sábado, julho 16, 2011

"Scratch"

Coluna do Mirisola

Diálogos dos Mortos

"Gilberto Braga e Silas Malafaia são duas faces da mesma moeda, e oferecem a milhões de seguidores receitas de ódio e hostilidade recíprocas: basta ao crente escolher o canal de televisão"

Marcelo Mirisola*
Há vinte e dois anos, quando comecei a juntar os primeiros cacos, eu tinha muito a dizer pro casal que tomava café na minha frente. Para eles, e pro balconista também.

Havia uma necessidade, havia o lugar-comum e o grito sufocado. Ou aquilo que os esotéricos chamam de “voz”. Vinha de longe, represada. Urgia. Guardadas a proporções de tempo e lugar, acredito que Luciano passou pela mesma experiência no século II d.C, quando trocou Samósata pela Grécia. A voz era o seu veículo, que, aliás, ecoa até hoje, livre de alfândegas, sem embargos nem taxas de importação. Luciano viajou muito. Talvez sua decisão mais acertada foi ter zoado com a tradição “clássica” da antiguidade. Deu uma banana pras epopéias e pras tragédias e, junto com Plutarco e Macróbio, tornou-se um dos maiores satiristas de todos os tempos. Vagou pela Gália, ganhou a vida como advogado e orador. Fez biscates em Siracusa e apaixonou-se por uma etrusca ciumenta cujo nome era Magali, tiveram um filho que era o cão, Menipo. Luciano que saiu de Samósata, onde hoje é a Síria, ganhou o mundo dos mortos, pintou, bordou e tripudiou do império e do modo de vida romano, falou o que tinha de falar pro casal que namorava na mesa ao lado, e acabou como despachante do Egito. Uma coisa é certa. Quando a voz urge, acaba sobrando pros casaizinhos da mesa ao lado. Sempre acreditei que, independentemente da mensagem, a arte – antes de qualquer coisa – significava, em primeiro lugar essa voz e a necessidade de falar, e depois subversão,o deboche e atrito e, por último, deslocamento.

Certa vez perguntaram a Barthes se a maneira pela qual ele interpretava as entrelinhas não era – per se – uma subversão no mais alto grau. E ele deu uma resposta devastadora. Acredito que não dá para atravessar uma rua sem levar isso em consideração.

Vejam só: “ Seria muito pretensioso da minha parte pensar que sou um subversivo. Mas diria que, etimologicamente, sim, tento subverter. Quer dizer, tento vir por debaixo de um conformismo, de uma forma de pensar que existe e deslocá-la um pouco. Não se trata de revolucionar, mas de trapacear um pouco. Aligeirá-las. Torná-las mais móveis. Fazer ouvir uma dúvida. E portanto, de abalar sempre o pretenso natural, a coisa instalada”.

Luciano de Samósata e Roland Barthes sabiam tirar uma onda da cara dos otários. “Aligeiravam” as coisas de acordo com suas conveniências. Eu recomendo Diálogos dos Mortos, de Luciano. E Mitologias, de Barthes. Se o autor de” e o autor de Diálogos dos Mortos trapaceavam  sem pudores, por que eu não posso singelamente cometer umas mentiras para dizer a verdade (e vice-versa)?

***

Pois bem, eis a grande questão. Hoje eu não tenho nada a dizer pro casal que se beija na minha frente. Nem mentiras, nem verdades. Perdi a voz.  Eles devem ter vinte e poucos anos, usam camisas xadrezes, barba, tênis All Star esgarçados e, no intervalo entre um beijo e outro, se distraem com o notebuque customizado. Nada do que eu disser a eles irá interessá-los. Posso plantar bananeira, comer ranho e atear fogo em Roma. Nem eu, nem qualquer outro escritor que passe de duzentos e quarenta caracteres, tem o poder de dizer qualquer coisa que interesse ao casal de barbudinhos que se beija logo na minha frente. Só existe, penso eu, um livro capaz de subverter a modorra, de gerar desconfiança e fazer “ouvir uma dúvida”. Ou seja, provocar atritos e deslocamentos e, em última análise, produzir arte.

O mais assustador, porém, é que – seguindo o preceito de toda obra de arte … – as mensagens desse livro não primam exatamente pela tolerância e nem são muito conciliadoras, ao contrário: o conteúdo é confuso, repulsivo, ameaçador, beligerante e nitidamente anti-barbudinhos apaixonados. Tem mais: parece que há 1300 anos a bíblia foi pensada para a tecnologia de nossos dias. A maior parte dos seus versículos conta menos de 240 caracteres. Mark Zuckerberg é uma espécie de profeta Forrest Gump, e todos nós que temos uma conta no facebook estamos – inopinadamente – reescrevendo o livro sagrado. Não vai demorar muito para chegarmos ao apocalipse. E, enquanto os anjos do juízo final não assopram suas trombetas, vou deixar vocês com um pouquinho de Coríntios, 6:17: “Não sejais desencaminhados. Nem fornicadores, nem homens mantidos para propósitos desnaturais, nem homens que se deitem com homens, nem ladrões, nem gananciosos, nem beberrões, nem injuriadores herdarão o reino de Deus”.

***

Um livro que contém a palavra de Deus, seguramente tem o dedo do capeta, por isso faz tanto sucesso, eu acho.

***

Neste ano da graça de 2011 d.C, segundo estimativas da PM, a parada gay reuniu 3 milhões de pessoas e os neo-evangélicos arrastaram multidão semelhante – sem contar os enrustidos e os infiltrados, de ambos os lados. Se nos últimos dez anos, o gado aparentemente era pacífico e estava sob controle, hoje, a coisa mudou. O botão do start nunca deu tanta sopa. A meu ver, Gilberto Braga e Silas Malafaia são duas faces da mesma moeda, e oferecem a milhões de seguidores receitas de ódio e hostilidade recíprocas: basta ao crente escolher o canal de televisão.

Duas coisas vos digo; 1. Prefiro o Ratinho. 2. O confronto entre o gado de Malafaia e o gado de Gilberto Braga é questão de tempo. Pouco tempo.

Os exércitos estão formados. Não dou 10 anos para o chegarmos ao final da picada, quando, por um descuido qualquer, as forças do obscurantismo e do arco-íris serão deslocadas como jamais foram na história, e aí, bem, aí eu não vou dizer mais nada, ou seja, minha impotência será refletida no destino de quem, hoje, me ignora porque eu falo demais. Nesse dia, observarei de camarote o último beijo depois do cafezinho. Não vai passar de 240 caracteres, porém a agonia perdurará por algumas semanas. Até o crente mais renitente tombar no colo do último barbudinho de all star.

Desde já, proponho alguns brindes: à Luciano, que saiu de Samósata para ganhar o mundo dos mortos, à Barthes, ao apocalipse e à literatura. Viva!

* Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

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Opinião

Murdoch sentiu o golpe

O Estado de S.Paulo - Editorial
A função da imprensa, dizia um cáustico jornalista americano do século 19, Finley Peter Dunne, é "confortar os aflitos e afligir os confortáveis" - expor as agruras do homem da rua e as trapaças dos poderosos. Décadas a fio, o público britânico tolerou, quando não aplaudiu, que os tabloides londrinos, em feroz competição, recorressem sistematicamente a expedientes sórdidos, quando não ilegais, para expor detalhes escabrosos, ou apenas constrangedores, da vida privada dos "confortáveis": políticos, nababos, aristocratas, ídolos populares. Na Grã-Bretanha essa forma pervertida de levar conforto às multidões anônimas - induzindo-as a desfrutar da desgraça daqueles a quem não podiam se comparar - fez a fortuna dos barões da gutter press, a imprensa de esgoto com suas tiragens milionárias, e tornou os seus editores figuras temíveis e objeto de bajulação.

Até que o seu senso de impunidade e a busca sem freios do escândalo os levaram a afligir cidadãos comuns que passaram por uma desventura que os transformou em "notícia". Esta a origem da crise que no domingo passado parou para sempre as máquinas do semanário News of the World (NoW), que vendia 2,8 milhões de exemplares (um para cada 23 habitantes do Reino Unido), infligiu um golpe sem precedentes no conglomerado de mídia e na imagem do magnata australiano Rupert Murdoch, que o publicava, escancarou a covardia do establishment político inglês diante dos pasquins que bajulavam, abalou o governo de coalizão do primeiro-ministro conservador David Cameron, evidenciou práticas de corrupção policial, desencadeou um inquérito parlamentar também inédito sobre os padrões de atuação da imprensa britânica de massa e pode desembocar em mudanças drásticas no código de autorregulamentação do setor nas Ilhas Britânicas.

Denúncias de invasão de privacidade em grande escala - fala-se em 4 mil vítimas -, mediante escutas telefônicas ilícitas a cargo de detetives particulares contratados pelos tabloides e acumpliciados com agentes da polícia, não eram propriamente novas. Em 2007, um editor do NoW pegou quatro meses de cadeia (e o investigador que trabalhava para ele, seis) depois de confessar que mandara bisbilhotar as caixas de mensagens de telefones de membros da realeza. À época, o NoW era chefiado por Andy Coulson - que o premiê Cameron nomearia diretor de comunicações do governo. Na semana passada, Coulson, que já havia se demitido, foi preso por corrupção e escuta ilegal. Solto mediante fiança, continua sob investigação.

O que, afinal, rebentou as costuras do escândalo e atraiu a ira da opinião pública foi a revelação de que, entre as vítimas das devassas, estava um casal cuja filha de 13 anos havia sido sequestrada em 2002. Antes que a polícia encontrasse o seu corpo, o araponga a serviço do tabloide havia esvaziado a caixa de mensagens do celular da jovem, o que deu aos pais a esperança de que ela pudesse estar viva.

Destampada a cloaca, novas denúncias se atropelam. A BBC, por exemplo, apurou que outro semanário da News Corp. de Murdoch, o Sunday Times, violou o sigilo fiscal do então ministro da Fazenda e depois primeiro-ministro, Gordon Brown. Mais tarde, o principal diário marrom do conglomerado, The Sun, recorreu a meios também torpes para revelar que um filho de Brown, recém-nascido, tinha uma doença genética incurável. O jorro de lama não deve cessar tão cedo. Desde logo, porém, a crise obrigou o magnata a desistir de seu plano de comprar a BskyB, a maior provedora de TV paga no Reino Unido, da qual já detém 39%.

Por ser estrangeiro, Murdoch apenas foi convidado a depor no Parlamento. Já o seu filho James, número um do grupo no Reino Unido, e a sua demissionária presidente executiva, Rebekah Brooks, ex-editora do NoW, deverão ser ouvidos na próxima semana. Ambos poderão responder a processo criminal. Trata-se, de fato, de punir os delitos da imprensa de esgoto, acabando com o misto de temor, cinismo e conveniência política que os acobertava. E isso sem tolher o direito à informação graças ao qual o jornalismo honesto pode confortar os aflitos e afligir os confortáveis - no sentido original da expressão.

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Manchetes do dia

Sábado, 16 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"Novas suspeitas derrubam mais 2 dos Transportes" 

Diretor-executivo do Dnit e indicado de Valdemar Costa Neto caíram; governo prevê outros cortes nos Estados

Novas suspeitas de corrupção derrubaram o diretor-executivo do Dnit (que cuida de obras em rodovias) e um apadrinhado do deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) que atuava na direção-geral sem nomeação. Até agora, são seis os afastados nos Transportes.

O Estado de São Paulo 
"Dilma afasta diretor executivo do Dnit após novas denúncias" 

'Estado' revelou que a mulher de José Sadok teve R$ 18 mi em contratos em obras

O diretor executivo do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), José Henrique Sadok de Sá, foi afastado do cargo por ordem da presidente Dilma Rousseff. Ele responderá a processo administrativo disciplinar, que pode resultar em demissão. A decisão foi tomada após o Estado ter revelado que a Construtora Araújo Ltda., de Ana Paula Batista Araújo, mulher dele, ganhou contratos no valor de pelo menos R$ 18 milhões para tocar obras em rodovias federais. Sadok vinha respondendo interinamente pela direção-geral do órgão e é o sexto dirigente varrido pela crise no setor. 

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sexta-feira, julho 15, 2011

Pretinhas...

Política

Um lado só

Parece lógico que, se um ministro cai, por indícios de corrupção, há um corruptor; mas a lógica é outra

Janio de Freitas, Folha de S. Paulo (Blog do Noblat)
Ainda uma vez, indícios de corrupção em obras públicas levam a um acesso de agitação noticiosa e política. Derrubam um ministro bem enraizado. Dão alguma aparência de vida à oposição. Forçam depoimentos e investigações de servidores. E sobre os que corromperam, nada.

A corrupção nas obras públicas brasileiras tem geração espontânea. É assim aos olhos dos congressistas inquiridores, das polícias, do Ministério Público, do Judiciário e do noticiário.

De certa vez, respondi em inquérito da Polícia Federal, com a presença inquiridora também de um procurador da República, a longa e insistente série de perguntas.

A razão foi a fraude em uma grande concorrência de obra pública, anulada porque o resultado foi aqui publicado, sob disfarce, com antecipação. Eram 18 grandes empreiteiras que dividiam a concorrência e os bilhões por intermédio da fraude.

Pois não me foi feita nem uma só pergunta sobre qualquer das empreiteiras ou dos seus dirigentes.

Aquela foi a primeira concorrência de obra pública anulada por revelação de fraude. Foi tudo arquivado pela Procuradoria-Geral da República. Mas, bem-sucedida, a receita praticada então pelas instituições e pessoas responsáveis por moralidade administrativa e aplicação das leis ficou para as sucessivas fraudes e atos corruptores do serviço público.

Parece lógico que, se um ministro e assessores graduados caem, por indícios de corrupção, há o lado corruptor. Parece. Mas a lógica a reger tais situações é outra.

Provém, por extensão quando as circunstâncias o exigem, daquela, mais que secular, de aplicação dos ônus a um só lado: nos incidentes comuns, a punição aos humildes; nos casos graúdos, o ônus para os menos influentes ou menos afortunados.

E os empreiteiros, se você ainda não notou, com que o ganham no uso dos seus métodos estão ficando donos do Brasil: telefonia, rodovias, ferrovias, petróleo, TV, hidrelétricas, mineração, siderurgia, não tem fim.

O Brasil também está ficando de um lado só.

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Dia do Homem

Coluna do Celsinho

Invisível

Celso de Almeida Jr.
Caminho pelo corredor silencioso da escola.

Férias.

Garotada distante, professores também.

Estranha sensação.

Na memória, as salas movimentadas.

Rostos, destes e de outros tempos.

Há três anos ultrapassamos as três décadas.

Curiosa sensação.

O conhecimento acumulado circula naquele espaço.

A energia gerada repousa na mente e no coração.

Os encontros e desencontros reforçam as marcas.

Caminho...

Numa sala, o pintor renova o ambiente.

Contagem regressiva para o recomeço.

Duas semanas, apenas.

Precisam passar depressa.

Saborear a alegria do reencontro.

Construção de um mundo sempre melhor.

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Opinião

Uma LDO mal-arrumada

O Estado de S.Paulo - Editorial
Há boas novidades na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) aprovada pelo Congresso, mas o conjunto é uma colcha de retalhos mal recortados e mal costurados. A emenda mais audaciosa propõe a eliminação total do déficit público em 2014 e indica metas intermediárias. Mas a presidente Dilma Rousseff, segundo fontes do governo, deverá vetar esse dispositivo - e poderá alegar razões ponderáveis para justificar essa decisão. Outra emenda bem-intencionada obriga o Executivo a incluir no Orçamento e a submeter ao Congresso toda emissão de títulos para transferir dinheiro a instituições federais de crédito, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas o texto inclui também propostas perigosas para as finanças públicas. Uma delas autoriza a concessão de aumento real para quem recebe aposentadoria acima de um salário mínimo. Outra limita o prazo para o Tribunal de Contas da União (TCU) recomendar a paralisação de obras com indícios de irregularidades.

A LDO fixa as linhas gerais para a elaboração da proposta orçamentária. Todo ano essa proposta é enviada ao Congresso até o fim de agosto. Raramente, no entanto, a tramitação da LDO é aproveitada para a introdução de melhoras na política fiscal e na gestão dos programas de governo. Desta vez, houve algumas tentativas interessantes, mas de resultados incertos. A proposta mais bem elaborada, de autoria do senador Aécio Neves (PSDB-MG), servirá - se escapar do veto presidencial - para disciplinar a participação do Tesouro nas operações dos bancos federais. Não é preciso gastar muitas palavras em defesa dessa emenda, depois da estapafúrdia tentativa de envolver o BNDES na fusão do Pão de Açúcar com a rede francesa Carrefour. Mas a proposta do senador é importante também por tornar obrigatório um registro mais claro do endividamento público.

A proposta de eliminação total do déficit público até 2014, apresentada pelo deputado Cláudio Cajado, serve a um bom propósito, mas é deficiente na formulação. É uma boa ideia fixar a meta fiscal em termos nominais, isto é, levando em conta o pagamento dos juros da dívida pública. Mas o equilíbrio total só será alcançado, por definição, quando o superávit primário for suficiente para o pagamento dos juros. É preciso, portanto, traçar um roteiro para a obtenção desse resultado primário. Isso envolve a fixação de critérios para a evolução dos gastos públicos.

Não basta vincular a evolução do custeio da máquina pública à expansão dos investimentos, até porque o governo investe uma parcela muito pequena do orçamento. O valor investido pode aumentar consideravelmente de um ano para outro, sem um esforço excepcional, e isso legitimaria a expansão do custeio. Serão necessárias soluções muito mais complexas e mais sofisticadas para se impor uma disciplina maior às despesas correntes.

Faltam prática e preparo para a apresentação de emendas construtivas, mas sobra experiência para a formulação de ideias contrárias à boa gestão das finanças públicas. A proposta de negociação de aumento real para aposentadorias superiores ao salário mínimo, de autoria do senador Paulo Paim, é um exemplo de inconveniência. Iniciativas desse tipo atraem a simpatia de muita gente, mas muito raramente se discute de onde sairá o dinheiro. Da receita da Previdência?

Também sobram prática e talento para propor a destinação de recursos do Ministério da Cultura para a realização de festas e espetáculos por entidades privadas - desde que se trate de eventos promovidos sem interrupção há cinco anos, no mínimo. Só com uma boa vontade quase inimaginável é possível considerar essa ressalva um sinal de seriedade.

A LDO também autoriza o governo a continuar descontando da meta de superávit primário o dinheiro investido no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Esse expediente, em uso há alguns anos, é evidentemente uma forma de enfeitar as contas públicas e de disfarçar o rombo fiscal. Para investir mais sem aumentar o desequilíbrio de suas finanças o governo deve simplesmente poupar mais. Mas a ideia de gastar melhor e de aumentar a poupança pública permanece fora da agenda oficial.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 15 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"Obama pressiona Congresso para evitar dar calote" 

Presidente dos EUA tenta ampliar limite da dívida do país; China pede que Washington proteja seus credores

Em meio a pressões internas e externas, o presidente dos EUA, Barack Obama, disse a líderes do Congresso que chegou ao seu limite no debate para ampliar o teto da dívida do país. O ultimato ocorreu em reunião após a agência Moody's ameaçar rebaixar a nota da dívida. A Standard & Poor's, outra agência de classificação de risco, cogita fazer o mesmo. A dívida atingiu o limite imposto pelo Congresso, de US$ 14,3 trilhões. Se estourá-lo, o governo terá de escolher o que não pagar, e um calote nos títulos do Tesouro seria inédito nos EUA. A China, seu maior credor externo, pediu a adoção de políticas responsáveis pro investidores - o Brasil tem dois terços das reservas internacionais em papéis dos EUA. Para Ben Bernanke, presidente do Fed, um calote "criaria choque financeiro muito severo".

O Estado de São Paulo 
"Mulher de diretor do Dnit tem contratos para rodovias" 

Construtora venceu licitações de R$ 18 milhões, em Roraima, para recuperação de estradas federais

A Construtora Araújo Ltda., da mulher de José Henrique Sadok de Sá, diretor executivo do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), tem contratos que somam pelo menos R$ 18 milhões para obras em rodovias federais entre 2006 e 2011, todas vinculadas a convênios com o órgão. Sadok acumula o cargo de diretor-geral interino do Dnit em substituição a Luiz Antonio Pagot, em férias após ameaça de ser afastado em meio ao escândalo de corrupção nos Transportes. A construtora de Ana Paula Batista Araújo, mulher de Sadok de Sá, cuida de obras nas rodovias BR-174; BR-432 e BR-433, todas em Roraima e vinculadas a convênios com o Dnit. Os contratos tiveram aditivos, que aumentam prazos e valores. Sadok de Sá disse que os contratos são com o governo de Roraima e foram realizados por meio de licitação. 

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quinta-feira, julho 14, 2011

Dino

Imprensa

Chafurdando
 
Luiz Fernando Veríssimo no Blog do Noblat
Diziam que o maior exemplo de autoconfiança intelectual do mundo era fazer as palavras cruzadas do "Times" de Londres com caneta. O que, indiretamente, provava o alto conceito que o "Times" tinha dos seus leitores, a elite inteligente da Inglaterra.

Isso no tempo em que o "Times" era o "Times" e, além de palavras cruzadas para suas melhores mentes, o império encontrava no jornal, numa linguagem sóbria e elegante, tudo o que precisava saber a seu próprio respeito e a respeito dos seus inferiores, o resto do mundo. Quer dizer, no tempo pré-Murdoch.

Lembrei das palavras cruzadas do "Times" porque li que não adiantaram os cuidados tomados para que não saísse nada de malcriado ou subversivo na última edição do jornal "News of the World", fechado pelo Murdoch em meio ao escândalo dos grampos e da fofocagem, com a demissão de mais de duzentos jornalistas.

O medo era que alguém na redação ou na oficina conseguisse inserir na edição histórica alguma crítica ou gozação a Murdoch ou à ex-editora do "News", Rebekah Brooks.

A censura prévia foi feita e o jornal saiu — mas esqueceram de checar as palavras cruzadas, onde os dois foram sutilmente espinafrados (no espaço para um sinônimo de "Bruxa", imagino, a palavra certa era "Rebekah"), tornando o último número ainda mais histórico.

O contraste entre os tabloides sensacionalistas e os jornais "respeitáveis" da Inglaterra é uma evidência, pode-se dizer escandalosa, de uma divisão social como talvez só exista igual na Índia das castas milenares. A elite inglesa hierarquiza seus diferentes graus de importância para que nunca se confunda um nobre, mesmo arruinado, com um rico sem título, ou os dois com um "comum".

Essa demarcação rígida dá uma certa liberdade aos excluídos para, por assim dizer, chafurdarem (grande palavra) na sua condição de casta inferior. Já que nunca ultrapassarão a barreira que os separa da elite, enfatizam o contraste e atacam o que a elite tem de mais seu, que é o bom gosto e a hipocrisia.

Os tabloides são armas na mal disfarçada luta de classes que tem sido a história da Inglaterra desde os primeiros barões.

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Opinião

Um trem alucinado

José Serra - O Estado de S.Paulo
O projeto do Trem de Alta Velocidade (TAV) entre São Paulo e Rio de Janeiro, o trem-bala, poderia ser usado em cursos de administração pública como exemplo do que não se deve fazer. Foram cometidos vários erros básicos nos estudos preliminares - parecem deliberados, de tão óbvios.

Em primeiro lugar, foi superestimada a demanda de passageiros - e, portanto, a receita futura da operação da linha - em pelo menos 30%.

O TAV tampouco custaria R$ 33 bilhões, como dizem, e sim mais de R$ 60 bilhões. Isso porque não incluíram reservas de contingência, não levaram em conta os subsídios fiscais e subestimaram os custos das obras, como os 100 km de túneis, cujo custo foi equiparado aos urbanos. Esqueceram que os túneis para os TAVs são bem mais complexos, dada a velocidade de 340 km por hora dos trens; além disso, longe das cidades, não contam com a infraestrutura necessária, como a rede elétrica, por exemplo.

Foram ignoradas também as intervenções necessárias para o acesso às estações do trem, caríssimas e não incluídas naqueles R$ 60 bilhões. Imagine-se o preço das obras viárias para o acesso dos passageiros que fossem das zonas sul, leste e oeste de São Paulo até o Campo de Marte!

O último leilão do TAV fracassou não porque os empresários privados não gostem de receber subsídios ou o governo do PT seja refratário a concedê-los. Ao contrário! Até os Correios e os fundos de pensão de estatais podem ser jogados na aventura. Acontece que o projeto é tão ruim que o ponto de convergência se tornou móvel: afasta-se a cada vez que parece estar próximo.

Apesar de tudo, o governo vai insistir, anunciando agora duas licitações: uma para quem vai pôr o material rodante, operar a linha e fazer o projeto executivo da segunda licitação, na qual, por sua vez, se escolheria o construtor da infraestrutura. Este seria remunerado pelo aluguel da obra concluída, cujo inquilino seria a empresa operadora, bem como pelo rendimento da outorga que essa empresa pagou para vencer a primeira licitação. Entenderam? Não se preocupem. Trata-se de uma abstrusa mistificação para, de duas, uma: encobrir o pagamento de toda a aventura pelos contribuintes ou fazer espuma para que o governo tire o time sem dizer que desistiu.

A alucinação que cerca o projeto do TAV fica mais evidente quando se pensa a questão da prioridade. Imaginemos que pudessem ser mobilizados recursos da ordem de R$ 60 bilhões para investimentos ferroviários no Brasil.

Que coisas poderiam ser feitas com esse dinheiro? Na área de transportes de passageiros, R$ 25 bilhões de novos investimentos em metrô e trens urbanos, beneficiando mais de 3 milhões de pessoas por dia útil em todo o País: Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Rio, Goiânia, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza... Sabem quantas o trem-bala transportaria por dia? Cerca de 125 mil, numa hipótese, digamos, eufórica.

Na área de transportes ferroviários de carga, os novos investimentos atingiriam R$ 35 bilhões, atendendo à demanda interna e ao comércio exterior, conectando os maiores portos do País aos fluxos de produção, aumentando o emprego e diminuindo o custo Brasil. Entre outras linhas novas, que já contam com projetos, poderiam ser construídas a Conexão Transnordestina (Aguiarnópolis-Eliseu Martins); a Ferrovia Oeste-Leste (Figueirópolis-Ilhéus); a Centro-Oeste (Vilhena-Uruaçu); o trecho da Norte-Sul de Açailândia a Barcarena, Porto Murtinho a Estrela d"Oeste; o Ferroanel de São Paulo; o corredor bioceânico ligando Maracaju a Cascavel; Chapecó-Itajaí, etc. Tudo para transporte de soja, farelo de soja, milho, minério de ferro, gesso, fertilizantes, combustíveis, álcool, etc. É bom esclarecer: o trem-bala não transporta carga.

Além de ter sido vendido na campanha eleitoral como algo "avançado", o TAV foi apresentado como se o dinheiro e os riscos fossem de responsabilidade privada. Alguém acredita nisso hoje?

Inicialmente, segundo o governo, os recursos privados diretos não cobririam mais de 20% da execução do projeto. E isso naquela hipótese ilusória de R$ 33 bilhões de custo. Outros 10% sairiam do Tesouro Nacional e 70%, do BNDES, que emprestaria ao setor privado, na forma do conhecido subsídio: o Tesouro pega dinheiro a mais de 12% anuais, empresta ao BNDES a 6% e a diferença é paga pelos contribuintes. Com estouro de prazos e custos, sem demanda suficiente de passageiros, quem vocês acham que ficaria com o mico da dívida e dos subsídios à tarifa? Nosso povo, evidentemente, por meio do Tesouro, que perdoaria o BNDES e bancaria o custeio do trem.

Há outras duas justificativas para a alucinação ferroviária: os ganhos tecnológicos e ambientais! A história da tecnologia é tão absurda que lembra os camponeses do escritor inglês Charles Lamb (num conto sobre as origens do churrasco), que aprenderam a pôr fogo na casa para assar o leitão. Gastar dezenas de bilhões num projeto ruim só para aprender a implantar e a fazer funcionar um trem-bala desatinado? Quanto vale isso? Por que não aprender mais tecnologia de metrô e trens de carga? Quanto ao ganho ambiental, onde é que já se viu? Como lembrou Alberto Goldman, a saturação de CO2 se dá nas regiões metropolitanas, que precisam de menos ônibus e caminhões e de mais trens, não no trajeto Rio-São Paulo.

O projeto do trem-bala é o pior da nossa História, dada a relação custo-benefício. Como é possível que tenha sido concebido e seja defendido pela principal autoridade responsável pela condução do País? Eis aí um tema fascinante para a sociologia e a psicologia do conhecimento.

P. S. - A região do projeto do trem-bala onde há potencial maior de passageiros é a de Campinas e Vale do Paraíba, que poderia perfeitamente receber uma moderna linha de trem expresso, com custo várias vezes menor e justificativa econômica bem maior, especialmente se for feita a necessária expansão do Aeroporto de Viracopos.

EX-PREFEITO E EX-GOVERNADOR DE SÃO PAULO 

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 14 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"Kassab falha em áreas essenciais, diz tribunal" 

TCM aponta má gestão em SP; prefeitura afirma que erros estão sendo corrigidos

Parecer do Tribunal de Contas de SP mostra que, em 2010, a gestão Kassab ampliou a verba para transporte e gastou acima do exigido em saúde e educação, mas não prestou serviço de qualidade nessas áreas. É a primeira vez no governo Kassab que o TCM atribui a falhas de gestão os dados ruins em áreas essenciais. 
O Estado de São Paulo 
"Ministro dos Transportes já pede volta de obras e licitações" 

Paulo Sérgio Passos defende revogação da suspensão determinada há uma semana pela presidente Dilma

Recém-empossado, o ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, já quer revogar a suspensão por 30 dias das licitações, projetos, obras e serviços do ministério determinada há uma semana pela presidente Dilma Rousseff para que fosse realizado um pente-fino nos gastos da pasta. Em audiência ontem na Câmara, Passos informou ser favorável à suspensão da medida da presidente e prometeu fazer o que estiver ao alcance para que o ritmo das obras seja retomado rapidamente. Segundo relato dos parlamentares que conversaram com o ministro, Passos disse que vê procedência na onda de queixas de governadores e políticos de todo a País quanto aos transtornos causados pelo atraso em projetos aguardados nos Estados. Passos espera ser convocado ainda esta semana para a primeira audiência com Dilma Rousseff. Nela, o ministro tratará da substituição dos diretores do Dnit e da Valec.
 

quarta-feira, julho 13, 2011

Ramalhete de "causos"


Jairondirorum littorina
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José Ronaldo dos Santos 
Por insistência de alguns amigos, depois de lerem Ovo do Diabo II (www.coisasdecaicara.blogspot.com), resolvi divulgar o que poderá ser um achado do século para o nosso município. Desde já digo que o mérito é de algumas pessoas que leem, buscam ver um pouco além daquilo que aparece e desejam fazer encaminhamentos para contemplar muitas outras possibilidades (científicas, turísticas etc.). Se não fosse por tais características, tal achado passaria despercebido como muitos outros que se já ouviu falar no universo dos caiçaras.
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De acordo com algumas notícias (ver, entre outras, cienciamao.usp.br; noticias.terra.com.br ), se considerarmos o achado da Índia, em 01/10/2009, veremos muita semelhança nas fotos. Será que o nosso ser caiçara também está próximo dos 65 milhões de anos?
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Resta-nos aguardar os encaminhamentos que serão sabiamente tomados pelo professor Aziz Nacib Ab’Saber, este grande geógrafo nascido em São Luiz do Paratinga, em 24 de outubro de 1924.
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Opinião

Novo fracasso do trem-bala

O Estado de S.Paulo - Editorial
Nem o completo fracasso do leilão do trem-bala entre São Paulo e Rio de Janeiro, com extensão até Campinas, perturbou a disposição do governo de continuar tentando tirar do papel esse projeto mirabolante defendido com entusiasmo pelo ex-presidente Lula, mas cuja viabilidade econômico-financeira, nas condições definidas, ainda não foi admitida por quem poderia se interessar pelo empreendimento. Tão logo se confirmou, como previsto por todos que acompanham o assunto com alguma atenção, que nenhuma empresa ou grupo se interessara em apresentar proposta para o leilão marcado para o dia 29 de julho, o governo anunciou um novo modelo para a disputa. Agora, ela será dividida em duas fases: a da escolha da tecnologia e do operador do sistema e a da construção propriamente dita.

Nada garante, porém, que, com as novas regras, haverá concorrência, nem que os novos prazos anunciados serão cumpridos, nem, muito menos, que, se efetivamente iniciadas na data prevista pelo governo, as obras estarão concluídas antes da Olimpíada de 2016. Tudo continua a se limitar à teimosia do governo que insiste em levar adiante esse plano, o mais ambicioso e caro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mas cuja necessidade nunca ficou clara para o público.

Na remota hipótese de a obra vir a ser executada, o País terá de arcar com seu custo já previsto, de pelo menos R$ 33 bilhões nos cálculos do governo, e que deverá subir muito mais, podendo alcançar o valor mínimo de R$ 50 bilhões até sua conclusão, de acordo com estimativas de empresas privadas.

Ao manter o prazo para a entrega das propostas, que se encerrou às 14 horas de segunda-feira, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) deixou de atender a diversos pedidos de adiamento feitos por grupos que se diziam interessados no projeto, mas que alegavam não ter tido tempo para formalizar acordos necessários para sua participação no empreendimento. "Percebíamos que havia a possibilidade de não haver propostas, mas achávamos que tínhamos os elementos para um processo disputado", justificou-se o diretor-geral da ANTT, Bernardo Figueiredo.

Como não houve os tais "elementos", o leilão do trem-bala teve de ser adiado pela terceira vez - e esta pode não ser a última.

De acordo com as novas regras anunciadas pelo governo, na primeira fase da disputa será escolhido o fornecedor de tecnologia e operador do trem de alta velocidade (TAV); na segunda, será escolhido o consórcio que se encarregará de contratar, de acordo com critérios definidos pelo governo, as empresas que construirão a ferrovia. "O vencedor terá de licitar trechos das obras para empresas médias e grandes, nacionais e internacionais", anunciou Figueiredo. A primeira etapa está orçada em R$ 9 bilhões; a segunda, em R$ 24 bilhões. Mantém-se, dessa forma, o orçamento original.

Se, dessa vez, tudo funcionar como espera o governo, o primeiro leilão, que definirá a tecnologia e o operador do trem-bala, será realizado no começo de 2012, mais de um ano depois da data originalmente prevista, que era dezembro do ano passado. Até o fim de 2012, será escolhido o consórcio responsável pelas obras, o que permitiria o início dos trabalhos em 2013, já sem tempo para sua conclusão antes da Olimpíada.

No entanto, o cronograma do governo só será cumprido se não surgirem problemas novos. São muitas as etapas em que isso pode ocorrer. O novo modelo - a ser concluído em agosto, prevê o governo - terá de ser submetido à consulta pública e também à análise do Tribunal de Contas da União, que havia feito mudanças no edital anterior. Se tudo correr bem, em outubro poderá ser lançado o edital da primeira etapa, para a realização do leilão em 2012. Definido o vencedor desta etapa, será repetido o processo para o lançamento do edital e o leilão da fase de construção.

Mas tudo isso só funcionará se houver interessados em participar do projeto nas novas condições e preços que o governo estabelecer. Melhor seria o governo gastar tempo e energia em projetos mais úteis e viáveis.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 13 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"Casino diz não, BNDES sai e Abilio acaba sem a fusão" 

Grupo francês aponta riscos e rejeita compra do Carrefour pelo Pão de Açúcar; governo desiste de investir no negócio

A tentativa de fusão do Pão de Açúcar com o Carrefour no Brasil fracassou. O BNDES desistiu de investir ate R$ 4,5 bilhões no negócio, e o Casino, sócio francês de Abilio Diniz, vetou a operação por considerar que o Carrefour tem falhas gerenciais e custo alto. 

O Estado de São Paulo 
"Sem o BNDES, Pão de Açúcar suspende fusão com Carrefour" 

Com o veto do sócio francês, investidores reunidos por Abílio Diniz suspenderam 'temporariamente' a proposta

O grupo de investidores reunido pelo empresário Abilio Diniz suspendeu ontem "temporariamente" a proposta de fusão do Pão de Açúcar com as operações brasileiras do Carrefour. A decisão foi tomada após o conselho de administração do grupo, com a rede de varejo francesa Casino à frente, considerar a ideia "contrária aos interesses" dos acionistas, baseada em uma visão estratégica “errada" e em estimativas de sinergias "fortemente superdimensionadas". "Esta proposta, não solicitada, é hostil e ilegal", disse o conselho em comunicado divulgado após reunião em Paris. O voto unânime contra a fusão levou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a desistir do aporte de até R$ 4,5 bilhões no negócio. A participação do banco estatal vinha sendo alvo de críticas.

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terça-feira, julho 12, 2011

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Opinião

A Itália é a bola da vez
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O Estado de S.Paulo - Editorial
A crise da dívida chegou à Itália, derrubou as ações dos maiores bancos do país, arrastou para baixo as bolsas europeias e causou estragos em vários outros mercados de capitais em todo o mundo, incluído o brasileiro. Terceira maior economia da zona do euro e uma das sete maiores do mundo capitalista, a Itália tem uma dívida pública superior a 120% do Produto Interno Bruto (PIB). Na Europa, essa dívida só é menor, proporcionalmente, que a da Grécia (acima de 150% do PIB). A especulação com papéis italianos, intensa desde a semana passada, causou estragos imediatos nas cotações dos títulos públicos de Portugal, Irlanda e Grécia, países já dependentes de programas de ajuda. A Espanha, uma das economias mais próximas da zona de perigo, também foi mais uma vez atingida pela turbulência. Se a Itália for empurrada para o buraco, a crise mudará de patamar e o mundo estará diante de um problema de proporções incomuns: como resgatar uma economia desse tamanho?
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Autoridades da União Europeia reuniram-se nessa segunda-feira em Bruxelas para discutir a situação da Grécia e também a onda de especulação contra a economia italiana. Ministros de Finanças do bloco devem continuar hoje as discussões. O comentário mais otimista sobre a Itália foi feito no domingo pelo respeitado economista Mohamed El-Erian, executivo principal da maior empresa gestora de investimentos em renda fixa do mundo, a Pacific Investment Management Co. (Pimco): a dívida italiana tem um perfil muito menos preocupante que a dos países já em crise e, além disso, a Itália é uma economia muito maior e mais flexível. No mesmo comentário, no entanto, ele advertiu: é bom ficar de olho na Itália.
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O desentendimento entre o ministro das Finanças italiano, Giulio Tremonti, e o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, na semana passada, contribuiu para acender um sinal de alerta.
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Contra Berlusconi e outros membros do Gabinete, o ministro das Finanças defende um orçamento mais apertado. "Se eu cair", teria dito Tremonti, citado pela imprensa italiana, "a Itália cairá. Se a Itália cair, cairá também o euro. É uma cadeia."
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A chanceler Angela Merkel, chefe de governo da maior economia da Europa, telefonou a Berlusconi para pedir uma ação tranquilizadora. Segundo ela, a Itália enviará um "sinal muito importante", se for aprovado um orçamento com medidas para consolidar a situação fiscal.
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Enquanto os especuladores centravam o foco na dívida italiana, novos números divulgados na segunda-feira mostravam a piora da situação fiscal da Grécia. No primeiro semestre o déficit do governo central foi 27,9% maior que o de um ano antes. Ficam fora dessa conta os orçamentos dos governos locais e da Previdência, além dos gastos com as Forças Armadas.
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De toda forma, o Parlamento grego já aprovou as novas medidas de austeridade cobradas pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional e isso permitiu a liberação de mais uma parcela da ajuda negociada no ano passado. A piora das contas gregas é explicável, em boa parte, pelo agravamento da crise econômica e pela consequente redução da receita de impostos. Essa verificação realimenta o debate sobre a correção da política de ajuste adotada na Grécia.
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Discussão semelhante ocorre nos Estados Unidos - e envolvendo valores imensamente maiores. O presidente Barack Obama continua negociando a elevação do teto da dívida pública, atualmente calculada em US$ 14,3 trilhões. A oposição republicana condiciona qualquer acordo a um corte severo e imediato do orçamento. Segundo os democratas, a redução de gastos necessária para compensar a manutenção do limite da dívida será desastrosa e jogará o país numa recessão profunda. Mas a elevação do teto será apenas parte da solução. Sem mais impostos cobrados "de quem pode pagar", o ajuste orçamentário imporá um enorme sacrifício à maior parte da população, advertiu Obama. É preciso, portanto, planejar uma arrumação fiscal de longo prazo e compatível, agora, com a recuperação da economia. O mesmo argumento não valerá, com a devida adaptação, para os endividados da Europa?
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Manchetes do dia

Terça-feira, 12 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"SP repassará conta de hospitais a convênios"

Planos terão de ressarcir SUS por atendimentos; lei passa a valer em 30 dias

Hospitais estaduais de São Paulo gerenciados por OSs (Organizações Sociais) vão passar a cobrar dos planos de saúde pelo atendimento prestado aos conveniados, informam Claudia Collucci e Talita Bedinelli. A lei entrará em vigor em 30 dias. O decreto do governador Geraldo Alckmin, publicado no "Diário Oficial", diz, porém, que os hospitais não poderão reservar leitos ou dar tratamento distinto a pacientes particulares. 

O Estado de São Paulo 
"Crise atinge a Itália e derruba bolsas no mundo" 

Escândalo faz crescer temor sobre estabilidade do país; Bovespa atinge o nível mais baixo em um ano

Depois da Grécia, da Irlanda e de Portugal, ontem foi a vez de a Itália levar pânico aos investidores, em mais um capítulo da crise das dívidas soberanas que atinge a União Europeia. Em todo o continente, as bolsas de valores operaram no vermelho - em Milão, o índice caiu 3,96% e em Lisboa, 4,28% e houve reflexos fora da Europa. No Brasil, a Bovespa caiu 2,1%, para o menor nível em mais de um ano. A onda de especulações sobre a estabilidade do governo de Silvio Berlusconi cresceu após um novo escândalo de corrupção, agora envolvendo o ministro da Economia, Giulio Tremonti, autor do plano de austeridade aprovado em primeira votação na quinta-feira. Preocupada, a chanceler da A1emanha, Angela Merkel, telefonou a Berlusconi para pedir que a Itália adore o plano de rigor o quanto antes.

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segunda-feira, julho 11, 2011

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Opinião

Só falta o etanol

O Estado de S.Paulo - Editorial
Senadores americanos deram mais um passo para abrir o mercado de seu país ao etanol estrangeiro - uma velha reivindicação brasileira. Republicanos e democratas concordaram em votar uma lei para eliminar os subsídios à produção nacional e a tarifa de importação de álcool combustível. Falta incluir as medidas num projeto e submetê-lo à votação no Senado e na Câmara, mas a aprovação é tida como certa. Autoridades e produtores brasileiros celebraram a novidade, mas falta um detalhe para a festa ser completa: o etanol. A produção brasileira tem sido insuficiente para abastecer o mercado interno e, se o mercado americano se abrir nos próximos meses, os fabricantes brasileiros serão incapazes de se beneficiar da abertura.

Durante anos o governo brasileiro alardeou pelo mundo as qualidades do etanol nacional. O Brasil, segundo diziam, pode oferecer álcool mais barato que o de seus concorrentes e, além disso, produzido sem danos ambientais importantes e sem prejudicar a oferta de alimentos. Tudo isso é verdadeiro. Por todos esses fatores o Brasil pode ser o maior e mais competitivo exportador de etanol - se dispuser de mercadoria suficiente para vender no mercado externo.

A promoção do álcool brasileiro no mercado internacional foi uma das principais atividades do presidente Lula, quando se ocupou de diplomacia comercial. A abertura de mercados estrangeiros foi um tema constante da diplomacia petista nos últimos oito anos. Mas o governo jamais tratou seriamente uma questão fundamental: como garantir produção suficiente para aproveitar as oportunidades comerciais? No entanto, deveria ter levado a sério essa pergunta, porque nunca foi segredo a insuficiência da produção brasileira para suprir os mercados interno e externo.

A oferta de etanol tem sido insuficiente, nos últimos tempos, até para atender à demanda interna. Agora mesmo, apesar da nova safra de cana, a redução do preço do álcool tem sido moderada. Embora tenha caído em maio e junho, o preço do etanol nos postos de combustíveis continuava no fim do mês passado mais alto do que em janeiro, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No fim do semestre o preço era 5,95% maior que no começo do ano. O aumento acumulado nos 12 meses de 2010 foi menor e ficou em 4,36%.

O encarecimento do etanol, no mercado interno, é em parte explicável pela valorização do açúcar nos mercados internacionais. A demanda é alta. Na quinta-feira passada, 79 navios estavam em filas, nos portos brasileiros, para embarque do produto.

Mas a oferta de açúcar também tem sido insuficiente para atender à demanda internacional, embora os usineiros venham dando preferência a esse produto. O problema é bem mais complicado do que parece quando se considera somente a relação entre os preços e as decisões tomadas pelos fabricantes.

Neste ano, desde o começo da safra até a primeira quinzena de junho, foram moídos 134,5 milhões de toneladas de cana, 22,6% menos que na safra anterior, segundo a consultoria Datagro. A produção de cana é insuficiente para todas as necessidades e isso se deve apenas parcialmente às condições do tempo. A causa mais importante é outra. O plantio de cana tem aumentado menos que a demanda de açúcar e de etanol. Simplesmente falta matéria-prima e a indústria deve operar neste ano com uma ociosidade equivalente a 80 milhões de toneladas de cana.

Falta investimento tanto para ampliação quanto para renovação de canaviais. Só para suprir os veículos flex nos próximos dez anos seria necessário produzir mais 400 milhões de toneladas de cana, segundo estimativa dos técnicos do setor. Isso quase equivale à produção estimada para o Estado de São Paulo neste ano, 437,5 milhões.

Representantes do governo têm esbravejado e tentado garantir a oferta interna de álcool com ameaças. Isso é inútil. É hora de pensar numa política de produção e de formação de estoques, sem voluntarismo e sem intervenções despropositadas. Se o governo for incapaz de equacionar o problema e de planejar a solução, o Brasil será incapaz de abastecer o próprio mercado e ainda perderá excelentes oportunidades no comércio global.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 11 / 07 / 2011

Folha de São Paulo
"Dinheiro público domina parcerias em obras da Copa"

Estádios erguidos em modelo que prevê associação com o setor privado recebem R$ 1 bi em financiamento do BNDES

Dinheiro público banca mais de 60% dos estádios da Copa-2014 erguidos com as chamadas PPPs (parcerias público-privadas). Três Estados que optaram pelo modelo receberam R$ 1 bilhão do BNDES. Em Salvador, o setor público se comprometeu com 80% do total do estádio. Para o Ministério Público, isso desvirtua o modelo, no qual o setor privado financia e executa uma obra ou serviço em troca da concessão. Os governos da Bahia, do Ceará e de Pernambuco afirmam cumprir a legislação com rigor. Dizem que o modelo de PPP foi aprovado pelo BNDES, que criou financiamento específico para o Mundial. 

O Estado de São Paulo 
"Empresa diz ter alertado Petrobras sobre fraude" 

Estatal teria sido informada de proposta de companhia do senador Eunício Oliveira para burlar licitação

A direção da Seebla Engenharia afirmou ontem ao Estado ter alertado a Petrobras no dia 11 de maio sobre o assédio da empresa Manchester Serviços Ltda, que pertence ao senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), para fazer um acerto numa licitação de R$ 300 milhões na Bacia de Campos, região de exploração do pré-sal no Rio. Na edição de ontem, o Estado revelou que a empresa do senador soube com antecedência da relação de concorrentes e os procurou para propor um acordo para burlar a licitação e ganhar o contrato. O diretor da ouvidoria da Seebla, Milton Rodrigues Junior, disse que relatou a Petrobras "chantagem" “ameaça de retaliação” pela Manchester antes da licitação, ocorrida em 31 de março. O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) defendeu que o Ministério Público e o Tribunal de Contas da União (TCU) investiguem a negociação.

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domingo, julho 10, 2011

Escada para o "Paraíso"

Coluna do Mirisola

Itamar Franco, do outro lado da linha

"Ah, quanta merda, quanta mentira, ou, se vocês quiserem chamar essa piada de mau gosto de contexto, tudo bem. Então chegou o carnaval de 1993, e tudo mudou"

Marcelo Mirisola*
A realidade não suporta mais os mecanismos e/ou as estruturas de poder do século passado. E já faz um bom tempo. A crise, todo mundo sabe, é de representatividade. Hoje em dia, a geografia, as leis e as fronteiras são apenas detalhes insignificantes diante da força despirocada daquilo que - ainda - atende pelo nome de História. Tanto faz o lugar onde o mundo vai explodir (ou acabar), seja na Grécia,em Trípoli, ou no Jardim Miriam.

Antes de continuar, porém, quero deixar claro que não dou muita bola nem pra realidade e nem pras estruturas e os seus poderes respectivos, dos séculos passados e dos que virão.

Em outros termos, eu diria que viver é ridículo e perigoso; e a gente (eu me incluo, fazer o quê?) tem que se distrair antes do fim, pagar as contas e – se possível - dar uma banana para a distinta platéia. Cada um se vira como pode, atravessa as ruas e amarra os cadarços do jeito que melhor lhe convier, dia após dia. Eu não faço diferente: sigo devendo meus condomínios e ganhando o pão de todo dia. Às vezes, só pelo prazer de ver o circo pegar fogo, acerto no alvo. Outras vezes (a maioria delas), erro feio. Não confio em mim. Não confiem em mim.

O engraçado é que foi a morte de Itamar Franco que me inspirou esse pequeno desabafo.  Pois bem, eu falava que existe uma crise de representatividade.

                                            ***

Era 1990, Cazuza agonizava na capa da Veja, a Aids  brochava o mundo inteiro e empatava a alegria de muita gente, especialmente a minha. Sarney havia zoado o Brasil e a inflação estava fora de controle. Numa campanha constrangedora, Fernando Collor se vendeu como Caçador de Marajás e foi eleito, dois anos depois seria “impichado” por um Congresso Nacional mais podre que o sistema de esgoto da casa de praia do PC Farias. Itamar Franco assumiria o poder. No ar, ainda bordejavam caras-pintadas, Lindberg Farias, o PT “ético” e um Lula que vociferava contra as “elites dominantes”. Senna era o herói do Brasil e os irmãos Leandro & Leonardo haviam estourado nas paradas de sucesso com Talismã (trilha sonora dessa meleca), ah, quanta merda, quanta mentira, ou, se vocês quiserem chamar essa piada de mau gosto de contexto, tudo bem. Também foi no começo da década que matou Kurt Cobain de tédio que conheci Marisete (leiam Charque, ed.Barcarolla, vai sair em agosto).  Mais ou menos era essa a piada, digo, o contexto, somado ao xarope do Faustão que já enchia o saco de todo mundo em domingões enfadonhos e intermináveis.

Então chegou o carnaval de 1993, e tudo mudou. Itamar Franco estreava ao lado de seu ministro da Justiça nos camarotes da Marquês de Sapucaí. O presidente e o seu ministro, Maurício Corrêa, se esbaldavam feito pintos no lixo, sendo que o ministro encontrava-se visivelmente bêbado. E bem no meio da dupla, envolvida por abraços e beijinhos, a mulher que, a meu ver, mudaria a história do país, Lílian Ramos - sem calcinha. O fotógrafo, a quem eu gostaria de prestar uma homenagem mas não sei o nome, lá da avenida, achou o melhor ângulo - de baixo para cima - e atirou.  No dia seguinte, o Jornal Nacional invade a casa da atriz-modelo-e-candidata a primeira-dama, e flagra a conversa dela com Itamar, supostamente do outro lado da linha. As juras de amor e as condições que Lílian estabelecera para um “namoro sério”, bem, na minha opinião, serviriam como base não só para o bem-sucedido plano real que viria na seqüência, mas como fundamento legítimo de representatividade. Valeu por todos os pódiuns que Senna subiu e por todas as mulheres que Ayrton não comeu, e foi – pelo menos para mim - a primeira esperança de cura da Aids, creio que as condições para o “namoro sério” de Lílian Ramos deviam estar gravadas como cláusulas pétreas em nossa Constituição, cadê você Lílian?

Todo o esgoto de Brasília transformou-se em água cristalina que brotava de virgens veredas, quando a modelo disse que ia “pensar”, nesse momento – independentemente da resposta de Lílian – o Brasil já era outra nação e Itamar entrava para a história como o herói de um país que descobria outro país. Nunca me senti tão representado por um presidente da República, e nunca me diverti tanto. Nunca o primeiro magistrado da nação havia sido tão brasileiro como Itamar Franco do outro lado da linha. Nem Getúlio, que enfiou um balaço no peito, tampouco Juscelino que mudou o eixo de lugar, muito menos Figueiredo que, num surto de sinceridade, disse que preferia o cheiro de bosta de cavalo ao cheiro do povo. Tampouco Lula, acho que no Guarujá - lembram? - de bermudão na praia, com aquele isopor sobre a cabeça encenando o segundo estágio a caminho da evolução da espécie (o primeiro estágio foi ter vendido a alma pra tal das “elites dominantes”), ninguém, nem Fernando Henrique quando fumou Deus sem tragá-lo, ninguém conseguiu superar Itamar Franco, nem antes e never more. Ninguém!

Penso que Itamar devia ter inaugurado uma dinastia no Brasil, com o topete bravio se elevando feito uma onda na respectiva coroa. Nós, monarquistas, perdemos essa oportunidade.

Não só os presidentes que o sucederam, mas os políticos e os famigerados “formadores de opinião”, todos menos o povo de Minas Gerais que ele tão bem representou, todos se apequenaram e foram mesquinhos com Itamar. O escantearam. Não o entenderam.  O isolaram. Mandaram para Roma, para Lisboa, para Juiz de Fora. Como se ter ressuscitado o fusca fosse motivo de piada e não de poesia, essa gente nunca esperou a resposta de Lílian do outro lado da linha. Aprenda, dona Dilma! Itamar foi acusado de insensato quando decretou moratória em Minas Gerais, nessa ocasião cercou o Palácio da Liberdade e deslocou tropas para proteger as instalações de Furnas - num gesto heróico só comparado ao dia em que Pedro I venceu a morte e dos libertou do jugo de Portugal – disseram que Itamar Franco era um caipira.

As cenas do velório de Itamar ilustram bem o que se passou e o que se passa no Brasil. A expressão de saco cheio de Dilma Roussef  resume a arrogância e a estatura dela e dos outros ex-presidentes presentes na cerimônia, cambada de hipócritas, aproveitadores, pigmeus históricos. Dizem que Itamar não teve (ou não entendeu...) a dimensão do lugar que a história do Brasil lhe conferiu, acusaram-no de sortudo, Forrest Gump, ressentido, ingênuo, mal vestido e o diabo a quatro. Mas nunca na história do Brasil um Presidente foi tão brasileiro quanto Itamar Franco do outro lado da linha, esperando a resposta de Lílian Ramos... que deve ter pedido uma Keep Cooler e um tempo a Itamar, “melhor dar um tempo, né amor?”.

Agora é tarde.
 
* Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

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Opinião

Banda larga popular

O Estado de S.Paulo - Editorial
A partir de outubro deste ano, o governo dará início a um grande teste: dar acesso à internet rápida a milhões de brasileiros. Depois de meses de negociação com empresas de telecomunicações para implementação do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), chegou-se afinal a um acordo pelo qual será oferecido aos consumidores um serviço de conexão à internet com velocidade de um megabit por segundo (Mbps) a R$ 35 por mês (em alguns Estados o preço pode cair para R$ 29,80). O preço é acessível a famílias de baixa renda, que terão de possuir, porém, linhas de telefones fixos, que podem ser para esse uso exclusivo, além, é claro, de computadores. É muito difícil prever, a esta altura, o grau de adesão por parte da população a esse plano. O brasileiro não é avesso a inovações, mas, em casos como esse, muito vai depender de informações boca a boca, que se baseiam fundamentalmente na qualidade do serviço. Está aí justamente o problema, pois, como sabem os usuários costumeiros da internet, com planos de até 20, 30, 50 Mbps ou mais, o serviço, além de ser caro, está muito aquém do que anunciam os provedores.

A velocidade da banda larga popular deve ser elevada gradativamente até chegar a 5 Mbps em 2014, quando o governo espera que o serviço esteja disponível em todos os municípios do País, o que representa outro desafio. Hoje, somente 27% dos domicílios brasileiros têm internet e a meta é chegar a 70% daqui a quatro anos.

Vale recordar que esta não é a primeira vez que o governo procura estender a todas as camadas sociais, em todas as regiões do País, as facilidades proporcionadas pela tecnologia da informação. O Programa de Inclusão Digital, do governo Lula, gerido pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, e operado com recursos orçamentários, prometia muito, mas apresentou resultados pífios.

Agora, como fazem questão de ressaltar as autoridades, como se trata de um convênio com a iniciativa privada, não haverá dispêndio de recursos públicos. Essa norma deveria valer também para a parceria comercial que está sendo negociada entre a Telebrás e a Eletrobrás para a oferta de banda larga em regiões mais remotas e sem infraestrutura para os serviços de internet.

Nas cidades do interior mais próximas dos grandes centros, nas Regiões Sul e Sudeste e mesmo em algumas áreas do Nordeste e do Centro-Oeste, já há as coberturas de banda larga proporcionadas pelas operadoras, que, no entanto, precisam investir para atender às necessidades do novo plano. No Estado de São Paulo, a banda larga popular deve estar disponível em 230 municípios até o fim deste ano, segundo a Telefônica. No caso de não cumprimento pelas operadoras dos compromissos assumidos, são previstas sanções.

Quanto à qualidade, as operadoras não aceitaram a obrigação de garantir, no início da vigência do plano de banda larga, 40% da velocidade contratada, elevando-a, em média, a 70% daqui a quatro anos, como desejava o governo. Atualmente, as empresas asseguraram apenas 10% da velocidade do pacote adquirido pelo cliente. Em termos práticos, isso significa que a navegação na internet pelos usuários do plano popular será muito limitada, especialmente em períodos de tráfego muito intenso na rede.

Contudo, pode haver uma certa melhora. O presidente da Anatel, Ronaldo Sardenberg, prometeu que a agência reguladora vai aprovar o regulamento de qualidade para a banda larga fixa até o fim deste mês, submetendo-o, depois, a consulta pública (a banda larga móvel já cumpriu essas etapas). Pelo regulamento, de acordo com os técnicos da agência, a velocidade mínima garantida nos horários de pico será de 30% do que foi contratado. Sendo o tráfego menor, a velocidade poderá chegar a 50%. Mesmo assim, segundo os técnicos, não haverá possibilidade de download de vídeos, filmes, TV e conteúdos longos ou "pesados".

O que se espera é que o aumento da velocidade da banda larga popular se reflita sobre os serviços de internet de modo geral.

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