sábado, junho 04, 2011

Política

Sem convencer

Merval Pereira, O Globo
A entrevista do (ainda) ministro Antônio Palocci ao Jornal Nacional ontem não melhorou sua situação, e esgotou sua capacidade de dar explicações à opinião pública, coisa que, aliás, ele acha que não precisa fazer.

Ele se declarou mais preocupado com as eventuais consequências para as empresas a que prestou “consultoria”, do que com os prejuízos para o governo brasileiro que sua atividade dupla como político e “consultor” poderia ter causado.

A insistência em não apresentar as empresas atendidas por sua empresa mostra que ele se considera dispensado de revelar ao público a que serve como membro do governo os detalhes de sua atividade.

Alegou Palocci que todas as informações detalhadas foram encaminhadas aos órgãos públicos controladores, como a Procuradoria-Geral da República, ou o Conselho de Ética do Governo.

E a decisão que eles tomarem deve ser acatada pela opinião pública, sem mais discussões.

Não passa pela cabeça do (ainda) ministro que, sem que seja revelado exatamente para que tipo de empresas ele trabalhou, e que “consultas” deu, não se pode ter certeza de que não houve tráfico de influência.

Quando diz que é preciso ter boa-fé na discussão política, Palocci pede que o cidadão comum se convença de que não existe tráfico de influência no governo, em qualquer governo, e que servidores públicos de posse de informações privilegiadas não têm que ser vigiados pela opinião pública por que, em princípio, todos são sérios e honestos.

Infelizmente, a nossa história recente registra inúmeros exemplos de uso de informações privilegiadas que não justificam uma atitude de boa-fé cega.

Ainda mais com tantos milhões envolvidos em tão poucos anos.

Não é razoável que o (ainda) ministro Palocci peça à opinião pública que confie em suas palavras e não se impressione com o formidável faturamento de sua empresa de “consultoria”, que supera o de outras empresas muito mais tradicionais no ramo.

A insistência de Palocci quanto a legalidade das atuações de sua empresa de “consultoria” parece uma tentativa de desviar a atenção das acusações mais graves, pois em nenhum momento discutiu-se alguma ilegalidade fiscal, e nem mesmo ilegalidade formal de sua atividade dupla de “consultor” e deputado, permitida por uma legislação que só não é revogada por que é dos interesses dos parlamentares que fique como está.

O que se discute na atividade de Palocci que ele precisas provar que não usou as informações internas que tinha, sobretudo quando já era coordenador da campanha da candidata oficial Dilma Rousseff, para orientar seus clientes.

Por mais que tenha se destacado como ministro da Fazenda, o médico Antonio Palocci não tem conhecimento técnico suficiente para dar conselhos sobre investimentos ou fusões e aquisições.

Ou pelo menos teria competidores mais bem aparelhados tecnicamente para essa tarefa.

Sua farta remuneração, incluída aí uma “taxa de sucesso” que parece altamente discutível, parece muito mais consequência das suas relações dentro do governo, mesmo depois de ter saído do ministério da Fazenda, do que de seus conhecimentos econômicos.

Palocci alegar que quando estava na campanha de Dilma Rousseff exercia um papel político, e não na área econômica, é puro diversionismo.

Também na campanha de Lula em 2002 sua função nada tinha a ver com a economia até ser indicado como ministro da Fazenda.

Ele era o que sempre foi, um articulador político altamente competente e eficiente por seu relacionamento pessoal com Lula e sua história dentro do PT.

Sua indicação para a área econômica, portanto, foi uma decisão política de Lula para indicar que um homem de sua confiança estaria à frente da economia, garantindo a continuidade da política de controle da inflação e equilíbrio fiscal.

Foi na prática que ele foi aprendendo os segredos do ofício, e teve a sensatez de ouvir pessoas adequadas, como o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga e o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, e convocar para sua equipe técnicos competentes, mesmo que ligados historicamente a governos tucanos.

No governo Dilma, o fato de ele estar no comando da chefia do Gabinete Civil nunca o impediu de dar sugestões na área econômica, e seria risível afirmar que o governo abriria mão de sua “consultoria” na área econômica, tão valorizada pelo setor privado.

O (ainda) ministro Palocci revelou, desta vez à Folha de S. Paulo, que não entrou em detalhes com a presidente Dilma sobre sua empresa de “consultoria”, e portanto não revelou a ela quais seus clientes e que tipo de “consultas” produziram tanto dinheiro.

Fica a sensação de que ele não teve a exata noção do risco político que sua atividade privada poderia produzir, ou não quis entrar em detalhes justamente por que sabia o grau de periculosidade política.

Dizer, como cansou de repetir, que a ética é regulada por decisões burocráticas que ele seguiu à risca chega a parecer um deboche.

Não há alguém que pense que um político experiente como Antonio Palocci atuasse no ramo de “consultoria” à margem da lei explicitamente.

O que está em discussão é obrigação de um político, especialmente poderoso como Palocci, de exibir comportamento idôneo e evitar conflitos de interesse mesmo que eles não sejam previstos pela legislação.

É o caso, por exemplo, do período em que ficou trabalhando como “consultor” e ao mesmo tempo coordenador da campanha da candidata oficial.

De quantas reuniões de trabalho Palocci não terá participado onde se discutiram medidas econômicas futuras que poderiam ter impacto nas empresas que o contrataram?

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Opinião

Um plano improvisado

O Estado de São Paulo - Editorial
A presidente Dilma Rousseff é uma pessoa séria, assim como são sérios os seus compromissos com a mudança do sombrio panorama social brasileiro. O País se orgulha de ser uma das 10 maiores economias do mundo e, ao mesmo tempo, tolera a perpetuação da extrema pobreza em escala incompatível com o seu grau de desenvolvimento. Era, portanto, para também serem levadas a sério as informações de que, cumprindo o que a então candidata prometera na campanha eleitoral, o novo governo preparava, em regime de prioridade, um programa articulado de resgate, em 4 anos, dos 16,2 milhões de pessoas cuja renda familiar per capita não ultrapassa R$ 70, conforme a "nota de corte" estabelecida com base nos dados do último Censo do IBGE.

Mas não pode ser considerado sério, nos termos em que foi apresentado, o programa Brasil Sem Miséria. Ficou claro que o seu lançamento, quinta-feira - numa solenidade em que a presidente se viu obrigada a proclamar que não é "refém do medo", ao lado de um desenxabido ministro Antonio Palocci, responsável pela crise que assusta o Planalto -, foi uma precipitação. No esforço por mostrar que o governo governa e que a presidente preside, não se deixando travar pelo escândalo que expôs a fortuna do seu braço direito, o titular da sua Casa Civil, incluiu-se a apresentação do plano de combate à miséria entre as aparições públicas de Dilma, destinadas a exibir, ao longo da semana, um quadro de normalidade política e eficiência administrativa no Executivo.

O que se viu, porém, foi uma simples colagem, ao que tudo indica improvisada, de projetos que parecem ser um mix das iniciativas do governo Lula no campo social, lembrando o ajuntamento de projetos a que ele deu o pomposo nome de Programa de Aceleração do Crescimento. E essa é ainda uma hipótese benigna. Pior será se se vier a saber que a crise não forçou o lançamento do Sem Miséria antes da hora, no estado em que estivesse, mas que ele é isso mesmo, ou seja, o produto de um trabalho que chegou, sim, ao seu término e espelha o que a equipe da presidente tem a oferecer na matéria. Porque, se este for o caso, o resultado será uma oportunidade perdida de obter o apoio da sociedade a uma causa que deve prevalecer sobre antagonismos políticos.

O governo anunciou que investirá no programa R$ 20 bilhões por ano, mas não alardeou, evidentemente, que desse total R$ 16 bilhões já são gastos com o Bolsa-Família. Completando o vexame, não definiu de onde sairão os R$ 4 bilhões restantes. Só isso mais do que basta para se considerar o plano um mero factoide, uma descosturada carregação para ajudar a presidente a desfilar boa aparência política. Nada contra, em princípio, à ideia de agregar 800 mil famílias aos 12,9 milhões que formam atualmente a clientela desse programa de transferência de renda. Mas a distância entre a intenção e os meios faz duvidar da viabilidade da meta - que está longe, aliás, da eliminação da miséria.

O ceticismo se justifica ainda mais em relação ao desejo do governo de instalar cursos de qualificação profissional, em parceria com Estados e municípios, destinados a abrir portas de saída a membros da clientela do Bolsa-Família. Essas parcerias só funcionam, quando funcionam, se o Tesouro arca com a fatura - e isso, como se sabe, são sempre outros 500. Da lista de intenções do Planalto faz parte ainda a criação de uma Bolsa Verde de R$ 300 por trimestre para cerca de 70 mil famílias que vivem em áreas de floresta. Trata-se de um programa de preservação ambiental anunciado por Lula em 2009. Há, ainda, uma ajuda de R$ 2.400, a ser paga em 4 parcelas ao longo de 2 anos a até 100 mil famílias de lavradores.

No evento de quinta-feira, a presidente afirmou: "Não vamos mais esperar que os pobres corram atrás do Estado brasileiro. O Estado brasileiro deve correr atrás da miséria e dos pobres deste país". Ou seja, o programa terá de localizar os 16,2 milhões de brasileiros visados. Por sua própria condição socioeconômica, vivem à margem ou, quando muito, na periferia das instituições que canalizam as políticas públicas na frente social. Resta saber se o governo tem preparo para completar essa corrida a tempo.

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Manchetes do dia

sábado, 04 / 06 / 2011

Folha de São Paulo
"Dilma não sabe quem foram os meus clientes, diz Palocci"

Não cometi irregularidades ou desvios, afirma ministro à Folha, na 1ª entrevista após início da crise

Na primeira entrevista desde que a Folha revelou seu enriquecimento, o ministro Antonio Palocci (Casa Civil) disse que não contou à presidente Dilma Rousseff os nomes dos clientes de sua consultoria nem a natureza dos serviços prestados. Segundo ele, o tema não foi discutido nem antes da posse nem nos últimos dias. O ministro declarou que não divulgou a lista de seus clientes por respeito à confidencialidade. E disse ainda que “até agora” ninguém mostrou fatos que possam sugerir “desvio de conduta” ou “irregularidades nas atividades da empresa”. A Projeto consultoria de Palocci, faturou R$ 20 milhões em 2010, período em que ele chefiou a campanha de Dilma à Presidência e exerceu o mandato de deputado federal.

O Estado de São Paulo
"Consultoria ‘não atuou junto a órgãos públicos’, diz Palocci"

Em entrevista à TV Globo, ministro nega irregularidades, mas diz que dados sobre clientes são sigilosos

O ministro Antonio Palocci (Casa Civil) defendeu-se ontem das suspeitas sobre a grande evolução de seu patrimônio por conta das atividades de sua consultoria. “Tudo está registrado”, disse Palocci em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, negando qualquer irregularidade. O ministro disse preferir manter os dados sobre o faturamento em sigilo porque “os números da empresa não dizem respeito ao interesse público”, mas afirmou que os órgãos de controle público receberam todas as informações solicitadas. Palocci reconheceu que o fato de ter sido ministro ajudou sua consultoria, mas disse que sua empresa “jamais faturou junto a órgãos públicos”. Ele disse que atuou nos setores da indústria, dos bancos e de “serviços em geral”.

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sexta-feira, junho 03, 2011

Claudius

Original aqui

Sobre educação

O estoque de utopias

Blog do Alon
...Por falar em utopias, agora que a presidente resolveu colocar uma delas para rodar talvez seja hora de olhar com carinho para outra. De buscar acabar com a vergonhosa má qualidade no ensino público oferecido aos filhos dos pobres, na comparação com o particular proporcionado aos dos ricos e da classe média.
Para isso, a presidente precisaria enfrentar as corporações autocentradas que monopolizam a agenda educacional e jogam para as calendas o dever de ensinar bem aos meninos e às meninas. Seria uma batalha e tanto.

Atingiria bem mais gente do que o público-alvo do Brasil sem Miséria, e certamente faria emergir resistências bem mais ferozes, da turma que está na zona de conforto com o status quo.

Não traria só aplausos. Ao atacar nossa próspera indústria de mediocridade educacional, precisaria confrontar os beneficiários.

Será que o estoque de utopias de Dilma e do governo dela chega a tanto?


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Brasil, eternamente em berço esplêndido...

Coluna do Celsinho

Mais com menos

Celso de Almeida Jr.
A serra, desci de ônibus.
Saída às 20h, de Taubaté.
Uma breve parada em São Luiz do Paraitinga.
Eu, sonolento.
De repente...
De um prédio próximo ao ponto, rompe um som fantástico.
Instrumentos de sopro e percussão.
Vários, provavelmente.
Alguma banda da cidade, ensaiando.
Trompetes, trombones, tubas, caixas, pratos, ecoaram afinados.
Não pude ver os músicos.
Encantei-me com a música.
Fiquei imaginando as idades.
Certamente jovens, concentrados, dedicados, unidos na fria noite da quinta-feira.
Belo exemplo da extraordinária vocação musical da região.
Ofereça maestros, instrumentos, espaços, colaboradores.
Estimule persistência e dedicação.
Confira os resultados.
Seguiu o ônibus...
Nos últimos quilômetros, bares movimentados entretendo a juventude.
Angustiante diferença.

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Opinião

Mordaça aprovada na CCJ

O Estado de São Paulo - Editorial
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados decidiu na última terça-feira que é crime divulgar na imprensa informações sobre investigações sigilosas. E o jornalista responsável estará sujeito à pena de dois a quatro anos de prisão. O projeto aprovado pela Comissão, de autoria do deputado Sandro Mabel, vai agora à votação em plenário. E então se saberá até que ponto os nobres deputados foram realmente contaminados pelos efeitos de oito anos de pregação lulopetista contra a liberdade de imprensa, expressa sempre sob a cínica alegação da necessidade de se estabelecer o "controle social" da mídia.

O projeto sancionado pela CCJ é flagrantemente inconstitucional, pois atropela as garantias dadas pela Carta à liberdade de expressão. Além disso, a ideia de tornar o jornalista que divulgue informação protegida em corréu no crime de quebra de sigilo contraria o mais elementar bom senso. Ignora que o jornalista não é responsável pelo sigilo de coisa alguma, a não ser aquele necessário à preservação de suas fontes. O responsável pela divulgação de uma informação sigilosa é o agente público que a libera. Se a publicação dessa informação eventualmente prejudica alguém ou se constitui em calúnia ou difamação, é outra questão, prevista pela legislação civil e penal. O jornalista, afinal, está sempre sujeito a uma ação judicial por parte de quem quer que se considere prejudicado por notícia publicada.

A decisão dos deputados, portanto, não pode ter sido tomada por razões de ordem constitucional ou de justiça, mas sim pelo espírito revanchista de quem considera a imprensa um estorvo. O autor do projeto é um deputado que já se viu envolvido em escândalos denunciados pela imprensa, quando foi acusado pelas CPIs dos Correios e do Mensalão de ter tentado subornar uma colega para que mudasse de partido. Foi absolvido pelo Conselho de Ética da Câmara, mas isso, pelo visto, não lhe basta.

O relator do projeto na CCJ, deputado Maurício Quintella Lessa (PR-AL), em seu parecer denunciou genericamente uma "perigosa relação" entre as autoridades que investigam e os veículos de comunicação de massa e fez considerações óbvias sobre a necessidade do sigilo investigatório: "O sigilo legal tem sua razão de ser pela própria natureza das investigações, no sentido de dar eficácia às ações investigativas até que se forme o convencimento da autoridade". Concluiu lamentando que informações protegidas sejam divulgadas com o intuito de "macular a imagem do investigado". Na justificativa da propositura, o deputado Mabel já havia desenvolvido essa linha de argumentação: "Pouco adianta para a vida dessas pessoas injustamente condenadas à execração pública que seja possível depois receber indenização pelo dano moral ou à imagem. É preciso impedir o dano injusto antes que ele aconteça e a pessoa inocente tenha sua vida irremediavelmente prejudicada". Um raciocínio que, levado às últimas consequências, resultaria na proibição absoluta de qualquer notícia sobre investigações ou julgamentos criminais até que uma decisão de última instância transitasse em julgado. Pura demagogia, portanto.

A reação foi imediata, nos meios jurídicos e da mídia. Fazendo eco aos protestos, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) foi categórico: "O texto é flagrantemente inconstitucional". E explicou que o Supremo Tribunal Federal já deixou claro que o direito à informação, à expressão e ao pensamento se sobrepõe aos direitos à intimidade, à vida privada e à honra, de acordo com os princípios constitucionais. Além disso, "já existe penalização àqueles que divulgarem algo que atinja a honra e a intimidade das outras pessoas". Para o diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, o sigilo de Justiça deve valer apenas para agentes do Estado: "Se a informação chegou ao jornalista, ele não pode ser penalizado por divulgá-la".

Está aberto, como se vê, mais um episódio da campanha de intimidação da imprensa que pode se apresentar sob vários pretextos e títulos, mas só tem um objetivo e um nome: mordaça.

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Manchetes do dia

sexta-feira, 03 / 06 / 2011

Folha de São Paulo
"Acuado na Câmara, Palocci é cobrado por Dilma e Lula" 

Comissão convoca ministro para explicar patrimônio; líderes do PT dizem que defesa agora só cabe a ele

A oposição aprovou, na Comissão de Agricultura da Câmara, a convocação do ministro Antonio Palocci para que ele explique o aumento de seu patrimônio. A medida passou sem que os governistas se mobilizassem em defesa de Palocci. Apenas houve reação quando o presidente da Câmara, Maço Maia (PT-RS), suspendeu a convocação até terça-feira. Maia afirmou, porém, que o chefe da Casa Civil “tem que se explicar”. A presidente Dilma Rousseff e seu antecessor, Lula, disseram a Palocci que cabe a ele se defender o mais rapidamente possível para encerrar a crise, informam Valdo Cruz e Natuza Nery. Até então presente às principais reuniões políticas do governo, o ministro da Casa Civil não foi ao encontro de Dilma com senadores do PMDB.

O Estado de São Paulo
"PT contraria Lula e começa a brigar pela vaga de Palocci"

Na Câmara, a oposição aprovou a convocação do ministro para depor sobre sua evolução patrimonial

Na contramão da estratégia do ex-presidente Lula, o PT não só quer a saída do ministro Antonio Palocci (Casa Civil) como também já discute sua sucessão. O argumento é o de que a manutenção de Palocci, que enfrenta suspeitas sobre seu enriquecimento desgasta o governo de Dilma Rousseff, e o custo de sua preservação aumentará a crise política. A fragilidade do ministro alimenta disputa do PT pela Casa Civil, ignorando apelos de Lula para que preservassem Palocci. Dois ministros são citados para o posto: Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) e Paulo Bernardo (Comunicações). A oposição conseguiu aprovar a convocação de Palocci para dar explicações na Câmara, mas o presidente da Casa, Marco Maia (PT), suspendeu a decisão e só dará a palavra final na próxima terça-feira.

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quinta-feira, junho 02, 2011

Flor de Lótus

Brasil

Cadáver político insepulto

Sidney Borges
Neste instante penso no Palocci e no patrimonialismo que permeia a alma do brasileiro, qualquer que seja a matiz política do dito cujo.

É preciso ter propriedade a todo custo, desde Cabral é assim. Palocci é hoje um cadáver que espalha miasma fétido sobre o governo Dilma.

O controverso ministro poderia ter alugado o apartamento que comprou com bufunfa de origem duvidosa. Tivesse feito isso desfrutaria do conforto burguês sem levantar suspeitas.

Palocci era um nome cotado para a presidência da República. Vai para o ostracismo.

Vai rico, mas como dizia "Toninho Malvadeza", dinheiro é importante, mas não é nada se comparado ao "puder".

O que diria Gramsci disso?

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Opinião

Sarney reescreve a História

O Estado de São Paulo - Editorial
Monumento vivo ao mandonismo, ao fisiologismo, ao compadrio, ao nepotismo, ao tráfico de influência - a tudo, enfim, o que de pior existe na política brasileira -, o presidente do Senado, José Sarney, resolveu reescrever a História do Brasil, menosprezando a opinião pública e depreciando um dos mais edificantes momentos de mobilização cívica que a Nação viveu nos últimos tempos. Para Sarney, o afastamento de Fernando Collor da Presidência da República, em 1992, "não é marcante", pois se trata de "apenas um acidente que não devia ter acontecido na História do Brasil". O impeachment do "caçador de marajás" na verdade não chegou a acontecer como decisão do Congresso. Formalmente, Collor renunciou à Presidência. Mas só o fez porque a cassação de seu mandato se tornara inevitável como resultado do processo de impeachment provocado pelas denúncias de corrupção em seu governo. O Parlamento teve, portanto, papel decisivo na renúncia.

Mesmo assim, esse episódio foi banido da galeria de eventos históricos do Congresso, reinaugurada na terça-feira por Sarney no "túnel do tempo", o amplo corredor que liga os gabinetes dos senadores ao plenário da Câmara Alta. No dia seguinte Sarney recuou, determinando a reinclusão do episódio na galeria. Mas nada apaga o despautério da véspera.

Diante da perplexidade geral causada pela omissão, Sarney ordenara à Secretaria de Comunicação Social do Senado, em nota oficial, botar a culpa nos historiadores: "A partir da Constituição de 1988, a opção dos historiadores foi destacar os fatos marcantes da atividade legislativa. O foco da exposição é mostrar a produção legislativa do Congresso Nacional. A discussão e aprovação das leis é a essência do que faz o Parlamento como poder republicano". Sarney reinterpretava a seu modo a Constituição, que atribui ao Poder Legislativo também a responsabilidade pela fiscalização dos atos do Executivo. Para ele, essa responsabilidade é secundária. Caso contrário não teria acatado - para depois voltar atrás - o critério dos "historiadores". Que foram generosos na valorização do papel do próprio Sarney em episódios como o da aprovação do projeto que assegura tratamento gratuito aos portadores de aids.

Certamente no afã de fazer sua parte no conchavo que tornou o agora senador Fernando Collor um de seus fiéis aliados, o experiente José Sarney, um dos principais fiadores políticos do governo do PT, pisou em falso - como ele próprio parece ter percebido - ao depreciar publicamente o papel dos "caras-pintadas" de 1992, os jovens que empolgaram a Nação com sua indignação contra os desmandos de um governo corrupto e acabaram provocando a renúncia do primeiro presidente eleito pelo povo na "Nova República". Vai ser difícil para os jovens de 1992 ou para qualquer brasileiro imbuído de sentimento cívico e, por isso mesmo, orgulhoso da mobilização que levou à queda de Collor engolir a desfeita de Sarney. Não foi à toa que o presidente do Senado se apressou a dar o dito por não dito. Falseando a História para bajular Collor, Sarney correu o risco de acender o estopim de uma onda nacional de indignação - o que é tudo de que o Palácio do Planalto não precisa, estando em curso o escândalo Palocci.

Sempre restará ao presidente do Senado protestar inocência, atribuindo a falsificação da História a uma conspiração de seus adversários para "fragilizar as instituições". Durante os últimos anos, sob a presidência do senador e de seu irmão de fé Renan Calheiros, a administração da Câmara Alta protagonizou escândalos capazes de fazer corar um monge de pedra.

Mas Sarney tem a consciência tranquila, como revelou dias atrás, ao discursar na comemoração dos 185 anos do Senado: "Identifico muito essa campanha contra o Senado ao fato de ele ser uma casa forte, a quem o Brasil deve muito com relação a sua construção. Em um momento em que se procura fragilizar instituições no Brasil, ataca-se muito o Senado, porque aqui continuamos a ser uma fonte permanente de ajuda ao Brasil". De autoajuda, melhor diria.

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Manchetes do dia

quinta-feira, 02 / 06 / 2011

Folha de São Paulo
"Acuado na Câmara, Palocci é cobrado por Dilma e Lula" 

Comissão convoca ministro para explicar patrimônio; líderes do PT dizem que defesa agora só cabe a ele

A oposição aprovou, na Comissão de Agricultura da Câmara, a convocação do ministro Antonio Palocci para que ele explique o aumento de seu patrimônio. A medida passou sem que os governistas se mobilizassem em defesa de Palocci. Apenas houve reação quando o presidente da Câmara, Maço Maia (PT-RS), suspendeu a convocação até terça-feira. Maia afirmou, porém, que o chefe da Casa Civil “tem que se explicar”. A presidente Dilma Rousseff e seu antecessor, Lula, disseram a Palocci que cabe a ele se defender o mais rapidamente possível para encerrar a crise, informam Valdo Cruz e Natuza Nery. Até então presente às principais reuniões políticas do governo, o ministro da Casa Civil não foi ao encontro de Dilma com senadores do PMDB.

O Estado de São Paulo
"PT contraria Lula e começa a brigar pela vaga de Palocci"

Na Câmara, a oposição aprovou a convocação do ministro para depor sobre sua evolução patrimonial

Na contramão da estratégia do ex-presidente Lula, o PT não só quer a saída do ministro Antonio Palocci (Casa Civil) como também já discute sua sucessão. O argumento é o de que a manutenção de Palocci, que enfrenta suspeitas sobre seu enriquecimento desgasta o governo de Dilma Rousseff, e o custo de sua preservação aumentará a crise política. A fragilidade do ministro alimenta disputa do PT pela Casa Civil, ignorando apelos de Lula para que preservassem Palocci. Dois ministros são citados para o posto: Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) e Paulo Bernardo (Comunicações). A oposição conseguiu aprovar a convocação de Palocci para dar explicações na Câmara, mas o presidente da Casa, Marco Maia (PT), suspendeu a decisão e só dará a palavra final na próxima terça-feira.

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quarta-feira, junho 01, 2011

Chico Caruso

Original aqui

Coluna Luiza Eluf

Justiça tardia

Luiza Nagib Eluf
No dia 20 de agosto de 2000, no Haras Setti, localizado no município de Ibiúna, estado de São Paulo, por volta das 14h, o jornalista Antonio Marcos Pimenta Neves, então com 63 anos, tomado de ciúme e rancor pela ex-namorada e colega de profissão Sandra Gomide, de 32 anos, matou-a com dois tiros. O primeiro, dado pelas costas, derrubou-a ao solo; o segundo, na cabeça, foi dado à queima roupa. Era um domingo de sol e Sandra tinha paixão por cavalos. Ela pensava em relaxar das tensões provocadas por Pimenta. A moça queria o fim definitivo do namoro, mas ele não se conformava.

Onze anos depois dos fatos, Pimenta Neves acaba de ser preso. Ele foi julgado pelo Tribunal do Júri em 3 de maio de 2006, depois de trocar várias vezes de advogado. Sua defesa fez o possível para adiar ao máximo o julgamento e conseguiu, mas isso de nada adiantou. Pimenta foi condenado a 19 anos, 2 meses e 12 dias de reclusão, por homicídio duplamente qualificado. Ao término do julgamento pelo Júri, o Ministério Público pediu imediata prisão do réu, mas o juiz negou-a, sob o fundamento de que seria preciso aguardar o trânsito em julgado da sentença condenatória. Na época, tal decisão frustrou profundamente a população, que tinha esperança na Justiça. A defesa da Pimenta Neves recorreu ao tribunal de Justiça de São Paulo, que manteve a condenação e determinou a expedição de mandado de prisão. Mais que depressa, os defensores do réu entraram com habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça, que foi concedido. O STJ ainda diminuiu a pena para 15 anos de reclusão e determinou que se esperasse o fim do processo, ou seja, o julgamento do último recurso, para que o acusado fosse preso. Os advogados de Pimenta entraram com cerca de 25 recursos e adiaram a decisão final por onze anos. Há poucos dias, o Supremo Tribunal Federal (STF) finalmente julgou o último recurso e determinou que Pimenta se recolhesse ao cárcere.

As delongas judiciais são intoleráveis. É um absurdo que qualquer pessoa, depois de condenada por crime hediondo, consiga ficar tanto tempo em liberdade usando de artimanhas jurídicas protelatórias. Por sua vez, é inacreditável que a própria Justiça se preste a esse papel. Os acusados que não dispõem de recursos financeiros suficientes para sustentar as incontáveis medidas recursais que nossa lei prevê são recolhidos ao cárcere assim que o Júri profere sua decisão condenatória soberana. Pimenta foi uma exceção, beneficiado por sua classe social. Além disso, ele cometera um crime passional e a cultura machista tende a ser mais tolerante quando o homem mata a mulher porque ela o rejeitou ou o trocou por outro. Um absurdo inexplicável diante da Constituição Federal que estabelece igualdade absoluta entre homens e mulheres no Brasil. A decisão do Ministro Celso de Melo, e respectiva turma julgadora, ao decidir definitivamente sobre o processo e expedir o mandado de prisão contra Pimenta Neves, veio, finalmente, trazer o alento que a população do país e a família da vítima aguardavam, torturados pela impunidade. No entanto, o fato deve levar a reflexões sobre nossa Justiça e nossos padrões de comportamento. Ou seja, mulheres não são obrigadas a gostar de quem não gostam, mulheres têm direitos sexuais iguais aos dos homens, mulheres podem romper suas relações amorosas ou trocar seus namorados por outros sem acabar assassinadas. Com relação à legislação, já não é mais possível conviver com o enorme número de recursos que fazem dos processos uma agonia sem fim. Mesmo que Pimenta tenha declarado aos meios de comunicação que preferiria ter acabado com o processo mais cedo, é evidente que foi sua defesa e a morosidade da Justiça as responsáveis pelo prolongamento excessivo.

O Ministro Cezar Peluzo, presidente do STF, propõe importante reforma legal para que se possa executar a sentença judicial a partir do momento em que se profere uma decisão de segunda instância. Dessa forma, mesmo havendo novos recursos para os Tribunais Superiores, o réu condenado deve iniciar o cumprimento da pena. Se essa alteração legal prosperar, a Justiça se tornará bem mais rápida.

Por fim, é preciso que a população perceba o absurdo do crime passional. Essa aberração só existe porque os homens ainda não perceberam a necessidade de respeitar as escolhas das mulheres. A paixão tem prazo de validade. Como pondera Gilberto Gil em uma de suas canções, o fim do amor – alguma dor, talvez sim, que a luz nasce da escuridão.

Luiza Nagib Eluf é Procuradora de Justiça do Ministério Público de SPaulo. Foi Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça no governo FHC; foi Subprefeita da Lapa na gestão Serra-Kassab; tem vários livros publicados, dentre os quais “A paixão no banco dos réus”, sobre crimes passionais, e “Matar ou morrer – o caso Euclides da Cunha”.

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Opinião

O jogo do PMDB

Com o enfraquecimento do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, em consequência da revelação de que, no ofício de consultor, depois que deixou a Fazenda e assumiu o mandato de deputado federal, ele multiplicou exponencialmente o seu patrimônio em apenas 4 anos, o PMDB está se articulando para rever com o governo do qual é o principal aliado a coordenação política com a sua base parlamentar, para preservar a administração Dilma Rousseff do contágio da crise instaurada.

É nisso que a caciquia peemedebista quer que a opinião pública acredite. Trata-se de um engodo. A origem das tensões entre o Planalto e a legenda do vice-presidente Michel Temer não está no enfraquecimento de Palocci. O enfraquecimento do ministro-chefe da Casa Civil é apenas uma oportunidade com a qual os seus maiorais não contavam para transformar frustrações acumuladas nestes cinco meses de novo governo em pontiagudos instrumentos de pressão sobre a presidente. Simples assim.

O partido e o governo até que se esforçaram para jogar areia nos olhos do público. Foi um fiasco. Desde logo, a ideia já ofendia a inteligência alheia. Consistia em fazer de uma trivialidade na rotina oficial um espetáculo de congraçamento. Na Base Aérea de Brasília, antes de embarcar para um bate e volta a Montevidéu, na manhã de segunda-feira, Dilma Rousseff posaria para uma photo op - como dizem os americanos para designar a encenação conveniente aos fotografados - com o vice que assumiria a interinidade por poucas horas. Faltou combinar com o temperamento da dupla.

Em lugar do registro de um caloroso abraço, que é o que aconteceria fossem os atores, digamos, o exuberante ex-presidente Lula e o afável senador Aécio Neves, o que o aparato de comunicação do Palácio acabou oferecendo foi a imagem patética de duas figuras constrangidas que mal se tocavam, sem um vestígio de sorriso, numa expressão corporal perfeitamente adequada, afinal, à verdade que desejavam escamotear. Nesse embate ninguém decerto é inocente.

Mas é fato que motivo para amargura quem tem é o PMDB, tratado a pão, água e desdém pelo governo do qual o partido se considera condômino e não visitante eventual. Começou com a montagem da equipe. Dilma subtraiu da sigla pastas importantes, como a da Saúde, dando-lhe de troco a raquítica Secretaria de Assuntos Estratégicos. Seguiu-se a gafe inaugural da exclusão de Temer da primeira reunião do conselho político do governo com a presidente. Ele teve de passar pelo constrangimento de fazer chegar ao Planalto o seu amuo.

A louvável decisão de Dilma de segurar verbas e cargos ficou azedada pela miopia política que a impedia de enxergar a obrigação de dialogar com o PMDB, por ter o partido uma bancada na Câmara incomumente coesa, como se veria na votação do salário mínimo, quando fechou com o governo, e na do Código Florestal, quando fechou contra.

E neste segundo episódio, combinando impertinência com incompetência, Dilma mandou, e Palocci topou, ameaçar o vice, pelo telefone, com a demissão dos 5 ministros da legenda. Justo pelo telefone, que o ministro se recusava a atender quando do outro lado da linha estavam políticos da base.

Ainda assim, os líderes peemedebistas no Congresso, que bloquearam as tentativas da oposição de convocá-lo a se explicar, prometem continuar a poupá-lo, pelo menos enquanto esperam o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, se manifestar sobre as explicações do ministro a respeito de sua rendosa incursão pela esfera privada. O PMDB, por saber que ele não é uma unanimidade no PT, ainda mais agora que pode ser criticado como um grão-burguês, não quer lançá-lo aos lobos. Mas quer que ajoelhe no milho, para aprender bons modos.

Com Palocci - ou, principalmente, sem, na hipótese de sobrevir o pior -, Dilma terá, por sua vez, de trocar sua louvável ojeriza pelos picaretas da política pelo abominável cinismo com que seu criador, Lula da Silva, se cercou deles para garantir-se no poder.

Sob pena de ter de institucionalizar a tutela do ex-presidente.

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Manchetes do dia

quarta-feira, 01 / 06 / 2011

Folha de São Paulo
"Dilma privatiza Cumbica e mais dois aeroportos"

Decisão inclui Viracopos e Brasília; Infraero terá participação de no máximo 49%

Em reunião sobre a copa-14, a presidente Dilma disse que até dezembro sairá o edital de licitação que entregará à iniciativa privada a administração dos aeroportos de Cumbica (SP), Viracopos (SP) e Brasília (DF). A participação da Infraero será limitada a 49% nessas unidades, consideradas estratégicas. Com o modelo que definiu, Dilma afirmou que a estatal vai se tornar mais “atrativa” para uma futura abertura de capital. Segundo o ministro Orlando Silva (Esporte), será permitido eu empresas aéreas nacionais e estrangeiras participem da licitação. O setor privado será responsável pela gestão e por obras de ampliação das unidades. A grande dúvida dos representantes das empresas é saber o papel da Infraero nos aeroportos concedidos à iniciativa privada. O sindicato as companhias aéreas disse não ter sido consultado sobre a decisão.


O Estado de São Paulo
"Dilma privatizará aeroportos e quer abrir capital da Infraero"

Guarulhos, Viracopos e Brasília terão edital publicado até dezembro; Galeão e Confins serão os próximos

O governo vai privatizar a administração e operação dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos (Campinas) e Brasília. Empresas estrangeiras poderão participar dos leilões, em parceria com a Infraero – o processo é uma espécie de ensaio para abertura de capital da estatal. A decisão foi divulgada após reunião no Planalto sobre a copa de 2014. A previsão é que as regras do negócio sejam anunciadas em dezembro. Galeão e Confins (MG) são os próximos. Ainda no encontro, a presidente Dilma Rousseff pediu a governadores e prefeitos que acelerem as obras dos estádios para a Copa e se comprometeu a apressar a votação do regime diferenciado de licitações. A Frente Nacional dos Prefeitos advertiu que as desapropriações estão empacadas, o que atrasa o cronograma.

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terça-feira, maio 31, 2011

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Opinião

Acesso difícil aos aeroportos
 
Mesmo com as facilidades do check-in online, passageiros de avião têm sido obrigados a sair de casa ou do trabalho rumo aos Aeroportos de Congonhas ou Cumbica com antecedência de duas a três horas, se quiserem vencer o trânsito caótico e superar o obstáculo da falta de vagas de estacionamento nos dois aeroportos, que às vezes exige deles longa espera. Diariamente, Congonhas recebe 42 mil passageiros e seu estacionamento tem apenas 2.970 vagas. Considerando que cerca de 10% delas são reservadas para funcionários, mensalistas e taxistas, vê-se o quanto a oferta é menor do que a demanda. Com o dobro do movimento de pousos e decolagens, o Aeroporto Internacional de São Paulo, em Cumbica, tem o mesmo número de vagas de estacionamento de Congonhas e, consequentemente, também o dobro de problemas para os motoristas que têm à disposição restritas opções de transporte para chegar lá.

As áreas de embarque e desembarque acabam sendo utilizadas por motoristas e, por isso, cresce o número de infrações por estacionamento ou parada nesses locais. No ano passado, o total de multas registradas em Congonhas subiu 31% em relação a 2009. Sem opções nas redondezas do Aeroporto de Cumbica, motoristas à espera de passageiros estacionam seus carros no acostamento da Rodovia Hélio Smidt e, por celular, monitoram a hora em que a pessoa chega à área de desembarque, onde podem então parar para pegá-la. Nos primeiros cinco meses do ano, 1.728 motoristas foram multados por causa dessa prática.

Grandes capitais do mundo interligam seus aeroportos e pontos de grande movimento no perímetro urbano por meio de eficientes redes de metrô e serviços especiais de ônibus e vans. Mas, em São Paulo, o governo estadual desistiu de construir o ramal de 3,7 quilômetros de extensão previsto para ligar o Aeroporto de Congonhas à rede do metrô, na Estação São Judas, deixando apenas o trecho de 7 quilômetros que fará a interligação com o Terminal Jabaquara. A decisão foi vista como um retrocesso por especialistas em mobilidade urbana. Quem quiser ir para a Avenida Paulista ou para o centro da cidade terá de se deslocar até uma das extremidades da Linha 1-Azul e enfrentar a lotação da estação mais movimentada da rede, com 90 mil passageiros por dia, antes de chegar ao destino. Certamente, a opção será descartada pela maioria dos passageiros que, assim, continuará preferindo os automóveis particulares e táxis, mantendo superlotados os estacionamentos e congestionadas as vias do entorno dos aeroportos.

Congonhas está a 9,5 quilômetros da região central, a 7,5 quilômetros da Avenida Paulista e a 4,5 quilômetros das Avenidas Luís Carlos Berrini e Brigadeiro Faria Lima, corredores onde se concentra parcela significativa de seus usuários.

Conforme a Companhia do Metropolitano, a decisão de excluir o ramal São Judas dos planos de expansão da rede do metrô decorre do fato de o aeroporto estar em processo de tombamento pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo. Isto impede que o aeroporto seja descaracterizado, o que, segundo a companhia, tornou o projeto extremamente complexo. A ligação do aeroporto com o metrô integra a Linha 17-Ouro, que ligará os bairros de Jabaquara e Morumbi, com conexões futuras com as Linhas 4-Amarela e 5-Lilás.

As respostas do setor de transporte público e de infraestrutura às necessidades da cidade sempre deixam a desejar. Um exemplo disso é o edifício garagem de Congonhas, inaugurado há cinco anos. O investimento de R$ 50 milhões aliviou por pouco tempo o trânsito do entorno do aeroporto. Em Cumbica, R$ 200 milhões são previstos para um projeto - parado por disputas no processo de concorrência - para aumentar a capacidade do estacionamento para 9,7 mil vagas.

A verdadeira solução para esses problemas só virá quando as autoridades, finalmente, decidirem investir para valer no transporte público de qualidade.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 31 / 05 / 2011

Folha de São Paulo
"Alemanha recua e abre mão de energia nuclear"

Acidente em Fukushima e eleições locais motivam fechamento de 17 usinas até 2022

O governo da Alemanha anunciou plano para desativar todas as 17 usinas nucleares do país até 2022. No que está sendo chamado de “virada energética”, é o primeiro país industrial a tomar essa decisão, afirmou a chanceler Ângela Merkel. A medida deve ser formalizada na próxima semana. Em torno de 22% da energia produzida no país atualmente e de origem atômica. Fontes renováveis devem passar a 35%, o dobro de hoje. O restante virá sobretudo do carvão e do gás natural. Em 2010, o governo Merkel decidira prolongar a atividade das usinas mais antigas. O acidente de Fukushima (Japão) e o receio de derrota nas eleições regionais deste ano levaram à mudança – 80% dos alemães são contra a energia atômica. Analistas apontam ser preciso um outro plano, para mais impulso à energia obtida de fontes renováveis. Há o temor de danos ambientais pelo maior uso de carvão. O governo não decidiu o que fazer com os reatores desativados.

O Estado de São Paulo
"Com Palocci fraco, PMDB quer nova articulação política" 

Após cobranças do governo, partido avalia que houve quebra de confiança com o PT e com Dilma

O PMDB quer mudanças na articulação política do Planalto e duvida da sobrevivência de Antonio Palocci na Casa civil. O diagnóstico começou a ser disseminado ontem por líderes do partido como efeito colateral do desgaste provocado pelas cobranças do governo depois da derrota na votação do Código Florestal. A cúpula peemedebista avalia que houve uma quebra de confiança na relação com o PT e a presidente Dilma Rousseff. Apesar dos esforços de reconciliação desencadeados, os peemedebistas já começam a discutir como será o reforço na interlocução política do governo. O partido entende que o rearranjo interno já está em curso e que, por isso mesmo, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, ampliou seu raio de ação e ganhou mais peso na intermediação do Planalto. Dirigentes do partido avaliam que o ministro José Eduardo Martins Cardozo (Justiça) também vai atuar, por causa de seu trânsito com o vice-presidente Michel Temer e com a base aliada do governo.

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segunda-feira, maio 30, 2011

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Opinião

A lista de Palocci

Carlos Alberto Sardenberg - O Estado de S.Paulo
Vamos falar francamente: nos meios econômicos e empresariais, o pessoal gosta muito do ministro Antonio Palocci. Entre economistas, consultores e executivos, especialmente do setor financeiro, Palocci é considerado o mentor e fiador da "racionalidade econômica" do primeiro mandato do governo Lula, que tirou o Brasil de uma crise de confiança e garantiu a continuidade da estabilidade macroeconômica.


Quando ele apareceu como "primeiro-ministro" da presidente Dilma Rousseff, esse pessoal respirou aliviado. Palocci seria a garantia contra uma guinada da política econômica na direção do que se chamaria de "desenvolvimentismo nacionalista" - categoria na qual se incluem, por exemplo, Guido Mantega (ministro da Fazenda), Fernando Pimentel (do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e, curiosamente, a economista de formação Dilma Rousseff, sempre alinhada com essa turma ao longo de sua carreira.

Aliás, Palocci, colocado ali no coração do poder, seria um sinal de que Dilma já pensa diferente, ou por convicção intelectual ou por necessidade. Não importa. O ministro da Casa Civil, informalmente anistiado ou perdoado de estripulias pessoais anteriores, aparecia de novo como inspirador da racionalidade (metas de inflação, responsabilidade nas contas públicas, câmbio flutuante e algumas privatizações) e fiador nos meios econômicos e empresariais.

Tudo isso considerado, esse pessoal acha normal que Palocci tenha ficado rico em tão pouco tempo. Como me dizia um consultor muito respeitado: "Se uma grande empresa paga R$ 40 mil para uma palestra de um Zico ou um Bernardinho, por que não pagaria, digamos, R$ 80 mil para ter Palocci conversando com seus executivos?". Que ele fizesse três consultorias dessas por mês, mais umas palestrinhas, já dava para faturar algo como R$ 3,5 milhões ao ano. Vezes quatro anos são R$ 14 milhões, menos uns 25% de impostos e custos restam R$ 10 milhões de receita acumulada. Tudo isso?

É. O ministro é médico de formação e político profissional, mas mesmo os melhores economistas se impressionaram com a experiência, o conhecimento técnico e a capacidade de gestão de política econômica adquiridos por ele. Considerando que, eleito deputado, Palocci continuava mantendo laços estreitos com o governo Lula, seu valor no mercado de palestras e consultoria certamente era bem elevado. Considerem, ainda, que esse é um mercado inteiramente livre, não tem nada tabelado nem regulamentado, vai na oferta e demanda, ou seja, o consultor cobra o que quer e a empresa contratante paga o que acha que vale.

Ou seja, estão aí definidas todas as condições para um enriquecimento legal de Palocci - quer dizer, com palestras e consultorias, sem lobbies ou, pior, tráfico de influência.

Tudo bem?

Nem tanto. Há dois problemas: primeiro, parece que há ganhos bem superiores àqueles R$ 14 milhões em quatro anos, que a nossa hipótese sugere. Segundo, ganhos tão elevados levantam a suspeita de que Palocci possa ter ido além das palestras e consultorias, caindo no pantanoso terreno de uma certa "advocacia empresarial" especializada em, digamos, quebrar galhos com o governo.

Difícil provar uma coisa e outra. Normalmente, empresas e consultores/palestrantes assinam contratos formais. No caso de palestras, é fácil comprovar: elas se realizam em dia e local certos, com público e, geralmente, com publicidade. Ou seja, há documentos e testemunhas.

No caso de consultoria é mais complicado. Pode ser, por exemplo, uma coisa bem formal - um documento escrito, contendo a análise de uma empresa, um setor, um mercado. Mas pode ser também na base da conversa. O consultor vai lá almoçar com a diretoria e submeter-se a uma saraivada de perguntas.

Aqui nascem as suspeitas. A reunião com a diretoria pode ser documentada, mas não o teor da conversa, muitas vezes sigilosa. E a pergunta ao consultor pode ser técnica - o senhor acha que a inflação vai sair de controle? - ou de negócios - como uma empreiteira como a nossa pode entrar nessa obra?

E assim caímos no terreno da credibilidade, da confiança, mas também do bom senso e do razoável. Contratante e contratado podem dizer: conversamos algumas horas sobre política econômica, conforme atas de diretoria, e o preço foi de R$ 80 mil, conforme contrato. Está caro, mas enfim...

E se aparece uma nota fiscal de R$ 2 milhões por "serviços prestados de consultoria" e nada mais?

Claro que toda a desconfiança poderia ser superada se Palocci apresentasse a lista de clientes e respectivos pagamentos. Mas, se a lista mostrasse grandes companhias nacionais e internacionais, todas com interesses diretos ou indiretos em relação ao governo, e valores de consultoria mais elevados do que o mercado conhece, então a publicidade provocaria o resultado oposto: mais suspeita.

Eis, portanto, a variável-chave para o desenrolar dessa história: a lista de clientes e preços de Palocci.

Pode ser uma resposta ou a pá de cal. Certo, de qualquer modo, é que a batalha em torno da lista será fonte duradoura de desgaste.

O governo pode até conseguir barrá-la nos órgãos oficiais. Mas sempre pode vazar alguma coisa, não é mesmo?

E se Palocci cair, muda a política econômica? Em qual direção? Eis o debate que já está por aí. Tema próximo.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 30 / 05 / 2011

Folha de São Paulo
"Brasileiros não fazem planos para se aposentar"

Apesar da falta de planejamento, só 17% acham que passarão por aperto

Os brasileiros não planejam a aposentadoria, mas são campeões de otimismo sobre a vida que levarão após deixar o trabalho. Essas são as conclusões de uma pesquisa mundial sobre aposentadoria. Quase a metade dos brasileiros diz se sentir despreparada financeiramente para deixar a vida produtiva, mas apenas 17% acham que vão passar por algum aperto financeiro nessa fase. Os brasileiros são tão otimistas quanto os chineses sobre a vida pós-trabalho, mostra o levantamento. A falta de planejamento e o otimismo não são contraditórios, de acordo com Sérgio Jurandyr Machado, professor do Insper. O otimismo com o futuro, segundo ele, decorre da conjuntura atual, mas esse contexto não mudou a incapacidade dos brasileiros de se planejar.


O Estado de São Paulo
"Fundos de FGTS da Vale e da Petrobrás encolhem R$ 1,6 bi"

Para analistas, ingerência do governo nas empresas assustou mercado e foi decisiva para queda de papéis

O patrimônio de quem destinou parte do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) a ações da Petrobrás e da Vale encolheu R$ 1,6 bilhão este ano, segundo cálculos da Associação Brasileira das entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Ambima). Para especialistas, a ingerência do governo na gestão das empresas afugentou investidores e ajudou a derrubar cotações. “Não foi a única razão, mas a interferência política é o principal fator para a queda dos papéis”, diz Pedro Galdi, analista da corretora SLW. No caso da Petrobrás, o Executivo a impediu de repassar a alta do petróleo para o mercado interno. Na Vale, o governo agiu diretamente para demitir o presidente Roger Agnelli. O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga lembra que esses movimentos ocorreram numa fase de correção de preços, quando o mercado fica mais tenso. “Os episódios da Vale e da Petrobrás não foram bons.


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Spacca

domingo, maio 29, 2011

Domingueira

Mundo, mundo, se eu me chamasse Raimundo...

Sidney Borges
O Barcelona  venceu o Manchester United por três a um. Venceu e convenceu, fez três, poderia ter feito mais, o resultado não traduziu a superioridade do time catalão. Foi um jogão de bola, como há muito eu não via. Agora vou torcer para o Santos na Libertadores. Seria interessante ver Elano, Neymar e Ganso jogando contra Messi, Xavi e Iniesta.

A partida foi vista no mundo inteiro, cada  jogador campeão recebeu 700 mil euros pelo título, ou seja, aproximadamente 1,6 milhão de reais. Remuneração digna das consultorias paloccianas. Deve ser bom ter talento, qualquer talento.

Com minhas longas pernas de jaburu eu bem que tentei, mas logo me dei conta de não ter nascído para o futebol. Pena, nem para o futebol, nem para o xadrez. Quando era preciso fazer o roque menor eu fazia o maior. Aos poucos fui entendendo que pertencia ao grupo dos sem-talento, a grande maioria da humanidade. A nós cabe aplaudir. Como joga o Messi! Como joga o Neymar!

Vou dar um pitaco sobre a polêmica em torno do livro didático, que dizem, vai ensinar Português errado. Não acredito que os autores, educadores experientes, fariam isso. Não é natural. Quem educa quer o melhor para o discípulo. Como não li o livro não vou me estender em comentários, mas sendo educador imagino que todos pensem e ajam com os mesmos propósitos. Ensinar é preciso. Há muito preconceito "nestepaiz".

Durante a semana li um texto sobre a dengue em Ubatuba que me causou estranheza. Parece que há muitos casos relatados. Já escrevi sobre a ação governamental (Prefeitura e Estado) no trabalho de prevenção. A população foi corretamente alertada para tomar providências no sentido de evitar a proliferação do mosquito.

Ubatuba é uma cidade aberta, por aqui circulam pessoas do país inteiro. Acabar com o mosquito é impossível. Por mais cuidado que se tome, sempre vai existir um criadouro. A dengue deixará de ser um flagelo quando tivermos a vacina. Para que isso aconteça é preciso dinheiro. O governo federal tem prioridades, Copa do Mundo, Olimpíadas, trem bala. Um dia, espero, acabar com a dengue estará na pauta das urgências.

João Gilberto vai fazer 80 anos. Jamais  me esquecerei da primeira vez que ouvi "Chega de saudade." Estava jogando botão na casa de um amigo. A cancha de ladrilhos hidráulicos era perfeita, meu time tinha um goleador implacável, "Canhoteiro", vidro de relógio pintado com esmalte Coty da titia. Ao lado do "estádio" a mãe do meu amigo trabalhava na máquina de costura e ouvia rádio. No auge da disputa do título entrou João Gilberto. Fiquei distraído, tão absorto pela novidade que permiti que o adversário empatasse. João Gilberto é outro exemplo de mortal ungido pelos deuses. Tem talento de sobra.

São Paulo, tudo indica, vai ficar fora da Copa do Mundo. Não sei se isso é bom ou ruim, faltam dados para um julgamento. Sei que em se tratando de Copa existem casos que merecem consideração. Manaus tem pouco apreço pelo futebol, o campeonato amazonense recebe pouco mais de mil torcedores por jogo. Manaus vai ter um estádio para 40 mil espectadores. Quando acabar a Copa vai servir para quê? Eis um caso a ser analisado com calma e isenção. Manaus tem necessidade de saneamento básico, hospitais, escolas, ruas asfaltadas...

É caro viver no Brasil. Um carro "Smart", produzido pela Mercedes, tido e visto como objeto de luxo, custa perto de 65 mil reais. Nos Estados Unidos, o mesmo carro, custa 20,3 mil reais. A diferença? Impostos.

Não procede o boato da ida de Palocci para o FMI. Apesar do mundo estar impressionado com a capacidade de multiplicar pães e peixes do ministro, ele vai continuar ajudando o Brasil na caminhada rumo à glória. Com aquela cara de santinho...

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Arte

Mark Rothko (mais aqui)

Ultima flor do Lácio

Observações de um usuário

João Ubaldo Ribeiro - O Estado de S.Paulo
A língua inglesa nunca teve academias para formular gramáticas oficiais e certamente seria afogado no Tâmisa ou no Hudson o primeiro que se atrevesse a tentar impor normas de linguagem estabelecidas pelo governo. Sua ortografia, que rejeita acentos e outros sinais diacríticos, é um caos tão medonho que Bernard Shaw deixou um legado para quem a simplificasse e lhe emprestasse alguma lógica apreensível racionalmente, legado esse que nunca foi reclamado por ninguém e certamente nunca será, apesar de algumas tentativas patéticas aqui e ali. Ingleses e americanos dispõem de excelentes manuais do uso da língua, baseados na escrita dos bons escritores e jornalistas - e, quando um americano quer esclarecer alguma dúvida gramatical ou de estilo, usa os manuais de redação de seus melhores jornais.

A segregação racial nos Estados Unidos produziu um abismo linguístico entre a língua falada pelos negros e a usada pelos brancos. Durante muito tempo, a língua dos negros foi vista como uma forma corrompida ou degenerada da norma culta do inglês americano. Mas já faz tempo que essa visão subjetiva e etnocêntrica foi substituída e o inglês falado pelos negros passou a ser visto pela ciência linguística como "black English", uma língua perfeitamente estruturada, com morfologia e sintaxes próprias, com sua gramática e sua funcionalidade autônoma, não mais como inglês de quinta categoria. E essa visão não foi acatada "de favor" ou para fazer demagogia com a coletividade negra, mas porque se tornou inescapável a existência de uma língua falada por ela, eficaz na comunicação de informação e emoção e que prescindia, sem que isso fizesse falta, de determinados recursos do inglês dominante.

Todos nós, com maior ou menor habilidade, falamos várias línguas, ou dialetos, dentro da, digamos, língua-mãe. Falamos língua de criança, língua chula, língua de solenidade. Podemos não chegar a falar todas as muitas línguas à disposição, mas geralmente as entendemos, como, por exemplo, quando ouvimos um caipira. Essas línguas, em padrões de variedade quase infinita, são todas legítimas, não são "erradas", pois, em rigor, nenhuma língua que funcione realmente como tal é "errada". E, muitas vezes, ao falarmos "certo", estamos na realidade falando inadequadamente, como um orador que, num comício no Mercado de Itaparica, se esbaldasse em proparoxítonas, polissílabos e mesóclises. Eu mesmo falo itapariquês de Mercado razoavelmente bem e alguns entre vocês, se me ouvissem lá, talvez tivessem dificuldade em entender algo que eu dissesse, por exemplo, a meu amigo Xepa.

Cientificamente, a neutralidade quanto a línguas, dialetos ou usos subsiste. Mas não socialmente, e é isso o que me parece ainda estar sendo discutido em torno da propalada aceitação, pelo MEC, de erros de português. "Erro de português" é uma expressão que desagrada ao linguista, porque ele não vê o fenômeno sob essa ótica. No entanto, é assim que o enxerga o público, mesmo o analfabeto, que aprende pelo ouvido a distinguir o certo do errado. Isto porque sempre se entendeu no Brasil que ensinar português é ensinar a norma culta, que, durante muito tempo, foi até mesmo ditada pelos usos de Portugal.

Continua

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Opinião

Vantajoso para quem?

O Estado de São Paulo - Editorial
Os bancos sempre dispuseram de um amplo conjunto de informações sobre a situação financeira de seus clientes, sabendo por isso quais são os que pagam em dia seus compromissos. Mesmo assim, como deixam claro os altos custos dos empréstimos, não ofereceram aos seus bons clientes condições mais favoráveis em suas operações de crédito. Por que haveriam de oferecer com a criação do chamado "cadastro positivo", se esse cadastro - embora tenha implicações danosas à privacidade dos indivíduos - apenas reafirma o que eles sabem? Esta é a pergunta que fazem os que contestam os argumentos do governo, dos bancos e dos parlamentares de que a criação do cadastro dos bons pagadores, ao dar mais garantias às instituições financeiras, permitirá a redução rápida e substancial dos juros.

A criação do cadastro vinha sendo defendida pelo governo e pelos bancos há alguns anos e foi há dias aprovada pelo Congresso. O texto votado pelos parlamentares é o mesmo da Medida Provisória (MP) n.º 518, assinada pelo presidente Lula no último dia de seu mandato.

A MP substituiu o projeto com a mesma finalidade aprovado no ano passado pelo Congresso, mas que foi inteiramente vetado pelo Executivo, que viu nele riscos de contestações judiciais. Embora, aparentemente, o novo texto ofereça mais garantias aos cidadãos, é muito duvidoso que o brasileiro comum seja beneficiado com esse cadastro.

Uma das aparentes garantias é a exigência de autorização prévia do potencial cadastrado para que as informações sobre sua vida financeira sejam lançadas num banco de dados. Só quem quiser terá seu nome no cadastro. Mas examine-se a situação de alguém que não autorize a abertura do cadastro com suas informações pessoais, para preservar o sigilo de seus dados financeiros.

Ao não permitir que seu nome seja incluído no cadastro de uma instituição, ele evita o risco de sua vida financeira ser devassada e repassada para outras instituições, pois o texto aprovado pelo Congresso permite o "compartilhamento de informações", em condições ainda a serem definidas na regulamentação do cadastro positivo. Mas essa pessoa terá sua pontualidade colocada sob suspeição e poderá ser vista pelas instituições financeiras e pelos estabelecimentos comerciais como alguém que não paga seus compromissos financeiros em dia e, nesse caso, será discriminada.

Recorde-se que, para reduzir os riscos de inadimplência, os bancos e o comércio em geral desenvolveram e utilizam intensamente sistemas eficazes de identificação de maus pagadores, aos quais é recusada a concessão de crédito.

Para as instituições privadas encarregadas de administrar os bancos de dados, o cadastro a ser criado oferecerá grandes vantagens. Elas poderão, com base nas informações que coletarem e armazenarem, conhecer a vida financeira de um grande número de pessoas, o que lhes dará a capacidade de delimitar diferentes perfis de mercado. O cadastro transforma-se, para seus gestores, em importante instrumento de marketing.

Há, ainda, outro aspecto salientado por instituições de defesa do consumidor que pode beneficiar os gestores dos cadastros, à custa da devassa da vida financeira dos cadastrados. O compartilhamento das informações abre espaço para o florescimento do comércio informal de listas de consumidores, pois mais pessoas podem ter acesso legal a essas informações, o que aumenta o risco de um funcionário inescrupuloso apropriar-se delas.

Resultados positivos para os consumidores no curto prazo não são esperados nem mesmo pelos que admitem a possibilidade de os bancos reduzirem a parcela de incerteza que compõe os juros, desde que disponham de informações mais seguras sobre os tomadores dos empréstimos. Será necessário mudar a mentalidade de boa parte das pessoas, estruturar os novos bancos de dados e assim por diante. Quando tudo estiver pronto, os bancos terão acesso rápido a informações mais completas e precisas sobre a clientela, mas onde estarão os juros?

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