sábado, outubro 02, 2010

Arte

“Delenda Est Katharsis”, de Wesley Duke Lee

Coluna do Mirisola

A era dos carunchos

“Zé Dirceu deve ter se urinado de rir das “advertências” e da histeria dos bedeis-editorialistas”

Marcelo Mirisola*
Quando os instintos prevalecem sobre a inteligência, a inteligência apela aos instintos. Foi isso o que aconteceu depois do diagnóstico quase preciso que o presidente Lula fez sobre veículos de massa e a massa propriamente dita: o primeiro magistrado da nação disse que, hoje em dia, o governo dele é quem formava opiniões.

A massa de eleitores que vai eleger Dilma Rousseff provará que Lula – infelizmente - está certo. A meu ver, o que mais irritou a “mídia” acusada pelo presidente de ser “partidária” foi o fato de que, depois de todo o bombardeamento sofrido pelo governo, e de todas as cabeças que rolaram e, depois dos escândalos revelados ao grande publico através dos jornais, televisão, rádio, internet e de todos os meios de “formação” de que dispunham, depois disso tudo, não houve e nem haverá reação significativa por parte do grande eleitorado “formado” por Lula, que acabará derrotando (tanto faz se no primeiro ou no segundo turno) não a oposição, mas os jornais e revistas que, segundo o presidente, comportam-se como partidos políticos.

O Estadão admitiu que faz campanha para José Serra. Mandou a pluralidade, a imparcialidade e a hipocrisia para o espaço sideral. Uma atitude corajosa. Ou uma escorregada exemplar. Os outros, que perderam o pudor e a continência, deviam também perder a timidez e seguir o jornal paulista.

Mas o que eu penso é o seguinte: a “ordem democrática” - como ameaçam os editoriais - não sofreu e não sofrerá nenhum arranhão por conta do “destampatório” de Lula. Aliás, essa linguagem embotada e embolorada que os “formadores de opinião” recuperaram nas últimas semanas é curiosa, remete a um tempo em que jornalistas andavam armados e matavam ou morriam por seus “ideais”. Nos dias de hoje, bradar que é “preciso estabelecer limites” soa no mínimo como uma extravagância: uma vez que o Brasil não é mais um país de bacharéis pistoleiros (tampouco de idealistas), e Lula, convenhamos, está mais para Shrek do que para Epitácio Pessoa. A impressão que dá é que os jornais e as revistas confessam suas respectivas anemias e falta de conexão com o século XXI. De repente, levados pela onda espírita que paira no ar, os periódicos voltaram ao passado do quartel dos Barbonos; e o mais surreal é que os aspirantes a defuntos estão, eles mesmos, escrevendo seus obituários - e o pior, vestem todas as carapuças, abocanham todas as iscas e são pautados por Lula, o presidente boca de esgoto. Que – vejam só - por obra de um destino safado e corrompido, foi além: acabou virando um estadista. A figura pública de maior proeminência no Brasil de todos os tempos. Aqui e alhures. Uma piada dentro da outra.

Domingo passado, 26/9, em editorial de primeira página, a Folha de São Paulo mandou até cartinha de advertência (lembrei dos meus tempos de ginásio, mamãe vivia recebendo essas cartinhas...) a Lula e a Dilma, futura presidente do Brasil, como se o jornal encerrasse todas as pluralidades e encarnasse não somente a liberdade de expressão e a democracia no país, mas também a figura do pai de família que perdeu o respeito (leia-se: deixou de formar opiniões) na própria casa. Um baita mico, especialmente o trecho final: “Fiquem advertidos, porém, de que tais bravatas somente redobram a confiança na utilidade pública do jornalismo livre (...) Fiquem advertidos (...) etc etc”.

Zé Dirceu deve ter se urinado de rir das “advertências” e da histeria dos bedeis-editorialistas. Inocentes. Só faltou o jornal perguntar: “Quem rabiscou caralhinhos voadores no banheiro?” - “Sete Gatinhos”, lembram?

Na mesma edição, de 26/9, provando que Lula não está inteiramente errado, a Folha desqualificou a internet numa matéria que falava sobre o “céu” e o “inferno” dos candidatos na cobertura de tevês, rádios e na própria internet, claro. Nessa matéria, curiosamente os jornais e revistas ficaram de fora ( julgam-se acima do bem e do mal). Mas a realidade provada por Lula e pela massa de eleitores que vai eleger Dilma é bem diferente. Na verdade, jornais e revistas encontram-se num limbo irrevogável e doentio. Não bastasse, a Ombudsman da Folha também concordou com o diagnóstico quase preciso de Lula, e escreveu: “Os críticos à Folha têm razão quando afirmam que o noticiário está mais negativo a Dilma do que a Serra – embora seja preciso considerar que ela é a favorita. Algumas denúncias surgiram com força e depois se perderam em um certo vazio, como o escândalo da quebra do sigilo fiscal. No afã de esmiuçar a biografia da candidata do governo, fatos sem importância ganharam destaque indevido”.

Agora resta saber como Dilma reagirá aos achaques dos “donos da informação”. Creio que não vai reagir atabalhoadamente como Lula. Por que o faria? Há muito que a informação virou veneno de si mesma. Ou melhor, há muito que a informação se parece mais com Lula do que com qualquer outra coisa no Brasil. Basta ligar a tevê e abrir os mesmos jornais e revistas que se escandalizam com o “estado das coisas” e constatar que Ivete Sangalo, Ronaldinho, Faustão e congêneres são desdobramentos de Lula e vice-versa. Seguindo essa linha de raciocínio, chegamos à conclusão de que Dilma poderia perfeitamente ter saído da costela do Tiririca.

Há pelo menos 20 anos (desde que as duplas sertanejas subiram a rampa do Palácio do Planalto), esse lixo ou “coisa nenhuma” ocupou100% do território da recém-descoberta e disputada Faixa de Gaza tropical.

A meu ver, o que sugeriria um eventual conflito entre governo e a tal da “mídia golpista” nada mais é do que uma disputa pelo fundo do poço. Qual a diferença de chamar Banda Calypso ou Conselho Público de Fiscalização? Os adversários disputam o pântano. Porque a vaca já foi para o brejo. E eu fico aqui pensando com os meus botões: depois de penhorar a alma prum diabo de quinta categoria, agora os senhores da informação gritam por liberdade de expressão e democracia, e sentem-se ameaçados?

Imagino que não deva ser nada fácil passar de uma condição a outra. O JB, que chegou antes ao futuro (e virou notinha na wikipédia) que o diga. Creio, portanto, que os “donos da informação” sentirão saudades de Lula e de sua boca de esgoto.

De qualquer forma, eles têm todo o direito de espernear e dar vexame. A questão é: o que alegariam em seus epitáfios? Apesar disso tudo, e porque a liberdade e a democracia tem um significado meramente retórico e decorativo, nada – a não ser a lona e o circo – nada vai mudar no alegre pântano chamado Brasil.

* Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

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Opinião

Os precatórios na OEA

O Estado de S.Paulo - Editorial
A maneira irresponsável como Estados e municípios tratam habitualmente dos pagamentos de dívidas e obrigações financeiras reconhecidas pela Justiça - os chamados precatórios - levou a uma situação insólita.

Alegando que o descumprimento das sentenças judiciais, pela prefeitura de Santo André, deixou vários credores idosos sem recursos financeiros para custear tratamentos médicos, o que acabou resultando na morte de vários deles, um escritório de advocacia daquela cidade levou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington. Os advogados argumentam que a inadimplência dos precatórios é uma forma de violação de direitos e garantias protegidos pelo Sistema Interamericano de Direitos Humanos, pois a protelação dos pagamentos "é eternizada até a morte dos credores".

Embora tenha sido a prefeitura de Santo André que deu o calote, descumprindo o que a Justiça determinou, o denunciado na Comissão Interamericana de Direitos Humanos foi o Estado brasileiro. O processo foi aberto em 2006 e ainda está na fase de admissibilidade. Nesta semana, as partes tiveram de apresentar as informações solicitadas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Caso a denúncia seja acatada pela Comissão, um órgão da OEA, o Brasil pode responder por crime de violação de Direitos Humanos. E, se for condenado, pode ser proibido de receber recursos de órgãos multilaterais e agências de fomento, como o BID.

Em 1994, o escritório de advocacia entrou com uma ação coletiva contra a prefeitura de Santo André, em nome de 3 mil servidores aposentados que pediam a revisão de suas aposentadorias. O processo tramitou durante oito anos, até o julgamento do mérito em caráter definitivo. A Justiça deu ganho de causa aos 3 mil servidores, mas eles jamais receberam um centavo. Com juros e correção monetária, o valor da ação coletiva já ultrapassa os R$ 200 milhões.

No ofício enviado à Comissão, o escritório de advocacia reproduziu tudo o que os jornais publicaram durante anos, até a entrada em vigor da Emenda Constitucional (EC) n.º 62, em dezembro de 2009, que estabeleceu regras mais rigorosas - mas nem por isso justas - para o pagamento de precatórios. O escritório mostrou a morosidade com que o processo tramitou nas diferentes instâncias judiciais, descrevendo os recursos protelatórios que a prefeitura de Santo André utilizou para tentar adiar o julgamento final. Além disso, enviou certidões de óbito de credores e laudos médicos de servidores portadores de doenças graves. Os advogados lembraram ainda que a prefeitura até hoje não incluiu a dívida no Orçamento, como determina a Constituição, e também não teria cumprido nem mesmo as disposições da EC n.º 62, que favoreceu os devedores em detrimento dos credores.

Entre outras alegações, a prefeitura afirmou não dispor de recursos suficientes para honrar as dívidas judiciais. Também argumentou que, se fosse obrigada a cumprir as determinações do Judiciário, os serviços essenciais da cidade ficariam comprometidos. E, após ter sido condenada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, em setembro de 2002, passou a criar dificuldades na fase de execução. E, assim, vários credores em idade mais avançada morreram sem receber seus créditos alimentares, apesar de terem sido vitoriosos na Justiça.

"Quantos anos mais serão necessários para acabar com todos os credores, já no fim de suas vidas? É possível admitir a morte de 204 servidores, em 1994, como sequelas do ato omissivo da municipalidade? Dos funcionários que restam, muitos precisam de empréstimos bancários para pagamento de tratamentos médicos, sendo que possuem créditos para receber", diz o ofício enviado pelo escritório de advocacia à Comissão da OEA.

Depois de se converter numa afronta ao Estado de Direito, o não pagamento dos precatórios, pelos Estados e municípios, agora se transformou num problema internacional que prejudica a imagem do País.

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Manchetes do dia

Sábado, 02 / 10 / 2010

Folha de São Paulo
"Aliado de líder do governo joga pela janela R$ 100 mil"

Voluntário da coligação de Juca diz que PF o 'assustou'; senador nega envolvimento

A Polícia Federal de Boa Vista (RR) apreendeu R$ 100 mil em espécie jogados de um carro que acabara de sair do escritório de Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado e candidato à reeleição. O dinheiro estava com o empresário Amarildo da Rocha Freitas. Freitas, voluntário da coligação de Jucá e irmão do deputado Urzeni Rocha (PSDB), disse a PF que recebeu um envelope do senador logo antes da chegada da polícia, sem saber o que ele continha -"assustado" pela abordagem, jogou o envelope para fora do carro. Jucá, que já foi líder do governo Fernando Henrique Cardoso e ministro da Previdência de Lula, negou qualquer vínculo com o dinheiro. Segundo ele, a PF fez fiscalização de rotina, "motivada por denúncias infundadas da oposição", e não achou nada.

O Estado de São Paulo
"Indefinição jurídica atinge 1.248 candidatos na eleição"

Casos não se limitam a fichas-sujas, e votos podem ser desconsiderados, criando situação de insegurança

Os números do Tribunal Superior Eleitoral mostram que, até a tarde de ontem, 1.248 dos 22.555 candidatos, considerando todos os cargos em disputa na eleição de amanhã, tiveram o registro negado e terão o voto neles registrado, mas podem ficar sem diplomação. Nem todos foram barrados pela Lei Ficha Limpa. Estão incluídos, por exemplo, casos de prestação de contas rejeitadas pelos tribunais. Até hoje, o TSE poderá analisar algumas situações pendentes. Entre os 172 candidatos a governador nos Estados, 15 estão em situação indefinida. Anteontem, o tribunal deu o seu aval a candidatura de Jackson Lago (PDT-MA) ao governo do Maranhão e a de Ronaldo Lessa (PDT-AL) ao governo de Alagoas, - que passaram a campanha toda classificados como "fichas-sujas". "O País está vivendo uma enorme insegurança jurídica", afirmou o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP).

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sexta-feira, outubro 01, 2010

Meu tio

Coluna do Celsinho

Maionese

Celso de Almeida Jr.
Tenho muitos amigos com problemas no giroscópio.

Não regulam direito.

Observando isso, lembro a frase:

“Diga-me com quem andas que te direi quem és.”

Aplicada ao caso, revela-me o que eu temia.

Devo bater pino também.

Evitando constrangimentos, dirijo-me aos amigos normais.

Não escrevo sobre vocês, aos quais registro a profunda gratidão por aceitarem o meu jeito.

Falo dos malucos, que me atraem e me confundem.

Como posso admirá-los?

Em sã consciência, não sei.

Talvez por despertarem o riso.

O inusitado, o fora de série, o incomum têm lá certa magia.

Mas, aparentemente, meu bom senso ainda funciona.

Não posso transferir responsabilidades para tais figurinhas, por mais divertidas que sejam.

Lógica razoável, boa para o momento vivido.

Eleição no domingo, loucos disputando, chance de escolher.

Que eu viaje na maionese, tudo bem.

Mas não devo contribuir para eleger doidos varridos, principalmente os declarados.

No pós eleição, vamos conferir quantos não pensam assim.

Até lá!

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Opinião

O mundo róseo do BC

O Estado de S.Paulo - Editorial
Nem tudo é perfeito neste reino de prosperidade e tranquilidade econômica, mas é preciso ler com muito cuidado o novo Relatório de Inflação, divulgado na quinta-feira pelo Banco Central (BC), para encontrar algum sinal de preocupação ou de alerta. Exceto por alguns detalhes, o texto poderia ter sido impresso em papel cor-de-rosa. Segundo o relatório, a inflação cede e deve bater quase no centro da meta em 2011. As contas públicas vão bem, favorecidas pela expansão da economia, estimada em 7,3% neste ano. O buraco nas transações correntes continua aumentando, mas será facilmente coberto com o ingresso de capitais, em 2010 e no próximo ano. O descompasso entre o crescimento do gasto federal e o da receita não parece incomodar. A mudança no financiamento externo, agora mais dependente de dinheiro especulativo, aparece nas tabelas, mas não é discutida. No caso dos preços é apontado só um risco importante - mercado de trabalho aquecido e com aumentos salariais acima dos ganhos de produtividade.

O exame das contas públicas é interrompido em julho, provavelmente porque os números de setembro só foram fechados há poucos dias. Chama a atenção, nessa parte, a ênfase atribuída aos ganhos de receita propiciados pelo aumento da atividade econômica. Não se dá maior atenção ao crescimento dos gastos, principalmente de custeio. Essa expansão é um dado estrutural, porque é parte da política seguida nos últimos oito anos. Essa política também compromete as finanças do próximo governo, pela criação de despesas incomprimíveis.

Também não há referência às lambanças fiscais vinculadas à transferência de recursos ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Essas práticas não só foram mantidas, mas ainda se ampliaram nos últimos dois meses. Têm produzido, entre outros efeitos negativos, a expansão da dívida bruta, mas nada disso parece muito relevante para os autores da análise. Em outros tempos maior atenção foi dada à sustentabilidade fiscal.

No exame das pressões inflacionárias é mencionada, com aparente otimismo, a expansão dos investimentos, com a consequente ampliação da capacidade instalada. Diminui, portanto, o risco do descompasso entre a demanda interna e a capacidade de oferta da economia. O relatório chama a atenção para a oferta mais apertada no mercado de trabalho. Se os salários crescerem mais do que a produtividade da mão de obra, os preços serão pressionados.

Mas o quadro geral é pintado com tons tranquilos, até porque os brasileiros podem recorrer à importação para atender à sua demanda. "As perspectivas", segundo o documento, "apontam continuidade e até mesmo intensificação dessa contribuição externa." Em outras palavras: não haverá problemas importantes à frente, se não ocorrer alguma grande surpresa. Mas essa história tem outro lado.

A "contribuição externa" ao controle da inflação tem ocorrido por meio da valorização do real e do aumento das importações. Segundo as projeções do BC, o superávit comercial ficará em US$ 15 bilhões em 2010 e cairá para US$ 11 bilhões em 2011. Foi de US$ 25,3 bilhões em 2009, quando o déficit em transações correntes chegou a US$ 24,3 bilhões. Para este ano se estima um déficit de US$ 49 bilhões. Para 2011, de US$ 60 bilhões.

Esse buraco tem sido coberto pelos ingressos da conta de capitais, mas a composição desse dinheiro está em mudança. No ano passado, o investimento direto, isto é, destinado ao setor produtivo, bastou, com folga, para compensar o déficit nas transações correntes.

Neste ano, o investimento direto líquido não deve passar de US$ 18 bilhões. Em 2011, irá a US$ 29 bilhões, pelas novas estimativas. Não será suficiente, portanto, para cobrir nem metade do rombo nas contas correntes. O resto será coberto com capitais aplicados em ações e em papéis de renda fixa - capital inseguro, porque pode sair a qualquer momento. O Brasil já dependeu de recursos voláteis em outras ocasiões. Mais de uma vez a história acabou mal. Os autores do relatório não parecem dar importância a essa lição, mesmo diante das incertezas do quadro internacional.

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Manchetes do dia

Sexta-feira, 01 / 10 / 2010

Folha de São Paulo
"TSE vai considerar nulo voto dado a fichas-sujas"

Quadro de eleitos pode ter reviravolta se barrados conseguirem vitória judicial depois

O Tribunal Superior Eleitoral esclareceu em nota que os votos dados a candidatos enquadrados pela Lei da Ficha Limpa serão considerados nulos no domingo. Isso significa que também não serão levados em conta no cálculo das bancadas. A indefinição traz instabilidade, pois o resultado está sujeito a mudança posterior. Se algum campeão de votos impugnado receber sentença favorável mais tarde, sua votação passa a valer e pode causar reviravolta na composição do Congresso. Na eleição passada, os 740 mil votos obtidos pelo ex-prefeito Paulo Maluf, cuja candidatura está barrada, garantiram a seu partido, o PP, mais dois deputados. Levantamento da Folha mostra que 224 candidaturas fora indeferidas nos tribunais regionais eleitorais com base na Lei da Ficha Limpa.

O Estado de São Paulo
"Supremo cancela exigência de 2 documentos para votar"

STF julga ação do PT e decide que eleitor não precisa levar o título, apenas documento com foto

Ao julgar urna ação movida pelo PT no início da semana, o Supremo Tribunal Federal decidiu apenas ontem, por 8 votos a 2, que o eleitor não pode ser impedido de votar caso não disponha do título de eleitor. A exigência havia sido aprovada no Congresso e sancionada pelo presidente Lula. Na sessão do STF, o ministro Gilmar Mendes negou que tenha recebido um telefonema do candidato presidencial José Serra (PSDB) antes de interromper o julgamento do caso, anteontem. Para o tucano, a PT "deve achar que o voto menos controlado o favorece". Já a candidata petista, Dilma Rousseff, considerou que o STF eliminou urna "restrição" que “ia causar muita confusão" para o e1eitor.

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Jornalistas de Ubatuba

Celso Teixeira Leite e Cristiane Zarpelão

quinta-feira, setembro 30, 2010

Ubatuba em foco

Vereador afastado volta à Câmara

Sidney Borges (com dados do "O Guaruçá")
O vereador Gerson "Biguá" de Oliveira volta a assumir seu posto na Cãmara Municipal de Ubatuba. A decisão aconteceu ontem, dia 29, na 12ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. No texto da Liminar consta que a permanência do vereador no cargo não terá desdobramentos na instrução processual.

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Opinião

A desordem cambial

O Estado de S.Paulo - Editorial
Guerra ou não, há uma desordem cambial no mundo e seus efeitos são muito ruins para várias economias, incluída a brasileira. A crise global não acabou. Algumas de suas piores consequências se manifestam agora no comércio internacional. Dólar muito barato e real valorizado encarecem o produto brasileiro, dificultam as exportações do Brasil e abrem espaço para um rápido aumento das importações. Do outro lado do mundo, as autoridades da China mantêm sua moeda subvalorizada. Mais do que nunca, aproveitam essa vantagem para deslocar os concorrentes e aumentar sua presença em todos os mercados. O jogo é pesado. Há poucos dias o governo japonês denunciou a compra de títulos de sua emissão pelos chineses. Estranho protesto? Ao contrário; é muito compreensível, porque um dos efeitos dessa operação financeira seria mais uma valorização do iene, com prejuízo para as empresas do Japão. Enquanto aceitam com prazer a depreciação do dólar, os americanos, coadjuvados pelos europeus e japoneses, continuam pressionando as autoridades de Pequim para permitir a valorização do yuan.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, usou a palavra guerra para descrever a desordem cambial. O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, evitou a palavra ao tratar do mesmo assunto um dia depois, na terça-feira. Mas acrescentou: se o Grupo dos 20 (G-20) não conseguir uma solução coordenada, cada país tentará resolver o problema a seu modo. Em outras palavras: pode não haver guerra hoje, mas haverá uma, em breve, se as maiores potências não eliminarem o descalabro cambial.

Ministros de Finanças do G-20 reúnem-se em Washington na próxima semana, em evento paralelo à assembleia do Fundo Monetário Internacional (FMI). A questão do câmbio estará em sua agenda. Na melhor hipótese, conseguirão rascunhar uma proposta para o encontro de cúpula do grupo, marcado para novembro, em Seul.

Nas duas ocasiões, as principais figuras em cena falarão em nome dos Estados Unidos e da China. Promessas de cooperação já ocorreram em reuniões anteriores, quando se discutiram ações para reequilibrar a economia mundial. Os grandes emergentes deveriam aumentar suas importações e depender mais do mercado interno para o crescimento econômico. A China cumpriu parcialmente esse papel, neste ano, mas, como sua moeda continuou subvalorizada, os produtores chineses continuaram levando uma grande vantagem na competição global. O Brasil pagou um preço muito mais alto, porque foi afetado tanto pela depreciação do dólar como pela manutenção do yuan artificialmente subvalorizado.

O Brasil não deve pagar pelo desequilíbrio mundial, disse em Londres o presidente do BC. Não deve, mas está pagando. O BC tem comprado volumes enormes de dólares, em parte com o objetivo de atenuar a instabilidade cambial. O estoque de reservas do Brasil cresceu 23% desde setembro do ano passado, passando de US$ 221,6 bilhões para US$ 273 bilhões. Somente a Suíça tem acumulado reservas com maior rapidez - 177% até junho.

Talvez o real estivesse mais valorizado sem essas operações, mas o desajuste continua muito grande. Não só pelos juros, mas também pelo crescimento econômico, o Brasil continua atraente para os aplicadores internacionais, como foi ressaltado esta semana pelo Financial Times.

O próximo passo poderá ser um novo aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) cobrado no ingresso de capitais de curto prazo, como já foi admitido tanto pelo ministro da Fazenda quanto pelo presidente do BC. Esse tipo de intervenção, justificável em algumas ocasiões, tem normalmente consequências indesejáveis, a começar pelo encarecimento do capital. Mas o governo brasileiro não poderá ficar parado, enquanto a desordem global não for combatida. Terá de continuar intervindo no câmbio, como puder e enquanto tiver munição. Produziria efeito maior e mais duradouro se eliminasse outros obstáculos à competitividade - como custos numerosos, bem conhecidos e mais altos no Brasil do que na maior parte dos concorrentes. Mas Brasília não fez isso nos últimos oito anos e não fará nos próximos três meses.

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Manchetes do dia

Quinta-feira, 30 / 09 / 2010

Folha de São Paulo
"Dilma interrompe queda"

Mercadante sobe e reduz vantagem de Alckmin, que tem 54% dos votos válidos. No RS, distância entre Tarso Genro e rivais diminui e torna o 1º turno indefinido

A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, estancou a tendência de perda de votos dos últimos 20 dias e mantém seu favoritismo. Segundo pesquisa nacional Datafolha feita ontem e anteontem, Dilma oscilou positivamente um ponto e tem 52% em votos válidos. José Serra (PSDB) variou um ponto para baixo e ficou com 31%, mesmo movimento de Marina Silva (PV), que passou de 16% para 15%. Os rivais de Dilma somam 48% dos votos válidos; ela precisa de 50% mais um para vencer já neste domingo. Como a margem de erro é de dois pontos, é impossível afirmar com segurança que não haverá segundo turno. Cenário similar se repete no RS, onde a vantagem de Tarso Genro (PT) sobre os adversários caiu e ele tem 52% dos votos válidos; na pesquisa gaúcha , porém, a margem de erro é de três pontos. Em SP, a vantagem de Geraldo Alckmin sobre Aloizio Mercadante diminuiu seis pontos: o petista subiu para 29% e o tucano recuou para 54%, mas ainda venceria no primeiro turno se a eleição fosse hoje.

O Estado de São Paulo
"Polêmica do aborto faz Dilma se explicar a líderes cristãos"

Petista diz que nunca defendeu interrupção de gravidez; para Marina, ela mudou

Preocupada com a perda de votos entre cristãos por causa de polêmica sobre o aborto, a candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT) reuniu padres e pastores para dizer que nunca defendeu a interrupção da gravidez. Dilma disse que a confusão é "vilania" de quem está perdendo a eleição. A polêmica é alimentada por declarações dadas por Dilma em outras ocasiões. Marina Silva (PV) afirmou que a petista "já disse que era favorável e depois mudou". 0 bispo Edir Macedo disse que o "jogo do diabo" a difusão de texto que atribuía a Dilma declaração de que "nem mesmo Cristo” lhe tiraria a vitória.

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quarta-feira, setembro 29, 2010

Arte

Aldemir Martins - Gato, 1968 (54 x 73 cm) Acrílico sobre tela

Deu em O Globo

Mudança de vento

Merval Pereira
As atitudes erráticas do presidente Lula nesses últimos dias de campanha eleitoral denotam que os estrategistas da candidata Dilma Rousseff estão tentando digerir as informações contraditórias que chegam com as últimas pesquisas, mostrando uma perda contínua de votos em 15 dias. Ao mesmo tempo em que recuou nos seus ataques à imprensa em determinado momento, diante da constatação de que o clima de animosidade por ele deflagrado estava provocando reações negativas em setores da sociedade, o presidente retornou ao início da campanha, quando valorizar o passado de guerrilheira de Dilma era importante para garantir o apoio da esquerda do partido à neófita política escolhida para ser a "laranja" eleitoral de Lula.

Se os ataques aos meios de comunicação para tentar desqualificar as denúncias que provocaram a demissão da chefe do Gabinete Civil Erenice Guerra produziram inicialmente efeito negativo no eleitorado mais escolarizado e de maior renda, esse efeito hoje já se espalha por todos os setores da sociedade, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, demonstrando que as questões morais e a radicalização política afetam diretamente o setor do eleitorado mais preocupado com o equilíbrio institucional do país.

O elogio da radicalização política que Lula fez no comício de segunda-feira em São Paulo, exaltando o lado guerrilheiro de sua candidata, também incomoda essa classe média, especialmente a ascendente.

O objetivo imediato do presidente parece ser conter uma debandada de parte do eleitorado de esquerda que, desiludido com mais uma leva de escândalos envolvendo a gestão do PT, e mais uma vez no Gabinete Civil no Palácio do Planalto, estaria engrossando as fileiras da candidata verde Marina Silva.

É interessante constatar como a questão moral, que parece nunca atingir o presidente Lula diretamente, alcança inapelavelmente o PT nas últimas campanhas eleitorais.

Em 2006, quase que Lula não encontra ambiente político para se recandidatar por conta do mensalão. No auge do caso, em 2005, a popularidade do presidente caiu vertiginosamente, e as repercussões chegaram até a campanha no ano seguinte.

O caso dos "aloprados" veio apenas relembrar o escândalo do mensalão na reta final da campanha de 2006, provocando a ida da disputa para o segundo turno. Mais uma vez Lula recuperou-se do baque e conseguiu levar sua campanha a uma vitória vigorosa, ainda mais que o candidato tucano Geraldo Alckmin acabou tendo menos votos no segundo que no primeiro turno.

Agora, quando o marasmo da campanha eleitoral parecia levar a uma vitória tranquila no primeiro turno de Dilma Rousseff, dois novos escândalos trouxeram os debates políticos para um campo menos amorfo, fazendo com que setores da sociedade acordassem para o debate político. O presidente Lula escolheu a maneira errada de tentar desqualificar as denúncias contra Erenice Guerra, que pegam diretamente em Dilma Rousseff, sua protetora.

Ao levar para os palanques críticas aos meios de comunicação e garantir à população que as acusações eram mentirosas, Lula incentivou seus "aloprados" a desferir uma guerra contra a imprensa dita tradicional, e uma resposta imediata a favor da liberdade de expressão e da democracia foi articulada por representantes da sociedade civil do calibre de D. Paulo Evaristo Arns e Hélio Bicudo.

O manifesto, que protesta contra diversos indícios de autoritarismo do governo, inclusive a quebra de sigilos fiscais de pessoas ligadas ao candidato oposicionista José Serra, teve uma aceitação alta da sociedade e já tem mais de 50 mil assinaturas pela internet.

A confirmação, ontem, de que também o sigilo bancário do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas, foi quebrado no Banco do Brasil remete a métodos utilizados anteriormente por membros do governo contra o caseiro Francenildo Pereira, que teve seu sigilo bancário na Caixa Econômica violado a mando do presidente da instituição na ocasião, Jorge Matoso, para conseguir dados que, supunha, poderiam ajudar na defesa do então ministro da Fazenda Antonio Palocci.

O conjunto da obra é nada edificante para o PT e demonstra publicamente como o aparelhamento da máquina estatal por sindicalistas e filiados ao PT e a partidos aliados ao governo significa, na prática, muito mais que a simples ineficiência do Estado, uma ameaça para os cidadãos. É esse quadro que está mexendo com os votos do eleitorado, em todas as regiões do país e em todas as estruturas sociais.

A candidata oficial, Dilma Rousseff, ainda vence, mas está vendo sua vantagem sobre a soma dos dois outros concorrentes ser reduzida a cada dia nas últimas duas semanas.

Já está caracterizada uma tendência de queda de sua candidatura, ao mesmo tempo em que a candidata do Partido Verde, Marina Silva, tem uma ascensão na mesma proporção, começando a ganhar a simpatia dos indecisos e partindo para ganhar fatias do eleitorado que hoje está com Dilma.

Marina acredita que a onda verde seja forte o suficiente para levá-la para o segundo turno, superando o candidato tucano José Serra.

Para tanto, porém, terá que arrancar do eleitorado de Dilma os pontos necessários, o que a levará a atacar mais fortemente a candidata oficial no último debate, amanhã, na TV Globo.

A reta final de uma eleição que até agora é a mais modorrenta dos últimos tempos tem ingredientes para ser muito excitante.
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Opinião

A derrota de Chávez

O Estado de S.Paulo - Editorial
O autocrata venezuelano Hugo Chávez havia definido a eleição legislativa do último domingo em seu país como um "plebiscito" sobre o seu governo e prólogo do pleito presidencial de 2012, quando disputará o quarto mandato desde 1998. Ele prometeu "massacrar" a oposição e "ganhar por nocaute". Não só não conseguiu nada disso, como sofreu um estrondoso revés político.

É verdade que a legenda chavista, o Partido Socialista Unificado de Venezuela (PSUV), obteve 98 das 165 cadeiras da Assembleia Nacional, ao passo que a oposição, a Mesa de Unidade Democrática (MUD) constituída por 18 partidos, ficou com 65. Mas esse resultado privou Chávez da maioria de 2/3 que lhe permitiria aprovar leis orgânicas e mudanças constitucionais - e, no limite, governar por decreto.

Era o que vinha fazendo com incontestada desenvoltura desde que a oposição cometeu o erro histórico de boicotar a eleição parlamentar de 2005, para não legitimar o que previa ser uma fraude. Sem adversários - e com um comparecimento às urnas de ridículos 25% -, o caudilho teve às suas ordens um Legislativo 100% chavista, reduzido a uma repartição do Palácio Miraflores, a sede do Executivo. Com o tempo, 10 deputados formaram uma dissidência que, evidentemente, não freou a descida da Venezuela para o regime liberticida do "socialismo do século 21".

Quando se deu conta de que não teria a mesma sorte no pleito seguinte, Chávez preparou uma cama de gato para os adversários. Fez aprovar uma nova demarcação dos distritos eleitorais - o sistema venezuelano é o distrital -, para aumentar a representação das áreas chavistas e vice-versa. Para se ter uma ideia, num Estado rarefeito, de maioria governista, passaram a bastar 20 mil votos para eleger um congressista, ante 400 mil num Estado populoso, simpático à oposição. A mudança nas regras do jogo não foi tudo.

O governo reteve o repasse de verbas para as regiões governadas por oposicionistas, transformou legiões de servidores públicos em cabos eleitorais, com abundante infraestrutura, e deu aos candidatos de seu partido praticamente o monopólio da propaganda nas emissoras estatais. Sem falar na multiplicação de sua presença nos comícios do PSUV, religiosamente reproduzida na TV chavista. Chega a ser uma proeza, portanto, o desempenho eleitoral da oposição, refletindo a erosão do prestígio de Chávez.

Com uma taxa de comparecimento de 67% - um indicador do ânimo mudancista do eleitorado em países, como a Venezuela, onde o voto é facultativo -, a frente de oposição obteve, segundo uma contagem extraoficial, 5,4 milhões dos votos válidos, cerca de 190 mil a mais do que a situação. A manipulação das regras eleitorais explica por que os 46% de votos populares pró-Chávez se transfiguraram em 59% das cadeiras na Assembleia e por que os 48% conquistados pela oposição nas urnas não lhe deram mais de 39% das vagas. Estima-se que apenas a remarcação dos distritos adicionou à bancada chavista 30 deputados.

Não há muito mistério no avanço oposicionista. O governo é um rematado desastre. Na contramão da América Latina, a Venezuela está há 15 meses em recessão. A inflação anual é da ordem de 30% e a acumulada nos 11 anos de chavismo chega a 733%, o desemprego é descomunal (cresceu 42% no último ano e meio) e a desigualdade voltou a se agravar. Faltam energia e alimentos. Sobram corrupção e incompetência: 130 mil toneladas de gêneros importados apodreceram nos portos do país. Por fim, a criminalidade atinge níveis aterrorizantes. A violência mata uma pessoa a cada meia hora.

O que não está claro é o que Chávez vai fazer de sua derrota política. Ele tem uma janela de oportunidade de 3 meses - a nova Assembleia só assumirá em janeiro - para se conter ou desembestar de vez, fazendo aprovar nesse período o que queira. Notadamente, a Lei das Comunas, unidades administrativas ditas autônomas, porém diretamente ligadas ao Executivo. Além da reorganização político-territorial do país, poderá surgir uma "assembleia comunal" para retirar poderes do Legislativo. "Chávez é hoje uma fera acuada", compara um observador estrangeiro em Caracas. "Nessas condições, é ainda mais imprevisível."

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Manchetes do dia

Quarta-feira, 29 / 09 / 2010

Folha de São Paulo
"Dilma tenta frear perda de voto com apelo à militância"

Presidente 40 Eleições 2010 Candidata muda estratégia após queda de 6 milhões de virtuais eleitores em 2 semanas

A ameaça de segundo turno fez a campanha de Dilma Rousseff (PT) reforçar a mobilização nos Estados e acionar o presidente Lula para uma nova participação no horário eleitoral. A candidata apelou à militância, pedindo "para não esmorecer" e disputar voto a voto. O PT identificou três motivos para a queda: o clima de "já ganhou", o caso Erenice Guerra e boatos entre religiosos de que Dilma aprova o aborto e o casamento gay. Cálculo baseado na mais recente pesquisa do Datafolha revela que a petista teve perda de cerca de 6 milhões de votos em duas semanas. Mais da metade (cerca de 3,6 milhões de eleitores) se concentrou na classe C. As pessoas com renda familiar mensal entre 2 e 5 salários mínimos (R$ 1.020 e R$ 2.550) são exatamente a parcela da população mais beneficiada pelas políticas econômica e social do presidente Lula.

O Estado de São Paulo
"Chance de 2° turno altera estratégias das campanhas"

Petistas preparam reação à queda de Dilma, Serra prefere cautela, e Marina ataca os dois na reta final

A quatro dias da eleição, pesquisa Datafolha que aponta a possibilidade de a disputa presidencial ser levada para o segundo turno alterou a estratégia das campanhas, que se intensificaram. No comitê de Dilma Rousseff, dirigentes reconhecem que ela sofreu um revés - segundo a pesquisa, a vantagem da petista sobre a soma dos demais candidatos caiu de sete para dois pontos porcentuais, e ela teria, agora, 51% dos votos válidos. O presidente Lula se reuniu com a cúpula da campanha para dar o tom da reação. Já entre os tucanos, a intenção agora é que José Serra seja cauteloso, para não interferir na aparente tendência de queda de Dilma. Para eles, um eventual segundo turno não será resultado da campanha de Serra, mas de fatores externos, e ela terá de ser modificada. Marina Silva (PV), por sua vez, passou a atacar tanto Dilma quanto Serra, embalada por seu crescimento nas pesquisas. O comando da campanha quer caracterizar os dois como iguais e Marina como alternativa.

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terça-feira, setembro 28, 2010

Ubatuba

CRECISP atinge a marca de 100 mil corretores

Credencial ficou para a corretora de Ubatuba-SP

Thabata e o presidente do CRECISP

O CRECISP entregou no dia 21, a credencial de número 100 mil, durante solenidade realizada na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa. Thabata Rossi Ferraz da Silva, que recebeu a carteira com o primeiro CRECI de seis dígitos, se diz muito orgulhosa com o setor e com a atividade que vai exercer. "Para ser um corretor de imóvel de sucesso tem que conquistar a confiança do seu cliente, e isto se faz através da honestidade, ética e muito trabalho", ressaltou. Thabata estudou na escola CEAD de São Paulo e fez o seu estágio na Imobiliária Gobbo de Ubatuba hoje atua como Corretora em São Paulo na SOTHEBY´S International Realty na Av. Europa,660 Jardim Europa fones 11-3065-3333 11- 7875-7919 e 12 9702-2000 ou pelo e-mail thabatarossiferraz@creci.org.br. www.sothebysrealtysp.com.br  siga a Thabata no twitter http://twitter.com/creci100000

Somente no Estado de São Paulo, de janeiro a agosto deste ano, mais de cinco mil corretores de imóveis receberam suas credenciais. O CRECISP chega, assim, aos 100 mil inscritos, fato que se deve, em grande parte, à atividade estar se mostrando muito promissora.

"Chegar aos 100 mil corretores de imóveis é motivo de muita satisfação para o CRECISP", lembrou o presidente da entidade, José Augusto Viana Neto. "Esses seis dígitos nos indicam que a profissão vem se sedimentando ao longo de seus 48 anos de regulamentação. E é certo, também, que com o aquecimento do mercado imobiliário haja um interesse maior pela carreira. Ao chegar aos 100 mil inscritos, a profissão de corretor de imóveis consolida-se como uma das principais atividades da economia paulista."

Thabata aproveitou e agradeceu a Direção da Escola CEAD de São Paulo e o empresário Júlio Carlos Gobbo e equipe pelo estágio na GOBBO Imóveisde Ubatuba.
Fonte: site do crecisp
 
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Avohai - Avô e Pai.

Curtinha


Quem, quando, onde?

Sidney Borges
Ubatuba está fervendo. A corregedoria do MP chegou fazendo perguntas. Muitas perguntas. Vai sobrar para alguém. Só não sei para quem...

If I Fell

Ramalhete de "Causos"

O incréu

José Ronaldo dos Santos
Em meados de 1960, na praia do Sapê, tudo era muito diferente de hoje. A dona Maria Balio morava em frente ao mar. Ao lado de sua casa ficava o cruzeiro, onde está até hoje. Ou seja, segue a tradição portuguesa de dar a conhecer, a quem chegasse pelo mar, que os cristãos já tinham tomado posse do lugar. Depois da estrada ficava o Largo e o comércio ao redor. Calixto, Ângelo e João Pimenta e outros eram os comerciantes. Também por ali estava o posto telegráfico, onde Deolindo trabalhava. Mais adiante, no Porto do Eixo, a pescaria era farta. A isca era catada ali mesmo: na areia grossa se cavava pregoava. No peral dava de tudo.

A capela, desde a passagem da estrada, na década de 1950, foi instalada no começo do caminho para o Sertão da Quina. Seu vizinho era armazém do João Pimenta que, apesar de ser prestativo, dar prendas para os leilões e até acolher o padre, não era de ir à igreja. Eu era pequeno, mas ficava intrigado com tal particularidade. Resolvi perguntar para o meu pai a respeito disso; queria uma confirmação das minhas observações.

- Pai, por que o João Pimenta não vai nunca rezar na capela? Ele não é católico? O senhor o conhece desde pequeno?

- Você reparou nisso, meu filho? É verdade: ele não é de ir em igreja. Pelo que já ouvi dele, desconfio que não segue religião nenhuma. Faz muito tempo que ele está morando aqui, mas ele é gente da praia da Mococa; descende dos antigos fazendeiros do Sertão do Poço Verde.

- Como se chama quem não tem religião, pai?

- É incréu, meu filho.

Se eu perguntei mais coisa não me lembro. Porém, noutra ocasião, quando fui buscar uma pedra de sabão para a mamãe, fiquei escutando, escondidinho, uma conversa entre o padre Pio e o João Pimenta. Tive a impressão que os dois estavam empolgados no bate-boca que nem se importavam se alguém ouvisse ou não. Não peguei o início da falação, mas pude entender melhor, no fim da conversa, o que queria dizer incréu.

Resumidamente o João Pimenta disse que respeitava muito quem seguia a igreja; que gostava dos padres e que até ajudava no que podia, mas não acreditava em nenhuma divindade a não ser no próprio homem. As religiões foram criadas por homens espertos; se constituíram sacerdotes e viviam disso. A pregação era o trabalho deles. Porém, nunca podiam dizer nada que contrariasse seus ouvintes, principalmente aqueles que têm mais dinheiro para ofertas. Essa história que Deus proverá é papo que nem os padres acreditam. Prova disso é que estão sempre esmolando. Nada cai do céu a não ser tempestade com coriscos. Por fim, dando uma sonora risada, quase que gritou: -“Deus me livre de eu acreditar em Deus!”.

Sugestão de leitura: Bom dia, Ubatuba, de Idalina Graça.

Boa leitura!

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Opinião

O STF e a lei da Ficha Limpa

O Estado de S.Paulo - Editorial
A divisão do Supremo Tribunal Federal, no julgamento sobre a possibilidade de aplicação da Lei da Ficha Limpa no caso da candidatura de Joaquim Roriz ao governo do Distrito Federal, é mais uma amostra das dificuldades que o País enfrenta para moralizar a vida pública. Como 228 candidatos de 25 partidos tiveram o registro impugnado pela Justiça Eleitoral, no início da sessão da última quinta-feira os ministros resolveram que a decisão a ser dada ao recurso de Roriz valeria para todos os casos.

O problema é que a Corte não conseguiu chegar a uma decisão de mérito. Com base no princípio da moralidade, cinco ministros entenderam que a Lei da Ficha Limpa poderia ser aplicada no pleito de domingo. E, sob a justificativa de que não poderia ter sido aprovada em ano eleitoral, outros cinco alegaram que ela só pode gerar efeitos em 2012.

Fruto de um projeto de origem popular, com mais de 1,5 milhão de assinaturas, a Lei da Ficha Limpa é um marco na luta contra a corrupção e a impunidade no País. Entre outras restrições, a lei proíbe a candidatura de pessoas com condenação criminal por decisão colegiada da Justiça.

Por isso, quando ela entrou em vigor, em 4 de junho, políticos sem biografia, mas com prontuário policial e um rol de condenações judiciais, bateram nas portas dos tribunais para saber se ela atingiria candidatos já condenados ou se seria aplicada apenas para quem fosse condenado a partir dessa data. Dos candidatos impugnados pela Justiça Eleitoral, Roriz foi o primeiro a levar o caso ao STF.

Funcionando temporariamente com dez magistrados, por causa da aposentadoria do ministro Eros Grau, a Corte ficou dividida entre dois princípios - o da moralidade pública, por um lado, e o da segurança jurídica, que exige respeito ao processo legislativo, por outro. O empate gerou um quadro de incerteza jurídica e a falta de uma decisão judicial se converteu na pior decisão para o cenário político-eleitoral.

Para o desempate, o regimento do STF prevê três possibilidades. A primeira seria esperar a nomeação do ministro que ocupará a vaga aberta pela aposentadoria de Eros Grau. A segunda seria o presidente da Corte, Cezar Peluso, dar o "voto de Minerva". A última possibilidade determina que, com o placar empatado, o pedido seja negado.

Essas três possibilidades, contudo, são inviáveis. No primeiro caso, não há tempo útil para a indicação de um novo ministro e também não faz sentido suspender os julgamentos da Justiça Eleitoral até que o Supremo volte a contar com 11 magistrados. No caso do duplo voto do presidente da Corte, Peluso, que se pronunciou a favor de Roriz, abdicou dessa prerrogativa, alegando que "não tem vocação para déspota". Ele agiu com sensatez pois, como já havia se pronunciado a favor de Roriz e o "voto de Minerva" acabaria beneficiando políticos já condenados por corrupção, isso acabaria provocando grandes discussões políticas e institucionais há menos de uma semana da eleição. E, no caso da terceira possibilidade, a negação do recurso impetrado por Roriz deixaria órfão quem bateu nas portas do Poder Judiciário pedindo uma solução judicial para seu caso. Mas, advertido por seus advogados, ele substituiu sua candidatura ao governo do Distrito Federal pela da mulher. Isso aumentou ainda mais a confusão jurídica, pois alguns ministros do STF acham que o recurso por ele impetrado se extinguiu, enquanto outros entendem que, com base no princípio da repercussão geral, deveriam julgá-lo no mérito antes da eleição de domingo.

Diante do impasse, é difícil saber que caminho o Supremo vai escolher. O que a Corte não pode é deixar o caso sem uma solução, qualquer que seja seu teor. Isso deixaria a Justiça Eleitoral desamparada pela Corte constitucional que tem a prerrogativa de dar a última palavra nas decisões fundamentais do País. Se não se pronunciar até o dia 3 de outubro, o STF poderá ampliar ainda mais a confusão jurídica reinante no processo eleitoral.

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Manchetes do dia

Terça-feira, 28 / 09 / 2010

Folha de São Paulo
"Dilma cai em todas as regiões e crescem as chances de 2º turno"

Petista recua para 51%, dos votos válidos; Marina e indecisos oscilam 2 pontos para cima

A candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT) recuou de 54% a 51% dos votos válidos em cinco dias, mostra o Datafolha. Como a margem de erro e de dois pontos, ela pode ir de 49% - o que levaria ao segundo turno- a 53% - o que dispensaria nova votação. Com rejeição recorde (27%), Dilma perde votos ou oscila negativamente em todos os estratos da população. Uma das maiores baixas (5 pontos) se deu entre os que recebem de 2 a 5 salários mínimos (R$ 1.020 a R$ 2.550) – 33% da população está nessa faixa de renda. Considerados só os votos válidos, o tucano José Serra variou de 31% para 32%. Marina Silva (PV), de 14% a 16%. A diferença entre Dilma e os demais candidatos caiu de 14 pontos - há duas semanas, quando surgiu o escândalo na Casa Civil, para apenas 2.

O Estado de São Paulo
"Chávez sai enfraquecido das urnas na Venezuela"

Bancada governista já não tem maioria qualificada para aprovar projetos sem negociar com oposição

O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), do presidente Hugo Chávez, elegeu ao menos 98 dos 165 deputados da Assembléia Nacional na votação de anteontem. 0 resultado, abaixo da meta de 110, deixa o chavismo sem a maioria necessária para ratificar as medidas que visam a instalar no país o "socialismo do século 21". Assim, pela primeira vez desde 2005 quando a oposição boicotou a eleição legislativa -, Chávez terá de negociar a aprovação de emendas constitucionais. A bancada do PSUV só foi obtida em razão de mudanças na lei eleitoral, que permitiu aos chavistas terem mais deputados mesmo tendo menos votos - a oposição diz ter obtido 52% dos sufrágios, numa eleição com 70% de participação. “Somos maioria", festejou a Mesa de Unidade Democrática, que reúne forças antichavistas e levou 65 cadeiras.

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segunda-feira, setembro 27, 2010

De olhos abertos...

Vida besta

Zézinho, Ricardo, Cidinha...

Sidney Borges
Conheço o Zézinho desde 1954, ele até foi foi comigo visitar a Crush em 1955, na excursão da "Escola Mista São Pedro do Pari". Depois da infância continuei a vê-lo esporadicamente no cartório onde ele trabalhou até se aposentar. Adultos, ficamos mais de 30 anos sem nos ver até que um dia ele teve a idéia de fazer uma página na internet sobre o bairro do Pari, onde fomos criados.

Durante meses visitei a página, até esquecer a senha.

Há algumas semanas recebi um e-mail informando da morte do Jerônimo Ricardo Simone, meu amigo de adolescência, com quem travei feroz polêmica sobre o local do nascimento de Shakespeare.

Eu dizia Stratford-on-Avon, ele Stratford-upon-Avon. Ficamos sem nos falar por algum tempo até descobrirmos a dualidade onda-partícula. Ele então gentilmente me apresentou Dave Brubeck e deixamos a polêmica de lado.

Fiquei triste quando soube da morte do Ricardo, eu queria saber mais e não tinha a senha do site para falar com o irmão dele, preparei-me para pedir socorro pro Zézinho.

Súbito chegou a notícia. O Zézinho morreu.

Sem mato e sem cachorro, recorri à minha amiga Cidinha, com quem costumo trocar impressões literárias. Certamente ela me daria detalhes das mortes prematuras.

Chamei-a no Skype. Ela não atendeu. Tornei a chamar, sem resposta. Na quarta feira passada, dia 22, recebi  um recado:

Sidão, tudo bem? Falei com meu marido ontém, ele disse que vc. tem me chamado. Estou fora, passeando um poquitito e hablando  portunhol.

Volto dia 28. O programa está corrido, e tenho tido pouco tempo pro netbook.

Beijão e até.

Ontem pela manhã, logo cedo a Yara ligou chorando:

A Cidinha teve uma parada cardíaca em Foz do Iguaçu e não resistiu.

Estou perplexo.

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Escada a lápis

Brasil

O corpo de Lula e o pacto social

Além de brindar os ‘mais pobres’ no projeto político, presidente tratou de cooptar os ‘muito ricos’

Tales A. M. Ab'Sáber (original aqui)
Lula deu início a seu governo declarando de modo desafiador e irônico que surpreenderia fundamentalmente tanto a direita quanto a esquerda. Afora o que há de autocomplacência lépida e demagogia comum na frase, de resto dimensões narcísicas do discurso que o político e seu governo jamais aboliram, há nela, em seu fundo, uma verdade política explícita forte, que acabou por se confirmar historicamente.

O principal da frase não é seu tom paradoxal e triunfante, a célebre tendência falastrona do presidente, da qual ele próprio é autoconsciente, mas a clara referência a fazer uma política que intervenha nos dois polos opostos da vida nacional, o claro desejo de articular os extremos em seu governo, e desde já podemos dizer, em seu corpo, de modo a que as posições políticas limites acabassem por suspender, rever e inverter seus próprios critérios, uma a favor da outra. E de fato este projeto foi desenvolvido, consciente ou inconscientemente, de modo determinado e por golpes do acaso, ao longo de seus dois governos.

Esse foi o paradoxo social e político do governo Lula.

Ele foi expresso em duas dimensões: uma, junto à massa de pobres que aderiu pessoalmente ao presidente, como lulismo; outra, como pragmatismo e grande liberdade liberal, tanto para a economia quanto para os velhos e bons negócios da fisiologia e do amplo patrimonialismo brasileiro mais tradicional.

O fato de um novo grupo, o do partido do presidente e dos sindicalistas ligados a ele, adentrar o velho condomínio do poder não representava problema suficiente para as velhas estruturas de controle político nacional, ainda mais se isso significasse, como acabou por se confirmar, o fim da tensão classista e contestatória própria à tradição histórica petista.

O fim incondicional da perspectiva de luta de classes do Partido dos Trabalhadores, e sua adesão enquanto partido no poder à tradição política imoral e particularista brasileiras, foi o primeiro e muito importante movimento político realizado pelo governo Lula, em sua busca de consenso em todo o espectro da vida social brasileira.

Derrotado o próprio habitus de oposição de seu partido, que chegava ao poder através do corpo transferencial - ou seja, amoroso - de Lula, realizou-se sua primeira grande mágica política: a dissolução de qualquer oposição real ao próprio governo.

Isso por que, de fato, o segundo muito claro e ainda mais fundamental golpe, este de caráter econômico, simplesmente deixou a oposição à direita do governo durante anos sem objeto e sem discurso, para além de sua tradicional e dócil tendência de agregação a todo poder efetivo: Lula entregou inteiramente as grandes balizas macroeconômicas essenciais do país às avaliações e às tensões particulares do mercado interno e global, ao autonomisar na prática o Banco Central, realizando assim uma velha demanda neoliberal e peessedebista, além de colocar em sua direção um verdadeiro banqueiro internacional puro-sangue, Henrique Meirelles, ex-presidente do Bank Boston. Assim ele simplesmente se apropriou sub-repticiamente da árdua herança econômica tucana.

Esse golpe, como não poderia deixar de ser, atingiu profundamente as bases ideológicas e práticas da direita local. Através dele, com um gesto de cordialidade que seria retribuído, Lula simplesmente roubou a verdadeira base social tucana.

Além de constelar as classes muito pobres em seu projeto político, o que já foi demonstrado por André Singer, Lula também cooptou amplamente os muito ricos, movimento sem o qual não se pode explicar o grande consenso que se criou ao redor do seu nome.

Nas vésperas de sua segunda eleição, grandes banqueiros declaravam explicitamente nos jornais que para eles tanto fazia a vitória de Lula ou de seu rival conservador de então, Geraldo Alckmin. O que, de fato, creio que era uma inverdade. Eles preferiam Lula.

A grande direita econômica se realinhara ao redor de um governo neopopulista de mercado, que buscava realizar seu pacto social, que não foi escrito como o de Moncloa, mas garantido pelo corpo carismático especial de Lula.

Era bom um governo a favor de tudo que pacificasse e integrasse as tensões sociais brasileiras tendo como único fiador mágico o corpo transferencial de Lula, a radicalidade de seu carisma.

O terceiro elemento muito poderoso na construção do amplo pacto social lulista foi a tão ampla quanto propagandeada política de bolsas sociais, articulada a uma imensa expansão do crédito popular, que, se não realizou a cidadania plena dos pobres de nenhum modo, lhes deu a importante ilusão de pertença social pela via de algum baixo consumo, o que, dado o estado atual de regressão das coisas humanas, é o único critério suficiente de realização e felicidade.

E, também, de realização do próprio mercado e da produção local, que se aquecia, ficando feliz, bem feliz - como foi feliz a própria cultura soft e popzinha cheia de cantoras malemolentes do período.

Lula passou a ser um grande agenciador do desejo geral ao ensaiar um mínimo circulo virtuoso na economia, com uma social democracia mínima, fundada de fato sobre o pacto político estranho que realizou. Resultado: certa vez ouvi, no mesmo dia, de um barão banqueiro e da diarista que trabalha em casa a mesma frase: "Lula fez muito bem para o Brasil".

Assim definitivamente, pela desmobilização da tradição crítica, pelos interesses graúdos bem garantidos, com boas perspectivas de negócios, e pelos pobres podendo sentir o gostinho de uma TV de plasma comprada em 30 meses, não havia por que existir, de nenhum modo, oposição política ao governo do então presidente, ex-pau de arara, ex-metalúrgico, ex-sindicalista, ex-socialista petista.

Sua aprovação bateu e se manteve nos 80%, respondendo, de modo desigual, mas combinado, a interesses concretos diversos, articulados em seu corpo garantia, o que, considerando-se as clivagens ainda radicais do País, não deixa de ser uma verdadeira política do absurdo.

Para o desespero dos chiques entre si tupiniquins e paulistanos, Lula também continuou a sinalizar simbolicamente, abertamente, aos pobres com seu antigo habitus de classe, em festas juninas, churrascos com futebol e isopores de cerveja na praia privativa da Presidência, além do famoso futebolês, e assim convencendo-os facilmente e oniricamente, via identificação carismática - seu corpo transferencial - que eles não poderiam esperar nenhum ganho social para além dele, que ele, que era um deles, representava o limite social absoluto dos interesses dos pobres no País.

Ao final do período, um dado fantástico entrou em cena: com a falência adiantada, a partir de 2008, do capitalismo financeiro americano e europeu, o Brasil, com seu governo de esquerda a favor de tudo, se tornou um verdadeiro hype político e econômico global.

Pela primeira vez na história deste País, dada a regressão e paralisação geral do sistema internacional, o Brasil, sempre algo avançado e algo regredido nas coisas da civilização, tornou-se "inteiramente contemporâneo" do momento atual do capitalismo global, que, em grande dívida consigo mesmo, não representava mais medida externa para países periféricos como o nosso.

Noutras palavras, o capitalismo geral deu um grande passo na direção de sua brasilianização.

Assim, era necessário que surgisse tanto um novo modelo conservador que desse conta da avançada ruína neoliberal quanto uma injeção de esperança econômica para a crise geral, e nada como um bem-comportado mercado emergente como o brasileiro, satisfeito e integralmente convencido pelo sistema das mercadorias, para reanimar a ideologia mais ampla.

Tudo isso Lula amarrou em seu amplo pacto, tramado em seu corpo retórico, que também tinha um grande potencial simbólico pop para a indústria cultural global, significante advindo do todo, nada estudado pelos cientistas sociais. Ele virou o cara, para um Obama em busca de alguma referência para o próprio descarrilamento econômico e social de seu mundo.

Enfim, liquidando a oposição, mantendo as práticas políticas fisiológicas tradicionais brasileiras, roubando a base social real da direita, promovendo uma mínima inserção social de massas pela via do consumo, exercitando seu carisma identificatório e pop com os pobres e com a indústria cultural global e servindo como modelo para o momento avançado da crise do capitalismo central, Lula simplesmente rapou a mesa da política nacional.

Além, é claro, de sua proverbial estrela: no mesmo período o país descobriu petróleo e foi brindado pelo mercado do fetichismo universal da mercadoria com uma Copa do Mundo e uma Olimpíada! Certamente deve haver algum método, se não muito, em tal ordem fantástica das coisas.

Sua estrela, seu corpo carismático e sua habilidade pragmática, macunaímica para alguns, bras-cubiana para outros, certamente midiática e pós-ética, realizaram, com poucos mortos e feridos - aparentemente, sacrificou-se apenas a perspectiva crítica da esquerda, que é a minha - um verdadeiro pacto social a favor que, enquanto o PT de fato existiu, a direita jamais conseguiu realizar neste país.

Tales A. M. Ab'Sáber é psicanalista e professor de Filosofia da Psicanálise no Curso de Filosofia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). É autor de O Sonhar Restaurado - Formas de Sonhar em Bion, Winnicott e Freud (Ed.34, 2005).

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Frágil como a existência humana...

Coluna do Rui Grilo

É Lula que está contra a liberdade de expressão ou as grandes corporações?

Rui Grilo
“Ora, como um homem que viveu intensamente o processo de redemocratização do Brasil é capaz de condenar a livre manifestação dos profissionais de imprensa?”

Diversas vezes, a coluna do Celsinho, às sextas, serve como motivação dos meus textos que saem às segundas. Às vezes, para concordar; outras, para pontuar ou divergir.

Nessa citação acima, há correções que devem ser feitas. E não podemos esquecer do debate entre Collor e Lula, em que a edição que a Globo fez, segundo especialistas em comunicação, tinha o nítido objetivo de prejudicar o Lula e influenciar os eleitores. Portanto, não há liberdade de expressão quando esses canais de comunicação estão a serviço da manipulação defendendo interesses de pequenos grupos que detem o poder e usa-o contra a maioria da população.

Não há liberdade de expressão quando os canais de comunicação estão nas mãos de um pequeno grupo que determina quem pode e quem não pode falar. É essa questão que Lula põe no centro das discussões.

Para Leonardo Boff é uma questão de classe. Para aqueles que se julgam no andar de cima é difícil aceitar que um retirante tenha chegado ao posto que chegou, ofuscando o prestígio daqueles que se julgam mais bem formados.

Num regime democrático, onde é o espaço para a definição de direitos e deveres? Não é o parlamento?

Em entrevista ao portal Terra Lula afirma “que é impossível você imaginar fazer uma coisa que discuta comunicação se você não passar pelo Congresso.” E a Constituição estabelece que “Todo o poder emana do povo que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente...”

Vários artigos do capítulo V da Constituição e que tratam da Comunicação Social tem sido frequentemente desrespeitados pelas grandes redes de comunicação por falta de lei complementar que os regulem. Como um estágio preparatório dessas discussões e para garantir ampla participação, foram convocadas a conferências municipais, regionais, estaduais e a nacional de comunicação. Os mesmos veículos que hoje dizem que há perigo para a liberdade de expressão se negaram a participar, boicotando a realização. Em São Paulo, ela só ocorreu pelo esforço da Assembléia Legislativa em união com instituições da sociedade civil.

Recentemente, em um debate no Roda Viva, o jornalista Heródoto Barbeiro fez um questionamento sobre o alto custo dos pedágios e, logo em seguida, foi afastado do programa e substituído por Marilia Gabriela.

Vários jornalistas tem criado seus próprios blogs para escaparem à ferrenha censura que seus patrões impõem aos seus textos e reportagens, criando assim, uma rede de contestação às “verdades” que querem impor à sociedade.

No recente episódio da filha do Serra, todos as grandes corporações ficaram batendo na mesma tecla; no entanto, não houve qualquer repercussão sobre o fato da firma à qual ela é ligada, ter quebrado o sigilo de mais de 60 milhões de contribuintes, nem ao fato dela estar ligada a Daniel Dantas, denunciado por inúmeras falcatruas e que conseguiu afastar justamente aqueles que o investigavam.

Também não se questiona porque tanto medo de ter seu sigilo quebrado.

Não é estranho que apenas a Carta Capital tenha sido pressionada pela vice-procuradora regional eleitoral, Dra. Sandra Cureau, a prestar contas e abrir seus contratos e contas de publicidade ? Coincidentemente, é a mesma revista que tem denunciado a parcialidade de seus concorrentes e mostrado o outro lado da notícia. Por outro lado, a Editora Abril que tem sido beneficiada pelo governo tucano com a compra de várias publicações, salvando-a da falência, é a mesma que ataca o governo federal. Por que a mesma providência não é solicitada à Abril, à Folha e ao Estadão ? Parece que ainda vale a máxima: “Aos inimigos, a lei.”

Recentemente, Cláudio Lembo, ex-governador e filiado ao Democratas, afirmou que “-, a imprensa brasileira deveria assumir categoricamente que ela tem um candidato e tem um partido.”

Neste domingo (26/09) o Estadão desce do muro e se posiciona a favor de Serra. No entanto, a Folha ainda tenta vender a idéia de neutralidade. É claro que não existe neutralidade na imprensa. E como disse o Lula: “crítica que você recebe é tida como democrática e uma crítica que você faz é tida como antidemocrática.”

Embora Lula seja o presidente, é também um cidadão e, portanto, também tem direito de manifestar a sua opinião, especialmente quando se vê a parcialidade com que a imprensa vem cobrindo a campanha eleitoral, pautanto os temas para o ataque de Serra contra Dilma.

Além desse episódio do debate da Globo, não podemos esquecer o episódio do seqüestro de Abílio Diniz em que se tentou vincular o PT ao grupo de seqüestradores. E sempre em período eleitoral.

Rui Grilo
ragrilo@terra.com.br

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