sábado, fevereiro 05, 2011

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Opinião

Barbárie no Egito

O Estado de S.Paulo - Editorial
A célebre expressão de Nelson Rodrigues - "arrancos de cachorro atropelado" - parece perfeita para descrever a ferocidade com que as forças de repressão egípcias tentaram aplastar não apenas o clamor popular pelo fim imediato da tirania de 30 anos de Hosni Mubarak, mas também a cobertura, pela imprensa estrangeira, desse movimento sem precedentes no país e de repercussões internacionais imprevisíveis. Os espasmos de agonia da ditadura deixaram uma profusão de mortos e feridos no centro do Cairo, quando policiais travestidos de manifestantes civis favoráveis a Mubarak e hordas de delinquentes por eles recrutados investiram contra as multidões que demandavam acerbamente, mas pacificamente, o advento da democracia.

Ao mesmo tempo, a selvageria dos "torturadores agindo nas ruas", nas palavras de um horrorizado militante egípcio dos direitos humanos, abateu-se sobre os jornalistas vindos de todas as partes para acompanhar o maior sismo já experimentado pelo mundo árabe-muçulmano desde os protestos que, ao cabo de oito meses, destronaram o xá do Irã em 1979. Com a diferença de que o abalo de agora, na esteira da recente revolta que derrubou o autocrata tunisino Zine El Abidine Ben Ali, não foi insuflado por qualquer organização política ou civil nem por um líder religioso no exílio, como o carismático aiatolá xiita Ruhollah Khomeini. O desespero do sistema de poder cevado por Mubarak levou os seus gorilas a destroçar até mesmo regras elementares de convivência diplomática, como a tolerância em relação à atividade das equipes de mídia admitidas no país.

Governos alarmados com as consequências desse trabalho - a sublevação no Egito se alastrou em ampla medida graças às imagens da rede Al Jazeera, do Catar, captadas no país e reproduzidas sem cessar na internet - fazem o de costume: tiram sinais do ar, fecham sucursais de emissoras e periódicos do exterior, confiscam equipamentos e cassam credenciais. Mas não espancam, sequestram e encapuzam jornalistas antes de expulsá-los sumariamente, como no caso da dupla de enviados especiais da EBC, de Brasília. Pior foi a sina de um desaparecido repórter da televisão sueca, afinal encontrado num hospital depois de ter sido esfaqueado. "Barbárie", resumiu com franqueza incomum no seu ramo o embaixador brasileiro no Cairo, Cesário Melantonio, há 40 anos na carreira.

Como a quase totalidade dos observadores, ele acredita que o regime de Mubarak "está moribundo". Antes ainda do "Dia da Partida" - ontem, quando expiraria o prazo estabelecido pela oposição para a renúncia do tirano -, analistas familiarizados com a política egípcia, como o libanês Fawaz Gerges, professor de relações internacionais na London School of Economics, davam como certo que o poder já passou de Mubarak para o seu mais próximo colaborador, Omar Suleiman, chefe dos serviços secretos egípcios e interlocutor habitual dos Estados Unidos. Nomeado dias atrás vice-presidente, na tardia reorganização do governo, o ex-general de 72 anos, treinado na antiga União Soviética (assim como o próprio Mubarak e a maioria da velha elite militar egípcia), é o nome preferido por Washington para chefiar um governo de transição no Cairo.

O New York Times revelou que altos funcionários americanos vêm negociando com autoridades egípcias um esquema para a saída imediata de Mubarak. O governo interino - na realidade um triunvirato encabeçado por Suleiman e integrado pelo ministro da Defesa, marechal Mohamed Tantawi, e o chefe das Forças Armadas, general Sami Enan - daria início a uma reforma constitucional, que desembocaria em eleições livres marcadas para setembro. O processo se faria mediante negociações com um amplo leque de forças oposicionistas, entre elas a banida (e temida) Irmandade Muçulmana. O movimento, que diz não querer um candidato presidencial próprio, mas uma figura de consenso, prega "um Estado civil democrático, baseado em princípios islâmicos".

Falta convencer o Exército a trocar sua tutela de 60 anos sobre o Estado autoritário pela tutela sobre o processo de democratização que se seguirá à queda de Mubarak, em cumprimento da vontade popular.

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Manchetes do dia

Sábado, 05 / 02 / 2011

Folha de São Paulo
"EUA discutem a transição com o Egito, diz Obama"

Protesto reúne 100 mil, mas não houve violência; para líder supremo do Irã, país vive 'movimento de libertação islâmico'

O presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou que negocia a transição de governo no Egito. Ele não confirmou, porém, a versão da mídia americana de que os EUA trabalhem para que o atual vice egípcio, Omar Suleiman, seja o substituto do ditador Hosni Mubarak. A revolta egípcia entrou no seu 11º dia com sinais de esgotamento, relata o enviado Samy Adghirni. A convocação para o protesto de ontem reuniu aproximadamente 100 mil pessoas na praça Tahrir, numero inferior ao de manifestações anteriores no mesmo local. Não houve violência; o temido banho de sangue não ocorreu. O ministro Mohamed Hussein Tantawi (Defesa) foi à praça pedir diálogo. O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, classificou os protestos egípcios como um "movimento de libertação islâmico".

O Estado de São Paulo
"Obama diz que transição no Egito tem de começar já"

Diante da indisposição de Mubarak para dialogar, EUA negociam com Exército egípcio seu afastamento

O presidente dos EUA, Barack Obama, afirmou que já começaram "algumas discussões sobre detalhes da transição" no Egito e que o período de mudança de governo "começa agora". A declaração foi feita como resposta à disposição do ditador Hosni Mubarak de se aferrar ao poder mesmo diante da crescente pressão das ruas e da perda de apoio político. A Casa Branca já estaria negociando com o Exército do Egito uma forma de fazer Mubarak deixar o governo, levando a oposição a negociar a transição com o vice-presidente, Omar Suleiman. Yassin Tageldin Yassin, um dos líderes do partido opositor El Wafd, disse ao enviado especial Jamil Chade que, "na prática, quem controla hoje o Egito são os militares, que já começaram a tomar o poder". Mas o premiê Ahmed Shafiq insistiu que não há porque ter uma transição "imediata" e a saída de Mubarak antes das eleições de setembro. Centenas de milhares de pessoas voltaram a protestar no centro do Cairo, mesmo ante a violência patrocinada pelo governo. Obama classificou de “inaceitáveis" os ataques cometidos contra manifestantes da oposição e jornalistas estrangeiros.

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sexta-feira, fevereiro 04, 2011

Stockhausen

Vanguarda

É preciso sensibilidade para captar

Sidney Borges
Karlheinz Stockhausen (1928 -2007) é considerado um dos maiores compositores do final do século XX. As suas obras revolucionaram a percepção de ritmo, melodia e harmonia. Dentre elas destaca-se o quarteto de cordas com helicópteros (Helikopter-Streichquartett) (que é tocado com estes instrumentos mesmo: um quarteto de cordas e quatro helicópteros), parte integrante de um trabalho em desenvolvimento de mais de dez anos.

Não sei o porquê, mas quando ouvi a peça acima me veio à cabeça o jogo da última quarta-feira. Stockhausen trabalha com as notas de forma surpreendente, quando você espera uma coisa vem outra. Sem ser capaz de justificar a conexão, noto no time do Corínthians um paralelo com a obra do mestre. No jogo de quarta feira houve uma revolução em campo nos quesitos ritmo e harmonia. Genial! 

Ouçam a peça e confirmem. Tenho razão ou estou maluco?

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Comportamento

"Líderes carismáticos acabam queimando as equipes"

Carlos Alemany - El País
Alemany considera que o líder carismático em uma organização não deveria durar mais que 3 anos. "Do contrário, terminam queimando as equipes. Quando se exerce uma direção carismática, pode ser um fator que impeça a chegada de mais talento à empresa porque aqueles com projeção podem pensar que o brilho de seu chefe poderia eclipsar suas carreiras. Pensando num exemplo futebolístico, para uma crise é melhor ter um Mourinho (Real Madrid), mas uma vez conseguida a estabilidade institucional o ideal é possuir um perfil tipo Vicente del Bosque (treinador campeão em 2010)".

"O melhor líder é o que se sabe prescindível". (Do Ex-Blog do Cesar Maia)

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Cul(r)tura


Maria Schneider (1952 - 2011)

Sidney Borges
Em 1972 o Brasil vivia sob o jugo de uma ditadura, que como todas as ditaduras, era burra. Burra no pior sentido, não vamos confundir as coisas, na área econômica atuavam os tecnocratas que continuam por aí até hoje. Não é sobre economia que estou falando, nesse quesito a coisa andava. O buraco era mais profundo. A massa alienada só pensava na compra do Corcel 73, cultura não fazia parte do cardápio.

Para a parcela dos que pensavam, ou pensavam que pensavam, a revolta contra o sistema era profunda. Pensar era proibido.

Restava fazer oposição à ditadura.

Durante algum tempo os insatisfeitos formaram um bloco aparentemente sólido, na realidade uma mistura impossível como água e óleo. Havia quem quisesse ar puro e liberdade. Tinha o grupo adepto da "ditadura do proletariado", que nunca rimou com liberdade.

Esses, embora no ocaso da existência, ainda gritam palavras de ordem e enriquecem. 

Quando a ditadura burra saiu de cena cada um foi para o seu galho, macacos que somos. Em pleno 1972, ano do sesquicentenário da Independência, no clima de pra frente Brasil e ame-o ou deixe-o, os trogloditas censuraram "O último tango em Paris".

Quem era chique viajava e depois comentava em mesas de bares - intelectual não vai á praia, intelectual bebe - a cena da manteiga. Marlon Brando partiu faz tempo. Ontem foi a vez de Maria Schneider. Estão no beleléu, onde todos estaremos no devido tempo.

O filme é chatíssimo, um porre... That's life...

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Estrobogolfe

Coluna do Celsinho

Séculos e séculos

Celso de Almeida Jr.
No Itaguá, com a Patrícia, vislumbrei o mar e as montanhas.
Talvez a cerveja tenha atiçado as ideias.
Excluí do raio de visão as embarcações à frente.
Foquei a natureza.
Assim, o que vi, meu bisavô viu.
No passado centenário, índios viram também.
A imagem fixada foi a mesma para tantos.
Mudou pouco por aqui.
Bem diferente de outras cidades, com morros tomados por gente, muita gente.
Não olhei para trás.
Blindei os ouvidos do barulho dos carros.
Ingênuo fingido fiz, também, o que na lucidez tornou-se hábito generalizado: esquecer a diversidade de resíduos que, vergonhosamente, lançamos ao mar.
Poeta embriagado mirei no horizonte.
Imaginei um bisneto sentado ao meu lado, beliscando o camarão.
A mesma paisagem preservada; poluição dissipada.
Brindamos, aliviados.
Patrícia me trouxe ao planeta.
Mostrou-me o Dario se aproximando.
Puxei conversa.
Especialista em excursões, homem viajado, revelou que não conheceu nada tão belo.
Lembrou que Ubatuba inteira garante visões extraordinárias.
Somos premiados.
O patrimônio é das gerações.
Passadas e futuras.

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Opinião

A desvalorização do magistério

O Estado de S.Paulo - Editorial
Realizado anualmente, o último Censo da Educação Superior do Ministério da Educação (MEC) constatou que o número de formandos dos cursos de Pedagogia e Normal Superior - que preparam professores para as primeiras séries da educação básica - caiu pela metade, em quatro anos. Em 2009, 52 mil docentes concluíram esses cursos, ante 103 mil, em 2005. O Censo também registrou queda no número de graduandos nos cursos de licenciatura, que preparam professores para lecionar nas últimas séries do ensino fundamental e nas três séries do ensino médio. Em 2005 foram 77 mil e, em 2009, 64 mil. No mesmo período, porém, o total de formandos no ensino superior passou de 717 mil para 826 mil.

Isso ocorre porque, ao contrário do que ocorria há quatro ou cinco décadas, quando o professor dos antigos cursos de 1.º e 2.º graus gozava de enorme prestígio social, as novas gerações não se sentem atraídas pelo magistério público. Por causa do aviltamento dos salários, mas em grande parte também por causa das péssimas condições de trabalho - especialmente nas escolas públicas situadas em bairros pobres e nas periferias das grandes cidades - e da subsequente desvalorização da carreira, os jovens de hoje estão optando por cursos que proporcionam, tanto no setor público quanto na iniciativa privada, carreiras com salários mais altos e trabalho mais gratificante.

Para tentar reverter essa tendência de queda do número de alunos nos cursos superiores destinados à formação de docentes e acabar com o déficit de professores qualificados nas escolas públicas, o MEC tomou duas importantes medidas. A primeira foi a criação, em 2008, do piso nacional para o professorado, com o objetivo de unificar o salário de ingresso no magistério público, em todo o País. Este ano, o piso foi estabelecido em R$ 1.183 para os professores com jornada de 40 horas semanais de aula. No entanto, por falta de recursos orçamentários, pelo menos seis Estados continuam pagando bem abaixo desse valor.

A segunda medida foi adotada pelo MEC em 2009, com o lançamento do Plano Nacional de Formação de Professores. A iniciativa tinha por objetivo qualificar os 636 mil professores das redes escolares municipais e estaduais de ensino infantil, fundamental e médio que não tinham curso superior ou vinham lecionando em área diferente daquela em que se formaram, assegurando vagas em universidades públicas e adotando estímulos pecuniários, sob a forma de prêmios e bolsas de estudo. A ideia era oferecer pelo menos 331 mil vagas, até 2011. Mas, como a experiência está em andamento e a conclusão dos cursos de pedagogia e licenciatura leva tempo, a medida ainda não surtiu os efeitos esperados pelas autoridades educacionais.

Para os especialistas em educação, o cenário é preocupante. A falta de professores preparados compromete ainda mais a qualidade do ensino da rede escolar pública e condena milhões de crianças e adolescentes a uma formação abaixo dos padrões exigidos pelo mercado de trabalho e pelo desenvolvimento científico e tecnológico. O gargalo do sistema educacional está, justamente, na deficiência da formação nos níveis fundamental e médio.

Além disso, para melhorar as condições de aprendizagem dos estudantes, o MEC incorporou mais uma série ao ensino fundamental, que passou a ser de nove anos. Adotada em 2006, a medida vem sendo implementada gradativamente e, a partir de 2016, em todos os municípios brasileiros as crianças terão de começar a ser alfabetizadas aos 5 anos de idade. Sem professores em número suficiente para lecionar nas primeiras séries das redes municipais e estaduais de ensino fundamental, essa política certamente fracassará.

A única maneira de reverter esse quadro, trazendo mais jovens para o magistério público, é oferecer um salário inicial atraente e assegurar boas condições de trabalho. Sem isso, não há como tornar a carreira atraente - e, sem professores preparados e motivados, o Brasil não superará o seu passivo educacional.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 04 / 02 / 2011

Folha de São Paulo
"Ditador se diz 'cheio' do poder, mas aperta o cerco"

Regime persegue jornalistas à véspera de outro grande protesto; só ontem, houve 8 mortes

Na véspera de outra grande manifestação hoje, o governo Mubarak acenou com proposta de negociação, mas aumentou a repressão. Oito pessoas foram mortas, somando mais de 300 desde o início dos protestos. Jornalistas foram agredidos e mantidos longe da praça Tahrir, no Cairo, onde acontecem os confrontos. Houve ao menos 15 ataques a repórteres, disse ONG. Os brasileiros, Luiz Araújo, do jornal "Zero Hora", Corban Costa, da Rádio Nacional, e Gilvan Rocha, da TV Brasil, foram alvo de violência. O Itamaraty condenou a "barbárie". Paralelamente, o vice Omar Suleiman disse que o filho de Hosni Mubarak não disputará a eleição e convidou a oposição ao diálogo. Em entrevista, o ditador disse que está cheio, mas teme o caos se deixar o poder. O governo Obama discute plano para sua saída.

O Estado de São Paulo
"Governo egípcio pede diálogo, mas intensifica repressão"

Ataques incluem perseguição a ativistas de direitos humanos e jornalistas estrangeiros, acusados de incitar à revolta

O governo do Egito ampliou a repressão aos opositores concentrados no Cairo em manifestações pela queda do ditador Hosni Mubarak. Jornalistas estrangeiros e membros de organizações de direitos humanos foram alvo de perseguição - as autoridades os acusam de incitar a população à revolta. A ação provocou forte repúdio do governo americano, aliado de Mubarak, que acusou o ditador de violar leis internacionais. Ao mesmo tempo, o governo egípcio acenou com concessões à oposição, inclusive o diálogo com a Irmandade Muçulmana, principal grupo adversário de Mubarak. Mas os opositores ligados ao Nobel da Paz Mohamed ElBaradei mantiveram para hoje o prazo para que o ditador deixe o poder. Eles apresentaram seu plano de democratização, com ElBaradei como presidente e o julgamento de Mubarak por violações de direitos humanos.

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quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Não é aqui, é no Haiti


Mais Haiti aqui

Pensando alto

Centoperna (péia?)

Sidney Borges
Piolho de cobra. Bicho intrigante, sempre movimentando dezenas (centenas?) de pernas (patas?) para ir a algum lugar. Para onde será que vão os piolhos de cobra? Talvez para o Mar Vermelho, que não é vermelho. Mais um mistério a decifrar nessa viagem sem esperança que é a vida. As palavras nem sempre são entendidas e nem sempre conseguem traduzir o que sentimos e tentamos comunicar. Eu já não gosto tanto de aviões, mas gosto de voar. Voei centenas de horas e quase não tenho recordações dos vôos, mas nunca me esqueci de um sonho em que eu voava sobre campos verdejantes. Foi a única vez em que tive controle total, indo para onde quisesse, subindo, descendo, fazendo curvas. Inesquecível, nunca mais aconteceu. Tive outros sonhos aéreos, fugazes. Um dia vamos controlar os sonhos e a vida será mais interessante, poderemos sonhar com o que quisermos, quando quisermos. Por falar em sonho, lembrei-me da história do sábio chinês que sonhou que era uma "bórbuleta" e ficou em dúvida se era um sábio chinês de fato ou se era uma "bórbuleta" sonhando que era um sábio chinês. Tanto faz ser isso ou aquilo. Na verdade tanto faz estar isso ou aquilo, pois como dizia Tim Maia, nada é nada e tudo é tudo. Pensar alto é só pensar e lembrar de músicas populares...

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Amigos...

Frases

Herança maldita

"A situação social do Brasil era uma vergonha, castigado por desigualdades com toda sua riqueza. Mas os méritos vêm também das bases da política econômica encetada por Fernando Henrique Cardoso. Foi a chave sem a qual não se poderia ter progredido."

Chico Buarque, ao jornal El Pais

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Opinião

Marca do atraso político

O Estado de S.Paulo - Editorial
A tranquila recondução de José Sarney à presidência do Senado Federal, para mais um mandato de dois anos - o quarto -, pode parecer um saudável sintoma da estabilidade política de que o País necessita para evoluir na consolidação das instituições republicanas e do desenvolvimento econômico e social. Na verdade, é uma garantia de tranquilidade para o governo, que continuará dispondo, no comando da Câmara Alta, de um aliado exigente em termos de contrapartidas, mas subservientemente fiel e prestativo. A recondução de Sarney à presidência do Senado é uma marca do atraso político que o Brasil não consegue superar. É o tributo que a Nação é obrigada a pagar, em nome de uma concepção falsificada de governabilidade, ao mais legítimo representante das oligarquias retrógradas que dominam e infelicitam as regiões mais pobres do País. Democracia e oligarquia são incompatíveis entre si. Um oligarca como José Sarney, portanto, é incompatível com a democracia, da qual só lhe interessa o sistema eleitoral que manipula sem constrangimento para se perpetuar no poder.

José Sarney está no poder, quase que ininterruptamente, há mais de meio século. Pelo menos desde o golpe militar de 1964, quando se elegeu governador do Maranhão, com o apoio do presidente Castelo Branco, e depois senador desse Estado por dois mandatos consecutivos. Presidiu a Arena, depois PDS, e em 1985, quando pressentiu a irreversibilidade do processo de redemocratização do País, em troca da candidatura a vice-presidente, coliderou a dissensão que resultou na eleição do oposicionista Tancredo Neves. Com a morte deste, a Presidência da República caiu-lhe no colo.

Depois de um mandato que registrou seguidas crises econômicas, o estouro da inflação e uma controvertida moratória, Sarney criou condições para que o País se encantasse com um "caçador de marajás", na eleição presidencial de 1989. Isso acabou lhe custando um breve período - os dois anos e sete meses de Fernando Collor na Presidência - distante do poder. Mas logo em seguida, já em fins de 1992, com Itamar Franco na Presidência, o senador Sarney estava novamente na situação.

Paralelamente, o clã Sarney consolidava seu poderio econômico, com um complexo de negócios cuja face mais visível é o Sistema Mirante de Comunicação, o maior grupo privado de comunicação do Maranhão, proprietário de emissoras de televisão e de rádio e do diário O Estado do Maranhão.

Mas a completa simbiose do senador maranhense eleito pelo Amapá com o Poder Central ocorreu a partir da chegada do lulo-petismo ao Palácio do Planalto. Imune a pruridos éticos, Lula não demorou em transformar aquele que fora um dos alvos preferenciais de seus ataques, quando na oposição, em um aliado indispensável. O primeiro grande serviço prestado pelo senador ao novo amigo ocorreu quando estourou o escândalo do mensalão e Sarney ajudou a convencer a oposição de que Lula deveria ser preservado. A recompensa veio em 2009, quando Sarney ocupava pela terceira vez a presidência do Senado e estourou uma série de escândalos na administração da Casa. Foram, então, apresentados 11 pedidos de cassação de seu mandato à Comissão de Ética do Senado. Lula acionou sua tropa de choque e dessa vez o preservado foi Sarney.

A essa altura até a mídia internacional já se tinha dado conta do que representava o homem forte do governo Lula. Logo após sua terceira eleição para a presidência da Câmara Alta, em 2009, Sarney foi o protagonista de ampla reportagem da revista inglesa The Economist. Sob o título Onde os dinossauros ainda vagam, a matéria assinada pelo jornalista John Prideaux classificava o evento como uma "vitória do semifeudalismo".

Inabalável, o eterno governista disse que fará mais um "sacrifício pessoal", ficando mais dois anos na presidência do Senado. Como se não tivesse sido o principal personagem do escândalo dos "atos secretos", afirmou, ainda impávido, que "a ética, para mim, não tem sido só palavras, mas exemplo de vida inteira". Só se emocionou, chegando às lágrimas, quando lembrou que este será o seu último mandato legislativo.

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 03 / 02 / 2011

Folha de São Paulo
"Egípcios se enfrentam com pedras, porretes e molotov"

Grupo pró-ditador ataca multidão em praça do Cairo; confronto deixa ao menos 3 mortos e 1.500 feridos

Tahrir, a praça-símbolo da revolta no Egito, virou campo de batalha ontem. A cavalo ou camelo, partidários do ditador Hosni Mubarak atacaram manifestantes com porretes e chicotes. Os rebeldes reagiram quebrando calçadas e lançando as pedras. À noite, os dois lados passaram a atirar coquetéis molotov, e prédios pegaram fogo em torno da praça. O confronto deixou pelo menos três mortos e mais de 1.500 feridos. Jornalistas estrangeiros foram agredidos pelas forças leais a Mubarak e tiveram seus quartos em hotéis invadidos - inclusive o da reportagem da Folha. Agentes do governo proibiram fotografias e filmagens do centro do Cairo. Os EUA aumentaram a pressão, pedindo a saída de Mubarak "para ontem". O Estado-Maior manifestou preocupação com a segurança do canal de Suez, rota do petróleo.

O Estado de São Paulo
"Liberação de verbas subiu antes da eleição no Congresso"

Partido que mais se beneficiou com os 'restos a pagar' de emendas foi o PMDB, com R$ 12 milhões

Nas vésperas da eleição para as Mesas do Congresso e no momento em que o governo enfrenta a insatisfação de partidos da base aliada, aumentou a liberação de "restos a pagar" de emendas propostas por parlamentares, recursos cujos gastos foram autorizados no Orçamento, mas não efetivamente pagos. Em janeiro, foram liberados R$ 148 milhões, um crescimento de 17% em relação ao mesmo período do ano passado, informa a repórter Julia Duailibi. O PMDB, cuja bancada tem criticado a montagem do governo Dilma Rousseff - chegou a ameaçar veladamente retaliar o Planalto em votações importantes -, foi o partido que mais teve recursos pagos até agora: R$ 12 milhões, segundo levantamento feito no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi). Em janeiro de 2010, o partido recebeu apenas R$ 1,8 milhão. Em segundo lugar, vieram os restos a pagar de emendas do PT, com R$ 3,3 milhões. Também integrantes da base, PP e PDT receberam R$ 2,5 milhões e R$ 2,4 milhões, respectivamente. Os principais partidos da oposição, PSDB e DEM, tiveram ao todo R$ 3,4 milhões.

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quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Profecias


Acredite se quiser

Sidney Borges
Está escrito de forma clara e insofismável na tábua à direita. O sucessor do grande faraó Gamal Abdel Nasser, Anwar El Sadat, morrerá assassinado. Depois dele virá o iluminado faraó Hosny Mubarak, que será deposto depois de atentar contra a internet. Esse texto escrito há mais de três mil anos foi recuperado através de um pedaço de metal que aparentemente não tinha grande importância, mas na verdade era um pendrive faraônico mais rápido do que os atuais.

Ramalhete de "causos"


A luz do Oliveira

Isso aconteceu há algumas décadas, quando a eletricidade ainda era desconhecida em quase todas as praias de Ubatuba

José Ronaldo dos Santos
Oliveira é um morador da praia da Fortaleza. Sua casa era na linha do jundu, quer dizer, pertinho do mar, de onde se tinha uma visão privilegiada de toda a baía da Fortaleza. Ele era pescador, casado com a Filomena. Levava uma vida normal, até a noite em que apareceu em volta da sua casa uma misteriosa luz. Ela saía sempre ao anoitecer da costeira do recife, onde tinha o coqueiral do Hamilton Prado e se aproximava todas as noites da casa do Oliveira, que observava aquela aparição arrepiado e assustado, assim como toda a sua família. No início as orações pareciam não adiantar, nada afastava a luz e muito menos a explicava.

Essa luz era como se fosse uma bola amarela brilhante do tamanho de uma bola de futebol e se movimentava, flutuando mais ou menos na altura de um metro acima da água ou da terra. Ela parecia ter vontade própria: para onde quer que o Oliveira fosse ela o acompanhava e cercava o seu caminho, às vezes não o deixava sair, colocando-se na porta como se vigiasse a passagem. Outras pessoas podiam ver a tal luz, mas somente o Oliveira era perseguido por ela e, se tentava se livrar, era atacado. Apanhava mesmo, era uma surra. Certa vez, sua filha tentou espantar a luz ao vê-la se jogando contra o pai e foi também atacada. Isso durou meses e acabou sem explicação nenhuma. Ou seja, como apareceu, se foi.

Paraíso

Coluna da Dra. Luiza Eluf

O pequeno traficante

Luiza Nagib Eluf
Há uma cidade no México em que a Polícia acabou. Segundo notícias veiculadas pelo jornal The New York Times, todos os membros da corporação pediram demissão do cargo por não terem condições de enfrentar os traficantes locais com um mínimo de segurança e apoio governamental. A cidade se chama Guadalupe, tinha nove mil moradores, mas quatro mil já fugiram de lá. Há ruas e bairros abandonados, é quase um lugar fantasma. A última delegada de polícia que aceitou assumir o cargo foi nomeada pelo prefeito, seu tio, em outubro de 2010. Pouco depois do Natal do mesmo ano, a moça, de 28 anos, foi seqüestrada de casa por um grupo de homens armados e nunca mais foi vista. Ela era sobrinha do prefeito que, ingenuamente, nomeou a moça na esperança de aplacar a fúria do tráfico com o semblante inocente de uma mulher tão jovem. Evidentemente, a providência não funcionou. Traficante não se comove, não perdoa, não tem pena de ninguém e, raramente, muda de profissão. Assim, a moça provavelmente morreu e a cidade continua destroçada.

Depois que o tráfico toma conta de um local, não sobra nada. Aqui no Brasil, tivemos a experiência da transformação nas favelas do Rio de Janeiro depois que, finalmente, os governos federal e estadual resolveram tomar providências efetivas para desmantelar o tráfico de drogas e seu poder destruidor. O Exército entrou para valer em território dominado pelo crime, juntamente com a polícia, e controlou a situação. É claro que o governo, quando tem vontade política, faz o que precisa ser feito. Tirando os eventuais abusos de autoridade que sempre nos envergonham, ocorreu um processo de libertação da população favelada no Rio.

Por outro lado, recente posicionamento do titular da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas provocou reação contrária do governo federal e gerou uma crise que terminou com a exoneração do secretário do cargo. Ele propôs que se fizesse uma alteração legal para que “pequenos traficantes” pudessem ser beneficiados com as chamadas penas alternativas. Nos termos da Lei n. 11.343/2006, que instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas – Sisnad, os condenados por tráfico de drogas devem cumprir a pena privativa de liberdade, vedada a substituição da prisão por restrição de direitos, ou seja, prestação de serviços à comunidade, proibição de freqüentar determinados lugares ou pagamento de pena pecuniária (art. 33, §4º). No entanto, certas correntes doutrinárias liberalizantes trabalham no sentido de esvaziar penitenciárias propondo penas alternativas até para traficantes de drogas, argumentando que seriam beneficiados apenas os pequenos traficantes.

O que são pequenos traficantes? Será que eles existem?

Na verdade, são considerados criminosos que merecem pena menor aqueles flagrados pela polícia na posse de pouca quantidade de droga, que pretendem ceder, gratuitamente ou não, a consumo de terceiros. A lei prevê diminuição de pena para o agente que seja primário, de bons antecedentes, não se dedique às atividades delituosas nem integre organização criminosa. Esse seria o traficante, digamos, menos pior. No entanto, o fato de alguém ser surpreendido portando pouca quantidade de substância entorpecente não significa que essa pessoa tenha papel secundário na hierarquia do crime. Tampouco é uma garantia de que o sujeito não possua mais drogas armazenadas em outro local ignorado pela polícia. Por fim, todo traficante, pequeno, médio ou grande, é uma engrenagem importante na estrutura do crime organizado. Em resumo, traficante é traficante. Deve padecer dos rigores da lei, sem alívio nenhum, quanto mais ficar em liberdade após condenado, cumprindo pena alternativa, quem sabe prestando serviços em escolas, instituições de caridade ou hospitais... Mais uma vez, muito bem andou nossa presidenta Dilma ao reprovar a iniciativa de beneficiar traficantes. Não podemos trilhar o caminho da tolerância em relação a delito tão avassalador. Não é preciso lembrar o drama das famílias com parentes engolidos pelas drogas, nem as várias crakcolândias que se espalham pelas cidades, sem que o poder público ofereça sequer um estabelecimento gratuito especializado na recuperação de dependentes químicos.

Por fim, é preciso mencionar o movimento pela legalização da maconha. Há pessoas de grande respeitabilidade abraçando a causa e a discussão deve continuar, mas não acredito que a providência proposta venha a melhorar alguma coisa. A cannabis sativa L é substância que causa dependência física ou psíquica, consequentemente, é muito perniciosa. A descriminação só vai incentivar o uso e não vai acabar com o tráfico. O melhor caminho ainda é investir em prevenção, seja de drogas ilícitas, seja de álcool ou de tabaco.

Com o tráfico de drogas não se brinca. Como aconteceu na cidade mexicana de Guadalupe, esse comércio espúrio já acabou com as polícias em várias localidades brasileiras, só que não literalmente, mas de outra forma: corrompendo suas estruturas. E pode acabar com governos, instituições, valores morais, dignidade e a vida.

Luiza Nagib Eluf é Procuradora de Justiça do Ministério Público de Sâo Paulo. Foi Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania no governo FHC e subprefeita da Lapa, em SPaulo. É autora de vários livros, dentre os quais a paixão no banco dos réus” e “Matar ou morrer – o caso Euclides da Cunha”.

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Opinião

Criminalidade em queda

O Estado de S.Paulo - Editorial
Os índices de criminalidade voltaram a cair em todo o Estado de São Paulo em 2010. Desde que a Secretaria da Segurança Pública criou uma Coordenadoria de Análise e Planejamento para alimentar - com informações estatísticas extraídas de boletins de ocorrência - os serviços de inteligência das Polícias Civil e Militar e ajudar o governo a definir as prioridades da política para o setor, há 14 anos, a tendência de queda da violência criminal foi interrompida somente uma vez, em 2009.

Em 2010, a queda da criminalidade com relação ao ano anterior foi detectada em praticamente todos os tipos de crime - de roubos em geral (9,4%) a homicídios ( 4,5% ) e latrocínios (16,5%), além de sequestros (13,1%). Também foi registrado um declínio significativo no número de roubo a bancos (16,6%), de roubo de carga (6,2%), de roubo de veículos (4,4%) e de furtos (4,3%). A exceção foram os homicídios culposos por acidente de trânsito. Apesar de as autoridades estaduais terem submetido mais de 300 mil motoristas a testes com bafômetros, este tipo de crime - considerado uma resultante da conjugação de imprudência e bebida - cresceu 2,25%.

No ano passado registraram-se no Estado de São Paulo 10,47 assassinatos por cem mil habitantes. Essa taxa pode ser considerada alta, quando comparada a grandes metrópoles da América do Sul. Em Buenos Aires e em Santiago, por exemplo, as taxas são de 5,8 e 1,8 homicídios por cem mil habitantes, respectivamente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como "violência epidêmica" os índices superiores a 10 homicídios por cem mil habitantes.

Em termos absolutos, no entanto, o número de homicídios está em franco declínio em todo o Estado - principalmente na Grande São Paulo, onde a redução foi de 14%. Em 1999, quando a instalação do banco de dados da Secretaria da Segurança Pública foi concluída, a taxa era de 35,27 homicídios por cem mil habitantes - portanto, houve no Estado uma queda superior a 70% do número de homicídios, no período de onze anos. No Brasil, a média registrada no ano passado foi de 25 assassinatos por cem mil habitantes - e a meta do programa de segurança do governo federal é chegar a 11 por cem mil nos próximos anos.

A queda dos índices de criminalidade em São Paulo decorre da conjugação de vários fatores positivos. Um deles foi a melhoria da situação econômica do País. Isso ampliou o mercado de trabalho, propiciou a expansão do nível de emprego e aumentou o poder de consumo das famílias mais pobres - o que teve um reflexo direto no declínio do número de furtos e de roubos em geral, segundo os especialistas. Outros fatores por eles apontados foram a redução dos fluxos migratórios e o progressivo envelhecimento da população. "Com isso, diminuiu, proporcionalmente, a quantidade de jovens entre 15 e 30 anos de idade em São Paulo. São essas pessoas que mais matam e morrem", diz o sociólogo Guaracy Mingardi, que dirigiu a Secretaria Nacional de Segurança. Os especialistas destacam ainda o sucesso da campanha do desarmamento. Entre 2009 e 2010, as Polícias Civil e Militar apreenderam mais de 40,6 mil armas - pelas estimativas dos órgãos oficiais, uma morte é evitada a cada 18 armas apreendidas.

Além dos fatores econômicos e sociais, há um fator institucional que não pode passar despercebido - a continuidade dos programas adotados pela Secretaria da Segurança Pública na última década e meia.

Durante esse período, os governadores mantiveram as prioridades e diretrizes da política do setor - e elas envolvem maior articulação do Estado com as prefeituras, profissionalização progressiva das guardas municipais, estratégias de prevenção e repressão integrada com movimentos sociais e ONGs, o investimento em serviços de inteligência e maior aplicação de tecnologia nas investigações. Sem continuidade administrativa e eficiência de gestão, dificilmente São Paulo teria apresentado uma queda tão significativa dos índices de criminalidade.

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 02 / 02 / 2011

Folha de São Paulo
"Acuado pelas ruas, ditador egípcio quer prazo para sair"

Mubarak promete ficar fora da eleição, mas anúncio não deve aplacar protestos; oposição vê manobra

Sob forte pressão interna e externa após oito dias de revolta popular, o ditador egípcio Hosni Mubarak, 82, anunciou, em rede nacional, que não tentará a reeleição, relata Samy AdgWrni. Ele prometeu antecipar o pleito, marcado para setembro, mas não deve aplacar a rebelião. Parte da multidão, que viu por telão, reagiu exibindo a sola do sapato, ofensa no mundo árabe. Mubarak nada disse sobre possível candidatura de seu filho e herdeiro político, Gamal. Mohamed ElBaradei e líderes da Irmandade Muçulmana denunciaram o gesto como uma manobra. A onda de revolta no mundo árabe fez o rei da Jordânia, Abdullah 2º, nomear um novo premiê. Na Cisjordânia, a Autoridade Nacional Palestina anunciou que fará eleições locais.

O Estado de São Paulo
"Mubarak aceita sair após eleição, mas pressão continua"

Sem apoio dos EUA, ditador egípcio propõe transição até setembro; manifestantes exigem sua queda já

Pressionado por milhares de manifestantes nas ruas e sem o apoio do Exército egípcio e do governo dos EUA, o ditador Hosni Mubarak foi à TV ontem para anunciar que não concorrerá a mais um mandato nas eleições presidenciais de setembro. Mas ele se recusou a deixar imediatamente o poder, como exige a oposição, e garantiu que morrerá no Egito. “A História me julgará", declarou. O discurso provocou a ira dos manifestantes e dos partidos de oposição, que querem a saída imediata de Mubarak. Um grupo de personalidades, lideradas pelo Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, já negocia a formação de governo de transição e exige Mubarak fora do país até sexta.

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terça-feira, fevereiro 01, 2011

Franco

Francisco Paulino Hermenegildo Teódulo Franco y Bahamonde

Caudillo de España, por la gracia de Dios

Sidney Borges
Francisco Franco comandou as tropas vencedoras da guerra civil e tornou-se ditador da Espanha, em 1938. Criou um regime forte, católico, direitista e perseguiu os opositores de forma inclemente, principalmente os comunistas. Apesar da pompa e circustância que cercava a corte espanhola, o caudilho foi vítima de um espertalhão que dizia ter uma fórmula para fabricar gasolina.

Quando acabou a guerra civil a Espanha estava literalmente na tanga. Havia fome, desemprego e muito ódio entre os remanescentes do conflito. Como a demanda era maior do que a oferta, falando em dialeto economês, a solução foi fazer racionamento. Em situações extremas aparecem soluções criativas e também oportunistas que vendem gato por lebre e, na maioria das vezes, não entregam.

Na Espanha, de repente, como se tivesse saído de um disco voador, surgiu um tipo bem falante, simpático que conseguiu enganar até o próprio caudilho. Um dos produtos escassos era a gasolina, vendida a peso de ouro no mercado negro. O recém chegado, Albert Elder von Filek, de origem austríaca, ofereceu seus modestos serviços de inventor. Ele sabia fazer gasolina. Ingredientes: água, extratos vegetais e um "bizu" secreto. 

A gasolina produzida pelo inventor era da melhor qualidade e deixava os motores das baratas dos poderosos tinindo como máquinas de costura. Além do mais o "bizu" impedia que a fórmula fosse copiada pelos inimigos da Espanha, ateus, maçons e comunistas, que fariam de tudo para evitar a prosperidade da "reserva moral do ocidente".

Franco acreditou na broma e entrou de gaiato no navio. Patrocinou a construção de uma fábrica de gasolina às margens do rio Jarama e pagou regiamente o pai do "bizu".

Durante algum tempo o caudilho acreditou que seus automóveis usavam a gasolina mágica de Filek. As coisas iam bem para o "inventor", tão bem que ele imaginou que ficariam bem para sempre e não deu no pé a tempo. Como sempre acontece, a casa acabou caindo, Filek foi preso e a vergonha que acometeu Franco e sua corte foi tão grande que nunca mais se falou no assunto.

O povo espanhol nunca ficou sabendo que aquele que dizia ter sido escolhido por Deus para salvar a pátria tinha caído no conto do vigário.

Em 1973 o franquismo estava mal das pernas, vítima de anacronismo radical. Franco imaginou uma forma de prolongar o regime e nomeou aquele que seria seu sucessor, almirante Carrero Blanco, novo presidente do governo.

Um dia do mês de novembro, Carrero Blanco, presidente desde junho, saiu da missa e quando estava no trajeto para o gabinete, voou. Como estava em estado de graça, sua alma subiu ao céu, enquanto seu corpo pemaneceu no carro que, impulsionado pela explosão de uma bomba, elevou-se vinte metros e ficou estacionado no telhado de um edifício.

Franco morreu no final de 1975 depois de longa agonia. Com ele morreu o franquismo. Não há sinais de saudades. 

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Opinião

A guerra dos bancos

O Estado de S.Paulo - Editorial
O primeiro desastre mundial da era da globalização foi causado não pela disputa feroz de mercados nem pelas alterações nas cadeias de produção, com as consequentes mudanças nas condições de emprego, mas pela hipertrofia do setor financeiro. Vários números podem confirmar a descontrolada expansão do setor, mas basta um para dar uma ideia do gigantismo doentio. Quando a crise começou, a soma dos derivativos de vários tipos equivalia a US$ 600 trilhões, dez vezes o produto bruto do planeta. Um ano antes, havia chegado a US$ 700 trilhões.

Foi como se um novo segmento de negócios houvesse crescido e adquirido impulso próprio em poucos anos - duas décadas ou nem isso - e o fenômeno pouco chamasse a atenção dos especialistas. Isso foi apenas parte das transformações ocorridas no mundo financeiro. Quando o sistema entrou em colapso e pôs em risco a saúde econômica da maior parte do mundo, as autoridades tiveram de improvisar medidas para lidar com um problema desconhecido.

O custo foi jogado sobre quem não tinha responsabilidade pelos desmandos cometidos durante anos em mercados livres de regulação ou regulados de forma insuficiente. Governos jogaram centenas de bilhões de dólares, libras ou euros no mercado para deter a quebradeira e impedir uma depressão. Bancos foram estatizados. Outros foram sustentados com injeção de dinheiro público. Autoridades monetárias criaram liquidez em escala sem precedente para tentar manter os mercados em funcionamento. O Banco Central Europeu, depois de uma reunião de emergência, lançou no sistema ? 95 bilhões, numa de suas intervenções mais dramáticas.

Depois de haver permitido, sem o perceber, a formação das condições do desastre, o setor público teve de socorrer os causadores do desastre. Foi um resgate sem precedente para salvar a economia das piores consequências. Para evitar novas situações parecidas com essa, ou talvez piores, não basta esbravejar nem ameaçar as instituições com a recusa de socorro na próxima vez. É necessário, sim, deixar claro o risco para quem cometer desmandos, mas isso é insuficiente. É preciso, sem engessar o mercado, regular as atividades financeiras com maior eficiência e elevar os padrões de segurança do sistema. É também muito importante criar mecanismos de supervisão capazes de avaliar as condições do sistema e de emitir sinais de alerta em caso de perigo.

O mundo já avançou razoavelmente na direção desses objetivos. Novos padrões de regulação foram propostos pelo Banco de Compensações Internacionais, de Basileia, conhecido como o banco central dos bancos centrais. Os países-membros do G-20 concordaram em completar a implantação das novas normas até 2019, dando ao mercado tempo suficiente para uma adaptação sem traumas.

Mas haverá dificuldade na execução da reforma. Executivos de importantes instituições financeiras deixaram clara sua oposição às novas normas disciplinares. Grandes bancos, incluídos alguns socorridos com dinheiro público, voltaram a dar lucro e seus dirigentes pretendem ter o direito de continuar operando como se nada houvesse ocorrido e não devessem explicações à sociedade.

Passou o tempo da contrição, disse há pouco um desses dirigentes. No Fórum Econômico Mundial, em Davos, banqueiros de peso dedicaram-se a combater abertamente a ideia de maior regulação do setor. Restrições mais severas aos bancos dificultarão as operações de financiamento e prejudicarão o crescimento econômico, alegaram. A insuficiente regulação, poderiam responder as autoridades, facilitou negócios irresponsáveis, a criação de uma enorme bolha e, afinal, uma recessão ainda não superada ou superada precariamente em muitos países. Banqueiros apontaram também - e quanto a isso estão certos - o risco de transferência de negócios para segmentos não regulados ou menos sujeitos a regras. Isso já ocorreu antes da crise. O remédio é estender a disciplina e a supervisão a todos os segmentos do mercado. O Brasil é, nesse caso, um exemplo a ser imitado. O mundo precisa de segurança para crescer e os governos podem aplicar o dinheiro do contribuinte mais produtivamente do que salvando bancos da quebradeira.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 01 / 02 / 2011

Folha de São Paulo
"Criminalidade cai nos Estados de SP e do RJ em 2010"

Boa notícia: Comandante da PM paulista atribui queda à melhora na economia e a investimentos na segurança

Os Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro registraram quedas nos índices de violência no ano passado. Em São Paulo, puxado por forte queda na Grande SP, o número de homicídios dolosos (com a intenção de matar) foi o menor desde 1999. Também caíram os roubos (inclusive veículos), latrocínios (roubo seguido de morte) e sequestros. Com 4.543 assassinatos em 2010, a taxa paulista ficou em 10,48% casos para cada 100 mil habitantes. No Rio foram 4.768 homicídios - taxa de 29,8, a mais baixa desde 1991. A organização Mundial de Saúde chama de violência epidêmica acima de 10 casos.

O Estado de São Paulo
"Protesto é 'legítimo' e não será reprimido, diz Exército egípcio"

Anúncio é feito na véspera de ato que pode reunir 1 milhão; oposição faz acordo com militares para transição

Oposição e militares de média patente acertaram ontem uma aliança para as bases de um Egito laico e democrático, na expectativa da queda do ditador Hosni Mubarak. A cúpula do Exército anunciou que considera os protestos “legítimos” e que não abrirá fogo contra manifestantes, que prometem para hoje um ato com mais de 1 milhão de pessoas. Mubarak pediu que seu vice dialogasse com a oposição depois de uma semana de protestos e 150 mortos. A oferta foi recusada. O governo dos EUA outra vez defendeu a transição para a democracia no Egito, ao mesmo tempo que evitou mencionar a saída de Mubarak, seu aliado.

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segunda-feira, janeiro 31, 2011

Napoleão no Egito

Bonaparte no Egito, pintura de Jean-Léon Gérôme, 1863

Fim de janeiro

Calor senegalesco

Sempre ouço dizer que faz calor no Senegal, onde, diz a canção, é legal ser negão

Sidney Borges
Tá quente. Dá pra fritar ovo na capota do carro. Churchill largou a chupeta aos quatro anos e começou a fumar charuto aos cinco. Nunca mais parou, imagino que foi enterrado com um havana na boca. Uma vez perguntado sobre o segredo de sua longevidade, foi direto: - no sports.

Quem poderia imaginar que o cigarro virasse vilão, ele que foi mocinho durante tanto tempo. Até poucos anos atrás era raro quem não fumasse. O ato de sugar o canudinho recheado de tabaco era chique, fazer volutas de fumaça então, o máximo. Humphrey Boggart foi um campeão do tabagismo, sabia como ninguém fazer uso do cigarro para compor o papel de durão. Hoje é proibido fumar, como estava escrito no aviso que eu li na entrada do show de Roberto Carlos. Se Boggie também tivesse lido talvez não morresse de câncer aos 57 anos, poderia ter sido atropelado ou tido um enfarte. Mais tarde, quem sabe 10 anos depois.

Nos velhos tempos da TV a lenha assistíamos ao Fantástico nas noites de domingo. Patrocinado pelo cigarro Hollywood, sempre associado a esportes de ação. Vôo livre e alpinismo, por exemplo. Imagine o cara pendurado numa corda a mil metros do chão dando uma pausa para um cigarrinho.

As consequências do tabagismo são reais, quem fuma tende a morrer antes. Algum idiota da objetividade poderia argumentar que morrer é inevitável. Verdade, mas também é verdade que o cigarro diminui a qualidade de vida, entope artérias, causa impotência e tira o fôlego. Além do cheiro, fumantes fedem e ficam com os dentes amarelos.

Comecei este texto pensando no Egito. Tenho estudado arte egípcia. Comecei há 10 anos no British Museum, hoje não preciso ir lá, o museu está disponível na internet. A coisa está fervendo na terra dos faraós. O povo não quer mais o ditador Mubarak.

O que será que vai acontecer quando a ditadura cair? Dificilmente haverá um governo com características democráticas. O fundamentalismo islâmico está pronto para dar o bote. Não sei se essa é a melhor solução, o islamismo é tolerante, mas o fundamentalismo islâmico não. Como todos os tipos de fundamentalismo, seja cristão, judeu ou do gênero supremacia branca, vai semear ódio e pregar violência.

O Egito tem um papel importante no Oriente Médio. Mais uma vez a diplomacia americana se vê em cheque. Foi assim no Irã do Xá, apoiado pelos Estados Unidos, foi assim no Iraque de Saddam Hussein, criatura de Tio Sam. Mubarak está há trinta anos no poder graças ao apoio do império do norte. Isso qualifica os extremistas islâmicos como possíveis sucessores do ditador. Como cantava Raul Seixas em "Paranóia": Eu tenho medo!

Faltou ligar os alhos com os bugalhos. Um amigo que eu não via há anos apareceu para um café. Fumou três cigarros. Comecei pensando no Egito e acabei lembrando que gente que sabe o que quer fuma Minister. Ou leva vantagem com o Vila Rica. Ficou uma catinga danada no escritório.

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Pitacos do Zé Ronaldo


Tudo é questão de educação

José Ronaldo dos Santos
Na semana passada, o mato que teimava em invadir a faixa dos pedestres e das bicicletas (na rodovia Oswaldo Cruz) foi controlado pelas ferramentas. Os “homens de verde” fizeram um bom trabalho! Estava uma beleza! Estava!

De um dia para outro o lixo já começou a se destacar. Quem faz isso? Pessoas sem educação, que não estão nem aí para nada; pessoas que nem sequer se amam. São moradores de Ubatuba porque isso é fácil de ser verificado no decorrer do ano. É lógico que nesta época de férias as coisas pioram! Entre muitos respeitosos turistas vêm outros tantos que, assim como um bom número de nativos, também acham que aqui é a “casa da mãe Joana”. Um amigo muito irônico diz que só um discurso muito forte, invocando a vingança divina, poderá dar um novo rumo a isso. Desconfio que a coisa gira mais ou menos por esse eixo. É preciso que os líderes religiosos, as escolas, as associações e tantas outras formas organizadas da vida em sociedade apelem; criem uma nova mentalidade. Por enquanto vamos pagando uma taxa de conservação e limpeza que beira os 25% do IPTU. Creio que tal taxa não justifica que você precise lembrar “os homens” do que precisa ser feito, mas os moradores desta cidade precisam fazer a sua parte.

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Coluna do Rui Grilo

A contribuição do Lula ao PT

Rui Grilo
Talvez a maior contribuição de Marx seja a criação da dialética, um método para interpretar a história. Simplificadamente, esse método conclui que a evolução da história se dá pelo choque dos contrários, – tese x antítese que resultaria numa síntese, uma situação nova que surge da contribuição dos contrários.

Exemplificando, o pai representaria a tese, e o filho, a antítese. Sempre há choques entre o pai, que representaria os antigos valores e concepções; o filho, l representaria as novas idéias. No choque cotidiano entre ambos, o filho incorporará valores do pai e o pai incorporará os valores do filho, havendo uma mudança de ambos. Hoje, tenho observado que pais e mães, muitas vezes chegam a ofertar camisinhas para filhos e filhas, atitude que seria inconcebível há vinte anos atrás. Há uma maior aproximação de pais e filhos, o que às vezes, torna difícil o estabelecimento de limites e se chega à situações explosivas e fora de controle, com prejuízo para ambos.

O PT teve sua origem da união de forças marxistas e a esquerda cristã. Enquanto os primeiros negavam a existência de Deus e propunham a mudança a partir do confronto, da luta de classes, a esquerda cristã, tem como valor maior o amor ao próximo e a Deus, o perdão e a convivência pacífica. Fruto da união de duas forças com certo grau de antagonismo, foi difícil se afirmar como um partido popular. O próprio Lula disputou a eleição várias vezes antes de se tornar o presidente com maior prestígio popular.

Nesta sexta feira, esteve aqui em Ubatuba, Eduardo Pereira, em seu segundo mandato de prefeito em Várzea Paulista, da região metropolitana de Campinas, tendo sido um dos coordenadores da Frente Nacional de Prefeitos e da Marcha Paulista em Defesa dos Municípios, em 2009. É doutor em educação, tendo realizado estudos em Portugal com o renomado professor Boaventura de Souza Santos. O Edu, como é conhecido, tem uma longa trajetória desde a criação do PT. Atuou durante um longo tempo em cursos de formação de lideranças por todos os cantos do Brasil.

Em sua exposição fez uma análise da contribuição do Lula, que criou novos paradigmas na política. O primeiro foi evitar o confronto direto estabelecendo o diálogo, uma escuta verdadeira do outro mas com seu posicionamento claro e definido . Um diálogo "com lado".Mesmo no poder não deixou de ouvir os movimentos sociais. Também não os criticou, mesmo quando o MST o colocou em saia justa. Foi este paradigma que o levou à interlocução com o Irã e mudou as relações internacionais estabelecendo negociações diretas entre países emergentes, desvinculando-se da tradicional intermediação das ditas grandes potências.

O segundo paradigma foi a relação do Estado com o mercado . Lula inova a fórmula Estado mais mercado ao invés de Estado x mercado.Como exemplo foi citado o BNDES que emprestou dinheiro com juros baixos para os empresários que investissem em áreas e projetos definidos pelo governo como prioritários para o Brasil. Aumentou a capacidade do Estado fazendo com que a Petrobrás e o Banco do Brasil crescessem como empresas.

O terceiro novo paradigma está na próprio exercício da democracia, no combate ostensivo contra a pobreza, no debate das políticas públicas com os mais diferentes segmentos através das conferências nacionais de saúde, comunicação, educação, cidades etc...

O quarto paradigma colocado foi a relação da política com a economia no sentido das tomadas de decisão serem comandadas pelos economistas. Na última crise mundial, Lula ousou ir contra os economistas que pregavam a retração do mercado e estimulou o consumo. Ousou chamar a crise de "marolinha".

Após estas colocações, Eduardo abriu o debate e deixou-nos uma mensagem de que o objetivo maior de se chegar ao poder deve ser a melhoria da qualidade de vida das pessoas e provocar mudanças no mundo. É possível ser um bom governante, é possível gerir bem uma prefeitura, é possível compor com outros partidos sem perder seu "lado", é possível ouvir até aquele empresário mais desonesto sem compactuar, é possível ouvir manifestantes sociais, desde que possamos nos abrir e evitar radicalismos.

Avançar é acreditar no diálogo, que a diferença é importante para que possamos ver a realidade sob seus vários ângulos de possibilidades.

À noite, num papo informal, Edu se mostrou satisfeito com o público e o interesse manifestado, através do nível das questões do debate.

Ele, que está acostumado com debates, disse que em cidades maiores, dificilmente se conseguiria juntar mais pessoas que aquelas que estiveram participando. Mostrou-se otimista com os rumos do PT em Ubatuba e se comprometeu a conseguir mais apoio para que o Partido tenha sucesso nas próximas eleições municipais.

A organização do encontro sinalizou aos participantes que esta atividade foi o início de um processo de formação continuada dos militantes e simpatizantes.

Rui Grilo
ragrilo@terra.com.br

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Opinião

A contestação de Belo Monte

O Estado de S.Paulo - Editorial
A ação ajuizada pelo Ministério Público Federal do Pará para anular a licença concedida pelo Ibama para a construção do canteiro de obras e realização de obras de melhoria nas estradas de acesso à futura Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, é mais um questionamento de um projeto polêmico e de viabilidade econômica e técnica discutível, mas que o governo quer tornar irreversível. Na sua pressa, que beira a irresponsabilidade, o governo - de Lula e agora o de Dilma - vem forçando o Ibama a aprovar as licenças necessárias, o que já provocou várias substituições de dirigentes do órgão.

A troca mais recente aconteceu há pouco. Na primeira semana de seu mandato, a presidente Dilma Rousseff se reuniu com os ministros de Minas e Energia, Edison Lobão, e do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, para discutir o andamento do projeto e decidiram que o Ibama deveria acelerar o licenciamento da instalação do canteiro de obras. Pouco depois, o presidente do Ibama, Abelardo Bayma, pediu demissão. Foi seu substituto interino, Américo Ribeiro Tunes, quem assinou, na quarta-feira passada, a licença prévia para a montagem da área de trabalho para a construção da usina.

O governo tinha pressa porque, se o canteiro não for instalado até março, isso só será possível no ano que vem, por causa do regime de chuvas da região. O adiamento implicaria atraso de um ano no cronograma da obra e, consequentemente, no início de operação da usina - que teria de ser adiado de 2015 para 2016.

Oficialmente, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica, o Ibama precisa emitir três licenças, em diferentes etapas do projeto de Belo Monte. A primeira, a licença prévia, foi concedida no primeiro semestre do ano e permitiu a realização do leilão no qual foi escolhido o consórcio responsável pela construção e operação da usina. A segunda, chamada licença de instalação e aguardada para os próximos dias, de acordo com o ministro de Minas e Energia, permitirá o início das obras. A terceira, a licença de operação, antecederá o início da produção comercial de energia em Belo Monte, daqui a alguns anos.

A que acaba de ser concedida não é nenhuma dessas. Trata-se de uma "licença de instalação específica", cuja emissão, segundo declarou o presidente do Ibama ao jornal O Globo, teve o parecer favorável do departamento jurídico do órgão e da Advocacia-Geral da União (AGU). O Ministério Público Federal considera, porém, que a legislação não prevê a licença de instalação parcial, razão pela qual decidiu contestar na Justiça sua concessão. Além disso, lembram os procuradores, ao conceder a licença prévia de Belo Monte, o Ibama a vinculou ao cumprimento, pelo consórcio vencedor, de 40 condicionantes para a execução das obras. Nenhuma delas foi cumprida até agora.

Deve-se destacar que este é apenas um dos muitos questionamentos da usina no Rio Xingu. Empresas especializadas têm dúvidas sobre o real custo da obra, estimado em R$ 19 bilhões pelo governo, mas calculado em pelo menos R$ 30 bilhões por empresas privadas do setor. Como há dúvidas sobre o preço da obra, há também sobre o custo da energia que ali será produzida.

Apresentada pelo governo como a terceira maior usina do mundo - atrás apenas da chinesa Três Gargantas e da binacional Itaipu -, com capacidade total instalada de 11.233,1 megawatts (MW), a usina de Belo Monte, no entanto, raramente produzirá no limite da capacidade. Por operar no sistema chamado de fio d"água, a usina terá sua produção condicionada ao regime do Xingu. Por isso, sua capacidade assegurada é de 4.571 MW médios, bem menor do que a máxima.

Embora mais de uma dezena de empresas privadas participem do capital da sociedade que se responsabilizará pela obra e pela operação da usina, é esmagadoramente majoritária a participação de capital estatal nela. Cerca de dois terços do capital provêm de órgãos ou empresas públicas. O envolvimento de dinheiro público e o interesse político do governo poderão até levar à conclusão da usina de Belo Monte, mas o desconhecido custo de sua construção e da energia que ela vai produzir certamente será pago pela sociedade.

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Manchetes do dia

Segunda-feira, 31 / 01 / 2011

Folha de São Paulo
"EUA pedem fim da ditadura no Egito"

Hillary Clinton defende 'transição ordenada' para a democracia; no Cairo, líder opositor exige saída de Mubarak

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, defendeu "uma transição ordenada rumo a uma democracia real" no Egito, informa Álvaro Fagundes, de Nova York. Mesmo sem falar explicitamente na saída do ditador egípcio, Hosni Mubarak, ela na prática descartou sua permanência. Cobrou que a eleição para escolher o "próximo presidente" seja "livre, justa e confiável". Um dos principais opositores, o prêmio Nobel Mohamed ElBaradei discursou para uma multidão no Cairo. "É o começo de uma nova era, o que nós começamos não pode ser revertido. Temos uma exigência: que Mubarak deixe o poder."

 O Estado de São Paulo
"Itamaraty pede a embaixadas reavaliação da política externa"

Consulta a diplomatas inclui temas como direitos humanos e relação com regimes autoritários

Despachos confidenciais revelam que o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, ordenou aos principais departamentos do Itamaraty, as embaixadas e a missão do Brasil na ONU que façam até março uma reavaliação da política externa, informa o repórter Jamil Chade. A ordem teria partido depois de uma longa conversa de Patriota com a presidente Dilma Rousseff. Entre os pontos que devem passar por revisão, estão o discurso sobre direitos humanos, a relação com regimes autoritários e as negociações com os EUA. Embaixadores acreditam que a política externa brasileira voltará a dar mais relevância a princípios e valores defendidos internamente no País - e que teriam sido deixados de lado pelo Itamaraty durante o governo Lula.

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domingo, janeiro 30, 2011

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Opinião

Lições a se tirar de Viracopos

AE - AE - Editorial
O fim da longa novela da ampliação do Aeroporto de Viracopos, em Campinas - que acaba de receber do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) de São Paulo a licença ambiental prévia para o início da obra, cujo custo é estimado em R$ 823 milhões -, é um passo importante para desafogar o sistema aeroportuário brasileiro, embora ainda reste um longo caminho a percorrer para atingir esse objetivo, antes da prova de fogo que será a realização no País da Copa do Mundo de 2014.

A Infraero apressou-se a lançar, tão logo tomou conhecimento da decisão do Consema, o edital para a contratação do projeto da obra, que inclui uma nova pista e um segundo terminal de passageiros, que permitirão quase dobrar a capacidade do aeroporto. Ela passará dos atuais 5 milhões de passageiros por ano para 9 milhões. Deverão ser construídos também um pátio para aeronaves, um edifício-garagem de quatro andares e um hotel com centro de convenções.

Essas obras criarão condições para a Infraero atingir em seguida outro objetivo - transformar Viracopos no maior hub (terminal de conexões) da América Latina, o que ajudaria a desafogar o Aeroporto de Cumbica, que já opera acima de sua capacidade. As condições meteorológicas favoráveis de Viracopos são um atrativo para várias grandes companhias aéreas internacionais, o que deve facilitar a execução desse projeto.

Independentemente dele, a ampliação de Viracopos - mesmo que não esteja inteiramente pronta até 2014 - já tem uma grande importância, porque deve aliviar a sobrecarga de Cumbica e Congonhas e, assim, facilitar o plano de São Paulo de sediar a abertura da Copa. A Infraero promete concluir pelo menos 25% da obra em novembro de 2013, sete meses antes do início da Copa.

Não há como deixar de lamentar, porém, a demora no início desse projeto. Foram necessários longos 14 anos para que ele chegasse ao ponto atual. Discussões intermináveis sobre os impactos ambientais da obra, que começaram em 1997, e disputas políticas entre a prefeitura de Campinas, o Estado e a União, durante os governos que se sucederam nesse período, foram as responsáveis por essa demora, que ajudou a agravar a superlotação dos aeroportos paulistas, com sérios reflexos em todo o País.

Um projeto anterior de ampliação de Viracopos previa a desapropriação dos imóveis de 16 mil famílias, mas, diante da resistência delas e de grupos ambientalistas, ele acabou abandonado em 2007. Pelo projeto que acabou aprovado, serão retiradas do local 593 famílias de uma comunidade rural e desapropriados também 8,7 hectares de vegetação nativa de uma Área de Proteção Permanente. Durante o tempo em que ficou em exame, o projeto superou 18 ressalvas antes de conseguir sua aprovação por unanimidade pelo Consema.

A urgência desse projeto, prejudicado pela falta de agilidade dos órgãos ambientais e as picuinhas políticas, fica demonstrada pelo fato de que Viracopos cresceu sem parar nesses últimos anos. Só em 2008 e 2010, conforme reportagem do Estado, seu movimento quintuplicou e hoje ele já é o 12.º maior aeroporto do País em número de passageiros e opera voos regulares para importantes cidades, como Frankfurt, Paris e Lisboa.

A lição a se tirar desse caso é que, se os órgãos ambientais e as autoridades de diversos níveis que têm uma parcela de responsabilidade na reforma e ampliação do sistema aeroportuário não agirem com maior presteza, dificilmente se evitará que ele entre em colapso durante a Copa, ou antes mesmo dela. A pouco menos de quatro anos desse evento, o cenário dos nossos aeroportos já é de pátios de aeronaves congestionados e salas de embarque superlotadas.

Dos R$ 6,7 bilhões que a Infraero teve para investir no período de 2003 a 2010, só R$ 2,65 bilhões - ou 39,6% - foram efetivamente gastos. Por aí se vê que, muito mais do que recursos, o que tem faltado para a solução do problema é agilidade na aprovação de projetos e competência gerencial para executá-los. E falta muito pouco tempo para corrigir os erros.

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