sábado, julho 30, 2011

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Opinião

Aprender a geografia, adequar as ferrovias

Washington Novaes - O Estado de S.Paulo
Parece maldição sobre o projeto da Ferrovia Norte-Sul, sobre o da Centro-Oeste e sobre as ferrovias brasileiras em geral. Pelo menos secular já é, com o quinto adiamento, desde o ano passado, do trecho goiano da Norte-Sul.

A previsão era de entregar ao tráfego, em julho de 2010, o trecho Tocantins-Anápolis, em Goiás, que chegou a ser inaugurado simbolicamente pelo então presidente da República. Agora, o projeto está enredado em ação do Ministério Público, que investiga novo superfaturamento de R$ 48 milhões num único trecho de 105 quilômetros, depois de a obra já haver recebido mais de R$ 5 bilhões só após o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e ter causado superfaturamento de R$ 420 milhões, segundo o Tribunal de Contas da União (Estado, 22/7). O projeto está enredado também no afastamento, sob suspeita, do diretor da Valec, José Francisco das Neves (Juquinha), em meio a todo o rolo do Ministério dos Transportes. Ninguém mais sabe quando a ferrovia entrará em operação.

A Ferrovia de Integração Oeste-Leste, também sob responsabilidade da Valec, está com sua instalação suspensa, por causa de parecer técnico do Ibama que apontou o não cumprimento das exigências ambientais do licenciamento. Só o trecho Caetité-Ilhéus, de 537 quilômetros, está orçado em R$ 4 bilhões (Estado, 20/7). Já a ferrovia Piauí-Ceará, programada para começar em 2007, só teve obras a partir de 2009; prevista para operar em 2012, já pulou para 2013, embora seu custo tenha passado de R$ 5,4 bilhões para R$ 7 bilhões (Estado, 26/7).

A Leste-Oeste, planejada em 1917, partiria de um trecho da Estrada de Ferro Central do Brasil e chegaria a Leopoldina (hoje Aruanã), em Goiás. Mas houve muita reação no Sudeste/Sul, que temia prejuízos comerciais com a saída do centro do País de sua órbita. Propôs-se, no lugar, a Cuiabá-Santos, sob a alegação de que teria resultados mais rápidos e se beneficiaria de infraestrutura já existente. Também o projeto da Norte-Sul, embora tenha mais de cem anos, só ameaçou sair do papel em 1987, mas a licitação para obras foi inviabilizada pela denúncia (correta), do jornalista Jânio de Freitas, de "cartas marcadas" na escolha dos construtores. Apesar da importância da ferrovia, ela foi para o fundo das gavetas. E em seu lugar se ressuscitou em 1991 exatamente o projeto Cuiabá-Santos, impulsionado por um grande empresário da época.

De novo se desprezava a possibilidade de ganhos de competitividade para a produção de grãos exportáveis do Centro-Oeste, que, partindo dessa região e chegando diretamente ao Porto do Itaqui, no Maranhão, dispensaria milhares de quilômetros do trajeto que partisse de Paranaguá e Santos para chegar à Europa ou ao Canal do Panamá, rumo à Ásia. Ainda assim, a Cuiabá-Santos recebeu incentivos da Sudene, recursos do BNDES e verbas do governo paulista para uma ponte sobre o Rio Paraná.

Na verdade, o setor ferroviário federal já enfrentava complicadas questões desde o governo Kubitschek e, principalmente, quando se tornou decisiva a posição do ministro Roberto Campos de opção pelo modelo rodoviarista - para estimular a nascente indústria automobilística - e pela privatização das ferrovias, que teria custado aos adquirentes US$ 1,69 bilhão (O Brasil Privatizado, de Aloysio Biondi, Fundação Perseu Abramo, 1999). Só que a maior parte das privatizadas nem sequer foi paga e o sucateamento progressivo foi a regra.

O resultado é que hoje a ociosidade das ferrovias, no que delas resta, é brutal, quando deveria ser o modal prevalecente, no mínimo, para transporte de cargas, tal como ocorre na Europa, na Ásia e mesmo em boa parte dos Estados Unidos. Aqui, as rodovias transportam 60% das cargas e 90% dos passageiros (Patrícia Marrone, Estado, 26/7). Mesmo num dos trechos de maior visibilidade - Rio-São Paulo - a ociosidade da ferrovia chega a 66% (Folha de S.Paulo, 22/5). O trecho Barra Mansa-São Paulo, por exemplo, poderia transportar 35,3 milhões de toneladas anuais de cargas, mas só transporta 11,9 milhões. A subutilização ferroviária (66,2%) equivale ao trânsito diário de 5 mil caminhões - o que significa, na base de 27 toneladas cada, 135 mil toneladas diárias. Que ainda implicam maior consumo de combustíveis, forte emissão de gases poluentes e investimentos enormes e permanentes em conservação das pistas. Sem falar nas complicações para o trânsito urbano decorrentes do tráfego de caminhões pesados que demandam áreas portuárias (vide São Paulo), e que também pode implicar pesados investimentos e conflitos ambientais (vide Rodoanel).

Agora, tem-se a Norte-Sul paralisada; a Oeste-Leste, embargada; a Valec, travada no imbróglio do Ministério dos Transportes. E se tenta embarcar num megaprojeto de R$ 45 bilhões para implantar o trem-bala de passageiros Rio-São Paulo-Campinas, com pelo menos parte dos recursos vindos de cofres federais.

"O século 19 nos ensinou a ler as palavras. Trata-se, agora, de aprender a ler o espaço" - escreveu ainda no século 20 o professor da Universidade de Paris Yves Lacoste. Porque - ensinou ele - "a geografia põe em relevo o drama". E põe também sobre a mesa nosso descaso com as novas configurações do mundo, a internacionalização absoluta do comércio, a busca frenética por espaços (só na África, países de outros continentes, principalmente a China, já compraram uma área equivalente à da França, segundo Kofi Annan, ex-secretário-geral da ONU). Porque o mundo precisará aumentar a produção de alimentos em 70% até 2050 para atender a mais de 9 bilhões de pessoas, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Nesse quadro, a distribuição da produção adequada de alimentos no País e a logística de transportes serão itens decisivos em qualquer política. E por isso a política ferroviária não pode continuar imersa no buraco em que anda.

JORNALISTA
E-MAIL: WLRNOVAES@UOL.COM.BR

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Manchetes do dia

Sábado, 30 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"PIB cresce pouco, apoio cai e Obama faz “tuitaço”"

Mal avaliado, americano convoca eleitor a pressionar Congresso para evitar calote
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O embate sobre a dívida dos EUA tomou ares de campanha ontem, com o presidente Barack Obama ecoando o candidato de 2008 e exortando o eleitor a “ligar, escrever e tuitar” para pressionar congressistas. A estratégia incluiu divulgar, pelo Twitter de campanha, o endereço eletrônico de todos os congressistas republicanos. Isso tudo no dia em que o democrata registrou seu pior índice de aprovação no Gallup: 40%. Ainda ontem, a oposição chegou a aprovar na Câmara um projeto de corte no Orçamento que elevaria o teto da dívida em US$ 1,6 trilhão até fevereiro. Horas depois, o Senado votou contra o plano e manteve o impasse. Outra notícia ruim para Obama foi o crescimento mais lento que o esperado da economia. No trimestre encerrado em junho, o PIB (Produto Interno Bruto) avançou 1,3% em termos anualizados.

O Estado de São Paulo
"Republicanos aprovam plano, mas impasse nos EUA continua"

Projeto da oposição para dívida deve ser vetado no Senado; economia cresce menos que o previsto e acentua crise

Os republicanos conseguiram superar parte das discordâncias internas e aprovaram o projeto de lei do presidente da Câmara dos EUA, John Boehner, para reduzir o déficit orçamentário e aumentar o teto da dívida americana. O plano recebeu 218 votos a favor e 210 contra. Nenhum democrata foi favorável e 22 republicanos votaram contra. A vitória da oposição, porém terá vida curta, pois o projeto deve ser arquivado no Senado, onde a maioria é democrata. Mesmo assim, a aprovação é um passo à frente nas empacadas negociações – um acordo pode ser acelerado também porque, conforme se divulgou ontem, o PIB dos EUA cresceu apenas 1,3% no segundo trimestre, 0,5 ponto porcentual menos que o previsto. O presidente Barack Obama passou o dia envolvido na busca de consenso para um acordo, cujo prazo é 2 de agosto. “Acabou o tempo de colocar o partido na frente de tudo”, apelou Obama no Twitter.

sexta-feira, julho 29, 2011

Minhas especialidades...

Pastel grego com peras em creme mascarpone de vinho tinto.

Coluna do Celsinho

Começo e fim

Celso de Almeida Jr.
Fim de julho.

O de 2011 não volta mais.

Perdemos mais uma chance.

Mês das férias escolares; temperatura amena; céu - geralmente - espetacular.

Não buscamos turistas estrangeiros.

Não colhemos frutos dos internacionais eventos da vizinha Parati.

Novamente, não transformamos o Congresso de Educação num acontecimento de forte visibilidade nacional, como ainda é o sonho original.

Curioso...

Temos tudo de bom.

Natureza.

História.

Ideias.

Afinal, o que falta?

Este despertar de Ubatuba, que todos esperam, exigirá primeiro um despertar individual.

Transformar nossos negócios, nossas casas, nossas calçadas, nossas ruas em espaços dignos de visitação turística.

Bom atendimento; bons preços; boa educação; limpeza, limpeza, limpeza...

Oferecer mais atividades para nossas crianças e jovens.

Capacitar, continuamente, eternamente, nossos funcionários e colaboradores.

Dar oportunidade aos novos projetos políticos.

Incentivar o voluntariado.

E lembrar, sempre, que nossa lentidão nas ações compromete o futuro de todos os ubatubenses.

Como estaremos no final de agosto?

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Opinião

O que pensa a classe média?

João Mellão Neto - O Estado de S.Paulo
Os Estados Unidos não são mais aqueles. Seja qual for a solução que venha a ser dada à questão da dívida pública, o fato é que a América expôs as suas vulnerabilidades ao mundo. Ao menos na minha geração, ninguém esperava vir a assistir ao fim da supremacia do dólar.

O século passado é apontado pelos historiadores como o "século americano". Nos anos 70 e 80 as pessoas guardavam dólares em casa. Era uma reserva de valor. "In God we trust" ("Em Deus confiamos") vem inscrito nas cédulas verdes. E nós - independentemente da crença no Todo-Poderoso - botávamos alguma fé também no dólar...

Hoje os EUA ameaçam uma moratória e as cotações da sua moeda estão despencando. Algo impensável poucos anos atrás. A Europa também vai mal e, com isso, a civilização ocidental fica sem referências. O século 21 promete ser dos Brics, que, com exceção da Rússia, são as únicas grandes economias que continuam crescendo (China, Índia, África do Sul e Brasil). E é a respeito do nosso país que falaremos agora.

O lulopetismo ficou encantado ao perceber, já no seu segundo mandato, que os ventos sopravam a favor do Brasil. Os preços das nossas commodities (ferro e soja, principalmente) subiram nos mercados internacionais e, assim, escapamos com poucos danos da crise financeira. Além disso, foram encontradas grandes jazidas de petróleo. Mesmo que porventura elas venham a mostrar-se economicamente inviáveis, serviram, ao menos, para criar uma grande expectativa em relação ao Brasil e aos brasileiros.

O grande líder descobriu, maravilhado, que a classe média havia crescido em tamanho e poder aquisitivo. Nosso estadista-operário tratou, então, de atribuir o fenômeno ao seu governo. "Isso foi possível graças às nossas políticas sociais", cantam seus acólitos. "Foi tudo obra nossa". O andor tem de ser carregado com mais apuro. Efeitos não devem passar por causas. Não é porque tudo isso ocorreu durante a gestão petista que lhe caberiam todos os louros. Aliás, o único mérito que reconhecidamente lhe cabe, no campo econômico, é o de não ter interrompido o que já estava sendo feito.

A tão alardeada "nova classe média" é composta de pessoas que, com certeza, não são clientes do Bolsa-Família, nem de nenhum outro eventual mecanismo de transferência de renda. É mais provável que tenham emergido socialmente porque a inflação acabou. Garantida a estabilidade econômica, a oferta de crédito aumentou e mais gente pôde ter acesso a ele.

Quanto às jazidas de petróleo, apesar do alarido, há que considerar que não foram descobertas pelos petistas, mas durante o governo deles. A mais de 7 mil metros de profundidade, não há nenhuma certeza quanto à viabilidade econômica de sua extração. Nem sequer existe tecnologia para tanto, vale ressaltar.

A bem da verdade, a estabilidade não se deve tão somente ao Plano Real. O problema é que as finanças públicas estavam desarrumadas, os poderes públicos - federal, estaduais e municipais - vinham gastando muito mais do que arrecadavam. Endividavam-se todos além do razoável e se cultivava o mau hábito de repassar tais passivos aos novos governantes. "O dever acima de tudo!", bradavam prefeitos e governadores. E como a inflação era alta, ela se encarregava de mascarar todo o processo. Para estancar de vez a sangria inflacionária não bastava um engenhoso plano econômico. Isso ficou evidente com o fracasso de todos os planos anteriores. O fim da constante elevação dos preços restabeleceu a verdade dos fatos: o problema estava no setor público.

O governo federal acabou com o déficit da União. E assumiu para si as dívidas dos Estados e municípios. Todos, a partir dali, poderiam recomeçar do zero. E para evitar que eles voltassem a se endividar foi criada a Lei de Responsabilidade Fiscal. Algo assim como o preceito popular "aqui se faz, aqui se paga". Governadores e prefeitos não mais poderiam assumir dívidas que não pudessem quitar durante sua gestão.

Vários setores da economia, antes em poder do Estado, foram privatizados. Nos anos 90, bem me recordo, não havia linhas telefônicas disponíveis. Aqui, em São Paulo, a empresa estatal de telefonia vendia novas linhas para entrega num futuro incerto. O jeito era alugar as já existentes. Celulares já existiam, mas custavam caro e não completavam as ligações, davam sempre sinal de ocupado.

Não dá para afirmar que as gestões tucanas tenham sido 100% virtuosas. Havia quase tantos escândalos como agora. Mas tiveram a visão correta dos males de que padecia o País e a coragem de fazer as reformas necessárias. O custo político foi alto. Como a economia não crescia, a popularidade do governo também não. Aos petistas, que chegaram ao poder depois, coube apenas colher os resultados. Restou aos social-democratas a oposição.

Quanto à "nova classe média", o governo acaba de encomendar pesquisa para aprender a lidar com ela. A classe média, no Brasil, já é maioria. Ela possui casa, carro e computador. E não é tola. Troca informações pela internet. Qual a mensagem que a sensibiliza? Talvez a do "espírito de fronteira". A cultura do desafio. Algo que no passado entusiasmava os americanos e agora não existe mais. É triste. A História nos ensina que a decadência dos impérios começa onde as virtudes de seus povos terminam.

O que distingue um sonhador de um realizador é que este cuida de transformar os próprios sonhos em realidade. E, para tanto sabem que é preciso dedicar muito esforço, talento e empenho. A educação também entra nessa lista. E a "nova classe média" não espera pelas dádivas de ninguém. Ela própria financia seus estudos. Seus membros têm consciência de que ninguém lhes dará nada sem lhes exigir alguma coisa. Eles têm o sagrado direito de buscar a felicidade. E já o fazem. Mas à sua maneira.

JORNALISTA, FOI DEPUTADO, SECRETÁRIO E MINISTRO DE ESTADO
E-MAIL: J.MELLAO@UOL.COM.BR

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 29 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"Dilma teme 'insensatez' e vê ameaça de crise global"

Presidente critica 'incapacidade' de EUA e Europa e pede união a vizinhos
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Em meio a turbulência econômica no hemisfério Norte, a presidente Dilma Rousseff disse que a "insensatez" e a "incapacidade política" dos EUA e da União Europeia para resolver suas crises são "ameaça global". "Esse quadro onde a insensatez é a regra só reforça a necessidade de nossa união", afirmou Dilma a nove presidentes sul-americanos, em encontro da Unasul em Lima. Países do grupo farão na próxima semana reunião para discutir ação conjunta contra a crise.

O Estado de São Paulo
"Desaceleração faz BC acenar com fim da alta dos juros"

Ata do Copom diz que as medidas para conter a inflação terão impacto acentuado; mercado duvida

O Banco Central sinalizou que o ciclo de alta dos juros pode ter chegado ao fim diante de um quadro "mais favorável" para a inflação no curto prazo, da desaceleração econômica em curso e das incertezas "crescentes" sobre o ritmo de recuperação global. A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada ontem, diz que as medidas já tomadas para controle dos preços e do crédito vão ter impacto mais acentuado nos próximos meses. Economistas não entenderam a mensagem desse jeito e apostam que o Copom só vai cumprir sua tarefa de entregar a inflação na meta em 2013. Fontes do governo, entretanto, consideraram exagerada essa avaliação.

quinta-feira, julho 28, 2011

Pecados: "Das delícias da gula"...

Ramalhete de "causos"

Da sabedoria

Sabedoria exige busca humilde, mas ser manso não é ser bobo

José Ronaldo dos Santos
A realidade está constantemente nos ensinando. Por isso é preciso treinar a observação e ter claro a busca da felicidade.

A felicidade que não implicar a coletividade, ou o maior número possível de seres vivos (Sim! Todos os animais!), deve ser suspeita, pois pode muito bem não ser felicidade.

Recorrendo ao mito grego de Dédalo e Ícaro (pai e filho que escaparam da prisão voando), recomendo a todos, por razão muito evidente, que busquem no mar a sabedoria. Explico: de acordo com o mito, Ícaro, teimoso como guaiá guloso sobre a craca, não deu atenção às recomendações do pai (de não se aproximar dos raios solares, pois derreteria as asas confeccionadas com cera retiradas de colmeia e penas de pombos) e por isso acabou caindo no oceano. O pobre pai só pode fazer uma coisa: chorar. As suas lágrimas, após caírem no mar, foram recolhidas e transformadas em pérolas de sabedoria. Portanto, todos que são moradores da costa devem se esforçar para não deixar passar as oportunidades em que a sabedoria se oferece, principalmente refletindo na beira do mar, de preferência em rodas de causos. Agora, por exemplo, após ouvir a notícia que mais uma ambulância do litoral norte bateu em uma carreta e causou a morte de uma paciente, pergunto:

O que está faltando para uma atitude sábia?

É o melhor caminho deixar os motoristas impunes, que continuem causando mortes dos mais pobres e enfermos?

Deve-se aceitar a omissão do poder público em selecionar e fiscalizar o serviço, causando a infelicidade?

O que fazer para arrancar as pequenas e grandes parasitas que vivem do suor de quem trabalha?

Tenho certeza que muitas gotas de sabedoria foram deixadas pelas nereidas com o propósito de possibilitar a felicidade dos povos que estão junto ao mar.

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Opinião

A Copa não vale tudo isso

O Estado de S.Paulo - Editorial
Que a Fifa, o órgão máximo do futebol mundial, tenha lá suas manias e exigências, para assegurar o maior brilho possível aos eventos que organiza, até se entende, pois ela vive do espetáculo - algumas vezes nada edificante, como os recentes casos de suborno durante o processo de eleição de sua direção. O que não se pode aceitar é que, numa demonstração de subserviência à Fifa, as autoridades brasileiras se rendam a quaisquer de suas exigências, impondo transtornos à população que nada tem a ver com os interesses em jogo na organização da Copa de 2014.

É absurda a decisão do governo de, a pedido do Comitê Organizador Local da Copa - que, por sua vez, atendia à reivindicação da Fifa -, suspender todas as operações no Aeroporto Santos-Dumont, durante quatro horas, para não prejudicar a festança organizada pelos cartolas nacionais e internacionais na Marina da Glória, na área central do Rio de Janeiro, durante a qual serão sorteados os grupos das eliminatórias para a Copa de 2014.

Mais de 40 voos programados para o período das 14 às 18 horas de sábado serão removidos do Santos-Dumont, um dos aeroportos mais movimentados do País, para o Galeão, afetando a vida dos passageiros que pretendiam se valer da comodidade da utilização de um aeroporto central. Antes de começar, a Copa já causa incômodos ao público, no que pode ser um prenúncio do que ocorrerá quando de sua realização daqui a três anos.

E por que tudo isso? Aviões fazem barulho, descobriram os organizadores da grande festa do sorteio dos grupos das eliminatórias da Copa. Por isso, melhor que eles não sobrevoem a área da Marina da Glória - que fica na rota dos voos que utilizam o Aeroporto Santos-Dumont - pouco antes, durante e pouco depois da realização da festança da cartolagem.

No palco montado no centro de uma estrutura que tem ainda um salão de festas de 7.600 metros quadrados, mais salas de imprensa e de logística, vão se apresentar artistas como Ivan Lins, Ana Carolina e Ivete Sangalo e ídolos do esporte como Zagallo, Neymar, Ronaldo e Zico. Serão vários sorteios, cada um para uma região do planeta, intercalados com espetáculos musicais.

Os cartolas alegam também que os aviões poderiam afetar os equipamentos de transmissão da festança, que será transmitida para 200 países, com expectativa de uma audiência de 500 milhões de pessoas. É o caso de perguntar: se sabiam disso, por que escolheram para sua realização um local exatamente numa das rotas aéreas de maior movimento no País?

A suspensão das operações no Aeroporto Santos-Dumont por quatro horas não é o único ônus que a Copa, cuja realização ainda é motivo de dúvida, já impõe aos brasileiros. Há outro, de natureza financeira, que começa a pesar no bolso dos contribuintes - e pesará ainda mais, se as obras programadas para os estádios e para a infraestrutura urbana e de transportes, sobretudo nos aeroportos, avançarem de acordo com seus cronogramas, o que até agora não ocorreu.

A festança de sábado será paga com dinheiro público. O custo de R$ 30 milhões será inteiramente bancado pelo governo do Estado do Rio e pela prefeitura do Rio de Janeiro, também por exigência da Fifa, como justificou a diretora executiva do Comitê Organizador Local, Joana Havelange.

Políticos e cartolas, nacionais e estrangeiros, terão destaque na festa e dela certamente auferirão ganhos pessoais. Também as empresas incumbidas da organização e realização das diferentes etapas do sorteio serão favorecidas. Mas nenhum benefício terá o contribuinte com esse esbanjamento do dinheiro público.

Naquilo que a aplicação dos recursos públicos decidida com o objetivo de assegurar a realização da Copa do Mundo e da Olimpíada de 2016 poderia resultar em ganhos para a população, como as obras de infraestrutura, está tudo atrasado. O caso mais notório é do sistema aeroportuário, já saturado, mas com obras de reforma e ampliação muito atrasadas. A suspensão das operações no Aeroporto Santos-Dumont piora o que já é ruim.

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 28 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"Governo age e dólar tem maior alta em um ano"

Contra especulação, haverá 1% de IOF em operações que elevem exposição em derivativos acima de US$ 10 milhões
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O governo anunciou ontem medidas para inibir a especulação com o dólar. As operações ficarão mais caras, pois quem fechar novos negócios com derivativos e elevar sua posição acima de US$ 10 milhões recolherá 1 % de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). O primeiro efeito do pacote foi conter a queda da moeda americana, que teve alta de 1,3% - a maior em um ano - e atingiu R$ 1,557.

O Estado de São Paulo
"Governo faz sua maior intervenção no câmbio e ameaça ir mais longe"

Pacote para o mercado futuro vai taxar e controlar apostas na valorização do real

Em sua mais agressiva ação contra a alta do real, o governo decidiu controlar as apostas na queda do dólar no mercado futuro - que ontem atingiram US$ 22,8 bilhões, quase todas feitas por estrangeiros - e acenou com novas medidas. Haverá cobrança de 1% de IOF para quem apostar mais de US$ 10 milhões no real, e operações com derivativos fora da bolsa terão de ser registradas. O ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola aponta "desespero". "Isso tende a reduzir a liquidez aqui e aumentar no exterior.” Já para Alexandre Tombini (BC), "a economia sai mais forte". O dólar subiu 1,5% e fechou a R$ 1,559, após cinco dias de queda.

quarta-feira, julho 27, 2011

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Opinião

Roubar, não pode mais

O Estado de S.Paulo
O contraste fica cada vez mais evidente. De um lado, uma tradição de oito anos de pacífica e ostensiva convivência com a malversação de recursos públicos, escorada nos ombros largos da governabilidade. De outro, uma completa devassa no Ministério dos Transportes, provocada pelas recentes denúncias de irregularidades praticadas desde que aquela pasta se transformou, no governo petista, em feudo do Partido da República (PR), componente da base aliada. "Sairão todos, independentemente de endereços partidários", garantiu a presidente Dilma Rousseff em entrevista de 80 minutos concedida a cinco jornalistas na última sexta-feira, no Palácio do Planalto.

Dito e feito. Até o início desta semana eram 18 os demitidos, entre eles o ministro herdado do governo anterior e os diretores dos dois principais órgãos vinculados à pasta, o Dnit e a Valec, responsáveis, respectivamente, pelas infraestruturas rodoviária e ferroviária. Dessas demissões, talvez mais significativa até do que a do próprio ministro Alfredo Nascimento foi a do diretor de operações do Dnit, Luiz Antonio Pagot, que resistiu à saída por quase três semanas, apelando para o recurso de entrar em férias e fazer ameaças veladas ao governo - tudo isso com o apoio explícito de importantes dirigentes petistas, entre eles o fiel escudeiro de Lula, Gilberto Carvalho, devidamente plantado no Planalto como ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, o líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza, e, de quebra, o vice-presidente da República e presidente de honra do PMDB, Michel Temer.

Apesar de algumas indecisões e recuos diante das crises políticas que tem enfrentado nos seus primeiros seis meses de governo - todas elas alimentadas por suspeitas e denúncias de corrupção -, a serena determinação demonstrada por Dilma Rousseff na conversa com os jornalistas que recebeu na sede do governo indica que, se depender apenas dela, o mau hábito de passar a mão na cabeça de corruptos e "aloprados", bem como tentar transferir para a oposição e a imprensa a responsabilidade por todos os malfeitos, faz parte do passado.

Dilma falou sobre tudo o que lhe foi perguntado, sem demonstrar impaciência ou irritação com as questões mais espinhosas. Mostrou-se muito à vontade e confiante quando tratou de assuntos econômicos, mas em nenhum momento revelou desconforto com problemas políticos. Procurou, é claro, minimizar a importância e a gravidade das denúncias de corrupção, das notícias sobre crises no governo e de suas divergências com o antecessor: "Eu entendo que dá manchete ter crise, mas de que ruptura vocês estão falando? Com quem?". E procurou se comportar como a magistrada que precisa ser, insistindo em que "não se pode demonizar a política nem a relação com os Ministérios", até porque "é preciso ter cuidado, porque tem gente que é inocente". E acrescentou: "Não podemos olhar só o governo, só o Congresso e a sociedade. É função intrínseca do governo impedir que haja conluio em qualquer lugar". E manifestou sua disposição de remover todo e qualquer entrave ao bom funcionamento da máquina do Estado: "Eles (os eleitores) me botaram aqui para isso".

Enquanto isso, em franca atividade política para manter-se em evidência na mídia que tanto ataca e também para manipular candidaturas para as eleições municipais do ano que vem - tanto num caso como no outro de olho nas eleições presidenciais de 2014, às quais se tem revelado candidatíssimo -, Lula não se cansa de repetir o que dele, pelo menos por enquanto, só se poderia esperar: protestos de sólida identificação e fidelidade em relação à sucessora que escolheu.

Na verdade, nem ele nem ela precisam explicitar o que pensam para evidenciar que se desenha no horizonte a confirmação do estigma do desgaste e consequente esfriamento da relação entre criadores e criaturas na política. Basta que continuem se comportando, ele, como sempre se comportou, e ela, como parece ter descoberto que é uma imposição de sua investidura. Por exemplo, no recado que Dilma mandou aos parlamentares: "É do jogo que o deputado peça e o governo aceite ou não". O limite entre uma coisa e outra é estabelecido, sobretudo, pela lei. Ou seja: fazer política, pode. Roubar, não pode mais.

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Quarta-feira, 27 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"Investimento externo no Brasil bate recorde"

No 1° semestre, país recebeu US$ 32,5 bilhões, a maior marca desde 1947
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O investimento estrangeiro no setor produtivo da economia atingiu US$ 32,5 bilhões no primeiro semestre deste ano - recorde desde 1947, quando começou a série do Banco Central. Esse fluxo anula o efeito das medidas do governo para conter a queda do dólar.

O Estado de São Paulo
"Investimento estrangeiro direto atinge US$ 32,5 bilhões"

Entrada no primeiro semestre é recorde desde 1947 e cobre o déficit de US$ 25,5 bilhões nas contas externas

A entrada de investimentos estrangeiros diretos atingiu no primeiro semestre a marca de US$ 32,5 bilhões, a mais alta desde 1947. O total em seis meses superou o volume de ingressos anuais de toda a série, com exceção de quatro anos. O desempenho cobriu com folga o déficit das contas externas. O saldo negativo de US$ 25,5 bilhões, impulsionado por gastos sem precedentes com viagens internacionais e com o aluguel de equipamentos, também foi recorde na primeira metade do ano. Já a entrada de investimentos estrangeiros estritamente financeiras somou US$ 11,6 bilhões, quase a metade do observado no primeiro semestre do ano passado. O BC voltou a negar irregularidades no ingresso de investimentos diretos, apesar das suspeitas que circulam no mercado e no próprio governo. A desconfiança é que a rubrica estaria sendo usada para os investidores driblarem a taxação mais alta do IOF.

terça-feira, julho 26, 2011

Baravelli

 No museu (nº 4) - 1979 - Pintura - Doação do artista ao MAM

Idéias

Controle da imprensa

Do Ex-Blog do Cesar Maia
É muito importante que os jornalistas não pensem, quando expressam uma ideia, no êxito que essa lhe trará, nem no proveito material que poderão tirar disso. Quem atua sobre a opinião deve ser consciente que realizam uma missão e devem se comportar como bons servidores do Estado. Por isso me esforcei desde que cheguei ao governo, em sanear o conjunto da imprensa do país. A meus olhos é evidente que um Estado que dispõe de uma imprensa bem orientada e que exerce controle sobre seus jornalistas dispõe de poderes muito maiores do que possa imaginar.

Onde quer que exista, o fetichismo da liberdade de imprensa constitui um perigo mortal "par excellence". O que se chama de liberdade de imprensa, não significa em absoluto que a imprensa seja livre, mas unicamente, que certos potentados têm a faculdade de dirigi-la a sua vontade em função de seus interesses particulares e, em caso necessário, contra os interesses do Estado.
("conversações privadas de Hitler", taquigrafadas, em 14 de maio de 1942. Editora Critica, Barcelona).


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Opinião

Custos, empregos e competição

O Estado de S.Paulo - Editorial
O Brasil tem os maiores encargos trabalhistas do mundo, segundo levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), baseado em compilação do governo americano. Essa é uma das várias desvantagens do produtor brasileiro diante da concorrência estrangeira, tanto no exterior quanto no mercado interno, cada vez mais exposto a competidores com preços mais baixos. Com o câmbio valorizado, os problemas enfrentados pelas empresas se tornam mais graves, e a necessidade de soluções, mais premente. Os encargos pagos no País correspondem a 32,4% dos custos trabalhistas, de acordo com o estudo. O peso é maior que o observado em economias europeias com elevado padrão de proteção social, como Suécia, França, Itália e Bélgica, e muitíssimo distante daquele verificado nos Estados Unidos, onde as contribuições correspondem a 23,6% do custo da mão de obra. A média internacional é de 21,4%. Abaixo desse nível ficam os encargos cobrados na maior parte dos países emergentes.

A divulgação desses dados neste momento tem um sentido estratégico muito claro. O governo federal promete apresentar em agosto medidas para a redução dos custos empresariais, mas a desoneração da folha, prometida reiteradamente nos últimos meses, talvez fique fora do pacote. Na semana passada ainda faltava um acordo sobre como compensar a Previdência pelas perdas, segundo o ministro da área, Garibaldi Alves Filho.

Pode-se discutir se a noção de encargos adotada na elaboração da lista é adequada e se tem sentido, por exemplo, incluir no cálculo itens componentes do salário, como as férias e o 13.º. Afinal, a comparação é entre encargos trabalhistas. Não se trata de confrontar salários, até porque, nesse quesito, a empresa brasileira só está em desvantagem diante das concorrentes de países com mão de obra muitíssimo barata. De toda forma, os encargos, mesmo tomados em sentido restrito, são bem mais elevados que os da maior parte de outros países.

Mas será prudente cortar esses encargos, neste momento? Afinal, a Previdência precisará de muito dinheiro, num futuro razoavelmente próximo, para garantir a aposentadoria de uma população idosa bem maior que a de hoje. A advertência pode parecer sensata, mas a mera manutenção do atual sistema será insuficiente para resolver os problemas de financiamento do sistema previdenciário. Isto já foi mostrado por estudos de respeitados especialistas. A Previdência do futuro será um desastre financeiro e econômico, se faltar coragem aos políticos para uma ampla reforma do sistema, com redefinição, entre outros itens, das fontes de financiamento.

Hoje é oportuna, sim, a ideia de redução dos encargos sociais. Não se trata apenas de preservar a lucratividade das empresas, mas também de cuidar de milhões de empregos em risco por causa de condições muito desiguais de competição.

Mas os custos trabalhistas são apenas um componente do problema. Não haverá solução apenas com o corte desses custos e com alguma providência na área cambial. Um dos principais efeitos do câmbio valorizado é tornar mais visíveis as desvantagens sistêmicas dos produtores e exportadores nacionais.

O governo prefere cuidar dessas questões por meio de medidas homeopáticas. Essas medidas são em geral pouco eficientes para elevar a competitividade e resultam em novos problemas fiscais. O próprio setor empresarial poderia contribuir muito mais para a formulação de políticas. O novo levantamento da Fiesp estabelece comparações entre custos trabalhistas e contém estimativas úteis para a formulação de planos. Mas faltam a apresentação e a discussão pública de estudos mais detalhados e mais concretos sobre outros componentes de custos e sobre seus impactos - trabalhos com sentido mais prático que as tradicionais tabelas de competitividade. Empresas do agronegócio têm publicado, por exemplo, dados comparativos sobre custos de transportes. As entidades empresariais, no entanto, gastam muito mais esforço para protestar do que para discutir tecnicamente os entraves ao investimento, à produção e à competição. Assim favorecem o jogo das mudanças de alcance limitado.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 26 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"Homicídios caem, mas latrocínios sobem em SP"

Tendência é registrada tanto na capital quanto no Estado, apontam números
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Dados do governo paulista indicam que, entre janeiro e junho deste ano, os casos de homicídio caíram 28% na capital, mas o número de latrocínios (tentativa de roubo ou roubo seguido de morte) subiu 12%. Perus, Santo Amaro e Penha são as regiões da capital com mais registros de latrocínio - três em cada uma.

O Estado de São Paulo
"Em SP, taxa de homicídios é a menor em 46 anos"

Dados do semestre na capital mostram, porém, que casos de roubo seguido de morte cresceram 12%

A cidade de São Paulo registrou no primeiro semestre deste ano 8,3 homicídios por 100 mil habitantes, a menor taxa de assassinatos desde 1965. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública divulgados ontem, foram registrados entre janeiro e junho 470 assassinatos na capital, 28% a menos do que o primeiro semestre do ano passado. Apesar da queda histórica nos assassinatos, os casos de latrocínio (roubo seguido de morte) registraram alta de 12% na capital. Foram 46 ocorrências no primeiro semestre. No Estado, o crescimento foi de 20%, e 161 pessoas morreram durante os roubos. Para o delegado-geral Marcos Carneiro de Lima, a alta pode estar vinculada ao roubo a veículos, outro crime com tendência de alta no Estado (10%) e na capital (7,5%).

segunda-feira, julho 25, 2011

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Opinião

Titulares e pernas quebradas

O Estado de S.Paulo - Editorial
"Oposição é como jogador no banco (de reservas). Torce para o titular quebrar a perna." Há várias maneiras de interpretar essa tirada de pretenso humor de Lula, desta vez proferida na sede da Fiesp, onde o ex-líder metalúrgico foi homenageado com um jantar e uma exposição de fotos de seus dois mandatos na Presidência da República. Quem está atento à sucessão de episódios relacionados a denúncias de corrupção que têm exposto divergências da turma do ex-presidente no governo com a sucessora Dilma Rousseff pode perceber que, na verdade, quem anda fazendo oposição à titular do Planalto são os fiéis seguidores de Lula, à frente Gilberto Carvalho, ministro-secretário-geral da Presidência. E se o ex-presidente e seus fiéis escudeiros estão convencidos de que Dilma anda pisando na bola, e com isso comprometendo o projeto petista de uma longa permanência no poder, não há por que imaginar outra coisa: Lula já se pôs em campo como candidato a retornar à Presidência, não em 2018, mas já em 2014. E como todo jogador que está no banco, como ele diz, torce para o titular quebrar a perna.

É o que mostra o esforço do ex-presidente para se manter em evidência no noticiário, coisa que sempre soube fazer muito bem, não importa a que custo. Só nas últimas duas semanas foram três ocasiões e sempre a mesma e invariável atitude: o defensor dos fracos e oprimidos contra as elites. A primeira, em congresso da cooptada UNE realizado no Rio de Janeiro, insistiu na tecla de que a "imprensa golpista" não desiste de lhe "pegar no pé", a serviço de interesses inconfessáveis que ele, se conhece, não revela. A segunda, em congresso da União Geral dos Trabalhadores (UGT) em São Paulo, na qual colheu aplausos entusiasmados ao afirmar que as elites - que, como de hábito, não especificou - "não se conformam" porque hoje os trabalhadores têm acesso a bens que antes estavam fora de seu alcance, como automóveis zero-quilômetro e viagens aéreas. E a terceira, no próprio quartel-general dos patrões dos metalúrgicos, onde acabou cometendo talvez um ato falho com suas imagens futebolísticas.

A versão benévola de que Lula não estava pensando em Dilma quando mencionou titulares de perna quebrada não elide o fato de que a imagem usada, ela própria, é altamente comprometedora para ele, que não hesita em propagandear irresponsavelmente, como prática corriqueira e moralmente aceitável, o levar vantagem em tudo, o recurso a qualquer meio para atingir os fins desejados. Pois não é outra a ideia que traduz a frase infeliz que, a pretexto de fazer graça, traz subjacente um enorme potencial de dissolução moral: "Oposição é como jogador no banco (de reservas). Torce para o titular quebrar a perna". É uma afirmação absurda, descabida, que revela, no mínimo, ausência do sentimento de solidariedade humana, na boca de alguém que tem a responsabilidade de se comportar como líder de uma grande massa de brasileiros. Essa sempre foi a prática de Lula na luta sindical e no papel de oposicionista, à frente do PT: mais do que a torcida, o trabalho para fazer "o titular quebrar a perna". Foi assim quando, sob seu comando, os petistas votaram contra a eleição indireta de Tancredo Neves na disputa com Paulo Maluf, o candidato da ditadura militar; foi assim quando, sob seu comando, os petistas votaram contra a Constituição de 1988, que se propunha a redemocratizar o País depois da queda da ditadura militar; foi assim quando, sob seu comando, os petistas fizeram campanha contra o Plano Real e contra todas as outras medidas reformadoras do aparelho do Estado e da economia implantadas pelo governo tucano que o antecedeu.

Nada disso é novidade. Tudo isso tem sido repetido insistentemente nos últimos tempos, pelo menos, pela imprensa que continua cumprindo o papel democrático de investigar e denunciar o assalto dos partidos da situação aos cofres públicos. A imprensa que insiste em demonstrar, com um trabalho jornalístico responsável, que depois de oito anos de exaurimento ético a máquina do Estado ameaça implodir moralmente, sob o olhar perplexo da presidente Dilma. É fácil entender, diante disso, por que Lula jamais desiste da ideia de quebrar as pernas da imprensa que não lhe "larga do pé". E de quem atravessa seu caminho.
 
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Manchetes do dia

Segunda-feira, 25 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"População carcerária sobe com lei antidrogas"

Número de presos por tráfico no país aumenta 118% de 2006 a 2010
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Criada há quase cinco anos para acabar com pena de prisão para usuários de maconha, a lei antidrogas gerou efeito contrário: contribuiu para superlotar presídios, dizem especialistas. A ideia original era que usuários prestassem serviços comunitários ou vissem palestras sobre drogas. Mas, de 2006 a 2010, o número de presos por tráfico aumentou 118% e chegou a 86,6 mil.

O Estado de São Paulo
"EUA ainda buscam saída para a dívida pública"

Proposta republicana apresentada ontem eleva teto do débito, mas traz itens já rejeitados por Obama

A oito dias do fim do prazo estipulado pelo Departamento de Tesouro dos EUA,o republicano John Boehner, presidente da Câmara dos Representantes, apresentou projeto prevendo a redução de cerca de US$ 4 trilhões na dívida pública até 2022. Seu plano, porém, contém premissas já rejeitadas pelos democratas. Ontem, ao enfrentar novamente a Casa Branca com sua proposta - e dois dias depois de ter abandonado as negociações com o presidente Barack Obama -, Boehner acentuou as dúvidas sobre uma possível solução de consenso no Congresso. O republicano incluiu em seu projeto um aumento de curto prazo de US$ 1 trilhão no total da dívida pública, hoje de US$ 14,3 trilhões. Essa saída, entretanto, exigiria novas negociações no Congresso sobre uma segunda alta do teto da dívida no início de 2012. Na noite de ontem, líderes democratas ainda discutiam alternativas ao impasse. Caso não haja acordo até 2 de agosto, os EUA podem anunciar a primeira suspensão de pagamentos federais de sua história.

domingo, julho 24, 2011

Poluição - Pittsburg, 1955

 

Coluna do Mirisola

Canjica

"Canjica faz parte do Memórias da Sauna Finlandesa (ed.34) – uma pena que a comunidade literária tenha negligenciado esse livro"

Marcelo Mirisola
Depois de tanto tempo na estrada, pagando por um sexo agônico e já desenganado pela Marisete, a perspectiva de uma garota dormir e, principalmente, acordar, comigo na minha cama, era algo – digamos – improvável, para não dizer insólito. Mesmo que a garota fosse a Nelci, de calcanhar sujo.

Sacanagem da minha parte dizer que Nelci tinha o calcanhar sujo. Ela não era necessariamente uma tranqueira. Até que foi muito delicada comigo, e me dedicou um poema chamado “Canjica”.

O problema é que eu era/ou sou um cafajeste que, em vez de encerrar a questão e jogá-la do décimo sétimo andar da minha quitinete … bem, acabei por gostar da Canjica da Nelci, isto é, do poema e não da canjica propriamente dita, aquela que fica entre o púbis, o play e a área de serviço.

E como se não fosse o suficiente, ainda a levei para comer pastel na feira, andamos de mãos dadas … e – é obvio -  broxei seguidamente com ela porque, embora cafajeste, não era/nem sou nenhum filho da puta incorrigível.

Além do calcanhar sujo,o cabelo da Nelci também era meio esquisito. Um negócio Rastafari pela própria natureza.

As opinões dela faziam coro ao conjunto da obra. Uma bosta estar escrevendo isso aqui. Nem o Batata. Tampouco o Salsicha .As brochadas seguiam feito uma maldição. Até o Regisnaldo,o grande arquimandrita poliglota, o maior avestruz dos meus amigos, declinou.

Ela foi a primeira garota do meu retorno a São Paulo. Uma história paulistana. A primeira garota típica de fila de cinema de graça do Centro Cultural São Paulo, que quis dar para mim. E eu me sentia lisonjeado e, em princípio, não estava nem aí com as bobagens que ela falava. Consta que o único cara que conseguiu não somente encarar a Nelci, mas ter um “relacionamento” duradouro com ela, foi o Garcia Furtado.

Depois da Nelci, o sujeito fez uma das traduções mais perfeitas de que se tem notícia do Finnegans Wake, clássico dos clássicos de James Joyce – intraduzível até pelo autor no próprio idioma. Uma proeza indiscutível. Todavia, uma proeza que eu –depois de ter passado uma semana com Nelci – só poderia classificar como “café pequeno”.

Quando penso que eles dormiam e acordavam juntos, meu sentimento é de incredulidade. Decerto se misturavam debaixo dos lençóis ao som do Beto Guedes ou bichogrilice afim. E da cama iam direto pro chuveiro, e lá debaixo d’água se davam bom-dia aos beijos. A gente pode esperar qualquer coisa de um sujeito que traduziu Finnegans Wake. Em seguida tomavam o café da manhã, olhos nos olhos. Depois iam ao supermercado de mãos dadas, Nelci e Furtado, e conversavam sobre os problemas do país, sabe-se lá.

As más línguas garantem que compraram um chiuhahua, e o cãozinho foi o motivo do rompimento do casal. G. Furtado queria chamá-lo Dédalus. Nelci, porém, não abria mão de sua Canjica. Para ela, o nome Canjica encerrava todas as demandas, a poética e a ética, a humana e a canina. Era uma filosofia de vida superior. Dédalus é o cacete, tá ligado?

James Joyce?  Questão de principiante diante da convivência diuturna ao lado de Nelci, a mulher canjica. Você é um herói G. Furtado, e deve ser um grande sujeito também.

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Foi na Copa de 2002.

Naquela época, eu passava minhas noites no bar do cearense,que fica na frente do Centro Cultural São Paulo. Onde conheci a Nelci e o Bactéria. Hoje, o Bac é meu grande chapa, ele que era bilheteiro do falecido grupo de teatro Cemitério de Automóveis. O homem sorriso, a simpatia do guichê.

Bar do cearense. Um lugar freqüentando pelo pessoal sem grana que mosqueava no CCSP, além dos artistas e dos bebuns de praxe.  Pois bem. A Copa do Mundo coincidiu com a mostra de teatro , 1 real a entrada, um frio dos diabos, e o boteco cheio. Em meio a uma discussão acalorada sobre os jogadores bons-moços de hoje, e os bandidos que sentíamos falta de ver na seleção, entre uma e outra talagada violenta de conhaque, na euforia da lembrança de Paulo César Caju, quando cotejávamos o futebol arte com a babaquice da dupla Zagallo & Parreira e, imediatamente depois dos elogios rasgados a Romário, quando alguém associou o baixinho à ilustre memória de Serginho Chulapa, bem, nesse momento, Nelci interrompe a discussão aos gritos.

Ela conseguiu – vejam só – silenciar a arquibancada e a geral justo na hora em que o inigualável Serginho Chulapa ia chutar a cabeça do Leão:

- Gente,gente! Chega de passado! Vocês têm que valorizar o que é nosso hoje. Somos Penta!

Difícil defender a Nelci. Tinha o problema da voz esganiçada. O chapeuzinho ensebado. Em uma palavra e em todas as situações: Nelci  era inconveniente.

E ela grudava, pegava no pé e estava cheia de projetos e pesquisas em andamento. “Cê tem que ficar ligado, cara! É genial, cara!”

Tudo para Nelci era “genial, cara!”. Tinha o dom de se intrometer em todas as conversas, independentemente do assunto, deixava sua opinião genial registrada, além de empatar a foda de todo mundo, também se enfiava no apartamento dos caras para não sair nunca mais.

Nelci fez cocozinhos de peixe na minha privada. Não sabia dar a descarga, e – para o bem e para o mal – não tirava aquele chapeuzinho verde da cabeça… tipo de ladinho. Embaixo do chapeuzinho, o cabelo rastafari.

Não sou um cara exigente. Muito pelo contrário: já encarei muito tribufu na minha dolce vita, mas, toda vez que tocava no cabelo rastafari da Nelci, eu sentia vertigens da época que morava em Florianópolis. Aquilo me lembrava reggae e maconha, a Ilha da Magia, essas coisas que eu não posso nem cogitar que logo o Djavan vai aparecer nas minhas lembranças, e aí, mano, é vômito certo. Uma coisa é o Rastafari de salão, outra completamente diferente é nascer com o Demônio da Tasmânia encruado no couro cabeludo.

A mulher canjica, do bom coração aloprado. Assim era Nelci. Nem vou falar sobre minhas seguidas broxadas. A essa altura do campeonato é algo perfeitamente compreensível e redundante.  Né?

Levei pra casa.

“Genial, cara!” Eram umas oito horas da manhã.  Ela dormia profundamente. E eu precisava tomar uma atitude. Pulei da cama para escrever. Abri as cortinas pra ver se ela “se ligava” e dava o pinote. Por incrível que pareça, em 2002, eu ainda escrevia numa Olivetti Lettera. Comecei a batucar violentamente na maquininha de saudosa memória: “A sabedoria zen-torresminho é algo que me incomoda em Leminski, sem falar nas piscadelas de cumplicidade … ” Etc,etc.

E ela nem aí, continuava a roncar. Nelci roncava, e – é claro – deixava escorrer uma babinha desencanada da beiçola, a mesma babinha todas as vezes, o que me irritava não era exatamente a babinha, mas o fato de que era sempre o mesmo desenho que se projetava no lençol. Canjica.

O que significa James Joyce, eu me pergunto, perto da babinha de canjica da Nelci? Nada, papo esotérico de concretista pré-histórico, musgo.

Da mesa de trabalho, observava o calcanhar sujo dela. O calcanhar sujo de Nelci … que tristeza. Nelci também atacava de atriz, porém o calcanhar nada tinha a ver com o tablado, era uma característica dela, intrínseca, feita sob encomenda pelo mesmo DNA que já havia sacaneado a pobre coitada com aquele Rastafari natural. O que dizer?

Bem, serei generoso e direi apenas que o calcanhar sujo atrapalhou minha concentração. Eu tinha que dar um jeito.

O ponto fraco dela (provavelmente por falta de compreensão) atendia pelo nome de Paulo Leminski. Nelci veio de Londrina, e eu não sei o que acontece com esse lugar. Deve ser a água do rio Tibagi. Sei lá. O tal do Leminski é um Deus por aquelas bandas. Não é que ele seja ruim, até que tem umas coisas boas.

O problema são as viúvas. O cara deixou viúvas físicas e metafísicas. De longe, prefiro as viúvas do Antônio Marcos. No enterro do músico, tinha pelo menos sete.  Mas as viúvas do Leminski, porra, são muito geniais pro meu gosto, se é que me faço entender. Metidas a cults. Um nojo. Para ser mais objetivo, diria que até as viúvas do Raul Seixas são mais palatáveis, a diferença, no caso das viúvas do Leminski, é que você (no caso, eu) não pode nem tirar um singelo sarro, e dizer que elas são histéricas, por exemplo.

E o mais grave, ostentam uma sabedoria ancestral, algo que fica entre um zen-budismo de feirinha hippie e o sovaco do chapeiro. Elas “incorporaram” a sapiência bacon-zen do poeta como se fossem exaustores de boteco, e é essa gente, enfim, que, a pretexto de uma erudição que é pura gordura e não é delas, mas do “bandido que sabia latim” ( percebem como tenho boa vontade?) são elas que vêm cagar zen-torresminhos nos meus cornos.  Puta chatice.
Nelci, que sabia apenas juntar o precário verbo “se liga” com o abominável “genial,cara!” enchia o meu saco com o tal do Leminski; a fim de me intimidar – coitada … – citava o poeta quando atravessava a rua, quando peidava, quando exigia que eu ouvisse Rolling Stones (ela não se conformava quando eu dizia que preferia Pepino di Capri); enfim,  Nelci não me dava uma trégua sequer, ela me aporrinhava com os seus cocozinhos de peixe, e até os girinos que ela largava na minha privada – vejam só – gritavam “Leminski, genial cara, se liga”. Inferno.

Debaixo do chapeuzinho verde-ensebado, dia e noite, acordada ou dormindo, a desgraçada ruminava “genial cara, Leminski, se liga” Foi quando dei uma chacoalhada nela, e disse:  “Ouve só,Nelci:”

- Ouve isso.

-  Ahn…

- Acorda!, Nelci

- Unhs … –  fez esse “Unhs” com uma intimidade que me deixou enfurecido, e ensaiou acordar. Eu tive ímpetos homicidas. Ia jogar um balde de água fria naquela folgada.

- Ouve só o que eu escrevi sobre o Lemins…

Antes de eu dizer “ki” ela saltou da cama completamente pelada (até que tinha uns peitões legais), e protestou:

- Com o Leminski Não!

- Tá maluca, Nelci ?

- Você não vai zoar o Leminski !

- Se liga, Nelci. Ouve só. Ouve!.

Quando comecei a ler o que havia escrito, ela, indignada, se embrulhou no lençol e logo começou a catar as roupas espalhadas pelo chão. Antes de finalmente ir embora para sempre, me ameaçou:

- Isso não vai ficar assim.

Tive que levá-la à padaria. Ela pediu um misto quente, e depois daquele sanduíche, pediu um café com leite e mais um tampico e mais a passagem do ônibus que eu, confesso, paguei com enorme satisfação e contentamento. Foi a vingança de Nelci. Para coroar sua fúria, ela me obrigou a acompanhá-la até o ponto de ônibus, perfeito. Antes de subir no Jardim Miriam, fez uma ameaça: “Fica ligado, cara”.

Intrigante, “fica ligado, cara”, pensei, é uma variação de “se liga, cara”. O que será que Nelci teria querido me dizer com isso?

Recorri a Paulo Leminski. Sejamos justos, ele é um grande escritor, tá ligado? E eu posso tranquilamente (e com autoridade) dizer que “o bandido que sabia latim” ultrapassou James Joyce. No meu caso, sim. Sem medo, afirmo e reafirmo: se não é melhor, é de fato mais eficiente. Eu acho até que ele transcendeu Domingos Autan, conhecem?

Na prosa leminskiana, temos a associação da metafísica zen de boteco com a citronela, manjado repelente industrializado por Autan para espantar os mais ferozes borrachudos africanos. O efeito prático é devastador. James Joyce não chegaria a tanto. Nem aqui, nem em Dublin, e muito menos na bacia do rio Tibagi.

Tanto é que Nelci escafedeu-se. A mulher canjica nunca mais apareceu. Se ligou. E isso é obra – tenho de admitir, reconhecer e tirar o chapéu – de Paulo Leminski. Não é genial, cara?

Canjica faz parte do Memórias da Sauna Finlandesa (ed.34) – uma pena que a comunidade literária tenha negligenciado esse livro. Não é piada, não. Esse ente chamado “comunidade literária” existe, e, se você que é metido a escritor não se comportar direitinho, dança na mão deles. Claro que finjo que não acredito nisso. Uma banana para esses mafiosos.

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Opinião

Segredo e bandalheira

Roberto Romano - O Estado de S.Paulo
O Brasil é o país da corrupção e do segredo, lados da vida nacional que impedem qualquer confiança nas instituições. Os operadores do Estado, sobretudo com o "privilégio de foro", desobedecem às regras basilares da fé pública. O roubo dos recursos coletivos é respondido, entre nós, com perseguição à imprensa, compra de movimentos sociais, sigilo no financiamento de obras. Sem consciência histórica, os nossos políticos e partidos retomam séculos de tirania. A prudência mínima aconselha ligar a censura (o caso do jornal O Estado de S. Paulo é prova) e o segredo que encobre as piores ilicitudes cometidas à sombra do poder. Como disse alguém, "o dia pertence à opinião pública. Nele, os segredos são espancados e os governantes não podem usar o beleguim que realiza o serviço sujo "sob ordem superior". A noite aninha o segredo, covarde razão de Estado".

Os séculos 19 e 20 reuniram censura e hábitos políticos corrompidos, a começar pelo Império de Napoleão I, que espalhou o terror e a guerra com base nas imunidades do Poder Executivo. O fascismo, o nazismo e o stalinismo exibiram o exato contrário da transparência e do respeito à cidadania. Hannah Arendt afirma que a vida totalitária significa a reunião de "sociedades secretas estabelecidas publicamente". Hitler assumiu, para a sua quadrilha, os princípios das sociedades secretas. Ele promulgou algumas regras simples em 1939:

Ninguém, sem necessidade de ser informado, deve receber informação;

ninguém deve saber mais do que o necessário;

e ninguém deve saber algo anteriormente ao necessário.

Segundo Norberto Bobbio, não lido no Congresso Nacional e nos demais palácios de Brasília, "o governo democrático (...) desenvolve a sua própria atividade sob os olhos de todos porque todos os cidadãos devem formar uma opinião livre sobre as decisões tomadas em seu nome. De outro modo, qual razão os levaria periodicamente às urnas e em quais bases poderiam expressar o seu voto de consentimento ou recusa? (...) O poder oculto não transforma a democracia, perverte-a. Não a golpeia com maior ou menor gravidade em um de seus órgãos essenciais, mas a assassina" (O Poder Mascarado).

Quem abre os jornais brasileiros "antigos" percebe o caminho dos que hoje defendem mistérios nas contas públicas e não têm coragem de abrir arquivos ditatoriais. A luta pela transparência, que muitos fingiam conduzir, não passou mesmo de "bravata". O segredo embaralha interesses de grupos privados e assuntos de governo, como no caso Antônio Palocci e no recente episódio no Ministério dos Transportes. Ele ameaça as formas democráticas: nele, os administradores governamentais exasperam aspectos ilegítimos das políticas no setor público. Entramos no paradoxo: o público é definido fora do público e se torna opaco. O segredo, de fato, manifesta-se em todos os coletivos humanos, das igrejas às seitas, dos Estados aos partidos, dos advogados aos juízes, das corporações aos clubes esportivos, da imprensa aos gabinetes da censura, dos laboratórios e bibliotecas universitários às fábricas, dos bancos às obras de caridade. Mas vale repetir a suspeita de Adam Smith: "Como é possível determinar, segundo regras, o ponto exato a partir do qual um delicado sentido de justiça ruma para o escrúpulo fraco e frívolo da consciência? Quando o segredo e a reserva começam a caminhar para a dissimulação?" (Teoria dos Sentimentos Morais, 1759.)

A prudência define a passagem da prática correta do sigilo para uma outra, em que o poder abusivo e tirânico se manifesta. O pensamento ético sempre se opõe ao sigilo, salvo em situações de guerra. Segundo Bentham, a publicidade é "a lei mais apropriada para garantir a confiança pública". O segredo, pensa ele, "é instrumento de conspiração; ele não deve, portanto, ser o sistema de um governo normal. (...) Toda democracia considera desejável a publicidade, seguindo a premissa fundamental de que todas as pessoas deveriam conhecer os eventos e circunstâncias que lhes interessam, visto que esta é a condição sem a qual elas não podem contribuir nas decisões sobre elas mesmas".

Os democratas ou republicanos autênticos devem se acautelar contra o segredo, pois ele se instala na raiz do poder ditatorial e dos golpes de Estado. Não admira que os nossos políticos, herdeiros de costumes definidos nos porões de duas ditaduras, considerem "normais" (com bênçãos de alguns magistrados) tanto o disfarce no manejo das contas públicas quanto a censura à imprensa. Oligarcas manhosos de partidos fisiológicos estão bem no retrato do controle oficial secreto e corrupto. Eles se acostumaram a dobrar a espinha diante dos poderosos porque tal hábito lhes permite corroer as franquias dos "cidadãos comuns". Presos aos favores, vendem a preço vil a dignidade pública na bacia das almas dos Ministérios. Mas cobram caro, das pessoas livres, a crítica aos seus desmandos. A sua técnica de aliciamento usa os laços do "é dando que se recebe", que lhes propicia o controle das informações. Só pode chegar ao público o que eles autorizam. Os coronéis estão mais vivos do que nunca, na pretensa República brasileira.

Já os que, antes de chegar aos postos de autoridade, sempre criticaram os donos do poder, embora queiram exibir uma face polida e bela, escondem (nas paredes escuras dos corredores palacianos) uma repulsiva adesão à bandalheira. A sua figura efetiva? A carantonha de Dorian Gray ou a estátua de Glauco, imagem divina que, por causa das muitas trapaças do tempo, se transformou em bestial. Nada mais desprezível do que o paladino da ética que, por "realismo", age como secretário de práticas contrárias à transparência no manejo dos recursos públicos.

FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP), É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ''O CALDEIRÃO DE MEDEIA'' (PERSPECTIVA)

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