sábado, agosto 21, 2010

Para ver a quadrilha dançar...

Coluna do Mirisola

Na avenida, outra vez

"Para mim, Benito di Paula é um dos maiores letristas da MPB, mas desde sempre a figura dele atrapalhou: brega porém inofensivo"

Marcelo Mirisola*
Os melhores momentos foram aqueles em que o Alter ego entregava-se desbragadamente para a mulher amada, sem pudores. E eu, trôpego, mágico, premido de um amor que jamais poderia chegar a qualquer lugar, ia junto. Esse lugar não era exatamente “qualquer lugar”, mas Buenos Aires.

Porque no La Biela acreditávamos em solos de bandonéon – incluo a mulher amada, eu e meus sôfregos desdobramentos – e também acenávamos pros fantasmas de Bioy Casares e JLB. Não havia outro jeito, somente assim é que éramos eternos e impossíveis.

Mas isso é literatura, e vários escritores tão sórdidos quanto - ou mais sórdidos que esse que vos escreve - usaram do mesmo artifício (decerto foram menos derramados), e se deram muito bem. Exemplos não faltam. A Lolita que enfeitiçou Humbert Humbert,do incomparável Nabokov. Lembram o começo desse romance?: “A ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca,a fim de bater de leve, no terceiro, de encontro aos dentes. LO.LI.TA... Era LO,apenas LO, pela manhã,com suas meias curtas e seu metro e quarenta e oito centímetros de altura...”.

Um demônio de 1,48m ,digo, apenas uma menina de doze anos que destruiu o pobre Humbert Humbert. Qual mulher não quis ser Lolita? Sem sacanagem. Não estou falando de voltar aos doze anos de idade. A questão é: que mulher não gostaria de ter um homem de quatro em qualquer idade? Ou não quis ser Beatriz? Aquela, do Chico & Edu Lobo, que chorava num quarto de hotel, e que em determinado momento os ensinaria a não andar com os pés no chão. Justo eles,Chico & Edu Lobo, queriam que ela os ensinasse a voar. Tá.

A pergunta é: Qual mulher não quis ser a Luiza de Tom Jobim? Aquela que tinha a felicidade de ter os mesmos desejos dele. Num arroubo desesperado, o autor pede a Luiza que o exorcize. O que Tom Jobim quis dizer com “Vem, me exorciza” senão “venha, eu sou seu, mas preciso me livrar de mim mesmo”. Bonito,né?

São tantas odes, canções, romances e tantos, tantos homens aos pés de tantas mulheres ao longo do tempo e da história ... desde a desavisada Jocasta, passando por Maria Schneider untando e besuntando as ideias do Marlon Brando, até a bela arquiteta que teve o mesmo Chico aos seus pés num final de tarde na praia do Leblon. São tantas que eu levaria duas colunas no Congresso em Foco para lembrar de uma ínfima parte, e ainda esqueceria de falar da “Noemi” do Tanizaki. Ah, Noemi, a maior declaração de amor da literatura de todos os tempos. Enfim, isso tudo para dizer que a ficção é generosa mas – felizmente – não combina com a realidade. Aliás, atrapalha a realidade.

O que as mulheres querem? Creio que nenhuma mulher quer um pamonha aos seus pés. Ontem à noite, por exemplo. Eu andava meio que triste e envergonhado da minha solidão, e lembrei da Cacá. Ela que, segundo nosso amigo Miguel do Rosário, está namorando um black power. Já disse numa outra oportunidade que entendia o porquê. Ela não me esqueceu. Sim, porque, se tivesse arrumado um japonês, eu duvidaria do nosso amor. E depois da Cacá, Carol veio de Brasília e trouxe uma noite de blues escarlate para mim – linda, linda Carol. Também teve a Carmem que me serviu uma poção mágica na extinta Drinqueria Maldita, lá em Botafogo. E a Ana P. que – consta nos autos – virou executiva mas não deve ter conseguido se livrar do esgar diabólico, espero que não. O lábio dela sorria de um só lado, e pedia – ao mesmo tempo - formação de quadrilha e beijo na boca. Ana P. não tinha nada de dissimulada, era a anti-capitu. Daí vinha sua elegância. Depois dela, quase mais ninguém. O blues escarlate é título de um livro do Carlaccio – parece que foi escrito pra Carol. Um beijo Yve, Ivone, Ritinha Medusa.

Como eu dizia, havia sido expulso da minha própria solidão e os bares do Rio de Janeiro haviam armado um complô paulista contra mim até que a Lu apareceu para passar algumas horas comigo, subiu na garupa de um motoqueiro e se escafedeu.

Cais, saveiros, partidas. Mulheres. Quantos seios que ficaram em nossas mãos e que trocamos por garrafas de uísque de procedência duvidosa. Sua benção, Martinho da Vila. Teve aquela que tirou o Toquinho da escuridão e fez carnaval na vida dele e a outra do Jorge Ben que apareceu de branco na chuva, e rodou, rodou, as mulheres – engraçado - são mais criveis em dias de chuva. E a mais bela, para mim, veio (aliás, não veio) em forma de samba. Estou falando da mais bela e devastadora de todas as mulheres. Talvez até mais cruel que a Noemi do Tanizaki.

Ela é a cabrocha que abandonou o amigo do Charlie Brown e o fez chorar na avenida. Bem, aqui faço um parêntese. Vou falar de Benito di Paula. Não sei o que acontece com esse cara. Para mim, Benito di Paula é um dos maiores letristas da MPB, mas desde sempre a figura dele atrapalhou: brega porém inofensivo, muito diferente da breguice furiosa de um Carlos Imperial ou da breguice pornográfica de um Wando, por exemplo. A cafonice (ou breguice, tanto faz) de Benito di Paula nunca foi (ou é) agressiva, mas o contrário; desperta uma melancolia de salão de beleza com aluguel atrasado. Triste. Uma breguice melancólica. De quem esteve condenado aos anos setenta desde o ventre da mãe e para sempre. Ele é o clássico de um puteiro que não existe mais. Sei lá, só sei que a figura dele atrapalha.

A incompatibilidade é tão grande e o desacordo tão gritante com seu talento, que não é imperdoável o fato de ele, Benito di Paula, ter escrito “Retalhos de Cetim” (só podia ter saído dele ...) mas chega a ser quase inconcebível que Chico Buarque não seja o autor dessa música. Que, sem exagero, é um compêndio de todas as histórias de amor que foram e serão vividas e cantadas, todas as Beth Blue e Heloisas estão ali, aquelas que o levariam capado pro túmulo e o perseguiriam em elevadores panorâmicos e em qualquer outra dimensão, todas as malucas e também as putinhas tristes, todas as mulheres que largaram do Vinicius e mais as Carolinas distraídas, tanto faz a época e a circunstância, seja ao piano,em prosa ou feito poesia. Não consigo encontrar um termo mais adequado que “dilaceramento” para falar dessa música. Uma obra-prima. E o mais curioso e intrigante: somente Benito di Paula, do jeito dele todo errado é que poderia interpretá-la. Ninguém mais.

Ensaiei meu samba o ano inteiro
Comprei surdo e tamborim
Gastei tudo em fantasia
Era só o que eu queria
E ela jurou desfilar pra mim

Minha escola estava tão bonita
Era tudo o que eu queria ver
Em retalhos de cetim
Eu dormi o ano inteiro
E ela jurou desfilar pra mim

Mas chegou o carnaval
E ela não desfilou
Eu chorei na avenida, eu chorei
Não pensei que mentia a cabrocha
que eu tanto amei

Enfim. Eu até chafrurdaria estrofe por estrofe, iria me armar de surdo e tamborim e gastaria tudo em fantasia, como sempre ... mas acho que não quero ir tão longe.

Não, eu não agüentaria, não vou chorar na avenida pela cabrocha que mentiu para mim e que eu tanto amei, não vou fazer isso aqui – outra vez não.

Mas, agora, quem quiser conferir minha versão de “Retalhos de Cetim” pode ir até o site da livraria Cultura e baixar via Kindle o “Joana a Contragosto” (a capa virtual é gentileza do meu grande chapa Caco Galhardo):

Também na Saraiva:

Ah, eu chorei na avenida, eu chorei...

* Considerado uma das grandes revelações da literatura brasileira dos anos 1990, formou-se em Direito, mas jamais exerceu a profissão. É conhecido pelo estilo inovador e pela ousadia, e em muitos casos virulência, com que se insurge contra o status quo e as panelinhas do mundo literário. É autor de Proibidão (Editora Demônio Negro), O herói devolvido, Bangalô e O azul do filho morto (os três pela Editora 34) e Joana a contragosto (Record), entre outros.

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Opinião

O arrocho de Chávez

Editorial do Estadão
A publicação, pelo jornal El Nacional de Caracas, de uma foto de 12 cadáveres empilhados no necrotério da capital - para denunciar a omissão do governo de Hugo Chávez diante da escalada da violência criminal na Venezuela - resultou esta semana na imposição explícita da censura a toda a imprensa do país, depois limitada a dois jornais de Caracas. É o mais grave ato repressivo do gênero desde os tempos do ditador Marcos Pérez Jiménez, nos anos 1950. Com uma peculiaridade: a mordaça valerá de início por um mês. Isso porque haverá eleições parlamentares na Venezuela em 26 de setembro, e a questão da segurança aflige como nenhuma outra o eleitorado da nação vizinha.

Não é para menos. Sob Chávez, a criminalidade alcançou níveis atualmente sem paralelo na América do Sul. Embora o governo tenha cessado de divulgar estatísticas sobre o assunto - na fútil tentativa de ocultar da população o que ela sabe por experiência própria na sua vida cotidiana -, cálculos extraoficiais revelam que em 2009 o número de homicídios no país superou 16 mil, com 50 mil feridos. Em julho último, 465 pessoas (ou 15 a cada dia) foram assassinadas, apenas em Caracas. Estima-se que o arsenal em poder da bandidagem soma 6 milhões de armas. Na Venezuela, o crime compensa: 91% dos atos de violência armada permanecem impunes.

Na República Bolivariana, o regime controla de tal modo o Judiciário que pode contar com a instituição para dar um verniz de legitimidade aos seus movimentos liberticidas. Assim foi no caso do oposicionista El Nacional. (Ou no caso do Tal Cual, outro jornal que se opõe ao caudilho, que reproduziu a foto do necrotério repleto.) Tão logo Chávez investiu contra o matutino, acusando-o de ter divulgado uma imagem "pornográfica", numa "manipulação politiqueira do tema da violência", o Tribunal para a Proteção da Criança e do Adolescente vedou a publicação de textos e fotos relativos, entre outras coisas, a "incidentes sangrentos e grotescos, armas, mensagens de terror, atos de agressão física e batalhas".

A reação do El Nacional foi vigorosa. Sob a manchete Proíbem publicar imagens e notícias sobre a violência, o diário carimbou a palavra "censurado" nos espaços em branco reservados para duas fotos. Uma legenda resumia a tragédia venezuelana: Se aqui houvesse uma foto, vocês veriam um pai chorando por um filho que morreu. O proprietário e editor-chefe do jornal considerou a censura uma arbitrariedade que viola a Constituição. "Foi uma decisão política", disse ainda, aludindo à campanha eleitoral em curso no país e ao problema que mais afeta a popularidade de Chávez. "A decisão judicial peca por amplitude e imprecisão", comentou a organização de defesa da imprensa Repórteres sem Fronteiras.

As incursões do autocrata contra a liberdade de informar nada têm de novo. Em 2007, o governo se recusou a renovar a concessão da rede RCTV, que acabou fechada. Tiveram o mesmo destino 40 emissoras de rádio. O caso talvez mais escabroso é a perseguição movida à TV Globovisión, cujo dono, Guillermo Zuloaga, fugiu do país depois de ter sido preso em março. Chávez anunciou que pretende adquirir o controle acionário da emissora. "Mas nunca vimos uma atitude como esta", ressalta o professor Marcelino Bisbal, da Universidade Católica Andrés Bello, de Caracas. Provavelmente porque parece haver um elo entre a indiferença do governo à violência urbana e os subterrâneos do poder chavista.
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Manchetes do dia

Sábado, 21 / 08 / 2010

Folha de São Paulo
"Dilma dispara, dobra vantagem e venceria Serra no 1 º turno"

Eleições 2010
Petista sobe 6 pontos e vai a 47%; tucano cai a 30%, diz Datafolha; Embalada pela TV, candidata ganha em todas as regiões e classes, à exceção dos mais ricos

Pesquisa Datafolha em todo o país mostra que Dilma Rousseff (PT) duplicou sua vantagem em relação a José Serra (PSDB) depois de três dias de propaganda eleitoral no rádio e na TV. Com esses números, a candidata se elegeria no primeiro turno. Dilma tem agora 47%, ante 30% de Serra. Em votos válidos, a petista vai a 54%, acima dos 50% para definir a eleição. A diferença entre os dois subiu de 8 para 17 pontos. Hoje, o tucano não lidera em nenhuma região do país. Com 9%, Marina Silva (PV) variou um ponto para baixo. Na pesquisa espontânea, Dilma foi de 26% para 31%. Serra, de 16% para 17%. A margem de erro máxima do levantamento é de dois pontos percentuais.

O Estado de São Paulo
"No País, 34,8 milhões de pessoas vivem sem coleta de esgoto"

Números divulgados pelo IBGE mostram que expansão do saneamento não acompanhou crescimento populacional; só 44% dos domicílios têm acesso à rede

A expansão da rede de saneamento básico no Brasil não acompanhou o crescimento da população entre 2000 e 2008. A Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, divulgada ontem pelo IBGE, mostra que, em 2008, 34,8 milhões de pessoas, ou 18% da população, viviam em locais sem nenhum tipo de rede coletora de esgoto. Em 2000 eram 34,7 milhões, ou 20,4%. A proporção de domicílios com acesso à rede geral subiu de 33,5% para 44%, alta de 31,3%. O porcentual de municípios com rede coletora passou de 52,2% para 55,2%, um aumento de 194 municípios. Pouco mais de um quarto dos municípios (28,5%) trata o esgoto coletado.

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sexta-feira, agosto 20, 2010

Ubatuba

Terra em transe!

Sidney Borges
Passei o dia ligando para o fórum. Desde as primeiras horas da manhã tento falar com alguém que esclareça o que está acontecendo. A cidade está curiosa. As ações policiais de ontem estão na boca do povo e suscitam as mais variadas interpretações. Há um festival de boatos no ar, alguns sensatos, outros delirantes. Teorias conspiratórias é que não faltam.

Sem informações precisas, o Promotor do caso está em São Paulo e só voltará na segunda-feira, dou aos leitores um panorama do que poderá acontecer nos próximos dias:

Primeira possibilidade

O Ministério Público não encontra irregularidades nos computadores apreendidos e conclui que as denúncias que motivaram as ações policiais não tinham fundamento. As pizzarias da cidade ficarão cheias e faturarão alto.

Segunda possibilidade

A Promotoria encontra evidências de aviltamento da conduta desejável em homens públicos. Os agentes responsáveis são afastados enquanto novas diligências em busca de provas acontecem. Caso o Ministério Público entenda que tais agentes possam comprometer provas, ou coagir testemunhas, poderá decretar a prisão preventiva dos mesmos.

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Os homens de preto estão aí...

Ubatuba em foco

Polícia Civil apreende computadores na Prefeitura e na Câmara

Saulo Gil no Imprensa livre (original aqui)
O caso das eleições do Conselho Tutelar ganhou maiores dimensões nessa quinta-feira em Ubatuba. A Justiça local já tinha deferido, no mês passado, uma medida liminar determinando a busca e apreensão de documentos na Câmara Municipal, com o objetivo de coletar todos os registros de preços e os contratos realizados pelo Legislativo ubatubense no ano de 2010.

Segundo o Ministério Público, na época, foram feitas denúncias de que a própria direção da Casa de Leis estaria com a intenção de usar dinheiro público para subsidiar a defesa jurídica dos três primeiros vereadores afastados por suspeitas de irregularidades na eleição do Conselho Tutelar (Mico, Claudinei Xavier e Silvinho Brandão).

Ainda no mês passado, antes de analisar os primeiros documentos do caso, a promotoria já falava em suspeita de um esquema de mensalinho instituído na cidade e que envolvia pagamento constante de dinheiro público em troca de apoio jurídico e alianças políticas.

O processo seguiu e, na tarde de ontem, a justiça determinou nova busca e apreensão de documentos na Câmara Municipal. No entanto, desta vez, a operação se estendeu ao Gabinete do Prefeito, Secretaria de Arquitetura e Urbanismo, Gerência de Tributos e até nas residências de algumas autoridades ubatubenses. A prefeitura não soube informar ao certo quantos computadores foram levados do prédio do Executivo. Estima-se que entre 10 e 20 máquinas foram recolhidas e lacradas pela Polícia Civil.

Já na Câmara dos vereadores, desta vez, foram levados sete hds dos computadores da diretoria do Legislativo. De acordo com o responsável pela administração da Casa de Leis, Rodrigo de Oliveira, o novo mandado de busca e apreensão faz parte de uma ação incidental, que surgiu no decorrer do processo referente ao caso dos vereadores na eleição do Conselho Tutelar de Ubatuba. Além do prédio da prefeitura e da parte administrativa da Câmara, fontes não oficiais, relataram a presença de policiais nas proximidades das casas do prefeito Eduardo Cesar e do vereador Gerson de Oliveira.

A reportagem tentou o contato com ambos, porém, não houve retorno até o final da tarde de ontem.

Como a promotoria esteve durante toda a tarde de ontem em diligências pela cidade, também não foi possível a realização de entrevista sobre os últimos acontecimentos e sobre os locais em que foram realizadas as buscas por documentos.

A Polícia Civil também não forneceu mais detalhes da operação, argumentando que apenas cumpriu uma determinação judicial. A delegacia seccional ainda confirmou que a operação não faz parte de inquérito policial e sim de uma Ação promovida pelo Ministério Público da cidade.

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Conhecendo a "Nossa Terra" - 1


Gente apaixonada por Ubatuba

José Ronaldo Santos
Neste pedaço de chão brasileiro chamado Ubatuba, muitas pessoas queridas já nos deixaram; delas ficaram saudades, exemplos edificantes e até mesmo obras. Algumas não deixaram sequer herdeiros, embora continuem no nosso imaginário. De outras muitas delas o que não falta é uma vasta descendência. No entanto, nada é registrado de tais pessoas. Assim, dentro das minhas limitações, mas querendo, de certa forma, prestar uma sincera homenagem a um grande grupo de gente que viveu ou vive apaixonadamente por este chão, ouso me aventurar como um aprendiz de biógrafo. A primeira dessas pessoas será a dona Silvia Pollaco Patural que, juntamente com o seu esposo Jean-Pierre Patural, em 1954, iniciou um considerável empreendimento no Ubatumirim. A história é longa; a previsão inicial é que seja publicada em seis partes. Desejo uma boa leitura a todos os interessados nesta temática.

Franceses sonhando em terras de Ubatuba – A saga Patural (Parte I)

O tempo passa, as pessoas morrem, as coisas se acabam. Somente as lembranças podem ser eternizadas. Estas ou são tristes ou são alegres, de heroísmos ou covardias, dizem respeito a muita gente ou somente a um pequeno núcleo. A minha função, a partir dos estudos e das conversas, é provocar reflexões, fazer a minha parte no processo civilizatório, fornecer pistas para que outros avancem nas pesquisas para entender melhor a realidade próxima e a humanidade. Assim, cada história, cada causo dos tantos causos que continuo escutando causa inquietação, pede para se espalhar em todas as direções, quer ser conhecido, discutido, criticado, etc. tal como o vento noroeste, tão constante na nossa realidade, a espalhar folhas e levantar poeira em todas as direções.

A partir de agora apresento ao público a história, cujo subtítulo achei por bem ser A saga Patural. Espero não ser cansativo e quero apelar, principalmente àqueles que têm uma pequena noção geográfica do município de Ubatuba, para que imaginem o nosso espaço há mais de cinquenta anos e seus desafios onde “só o de comê tinha em fartura”. O presente trabalho logo completará uma década. Poucas modificações e alguns comentários se fizeram necessários para tornar a leitura mais agradável. Espero que gostem. Sempre aguardo os comentários que possam advir. É um prazer primar pelo diálogo edificante.

Devo admitir que vem de muito tempo a minha curiosidade pela “história do francês que caiu com um avião na serra” contada pelos caiçaras mais velhos. A oportunidade é agora; os meus “minúsculos garranchos” serão socorridos pela memória de uma conversa na casa da dona Silvia, onde, após uma rápida acolhida, me acomodei em torno de uma mesa para ouvir a entrevistada, ou melhor, o depoimento dela, que tratará da aventura fantástica de um jovem casal de franceses. Eles sonharam com uma fazenda exemplar na Sesmaria do Ubatumirim, em 1954, quando nem se sonhava com a abertura de estrada para a porção norte do município de Ubatuba. Para se chegar naquelas distâncias eram duas alternativas: ou se arriscava numa canoa, ou se embrenhava pelos “caminhos de servidão”, subindo morro, andando em praias, atravessando rios, como era coisa comum aos caiçaras daquela época.

Em um primeiro momento expliquei a razão desta entrevista. A aplicabilidade de um projeto muito pessoal que resgata as raízes caiçaras, além das diversas culturas que por aqui aportaram, visa contribuir com muitos aspectos da nossa história, inclusive o da preservação ambiental. Acredito que cada biografia possibilitará encontrar uma harmonia, uma convivência e uma preservação do espaço que só passa a sofrer profundas alterações após o advento do turismo. Então, se queremos apostar num futuro com turismo de qualidade, pois esta é a vocação potencial do município, devemos investir numa educação que permita revisões importantes em nossas condutas, principalmente culturais. E isso nós sabemos que não acontece num estalar de dedos, como se fosse mágica. Esta entrevista já é um dos frutos deste projeto. Atentemos às palavras da dona Sílvia.

“Nós não caímos do céu de repente. A nossa vinda para o Brasil foi bem refletida, mas não deixou de ter uma forte dose de ousadia e coragem.

Meu marido fez, na França, um curso de Agronomia Tropícal. Era uma escola para administradores e funcionários do Estado, com a finalidade de trabalhar na África, na Ásia, enfim, nas áreas que eram colônias francesas. Aconteceu que, com a descolonização, acabou tal finalidade. Porém, ele pretendia investir naquilo que aprendeu. Havia também o risco de ser convocado para a guerra (da Indochina). A solução era procurar outro país, começar outra experiência de vida praticando as habilidades adquiridas em agronomia e zootecnia. Por isso passamos a fazer uma avaliação dos países, de preferência com características tropicais, examinando bem todas as possibilidades. Pensamos no México e em outros, mas o Brasil nos pareceu mais interessante.

Passamos para outra fase, que foi de conhecer melhor o país: ouvimos palestras, assistimos ‘slides’, etc. Só sei que ficamos por dentro das culturas mais favoráveis (banana, café, cacau...) e das reais condições para um empreendimento agrícola no Brasil. Assim, no ano de 1948, embarcamos em Bordeaux e desembarcamos no porto de Santos.

De Santos, uma importante cidade portuária já naquela época, seguimos para a capital paulista. E, modestamente, por eu falar perfeitamente o italiano, pois era italiana de nascimento e, em nossa casa, mesmo estando na França, sempre falávamos a língua italiana, me saía muito melhor que o meu marido que, além do francês, só falava inglês. O italiano é mais compreensível aos brasileiros, não é mesmo?

No início, para nos mantermos, começamos a dar aulas de piano e francês. É preciso lembrar que, naquele tempo, a língua francesa tinha um ‘status’ comparável à língua inglesa nos dias atuais. Logo nos encontramos com um patrício que se sensibilizou com a nossa situação e nos apresentou a possibilidade de irmos para a cidade de Taubaté, pois achava que não era uma boa alternativa continuarmos na cidade grande. Disse-nos ainda que nas proximidades de Taubaté e em outras cidades do Vale do Paraíba havia muitas fazendas, com possibilidades de realizarmos o nosso sonho. Assim deixamos a cidade de São Paulo.

Chegamos esperançosos em Taubaté, mas as condições também não estavam tão favoráveis. Nesse ínterim nasceu Patrícia. Deste tempo é a experiência de arrendamento de um sítio em Redenção da Serra, onde ensaiamos um modelo de produção, sobretudo de batatas. A seguir, conhecemos Ubatuba.

Através de um convite de uma família muito amiga -os Guisard- viemos, em 1953, conhecer Ubatuba. Eles eram os donos do Casarão, onde está atualmente a sede da Fundart. Foi em uma de suas casinhas, localizadas até hoje atrás do Casarão, que nós ficamos hospedados. Meu marido - Jean-Pierre - se entusiasmou pela cidade. É preciso lembrar que ele adorava o mar; era um velejador em nossa terra natal. Ainda temos a foto de seu primeiro veleiro na região do Canal da Mancha, Bretanha, norte da França. Logo se empolgou em investir aqui.

Deu em O Globo

O donatário

Miriam Leitão (original aqui)
O presidente Lula se despedindo da Presidência, no programa eleitoral de Dilma Rousseff, com a música "entrego em suas mãos o meu povo" me lembrou o pior Brasil. O Brasil dos donatários, das capitanias hereditárias.

Como se não fosse suficiente, ainda há o discurso que infantiliza o povo brasileiro com essa história de pai e mãe do povo.

Desde "Coronelismo, enxada e voto", de Victor Nunes Leal, o Brasil conhece bem esse seu pior lado. O do patrimonialismo brasileiro, do qual nasceram outros defeitos: o populismo, o paternalismo, o clientelismo.

Com a manipulação das massas, os donatários do Brasil mantêm o poder e o entregam aos seus herdeiros. Além do "deixo em suas mãos", há ainda a ameaça continuísta implícita: "Mas só deixo porque sei que vais continuar o que eu fiz." Como se Lula pudesse decidir não passar a Presidência à pessoa que for eleita este ano.

Ninguém duvida que apelos emocionais funcionam em campanha eleitoral. Mas não garantem eleição.

Difícil esquecer até hoje o contagiante "Lula lá, nasce uma estrela, Lula lá". E ele perdeu aquela eleição. São muitas as razões do voto e a história eleitoral brasileira é curta demais para que sejam traçadas leis gerais. Mas espera-se que ela não se explique pelo retrocesso, por essa visita ao passado.

A economia é decisiva na maioria das eleições, mas nem sempre. A economia americana estava num dos seus melhores momentos ao final do governo Bill Clinton e mesmo assim Al Gore perdeu. É bem verdade que Al Gore quis distância de Clinton por causa do escândalo Monica Levinsky.

Se por acaso o então presidente democrata fizesse uma campanha paternalista, cantando que entregava o povo americano nas mãos de Gore — como se fosse sua propriedade — certamente causaria rejeição ainda maior. Lá, eles não acham que eleitores passam de mão em mão como uma massa sem vontade própria.

Nem mesmo ocorreria a um presidente decidir pelo partido quem deve concorrer à sua sucessão, porque existe o saudável ritual das primárias em que os candidatos a candidatos enfrentam o desafio de convencer seus próprios militantes.

Aqui, nem governo nem oposição escolhem postulantes de forma transparente.

O Brasil está crescendo forte, a inflação está em queda — foi zero em julho — o crédito se expandindo, o consumo aumentando, o desemprego caindo. Alguns números são mais elevados por causa da base de comparação, mas há crescimento de fato.

A crise de 2008/2009 derrubou a economia e, da perspectiva da campanha governista no Brasil, a recuperação está ocorrendo na hora exata para ajudar o governo na campanha. Todos esses fatores são mais poderosos na definição do voto do que apelos populistas. É a sensação de conforto econômico que fortalece a campanha da continuidade.

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Sambinha a calhar

Coluna do Celsinho

Oração

Celso de Almeida Jr.
Pai!

Mandaste os federais.

Exército.

Boinas verdes.

Vermelhas.

Homens de preto...

Senhor!

Descarregaste a vossa ira.

Nos ímpios.

Nos crentes.

Nos bons moços.

Nos gulosos.

Nos santinhos do pau oco...

Supremo Criador!

Altíssimo!

Pai Celestial!

Poupaste a meia dúzia.

Gostei.
 
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Opinião

O inchaço do currículo escolar

Editorial do Estadão
Introduzidas no currículo do ensino médio para afirmar teses "politicamente corretas" ou em resposta a pressões ideológicas e corporativas, disciplinas como cultura indígena e cultura afro-brasileira estão agravando as distorções do sistema educacional brasileiro.

Não bastasse a dificuldade que já enfrentam para ensinar aos alunos as disciplinas básicas, como português, matemática e ciências, ao serem obrigados a lecionar disciplinas criadas com o objetivo de resgatar a "dívida histórica com a escravidão" e a "dívida social com os povos da floresta", muitos professores acabam perdendo o controle dos seus cursos, transformando-os em verdadeiros pastiches de informações ideologicamente enviesadas.

Só nos últimos três anos, emendas aprovadas pelo Congresso incluíram seis novas disciplinas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Além de cultura afro-brasileira e cultura indígena, a rede escolar de ensino básico também tem de oferecer as disciplinas filosofia, sociologia, meio ambiente, regras de trânsito e direitos das crianças e dos idosos.

Tramitam ainda no Congresso centenas de projetos propondo a criação de mais "conteúdos" como esses. No levantamento que fez para sua tese de doutorado, a professora Fátima Oliveira, da Universidade Federal de Minas Gerais, constatou que só a Câmara dos Deputados recebeu 545 propostas desse tipo, entre 1995 e 2003.

O inchaço do currículo acarreta graves problemas. Compromete a adoção de novos projetos pedagógicos, obriga os professores a reduzir a carga horária das disciplinas básicas, para lecionar as novas matérias, e acarreta desperdício de recursos, pois as escolas têm de produzir material didático. Esses problemas tendem a perpetuar a má qualidade da educação básica, como deixa claro o desempenho dos estudantes brasileiros nas provas e testes internacionais de avaliação de conhecimento. Com uma alfabetização e uma formação deficientes, eles estão sempre nas últimas colocações.

Políticos, movimentos sociais e entidades engajadas defendem a introdução das novas disciplinas alegando que elas promovem a inclusão social. Segundo eles, a "escolarização" de temas sociais abriria caminho para a justiça social. Os especialistas discordam. "A escola tem de dar os fundamentos para que o aluno faça sua leitura do mundo. Não é a oferta de disciplina sobre drogas que vai garantir que o jovem se afaste do vício", diz a presidente do Conselho Nacional de Secretários da Educação, Yvelise Arcoverde.

No mesmo sentido, não são disciplinas como cultura afro-brasileira e cultura indígena que vão reduzir as disparidades de renda. Como tem sido evidenciado pelas recentes e bem-sucedidas experiências de países como a Coreia do Sul e a Índia, só a formação básica de qualidade garante a redução da pobreza e assegura o capital humano necessário a uma economia capaz de ocupar espaços cada vez maiores no mercado mundial. "Cada vez mais se está entulhando coisas nos currículos, por meio de emendas na LDB", afirma a pesquisadora Paula Lozano, da Fundação Lemann. "São tantas emendas que se torna impossível montar um currículo", argumenta Mauro Aguiar, do Colégio Bandeirantes.

Em vez de ser objeto de decisão legislativa, a organização do currículo escolar deveria ficar a cargo de órgãos técnicos e as redes escolares deveriam ter autonomia para definir os conteúdos pedagógicos que consideram necessários à formação de seus alunos. Defendendo essa tese e se empenhando para evitar o desfiguramento do ensino básico, alguns colégios particulares decidiram fazer lobby para desbastar os currículos. A ideia é que as novas disciplinas sejam lecionadas como parte das disciplinas básicas, sem necessidade de aulas exclusivas para os chamados temas sociais.
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Manchetes do dia

Sexta-feira, 20 / 08 / 2010

Folha de São Paulo
"Presidente 40 Eleições 2010: Serra usa Lula na TV, e PT vai entrar na Justiça"

Estratégia do PSDB é tentar descolar Dilma da imagem do presidente

A campanha tucana usou imagens do candidato José Serra ao lado do presidente Lula no programa eleitoral da TV. "Serra e Lula, dois homens de história. Dois lideres experientes", dizia o locutor, sobre cenas em que os dois apareciam juntos. O PT vai entrar no TSE com base em artigo da lei que veta a participação de pessoas filiadas a outros partidos ou coligações. No rádio, jingle tucano acusou Dilma Rousseff de dizer que foi ela que fez "tudo o que é coisa do Lula". Na avaliação da cúpula do PSDB, Serra precisa descolar Dilma de Lula para tentar conter a perda de votos e a apatia de apoiadores e chegar ao segundo turno. Parte do partido se incomodou com o uso das imagens do presidente.

O Estado de São Paulo
"Serra acusa governo de tentar intimidar e manipular imprensa"

Na ANJ, tucano aponta ações para 'cercear liberdade', e Dilma repudia censura

O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, acusou o governo Lula e o PT de tentar intimidar e manipular a imprensa. No 8º Congresso Brasileiro de Jornais, da Associação Nacional de Jornais, Serra afirmou que conferências do governo para discutir comunicação "se voltaram de fato para um controle da nossa imprensa, através do suposto controle da sociedade civil". Ele disse que o primeiro programa de governo de Dilma Rousseff (PT) apoiava esse controle. Serra acusou o Planalto de usar a publicidade como "instrumento com critérios de manipulação". Mais tarde, no evento, Dilma defendeu a liberdade de informação "sem restrições".

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quinta-feira, agosto 19, 2010

Papo do Editor

Fazenda modelo

Sidney Borges
Precisamos de estradas asfaltadas, escolas em tempo integral, hospitais que atendam a todos, rede ferroviária modernizada, portos eficientes e aeroportos sem congestionamentos. Precisamos criar empregos para os jovens que chegam ao mercado de trabalho.

Foi o que ouvi ontem na televisão enquanto aguardava o jogo da Libertadores. Fiquei empolgado com a disposição dos candidatos, se pudesse votaria em todos, menos naquele que pede para não votar em burguês. Vou votar em quem? Intelectual? Camponês? Depois das eleições o Brasil vai melhorar, se é que dá para melhorar este paraíso onde diamantes afloram nas ruas enquanto rios de leite e mel correm em regatos cercados de flores. Como são bonitas as periferias de nossas cidades!

Tudo graças ao presidente Lula, obviamente. Desde que inventou a roda e expulsou os vendilhões do templo, "Nosso Guia" não perde a oportunidade de praticar gentilezas. Gentil homem. Gentil Lula.

Em Ubatuba há grande expectativa sobre o destino dos edis afastados. Informações chegam de São Paulo dando conta que o desfecho está próximo. Talvez na próxima semana.

Achei da maior importância a coluna do Rui Grilo sobre o plebiscito em torno da reforma agrária. Há poucas semanas reli o livro de Akio Morita sobre a criação da Sony. Ele fala da reforma agrária do Japão, imposta pelas autoridades americanas de ocupação. A estrutura fundiária teve papel importante no militarismo que levou o Japão à guerra contra os Estados Unidos. Americanos fazendo reforma agrária parece sacrilégio, o tema é propriedade quase exclusiva dos comunistas. Com a reforma em curso os japoneses livraram-se do peso de latifúndias milenares e, pasmem, não caíram nos braços de Moscou. Os novos proprietários das terras tornaram-se pequenos empresários e passaram a lutar por casas melhores, escolas melhores para os filhos, carros, tratores e artigos de consumo supérfluos que fazem a alegria dos burgueses. Pequenos proprietários são conservadores. A reforma agrária do Brasil será um passo definitivo no fortalecimento da democracia.

Em meados da década de 1970 dei aulas em Sorocaba e fiquei amigo de um comerciante da cidade. Petrucho. Gordo e filosófico, parecido com Orson Welles, tinha sempre uma história saborosa para contar, poucas vezes envolvendo pessoas, Petrucho era um cavalheiro, falava de idéias.

Através dele eu soube da história da vodka brasileira, bebida européia que virou moda nos anos 50. Uma grande destilaria trouxe especialistas da Europa, exilados da União Soviética, para começar a produção nacional. A primeira providência foi obter os ingredientes, cereais rigorosamente selecionados da Argentina e do Canadá.

A primeira safra ficou tão boa que os técnicos diziam que não havia nada comparável na Europa. Petrucho perguntou o porquê e ficou sabendo que na União Soviética faziam vodka de batatas. Desde a coletivização forçada da agricultura, nos anos 20, ação que matou mais de 5 milhões de pequenos proprietários, nunca a agricultura soviética conseguiu superar o impacto da estúpidez praticada.

Na Polônia a vodka alternava safras razoáveis, havia matéria-prima, embora a maior parte fosse exportada para a União Soviética para alimentar a população. Em certos anos era preciso recorrer às batatas. No Brasil nunca faltará matéria prima, a reforma agrária dará uma horta a cada sem-terra e todos viveremos felizes para sempre.

E não haverá plebiscito bolivariano capaz de coletivizar nossa agricultura. Também não procede o boato de que teremos estatização de quitandas e barbearias. Ainda bem, meu barbeiro, o Fanta, é dono do próprio nariz. Tenho certeza de que ele não quer ser funcionário público.

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Opinião

Na disputa pelo terceiro mandato

Editorial do Estadão
Muito do que se vê no horário gratuito não é o que parece - a começar da expressão, que esconde o fato de que, no fim, a conta sobra para o contribuinte. Mas nada do que se mostra nos programas de propaganda eleitoral se parece tanto com conversa de vendedor de fitas piratas como o que o presidente Lula diz da candidata que escolheu solitariamente para ser a sua sucessora. A tal ponto ele se derrama em superlativos sobre as suas imbatíveis qualidades, que pode levar o espectador mais cético, ao modo do santo e da esmola, a desconfiar até dos atributos que ela haverá de ter.

O presidente que inventou o bordão do "nunca antes na história deste país" para se vangloriar dos seus presumíveis feitos sem precedentes usa agora na promoção de sua afilhada a mesma retórica da louvação sem limites. No primeiro programa em que roubou a cena como puxador de votos para Dilma, na terça-feira à noite, Lula mostrou como sabe ser excessivo. Numa fala gravada no Palácio da Alvorada, a residência oficial dos presidentes brasileiros - a lei, ora a lei -, ele jorrou: "Tem pessoas a quem a gente confia um trabalho, e elas fazem tudo certo. Estes são os bons. E há pessoas a quem a gente dá uma missão, e elas se superam. Estes são os especiais. Dilma é assim."

E Lula é assim, para surpresa de ninguém. Antes ainda de começar a campanha, ele já se gabava de que lhe bastara apenas uma primeira reunião com Dilma para ter a certeza, como tornou a repetir anteontem, de que havia encontrado "a pessoa certa para o lugar certo" - no caso, o Ministério de Minas e Energia. Mas ele não ficará propriamente zangado se o eleitor desprevenido entender que se trata do Palácio do Planalto. Até o final da maratona, em 30 de setembro, haverá muito mais do mesmo espetáculo em que tocará ao presidente o papel de fiador das virtudes de quem jamais disputou um voto e que só graças a ele lidera as pesquisas eleitorais.

Só que Lula é um artista tão consumado que consegue exercer esse papel de mais de uma maneira e em mais de uma circunstância. Há o Lula que prega o voto em Dilma como o seu avalista, e há o Lula que prega o voto em Dilma como vigia de seu eventual governo. Uma coisa e outra, naturalmente, para neutralizar as acusações da oposição. No dia da estreia da temporada na TV, em visita a Petrolina e Salgueiro, em Pernambuco, o presidente falou, primeiro, como se candidato fosse e, depois, como o "presidente-sombra" de Dilma que pretenderia vir a ser.

"A palavra não é governar. A palavra é cuidar. Eu quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo", discursou para uma plateia de operários em um canteiro de obras da Ferrovia Transnordestina, em Salgueiro, "como uma mãe cuida do seu filho", numa alusão oblíqua a Dilma, cujo nome não pronunciou, para ela ficar sabendo que a mãe é ele e não ela. Logo adiante, citando o slogan de Obama "nós podemos", reiterou sua disposição de continuar: "Não apenas podemos, como gostamos e queremos continuar governando este país." Como fará isso explicou em Petrolina, onde visitou a Universidade Federal do Vale do São Francisco.

O mesmo Lula que mais de uma vez prometera "ir para casa" quando terminar o mandato e "não dar palpite na vida de quem está governando", agora avisa que está disputando seu terceiro mandato. Transformar-se-á numa "casca de ferida" para fazer a reforma política, além de se empenhar pela criação do marco regulatório do meio ambiente. Isso, de um lado. De outro, continuará a percorrer o País para ver no que deu o seu governo. "E, se tiver alguma coisa errada", advertiu, "vou pegar o telefone e ligar para minha presidenta e dizer "pode fazer, minha filha (sic), porque eu não consegui.""
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Manchetes do dia

Quinta-feira, 19 / 08 / 2010

Folha de São Paulo
"Serra parte para o ataque"

Presidente 40: Eleições 2010: Tucano acusa Dilma de "mentir" e a chama de "ingrata"; petista critica gestão FHC

O primeiro debate presidencial Folha/UOL com transmissão ao vivo pela internet marcou mudanças de tom da campanha eleitoral e introduziu o enfrentamento mais direto entre os dois principais adversários. José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) trocaram insultos e farpas nas quase três horas de embate. O tucano, oito pontos atrás da petista na mais recente pesquisa Datafolha, foi mais agressivo. Acusou a rival de "mentir" e a chamou de "ingrata". A petista revidou com ataques à gestão FHC. Em terceiro lugar, Marina Silva (PV) poupou Dilma e concentrou suas críticas em Serra, numa clara inflexão de sua estratégia até então. O clima no Tuca, teatro onde se realizou o debate, foi quente. Na plateia, aliados dos candidatos puxaram aplausos e reações aos adversários. Fora, houve protestos de estudantes, grevistas e gays.

O Estado de São Paulo
"Conselho de Justiça amplia benefícios para juízes federais"

CNJ decide que magistrados podem vender férias e ter licença- prêmio, como faz o Ministério Público

O Conselho Nacional de Justiça decidiu, por 10 votos a 5, que os magistrados federais devem ter as mesmas vantagens dadas a integrantes do Ministério Público Federal. Desse modo, os juizes, que já gozam de dois meses de férias por ano, poderão vender 20 dias, Outros benefícios incluem auxílio-alimentação, licença-prêmio e licença sem remuneração para tratar de assuntos particulares, Para a Associação dos Juízes Federais do Brasil, autora do pedido julgado pelo CNJ e que classificou a decisão de “histórica", a simetria entre as carreiras está prevista na Constituição. No Supremo Tribunal Federal, porém, há uma súmula segundo a qual o Judiciário não tem função legislativa e não pode elevar vencimentos de servidores sob fundamento de isonomia.

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quarta-feira, agosto 18, 2010

Acontece em Ubatuba

Elite generosa

O terno de R$ 500 mil

Eike Batista arremata em leilão roupa da posse de Lula

De O Globo
Teve até um lance inicial, de R$ 100 mil, mas bastou o empresário Eike Batista levantar o braço para arrematar por R$ 500 mil o terno usado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia de sua primeira posse, em janeiro de 2003.

O primeiro a tentar levar a peça foi o empresário José Carlos Semenzatto, mas o lance cinco vezes maior de Eike não deu margem a outra tentativa.

A disputa foi no leilão beneficente promovido na noite de segunda-feira pelo cabeleireiro Wanderley Nunes, que atende a primeira-dama, dona Marisa. O dinheiro irá para o programa Escola do Povo, dirigido por uma ONG na favela de Paraisópolis.

O terno usado pelo presidente não estava em exposição, e Eike só o receberá quando liberado pelo Palácio do Planalto.

O leilão, que teve a presença da própria Marisa, ainda incluiu um capacete do piloto Emerson Fittipaldi, uma camiseta autografada por Pelé, um boné do vocalista do U2, Bono Vox, e roupas de estilistas brasileiros, com uma arrecadação final de R$ 2 milhões.

Antes de leiloar a última peça, os organizadores tiveram uma surpersa: Eike ofereceu mais R$ 2 milhões para a ONG, que promove a alfabetização da comunidade.

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Brasil

Chavismo tupiniquim

Trechos da coluna de Cesar Maia na Folha de SP/sábado 14
1. O populismo autoritário na América Latina tem como expressão maior o presidente Chávez da Venezuela. Seu discípulo mais obediente é o presidente Morales da Bolívia. Em outros países inscritos na rede -dita- bolivariana, o Poder Legislativo procura reagir e evitar que a democracia seja totalmente pisoteada. O Brasil é um caso perigosamente intermediário. As tentativas sub-reptícias quando descobertas produzem recuos cínicos do tipo "não era essa a intenção", "não havia lido".

2. São quatro os vetores onde se testa a blindagem da sociedade e do Congresso. O primeiro trata de valores, quanto à vida, a família e as drogas, surpreendidos num tal Plano Nacional de Direitos Humanos. O segundo aponta contra a liberdade de imprensa. O terceiro se direciona às instituições políticas, e a proposta de uma constituinte exclusiva para a reforma política é o caso mais flagrante.

3. O quarto é o mais comum. O presidente atropela o Congresso Nacional assinando tratados, convênios e contratos internacionais. Na semana passada ele declarou que havia assinado, em sua passagem de horas por Caracas a caminho de Bogotá, 28 acordos de cooperação em diversas áreas. Um mês antes assinou com Cuba linhas de crédito de US$ 1 bilhão. Um pouco mais atrás avançou com Bolívia e Paraguai revisões dos contratos do gás e Itaipu. Tem perdoado dividas a bel-prazer e justifica pela pobreza dos países beneficiados.

4. Não se trata de mérito, mas de restrições constitucionais que não dão ao presidente liberdade para decidir sem aprovação do Congresso. Se o Senado for ao STF questionar invasão de competência, esses acordos se tornam inválidos. A Constituição diz em seu artigo 49: "É da competência exclusiva do Congresso Nacional: I - resolver definitivamente sobre tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional". Em seu artigo 52, ela diz: "Compete privativamente ao Senado Federal: (...) IV- designar os embaixadores. V - autorizar operações externas de natureza financeira, de interesse da União, dos Estados (...) e dos municípios".

5. A bem da verdade, o Senado tem sido omisso. Nas sabatinas com embaixadores, estes têm o tempo de cinco minutos para suas exposições e o rito de escolha é sumário. Não é sem razão que outro dia o presidente afirmou que para ele um senador vale três governadores. Assim explicou os acordos que reduziram à metade os candidatos de seu partido a governador, em relação a 2006.

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Opinião

Um plano em execução

Editorial do Estadão
O caos nos principais aeroportos brasileiros registrado no início do mês, por causa da mudança do sistema de escala das tripulações da Gol, bem como o ocorrido no fim do ano passado, em decorrência da adoção de um novo sistema de check-in pela TAM, deixaram claras a incompetência operacional da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e sua incapacidade de evitar colapsos como o ocorrido.

Mas a Anac é apenas um exemplo de como, por meio de asfixia financeira, de nomeações de dirigentes sem as qualificações técnicas necessárias para exercer o cargo e até de redução de responsabilidades, o governo Lula vem esvaziando as agências reguladoras, na execução daquilo que tem todas as características de um plano preconcebido.

Agências imunes aos interesses políticos do governo são incompatíveis com a política petista de açambarcamento do Estado Nacional. Por isso, desde o início deste governo, boa parte das verbas orçamentárias das agências vem sendo retida pelo Tesouro Nacional, a pretexto de assegurar o cumprimento das metas de superávit fiscal. No ano passado - como mostrou o Estado na segunda-feira, em reportagem de Renée Pereira - o contingenciamento dessas verbas atingiu um nível recorde.

Deixaram de ser repassados às agências nada menos do que 85,7% das receitas totais a que elas tinham direito, o que tornou impossível a realização de serviços essenciais, especialmente os de fiscalização. Esse número foi levantado pela Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), com base em dados do Tesouro Nacional.

Criadas para regular e fiscalizar a prestação de serviços públicos por empresas privadas ou estatais, as agências são órgãos do Estado brasileiro, que não deveriam estar subordinados ao governo. Por isso, não estão vinculadas à estrutura dos Ministérios e, assim, não deviam receber ordens do presidente da República, de ministros ou de outros funcionários do Executivo. Para exercer sua função, devem dispor de autonomia financeira, administrativa e operacional, além de amplos poderes de fiscalização e de liberdade para impor sanções.

Mas, com o contingenciamento das suas verbas, o Executivo limita drasticamente a sua capacidade de atuação. Em 2009, por exemplo, a Anac só dispôs de R$ 20 milhões para garantir a operação da aviação civil de acordo com os padrões internacionais de qualidade e segurança. Em 2010, foram autorizados para essa função R$ 34 milhões, mas R$ 10 milhões foram contingenciados.
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Manchetes do dia

Quarta-feira, 18 / 08 / 2010

Folha de São Paulo
"Lula diz que terá papel ativo se Dilma vencer"

Presidente muda o discurso e afirma pela 1ª vez que dará palpite no governo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, pela primeira vez, que terá papel ativo em eventual governo de sua candidata, Dilma Rousseff (PT), chamada por ele de "minha presidenta". Em agendas no Nordeste, o presidente disse que viajará por todo o país e vai dar palpites. "Vou ligar e dizer 'olha, tem uma coisa errada. Pode fazer, minha filha, que eu não consegui fazer'." Até então, Lula declarava que sua melhor contribuição ao deixar o cargo seria não se envolver no governo. Mais tarde, discursou como se disputasse a própria sucessão, sem citar Dilma. À noite, o presidente participou do horário eleitoral ao lado da candidata. Em depoimento gravado, dividiu realizações de governo e elogiou seu desempenho no ministério.

O Estado de São Paulo
"PT e PSDB exploram imagem de Lula na propaganda da TV"

Com 78% de aprovação, presidente aparece tanto no programa de Dilma quanto no de Serra no primeiro dia

O presidente Lula - cujo governo é bem avaliado por 78% dos eleitores, segundo a última pesquisa Ibope - foi a grande estrela do primeiro dia da propaganda eleitoral. A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, usou três depoimentos dele. De forma indireta, Lula também esteve no programa do tucano José Serra, citado até mesmo no jingle de encerramento. Além do conteúdo, a propaganda de PT e PSDB também foi semelhante na forma. Ambos exploraram a biografia dos candidatos, intercalando depoimentos emocionados. A propaganda de Serra lembrou a fórmula adotada pela campanha vitoriosa de Gilberto Kassab à Prefeitura de São Paulo em 2008. A de Dilma resgatou o tom "Lulinha paz e amor", marca da corrida eleitoral de 2002.

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terça-feira, agosto 17, 2010

Tainhas no varal, espiando...

Deu em O Globo

Voo alto

Miriam Leitão
O mercado brasileiro de transporte aéreo de passageiros cresceu 59% de 2003 para 2008, enquanto o mercado mundial cresceu 35%. No ano passado, cresceu 13%, enquanto o mundo encolheu 2,6%. Isso torna o mercado brasileiro atraente para as empresas em geral. Hoje, a lei impede estrangeiros com mais de 20% das empresas, mas a imprensa internacional está contando que a LAN comprou a TAM.

É uma forma desatualizada de nacionalismo. Por que os brasileiros se sentiriam mais atendidos em seus brios patrióticos apenas pelo fato de a família Amaro e a família Constantino serem as donas da aviação brasileira? O Senado já aprovou uma ampliação de 20% para 49% na participação de capital estrangeiro em empresas aéreas. Foi para a Câmara, está sendo votado com mudanças, portanto, tem que voltar ao Senado. A expectativa é que até o fim do ano esteja aprovado.

O problema é que pelo que conta, por exemplo, a “Business Week”, a LAN pagou US$ 3,7 bi pela TAM, e seus acionistas vão ficar com 70% da empresa. Aqui, a notícia foi dada de forma nebulosa, porque ao mesmo tempo em que se diz que os acionistas da LAN ficarão com 71%, se diz que a empresa não foi comprada, que a gestão será compartilhada e que a LAN ficará com 20% da empresa. Ou seja, os números são deliberadamente confusos.

Muito provavelmente a operação será apresentada de forma mascarada para a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), quando chegar lá, porque a lei brasileira ainda limita em 20%.

O que se diz no mercado é que a operação foi feita na expectativa de que o Congresso altere a lei. Algumas empresas tem mostrado interesse em vir para o Brasil, como a Ryanair, uma operadora de baixo custo, e a Virgin. A própria LAN vem tentando entrar no país há tempos.

O Brasil é atraente por ser um dos poucos países do mundo de dimensões continentais, além disso tem crescido muito, e tem perspectiva de continuar crescendo.

O país está atrasado no conceito de organização do mercado de aviação e tem aeroportos que estrangulam o crescimento.

No último dado em que há estatística para a comparação mundial, o ano de 2007, o Brasil era o nono mercado de aviação pelo número de embarques e desembarques, segundo o “World Airport Traffic Report”, do Conselho Internacional de Aeroportos.

Houve naquele ano, 120,4 milhões de embarques e desembarques de passageiros no Brasil; isso é mais do que o triplo do que a África do Sul está tendo em 2010, que é 37 milhões. O oitavo maior mercado é a Itália, mas a aposta dos especialistas é que com o crescimento dos últimos dois anos o Brasil já ultrapassou a Itália. Até 2014, o Brasil deve ter 170 milhões de embarques e desembarques.

Há muita discussão a respeito de o Brasil estar ou não preparado para o aumento do tráfego aéreo de passageiros na Copa do Mundo. Mas a dificuldade não é a Copa. Ela vai acrescentar apenas 3,5% do volume do mercado. Aumentará apenas seis milhões de embarques e desembarques.

O que o Brasil precisa se preparar é para atender ao seu próprio crescimento.

Ontem, a Fitch colocou sob perspectiva negativa o rating da LAN, e sob perspectiva positiva o rating da TAM. Isso aconteceu porque o endividamento da companhia brasileira é quase três vezes maior que o da empresa chilena: US$ 10,8 bi contra US$ 3,7 bi em junho deste ano.

Com o operação, a LAN estará, na prática, absorvendo parte da dívida da TAM. A analista do setor de aviação da SLW corretora, Rosângela Ribeiro, explica que 87% do endividamento do TAM é em moeda estrangeira.

- A TAM teve prejuízo de US$ 120 milhões no primeiro semestre e isso aconteceu não por causa das operações da companhia, mas por causa de resultados financeiros.

Cerca de 87% do endividamento da TAM é em dólar. Agora, com a entrada da LAN, a companhia chilena vai absorver parte da dívida - explicou.

O analista-chefe da Modal Asset, Eduardo Roche, diz que ainda é difícil classificar a operação que uniu as duas empresas: - Falar em aquisição não dá, até porque a legislação não permite. Além disso, há uma divisão de poder com certo equilíbrio na nova divisão societária. É difícil de falar em aquisição disfarçada - afirmou.

Vários outros analistas acham que sim, que é uma compra disfarçada, feita na expectativa de que a lei vai mudar até o momento em que a operação tiver que ser enviada à Anac para ser aprovada.


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Ramalhete de "Causos"

A vitória foi dos peitos

José Ronaldo dos Santos
Eu tive um avô de pouca instrução, mas com muita sabedoria. Era José Almiro, da praia da Fortaleza. Apesar de ter falecido há um bom tempo, de vez em quando é inevitável deixar de citá-lo. Suas frases sempre eram certeiras, diziam até coisas que ainda não entendíamos. Hoje eu digo que ele era um pensador, mas daqueles muito reservados, que somente entre os familiares dava os ares da graça. Porém, foi dele que nós (filhos, netos etc.) aprendemos muito “de profano e de sagrado”. Sempre gostei de pescar com ele; eram os melhores momentos, quando contava coisas incríveis. Certa vez, por exemplo, enquanto curricávamos depois da Lage Grande, no alinhamento de fora entre as ilhas do Mar Virado e Anchieta, de onde, num entardecer maravilhoso, enxergávamos perfeitamente a Ilha da Vitória, o vovô veio com algo muito interessante. Foi mais ou menos assim:

“Aquela é a Ilha da Vitória, menino. Ainda mora bastante gente naquele lugar, mas muita gente já se baldeou para o continente. Foi lá que, recentemente, por volta de 1960, o meu primo Mané Marreta, depois de se tornar protestante, daquela igreja cinzenta do Lázaro, decidiu propagar os princípios da nova crença. Foi remando com mais um companheiro, o seu cunhado Bertolino. Uma linda Bíblia, devidamente embrulhada, seguiu junto num balaio de timbopeva ainda virgem. Chegando lá, depois de puxar a canoa no trapiche, subiu morro acima tirando o chapéu a todos. No alto do morro, onde até hoje ficam as casas dos ilhéus, ele arriou o balaio, desembrulhou o estranho objeto para aquele lugar, onde nunca alguém sequer tinha ouvido falar de livro. Demorou um pouco, mas explicou bem sobre o motivo que o levara ali. Logo estava na pregação propriamente dita: falou do dilúvio, do primeiro homem, da Eva e da tentação. Neste ensinamento acerca das tentações ele se demorou mais. Acho que era porque as mulheres, em todas as épocas, continuam sendo tentadoras, principalmente naquele lugar isolado, onde nem sutiã elas conheciam. Só sei dizer, menino, que o Mané não aguentou continuar pregando as boas-novas e olhando a tais volumes tentadores. Voltou rapidamente para o seu lugar, na Praia Brava. Depois de um período se martirizando pelas tentações peitudas enfrentadas com pouco sucesso, ele tomou uma decisão: foi até a cidade, comprou um monte de sutiãs, embarcou novamente para a Ilha da Vitória, mas desta vez sua mulher, a Maria, foi levada junto. O trabalho dela era secundário na tarefa missionária, mas muito importante naquele momento. Logo estava entre as mulheres com as estranhas peças. Ela ensinou...ensinou...ensinou...porém, as ilhoas se embaraçavam todas, achavam complicado as manobras, além de incomodar muito e de tirar a liberdade. Desistiram da tal moda; a Maria também entregou os pontos. Para encurtar esta prosa, menino, só sei que o meu primo desistiu de evangelizar a ilha. Foi vencido pela tentação (ou tetação?) mamária. Até hoje ele se lamenta pelo ocorrido. Eu desconfio que, naquela época, a fé dele ainda estava muito fraca”. Eu completei: -Ou é ele que está menos macho hoje? O vovô riu, balançando a cabeça afirmativamente.

Depois do causo, concluí sobre o nosso lugar: A- No início tudo era permitido; b- Depois veio a religião católica; B- Mais tarde vieram outras religiões; C- As tentações principais – aos homens - continuam vindo das mulheres. Isto prova que o nosso lado instintivo, original, ainda não foi domado totalmente pelas instituições que buscam enquadrar-nos em moldes, em padrões morais castradores.

Sugestão de leitura: A religião dos Tupinambás, de Alfred Métraux.

Boa leitura!

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Opinião

Quem mais ainda é de esquerda?

Alexandre Barros - O Estado de S.Paulo
A esquerda completou 200 anos. Começou na Revolução Francesa. Eram os antimonarquistas que, na Assembleia dos Estados Gerais, se sentavam do lado esquerdo. Desde então, a esquerda foi mudando sutilmente de sentido, mantendo a ideia geral de que esquerda eram os favoráveis ao povo e contra os privilégios.

O progresso tecnológico que tomou impulso ali por 1850 e a Revolução Soviética de 1917 mudaram o mundo, mas, por inércia, perpetuou-se a ideia de que esquerda seria tudo o que era pró-povo. Era uma distorção, mas as desigualdades mantinham o conceito vivo, já apoiado na bengala.

A partir de 1950 o consumo de massa deu os primeiros passos, com o fim da 2.ª Guerra Mundial e a aceleração do crescimento nos Estados Unidos, na Europa do Plano Marshall e no Japão. A tomada do poder pelos comunistas de Mao Tsé-tung, na China, e a guerra fria engessaram o conceito, mas nessa altura ele já andava de muletas, e não mais de bengala.

A política brasileira manteve, entretanto, uma característica curiosa, herdada, talvez, do populismo getulista. Todos queriam ser a favor do povo e, encabulados, definiam-se como "meio de esquerda". As ditaduras latino-americanas iniciadas nas décadas de 1960 e 1970 ajudavam. No Brasil, ser de esquerda era ser contra a ditadura, e aí o conceito parou. Velhos políticos, como os nossos principais candidatos presidenciais, formaram-se nessa época e congelaram o conceito em sua cabeça.

O País passou por muita coisa e mudou, principalmente a demografia. O Brasil de 2010 tem mais que o triplo da população da década de 1950. E esse crescimento acelerou-se até 1980, quando as mulheres brasileiras chegaram à conclusão de que não era mais vantagem ter tantos filhos, apesar do que achavam igrejas, militares e governos, que nada faziam para reduzir o ritmo de crescimento da população.

Os 66% da população brasileira nascidos a partir dos anos 50 já pegaram o conceito de esquerda à morte. O crescimento econômico acelerado incorporava cada vez mais pessoas à sociedade de consumo, por mais básico que fosse esse consumo.

A mídia de massa mostrava às pessoas como viviam a classe média e os ricos. E todos queriam ser ricos. A esquerda não era o caminho. Quando Ronald Reagan disse a Mikhail Gorbachev, em Berlim, "sr. Gorbachev, derrube esse muro", o Muro finalmente caiu em 9 de novembro de1989. Aí o conceito de esquerda perdeu qualquer significado, inclusive no Brasil.

Curiosamente, ainda em 2010 os dois candidatos à Presidência da República mais bem colocados nas pesquisas, formados politicamente que foram durante o regime militar, continuam com a dicotomia maniqueísta. Parecem não perceber que o Brasil e o mundo mudaram.

Fernando Henrique Cardoso, que, alegadamente, teria dito "esqueçam tudo o que eu escrevi", libertou-se das algemas. Lula só era "de esquerda" porque seus opositores assim o definiam. Ele estava fora da ideia de esquerda dos tempos da guerra fria. No dizer de um general importante do período 1964-1990, Lula sempre foi do sistema, isto é, ele lutou com as armas políticas aceitas e possíveis do fim do regime militar. Marina Silva é outra que não se encaixava nisso. Estava lutando pela sua floresta e era mais verde do que o azul ou o vermelho da guerra fria.

Mas os dois candidatos majoritários nas pesquisas seguem atraídos por conceitos que não fazem mais sentido. Em sua retórica de campanha batalham para responder à pergunta que o eleitorado não está fazendo: quem é mais de esquerda?

A candidata Dilma Rousseff (PT) - que num esquema tradicional seria chamada "de esquerda" -, curiosamente, porém, busca se afastar um pouco do conceito oco, enquanto o candidato José Serra (PSDB) se apega a ele, tentando convencer o eleitorado de que é mais "de esquerda" que sua principal concorrente.

Enquanto isso, em outros pontos do universo político, Aldo Rebelo, do PCdoB (SP), apoia e promove um projeto de lei para desengessar as regulamentações ambientais e facilitar o crescimento do moderno agronegócio brasileiro, e outros projetos essenciais para o enriquecimento. Uma postura totalmente inesperada para os que ainda se apegam aos conceitos anacrônicos de esquerda e direita. Eduardo Campos, do PSB, governador de Pernambuco, neto de Miguel Arraes, livrou-se da prisão conceitual e faz um governo tão livre quanto possível da dicotomia ultrapassada. Sérgio Cabral (PMDB), no Rio de Janeiro, filho de um comunista histórico, possivelmente ganhará em primeiro turno tentando ser um governador moderno.
Em São Paulo, o presidenciável José Serra, que insiste em se dizer de esquerda, quase não fala com o candidato a governador pelo PSDB, que faz questão de não ter nada que ver com esquerda ou direita, tendo chegado a ser apelidado de "picolé de chuchu", numa analogia com o que de mais insosso pode existir em gastronomia.

Quando será que os candidatos a presidente vão acordar e perceber o que o povo brasileiro já aprendeu: que a esquerda e a direita ficaram ocas? Elas não querem dizer mais nada. Com inflação baixa, crédito abundante e produtos para consumir, os eleitores de hoje são conservadores em relação a manter o que conquistaram ou ganharam nos últimos três governos - Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula.
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Manchetes do dia

Terça-feira, 17 / 08 / 2010

Folha de São Paulo
"Planos de saúde pagam só 2% das multas originais"

Autuações de R$ 773 milhões caem para R$ 70 milhões após recursos, mas só R$ 15 milhões são pagos entre 2005 e 2009

A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), responsável pelos planos de saúde, não recebe as multas aplicadas contra empresas punidas por irregularidades, como negar cirurgias ou aumentar de forma abusiva as mensalidades. De 2005 a 2009, as autuações feitas pela agência somaram R$ 773 milhões. As seguradoras entraram com recursos na própria ANS e conseguiram reduzir o valor para R$ 70 milhões. Até agora, porém, foram pagos apenas R$ 15 milhões (2%). De acordo com especialistas do setor, o recuo no valor das multas provoca sensação de impunidade das empresas, que preferem esperar pela anulação ou o adiamento da punição. A ANS não revelou as companhias mais autuadas.

O Estado de São Paulo
"Aumenta chance de Dilma vencer no 1º turno, diz Ibope"

Petista chega a 43% das intenções de voto, contra 41% dos adversários somados; Serra só lidera no Sul

A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, entra no horário eleitoral pela TV com 11 pontos de vantagem sobre o tucano José Serra. Com 43% das intenções de voto, ela poderia vencer no primeiro turno se a eleição fosse realizada hoje, segundo pesquisa do Ibope encomendada pelo Estado e pela TV Globo. Serra tem 32%, e Marina Silva (PV), 8%. Juntos, outros candidatos chegam a 1%. Ou seja, a petista (43%) e os adversários somados (41%) estão empatados dentro da margem de erro, de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos. A pesquisa, concluída às vésperas do início do horário eleitoral, é a primeira a captar os efeitos das entrevistas do Jornal Nacional com os candidatos, entre 9 e 11 de agosto. No dia 5, data do levantamento anterior do Ibope, a petista tinha 39%, e o tucano, 34%. Dilma deve a liderança ao eleitorado mais pobre. Entre os que têm renda familiar de até um salário mínimo, a vantagem sobre Serra chega a 22 pontos (48% a 26%). Na divisão por regiões, Serra só se mantem à frente no Sul (44% a 35%).

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