumam e o grau de cooperação entre as grandes potências capitalistas - Estados Unidos, Europa e Japão - é muito mais baixo, neste momento, do que nas primeiras fases da recessão iniciada em 2008.

O mercado brasileiro também foi abalado pela onda de pânico. Nesta quinta-feira, o Ibovespa oscilou durante o dia todo em território muito negativo, com recuo sempre maior que 4%, e acabou caindo 5,72%. Nenhuma outra grande bolsa teve um desempenho tão ruim.

O governo reconhece a gravidade do quadro internacional. O Brasil, segundo as autoridades, está preparado para qualquer novo impacto. Seria preferível um pouco mais de preocupação. O governo terá pouco espaço em suas contas para uma política anticíclica, porque o orçamento está muito comprometido com despesas improdutivas e as pressões inflacionárias ainda são consideráveis. Faltou preparação para enfrentar uma nova fase de turbulência.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 05 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Bolsas desabam e cresce medo de recessão mundial"

Queda contagiou mercados após BC europeu comprar títulos de países do euro; Bovespa caiu mais
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Os mercados internacionais viveram ontem seu dia mais nervoso desde a crise financeira que travou a economia mundial, em 2008, com a quebra do banco Lehman Brothers, nos EUA. Da Ásia à América, passando pela Europa, as Bolsas registraram quedas significativas, mostrando que o pessimismo domina os investidores em relação a economia, em especial nos países mais desenvolvidos.

O Estado de São Paulo
"Mercado global derrete por temor nos EUA e na Europa"

Perspectiva de recessão americana e de calote espanhol e italiano causa queda semelhante

O mercado financeiro global viveu uma quinta-feira semelhante aos piores momentos da crise que eclodiu em setembro de 2008, com a quebra do Lehman Brothers. Bolsas de valores caíram no mundo todo, commodities se desvalorizaram e o dólar teve forte alta. Alguns analistas chegaram a falar em pânico. Os motivos foram o temor de que os EUA voltem a entrar em recessão e o risco de que grandes países europeus, como Itália e Espanha, tenham problemas para honrar dívidas. O presidente da Comissão Europeia, Jose Manuel Durão Barroso, afirmou que a turbulência já deixou a periferia e agora atinge o centro da União Europeia. O Ibovespa recuou 5,72%, maior queda porcentual desde novembro de 2008, e o dólar subiu l,28%, para R$ 1,582. A Bolsa de Nova York perdeu 4,31% e registrou a maior queda em pontos desde dezembro de 2008. A Bolsa de Londres recuou 3,43%, e a de Frankfurt, 3,40%.

quinta-feira, agosto 04, 2011

Povo, povo, povo...

...sempre em busca de algo novo!

Para ler e refletir...

Líderes 
     
David Linden - NYT/Clarín
Professor de Neurociências, Universidade Johns Hopkins
 
Quando pensamos nas qualidades que buscamos em líderes visionários, pensamos em inteligência, criatividade, carisma e conhecimento, mas também na busca do sucesso, o desejo de inovação e a vontade de desafiar as práticas estabelecidas. Na realidade, porém, o perfil psicológico de um líder é também o de alguém que assume riscos compulsivamente em busca da novidade. Em resumo, o que buscamos nos líderes parece ser o tipo de personalidade dos viciados. Como é possível? Em geral, acreditamos que os viciados são pessoas com pouca vontade, enquanto os empreendedores são pessoas com disciplina e força. Para entender esta aparente contradição é necessário analisar o cérebro e, sobretudo, as funções relacionadas com o prazer e a gratificação.

O prazer evoca sinais neurológicos que convergem para um pequeno grupo de áreas cerebrais interconectados conhecido como circuito cerebral do prazer, pequenos grupos de neurônios onde o neurotransmissor dopamina desempenha um papel central. Esse circuito de prazer que utiliza a dopamina também pode ser ativado por algumas - não todas - substâncias psicoativas que implicam um risco de vício, assim como as drogas. Os circuitos de prazer do cérebro também são ativados por meio de recompensas imprevisíveis. Enquanto a roleta gira ou os cavalos correm na pista, temos uma sensação de prazer, ainda que ao final não ganhemos.

A incerteza em si pode ser gratificante, o que sem dúvida é um atributo útil para empresas de alto risco e alto rendimento. Será que a personalidade aditiva tem vantagens? Algumas das figuras históricas mais admiradas tinham vícios, e não apenas os mais evidentemente criativos, mas também os cientistas, os guerreiros e estadistas. A personalidade obsessiva, caracterizada pela busca do risco e da novidade que costuma ser apresentada pelos viciados, pode adaptar-se ao trabalho e ser muito eficaz. No caso de muitos líderes, não se trata de serem bem sucedidos apesar de seu vício, mas que a mesma química cerebral que os converte em viciados também lhes confere uma conduta que se mostra paradoxalmente benéfica na liderança.

É por isso que, quando a sua empresa precisar de um novo líder, tem de buscar alguém que tenha uma função de dopamina atenuada: alguém que nunca está satisfeito com o status quo, alguém que queira o sucesso mais do que outros, mas que desfrute menos dele. (Do Ex-Blog do Cesar Maia)

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Opinião

A qualidade da água

O Estado de S.Paulo - Editorial
Muita água, mas de qualidade cada vez pior, sobretudo nas proximidades dos grandes centros urbanos, o que coloca em risco o abastecimento futuro das maiores cidades do País. Essa ameaça, embora real, nem sempre é percebida pela população e por autoridades, por causa dos números auspiciosos sobre a extensão dos sistemas públicos de abastecimento de água, que atendem mais de 90% dos domicílios. Os investimentos em saneamento básico aumentaram nos últimos anos, mas, para afastar o risco de desabastecimento, será necessário ampliá-los ainda mais.

Estas são algumas conclusões do Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil - Informe 2011, elaborado pela Agência Nacional de Águas (ANA) com o objetivo de apresentar a situação da água no Brasil sob vários aspectos, como disponibilidade, qualidade e gestão de recursos hídricos. Trata-se da segunda edição desse trabalho, com dados de 2009 (a primeira edição foi lançada no ano passado, com dados de 2008), coletados em 1.747 pontos.

Quando combinados com outro estudo realizado pela ANA - o Atlas Brasil - Abastecimento Urbano de Água, lançado em março último -, os números do Informe 2011 compõem um quadro preocupante da disponibilidade e do uso dos recursos hídricos no País. Cruzando essa disponibilidade com as condições de produção e distribuição de água, o Atlas conclui que, se grandes investimentos não forem feitos nos sistemas em operação e no desenvolvimento de novos, 55% dos municípios poderão enfrentar o problema de escassez de água. A lista inclui as maiores cidades do País, como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília. Nelas vivem 125 milhões de pessoas, o que corresponde a mais de 70% da população urbana do País.

De sua parte, o Informe 2011 deixa claro que a qualidade das águas é muito pior nas regiões de grande concentração populacional, justamente as que mais necessidades terão no futuro, o que torna o problema ainda mais dramático.

O Brasil dispõe de 12% da oferta de água do planeta, mas apenas 4% dos recursos hídricos do País são considerados de qualidade ótima, um índice bem inferior aos 10% constatados no informe de conjuntura anterior da ANA. De acordo com o Informe 2011, 71% dos recursos são considerados de boa qualidade, número que parece indicar uma situação confortável para o País. Mas grande parte desses recursos está em regiões pouco ocupadas, sobretudo a Amazônia.

Quanto à água que a população mais utiliza, a qualidade é baixa e vem piorando. Um quarto da água dos rios, lagoas e mananciais do País é de qualidade péssima, ruim ou regular. No estudo anterior da ANA, 20% dos recursos hídricos tiveram essas classificações. Os pontos que apresentam qualidade de água péssima e ruim se encontravam, na maioria, nas proximidades das regiões metropolitanas, e o grande responsável pela degradação dos recursos hídricos nesses pontos é o lançamento de esgoto sem tratamento.

O Rio Tietê é um dos que têm pior classificação no estudo da ANA, o que era previsível. O que surpreende é a inclusão, entre os rios com qualidade de água ruim e péssima, do Iguaçu, que corta o Parque Nacional do Iguaçu, e do Guandu Mirim, no Rio de Janeiro, também situado numa área de conservação, a Área de Proteção Ambiental do Rio Guandu.

A universalização do abastecimento de água por rede pública e, em particular, o atendimento da demanda futura nas grandes cidades estão exigindo a ampliação das unidades de captação e tratamento e, em muitas regiões - inclusive a Grande São Paulo -, a busca de novas fontes de captação que, como mostra a ANA, estão cada vez mais contaminadas.

Por isso, é duplo o desafio do poder público na gestão dos recursos hídricos do País: ampliar os sistemas de coleta e, sobretudo, de tratamento adequado do esgoto urbano, ao mesmo tempo que investe em sistemas de captação, tratamento e distribuição de água.

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 04 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Dilma reduz o IPI de carro nacional e sobe o de cigarro"

Redução de tributo vai subsidiar inovação tecnológica, e não haverá diminuição de custo para o consumidor
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As montadoras instaladas no país serão beneficiadas pela redução de IPI até 31 de julho de 2016. Só terão direito ao incentivo fiscal as fábricas que ampliarem investimentos, aumentarem o conteúdo nacional de seus produtos e apresentarem inovação tecnológica. Segundo o coordenador-geral de Tributação da Receita Federal, Fernando Mombelli, o objetivo da medida é dar mais competitividade à indústria nacional.

O Estado de São Paulo
"Governo zera IPI de carro que privilegiar peça nacional"

Válida até 2016, medida atende montadoras preocupadas com importação de veículos coreanos e chineses

A indústria automobilística instalada no Brasil, composta apenas de multinacionais, terá o mais extenso benefício da política industrial da presidente Dilma Rousseff. Uma medida provisória vai permitir zerar o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para as empresas que aumentarem o conteúdo nacional, elevarem investimentos e produzirem veículos inovadores. Hoje, a alíquota máxima de IPI é de 25%. O benefício vai durar até julho de 2016. A medida não tornará os carros mais baratos - o governo abrira mão de arrecadação. O benefício só será dado a empresas que apresentarem projetos. A medida atende a uma forte pressão das montadoras, que estão preocupadas com as importações dos automóveis coreanos e chineses.

quarta-feira, agosto 03, 2011

Zeppelin by Borges...

Mundo

Os EUA iam acabar em 1861

Elio Gaspari, O Globo (original aqui)
Os Estados Unidos iam acabar. Não nesta semana, mas há exatos 150 anos, depois que as tropas do Sul venceram em Manassas, a primeira grande batalha da Guerra Civil.

Grandes políticos ingleses, bem como o "The Economist" e o "The Times" (pré-Murdoch), achavam que o presidente Lincoln forçara a mão com o Sul. Quatro anos e 620 mil mortos depois, a União foi preservada e acabou-se a escravidão.

Passou pouco mais de meio século e, de novo, os Estados Unidos iam acabar. A Depressão desempregou 25% de sua mão de obra e contraiu a produção do país em 47%. A crise transformou o fascismo e o nazismo em poderosas utopias reacionárias. De Henry Ford a Cole Porter, muita gente encantou-se com o ditador italiano Benito Mussolini.

Dezesseis anos depois, as tropas americanas entraram em Roma, Berlim e Tóquio. Em 1961, quando os soviéticos mostraram Yuri Gagarin voando em órbita sobre a Terra, voltou-se a pensar que os Estados Unidos iam-se acabar. Em 1989 acabou-se o comunismo.

A decadência americana foi decretada novamente em 1971, quando Richard Nixon desvalorizou o dólar, ou em 1975, quando suas tropas deixaram o Vietnã. O dólar continua sendo a moeda do mundo, inclusive para os vietnamitas.

A última agonia, provocada pela exigência constitucional da aprovação, pelo Congresso, do teto da dívida do país foi uma crise séria, porém apenas uma crise parlamentar. Para o bem de todos e felicidade geral das nações, não só os Estados Unidos não se acabam, mas o que se acaba são os modelos que se opõem ao seu sistema de organização social e política.

No cenário de hoje, o ocaso americano coincidiria com a alvorada de progresso e eficácia da China. Lá, o teto da dívida jamais será um problema. Basta que o governo decida. Como lá quem decide é o governo, nos últimos cem anos o Império do Meio passou por dois períodos de fome que geraram episódios de antropofagia.
Hoje a China não tem os problemas dos Estados Unidos, afinal, nem desastre de trem pode ser discutido pela população.

Guardadas as proporções, o sistema político brasileiro, seria melhor que o americano, porque não haveria aqui a crise parlamentar provocada pelo teto da dívida. Se houvesse, o Brasil não teria quebrado nos anos 80 por ter tomado empréstimos dos banqueiros que ajudaram a criar a encrenca que hoje atormenta Washington.

Aquilo que parece uma crise da decadência é uma simples e saudável manifestação do regime democrático. Quando os negros americanos foram para as ruas, marchando em paz ou queimando quarteirões, também temeu-se pelo futuro do país. O que acabou foi a segregação racial.

Se hoje há uma crise nos Estados Unidos, ela não está nas bancadas republicanas ou mesmo na influencia parlamentar do movimento Tea Party. Eles defendem o que julgam ser o melhor caminho para o país. A crise está em outro lugar, na negação, por um tipo de conservadorismo extremado, dos valores que fizeram da nação americana o que ela é.

Quando o governo Bush sequestrou suspeitos pelo mundo afora, levando-os para centros de tortura, e viu-se obrigado a soltar alguns deles, porque não eram o que se pensava, aí, sim, os Estados Unidos estavam em perigo.

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Opinião

Programas ''esquecidos''

O Estado de S.Paulo - Editorial
À medida que entra na rotina, o governo da presidente Dilma Rousseff começa a deixar de lado projetos demagógicos concebidos pelo governo anterior para favorecê-la na disputa eleitoral de 2010. O último projeto "esquecido" é o programa "Educação e Qualificação para Comunidades Extrativistas", elaborado pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas e pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), com o aval pessoal do presidente Lula.

Também chamado de "Saberes da Floresta" e financiado com recursos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o projeto se destina a atender a população ribeirinha das 89 Reservas Extrativistas e de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia e sua trajetória é mais um exemplo de como a educação tem sido gerida. Com alto número de analfabetos, 60 mil famílias vivem nas reservas da exploração de seringais, da colheita de castanhas e da agricultura de subsistência.

O objetivo da SAE era desenvolver estratégias e ações voltadas para o ensino de crianças e jovens que moram na área, onde a rede pública só mantém escolas até a 4.ª série do ensino fundamental. Para continuar os estudos, os jovens têm de se mudar para as cidades.

Essa mudança gera dois graves problemas. O primeiro é o esvaziamento das comunidades, onde só permanecem velhos, mulheres e crianças. O segundo problema está na dificuldade que esses jovens têm para se adaptar à vida urbana. Com uma vida até então inteiramente voltada à família e à natureza, os rapazes começam a beber e a se envolver em brigas, enquanto as meninas são atraídas pela prostituição. Dos que completam o ensino básico, poucos retornam à comunidade - e, quando o fazem, trazem hábitos que levam à desagregação de suas famílias.

Além de ignorar a gravidade desses problemas, o programa "Educação e Qualificação para Comunidades Extrativistas" se destaca pelo simplismo de suas propostas e pelo uso abusivo de jargões políticos - um vício dos movimentos sociais e do PT. Em seu documento de apresentação, por exemplo, o programa se propunha a elaborar "produtos síntese" - entre eles a construção de uma "política de educação na floresta" que expresse a visão que as populações extrativistas têm sobre educação e profissionalização. "Nós temos que ter uma educação diferenciada, onde o meu filho saiba que tem, hoje, uma condição de vida mais favorável por causa de toda uma luta que houve, dos que enfrentaram o sistema de governo e as situações que existiam, para poder trazer a qualidade de vida. Ele precisa se tornar parte e continuar carregando essa bandeira; senão, essa bandeira, daqui uns dias, vai deixar de existir, porque você não dá valor às coisas que você não conhece - você precisa conhecer para dar valor", diz Manuel Cunha, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas.

Entre outras "prioridades", o projeto repetia recomendações do 1.º Encontro Nacional de Seringueiros da Amazônia, realizado em 1985, como "a divulgação de histórias, poesias, músicas, receitas e objetos fabricados por seringueiros" e a inclusão na merenda escolar de "produtos oferecidos pela região". Ele também propunha um elenco de dez princípios - quase todos tautológicos. Um deles afirmava que "a criança precisa saber que é parte da vida na floresta e nas águas". Outro enfatizava que "as pessoas da floresta estão conectadas e que não é possível desplugá-las". Em matéria de "encaminhamentos", o projeto tecia considerações óbvias sobre qualidade da educação e capacitação docente e propunha a busca de "apoio financeiro direto" da União.

Custa crer que uma iniciativa tão simplória e demagógica como essa tenha consumido recursos humanos do governo e dinheiro do Pnud - além de ter sido anunciada espalhafatosamente pela rede pública de comunicação do governo Lula. Agora a presidente Dilma Rousseff faz a coisa certa, engavetando - com a devida discrição - programas que jamais deveriam ter sido apresentados como projetos de governo.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 03 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"EUA e pessimismo global fazem mercados desabar"

Dilma Rousseff teme excesso de liquidez e afirma que a instabilidade lá fora vai continuar
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As Bolsas de todo o mundo caíram ontem, indicando o pessimismo do mercado em relação ao pacote fiscal sancionado pelo presidente Barack Obama para evitar o calote da dívida americana. A incerteza sobre o futuro da maior economia do planeta e a crise na Europa fizeram investidores buscar o ouro. O preço do metal subiu e atingiu US$ 1,641 a onça (28,35 gramas).

O Estado de São Paulo
"'É só primeiro passo', diz Obama após evitar calote"

Senado aprova e presidente sanciona elevação do teto da dívida dos EUA; mercado reage com nervosismo

Depois de uma das mais duras batalhas políticas dos últimos tempos nos EUA, o Senado aprovou e o presidente Barack Obama sancionou a elevação imediata de US$ 900 bilhões no teto da dívida americana, hoje em US$ 14,3 trilhões. Em troca, Obama se comprometeu a reduzir em US$ 1 trilhão as despesas públicas correntes. A medida, tomada dez horas antes do prazo final fixado pelo Departamento do Tesouro, evita a suspensão de pagamentos federais. "Este é apenas o primeiro passo", disse Obama, cobrando o fim dos benefícios tributários aos contribuintes mais ricos e às grandes empresas. Em discurso, o presidente destacou projetos para estimular a economia e gerar empregos, mas, para analistas, o acordo traz alívio apenas provisório. Os mercados reagiram com nervosismo. Os principais índices das bolsas de valores americanas fecharam em queda.

terça-feira, agosto 02, 2011

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Opinião

A defesa no sentimento nacional

Mario Cesar Flores - O Estado de S.Paulo
Ressalvado o restrito mundo profissional da defesa, nos últimos decênios nosso sistema militar vem sendo lembrado principalmente na síndrome da insegurança pública e (se tanto) no cenário da criminalidade transnacional fronteiriça, problemas de natureza basicamente policial, embora também militar, nos limites definidos em legislação. Nas pesquisas de opinião as Forças Armadas são bem hierarquizadas no quesito confiabilidade. Entretanto, trata-se de confiabilidade relacionada mais à correção ética num universo público visto como venal do que como instrumento de defesa, preocupação ausente. Praticamente não existe no Brasil interesse político e societário pela defesa nacional.

A Estratégia Nacional de Defesa (END), aprovada em dezembro de 2008, é um documento abrangente, aberto ao conhecimento público, sobre a defesa em seus vários aspectos interativos, militares e civis. Pode e deve ser aperfeiçoada - como certamente será -, mas já é um passo positivo, despercebido pela opinião pública e pelo universo político. Vigente há mais de dois anos, qual foi até agora a sua repercussão no Congresso Nacional? Não houve, ao menos em nível que chamasse a atenção da mídia e, por intermédio da mídia, provocasse a da sociedade, em particular, da intelligentzia nacional. Essa apatia preocupa, porque numa democracia a construção de poder militar eficiente, em coerência com o País e sua inserção internacional, não é viável na contramão do sentimento nacional, principalmente de sua representação política. Depende da aceitação política e societária de que fraqueza, pacifismo autista e jurisdicismo utópico não são virtudes absolutas, não garantem em quaisquer circunstâncias o progresso em tranquilidade.

A falta de interesse decorre de quatro razões.

Primeira: o preconceito gerado pelas interveniências militares na vida nacional, tema superado, mas ainda influente em segmentos do sectarismo anacrônico.

Segunda: no sistema militar não há espaço para a cultura clientelista e patrimonialista - o que reduz ainda mais o já precário interesse dos políticos brasileiros pautado nessa cultura.

Terceira: a defesa nacional não gera votos, tanto assim que na discussão política o tema militar praticamente se limita ao que afeta o humor eleitoral corporativo (salário, por exemplo).

E quarta: a mais que centenária ausência de ameaça clássica em que o Brasil tivesse vivido papel protagônico ou ao menos significativo (na 2.ª Guerra Mundial fomos atores coadjuvantes). Depois de Rio Branco, que via espaço para o poder militar, a política brasileira não o tem enfatizado - propensão insegura no incerto maior prazo, porque poder militar moderno não se improvisa ao se manifestar sua necessidade. Solução emergencial ao estilo "voluntários da Pátria" mal armados e mal preparados, da Guerra do Paraguai, seria hoje catastrófica; lembremos a esse respeito nosso despreparo na entrada na 2.ª Guerra Mundial, que compulsou à dependência tutelar dos EUA. Curiosamente, o ministro do Exterior não está explicitado no rol de ministros responsáveis pela formulação da END; a ser real a ausência, é, no mínimo, instigante!

O sentido desta última razão está sintetizado no final dessa frase de professor universitário, proferida com tranquila convicção no coffee break de seminário numa universidade: "Realmente os militares ganham pouco, mas por que pagar-lhes mais se não precisamos deles?"! Remuneração à parte, sem espaço neste artigo, a afirmação "não precisamos deles" é preocupante.

Sintoma emblemático do descaso: na votação do Orçamento a outorga ou a negação de recursos independem de seus efeitos na defesa nacional. Não se pode pretender do Congresso atenção detalhada, mas os recursos são concedidos ou negados à revelia daqueles efeitos, embora na democracia o Congresso também seja responsável pela defesa. Na conciliação do preparo militar com as limitações orçamentárias - compreensíveis, errado é atuarem no bojo da apatia refletida no corte abstrato, tanto na tramitação congressual como na liberação pelo Executivo -, o orçamento da defesa precisa ser estruturado com a visão que assegure continuidade aos projetos prioritários, em geral longos e caros. Esse quesito não tem sido atendido, exigindo ajustagens que tumultuam o preparo militar e prejudicam o desenvolvimento tecnológico de interesse da defesa e a continuidade da indústria de defesa, insustentável sem demanda segura.

Não havendo trauma de risco que a precipite dramaticamente, a elevação da sensibilidade nacional sobre defesa é processo cultural que se estenderá por longo tempo. O processo deve esclarecer por que, como e quanto a dimensão estratégica do poder continua atuante no século 21, deve contextualizar a segurança do Brasil na sua região e no mundo, sem arroubos ufanistas, mas também sem escapismos utópicos como se o mundo vivesse a paz kantiana, embora Hobbes continue vivo nele... Na medida em que ocorra a elevação, a defesa nacional passará a assunto de mérito, vista com responsabilidade e menos sujeita a mudanças radicais com as eleições porque é assunto de Estado, transcende os governos. Será resgatada da apatia e exercerá seu papel de respaldo ao progresso em tranquilidade e à interação do Brasil com o mundo, cujas turbulências pedem atenção, sem exageros, mas prudente.

Voltando à END: embora de fato um primeiro passo positivo, falta-lhe o aval do sentimento nacional, dependente do interesse político e societário pela defesa, sobretudo do político, hoje em claro déficit. A configuração do sistema militar é problema profissional, interno ao Ministério da Defesa, mas sua moldura é política. A dúvida que permeia as agendas nacionais dos países relevantes em todo o mundo, sobre o sistema militar que responde às vulnerabilidades e aos interesses do País nas circunstâncias do século 21, não terá resposta consistente sem aquele aval.

ALMIRANTE DE ESQUADRA (REFORMADO)

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Manchetes do dia

Terça-feira, 02 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Sob crítica, plano anticalote dos EUA passa na Câmara"

Pacote fiscal, considerado tímido pela opinião pública, tem que ser votado hoje pelo Senado
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A Câmara dos Deputados dos EUA aprovou a elevação do limite da dívida do país dos atuais US$ 14,3 trilhões para US$ 15,2 trilhões. O aumento de US$ 900 bilhões, equivalente a quase metade do PIB brasileiro, foi aprovado por 269 votos a 161 e será submetido ao Senado, onde tem que ser discutido e aprovado ainda hoje.

O Estado de São Paulo
"Acordo nos EUA indica fragilidade e derruba bolsas"

Mercado teme que o corte orçamentário previsto no acerto em Washington possa causar recessão

Os mercados concluíram que a economia dos EUA continua fraca, situação que tende a agravar-se com os cortes de despesas definidos na negociação política para elevar o teto da dívida do país. Resultado: as bolsas de valores abriram a semana com baixas em todo o mundo. Houve queda em São Paulo (0,49%), Nova York (0,09%), Frankfurt (2,86%) e Londres (0,70%). O acordo, que foi aprovado ontem na Câmara e seria votado hoje no Senado, prevê elevação do teto da dívida em US$ 2,4 trilhões (hoje são US$ 14,3 trilhões). Em troca, o governo Obama se compromete com reduções orçamentárias de até US$ 4 trilhões até 2022. O raciocínio dos investidores é que, com o corte, o governo americano tira dinheiro da economia. Além disso, há a possibilidade de rebaixamento do rating (nota de crédito) dos títulos dos EUA pelas agências de classificação de risco.

Mimosa e Princesa

segunda-feira, agosto 01, 2011

Para ler e refletir...

O MST muda o foco

Soraya Aggege - Carta Capital
João Pedro Stedile, um dos principais líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), afirma que a concentração de terras tem crescido e que a reforma agrária clássica realmente “saiu da agenda” nacional. Resta ao MST o caminho da “reforma agrária popular”, que defende um novo modelo de desenvolvimento agrícola, o agroecológico.

CartaCapital: Qual é a dimensão hoje da necessidade real de distribuição de terras no Brasil?

João Pedro Stedile: O Brasil é um dos países de maior concentração de propriedade da terra. Nos últimos anos, mesmo com o governo Lula seguiu concentrando. Os últimos dados do cadastro do Incra, de dezembro 2010, revelam que temos 66 mil fazendas classificadas como grandes propriedades improdutivas, que controlam 175 milhões de hectares.  Pela

Constituição e pela Lei Agrária Complementar, todas essas propriedades deveriam ser desapropriadas e distribuídas. Temos ao redor de 4 milhões de famílias de trabalhadores agrícolas sem terra que seriam os potenciais beneficiários. 'Nos últimos anos, conseguimos muitos assentamentos, mas isso não é reforma agrária', afirma João Pedro Stedile a Soraya Agegge. Foto: Mauricio Lima/AFP

CC: A distribuição de terras ainda é o fator mais importante da reforma agrária? Por quê?

JPS: A reforma agrária surgiu como política de governos da burguesia industrial no Hemisfério Norte, que aplicando o princípio republicano de direitos iguais, democratizou a propriedade da terra. Com isso impulsionava o mercado interno para a indústria.  Portanto, falar em reforma agrária é necessariamente democratizar o acesso, a posse e a propriedade da terra. Sem isso, nunca haverá uma sociedade democrática, se os bens da natureza que não são frutos do trabalho, são concentrados em mãos de poucas pessoas. No Brasil, as grandes propriedades improdutivas são apenas 1,3%, mas controlam 40% de todas as terras. Veja que desapropriando apenas esses 1,3%  teríamos uma fantástica mudança no campo.

CC: Ainda há um processo de reforma agrária no Brasil, no sentido de distribuição de terras?

JPS: Um programa de reforma agrária verdadeiro é quando as políticas de desapropriação de terras e democratização da propriedade conseguem impedir a concentração.  Como disse, no Brasil a concentração só aumenta. O Censo de 2006 revelou que a concentração é muito maior agora do que em 1920, quando recém havíamos saído da escravidão.  O que existiu no Brasil, nas últimas décadas, foi a conjugação de duas políticas públicas: a colonização de terras na Amazônia, e isso não altera a estrutura da propriedade, e a política de assentamentos rurais para resolver conflitos sociais e políticos, isso quando há muita pressão por parte dos trabalhadores. Nos últimos anos conseguimos muitos assentamentos, com muita pressão social e um alto custo de sacrifício dos trabalhadores que às vezes pagaram com a vida.  Mas isso não representa reforma agrária, no conceito clássico. Além disso, no Brasil está havendo uma desnacionalização da propriedade da terra, acelerada ainda mais pela crise do capitalismo financeiro que fez com que os capitais especulativos corressem para investir em patrimônio da natureza no Brasil e se protegessem da crise. Estima-se que os capitais estrangeiros já controlam mais de 30 milhões de hectares, para produzir cana de açúcar, gado e soja. Só no setor sucroalcooleiro controlam 33% de toda a terra e usinas.

CC: O que mudou de fato no processo de acesso à terra, desde que o PT assumiu o governo? Houve um aumento nos índices de concentração de terra ou uma redução?

JPS: Há uma lógica do funcionamento do capital na agricultura, que leva naturalmente à acumulação e à concentração da produção e da propriedade da terra. Para combater esse processo o governo deveria ter uma política pública massiva. Por isso que, tanto no governo de FHC como no de Lula, a concentração da propriedade da terra continuou. E quanto maior as taxas de lucro na agricultura, mais altos serão os preços da terra e maior será a concentração da propriedade.

CC: O que o MST acredita que realmente será feito no Brasil com relação à reforma agrária? Quais são as perspectivas do MST?

JPS: O programa de reforma agrária clássica, que a maioria dos países industrializados fizeram no Hemisfério Norte, democratizando a propriedade e criando mercado interno, depende de um projeto político de desenvolvimento nacional baseado na industrialização.  Isso saiu da agenda no Brasil.  Não porque não seja um caminho, mas, sim, porque as burguesias industriais brasileiras nunca tiveram um projeto de desenvolvimento nacional. Então, esse tipo de reforma agrária está inviabilizado por elas, lamentavelmente.  Cabe aos movimentos sociais do campo se organizarem e lutarem agora, por um novo tipo de reforma agrária. Chamamos de reforma agrária popular.  Além da desapropriação de grandes latifúndios improdutivos é preciso reorganizar a produção agrícola, com um novo modelo.  Nós defendemos políticas que  priorizem a produção de alimentos. Alimentos sadios, sem agrotóxicos. Uma combinação de distribuição de terras com agroindústrias nos assentamentos na forma cooperativa, voltada para o mercado interno. Implantando uma nova matriz tecnológica baseada nas técnicas agrícolas da agroecologia.  E ainda a ampla democratização da educação, com a instalação de escolas em todos os níveis, em todo o meio rural.
 
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Opinião

Política e políticos

Luiza Nagib Eluf - O Estado de S.Paulo
Nossa presidenta vem enfrentando com firmeza a crise aberta no Ministério dos Transportes. Seja para agradar à classe média, como dizem alguns críticos, seja para aprimorar a sua gestão, como parece ser, ela está muito correta em sanear a administração.

O problema é que nem bem se começa a equacionar um Ministério apodrecido e já surgem denúncias de corrupção na Agência Nacional de Petróleo. E antes de qualquer desses dois fatos um ministro importante foi obrigado a deixar o cargo por não ter como explicar o crescimento gigantesco do seu patrimônio.

Esperamos que Dilma Rousseff continue em sua cruzada moralizadora, pois é disso que o Brasil precisa. Mas devemos aprofundar a análise dos fatos e procurar as origens mais remotas de tanta deterioração.

A classe política tem a pior reputação dentre todas as atividades no País, e não é sem motivo. O sistema que se criou de preenchimento de cargos em troca de apoio político, nos chamados governos de coalizão, destina posições estratégicas da administração aos indicados pelos partidos da base aliada, a fim de que a governabilidade se torne viável. Tal prática dificulta a aplicação de critérios de competência nas nomeações para os cargos de confiança. Assim, pessoas sem o menor preparo técnico acabam assumindo responsabilidades para as quais não se encontram preparadas. O País sofre com a inoperância da máquina, em total prejuízo do interesse público, enquanto os gestores da vez usam do poder para enriquecer a si mesmos e a seus padrinhos.

O mais incrível é que a sociedade esclarecida não reage. Não exige respeito ao erário, não sai às ruas para mostrar a sua indignação, não pressiona pela investigação dos suspeitos, não reclama os seus direitos na Justiça. Nosso povo, quando se manifesta, é para o vizinho, para o companheiro na fila do banco, para os amigos num encontro social. Aí é capaz de se revoltar, de vituperar, de desprezar, até de ameaçar, mas, na verdade, não faz nada se utilizando dos canais competentes, como as controladorias, as corregedorias, as ouvidorias, o Ministério Público (MP), os Tribunais de Contas e as organizações não governamentais (ONGs) que atuam em defesa da transparência, além do Poder Judiciário, por meio de ação popular, e dos organismos internacionais.

O preço da omissão é a eterna corrupção. E a população se justifica dizendo que o Brasil não tem jeito, que é assim mesmo. Com isso todo mundo vai virando ladrão, o mau exemplo se enraíza nas indistintas camadas da população e leva os valores morais para o ralo. Essa forma de indução ao crime é epidêmica. Contagia todas as classes sociais, as instituições, as organizações.

Quando uma pessoa preparada e disposta a lutar pelos valores inerentes ao bem comum se candidata a um cargo eletivo, por vezes sofre resistência até de amigos e familiares. A concepção de que a política é um meio deteriorado e suspeito configura um desestímulo, um desprestígio ao postulante. Essa concepção da política é equivocada. Como a sociedade brasileira avalia poder mudar a situação atual senão votando em pessoas realmente comprometidas com o interesse público? A atitude de alienação é um salvo-conduto para os corruptos.

A sempre falada reforma política precisa ser feita de verdade, começando pelos partidos. É dentro de suas estruturas viciadas que prosperam aqueles que buscam no cargo público um meio de enriquecer. Falta democracia interna, falta seriedade nas filiações, falta compromisso com o ideário político. A reforma deveria começar regulando as atividades internas das agremiações e estabelecendo limites éticos que vão muito além da mera fidelidade partidária.

Em vez de dar prioridade a vantagens pessoais, nossos administradores precisam elaborar e pôr em prática propostas para um País melhor. E essas propostas devem começar pelos municípios, a fim de que sejam agradáveis, saudáveis, limpos, belos, organizados. O aperfeiçoamento da segurança pública somente pode prosperar em cidades planejadas e bem cuidadas. Onde reinam o caos urbano, a sujeira, a confusão, as enchentes, a poluição, a falta de saneamento e de moradias, a terra de ninguém, ali prospera o crime. Para que possamos ter uma vida tranquila e sem medo temos de estar num espaço público bem cuidado e no qual prevaleça a ordem. Isso depende da ação das prefeituras e das Câmaras Municipais.

A reforma política, atualmente em gestação no Congresso Nacional, poderia contemplar o voto distrital, ou o distrital misto, a fim de aproximar os eleitores dos eleitos e facilitar a cobrança das promessas de campanha, além de várias outras vantagens. O voto em lista fechada também está sendo estudado e, se for aprovado, deverá estipular alternância de gênero, ou seja, um nome de homem seguido de um nome de mulher, conforme constou do relatório no Senado. Esse avanço seria muito importante para corrigir a disparidade na representação feminina e masculina no Poder Legislativo. Não há dúvida de que, com chances reais de serem eleitas, haverá muitas mulheres pleiteando legenda nos partidos.

O debate político não se pode restringir às épocas de eleições. Afinal, os políticos são uma coisa e a política é outra. A sociedade tem de estar permanentemente mobilizada para discutir seus destinos, cobrando dos governantes o cumprimento de seus programas e a lisura administrativa. Para tanto é imprescindível que a sociedade tenha acesso às informações sobre as práticas administrativas, uma vez que a transparência é um direito da cidadania.

A política é importante para cada um de nós e nada vai melhorar sem a participação de todos.

PROCURADORA DE JUSTIÇA DO MP-SP, EX-SECRETÁRIA NACIONAL DOS DIREITOS DA CIDADANIA E EX-SUBPREFEITA DA LAPA, É AUTORA DE VÁRIOS LIVROS, DENTRE OS QUAIS "A PAIXÃO NO BANCO DOS RÉUS" E "MATAR OU MORRER - O CASO EUCLIDES DA CUNHA"

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 01 / 08 / 2011

Folha de São Paulo
"Obama anuncia acordo que evita calote nos EUA"

Não foram divulgados novo teto da dívida nem as áreas que vão sofrer cortes
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O presidente Barack Obama anunciou acordo para cortar US$ 1 trilhão de gastos nos próximos dez anos e elevar o teto da dívida, evitando calote iminente. O pacote, que precisa ser votado até amanhã, fica a quem de expectativas iniciais de corte de US$ 3 trilhões, mas põe fim a quase um mês de impasse. Uma nova rodada de ajustes será proposta em novembro.

O Estado de São Paulo
"Concessionárias públicas lideram queixas no Procon"

Operadoras de energia, telefonia e água foram as que mais atormentaram o consumidor em 20 de 24 Estados

As empresas de energia elétrica, de telefonia e de água e esgoto foram as que receberam o maior número de reclamações em 20 dos 24 Estados em que os Procons estão presentes. Concessionárias de serviços públicos superaram bancos e redes de varejo na liderança dos rankings de queixas dos consumidores. Um dos principais motivos apontados pelos especialistas para a piora do serviço público é o descompasso entre a demanda e os investimentos. "Os setores de telecomunicações e de energia foram privatizados porque o Estado não tinha condições de investir. Mas a setor privado não está fazendo o investimento necessário", afirma o professor Francisco Vignoli, do departamento de planejamento e análise econômica da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo.
 
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